31 agosto 2014

Baía dos Tigres: Morte no Deserto




 

Foto: Desde 1951,  a Aldeia do Leão passou a ser conhecida pela povoação de S. Martinho dos Tigres ou Vila de S. Martinho dos Tigres. Foto retirada do livro "Baia dos Tigres", de Cecilio Moreira.

Foto: A única estrada dos Tigres servia também de pista de aviação. Foto retirada do livro "Baia dos Tigres", de Cecilio Moreira.



Era assim a Baía dos Tigres às vésperas da Independência de Angola, em 1975. Um  pequeno conjunto de edifícios públicos alinhados  de ambos os lados de uma única estrada, que era também pista de aviação: uma imponente Capela que fazia lembrar uma catedral, o Posto Administrativo, a Estação Rádio Postal, a Alfândega, a Escola Primária, o Posto Sanitário, os Serviços Meteorológicos, a Delegação Marítima- a maioria dos quais assentes sobre pilares para deixar passar as areias impulsionadas pelos ventos fortes de sudoeste (a garôa), que tudo cobriam à sua passagem... Estes edifícios conferiam uma alta dignidade à povoação. A Capela servia de hangar ao próprio avião, protegendo-o contra os ventos fortes,  contra as areias e os fumos das chaminés das casas de habitação, a oeste da pista de aterragem. Estendendo-se a norte, algumas casas dispersas acompanhavam pescarias e seus giraus, para impedir que os ventos predominantes de SSO arrastassem os fumos sobre a povoação.


Desde 1951 a velha povoação do Leão passou a ser conhecida pela povoação de S. Martinho dos Tigres ou Vila de S. Martinho dos Tigres. A povoação começou a ter algum incremento ao nível de infra-estruturas a partir de meados do século XX, no tempo da governação do Governador Geral Agapito da Silva Carvalho, tendo participado no empreendimento o Engenheiro civil, Agostinho Ruqueso Marques Trindade, chefe da Brigada de Construções de Casas do Estado. Até aí as autoridades não pareciam muito seguras sobre se valia a pena investir na Baía dos Tigres...



 
 

Foto: Nos dias de ventos fortes era impossível a avioneta descolar... Em 1961, algum pequeno acidente ocorreu, na descolagem, como as fotos mostram..




Foi tardiamente que o Estado português resolveu dotar a Baía dos Tigres ao nível de  algumas infra-estruturas. (1)

Um dos grandes problemas da Baía dos Tigres era a ausência de vias de comunicação, facto que contribuía para o isolamento da população, para além de outras ausências como a água potável e de vegetação que constituíam um flagelo, a juntar à presença constante dos fustigantes ventos da garrôa, que faziam movimentar as areais soltas das dunas que tudo cobriam à sua passagem. O cacimbo era outra condicionante. A única razão de ser da Baía dos Tigres era a actividade piscatória, favorecida pela abundância de peixe, relacionada com a constante subida das águas das profundezas (upwelling), frias e muito ricas em plâncton, factor que se sobrepôs ao condicionalismo geral que impõe as maiores dificuldades à presença do homem.

Sem uma estrada que facilitasse o acesso à Baía dos Tigres, de início o recurso era a via marítima, primeiro através de embarcações, caíques e outras barcos à vela, que levavam e traziam pessoas, água e mantimentos, de Moçâmedes e de Porto Alexandre, mais tarde navios costeiros ou de longo curso, como eram o "Save" e o "28 de Maio", que começaram por fazer carreira pelo menos uma vez por mês, acontecendo que, quando alguém chegava à povoação, parecia gente vinda de outro mundo.   Mais tarde passaram a frequentar a Baía dos Tigres navios de guerra portugueses que, quando necessário iam ali, propositadamente, levar a água, enquanto o velho batelão, "Tejo" servia de depósito.

Viagens por terra chegaram a ser conseguidas por jeeps, em baixa mar, aproveitando a areia endurecida e molhada da maré, mas apenas espíritos ousados eram capazes de se meterem em tal aventura. Este texto colocado na net por um conterrâneo não identificado, mostra bem como era vivida essa aventura:

"São dunas e mais dunas, um mar de dunas até à baía dos Tigres. Um mar imenso a bombordo que abalroa de frente com a vastidão do deserto a estibordo numa toada que parece de choro sofrido e repetido. Umas vezes avança-se a patinhar na água e outras voando na crista das dunas. Com os pneus meio vazios cavalgamos o tempo numa luta insistente e teimosa contra as vagas de areia solta. Como um veleiro no mar alto a cavar ondas sem parança. Não vemos vivalma. Apenas um garajau tonto e desorientado, perdido da sua costumeira rota. E restos de velhos navios que o mar piedosamente sepultou na praia. A espuma deste oceano, soprada pelas ondas, adormece e morre na areia. Esta terra não foi feita nem para gente nem para bichos. Só o vento consegue viver aqui. E mesmo assim o seu queixume é constante e bastas vezes violento. Há quem diga que a denominação Baía dos Tigres se deve ao ruído enervante de fera molestada que o redemoinhar da areia provoca no cone superior das dunas. O sol sente desejos de beijar o dia. O cacimbo cerrado faz-lhe frente, mas o astro vence-o transbordando para além do horizonte o seu vermelho fogo de paixão. Deita então a cabeça no mar e espreguiça-se por sobre as dunas. Como que a querer reanimar este fim do mundo onde nem o mais triste e solitário dos tigres resistiria. "

Por volta de finais dos anos 1940, a Baía dos Tigres passou a beneficiar dos serviços prestados pela avioneta do "Aero Clube de Moçâmedes", a 1ª delegação do Aeroclube de Luanda que surgiu em Angola. Esta avioneta tinha sido adquirida por subscrição pública e tinha o nome da cidade. Ao Aero Clube de Moçâmedes, clube associativo sem fins lucrativos, ficou a população a dever, de entre outros serviços, um mais fácil contacto entre a população de Moçâmedes e a população das praias vizinhas, sobretudo Porto Alexandre e a Baía dos Tigres, que puderam beneficiar deste meio de transporte, rápido e eficaz, que servia também de correio, de início uma vez por mês, mais tarde duas vezes por semana. A subscrição pública foi até meados do século XX um último recurso com que as populações em Angola iam conseguindo suprir a ausência de apoios do Estado. Aliás, a tradição vinha já dos primeiros momentos da fundação de Moçâmedes, na medida em que a 2ª colónia de luso-brasileiros ida do Brasil, em 1850, foi através de subscrições públicas que conseguiu reunir o montante necessário para as despesas do transporte, e foi problemático a autorização para concessão de verbas, pelo parlamento português, para os colonos fundadores, em 1849.


Na década de 1960, as gentes da Baía dos Tigres passaram a ser servidas por monomotores “Bonanza”, da empresa de Táxis Aéreos do Sul de Angola, com sede na cidade capital do Distrito. (1) As carreiras eram efectuadas bissemanalmente, às terças e às sextas-feiras, e assim vinha acontecendo até que no fatídico dia 17 de Junho de 1967, uma sexta-feira, o “Bonanza” que descolara de Moçâmedes pelas nove e meia da manhã, com o piloto e quatro estudantes a bordo, fizera a escala habitual em Porto Alexandre para levar um importante passageiro, o Delegado de Saúde, que ali ia dar consulta, e deveria aterrar nos Tigres uma hora depois, não aterrou...

Estava-se em plena época de cacimbo, uma vez que de Maio a Setembro as regiões do Sul são assoladas por nevoeiro cerrado. O “tecto” baixo levava a que toda e qualquer perfuração efectuada pelo “Bonanza”, muito junto a terra, constituísse um perigo. As pistas eram improvisadas, como eram praticamente em todos os vôos locais em Angola. Não havia equipamentos que facilitassem a aproximação a terra em dias de fraca visibilidade, sequer os aviões possuíam a aparelhagem sofisticada dos nossos dias. Tudo dependia do piloto, do seu conhecimento do terreno, da sua perícia e da sua competência profissional. Restava a esperança de que o avião tivesse voado na direcção da foz do Cunene, a 55 km distância, para ali aterrar em segurança, ou então que tivesse aterrado numa das planuras da zona semi-desértica. A verdade é que o “Bonanza” estava desaparecido. Nada se sabia dele, nem das seis pessoas que vinham a bordo.

Na manhã seguinte a imprensa e a Rádio deram grande relevo ao acontecimento. O constrangimento e a comoção eram gerais. O sentimento de solidariedade não se fez esperar. Os habitantes dos Tigres eram uma verdadeira família que repartia entre si alegrias e tristezas. Por toda a parte era notória a vontade de congregar esforços na busca do “Bonança”. O Governo Geral de Angola, o Comando Naval, a Força Aérea, a Organização Provincial de Voluntários e muitos particulares, todos se encontravam vivamente empenhados nas buscas, através de um sistema organizado e controlado por sistema de comunicação a nível distrital, centralizado numa das salas do Rádio Clube de Moçâmedes. Um avião da Força Aérea devidamente equipado para missões do género, ao qual se juntaram dois aviões do Estado pertencentes aos governos de Moçâmedes e da Huila, e ainda dois particulares, avançaram nas buscas efectuadas no deserto, enquanto traineiras batiam a costa desde a Ponta Albina até à zona dos Riscos, a norte da Grande Restinga. Também várias viaturas partiram tentando vencer os areais do deserto, algumas das quais tiveram que ser mais tarde socorridas.


Dificultava as buscas o intenso nevoeiro que teimava em se manter naquele deserto temeroso que ninguém podia de ânimo leve pensar vencer. Até porque os rodados da ida, aproveitando a baixa-mar, logo se apagavam quando do regresso. Terra maldita onde nada havia, não havia mecânicos, não havia peças sobressalentes, gasolina, sombra, água, alimentos. Terra do nada como diziam os Hotentotes, onde tudo podia acontecer aos incautos, incluso a mordedura de escorpiões venenosos. As iregularidades do terreno, as temperaturas difíceis de suportar, o vento Leste, os ventos fortes que fustigam o rosto, ferem o olhar, e modificam a paisagem, não permitem o caminhar de pessoas e viaturas, o que tornava a missão impossível até ao guia mais experiente. Eram grandes as diferenças térmicas entre o dia e a noite, durante o dia temperaturas escaldantes, pela noite abaixo de zero...

Foi então que na tardinha do dia seguinte os tripulantes de uma traineira que participavam nas buscas, entre os quais José Joaquim Firmino do Nascimento (mestre), vislumbraram ao longe um brilho de metal, na Zona de Riscos, na encosta de uma duna de grande altura. José Firmino com seus companheiros, subiram a pé ao cimo de uma duna em busca de uma maior ângulo de visão, e na duna ao lado puderam ver de entre restos ainda fumegantes do "Bonanza", os corpos carbonizados das vítimas, que foram dali retirados e levados para a praia, para em seguida de serem levados de traineira rumo à Baía dos Tigres, e dali, num avião da "TASA", para Moçâmedes. Do "Bonanza" apenas restaram as pontas das asas e da cauda.

Dado o alarme, os aviões facilmente localizaram o “Bonanza. Os depósitos de combustível copulados à cabine, e não nas asas, não permitiram quaisquer possibilidades de salvação. Ali encontraram a morte o piloto Carlos Alberto Teixeira, aos 28 anos de idade, o médico e delegado de saúde de Porto Alexandre, José Marques dos Carvalhos, aos 31 anos, e as jovens estudantes Carla Maria Marreiros Martins, Teresa Margarido, Conceição Maria Gonçalves de Carvalho, e Laurinda dos Santos Nascimento, de 14, 16, 12 e 14 anos, respectivamente. Pensa-se que o piloto tentara a perfuração de norte para sul, à entrada da baía, que tem 11 milhas de largura, e que fez um desvio ligeiro lateral que o levaria a bater na encosta de uma das dunas sobranceiras ao mar, que naquele local tem 180 metros de altura. O piloto Teixeira era muito estimado pela gentes dos Tigres. Era ele que lhes fazia chegar o médico e o padre, tão necessários à manutenção da saúde física e ao conforto espiritual de que careciam. Com ele ia também o medicamento e algum alimento, a complementar o que ali chegava juntamente com a água em navios, destinado aos tigrenses. Era ele que lhes levava os artigos indispensáveis à vida, os jornais a correspondência que lhes permitia estar a par de notícias sobre o que ia acontecendo longe dali, etc. etc. Eram as encomendas essenciais a quem vive isolado. As noticias que iam dando forças àquela gente para ali se manter na luta sem tréguas contra os elementos da natureza, pelo pão de cada dia, seduzidos e estimulados unicamente pela fartura piscícola daquele pródigo mar.



 

O piloto Carlos Teixeira que morreu no fatídico desastre



 


As quatro jovens estudantes, na flor da vida, vinham passar as férias escolares junto de seus pais e amigos que ansiosamente as aguardavam. Nos Tigres, a ansiedade e o pânico tomaram conta da estrita população, as horas iam passando, e o “Bonanza” não aparecia. Receava-se o pior. Quando a noite chegou, consumidas estavam já todas as esperanças de um reencontro. Algo de pior teria acontecido!



Recorte de jornal sobre o desastre sobre a queda da avionete "Bonanza"



O médico José Marques era também muito estimado pelos cuidados de saúde que dispensava à população. O desespero das famílias foi tal que Hilário Margarido, o pai de Teresa Margarido, tresloucado pelo sofrimento, partiu para o Deserto, a pé, munido de um garrafão de água, em busca da sua menina. A filha era a única pessoa de família que tinha por companhia, nas quatro paredes do lar, naquela aldeia onde a solidão era esmagadora. Teresa era a luz de seus olhos, o ser que restava de um casamento menos feliz. Oito angolanos pertencentes ao pessoal da traineira fizeram questão de o acompanhar. Caminharam pelo deserto fora durante 36 horas, na busca do “Bonanza”, até que perdidos e dispersos entre altas e escaldantes dunas, com os pés em sangue, e já sem água nem alimentos, foram localizados pelo avião militar incluido nas buscas, que lhes lançou uma mensagem comunicando que os tinham localizado em cima da zona de Riscos, na direcção do farol da Ilha dos Tigres, e que iam avisar para que “jeeps” de Porto Alexandre os fosse buscar. Pediram-lhes que se aproximassem mais da praia, da qual se encontravam afastados. Hilário Margarido já não teve forças para sair do local onde tombou, entre a vida e a morte. Foi recolhido por uma equipa de jornalismo da revista "Noticias" de Luanda, que cobriu a reportagem no deserto, sendo os restantes companheiros recolhidos por outras viaturas, excepto dois deles que caminharam na direcção do farol da Ponta Albina.

Os funerais realizaram-se em Moçâmedes para o Cemitério da cidade. Os pais do piloto, residentes em Porto Amboim, deslocaram-se a Moçâmedes para o funeral, onde se incorporaram muitos residentes. Foram suspensas as várias competições desportivas que estavam marcadas para a data.




 




Não tenho muito a avançar sobre a Empresa que disponibilizou o malfadado "Bonanza" que acabou no dia 17 de Junho de 1967, de maneira tão trágica. Tenho a ideia que pertencia a Fernando Rodrigues Ferreira, pessoa de iniciativa e valor, estimada em Moçâmedes, que depois de ter adquirido o brevet, resolveu trabalhar por conta própria, juntou-se a um sócio (Martins?), criou a sua empresa que segundo informações se desenvolveu e expandiu para Luanda, introduzindo a aviação particular regional em Angola, que muito ajudou, pela fluidez das ligações, a aproximação entre os povos, e o desenvolvimento das regiões de difícil acesso. Fernando Rodrigues Ferreira era um ex-camionista que fora empregado de Maurício Brazão, proprietário de uma loja em Moçâmedes, junto da Praça de Táxis.


Fica mais este relato para memória futura.

autoria de  MariaNJardim / Maria Nídia Jardim


 (1) Um projecto de construcção do caminho de ferro da Baia dos Tigres ao Humbe foi apresentado pela "Companhia de Mossâmedes" em 1899 janeiro 16 (Produção) .Parecer do Procurador Geral da Coroa e Fazenda, António Cândido Ribeiro da Costa. Pronuncia-se sobre o projeto de contrato a celebrar com "The Railway and Works Company Limited" para a construção de uma linha de caminho de ferro ligando Porto Alexandre (Baía dos Tigres) ao Humbe e com eventual prolongamento até à fronteira de Angola. https://arquivohistorico.ministeriopublico.pt/index.php/construccao-do-caminho-de-ferro-da-bahia-dos-tigres-ao-humbe-apresentada-pela-companhia-de-mossamedes#







Créditos de imagem: Fotos de Carlos Morais e do Livro "Baia dos Tigres", de Cecilio Moreira.

VIDEO

https://vimeo.com/116848532?fbclid=IwAR2VjWA8akBLjjauhS0i5C6yJOhdAeURygpv1pZTAiIhwJl2HKEEqDfJdls

18 agosto 2014

Baía dos Tigres e o drama da água



Fotos: S. Martinho dos Tigres. Vista aérea parcial. Do livro "Baía dos Tigres" de Cecilio Moreira. Como podemos ver, o povoamento na Baía dos Tigres foi efectuado em extensão, os edifícios foram construidos com espaço suficiente entre si, muitos dos quais (os oficiais), em forma de palafita para deixar passar as areias soltas das dunas que, trazidas pelos ventos fortes da "garrôa", tudo cobririam à sua passagem...

Baía dos Tigres no tempo colonial




O porto dos Tigres com navio junto da ponte


A Baía dos Tigres

Uma Capela que lembra uma catedral...

O Hospital em forma de palafita para evitar a acumulação das areias...



Maquete dos edificios da Baía dos Tigres



Vista da Baia dos Tigres a partir da parte continental...
 


  A Baía dos Tigres deixou de ser uma restinga, passou  a ser uma Ilha...

Povoação de S. Martinho dos Tigres
Ilha dos Tigres
Ilha dos Tigres,  após o rompimento do istmo. . Antes da ruptura do istmo  a Baia dos Tigres  possuía tal vastidão que era considerada a maior do mundo, Dizia.se no tempo colonial que podiam ali permanecer fundeados 6627 navios de grande tonelagem, o que talvez não suceda em outra parte do mundo.
As dunas do lado continental e a ponta do istmo...
Foto:A religiosidade sempre esteve presente entre as gentes dos Tigres, carente de protecção e amparo  do Divino para os homens do mar e suas familias. Envolvia a  missa domingueira, e em dias santos, benção do mar, procissões em terra e no mar . A Capela era a sentinela vigilante, guardadora  e protectora, no interior da qual nenhum mal lhes podia acontecer...







SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BAÍA DOS TIGRES




O DRAMA DA ÁGUA NA BAÍA DOS TIGRES

Não é difícil adivinhar que a vida na Baía dos Tigres, mesmo nos últimos tempos da presença colonial, não era fácil, e quanto mais para trás no tempo, tanto pior. Falar dos algarvios pioneiros da colonização da Baía dos Tigres é falar, sem ponta de fantasia, de uma vida plena de sacrifícios, numa terra onde passavam anos que não chovia, onde não havia água potável, não havia frescos.  sequer um ponto verde no horizonte, nem lenha para cozinhar e para o aquecimento nas noites gélidas de Inverno, enfim, não havia nada, mesmo nada, apenas mar, areia, e na parte contimental dunas e mais dunas elevadas,  formadas pelo arrastar dos ventos na sua pela ferocidade constante, enfim, uma região inclemente, de isolamento e solidão!

Até ao abastecimento de água à Baía dos Tigres, através de um sistema de captação de águas a partir da Foz do Cunene,  apenas havia no lado continental duas cacimbas de onde se podia recolher alguma água salôbra, de péssima qualidade para a saúde humana. A população que ali se radicou era obrigada a poupar religiosamente a água que ia conseguindo, que de início era transportada em barris, em barcos de pesca de arrojada navegação à vela, a partir de Moçâmedes ou de Porto Alexandre (Coroca), muitos dos quais se perdiam durante o trajecto. Iam levar o peixe seco para venda, e faziam o aprovisionamento  de água e "rancho" que traziam de volta aos Tigres, para mais umas semanas. Assim ficou conhecido em Moçâmedes por "bairro da Aguada", a zona onde se compravam os víveres e se faziam os carregamentos de água, a "aguada".  E se a água que  ficava de reserva nos barris ou em outro recipiente se deteriorava, o que acontecia com frequência, era "posta a arejar", isto é, era posta ao ar durante umas horas, em seguida era fervida e filtrada através de uma "sanga",(1) para ficar arejada e fresca, pronta a ser consumida, ou pronta a durar como reserva por mais uns tempos.  Mas havia dias em que os ventos se intensificavam de tal sorte que navegar se tornava impossível, situação que se revestia de um certo dramatismo quando a água e os alimentos escasseavam por completo. Restava então aos residentes entreter a fome com pedaços de peixe, e  enganar a sede chupando chumbo.

A ideia de abastecimento de água aos Tigres a partir do Cunene não era nova. Aliás, começou a surgir em 1884, no ano do início da Conferência de Berlim (a célebre Conferência que determinou a  a partilha de África" pelas potências europeias industrializadas), com o capitão de fragata António Joaquim de Matos  a propôr que fosse averiguada essa possibilidade. Também Artur de Paiva, um dos mais eminentes oficiais da ocupação do Sul de Angola, já o havia aconselhado, em 1892.   Em 1909 a Baía dos Tigres passou a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água que era paga pela população a preços exorbitantes, muito além das suas possibilidades. 


No ano de 1912, já com a  República instaurada, o interesse na região levou à nomeação pelo Governador de Moçâmedes, do coronel de engenharia Carlos Roma Machado, comandante Correia da Silva (Paço de Arcos),  para se deslocar à Baía dos Tigres,  o que fez por três vezes para proceder a um estudo sobre o abastecimento de água  à povoação, a partir da foz rio Cunene, que ficava a uns 80 quilómetros a sul, atravessando o Deserto do Namibe (Boletim das Colónias 134 e 135). Para o efeito chegou a ser elaborado um ante-projecto, mas concluiu-se que o preço para a execução da obra não era compatível com as possibilidades da altura. No mesmo Boletim o coronel conta-nos a tentativa de suborno de que foi alvo por parte dos  alemães para que o projecto lhes fosse vendido por vinte mil escudos, uma pequena fortuna naquele tempo. O mesmo coronel de engenharia chamava atenção do Governo para as ambições dos vizinhos da Damaralândia que criticavam sempre o abandono em que se encontravam os pescadores dos Tigres. Tornara-se nítido o interesse e as intenções da Alemanha em relação à Baía dos Tigres, a necessidade daquela potência anexar  a região  Sul de Angola, e a Baía dos Tigres, ambas sob a soberania portuguesa.

Mas sigamos adiante com a problemática da água que aqui nos trás. Tentou-se também um aproveitamento da água do Tochiambala, rio por infiltração a norte da Baía dos Tigres, conduzindo-se a água até à cacimba do norte, no lado continental, ficando acessivel à população. Mas a água do Tochiambala era muito pouco superior à das cacimbas. Até à década de vinte, a situação não se tinha alterado na Grande Restinga. O habitante da Baía dos Tigres continuava a poupar religiosamente a água que vinha de Moçâmedes e a partir de determinada altura, a pagá-la a preços muito além das suas possibilidades. A água representava vida, não se podia perder uma gota sequer.

Até 1920, a situação manteve-se inalterável. Aliás, o Estado parecia sequer interessado na presença dos tigrenses ali, excepto por razões estratégicas, quando se aperceberam das intenções da Alemanha com relação aos Tigres. Os pescadores algarvios arrastavam-se já por mais de meio século por aquelas terras e mares sem nunca terem recebido a mínima ajuda estatal, apesar de lhes serem cobrados impostos pelos bens que comerciavam.



Sanga
Desenho de uma "sanga", por Carlos Janeiro (1)


No decurso do tempo, na tentativa de fornecer água à população, houve "soluções" intermédias, entre as quais a destilação da água do mar. Com a chegada de Norton de Matos a Angola, em 1921, a Província exultou de esperança num progresso que tardava a chegar, e os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas tomadas logo de início, Norton de Matos mandou instalar nos Tigres, no ano seguinte, um destilador de água do mar que produzia vinte e dois mil e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande abundância, mas já era uma boa ajuda para os pescadores do Deserto, e sem os pesados encargos da água que vinha de Moçâmedes e do  Curoca. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, era no entanto água que podia ser bebida, o que não acontecia com a intragável água salôbra das cacimbas do lado do continente, que os auxiliares de pesca africanos, considerados adaptados a esse estado de coisas, tiveram que beber muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs termo a essa desumana discriminação.

Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês . O atraso do "Save" chegava a tomar proporções catastróficas, porquanto o precioso líquido tinha que ser racionado, com ração diária de umas poucas canecas distribuídas, para não morrerem sede.

A respeito do "Save" e em face do compromisso assumido pela entidade compradora, passaremos a transcrever uma passagem interessante de um livro intoitulado "Menina do Deserto", de Manuela Cerqueira, nascida na aldeia do Leão que alí viveu sua infância, com seus pais. "Dia de Save, dia de Mãe-Água, dia de outro Mundo, dia de bom comer... Tinha vigilia, como as grandes festas, cheias de ritos de preparação: era a limpeza das praia, o embarque dos barris, a barrela dos soalhos, o banho suplementar, roupa saida das malas... (quem não vestia o melhor em dia de São Navio?). "


O dia do "Save" era pois um dia diferente para as gentes dos Tigres, que aguardavam de pé firme na praia pela sua chegada. O navio transportava afinal o precioso líquido de que necessitavam para viver, e trazia também mantimentos àquela gente isolada entre o mar e as dunas. Era também o contacto mensal com gente como que vinda de outro mundo, que lhes trazia correspondência e novidades. O "Save" foi cumprindo a sua  missão até aos anos 1940, tendo a partir daí o fornecimento de água passado a ser efectuado por outros navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar água.

Por esta altura a Baía dos Tigres já dispunha de um velho batelão, o "Tejo" que servia de depósito para onde a água era transbordada. Era ali que os interessados iam encher os barris que serviçais transportavam, rolando, para as suas habitações, onde a água permanecia nos mesmos, ou era mudada para recipientes apropriados. Um consumo doseado até novo fornecimento. Não se podia perder uma gota sequer.

Mesmo  com a visita mensal do "Save" o velho destilador de Norton de Matos, já desgastado e cheio de intermitência  ocasionais, pela falta de lenha ou avaria, lá foi funcionando até 1935, acudindo aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a  fazer, ou se atrasava no trajecto, por qualquer motivo. Como recordação do destilador  ficou uma forja e vários ferros que tinham sido utilizados na purificação da água nesses tempos.

A partir dos anos 1950 antevia-se já o abastecimento definitivo de água à povoação, vinda da foz do Cunene. O sonho das gentes da Baía dos Tigres estava prestes a tornar-se realidade. Com a entrada nessa década, o governo português acabou por se render à audácia daquela gente abnegada e disposta a todos os sacrifícios, a muito trabalho e a privações extremas, e mandou edificar os vários edifícios públicos, excelentes construções em firma de palafita, que ainda hoje podem ser vistas na ilha abandonada, às quais já fizemos alusão em outras abordagens, ajudando a  manter a fixação humana.
 


O abastecimento de água a partir da foz do Cunene chegou às torneiras das casas das famílias tigrenses e às instalações das suas pescarias nesse malogrado ano de 1962. Finalmente a população já podiam beber uma água de superior qualidade, já podia lavar a sua roupa com outras condições, já podia tomar o seu banho mais à vontade, e mais à vontade dar o banho aos seus filhos. Uma felicidade!

Tinha passado  o período do  regime experimental  que durara até Março de 1961,  e a empresa responsável tinha feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola. Mas a água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas no ano de 1962! Quis o cruel destino, mais uma vez, castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes  da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida. Nesse ano um fenómeno natural, que se concluiu ser cíclico, provocou a ruptura do istmo da restinga,   no ponto em que  ligava a restinga ao Continente, destruindo naquele ponto a conduta de fibrocimento que conduzia a água através do Deserto, daí resultando o corte do fornecimento de água canalizada para as habitações,  vinda do Cunene, à população.   Ou seja, a água continuava a chegar através do Deserto em boas condições, mas não chegava às torneiras das habitações, porque a Baía dos Tigres tinha deixado de ser uma restinga, e passou  a ser uma Ilha! Após esta calamidade, a autoridade, levada a agir de imediato,  viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao Continente, para o encher de água que era bombeada para os depósitos existentes, e distribuida à população, segundo as normas habituais.  Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.  Apenas se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos. A situação facilitava o racionamento, que passou a acontecer, mas já sem a necessidade das antigas restrições.

Quando em 1975 a população da Baía dos Tigres, ou melhor população da ilha de S. Martinho dos Tigres teve que abandonar a sua Ilha, em vésperas da independência de Angola, ante o fogo cruzado dos movimentos de libertação, em ambiente de total anarquia, a situação não se tinha alterado no respeitante ao fornecimento de água após o acontecimento de 1962, mas o projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e  tinha levado ao aumento da população.
Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”,  logo se depara com um conjunto de edificações que, apesar de abandonadas, persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação,  símbolo do quanto pode a abnegação e a resistência humanas. 

Esta é uma boa parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.

Ficam mais estas recordações. 

Pesquisa e texto de MariaNJardim

 Bibliografia consultada:

- Moreira, Cecilio,  "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", Separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título
-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969
- Felner. Alfredo de Albuquerque, Angola, Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral Sul de Angola, vol 1 Lx, 1940


(1) Numa separata  do autor Cecilio Moreira, n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", encontrei o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) destinada a filtrar a água para beber, que existia em muitas casas no distrito de Moçâmedes.  A velha "sanga", que  conforme Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável.  Eram construidas por artistas canteiros do Distrito de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra  de forma de cubo ou de paralelipípedo, (pedra de filtro de Moçâmedes, feita de um arenito existente na região), que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida.  Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Era ao conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava,  que se dava o nome de "sanga". Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.  (2)



Créditos de Imagem: Algumas fotos a preto e branco são do livro de Cecílio Moreira "Baia dos Tigres" que me foi oferecido pela sua filha Maria Olimpia.

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Seguem algumas fotos do estado actual em que se encontra a Baía dos Tigres, Mesmo para as pessoas menos impressionáveis, um dó de ver!