26 dezembro 2017

A FOCA

A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes
A foca no tanque do jardim de Moçâmedes. Foto Salvador


MOÇÂMEDES. MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: A FOCA


No vasto jardim da Avenida da República, em Moçâmedes, Angola, avenida paralela à Rua da Praia do Bonfim, num local privilegiado da cidade, em frente ao belo e clássico edifício do Banco de Angola, onde ainda no início da década de 1950 existia um romântico Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do polo sul, influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava, e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de toda a gente, incluso de mães com as suas crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia ter passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade. Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevemos que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou.



A FOCA

Foi morta, a tiros vis, a foca, a grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

 E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora, a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz,  da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!

Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
 Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

(Angelino da Silva Jardim)

16 agosto 2017

Os transportes utilizados em Moçâmedes, pelos primeiros colonizadores






Legenda: Colono de Mossâmedes montado n'um boi-cavalo. O boi-cavalo ainda muito antes das carroças boers, era o transporte utilizado por alguns colonos fundadores de Mossâmedes, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, nas suas deslocações às Hortas ou à Quinta dos Cavalleiros, como seria o caso de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.




Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando os primeiros colonos chegaram a Moçâmedes idos de Portugal e de Pernambuco (Brasil), nada tinham ao dispôr que lhes facilitasse a deslocação de pessoas e de mercadorias.



Joaquim de Paiva Ferreira


Conforme «Anais do Muncípio de Moçâmedes», de início o transporte utilizado foram o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó, o camelo, este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849. (1) Mas não podemos esquecer os carregadores, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões,


O boi-cavalo

A utilização do boi-cavalo como meio de transporte foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou outros meios de transporte, substituindo-as pelos boi


O boi-cavalo foi o meio de transporte para montado e tracção adoptado na labuta agrícola nos primórdios da colonização, para além da machila, da tipoia e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas no sul de Angola pelos boers. Sobre o boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas cronicas que à chegada dos colonos, em 1849,  para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":
  "...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere  também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Mossâmedes,  principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica  à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois,  a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.

 A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.


 O «riquexó»

O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado à mão por um condutor..

Em tempos anteriores ao da chegada dos colonos do Brasil, para o transporte de passageiros, correio, bagagens e mercadorias, chegaram a utilizar, em viagens de longo curso, os paquetes da «Companhia União Mercantil» que já não existiam por haver falido. Mais tarde regressaria em força este tipo moderno de transporte.  Os habitantes de Moçâmedes serviam-se dos paquetes da «Empresa Lusitana», que costumavam escalar o porto da vila nas suas viagens para Lisboa. Em Janeiro de 1881 fundou-se a Empresa Nacional de Navegação, e em Março do mesmo ano tiveram início as carreiras para Angola com os paquetes «Portugal» e «Angola», iluminados a petróleo. Em 1889, paquetes que escalavam Moçâmedes, como o «Ambaca» e o «Cazengo» já eram iluminados a electricidade.


A machila

Outro meio de transporte utilizado era a machila, "...espécie de palanquim suspenso, servido por dous pretos.", é referido pelo mesmo autor:

"...Farei a descripção d'este traste, que faz parte de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em todos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por motivo de retirada, como de fallecimento. A base que serve de assento pôde comparar-se á de um canapé de palhinha, de metro e meio de comprido, e setenta centímetros de largura. N'uma das extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitudinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremidades partem cinco cordões, que atravessam a grade de madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de um metro, a umas argolas que se introduzem em dous ganchos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notável leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de um bambolim, para esconder os arames em que correm duas cortinas de chita adamascada de cores muito vistosas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da tunga e como então o assento fica apenas arredado do chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar para entrar para a machilla, onde se senta com as pernas estendidas, como quem está n'um banho de tina. Os pretos carregadores marcham um diante do outro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeitamente os dous carregadores, e até quem vai dentro d'e11a. Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chibalinha, ou um cacetinho curto, principalmente os carregadores, que parece ao andar equilibrarem-se com elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Alguns usam um pau curto com uma bola na extremidade, e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a grandes distancias tão certeiramente, que chegam a matar caça. A primeira vez que entrei n'uma machilla senti grande repugnância ao vêr-me transportado por dous homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguardado por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a cidade alta. O balanço que se sente ao andar é agradável como o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo este meio de locomoção não deixa também de ter seus inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, ou que a tunga quebra, tem a gente de sofrer não só a queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos à pequena altura entre o chão e o assento da machilla.



Os "Carregadores"

Os mondombes eram os povos "Carregadores" de Moçâmedes , dedicados por conta própria ao transporte de mercadorias, tais como eram os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela. Estes povos monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam o território angolano, em detrimento de quaisquer outras comitivas, eles impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas.

No último quartel do século XIX, no distrito de Moçâmedes, com o estabelecimento da colónia boer que veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, a elevados preços, as caravanas de "carregadores" mondombes entram em recessão.

 Mas se exceptuarmos a linha férrea de Luanda a Cazengo, e a carreira fluvial do Quanza, de Luanda ao Dondo, feita com dois pequenos vapores, em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estava ainda sob a dependência das caravanas de "carregadores", sujeitos as mais variadas contingências, de entre as quais, os capricho dos sobas, a rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio , as guerras gentílicas, os conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos, proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciaes, etc.




As "caravanas boers"
Em 1881, levados para as terras altas da Huíla desde o Transvaal pelos boeres, que se fixaram  na região da Humpata, surgiram as "caravanas boers" veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes, sob um toldo curvo de lona. destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam entre Moçâmedes e a Huila, e vice-versa, etc, que se fazia a distribuição das mercadorias  dos locais onde eram produzidas, para os locais onde eram procuradas por consumidores, que de outro modo estavam  impossibilitados de as adquirir. Foi uma verdadeira revolução nos transportes.



Os camelos


 Era o meio de transporte mais aconselhado em substituição dos carregadores (1) a quem tinham que pagar preços considerados exorbitantes, para além de levarem menos carga, e de muitas vezes não estarem dispostos a prestar os seus serviços onde e quando se requerem, sujeitando o comércio e a agricultura a contingências, de que resultavam prejuízos e despesas.   chegados a Moçâmedes eram adquiridos nas Canárias e aclimaram-se bastante bem, reproduzindo uma raça robusta, sem vestígio de degeneração. Tratava-se de uma variedade da raça primitiva do norte de Africa,  que conseguiam  trilhar terrenos montanhosos, os trajectos entre Moçâmedes e a  Chibia, com resultado satisfatório. Sem grande esforço um camelo era capaz de transportar uma carga de até 450 kg, enquanto um carregador em viagem demorada não levava mais de 30 k.



Com a Fortaleza de S. Fernando ao fundo, à dt, numa época em que já existiam alguns postes de  luz nas ruas, alimentados a óleo de peixe, e que se pressupõe no início do século XX, este postal mostra-nos dois dromedários daqueles aqui referidos, que foram uma mais valia em tempos de campanhas militares e desembarques de munições no porto de Moçâmedes, rumo à  fronteira sul.


Informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862, ou melhor o dromedário, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Moçâmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de contrução, tais como malas de peixe, sacos de fuba, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, pedra, cal, adobe, etc., etc.






(1)  Joaquim de Paiva Ferreira, componente da Primeira Colónia; foi proprietário de uma fazenda situada na várzea da Boa Esperança.O nome de Joaquim de Paiva Ferreira surge mencionado como vogal de uma comissão formada em Mossãmedes para a formação da Escola Luz Africana, por iniciativa da Loja Luz Africana, de raiz maçónica, inaugurada em Janeiro de 1882. São referidos também outros nomes sonantes também a esta iniciativa e a esta Escola, tais como o do presidente da referida comissão, Francisco José de Almeida, e o do professor do novo estabelecimento de ensino, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior . À cerimónia da sua abertura e inauguração teria assistido grande número de pessoas. Mossãmedes , segundo se aalientava, «era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforço.»...«Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. »b  In CULTURA, EDUCAÇÃO E ENSINO EM ANGOLA


Outras informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862





24 julho 2017

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/mocamedes/#sthash.HTASHR1X.dpbs

18 julho 2017

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mocuio

João Thomás da Fonseca

 
Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, D. Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste (Celeste Fonseca Robalo), por volta de 1914


Foto: Quem conheceu João Thomás da Fonseca (pai), o fundador da pescaria do Mocuio não esquece a sua postura, com bigode de ponta retorcida, casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso, indumentaria em conformidade com sua posição de industrial de pesca  bem sucedido.  Na foto, rodeado de amigos, entre os quais Manuel Vaz Pereira (vestido de branco). Data provável: 1920


Foto: Os irmãos Álvaro e João Thomás da Fonseca (filho), filhos do patriarca do Mocuio, com Mocuio à vista...



Tudo começou nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República, em finais do século XIX, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas,  e  o dinheiro amealhado, estabelecer-se no Mocuio.  E foi ali, naquela praia deserta pequena e inacessível, situada a sul de Benguela, no distrito de Moçâmedes,  perdida nas escarpas do deserto do Namibe, onde vales secos foram no rodar dos tempos substituindo  rios que ali iam desaguar,  que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e a remos,  montou duas armações que necessitavam no mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole,  e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então.

A pescaria Mocuio era sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía salinas,  fábrica de farinha de peixe e de conservas,  um pequeno estaleiro, uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do cachucho e da garoupa), e mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe chegaram a ser exportadas  para o nordeste americano, em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum, com respectivos rótulos. A pescaria dedicava-se  também à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.

Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mocuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir,  com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à  parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha,  duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e  um mirante  a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar  os galeões que entravam e saiam da baía,  fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola, Cabinda, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, recebendo em troca,  bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, e ao mesmo tempo controlar a azáfama da laboração pesqueira.

No Mocuio sequer havia água potável, a água ia de Moçâmedes em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Conta-se que morreu gente no Mocuio, devido à tubagem de cobre das canalizações.

A pescaria do Mocuio deu origem à fixação de inúmeros  europeus e africanos na zona, estes entre contratados e livres, uma comunidade que se desfez após a independência de Angola, em 1975.



 
Foto: Estas são duas das mais recentes fotos do Mocuio, através da qual podemos ainda ver, 35 anos depois, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o elegante chalet, sua imagem de marca. Na continuidade do Mocuio, navegando para norte, ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Lucira, Vissonga e o Bába. E a sul do Mocuio, a Baía das Pipas, Moçâmedes, Porto Alexandre e a Baía dos Tigres.


Foto: A pescaria do Mocuio nos  tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...



Foto: João Thomás da Fonseca (filho) e o gerente, Faria que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.  Em 1º pano giraus ou tarimbas de peixe seco. Atrás as instalações fabris.



Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  rodeado de amigos e de algumas personalidades, incluindo  representantes da Marinha portuguesa, quando faziam uma paragem para descanso, no decurso de uma viagem ao Mocuio, onde possuía a sua pescaria.  Data provável, talvez anos 1920, a ter em conta a indumentária das senhoras. Lembro aqui que foi em Moçâmedes, que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, destinado a operações terrestres, face ao receio de uma ofensiva vinda do Sudoeste Africano (hoje Namibia) sobre a região planáltica, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre,  por destacamentos alemães, bem como a submeter populações nativas sublevadas, factos que agitaram sensibilidades e puseram a região em polvorosa. Em consequência,  o porto de Moçâmedes como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito, desempenhou um importante papel. 

Olhando para esta foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais  que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...

Em África, naquele tempo era assim!  Ver em  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas? 
Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.

Pesquisa e texto de MariaNJardim



(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.


Algumas destas fotos foram publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto). Que me perdoe o primo João por as ter tirado para o nosso blog! Não resisti!


.......................................................................................................................................................................


Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio? 

Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de, no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”. É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida na loquela local e, por definição e determinação filológica, não desfrui de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano. Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.
Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio)
a quem muito agradecemos.

Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver  gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.

Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".

Fotos cedidas por um familiar.


VER VIDEO MUCUIO HOJE


Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html

19 março 2017

Moçâmedes e a sua juventude nos anos 60. Os conjuntos Musicais






Por esta altura, finais dos anos 1940, início dos anos 1950, o Rádio Clube de Moçâmedes, era, graças ao seu elevado número de sócios, e ao dinamismo da sua direcção, o clube organizador dos mais diversos eventos musicais na cidade, reunindo à sua volta toda uma juventude, feminina e masculina da época, empenhada em colaborar. Foto Salvador


  


Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes. De de cima para baixo e da esq. para a dt : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador.



Na velha gare do "campo de aviação", despedindo-se do Presidente do RCM, Augusto Cantos de Araújo.1947. Fotos Salvador




A orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes. Foto Salvador





Moçâmedes, a cidade do deserto, em matéria de divertimento das populações, desde os tempos mais recuados, não deixava nada por mãos alheias. Este conjunto musical participava na altura no programa «Variedades» do Rádio Clube da cidade. Corria o ano de 1950, dessa famosa década que mobilizou toda uma população, desde os mais jovens aos de meia idade, em que foi lançada a ideia da organização de uma orquestra para o Rádio Clube de Moçâmedes". O fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador era o saxofonista e chefe da orquestra; Raúl Gomes (pai) era o guitarrista; Lito Baía, o seu filho deste último, que também tocava guitarra e viola, era o acordeonista. Os bateristas eram o Firmo Bonvalot (mais tarde, o Albertino Gomes). Anselmo de Sousa era o trompetista. Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola) eram os violinistas. Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e o Martins da Alfândega, eram os pianistas.



Conforme podemos ler num dos livros de Paulo Salvador dedicados a Moçâmedes:


"...as músicas em pauta, eram conseguidas junto das orquestras de bordo dos paquetes que 2 vezes por mês aportavam à baia de Moçâmedes. O pai fazia amizades com os músicos de bordo e estes cediam, por gentileza, as músicas e canções em voga na Metrópole, que seriam cantadas aos microfones do Rádio Clube, depois de orquestradas pelo mestre Salvador. Os jovens e moças do Namibe, respondendo ao apelo, apresentavam-se para ver se tinham jeito, ( os castings de hoje...) .


Recordando algumas das vozes que davam brilho aos programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe".. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. Que me perdoem outros Amigos e Amigas que também enriqueciam este programa, a quem, por lapso momentâneo de memória, não faço agora referência".

Recordando a figura de Antunes Salvador, numa revista teatral que foi levada à cena em Moçâmedes, brincando com os seus dotes musicais, cantavam :



Tocam hinos, tocam óperas
tocam marchinhas e valsas
e o Salvador tanto assopra
         que arrebenta o cós das calças ...

Ainda sobre Antunes Salvador, vai este texto escrito pelo seu filhos:
"...Recordo com orgulho quando ia com meu pai assistir aos ensaios das récitas, teatro, operetas e revistas musicais à antiga portuguesa, com alguns quadros musicais por ele compostos.
O meu pai, José Antunes Salvador, sempre foi um homem da música e da fotografia. Muito jovem já era chefe da banda da terra, com o seu inseparável amigo Anselmo de Sousa que conheci bem.
Com o seu velho bandolim, na altura perdia horas a vê-lo compor marchas populares que dias depois seriam exibidas em concursos nas festas da cidade.
Mas do pai Salvador vale a pena referir uma façanha sua ocorrida algures no ano de 1930.
Quando regressava, sozinho, de um ensaio da banda, altas horas da noite, surgiu-lhe à frente uma hiena. Animal possante, cobarde, mas perigoso.
O meu pai, amedrontado, não sabia o que fazer já que o animal não mostrava boas intenções.
Correr de nada valeria perante tão eficaz caçador.
É então que nada mais se lembrou do que usar a arte que tão bem dominava. Vai daí, o pai Salvador tira o saxofone da caixa e, com todas as suas forças, desatou a tocar pela rua, o que de imediato assustou o animal surpreendido por aquele estranho “rugido”. São e salvo, só parou de tocar à porta de casa.
Não pensem que havia animas selvagens pelas ruas de Moçâmedes, mas de quando em vez uma raposa, chacal ou hienas, vinham até à cidade visitar os caixotes do lixo.

Como o fotógrafo da terra, numa altura em que toda a população negra tinha de tirar bilhete de identidade, era o meu pai quem fazia os retratos. Para caprichar o resultado final, na foto o meu pai fazia uma montagem com um outro negativo e como que por magia “vestia” uma gravata ao modelo. Quando levantavam as fotos, surpreendidos, os retratados diziam: Patrão, mas eu não tinha gravata. -Não faz mal, dizia o meu pai. A gravata é “mata-bicho”. Fim de citação.




Nos anos 1950 surgiu o conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", o grande abrilhantador dos bailes e das matinées dançantes de Moçâmedes. Eram eles que animavam os bailes que aos sábados se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e as matinées dançantes que acabavam impreterivelmente às 20 horas.





Na foto os "Diabos do Ritmo" com Albino Aquino (Bio) ao acordeão, o professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva, ao piano, Albertino Gomes (bandolim), Frederico Costa (baterista), Jaime Nobre (violão). Mas o Bio era a maior parte das vezes o pianista. E que pianista!
Foto cedida por um conterrâneo



Da esquerda para a direita: Marçal (saxofone), Lito Baía, (violão e acordeão); O professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva (em substituição do pianista do conjunto, Bio Aquino, na época a cumprir o serviço militar obrigatório); Jaime Nobre, mestre de música, construtor de instrumentos de corda ( da guitarra clássica ao violino e aos xilofones), Cerieiro, instrumentista de rítmos (Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Frederico Costa , instrumentista de rítmos ( Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Albertino Gomes (o extraordinário e irrequieto baterista- animador, que também tocava banjo e bandolim e até acordeão).


Falar dos "Diabos do Ritmo" é lembrar os animados Reveillons e as Martinées dançantes que na década de 1950 decorriam nos salões do Atlético e do Clube Nautico. Dançava-se sem parar, ao som dos mais diversos ritmos, que iam desde movimentadas marchinhas brasileiras que estavam muito em voga, a pasodobles, rumbas, chá-chá-chá, congas e baiões, música oriunda do Brasil e Caraíbas, não esquecendo os românticos tangos de Gardel, as deslizantes valsas, e os suaves slows, géneros musicais daquele tempo como a

Como tocavam bem os "Diabos"! 

Quem poderá esquecer essas figuras inesquecíveis às quais a geração de 50 ficou a dever os mais belos e animados momentos das suas vidas.
Falar dos  "Diabos do Ritmo" é ainda reviver as serenatas pela noite fora realizadas à porta das casas das raparigas, em que músicos, cantores, instrumentos, incluindo o piano, corriam de porta em porta, fazendo-se transportar  em  camionetas de caixa aberta. É lembrar uma época em que bailes e matinées dançantes eram frequentadas por gente de todas as idades,  filhos, pais, mães, avós, que conviviam e se divertiam  num mesmo espaço.
Com o avançar da década de 1950 já os "Diabos" passaram a incluir no seu repertório o Twist e o  Rock n' roll, novos géneros musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e que à época  conviviam com o tango, com a valsa, com os sambas, com as marchinhas, e com os baiões. Mas a música latino-americana era aquela que canalizava para a pista de dança o maior número de dançarinos. 

Vai um poema alusivo ao tema, por Neco Mangericão:

 

MÚSICA LATINO-AMERICANA

Oiçam e percebam bem o porquê
de nenhum de nós poder esquecer
aqueles lindos bailes abrilhantados
pelos «Diabos do Rítmo», tão afamados,

nem daquelas jovens, as mais belas, já se vê,
que, coradas ouviam, cheias de felicidade,
aquelas juras que tão bem sabíamos fazer,
Naqueles anos doirados da nossa mocidade…

Oiçam esses boleros e a voz de cada cantor,
como eles vibram, nesse rítmo afro-cubano.
Eram mesmo os melhores a cantar e a compor.
Versos de amor, só cantados em castelhano…

Mas, ao som daqueles «Diabos-Mestres» a tocar,
quem não cantava bem, tendo-os a acompanhar
o ritmo do endiabrado Albertino, do Bio e Lito Baia,
Nobre, Marçal, Cerieiro e Neco, cada um como sabia…

Esquecer um grupo, como outro não houve nenhum,
seria sem dúvida de estranhar, de nunca acontecer.
Festas, Fins de Ano, Carnavais, Serenatas na cidade,
Inesquecíveis Bailes, os melhores das nossas vidas.

Quem alguma vez nos deu, Conterrâneos, mais alegria?
Quem, senão eles, tocava e só parava ao raiar do dia,
depois de um desafio que demorava horas seguidas,
em festas que sempre recordaremos com saudade…

Alguém poderá estranhar, algum de vós se espanta,
que ouvindo os Boleros que agora vos venho mandar,
para que possam recordar aqueles «Diabos» a tocar,
Ficasse eu de olhos húmidos a relembrar as juras
que fiz naquelas noites d’encanto e de felicidade,
dos anos mais lindos da nossa gloriosa mocidade,
que na mente se guardaram, inteiras e tão seguras
e, de coração acelerado, criasse um nó na garganta?

NECO MANGERICÃO.





Mas o tempo não pára, e no mundo Ocidental, os anos 60 do século XX constituiram aquilo que se poderia considerar um século dentro do século. A intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais foram tais, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes, continuaram em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. 

Foi a década dos Beatles, dos Rollings Stones, do Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc. Uma década marcada pela revolução sexual, pelo movimento hippye, pelo culto às drogas e do psicodélico, pela utopia marxista, a Guerra Fria, o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietnam, a revolta estudantil em Paris (o Maio de 68), e no mundo do cinema os filmes de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. 

O mundo nunca mais foi como dantes!   

Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Angola, mais propriamente em Moçâmedes,na "princesa do Namibe", as nossas gentes, os nossos jovens, também sentiram os efeitos dessas transformações que, soprando  dos EUA, alastraram pela Europa e acompanharam o novo ciclo de expansão económica, e a grande movimentação de gentes,  com reflexos no campo social e ao nível das mentalidades.

Será preciso, porém, lembrar que vivíamos num quadro político de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo, sempre atento à penetração e disseminação das ideias vindas de fora, através de livros, revistas, jornais, rádio, etc, que eram censuradas, essencialmente as ideias marxistas, consideradas altamente subversivas.  Essa era grande preocupação, a área do saber, já a penetração dos novos gostos musicais se fazia naturalmente,  através das bandas musicais e da moda. Os aspectos ligados ao lazer da vida não sofriam quaisquer impedimentos.   

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo. Foto cedida por um conterrâneo


Já foi atrás referido  que os primeiros passos rumo a uma mudança ao nível das mentalidades surgiram na segunda metade da década de 1950, tenso como pano de fundo o musical. Fotam o twist e o rock-n-roll, os géneros  musicais que abriram as portas para o Yé Yé e ao futuro Pop Rock.

Na década de 60 já os jovens adolescentes em toda a Angola passaram a formar bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que eles escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na 1ª  Discoteca,  que entretanto inaugurou.
O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964.
Foto cedida por um conterrâneo

Elementos e acompanhantes de um dos Conjuntos Musicais de Moçâmedes, o «Conjunto Ferrovia», no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes. Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía, Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964. Foto cedida por um conterrâneo
 

Ratolas(?), Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964



Laurentino Jardim e Reinaldo Bento.
Foto cedida por um conterrâneo



Os Goldfinger.Foto cedida por um conterrâneo


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu








Banda feminina em 1971 , quando Riquita foi Miss Portugal. Foto cedida por um conterrâneo.









A verdade é que já nada nem ninguém podia travar a penetração dessa onda que veio colocar na prateleira os tangos, as valsas, os pasodobles, etc, que foram substituídos pelo rock' rol e pelo twist, pelas músicas dos Beatles que tinham sido lançadas com grande sucesso e arrebatavam a juventude. A guitarra eléctrica foi o principal instrumento da música popular mundial, tornando-se praticamente indispensável em toda banda que era formada. Foi o ponto de partida para elevar o Rock a patamares de música popular mundial. A guitarra transformou-se em uma arma a favor da liberdade nos conturbados anos 60 e 70, em meio a guerra do Vietnam, movimento Hippie, popularização dos direitos de várias minorias, etc. Passou a ser algo muito além de um instrumento musical, um simbolo que representou diversos movimentos ao longo do último século.


Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve e mostra bem aquilo que foi este movimento. Tive o grato prazer de receber em minha casa, pelo correio, um exemplar do livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeço. O livro inclui na pág 142 uma foto de um quadro de uma "himba" por mim pintado, uma daquelas belas mulheres daquela tribo do sul de Angola, no Deserto do Namibe, que chegou na sua pureza tribal aos nossos dias. Trata-se de um livro, muito bem estruturado e ilustrado, testemunho de uma época no que toca a bandas musicais, porém mais centrado em Luanda, o qual recomendo.





Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse também sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, pois delas pouco ou nada sabemos, nem fotos temos em número suficiente para mostrar, para além das colocadas no início desta postagem. Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70, nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" desafiava também, embora ela à sua maneira, a velha ordem, quanto mais não fosse usando, eles, cabelos compridos à beatle, calças boca de sino, andar despreocupado mascando swinga, calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto... E elas, mini-saia, calção curtinho, pernas ao léu, saias floridas até aos pés, olhos pintados, tira amarrada na cabeça, cigarro na boca, sandália no pé...


Os anos 60 foram, pois, aqueles em que entre nós o controle familiar começou a afrouxar face ao impacto das novas liberdades trazidas pelos ventos vindos de fora, que imprimiram uma certa revolução nos padrões de comportamento, na forma de viver e de amar.

Os jovens começaram a construír um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950, sobretudo em relação às raparigas, no tempo em que vigoravam os "salões românticos" , em que se dançavam tangos, valsas, slows , etc. , ainda não o rock' rol, o twist, etc, que eram completamente desconhecidos.


Na década de 1960 entrara-se na era das discotecas onde tudo, luzes, corpos, etc, ganhavam um outro dinamismo. O desenvolvimento económico do pós guerra veio ajudar a deitar por terra muitas barreiras. O avanço da Ciência veio libertar a mulher do espectro da maternidade não desejada. A descoberta dos contraceptivos, deu às jovens uma liberdade sexual até então desconhecida, e veio gerar um imparável movimento de autonomia que as libertou de séculos de submissão a um patriarcado avassalador.


No nosso pequeno mundo em transformação, é certo que não tivemos festivais de música estilo Newport, que atraiu uma imensidão de jovens que procuravam não só o divertimento musical mas igualmente o debate de ideias. Nem tivemos movimentos de contestação estudantil contra as injustiças sociais: a pobreza, o racismo, a guerra do Vietnam, a inferioridade de direitos das mulheres, etc, que noutras latitudes levaram a manifestações e à confrontação com a polícia.

Pelos motivos óbvios a contestação política não estava nos horizontes da nossa juventude. Nem podia estar. Era-nos vedado esse direito. Vivíamos numa sociedade fechada, onde havia censura, onde existia a PIDE, e que, apesar de suavizada com a "Primavera Marcelista", não permitia esse tipo de manifestações públicas. Os nossos ventos de mudança não tiveram, pois, uma expressão radical. Foram acontecendo muito paulatinamente, impulsionados pelo ritmo e pelas letras da música, pela moda, e através de alguma literatura clandestina de difícil acesso, bem como por determinadas exibições cinematográficas que sempre iam escapando à vigilância do censor.
Foto cedida por um conterrâneo


Em Moçâmedes, as festas e os bailes, desde meados da década de 1960 começaram a acontecer também no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. Os jovens queriam divertir-se entre eles jovens, sem a presença vigilante de pais e familiares mais velhos, já não frequentando os mesmos bailes que os pais, ou fazendo-se acompanhar por pessoas mais velhas (as raparigas), dizia-se então, percebendo-se a crítica e o receio ao que é novo...

Cedida por Manuel Faustino
Cedida por Manuel Faustino

Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos e valores da juventude. Aqui há algo que  nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varreram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual,  na postura.  Considero que estas fotos tem valor histórico.  Elas marcam uma época de ruptura com a época anterior, que terminou entre nós com a entrada na década de 1960. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes, sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam.
 
Foto cedida por um conterrâneo. Trata-se de um baile na Paróquia


    Baile na Paróquia. Cedida por um conterrâneo. Foto Salvador



Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc). 
  
Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a  chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando  valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.

Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha,  um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los  dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. Este  foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.
 
De comum, o facto de serem três padres de origem indiana, e por se tratar de baptismos ocorridos na Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes,


Sobre o perfil do Padre Noronha, porém tomo a liberdade de colocar aqui este testemunho de Eduardo A. Correia Ribeiro , alguém que com ele privou de muito perto:


«Martinho de Araújo Noronha marcou realmente uma geração. Professor de Religião e Moral, foi mais do que isso: inculcando nos jovens alunos do Liceu Diogo Cão (pelo menos de 1962 a 1965) alguns valores, cívicos e morais, que fazem a diferença: o gosto pela liberdade, a luta pela igualdade, o amor pelo próximo. Homem tolerante e culto, procurou transmitir aos que o rodeavam não só os valores religiosos em que acreditava, mas outros, identificadores de um ecumenismo militante pouco comum, incentivando à compreensão e tolerância pelo Outro, à ajuda aos mais necessitados, incentivando à leitura de livros onde eram tratadas as grandes preocupações do Homem perante Deus e si mesmo. Nas suas aulas era um mundo novo que se abria aos ouvidos dos estudantes, pouco habituados aos temas versados e à forma vibrante, altissonante, e desassombrada de falar. Nem sequer fugia ao assunto tabu da relação sexual entre humanos. Confessou no confessionário e aconselhou nos pátios e nas salas de aula, sugeriu livros evangélicos e de liberdade, desbastou temores e indicou caminhos. Mal parecia um padre, tal a sua linguagem, a sua entrega, o seu desempenho na sociedade, a exemplaridade da sua cidadania, participador nos interesses da comunidade, farol de tantos. Rapidamente passou a ficar sob a alçada perscrutadora das autoridades encarregadas da paz social e dos bons costumes da época.


Mais tarde, a partir de 1965, e por uns anos, foi pároco em Moçâmedes, tendo nessa nova qualidade prosseguido na mesma linha mobilizadora (dinamização do movimento vicentino entre adultos e jovens) e continuando a encantar e a tocar os espíritos mais empedernidos, quer na celebração quer aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes. Era como padre um exemplo para os sacerdotes e como pessoa um exemplo para as demais. As suas iniciativas ultrapassavam em muito o mero campo evangélico. A sua meta eram as pessoas, conduzi-las na vida, de acordo com um padrão moral de comportamento que dignificasse o ser humano enquanto criatura de Deus, porque agir de acordo com esses valores já era um hino e louvor ao seu Criador, independentemente da religião que professasse. Era de uma cepa de que se encontra pouco.


Os anos passaram e soube mais tarde que havia regressado à sua terra natal, GOA, que ele tanto amava. Lá o fui encontrar em 1988. A manifestar a mesma exuberância e alegria de viver, de bem fazer aos outros, de realizar coisas, fantástico! Levou-nos a Margão, a casa de uns familiares, e foi o cicerone de um passeio pela cidade e arredores, por onde conduziu da mesma maneira como viveu: em alta velocidade! Arrepiante. Na condução automóvel como na condução das nossa almas, Martinho de Araíjo Noronha marcou pela diferença. Foi uma dádiva de Deus.

Em meados de 90 (1994?, 1995?), trouxemo-lo a Macau. Os seus antigos alunos e amigos não hesitaram e, mediante uma colecta, angariámos os fundos necessários para o trazer, e a uma sobrinha, até Macau. O Vítor Leal de Almeida, o Jorge Arrimar (estes, comigo e com o Walter Frota, os organizadores do Kurikutelas I, II e III em 1987, 88 e 89, Convívio dos Angolanos em Macau), o Pedro Redinha, tantos, tantos, tantos! tratámos disso. Ele cá esteve e cumpriu o programa a rigor. Foi bonito, foi bonita a festa, pá! Ele levou daqui a expressão de agradecimento de uma geração dos seus alunos e amigos a quem tocou com a sua amizade e exemplo. E nós sentimo-nos muito mais enriquecidos, por revê-lo, por ter realizado um sonho dele, por sentirmos que não obstante as nossas diferenças (religiosas, políticas, partidárias), além do amor a Angola, tínhamos o Padre Noronha como REFERÊNCIA MORAL comum nas nossas vidas. Uma dádiva de Deus. Bem haja Padre Noronha, pelo rasto de coisas boas que semeou nas nossas vidas .
Eduardo A. Correia Ribeiro » .( Sanzalangola)


Outro exemplo desta aproximação foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre que viveu alguns anos em Moçâmedes , onde trabalhou na Casa Inglesa, e onde estudou na Escola Comercial e Industrial, curso nocturno, foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude

 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 



Em 1972, com outros jovens, o Padre Luís Carlos fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo  Concilio Vaticano II que se estendeu e  chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África.  A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso.


A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados ainda hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso, algumas letras causticas contra o regime. (1)






MariaNJardim







ATENÇÃO:

Estas fotos são pertença dos nossos amigos e conterrâneos moçamedenses, pelo que ninguém, excepto aqueles a quem as mesmas dizem respeito, poderá daqui retirar algo sem a devida autorização, incorrendo em falta quem o fizer. Também o texto tem direitos de autor que devem ser respeitados.


MariaNJardim