26 dezembro 2016

Expedição Mossamedes-Porto Alexandre, iniciada em 23.08.1894. Por José Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real



Parte de texto

(...)

"....O clima d'esta região pode considerar-se regularmente salubre. Não há pântanos e por isso não existem as febres palustres. A temperatura é mais baixa e por isso mais supportavel do que em Mossamedes ; o thermometro oscilla entre 14 e 21 graus; apenas à noite sente-se um pouco de frio.
O maior inconveniente de Porto Alexandre é o não haver arborisação alguma que attenue a violencia da viração do sueste, constante n”esta época, e que é origem de infiammações das vias respiratorias. Apezar do pouco aceio dos pescadores que lançam as vísceras dos peixes pela praia, o que origina um cheiro insupportavel e atrahe grande quantidade de moscas, considero o clima superior ao de Mossamedes.

Outro inconveniente é a falta de agua potável. A que existe perto da povoação é salobra e até salgada. Agua potavel só se encontra no rio Koroka e é d'ahi que os moradores mandam-na vir para beber, reservando a da povoação para os animaes e para a preparação dos alimentos. Não havendo terrenos araveis, não ha hortaliças. Os moradores mais abastados fornecemse das fazendas agrícolas do Koroka. Notei qur a falta de vegetaes na alimentação era causa de algumas pessoas soffrerem de escorbuto, sobretudo as creanças. A povoação assenta sobre areia solta occupando o fundo da bahia na parte sul, abrigada pelo norte por uma ponta de areia, formando uma espaçosa bahia em melhores condições de abrigo e segurança que a de Mossamedes. Veja-se o mappa do almirantado inglez` que representa bem a configuração da bahia.

E' um porto excellente e está. perfeitamente sondado. As casas estendem-se ao longo da praia, occupando a extensão de 2 kilometres em uma só fila. Todas têem a frente para o norte e são protegidas do lado do sul por um cercado de canniço, formando um angulo agudo para o sueste. Esta disposição tem por fim evitar a accumulação de areias sobre o fundo das casas. O vento sopra sempre do sueste, arrastando dunas de areia sobre as casas. A disposição em angulo agudo do cercado cortando o vento, faz com que as areias sigam para a praia, de um e outro lado da casa. D'ahi resulta que as casas são todas separadas umas das outras, ficando entre ellas espaço suficiente para as areias correrem livremente, o que dá. origem á. formação de monticulos nos intervallos de umas para outras. As casas são pequenas e terreas e dispostas ao comprido, ao longo da praia. São feitas de estacaria coberta de barro. Cada casa custa, termo medio, 3008000 a 500$000 réis. 0 tecto efeito de varas compridas cobertas com uma camada de argamassa de areia e cal. Diante de cada casa encontra-se a pescaria. Esta compõe-se de umas construcções muito rudimentares, feitas de canniço e palha, com o tecto plano, onde estendem o peixe salgado para seccar, e por baixo ficam as tinas com agua e uma mistura de sal com areia (extrahido das salinas ao sul da bahia), onde salgam o peixe.

O processo de pesca é o seguinte. Cada pescador tem uma ou mais embarcações pequenas tripuladas por tres a quatro pessoas (ordinariamente serviçaes pretos). Prendem a popa da embarcação quatro a seis linhas de pesca. terminadas por um anzol duplo, figurando umapequena ancora ou dois anzoes presos um ao outro, com as unhas oppostas,por meio de uma fita branca. O conjuncto do anzol dá-lhe a apparencia de um pequeno peixe. Postas as linhas ao mar, largam a embarcação a toda a velocidade. Os peixes, vendo correr aquelles pequenos objectos brancos, que são os anzoes, e julgando serem peixes pequenos, correm atraz e deixam-se prender. A quantidade de peixe apanhado por este processo tão imperfeito regula por quatro a seis arrobas por dia por cada embarcação. Este é o processo mais usual entre os pescadores. Alguns, porém, possuem redes com que apanham muito peixe, mas estas são tão ordinarias que em pouco tempo estão estragadas. Um dos melhores ramos de commercio aqui é o fornecimento de redes e mais aparelhos de pesca. Tenho visitado todas as pescarias e vejo que as redes e as linhas de pesca são de uma qualidade muito inferior, deteriorando-se no fim de pouco tempo. Existem apenas nove pescarias com redes, e estas mesmo não produzem muito, porque o material é pessimo, sendo necessario concertal-as constantemente, d'ahi resulta que a maior parte dos pescadores prefere a pesca á. linha, que lhes fica mais barata. Os poucos que usam rede calculam que gastam por dia 43500 réis sómente em concertos e reparações do material.

Cada pequena embarcação com as vellas e remos custa, em média, 4008000 réis. São feitas no Algarve, d'onde são naturaes os pescadores. Actualmente já. fabricam aqui embarcações com madeira vinda da Europa.

A' tarde recolhem do mar todas as embarcações. Logo que fundeam, lançam o peixe a praia diante das armações e começam o trabalho da salga; tiram-lhe as vísceras e espalmam-n`o, como se faz ao bacalhau, em seguida mettem-no dentro de tinas contendo agua com o sal misturado com areia. Ahi fica o peixe um a dois dias, depois tiram-no, lavam-no na agua do mar para perder a maior parte da areia e estendem-no sobre o tecto da armação, que é da altura de um metro e meio. No fim de 8 dias está. o peixe secco. Batem-no para fazer cahir a areia e fazem pacotes de duas arrobas, embrulhando-0 com uma esteira de palha, a que chamam mateba, fabricada nas fazendas do Koroka.

As despezas de empacotamento de duas arrobas correspondem a 100 réis, comprehendendo uma esteira 50 réis, uma corda 50 réis. Este empacotamento é feito por conta do comprador. O pescador vende o peixe solto e por arroba.

Depois de secco o peixe procedem á. divisão em duas qualidades, cada uma com o seu preço:

1. qualidade - peixe grande; comprehende seis especies do melhor peixe, taes como: corvina, pungo, tainha, pargo, etc., custa 900 a 18000 réis a arroba.

2. qualidade- peixe pequeno; comprehende diversas qualidade de peixe meúdo e de menor estimação. taes como: chopa, alvacora. sarrajão, etc., custa 800  900 réis a arroba.

Muitas espécies de peixe pequeno são despresadas. taes são as sardinhas que existem em grande quantidade, mas que salgadas e seccas não dão interesse. Um agricultor de Mossamedes pretendeu, ha alguns annos, aproveitar as sardinhas e outros peixes pequenos que os pescadores desprezam, e para isso mandou montar uma fabrica de conservas em latas na pequena bahia do Pinda. ao norte de Porto Alexandre. Creio que por falta de azeite esta fabrica pouco resultado deu, estando actualmente abandonada.

O peixe é comprado por duas ordens de negociantes: 1.' Os commerciantes de Mossamedes, que para este negocio teem casas filiaes aqui e recebem o peixe em troca de productos europeus. Existem duas casas filiaes de maior importancia: uma da firma Figueiredo & Irmão, e outra da casa Sousa Lara & C). cujo unico negocio é comprar peixe aos algarvios em troca de generos europeus. 2.` Os outros negociantes de peixe são algarvios, proprietarios de hiates, que não pescam. mas empregam-se exclusivamente na compra, transporte e venda do peixe pelos portos do litoral de Angola. Congo, S Thomé. Gabão, etc.. vendendo o peixe aos agricultores d'estas localidades por preços que lhes deixam 100 0/0 de ganho, e regressam a Porto Alexandre carregados de contrabando. madeira para construcção e lenha, de que ha absoluta falta n'esta terra. Estes negociantes pagam o peixe a dinheiro. mas a. prazo de 3 ou 4 mezes. o tempo necessario para realisarem a venda e carregarem os navios de madeira no Zaire. o que lhes não custa dinheiro, porque existe muita lenha e paus de construcção pelas margens d'este rio, tendo elles apenas o trabalho de os mandar cortar e carregar. Para evitar o contrabando, o governo acaba de collocar em Porto Alexandre uma auctoridade aduaneira.

O preço do peixe vendido nos portos do litoral, regula: de Benguella até o Ambriz (portos ao sul do Zaire) -15500 réis a arroba de primeira qualidade, e W300 a de segunda; do Zaire até S. Thomé (portos ao norte do Zaire) - 15800 réis a arroba de primeira qualidade e 18600 réis a de segunda.

Os commerciantes de Mossamedes enviam o peixe pelos paquetes da Empreza Nacional.

Na bahia dos Tigres, que é muito mais abundante de peixe do que Porto Alexandre. estão estabelecidos apenas sete pescadores, os quaes usam o systema de redes. São as pescarias mais productivas do litoral e os seus proprietarios são pescadores ricos. A razão porque existem ali tão poucas pescarias é porque a navegação para aquella bahia é difficil por causa do vento sueste que frequentemente origina temporaes na costa. Para navegar até a bahia dos Tigres é preciso empregar embarcações grandes como os hiates; as embarcações usadas em Porto Alexandre não poderiam resistir aos temporaes do sul. O mar dentro d'aquella bahia. forma. vaga alta a que só podem resistir embarcações de borda alta.

Aqui mesmo na zona de Porto Alexandre ha logar para montar uma pescaria em grande escala. Quando passei pelo cabo Negro reconheci a existencia de uma enseada vasta e bem abrigada pelo cabo e ao norte d'elle, onde as embarcações dos algarvios vão pescar, quando o vento Sueste é forte e os apanha no mar alto. Costumam os pescadores abrigar-se ao norte do cabo e ahi pescam, emquanto dura a viração torte.
Devo tambem dizer que frequentemente apparecem baleias dentro da bahia de Porto Alexandre, que os pescadores não apanham, porque não teem embarcações nem aparelhos apropriados.
O movimento annual do peixe é de:
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Porto Alexandre . . . . . . . . . . . ...... . 150.000 arrobas = 2.250.000 kilos Bahia dos Tigres . . . . . . . . . . . . 50.000 ,, z 750.000 ,, Total. . . . . .. 200.000 ,,            =3.000.000 ,,
Porto Alexandre compõe-se de 50 casas com a população de 700 pessoas, sendo 300 brancos e 400 negros. Ha 100 embarcações de pesca e 20 hiates e cahiques. Existem duas escolas para os dois sexos, uma pequena capella, delegação de saude delegação aduaneira, administração do concelho e destacamento militar. Está. em communicação com os portos da província e da metropole pelos paquhtes da Empreza Nacional.



In Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5. 1898

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