07 dezembro 2016

Meninos do Namibe, estudantes no Lubango...





O Sport Clube Maristas, no 1º torneio do sul de Angola de hóquei em patins. Da esq. para a dt., em cima 3 moçamedenses: Maló de Abreu (Nico), Hernâni Silva, Alvaro Ascenso, e embaixo, outros 2: José Castro Alves e Mário Augusto Lopes em baixo. Reconheçe-se o huilanos Caria (em cima, a dt.) e Agostinho ( o 2º, em baixo).  Dos oito, cinco são moçamedenses e alexandrenses, o que mostra bem quanto o «bichinho» do hóquei em patins estava entranhado nos jovens de Moçâmedes da época. Aliás, a década de 1950, na qual teve início esta modalidade, foi uma época de ouro do hóquei em patins na cidade de Moçâmedes, que se prolongou até finais da década de 60. A foto foi tirada em 1956, em Sá-da-Bandeira (Lubango), mostram-nos alguns jovens de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre que se encontravam a estudar no Liceu naquela cidade onde alinhavam na equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão e na equipa de futebol dos Maristas. O mesmo em relação às fotos que seguem.




Equipa de futebol dos Maristas (Huila) Da esq. para a dt., em cima apenas reconheço o moçamedense Alvaro Ascenso (3º).  Embaixo: Apenas reconheço, entre os jogadores, dois moçamedenses. de entre os quais reconheço, embaixo, José Alves(1º) e Júlio Eduardo Almeida (Juju, o 3º)






A equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão, de Sá da Bandeira. Aqui, no decurso de uma excursão a Lourenço Marques. Da esq. para a dt, em cima, reconheço entre outros, os moçamedenses Álvaro Ascenso (1º), ?,?,?, Artur Trindade (5º), ?, Nono Bauleth (7º), ?,?,? Embaixo: Reconheço entre outros, o huilano Peyroteu (1º) e o moçamedense Pólvora Dias (2º), ?,?,?.  


Porque teriam os nossos jovens que abandonar a sua terra e a sua família para, aos 10 anos de idade, após o primário, terem que se deslocar para Sá da Bandeira, se quisessem prosseguir os estudos?

Isto acontecia devido à ideia retrógada que vigorava na época, de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinavam-se  aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, uma vez que a
Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969. Esta ideia não só prejudicou os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas famílias, e quantas vezes com os maiores sacrifícios.

Em Moçâmedes, até 1961, ao nível estatal do ensino secundário, existia apenas a Escola Comercial de Moçâmedes que havia sido convertida 
em 17 de Março de 1952, a partir da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, escola de cariz técnico-profissional, que não dava a equivalência ao curso geral dos liceus. 

Uma vez no Liceu Diogo Cão, em Sá-da Bandeira,  alguns dos nossos jovens ficavam alojados no Internato dos Maristas que servia de apoio àquele Liceu,  em pensões, em casas particulares ou de familiares. No Internato dos Maristas onde a maioria dos estudantes ficavam alojados, os adolescentes na idade considerada crítica (os «médios») eram entregues à vigilância do Irmão Celso, que fazia o culto da disciplina e que segundo os próprios estudantes, os castigava com dureza sempre que considerava necessário. Outros estudantes de Moçâmedes houve, que por razões de preferência, ou por motivos económicos, escolhiam a Escola de Regerentes Agrícolas do Tchivinguiro, onde ficavam alojados em regime de internato. Esta Escola, de frequência gratuita, ficava situada na província da Huíla, no alto da Serra da Chela, em edifício de grandes dimensões, no isolamento de uma imensidão de terras até onde a vista alcançava, era algo de conventual, calmo, sossegado, silencioso. Para ali entravam após o 2º ano, e dali saiam ao fim de uns anos aptos a investirem os seus conhecimentos em prol do desenvolvimento agrícola e pecuário de Angola.

Quanto à instituição liceal em Moçâmedes, esta só viria a ser fundada com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961. Ainda tenho presente o dia em que o Professor Adriano Moreira se deslocou a Moçâmedes, quando da sua visita a Angola, no ano crítico das matanças da UPA nas fazendas Norte de Angola, e foi feita uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: se faziam ouvir: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!... Foi então que o Ministro, surgindo na varanda do Palácio, disse simplesmente para a multidão: «o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». A manifestação tinha sido uma encenação, porque a decisão já estava tomada. Mas finalmente Moçâmedes tinha alcançado o direito ao seu Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais (5º ano).

Seis amigos, três dos quais de partida para a Metrópole no paquete Império, onde iam continuar os estudos: Júlio Eduardo Almeida (Engenharia), Manuel Dias Monteiro (Medicina), e Amilcar Almeida (Direito)Os que ficaram: Zeca Carequeja, Carlos Manuel Guedes Lisboa e Norberto Edgar Almeida.  



Para aqueles que até aos anos 1960, não transitaram para o Liceu Diogo Cão, ingressar numa Faculdade da Metrópole era problemático, uma vez que tinham que se submeter a contínuas provas de aferição que obrigavam a mudanças de áreas, etc, etc.. Estudantes houve que  tendo concluido o 5º ano da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em finais da década de 1940 e início da década de 1950, fizeram uma exposição ao Ministro da Educação,  solicitando que se tornasse possível  em Moçâmedes a Secção Preparatória aos Institutos, que lhes daria acesso ao Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Não foram muitos, mas o processo veio deferido. Um deles encontra-se na foto imediatamente acima, então já entre amigos a bordo do paquete Império a caminho de Lisboa  tendo em vista o ingresso no referido Instituto.  Amilcar ia com a ideia em Económicas e Financeiras, mas anos mais tarde enveredou pelo Direito. Julio Eduardo e Manuel tinham frequentado o Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, puderam ingressar de imediato nos cursos que escolheram, Engenharia e Medicina. Amilcar teve que frequentar na Metrópole, o Instituto para ter a equivalência do 7º ano, e numa abertura entretanto permitida pelo Ministério da Educação, através de explicações habilitar-se por ele mesmo, a outras disciplinas exigíveis para área pretendida (Direito), teve que fazer cerca de mais 3 anos de estudo na Metrópole para conseguir o acesso ao seu sonho.

1961 foi o ano da sublevação no norte de Angola pela UPA, e do início da luta armada contra os movimentos independentistas. Foi também o início de uma era de progresso para Angola.   Nesse ano começa a pensar-se seriamente na implementação dos Estudos Gerais Universitários em Angola, algo proibitivo até então.  O Estado Novo não queria os angolanos brancos demasiado cultos. O  trauma da independência do Brasil perseguia os nossos maiorais.   Em 1962 o Plano Deslandes propõe a criação urgente do ensino superior em Angola. Pelo Decreto Lei nº 44530, de 21 de Agosto, do Ministério do Ultramar foram criados dez (10) cursos superiores (DecretoLei nº 45180, de 17 de Agosto de 1963), designadamente Médico-Cirúrgico, Engenharia Civil, Engenharia de Minas, Engenharia Mecânica, Engenharia Electrotécnica e Engenharia Químico-Industrial, em Luanda, os cursos de Agronomia, Silvicultura e Medicina Veterinária na então cidade de Nova Lisboa (Huambo) e os cursos de Ciências Pedagógicas, na então cidade de Sá da Bandeira (Lubango).

Em 1968, os Estudos Gerais Universitários de Angola passaram a designar-se Universidade de Luanda através do Decreto nº 48780, de 23 de Dezembro, do Ministério do Ultramar e de Educação Nacional. Através do Decreto – Lei nº 86/75, de 5 de Julho, do Ministério da Educação e Cultura, do Governo de Transição concedeu-se a descentralização Administrativa e Pedagógica Universitária e se reconheceu-se a existência de três Universidades do Estado, nomeadamente, as Universidades de Luanda, Huambo e Lubango. 

Como referiu o Secretário Provincial, Amadeo Castilho Lopes, «...visava-se, com a criação do ensino superior, a formação e a actualização de técnicos de agro-pecuária, médicos, engenheiros e professores do ensino secundário, no sentido de Angola passar a dispôr de condições que lhe permitissem formar os técnicos e agentes qualificados das actividades básicas, indispensáveis para promover o desenvolvimento económico e social do território e que as Universidades da Metrópole não se mostravam capazes de fornecer, em tempo útil nem na qualidade desejável».

A verdade é que a Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969 e oferecia cursos apenas em Ciências, Engenharia, Medicina e História, sendo notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e outra de Economia.  Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos, tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto). O governo português era naturalmente adverso a esses desejos e assim resistiu durante anos para que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Foi graças a um pedido de um grupo de alunos finalistas do Liceu Salvador Correia de Luanda, no ano de 1969, dirigido ao Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e ao Reitor da Universidade de Luanda, Professor Ivo Soares que em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda e em Lourenço Marques (Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. 

A partir da década de 70, o Curso de Regentes Agrícolas passa a denominar-se Curso de Engenheiros-Técnicos Agrários.

Para culminar, em 05.07. 1975, já em vésperas da independência de Angola, foi resolvido à pressa, desdobrar a Universidade de Luanda em três: Universidade de Luanda, Universidade do Huambo e Universidade do Lubango. A resistência à Faculdade de Direito manteve-se até ao fim. Eles lá sabiam porquê! E nós também!

Por curiosidade, transcrevo parte de um texto que encontrei aqui

«(...) Reza a história, que o processo da criação do ensino superior em Angola não foi nada pacífico e teria mesmo conduzido a uma crise política no Conselho de Ministros de Portugal, dirigido por Oliveira Salazar.

«A criação do ensino superior em Angola, nas circunstâncias em que se verificou – por iniciativa e decisão do Governo Geral e do Conselho Legislativo de Angola – viria a ser considerado mais um acto de irreverência e de insubordinação, que gerou um conflito grave com o Governo Central e comprometeu, nos círculos de influência política, o próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira».


A este propósito, explica-nos Amadeu Castilho Soares:

« (...) para certas personalidades e grupos de influência do regime político nacional, a decisão do Governo de Angola da época, ao criar o ensino superior, teria sido instigada pelo próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, numa manobra considerada traiçoeira, para tornear os obstáculos que o impediam de realizar as reformas de fundo que intentava introduzir na política ultramarina do Governo Central, na linha da autonomia progressiva e irreversível, que defendia. A difícil situação pessoal em que o Ministro foi colocado, em toda esta questão, teria oferecido então o pretexto para provocar o afastamento da cena política de um protagonista incómodo, que conquistara grande prestígio e popularidade na opinião pública».

Em Setembro de 1962, o Governador Geral de Angola, General Venâncio Deslandes seria exonerado pelo Conselho de Ministros e algum tempo depois o Ministro do Ultramar Professor Adriano Moreira, seria também afastado do seu cargo. Estes factos históricos revelam-nos, na sua substância, a ausência de uma visão estratégica do Conselho de Ministros de Portugal, no que concerne à implantação do ensino superior e à criação de uma Universidade em Angola.

Tudo era complicado para Salazar, que preferia manter o povo o mais possível afastado do saber, convencido que desse modo melhor preservaria a sua «jóia da corôa», Angola, e com ela o regime instituído, incapaz da abertura mental suficiente para evitar a tempo a autêntica «ratoeira» que nos estava a criar... A ousadia do Governador teria também os seus efeitos, na demissão do cargo de que era titular na Administração Pública Amadeu Castilho Soares, o jovem e corajoso Secretário Provincial que havia concebido e posto em acção o PLANO DO GOVERNO GERAL DE ANGOLA PARA 1962, aprovado pelo Conselho Legislativo, em 7 de Outubro de 1961, e conhecido pela designação: «Levar a escola à sanzala»


Voltando aos estudantes moçamedenses, apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses conseguiram aceder a uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Não eram ricos, uns (um ou dois) fizeram exposições e lá conseguiram uma bolsa de estudo de Salazar, outros fizeram-no a expensas das respectivas famílias e com grandes sacrifícios, e alguns deles numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhes dificultava o caminho ou mesmo os impossibilitava de ir mais longe. Cito o caso pessoal de um conhecido e brilhante moçamedense que tão empolgantemente o relata, e que pode ser lido com um «clic» aqui: «Menino do Namibe».
Como se pode ver, os condicionalismos existentes não conseguiram demover a vontade de vencer deste «cabeça de peixe» ou «cabeça de pungo», como eram conhecidos os filhos de Moçâmedes. E de modo idêntico aconteceu com outros mais. Os ditos «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de pessoas muito inteligentes, e não me refiro apenas àqueles que antes de 1969 tiveram que partir para bem longe para se licenciaram, alcançando por via dos seus cursos cargos de prestígio, mas também àqueles que ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, e a tantos outros que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros moçamedenses ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários, cargos que na época eram de elevado prestígio.

A título de curiosidade recordarei aqui, que era comum defender-se já naquele tempo e naquelas paragens o quanto uma alimentação rica em peixe era essencial ao bom funcionamento do cérebro. Sem dúvida, o povo é sábio! E o certo é que hoje pesquisas científicas confirmam claramente que, quando as pessoas consomem quantidades mais adequadas de ácidos glaxos ômega-3, a sua função cognitiva, especialmente a sua memória, melhora significativamente, e que o omega 3 ajuda ao desenvolvimento do cérebro. Orgulho à parte, os moçamedenses comiam muito peixe!

Enfim, parafraseando o «Menino do Namibe» : Meninos do Namibe que souberam, como tantos outros, superar a mediocridade dos que os queriam ver espartilhados entre o mar sem fim e o imenso Kalahari e, com o estigma do seu apoucamento intelectual...

Pesquisa e texto de MariaNJardim

Para saber mais sobre: Estudos Gerais Universitários


Slideshow Angola do outro lado do tempo V, in Dailymotion- Angola V
Colocado por mariusangol

02 dezembro 2016

A ponte de cais de Moçâmedes.





 Não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía de Moçâmedes os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos, que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado
"Quarenta e cinco dias em Angola"


Quando o autor anónimo publicou o livro «Quarenta e cinco dias em Angola», em 1862, ainda não existia qualquer ponte de embarque/desembarque em Moçâmedes. Nesse livro o  autor aproveita para sugerir a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega, e refere também que já Fernando da Costa Leal, que foi governador de Moçâmedes entre 1854-1859 e entre 1863-1866, estivera empenhado na construção de uma ponte que convergisse na direcção da Alfândega, mas até 1873 esta continuava por construir por falta de verbas, com grande prejuízo para o avanço da economia do Distrito.
E o Governador que se lhe seguiu, Joaquim José da Graça (1866-1870), chegou mesmo a abrir uma subscrição particular entre as pessoas mais abastadas da terra, que produziu a quantia de 20000 réis. O cais era imprescindível até pelo perigo que sempre espreitava o embarque/ desembarque de pessoas e mercadorias do modo como era efectuado. Subscrições públicas eram aliás o meio a que os colonos recorriam quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.





 Piquete da Guarda Fiscal e acesso à ponte
 Embarcando mercadorias



Segundo o mesmo autor, passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . Foi em 1873, 24 anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme informou superiormente o então governador Costa Cabral (1877-1878), ao mesmo tempo que propunha ao Governo a urgente substituição, e lamentava a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

Entretanto, o interesse na "partilha de África" pelas potências europeias leva em 1876 Leopoldo II da Bélgica, a convocar a Conferência Geográfica Internacional, para a qual Portugal não foi convidado, e começou a gizar-se  a abertura de vias de penetração para o interior. Foi então  que Portugal deu início às viagens de exploração e investigação científica, seguindo o exemplo dos parceiros europeus, e também enviou exploradores que se aventuravam pelo interior africano, alegando direitos históricos. A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, patrocinou grandes travessias da África realizadas pelos portugueses Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, e Roberto Ivens, destinadas a explorar e estudar o território. Procedeu-se a explorações mineralógicas e geológicas, a par do reconhecimento geográfico e cartográfico. Procurava-se deste modo abrir caminho para capitais e colonos, promover a colonização dos territórios sobre os quais Portugal  reclamava a tutela, mau grado a fraca vontade dos portugueses metropolitanos de se fazerem transferir para uma África doentia,  vista como fatal para europeus que chegados ali em pouco tempo pereciam vítimas de paludismo, febre amarela, doença do sono, etc.

Foi então que a ponte de cais de Moçâmedes foi construida por iniciativa do Major Gorjão, director da expedição de obras públicas de 1877-1879, e sob a direcção de D. José da Câmara Leme.

Segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar.


 
 Descarregando um batalhão militar e munições no decurso das Campanhas do Sul de Angola, numa época em que encostar à ponte ainda era possível



Portanto, a ponte de Moçâmedes surgiu numa época em que o interesse das potências europeias em África se tornaram bastante mais evidentes para Portugal, e tornava-se a uma necessidade premente a sua construção por interesses geo-estratégicos, e não tanto para responder às necessidades  dos colonos que desde há muito clamavam por ela. Para estes era um tempo desesperante, numa Angola atravessada por crises e mais crises geradas pela ausência de infraestruturas, pela falta de braços de trabalho e de um plano governamental à altura das necessidades.

Em 1884-5 teve lugar a  Conferência de Berlim que teve por finalidade organizar, na forma de regras, a ocupação de África pelas potências coloniais europeias. Aliás decorria ainda aquela Conferência e já Portugal havia conseguido apressadamente enviar para as terras Altas da Huíla um primeiros contingentes de colonos oriundos da Ilha da Madeira, os únicos que responderam à chamada (1), desviando-se para o efeito a corrente migratória que estava sendo dirigida na direcção das Ilhas Sandwich, no longínquo Hawai, ilhas Caribe, Guianas. etc.

No quadro do novo paradigma colonial,  a prioridade das Descobertas deixou de ter qualquer valor, impunha-se a ocupação efectiva dos territórios cuja posse Portugal reivindicava, (2) a definição das fronteiras bem como o reconhecimento, por parte dos sobas e régulos indígenas, da soberania de Portugal sobre os territórios tradicionalmente pertencentes a uma ou várias etnias. Na prática, o  avassalamento, situação que redundou numa escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas, e no envio maciço de tropas para as colónias.

Portugal corria o risco da perda da soberania, numa época em que as colónias de África eram o recurso decisivo para a crise económica de países metropolitanos. Preparava-se então o terreno para a entrada de gente e de capitais.





 

 A ponte de Moçâmedes enquanto "plateia"  a partir de onde os residentes acompanhavam os mais diversos eventos marítimos, no caso desta foto, uma corrida de natação



Esta ponte estava, pois, destinada a ser a porta de entrada para os batalhões e para o armamento militar idos da Metrópole, e desembarcados em  Moçâmedes rumo ao Cunene,  necessários ao desenrolar das Campanhas Militares do Sul de Angola.  Iam  em missão assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na “partilha” coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia), e dominar as populações nativas insubmissas, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali tinham vivido.

É aqui que começa a história desta ponte que, tal como o Caminho de Ferro de Moçâmedes, e o comboio inaugurado em 1905, só avançaram quando avançaram por força  de imperativos estratégicos e militares que a tornaram imprescindível, e não tanto por imperativos económicos do Distrito e  do Interland. Por ela não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios, mercadorias, e até gado que era introduzido em batelões através de guindastes, etc etc. Passaram exploradores, cientistas, investigadores, geólogos, missionários, padres, bispos, cardeais, por ela passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros,etc etc.


 
Visita a Moçâmedes do Governador Ramada Curto


 A ponte no início do século XX. Visita a Moçâmedes do Governador Ramada Curto

 
 Visita a Moçâmedes de D. António, Bispo de Angola



Era através dela que tudo escoava, no ir dos navios de carga, de passageiros, etc, dos caíques e palhabotes nas suas viagens de cabotagem, etc, desde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões, e os passageiros através de pequenos "gasolinas" .



Embarque de gado



Inda assim nunca foi  a ponte ideal. Cantada em verso, nem a ponte, nem Moçâmedes daquele tempo escaparam à pena  crítica do poeta:
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto
"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"
Joaquim Paço D´Arcos


(Viveu em Moçâmedes de Setembro de 19
12 a Fevereiro de 1914)
 

 
 A 1ª fase das obras da construção do cais acostável


A inauguração em 1957 do primeiro troço do cais acostável, iniciado com a visita a Moçâmedes do General Craveiro Lopes, em 1954, marcou o início da decadência desta ponte, da qual hoje em dia apenas resta o esqueleto. Uma ponte que foi deveras útil para as pessoas e a economia, não apenas no Distrito como também do Interland .
 

O dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957. A entrada
na baía do paquete "Uije", dirigindo-se ao cais


 
 
Panorâmica vista do alto da falésia, no dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957, com o paquete "Uije"
 
 Inauguração do Cais Acostável em 1957
 
 Governadores da Província e do Distrito

O dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957


 A ponte na actualidade



Uma ponte que guarda tanta História, mas que parece ninguém querer salvar!




Pesquisa  e texto de MariaNJardim.


(1) Os madeirenses fugiam da pobreza estrutural de uma sociedade deveras estratificada, onde só alguns podiam viver com dignidade. Iam  para lugares longínquos onde muitas vezes eram obrigados a trabalhos próximos da escravatura, e onde deixavam o suor e o sangue em canaviais de açúcar.

(2)  De acordo com o historiador francês, René Pelissier, em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso encontra-se escrito em “Angola Dois anos de Governo”, do governador Paiva Couceiro. João de Almeida, seu braço direito, fez referência a 180 operações militares a partir de 1845, o que significava que a colónia não estava pacificada. Pelissier sublinha a falsidade do slogan “Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola”, e considera que, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais, antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa. Todo o resto tinha de ser conquistado.