27 julho 2015

MOÇÂMEDES, SAUDADE



Saudade não é saudosismo!





CANTO l

1.
Saudades da minha terra
do bairro onde nasci,
das ruas por onde andei,
dos parques onde brinquei
dos amigos que perdi

2.
Saudades da Praia das Miragens
e dos bailes do Casino,
da jangada e das arcadas,
dos filmes de cowboiadas,
e do Quiosque do Faustino.

3.
Saudades das esbeltas cuanhamas,
e das exóticas mucubais,
saudades dos caranguejos gigantes,
das gazelas elegantes ,
e dos triunfos do Novais

4.
Saudades do Coreto do jardim,
e dos «Programas da Simpatia», (2)
saudades do Saco do Giraul ,
da Ponta do Pau do Sul,
do Canganiça e do tio Alegria. (3)

5.
Saudades do Sporting e do Atlético,
do Ginásio e do Benfica,
saudades do Talho do Barbosa,
da Drogaria do Rosa ,
e dos bolos da D. Zica. (4)


6.
Saudades dos passeios na Avenida (5)
e dos «assaltos» de Carnaval,
saudades da loja do Pires Correia,
do Hotel do Sr. Gouveia,
e da Escola Portugal.

7.
Saudades do Cucas Abelgas,
do Dominguinhos e do Bacia, (6)
da voz do Mário Cantor,
do Zezinho engaxador,
e da casa da Desvia. (7)

8.
Saudades da árvore gigante, (8)
frente ao prédio do Brian,
saudades das noites de Natal,
dos bailes de Carnaval,
e da Pastelaria do Lã.

9.
Saudades da Maria do Quico,
e da Rosinha dos limões,
saudades da Pensão do Leão,
das marchas de S. João,
e das laranjadas do Pereira Simões

10.
Saudades da Fortaleza de S. Fernando,
e do edifício do Tribunal,
saudades das Festas do Mar,
das Serenatas ao luar, (9)
e dos "cazecutas" no Carnaval.

11.
Saudades das manhãs de cacimbo,
e das noites frias no Impala,
saudades do comboio bebé,
do Cabéças e do Caté Caté,
da bulunga e da massambala.

12.
Saudades da Baía das Pipas,
da Vissonga e do Barambol,
saudades do Faria das baleias, (10)
das viuvinhas e dos papareias,
e do antigo campo de futebol.

13.
Saudades do quino no Atlético,
dos rissóis e dos «molhadinhos», (11)
saudades dos cachorros quentes do Ferrão,
dos empréstimos a juros do Leão, (12)
e da barraca dos cavalinhos .

14.

Saudades da Praia das Conchas,
do Virei e da Macala ,
saudades do Arco Carvalhão,
das fogueiras no S. João,
e dos imbondeiros da Bibala.

15.
Saudades do Chapéu Armado,
da Torre do Tombo e da Aguada,
saudades da praia do Chiloango,
das viagens ao Lubango,
e do Bairro da Facada.

16.
Saudades da Baía dos Tigres,
de Porto Alexandre e do Pinda,
saudades da Leba e do Caraculo,
da tipografia do Trabulo
e da quitanda da Laurinda.

17.
Saudades da Farmácia do Pequito
dos CTT e da Papelaria Regina
saudades do Parque de Campismo
da Oásis e do Turismo
e da Pedra da Delfina

18.
Saudades do basquete feminino,
e do hóquei em patins,
saudades da Bela e da Minelvina,
da Marlene e da Francelina,
dos Chalupas e dos Jardins...

19.
Saudades das Furnas de S. António,
da pedreira e do velho moinho,
saudades do Mucuio e da Lucira,
das lojas do Graça Mira,
do Passa Fome e do Bigodinho. (13)

20.
Saudades da Escola de Pesca
e da Escola Comercial,
do Parque Infantil e do Horto,
dos navios ancorados no porto,
e do Mercado Municipal.

21.

Este o meu meu modo expressar Saudades,

Saudades, Saudades, Saudades,
Saudades e nada mais!


Saudades de um tempo que passou,
que morreu, e não volta mais...

(continua ...)

MariaNJardim 

1. http://memoriasdesportivas.blogspot.pt/2009/05/henrique-ahrens-de-novais-o.html
2.  http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2014/03/cine-teatro-de-mocamedes.html


3. Canganiça era a alcunha do

Tio Alegria era o nome que atribuiam a José Adriano Borges (treinador de hóquei do Atlético de Moçâmedes), num programa do Rádio Clube destinados a crianças4. D Zica , esposa de José Alves , possuia um "quitandeiro" que vendia os bolos que confeccionava

5. Até meados da década de 1950, em Moçâmedes, a Avenida era o "Picadeiro", onde ranchos de rapazes e raparigas passeavam

6. "Bacia" era um mendigo que aos domingos corria, acompanhado de um cão, a cidade de ponta a ponta em busca de esmolas

7. "Desvia", era assim que era conhecida a proprietária da casa de estilo "arte noveau" que pertenceu ao 1º médico de Moçâmedes, contemporâneo da fundação (1849), Dr Lapa e Faro.

8. Árvore gigante que se encontrava no "quintal do Soares Pinto", mais tarde do Banco de Angola, na Rua da Praia do Bonfim, paralela à Avenida.

9. Nos anos 1950 era comum o conjunto musical "Os diabos do ritmo" fazer serenatas às portas das casas das raparigas, por volta da meia noite, aos fins de semana.

10. Faria das Baleias, figura típica, natural de Moçâmedes, homem de forte e bem timbrada voz, que fora um brilhante administrativo, mas que por motivos que desconheço acabou por perder o tino, e levava os seus dias sentado num banco do jardim que funcionava como fosse o seu local de trabalho, o "escritório" . Apesar de indigente, e de ter perdido o tino nunca perdeu a sua educação e cumprimentava sempre, atenciosamente, toda a gente que via e que por ali passava. Abandonado pelos seus, recolhia-se ao fim do dia para pernoitar no interior de um velho moinho em ruínas, onde tinha por companheiros os seus muitos cães.

11. Papo-seco embebido em molho de bife

12. Leão da Encarnação emprestava dinheiro a juros (agiota), naquela época em que os Bancos não o faziam . Passa-fome: dizia-se que era o homem mais rico e mais sovina de Moçâmedes. Comerciante.

13. Bigodinho: comerciante de roupas e não só, na Rua Calheiros
 
 


 


 
A PROPÓSITO DE SAUDADES E DE SAUDOSISMOS

"...Nossa performance na vida é determinada não apenas pelo QI, inteligência intelectual, mas também, e principalmente, pela inteligência emocional. Na verdade, o intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional – ambos são parceiros integrais na vida mental. Quando esses parceiros interagem bem, a inteligência emocional aumenta – e também a capacidade intelectual. Isso derruba o mito de que devemos sobrepor a razão à emoção, mas ao contrário, devemos buscar um equilíbrio entre ambas." Daniel Goleman

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