15 agosto 2014

A Baía dos Tigres e o drama da água





 



SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BAÍA DOS TIGRES:  O drama da água


Folheando o livro do autor Cecílio Moreira, sobre a "Baia dos Tigres", encontramos estas fotos que nos mostram a povoação vista do mar, e uma construção ali existente legendada como "instalações de um velho destilador", que vista de perto, pela originalidade da sua arquitectura, constitui para mim mais uma obra de arte a juntar a outras tantas ali existentes, ao total abandono, resistindo ao tempo e à degradação, qual conjunto fantasmagórico de um quadro surrealista...
 As outras são a Capela, a Escola, a Alfândega, o Hospital, a Delegação Marítima, a Estação dos CTT... A maioria das quais em forma de palafita, para deixarem passar o vento forte da garroa que se acumulava à sua passagem,
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Na Baía dos Tigres passavam-se anos que não chovia, não havia água, não havia frescos, não havia lenha para cozinhar, nem para o aquecimento nas noites gélidas de Inverno. Na Baía dos Tigres não havia nada, apenas areia, dunas e mais dunas, mar, isolamento e solidão...

Até ao momento em que se deu o abastecimento de água à Baía dos Tigres através de um sistema de captação de águas a partir da Foz do Cunene, não havia na povoação água potável, pelo que os seus habitantes viam-se obrigados a transportá-la em barris, de barco à vela, desde Moçâmedes ou de Porto Alexandre (foz do rio Coroca), através de barris, e muita água se perdia pelo caminho. O recurso eram as  cacimbas (poços) que se abriram  na área continental, mas que resultara improfíquo. A água era de má qualidade,  péssima para o fígado e rins e só com o risco da própria vida capaz de se beber. E se a água trazida pelos barcos à vela que ficava de reserva nos barris se deteriorava, o que acontecia com frequência, essa era posta a "arejar", isto é, era posta ao ar durante umas horas, depois era fervida e de passada por uma "sanga",(1) para ficar pronta a ser consumida, ou para durar como reserva por mais uns tempos.

Em 1909 já a Baía dos Tigres passara a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar a água, que era paga pela população a preços exóbitantes,  muito além das suas possibilidades. Foi finalmente em 1912, que foi elaborado pelo engenheiro Roma Machado, o primeiro projecto de abastecimento com água do rio Cunene.

Em 1923 o Alto-Comissário Norton de Matos mandou proceder a estudos para o lançamento dum caminho-de-ferro entre o Otchinjau e Baía dos Tigres, que nunca se concretizou. Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês." (2) Um atraso do "Save" chegava a tomar proporções catastróficas, porque o precioso líquido tinha que ser racionado, com ração diária de umas poucas canecas que eram religiosamente distribuídas, para não morrerem sede. Este navio cumpriu essa missão até aos anos 1940, tendo a partir daí o fornecimento de água passado a ser efectuado por outros navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente à Baía dos Tigres levar a água. Por esta altura a Baía dos Tigres já dispunha de um velho batelão, o "Tejo" que servia de depósito para onde a água era transbordada. Era ali que os interessados iam encher os barris que transportavam, rolando, para as suas habitações, onde a água permanecia nos mesmos, ou era mudada para recipientes apropriados. Um consumo doseado até novo fornecimento. A água era poupada como quem poupa a vida. Não se podia perder uma gota sequer.

Em 1930, foi designada uma comissão para estudar os problemas desta área cujo relatório insistia de novo na necessidade de fazer chegar a Baía dos Tigres água canalizada a partir do rio Cunene. Dizia-se então “canalizar a água do Cunene é além de um acto de humanidade para com aqueles que na Baía dos Tigres vêm gastando a sua vida, sofrendo estoicamente os horrores da sede,  a valorização espantosamente grande de uma baía que abriga nas suas águas uma fauna abundantíssima e inesgotável. Apesar da divulgação junto do governo de Angola destas considerações que traduziam uma situação extremamente grave, poucos progressos se registaram nos anos seguintes. Um relatório do governo da província da Huila referente a 1940 mencionava que eram simples barris os únicos reservatórios de água, recolhida directamente, através de mangueiras, dos tanques do navio que a transportava, e que nesta operação, com os balanços permanentes do mar, perdia-se muita água.
Só em 1941 teve inicio a construção de grandes tanques com capacidade para 280 t, para guardar água potável. 

Em 1948, num seu trabalho já citado, escrevia J.N. Sales Grade, Capitão do Porto de Moçâmedes  que a água doce para abastecimento da população  era transportada por navios, armazenada em tanques de ferro e cimento, e  posteriormente distribuida regularmente por ração que não ia habitualmente além de 5 litros por pessoa e por dia, passando por vezes para 2 litros. Por volta de 1950 iniciaram-se finalmente as obras para abastecimento de água a partir do rio Cunene que ficaram concluídas em 1958. Além de resolverem um problema fundamental, ligado à própria subsistência da população, proporcionaram um sensível desenvolvimento industrial.

Mas importa ainda referir, que no decurso do tempo, na tentativa de fornecer água à população, houve "soluções" intermédias. Por exemplo, na década de 1920, com a chegada de Norton de Matos a Angola, como Alto Comissário em 1921, e a onda de progresso que sacudiu a Província, os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas tomadas logo de início, Norton mandou instalar nos Tigres, no ano seguinte, um destilador de água do mar que produzia vinte e dois mil e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande abundância, mas já era uma boa ajuda para os nossos pescadores do Deserto. e sem os pesados encargos da que vinha de Moçâmedes. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, era no entanto, água que podia ser bebida, o que não acontecia com a água horrorosa das cacimbas do outro lado, que os europeus bebiam em último recurso, e que os auxiliares de pesca africanos tiveram que beber muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs termo a essa desumana discriminação.

Nessa década antevia-se já o abastecimento de água à povoação, vinda do Cunene. O sonho das gentes da Baía dos Tigres estava prestes a tornar-se realidade, passado que fora o regime experimental até 1961. Realizou-se no dia em que a população dos Tigres viu correr pela primeira vez o preciso líquido nas torneiras suas casas. Finalmente, já podiam beber à vontade uma água de superior qualidade, já podiam lavar a sua roupa em condições, tomar o seu banho à vontade, e à vontade dar o banho aos seus filhos. Uma felicidade!  Mas a água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas no ano de 1962!

O cruel destino mais uma vez  quis castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes, dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida. Nesse ano uma calamidade abateu-se sobre a Baía dos Tigres, apanhando de surpresa os habitantes. Um fenomeno que se concluiu ser cíclico mais uma vez aconteceu, apanhando de surpresa a população: a ruptura do istmo da restinga junto ao Continente destruiu naquele ponto a conduta de fibrocimento que conduzia a água através do Deserto, resultando daí o corte das ligações por terra entre a Baía dos Tigres e o Continente, e o corte do fornecimento de água canalizada à população. A partir de então a Baía dos Tigres deixou de ser uma restinga, passou de novo a ser uma Ilha... Em Março de 1961, terminado o regime experimental, a empresa responsável tinha feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola.

A verdade histórica confirma esse fenómeno periódico. No Mapa Mundi de 1623, de António Sanches, a "Baia dos Tigres" vem assinalada como uma restinga. Na Carta Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, apresenta-se como uma ilha. Pedro Alexandrino visitou-a em 1839, a bordo da corveta Izabel Maria, e reconhece uma restinga. Já em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos, Lopes de Lima refere outra vez em ilha. Em 1861, os primeiros pescadores algarvios que ali chegaram encontram uma restinga fechada.

A canalização de água tinha incentivado os indústrias de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levara a um aumento da população. Levada a agir de imediato a autoridade viu-se obrigada a adquirir um rebocador que passara a levar um batelão-cisterna até ao terminal da conduta, junto da parte continental, para o encher de água que era bombeada para os depósitos existentes, e distribuída à população seguindo as normas habituais. A água continuava a chegar do  rio Cunene através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Apenas se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos. Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema, situação que levou 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.

Quando em 1975 a população branca  de S. Martinho dos Tigres teve que abandonar a sua Ilha, a situação não se tinha alterado. Dados de 1973 apontavam para a existência nos Tigres, de 400 casas habitadas por 1.068 pessoas, que se dedicavam à pesca. Para trás ficavam equipamentos fabris e pontes para descarga do pescado (um parque industrial constituído por 14 fábricas de processamento de pescado, das quais sete de farinha e óleo de peixe), que tempos depois e durante algum tempo, segundo notícias passaram a ser utilizadas, em parte. por armadores nacionais. Quando a reserva de água acabou, a Baía dos Tigres ficou completamente despovoada. 


Também as águas do mar dos Tigres passaram, no pós independência, a ser devastadas por estrangeiros, detentores de navios-fábrica e de arrastões que pescavam sem se fixarem, fora do controlo do Estado, aproveitando-se dessa fase atrbulada que foi o  conflito armado de décadas entre o MPLA e a UNITA, em que a Ilha ficou entregue à sua sorte. Na ausência de fiscalização das  águas territoriais angolanas, e combate às capturas ilegais, barcos piratas de diversas partes do mundo chegaram a transformar os mares dos Tigres num autêntico “El Dorado”. 

Presentemente, e por força da da fiscalização do Ministério das Pescas e da Marinha de Guerra angolana, a actividade desses barcos piratas de grande porte, dotados de sistema de captura, transformação e processamento do pescado, diminuiu.  Desconhecemos os projectos actuais para esta região de Angola rica em pescado,  para além das potencialidades ao nível do turismo.  De uma coisa estamos certos. Uma fixação como foi a levada a cabo pelos algarvios naquelas terras inóspidas, sem água nem o mínimo de condições dignas de vida, onde o único incentivo é o pescado, é coisa do passado!

Esta é uma boa parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.


  O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levado ao aumento da população.  Após esta calamidade, a autoridade foi levada a agir de imediato, e viu-se obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão cisterna até ao terminal da conduta, junto ao Continente, enchendo-o de água que era bombeada para os depósitos existentes e distribuída à população, seguindo as normas habituais.
A água continuava a chegar através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o racionamento, que apesar de tudo passou a acontecer sem necessidade das antigas restrições. Apenas se verificou a redução do consumo, através do controle de gastos. Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema, facto que levou 8 anos, foram construídos 3 depósitos, dois subterrâneos e um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.

Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”, um dos mais desoladores lugares da terra, poderá confrontar-se com toda uma série de edificações abandonadas que ali existiram na época colonial,  algumas das quais em forma de palafita, assentes em pilares, para  deixarem passar as areias das dunas movidas por ventos fustigantes que tudo cobriam à sua passagem. Eram um posto sanitário, uma escola, uma estação radio-telégrafo-postal, um hospital, uma delegação marítima, uma imponente Capela de São Martinho,  alinhando-se de um lado e do outro de uma única rua, cimentada, que servia também de pista de aviação. Simbolos do quanto pode a abnegação e a resistência humana.  Autênticos monumentos históricos que persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à degradação, apresentando o aspecto de um verdadeiro quadro surrealista!
Esta é uma boa parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.

Ficam mais estas recordações. 
Pesquisa e texto da autoria de MariaNJardim
(1) Hoje sabe-se quão perigoso é o fibrocimento para a saúde( cancerígeno), sobretudo aquele que naquele tempo tinha o amianto na sua composição.


 Bibliografia consultada:

-Moreira, Cecilio.  "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
- B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
 -Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969.
-Districto de Mossâmedes, Explorações e Viagens por J.Pereira do Nascimento 1888 a 1895


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(1) Numa separata  do autor Cecilio Moreira, n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", encontrei o desenho de uma "sanga" da autoria de Carlos Janeiro, destinada a filtrar a água para beber, que existia em muitas casas no distrito de Moçâmedes.  A velha "sanga", que nas palavras de Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável. Eram construidas por artistas canteiros do Distrito de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra  de forma de cubo ou de paralelipípedo, (pedra de filtro de Moçâmedes, feita de um arenito existente na região), que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida.  Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Era ao conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava,  que se dava o nome de "sanga". Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.  
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 NOTA DA AUTORA
Este texto não pode ser daqui retirado para ser republicado sem que se respeite os direitos de autor fazendo referência ao mesmo.



MariaNJardim


(1) Pedras de filtro de Moçâmedes, feitas de um arenito existente na região. O conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava, tinha o nome de "sanga". (2) B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
Texto elaborado com base em informações colhidas de:
1. "Baía dos Tigres" de Cecilio Moreira.

Crédito de Imagens: "Baía dos Tigres" de Cecilio Moreira
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