10 março 2017

Avenida de Moçâmedes



 Gravura antiga da vila de Mossâmedes e rua da Praia, em primeiro plano.






O capitão Fernando da Costa Leal, quinto governador de Moçâmedes (então Mossâmedes) (1854-1959).
 



Ainda Moçâmedes se escrevia com "ss", não existia a longa e atractiva Avenida que no meu tempo conheci como "Avenida da República", porém já nesta altura, último quartel do século XIX, estava reservado o espaço para ela, graças à primitiva planta da povoação, delineada pelo talentoso e jovem Governador, Fernando da Costa Leal, homem de grande iniciativa, valor, e  rara tenacidade, que a concebeu com ruas largas, traçadas em rectas à boa maneira pombalina, ao mesmo tempo animando os colonos a construírem prédios de agradável aspecto. Moçâmedes era então para o forasteiro vista como um exemplo de cidade moderna jardim, cidade modelo que nada tinha a ver com as caóticas Luanda e Benguela de povoamento caótico. No livro «Quarenta e cinco dias em Angola», de 1861, o autor refere a necessidade de "primeiro plantar ao longo da praia cinco fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada, para se poder estabelecer uma linha de defesa, para ao abrigo dela ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira, essa mesma serve de resguardo às que depois quiserem fazer." Há também referencias de que o Governador Leal tentara edificar a vila "no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a comodidade dos desembarques, e sobretudo o receio que muitos tinham que ali se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa.Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado. A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquele governador a encontrou a pequena profundidade.
 
 
Segundo "Archivo Picttoresco", volume X, de 1867, portanto apenas 18 anos após a chegada dos colonos fundadores vindos de Pernambuco (Brasil) em 1849,  as principais ruas de Moçâmedes ( ascendeu a vila em 1855),  paralelas ao mar eram assim designadas: a da Praia do Bonfim (onde fica a Alfândega e os Correios), a rua dos Pescadores, a rua do Alferes, a rua do Calheiros e a da Boa Vista. As transversais eram a dos Prazeres e de S. João, que cortam a da Praia do Bonfim; a da Alegria e do Bom Jardim, que cortam a do Calheiros; e a Formosa que corta a da Boa Vista. As ruas transversais eram: a dos Prazeres, a do Calheiros. Vem referida a existência das travessas de Santo António, da Cancella, da Alfândega, e das Flores, que partem da Rua da Praia do Bonfim e terminam na do Calheiros. O quadrado formado pelas ruas da Boa Vista, da Alegria, do Calheiros e do Bom Jardim, onde não havia então ainda as respectivas edificações, era destinada a uma bela praça, a qual se iria denominar Praça D Luiz. Com frente para esta praça, em um dos ângulos da Rua Formosa devia erigir-se o edifício para os Paços do Concelho, e no outro ângulo, a casa para o teatro, a pensar nas necessidades dos munícipes, na distracção dos habitantes, no alivio das canseiras trabalho, e como distracção de aborrecimentos e perigos do ócio. Assim testemunhavam autarcas não indiferentes ao conforto população . Conforme o projecto inicial conservou-se sempre a regularidade no alinhamento das mesmas e na construção dos edifícios. O edifício da Alfândega, a porta de entrada olha para a baía, e a da saída para a Praça da Colónia, onde foi na década de 1940 erguido o Cine Teatro Moçâmedes. Por esta altura e como se pode ver pelas fotos , em frente ao edifício da Alfândega, e paralelamente a ele, levantou-se um telheiro de madeira com cerca de 9 metros de altura e 23 metros de fundo, apoiado em 12 pilares de madeira que assentam em socos de cantaria. Serve de abrigo a escaleres da alfândega e às mercadorias que tinham que desembarcar a horas em que a repartição esteja fechada.




Esta foto, de finais do último quartel do século XIX mostra-nos a Avenida a desenhar-se em paralelo com a Rua da Praia do Bonfim, então mais conhecida simplesmente por "Rua da Praia", mantendo ainda alguns dos primitivos barracões, porém já preenchida com algumas árvores (coqueiros?)...
 
Foto de um trecho da Avenida em dia de festa. Pressupõe-se tenha sido tirada por ocasião da visita do Principe Real D. Luiz Filipe, filho do Rei D. Carlos, em 1907, quando a Vila subiu a real cidade.



Avenida D. Luiz


A Avenida foi denominada "Avenida D. Luiz", em homenagem ao rei consorte de Portugal, esposo da rainha D. Maria II, e passou a denominar-se "Avenida da Republica" após a queda da Monarquia Constitucional, em 1910. Um espaço que desde logo transformou num vasto espaço de confraternização e lazer, como se pode ver.

Não admira, naquele tempo estava em voga o "Passeio Público" uma moda vinda de Paris à qual os portugueses aderiram, e que  perdurou por algum tempo após a reconstrução da cidade de Lisboa por Marquês de Pombal, em consequência do terramoto, quando foi rasgada a Avenida da Liberdade.

Para dar um aspecto agradável às cidades, os urbanistas da época preocupavam-se com a abertura de espaço verdes de lazer e manifestações públicas e escolhiam para tal locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros. E foi assim que, ali bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, de início denominada "rua da Praia" nasceu essa bela, vasta e longitudinal Avenid de acordo com o projecto de  Fernando da Costa Leal, ao adoptar a metodologia pombalina que abraça todo o "centro histórico", toda ela coberta de jardins, que se estendem por dez quarteirões de casas, a perder de vista, tendo a ladeá-la as Ruas da Praia do Bonfim, e Rua Bastos, rua já aberta no século XX, que nasce junto da Estação do Caminho de Ferro, prossegue junto à Fortaleza de S. Fernando, até ao início da Avenida Felner que liga a zona central (vila) à Torre do Tombo. Uma Avenida preenchida com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc..

 Em 1949, por ocasião do 1º Centenário


Foi pois a partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si, onde ficavam pequenos quintais que representavam os espaços verdes da baixa, para além, é claro, dos Jardins da Avenida da República ou da Praia do Bonfim.

Também não foi por acaso que foi escolhida a Avenida Felner, ali bem perto da Avenida da Praia do Bonfim, porém suficientemente afastada do centro, e um dos pontos privilegiados da cidade, sobranceiro ao mar, para serem erigidos os mais importantes edifícios públicos, ou seja, numa 1ª fase, o Palácio/Residência do Governador, a Igreja Paroquial, o primitivo Hospital do Estado, (mais tarde demolido), e numa 2º fase, os edifícios das Finanças, o Palácio do Governo do Distrito e a Associação Comercial. Foi também explorando o efeito de perspectiva que vimos surgir já no início da década de 1950, no topo dos jardins da Avenida da República, o edifício do Palácio da Justiça (Tribunal), um edifício singular, de grande porte, tendo como enquadramento a fonte luminosa com elevados repuxos de água, ladeada por duas elegantes gazelas, um dos mais belos ex-libris da cidade. Como cidade litorânea fundada no período colonial português ( 4 de Agosto de 1849), Moçâmedes não poderia deixar de ter a sua Fortaleza, a Fortaleza de S. Fernando, para cuja construção foi naturalmente aproveitada a elevação de terreno sobranceira ao mar mais tarde envolvida por uma muralha perfeitamente adaptada à morfologia do terreno, por se tratar de um local facilmente defensável onde tem inicio à falésia, que separa a parte baixa da parte alta.

A moda do "Passeio Público", verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer, enraizou-se desde então nas gentes de Moçâmedes, e a tal ponto que ainda é confirmada nos anos 1940 e na década de 1950. A Avenida da Republica era então o local preferido da juventude para passear aos finais de semanas. depois da sessão do Cine Teatro de Moçâmedes (o popular Cinema do Eurico). Nada melhor do que ir até à Avenida "para ver e para ser visto".

Até finais da década, os jovens da Moçâmedes de então tomavam conta da Avenida, era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas, estas com suas roupas coloridas inspiradas na moda-burda, davam voltas e mais voltas, andando para frente e para trás, em doce confraternização, e aproveitando o encontro para flirtar.

No coreto o Rádio Clube sob a direcção de Carlos Moutinho, levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes, programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes ali pendurados e nas árvores que transmitiam músicas mais em voga, com especial realce para canções portuguesas, tangos argentinos e modinhas brasileiras: "Alguém oferece para alguém como provade muito amor", e Tony de Matos cantando "Cartas de Amor" ecoa por toda a Avenida.E também entrevistavam pessoas, e lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações.

Mas o tempo não pára, novos gostos, outros costumes vão tomando o lugar dos anteriores e eis que a bela e vasta Avenida de Moçâmedes rodeada de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver, com tanques onde nadavam vermelhos peixinhos, e bancos de jardim que surgiram em maior número, com os melhoramentos introduzidos no início da década de 1950, transformou-se de novo. O velho e tradicional Coreto deu lugar a um grande tanque de água onde chegou a habitar uma foca que fazia o encanto da garotada. E no topo sul da Avenida, a caminhar para o Palácio da Justiça (Tribunal) surge um espelho de água ladeado por 2 elegantes gazelas, que desde logo se tornou num ex-libris da cidade.

Aos poucos a moda do passeio público também foi regredindo, e com as Festas do Mar que tiveram início em 1961 o polo aglutinador dos momentos de lazer das gentes do pequeno burgo no Verão, desloca-se para a Praia das Miragens, junto do Casino e das Arcadas .
Belos tempos!



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