02 dezembro 2016

A ponte de cais de Moçâmedes.






Quando o autor anónimo publicou o livro «Quarenta e cinco dias em Angola», em 1862, ainda não existia qualquer ponte de embarque/desembarque em Moçâmedes, conforme assim deixou escrito: “não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía de Moçâmedes os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado” .

Nesse livro o mesmo autor aproveita para sugerir a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega, e refere também que já Fernando da Costa Leal, que foi governador de Moçâmedes entre 1854-1859 e entre 1863-1866, estivera empenhado na construção de uma ponte que convergisse na direcção da Alfândega, mas até 1873 esta continuava por construir por falta de verbas, com grande prejuízo para o avanço da economia do Distrito.

E o Governador que se lhe seguiu, Joaquim José da Graça (1866-1870), chegou mesmo a abrir uma subscrição particular entre as pessoas mais abastadas da terra, que produziu a quantia de 20000 réis. O cais era imprescindível até pelo perigo que sempre espreitava o embarque/ desembarque de pessoas e mercadorias do modo como era efectuado. Subscrições públicas eram aliás o meio a que os colonos recorriam quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.



 A ponte no início do século XX



Segundo o mesmo autor, passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . Foi em 1873, 24 anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme informou superiormente o então governador Costa Cabral (1877-1878), ao mesmo tempo que propunha ao Governo a urgente substituição, e lamentava a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

A ponte de cais de Moçâmedes foi construida por iniciativa do Major Gorjão, director da expedição de obras públicas de 1877-1879. Começou a montar-se  sob a direcção de D. José da Câmara Leme.

Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar.


 
 Descarregando um batalhão militar e munições no decurso das Campanhas do Sul de Angola


1881, portanto já numa época em que os sinais relacionados com o interesse das potências europeias em África se tornaram mais evidentes para Portugal, com a convocação por Leopoldo II da Bélgica, para Bruxelas, em Setembro de 1876, da Conferência Geográfica Internacional , para a qual Portugal não foi convidado,  onde se começou a gizar as bases daquela que iria ser a "partilha de África, onde acordou, a necessidade de explorar cientificamente as partes conhecidas deste imenso continente, facilitando a abertura de vias de penetração para o interior. Foi então que seguindo o exemplo dos parceiros europeus que Portugal deu início às viagens de exploração e investigação científica, e também enviou exploradores que se aventuravam pelo interior africano, alegando direitos históricos. A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, patrocinou grandes travessias da África realizadas pelos portugueses Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, e Roberto Ivens, destinadas a explorar e estudar o território. Procedeu-se a explorações mineralógicas e geológicas, a par do reconhecimento geográfico e cartográfico. Procurava-se assim abrir caminho para capitais e colonos, promover a colonização dos territórios sobre os quais reclamava tutela, num tempo em que Africa era vista pelo seu clima doentio, fatal para europeus ali em pouco tempo acabavam por perecer com o paludismo, febre amarela, doença do sono, etc etc. Em 1884-5 teve lugar a célebre Conferência de Berlim que teve por finalidade organizar, na forma de regras, a ocupação de África pelas potências coloniais europeias. Aliás decorria ainda aquela Conferência e já Portugal tinha conseguido enviar para as terras Altas da Huíla os dois primeiros contingentes de colonos madeirense, desviando para o efeito a corrente migratória que estava sendo dirigida na direcção das Ilhas Sandwich, no longínquo Hawai, ilhas Caribe, Guianas. etc. Os madeirenses fugiam da pobreza estrutural de uma sociedade deveras estratificada, onde só alguns podiam viver com dignidade. Iam  para lugares longínquos onde muitas vezes eram obrigados a trabalhos próximos da escravatura, e onde deixavam o suor e o sangue em canaviais de açúcar.
 
Desde a Conferência de Berlim a prioridade das Descobertas deixou de ter qualquer valor, impunha-se a ocupação efectiva, situação que implicou junto das novas potências a definição das fronteiras dos territórios cuja posse Portugal reivindicava, bem como o reconhecimento, por parte dos sobas e régulos indígenas, da soberania de Portugal sobre os territórios tradicionalmente pertencentes a uma ou várias etnias. Na prática, o  avassalamento. Preparava-se assim o terreno para a entrada de gente e de capitais,  o que redundou na escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas, e o envio maciço de tropas para as colónias. Eis pois o contexto histórico da época em que a ponte de embarque/desembarque de Moçâmedes foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881*.


 

 A ponte de Moçâmedes enquanto "plateia"  a partir de onde os residentes acompanhavam os mais diversos eventos marítimos, no caso desta foto, uma corrida de natação


Esta ponte iria ser a porta de entrada para os batalhões e de armamento militar vindos da Metrópole,  necessários ao desenrolar das Campanhas Militares do Sul de Angola. Iam com a missão de dominar as populações nativas insubmissas, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali tinham vivido. Iam  em missão assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na “partilha” coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia). É aqui que começa a história desta ponte que, tal como o Caminho de Ferro de Moçâmedes, e o comboio inaugurado em 1905, só avançou quando imperativos estratégicos e militares a tornaram imprescindível. E não tanto por imperativos económicos do Distrito e Interland.

Por ela não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios, mercadorias, e até gado que era introduzido em batelões através de guindastes, etc etc. Passaram exploradores, cientistas, investigadores, geólogos, missionários, padres, bispos, cardeais, por ela passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros,etc etc.

 
 Visita a Moçâmedes de D. António, Bispo de Angola


Era através dela que tudo escoava, no ir dos navios de carga, de passageiros, etc, dos caíques e palhabotes nas suas viagens de cabotagem, etc, desde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões, e os passageiros através de pequenos "gasolinas" .

A inauguração em 1957 do primeiro troço do cais acostável, iniciado com a visita a Moçâmedes do General Craveiro Lopes, em 1954, marcou o início da decadência desta ponte, da qual hoje em dia apenas resta o esqueleto. Uma ponte que foi deveras útil para as pessoas e a economia, não apenas no Distrito como também do Interland .
 
 A 1ª fase das obras da construção do cais acostável

 

O dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957. A entrada na baía do paquete "Uije", dirigindo-se ao cais
 
Panorâmica vista do alto da falésia, no dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957, com o paquete "Uije"

O dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957


 A ponte na actualidade



Uma ponte que guarda História, mas que parece ninguém querer salvar!

MariaNJardim.

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