19 março 2017

Conjuntos Musicais na Moçâmedes de outros tempos





O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964
 Elementos e acompanhantes do «Conjunto Ferrovia» no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964
 

?, Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964

Laurentino Jardim e Reinaldo Bento

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo


Os Goldfinger


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu

Os anos 60 do século XX constituem aquilo que se poderia considerar um século dentro do século, devido à intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais a tal ponto operadas, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes e continuam em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. Foi um uma década em que, entre outros, surgiram os Beatles, os Rollings Stones, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc.  Foi  o  tempo da revolução sexual, do movimento hippye, do culto às drogas e ao psicodélico, da utopia marxista, da Guerra Fria, do assassinato de Kennedy, da Guerra do Vietnam, da revolta estudantil em Paris, do cinema cult/experimental de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. O mundo nunca mais foi como dantes.   Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Moçâmedes, as nossas gentes, os nossos jovens, também, de algum modo, sentiram os efeitos dessas transformações que sopravam  dos EUA, onde surgiram nos anos 1950.

Vivíamos num quadro politico de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo sempre atento à penetração e disseminação das ideias marxistas, consideradas altamente subversivas, contudo ao nível  das bandas musicais, não se verificou impedimento à penetração de alguma  influência desse movimento de CONTRA CULTURA, que embora tardio, veio para ficar.  A década de 60 foi sem dúvida aquela em que se deu o despertar do Rock'n Roll,  estilo musical que abriu as portas para o Yé Yé e o futuro Pop Rock. Jovens adolescentes por toda a Angola formavam bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que os nossos jovens escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na Discoteca, que entretanto inaugurou.

Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU      que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve.   Tive o grato prazer de receber em minha casa , pelo correio, um exemplar do mesmo livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeci e recomendo. O livro inclui na pg 142 uma foto de um quadro por mim pintado de uma bela mulher da tribo  himba do sul de Angola, Deserto do Namibe, as chamadas "mulheres de vermelho".  Foi assim que tive acesso a este belo  livro, muito bem escrito e ilustrado, testemunho de uma época, no que toca a bandas musicais, porém  mais centrado em Luanda.  Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, mas das quais pouco ou nada sabemos, nem fotos temos para mostrar. Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70. Ou seja nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" usava, eles cabelo comprido à beatle, calças boca de sino, andava despreocupado mascando swinga, quando não calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto. Elas,   mini-saia, pernas ao léu, saias floridas até aos pés como as hippyes,  tira amarrada na cabeça, cigarro na boca.

Este também foi o tempo da introdução do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

Aquilo que posso aqui descrever não irá  além daquela que foi a época que antecedeu a do movimento hippye e a todas estas mudanças. Portanto a metade da década de 1950 e o início da década de 1960, altura em que o tango, a valsa, os sambas, as marchinhas e os baiões começaram a conviver com twist e o rock-n-roll, géneros  musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e cabia aos conjuntos musicais existentes, como "Os Diabos do Ritmo",  abrilhantar as festas da chamada cidade branca, em clubes de bairro e outras colectividades, em Moçâmedes, no Atlético, no Casino, no Ferrovia, etc, em que filhos, pais, mães, avós, conviviam e se divertiam  num mesmo espaço.




 



Nos anos 60 o controle familiar começara a afrouxar ao impacto das novas liberdadesos. Os salões românticos cederam lugar às discotecas onde tudo ganhava dinamismo, desde as luzes aos corpos. Os jovens construíram um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se, na mais completa liberdade, sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950.

Em Moçâmedes. as festas e os bailes antes efectuados no interior dos salões dos clubes da cidade, passaram a decorrer, também, no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. "Os jovens já não querem mais divertir-se, indo aos mesmos bailes que os pais", dizia-se. Percebe-se a crítica e o receio ao que é novo. 
 
Em meio a um mundo em transformação, alguns párocos no interior da Igreja católica, rompendo a tradicional resistência à mudança, procuram chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências. Em simultâneo os eventos visavam resgatar valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.




 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 
 
 
 Um dos exemplos foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.

 Em 1972, com outros jovens,fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.




 

Importa referir que em Moçâmedes foi  o Padre Martinho Noronha, um dos promotores do movimentodesta cauasa dedicadas aos jovens paroquianos, procurando, naturalmente desviá-los dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças.

  
Retenha-se que no campo político,  o Concilio Vaticano II  que chegara ao fim (1965), ficou marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África. A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso. 

Mas a década de 1960  veio marcar também a passavam para uma sociedade mais integrada que favoreceu a adesão  das populações autóctones assimiladas. Uma mudança de paradigma  impulsionada por factores vários, entre os quais o descontentamento da população negra, o surgimento dos movimentos de libertação, o início da guerra colonial, as pressões da ONU, as posições de  grandes potências que se disputavam na cena mundial, EUA/URSS, e que levaram a profundas alterações nos sistemas social e económico. 

Foi  a partir da década de 1960, a década de todos os descontentamentos, de todas as mudanças e de novas situações, que surgiu em Angola, ao nível das cidades, um sistema de vida mais cosmopolita, que ficou a dever-se, sobretudo, ao novo ciclo de expansão económica, e à grande movimentação de gentes vindas da Metrópole e ali fixada desde 1961, de que Moçâmedes  e as outras cidades muito beneficiaram,  mas que  se reflectiu sobremaneira ao nível da capital.

Foi então que se descobriu lá mais para diante  como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso  algumas  letras causticas contra o regime...
 

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