19 março 2017

Moçâmedes e a sua juventude nos anos 60. Os conjuntos Musicais





Por esta altura, finais dos anos 1940, início dos anos 1950, o Rádio Clube de Moçâmedes, era, graças ao seu elevado número de sócios, e ao dinamismo da sua direcção, o clube organizador dos mais diversos eventos musicais na cidade, reunindo à sua volta toda uma juventude, feminina e masculina empenhada em colaborar. Foto Salvador


  


 Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes. De de cima para baixo e da esq. para a dt : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador.


Na velha gare do "campo de aviação", despedindo-se do Presidente do RCM, Augusto Cantos de Araújo.1947. Fotos Salvador


A orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes. Foto Salvador


Moçâmedes, a cidade do deserto, em matéria de divertimento das populações, desde os tempos mais recuados não deixava nada por mãos alheias. Este conjunto musical participava na altura no programa «Variedades» do Rádio Clube da cidade. Corria o ano de 1950, dessa famosa década que mobilizou toda uma população desde os mais jovens até aos de meia idade, em que foi lançada a ideia da organização de uma orquestra para o Rádio Clube de Moçâmedes".  O fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador era o saxofonista e chefe da orquestra. Raúl Gomes (pai) era o guitarrista,  Lito Baía, o seu filho que também tocava guitarra e viola, era acordeonista. Os bateristas eram o Firmo Bonvalot (mais tarde, o Albertino Gomes). Anselmo de Sousa era o trompetista. Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola) eram os violinistas. Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e Martins da Alfândega, eram os pianistas.
Conforme podemos ler num dos livros de Paulo Salvador:
 "...as músicas em pauta, eram conseguidas junto das orquestras de bordo dos paquetes que 2 vezes por mês aportavam à baia de Moçâmedes. O pai fazia amizades com os músicos de bordo e estes cediam, por gentileza, as músicas e canções em voga na Metrópole, que seriam cantadas aos microfones do Rádio Clube, depois de orquestradas pelo mestre Salvador. Os jovens e moças do Namibe, respondendo ao apelo, apresentavam-se para ver se tinham jeito, ( os castings de hoje...) . Recordando algumas das vozes que davam brilho aos programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado "Namibe".. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades. Que me perdoem outros Amigos e Amigas que também enriqueciam este programa, a quem, por lapso momentâneo de memória, não faço agora referência".

Recordando a figura de Antunes Salvador, numa revista teatral que foi levada à cena em Moçâmedes, brincando com os seus dotes musicais, cantavam :

Tocam hinos, tocam óperas
tocam marchinhas e valsas
e o Salvador tanto assopra
         que arrebenta o cós das calças ...

Nos aos 1950 surgiu o conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", o grande animador das festas de Moçâmedes. Eram eles que animavam os  bailes que aos sábados se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e  as matinées dançantes que acabavam impreterivelmente às 20 horas.

Os "Diabos do Ritmo" com Albino Aquino (Bio) ao acordeão, o professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva, ao piano, Albertino Gomes (bandolim), Frederico Costa (baterista), Jaime Nobre (violão).
Foto cedida por um conterrâneo

Da esquerda para a direita: Marçal (saxofone), Lito Baía, (violão e acordeão); O professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva (em substituição do pianista do conjunto, Bio Aquino, na época a cumprir o serviço militar obrigatório); Jaime Nobre, mestre de música, construtor de instrumentos de corda ( da guitarra clássica ao violino e aos xilofones), Cerieiro, instrumentista de rítmos (Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Frederico Costa , instrumentista de rítmos ( Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Albertino Gomes (o extraordinário e irrequieto baterista- animador, que também tocava banjo e bandolim e até acordeão). 

Falar dos  "Diabos do Ritmo" é lembrar os  animados  Reveillons e as Martinées dançantes  que na década de 1950 decorriam nos salões do Atlético e  do Clube Nautico. Dançava-se sem parar, ao som dos mais diversos ritmos, que iam desde movimentadas marchinhas brasileiras que estavam muito em voga,  a pasodobles, rumbas, chá-chá-chá, congas e baiões, música oriunda do Brasil e Caraíbas, não esquecendo os românticos tangos de Gardel, as  deslizantes valsas, e os suaves slows, géneros musicais daquele tempo como a  La Cumparcita

Como tocavam bem os "Diabos"! Quem poderá esquecer essas figuras inesquecíveis às quais a geração de 50 ficou a dever os mais belos e animados momentos das suas vidas.
Falar dos  "Diabos do Ritmo" é ainda reviver as serenatas pela noite fora realizadas à porta das casas das raparigas, em que músicos, cantores, instrumentos, incluindo o piano, corriam de porta em porta, fazendo-se transportar  em  camionetas de caixa aberta. É lembrar uma época em que bailes e matinées dançantes eram frequentadas por gente de todas as idades,  filhos, pais, mães, avós, que conviviam e se divertiam  num mesmo espaço.
Com o avançar da década de 1950 já os "Diabos" passaram a incluir no seu repertório o Twist e o  Rock n' roll, novos géneros musicais que exigiam uma outra desenvoltura, e que conviviam com o tango, a valsa, os sambas, as marchinhas e os baiões. Mas a música latino-americana era aquela que canalizava para a pista de dança o maior número de dançarinos.

MÚSICA LATINO-AMERICANA

Oiçam e percebam bem o porquê
de nenhum de nós poder esquecer
aqueles lindos bailes abrilhantados
pelos «Diabos do Rítmo», tão afamados,

nem daquelas jovens, as mais belas, já se vê,
que, coradas ouviam, cheias de felicidade,
aquelas juras que tão bem sabíamos fazer,
Naqueles anos doirados da nossa mocidade…

Oiçam esses boleros e a voz de cada cantor,
como eles vibram, nesse rítmo afro-cubano.
Eram mesmo os melhores a cantar e a compor.
Versos de amor, só cantados em castelhano…

Mas, ao som daqueles «Diabos-Mestres» a tocar,
quem não cantava bem, tendo-os a acompanhar
o ritmo do endiabrado Albertino, do Bio e Lito Baia,
Nobre, Marçal, Cerieiro e Neco, cada um como sabia…

Esquecer um grupo, como outro não houve nenhum,
seria sem dúvida de estranhar, de nunca acontecer.
Festas, Fins de Ano, Carnavais, Serenatas na cidade,
Inesquecíveis Bailes, os melhores das nossas vidas.

Quem alguma vez nos deu, Conterrâneos, mais alegria?
Quem, senão eles, tocava e só parava ao raiar do dia,
depois de um desafio que demorava horas seguidas,
em festas que sempre recordaremos com saudade…

Alguém poderá estranhar, algum de vós se espanta,
que ouvindo os Boleros que agora vos venho mandar,
para que possam recordar aqueles «Diabos» a tocar,
Ficasse eu de olhos húmidos a relembrar as juras
que fiz naquelas noites d’encanto e de felicidade,
dos anos mais lindos da nossa gloriosa mocidade,
que na mente se guardaram, inteiras e tão seguras
e, de coração acelerado, criasse um nó na garganta?

NECO MANGERICÃO.




Mas o tempo não pára, e no mundo Ocidental, os anos 60 do século XX constituiram aquilo que se poderia considerar um século dentro do século. A intensidade e abrangência das transformações comportamentais, ideológicas e culturais foi tal, que seus efeitos morais e psico-sociais marcaram as gerações seguintes, continuaram em plena vigência, desafiando artistas, pensadores e estudiosos em geral. Foi a década dos Beatles, dos Rollings Stones, do Bob Dylan, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, etc etc. Uma década marcada pela revolução sexual, pelo movimento hippye, pelo culto às drogas e do psicodélico, pela utopia marxista, a Guerra Fria, o assassinato de Kennedy, a Guerra do Vietnam, a revolta estudantil em Paris, e no mundo do cinema os filmes de Godard, Pasolini, Visconti, Fellini, Antonioni, Buñuel etc.etc. O mundo nunca mais foi como dantes!   Longe desse enfoque, nos confins da África Ocidental, em Angola, mais propriamente em Moçâmedes, as nossas gentes, os nossos jovens, também sentiram os efeitos dessas transformações que, soprando  dos EUA, alastraram pela Europa e acompanharam o novo ciclo de expansão económica, e a grande movimentação de gentes vindas da Metrópole,  com reflexos no campo social e ao nível das mentalidades.

Será preciso, porém, lembrar que vivíamos num quadro político de pouca abertura, em regime de ditadura do Estado Novo, sempre atento à penetração e disseminação das ideias vindas de fora, através de livros, revistas, etc, que eram censurados, essencialmente as ideias marxistas, consideradas altamente subversivas.  Essa era grande preocupação nessa área do saber, enquanto a penetração dos novos gostos musicais se fazia naturalmente,  através das bandas musicais e da moda, os aspectos ligados ao lazer da vida que não sofriam quaisquer impedimentos.   Já foi atrás referido  que os primeiros passos surgiram na segunda metade da década de 1950, com twist e o rock-n-roll, géneros  musicais que abriram as portas para o Yé Yé e o futuro Pop Rock.

 
No Parque Infantil, numa manhã de domingo. Foto cedida por um conterrâneo


Na década de 60 já os jovens adolescentes em toda a Angola passaram a formar bandas onde fervilhava  o Rock n' Roll  protagonizado por Elvys Presley, Bill Halley e seu cometas, Clif Richard,  The Shadows, the Searches, The Animals.,  Paul Anka, Neil Sedaka, Fabian, Adamo, e tantos outros que eles escutavam atentos através das emissoras locais ou dos vinis de 33 ou 45 rpm,  que chegavam até eles com mais de um ano de atraso.  Juntavam-se nas casas uns dos outros,  normalmente em  garagens,   e enquanto punham rádios ou  os discos a tocar, tentavam dedilhar as novidades  musicais para  em   seguida  as reproduzir o melhor  possível, pois tudo era de improviso, não havia escolas de música, fosse em guitarra eléctrica/acústica, bateria ,  piano,  orgão, instrumentos de sopro,   etc etc.  Conseguida  a formação da banda, depressa apareciam os cantores, e  cada grupo tudo fazia para se sair o melhor possível na  sua actuação nos bailes do Casino, do Atlético, do Ferrovia, do  Salão Nobre da Associação Comercial, do Palácio do Governo do Distrito , na 1ª  Discoteca,  que entretanto inaugurou.
O «Conjunto Ferrovia», acompanhando Lena Rocha. 1964.
Foto cedida por um conterrâneo
 Elementos e acompanhantes de um dos Conjuntos Musicais de Moçâmedes, o  «Conjunto Ferrovia», no decurso de uma atuação no Palácio do Governo do Distrito de Moçâmedes.  Da esq. para a dt: Tiago Costa (não pertence ao conjunto), Reinaldo Bento (vocalista), Alegria Costa, Laurentino Jardim, Raúl Baía,  Ratolas e Guilherme Jardim (não pertence ao conjunto). 1964.Foto cedida por um conterrâneo

 

Ratolas(?), Reinaldo Bento (vocalista),  Guilherme da Silva Jardim e Tiago Costa. 1964



Laurentino Jardim e Reinaldo Bento.

Foto cedida por um conterrâneo



Os Goldfinger.Foto cedida por um conterrâneo


 Goldfinger Ratola, com Matos, Bento César e  Abreu

Banda feminina em 1971 , quando Riquita foi Miss Portugal. Foto cedida por um conterrâneo.



A verdade é que nada nem ninguém podia travar a penetração dessa onda que veio colocar na prateleira os tangos,  as valsas, os pasodobles, etc,  que foram substituídos pelo  rock' rol e pelo twist, pelas músicas dos Beatles que tinham sido lançadas com grande sucesso, e arrebatavam a juventude. A guitarra eléctrica foi o principal instrumento da música popular mundial, tornando-se praticamente indispensável em toda banda que era formada. foi o ponto de partida para elevar o Rock a patamares de música popular mundial. A guitarra transformou-se em uma arma a favor da liberdade nos conturbados anos 60 e 70, em meio a guerra do Vietnam, movimento Hippie, popularização dos direitos de várias minorias, etc. Passou a ser algo muito além de um instrumento musical, um simbolo que representou diversos movimentos ao longo do último século.
Sobre esta matéria foi recentemente publicado um interessante livro dedicado a BETO DOS WINDIES, nome musical, BETO KALULU      que abrange desde a cena musical em Luanda à consagração no Algarve e mostra bem aquilo que foi este movimento.    Tive o grato prazer de receber em minha casa, pelo correio, um exemplar do livro que me foi enviado por Joaquim Correia com uma simpática dedicatória, que muito agradeci. O livro inclui na pág 142 uma foto de um quadro por mim pintado de uma daquelas belas mulheres da tribo  himba, do sul de Angola, Deserto do Namibe.  Foi assim que tive acesso a este livro, muito bem estruturado e ilustrado, testemunho de uma época no que toca a bandas musicais, porém  mais centrado em Luanda, o qual recomendo.
  
Seria bom que alguém entendido na matéria escrevesse também sobre as bandas musicais em Moçâmedes, que ainda foram algumas, pois delas pouco ou nada sabemos, nem fotos temos para mostrar, excepto as colocadas no início desta postagem.   Saber, por exemplo o que era ser jovem em Moçâmedes nos anos 60 e 70,  nesse tempo em que a nossa "juventude rebelde" desafiava também, embora ela à sua maneira, a velha ordem, quanto mais não fosse usando, eles, cabelos compridos à beatle, calças boca de sino, andar despreocupado mascando swinga, calças e blusões de ganga, sapato de tacão alto... E elas, mini-saia, calção curtinho, pernas ao léu, saias floridas até aos pés,  olhos pintados, tira amarrada na cabeça, cigarro na boca, sandália no pé...

Os anos 60 foram pois aqueles em que entre nós o controle familiar começou a afrouxar face ao impacto das novas liberdades trazidas pelos ventos vindos de fora trazendo uma certa revolução nos padrões de comportamento, na forma de viver e de amar.

Os jovens começaram a construír um novo estilo de vida, passaram a conviver entre si, e a divertir-se sem a presença vigilante da família, como era comum nos anos 1950, quando vigoravam os "salões românticos" onde se dançavam tangos, valsas, slows , etc. Entrara-se na era das discotecas onde tudo, luzes, corpos, etc,  ganhava um outro dinamismo.  

O desenvolvimento económico do pós guerra veio ajudar a deitar por terra muitas barreiras. O avanço da Ciência veio libertar a mulher do espectro da maternidade não desejada. A descoberta dos contraceptivos,  deu às jovens uma liberdade sexual até então desconhecida, e veio gerar um imparável movimento de autonomia que as libertou de séculos de submissão a um patriarcado avassalador.

No nosso pequeno mundo em transformação  se é certo que não tivemos festivais de música estilo Newport, que atraiu uma imensidão de  jovens que procuravam não só o divertimento musical mas igualmente o debate de ideias. Não tivemos  movimentos de contestação estudantil  contra as injustiças sociais: a pobreza, o racismo, a guerra do Vietnam, a inferioridade de direitos das mulheres, etc, que noutras latitudes levaram a manifestações e à confrontação com a polícia.  Pelos motivos óbvios a contestação política não estava nos horizontes da nossa juventude. Nem podia estar. Era-nos vedado esse direito. Vivíamos numa sociedade onde havia censura, onde existia a PIDE, e que, apesar de suavizada com a "Primavera Marcelista", não permitia esse tipo de manifestações públicas. Os nossos ventos de mudança  não tiveram uma expressão radical.  Foram acontecendo, impulsionados pelo ritmo e pelas letras da música, pela moda, e através de  alguma  literatura clandestina de difícil acesso, bem como por determinadas exibições cinematográficas que sempre iam escapando à vigilância do censor. Tudo isso, muito paulatinamente ia  contribuindo para as mudanças que iam acontecendo. 


Foto cedida por um conterrâneo

Em Moçâmedes, as festas e os bailes, desde meados da década de 1960 começaram a  acontecer também no interior de discotecas que por toda a Angola começavam a despontar. Os jovens queriam divertir-se entre eles, já não indo aos mesmos bailes que os pais, ou fazendo-se acompanhar por pessoas mais velhas (as raparigas), dizia-se então,  percebendo-se a crítica e o receio ao que é novo...


Cedida por Manuel Faustino
Cedida por Manuel Faustino

Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos e valores da juventude. Aqui há algo que  nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varreram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual,  na postura.  Considero que estas fotos tem valor histórico.  Elas marcam uma época de ruptura com a época anterior, que terminou entre nós com a entrada na década de 1960. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes, sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam.
 
Foto cedida por um conterrâneo

    Baile na Paróquia. Cedida por um conterrâneo. Foto Salvador

Mas também foram desta época os movimentos católicos influenciados pelas Encíclicas Papais de João XXIII (Vaticano II) que passaram a estar presentes no meio juvenil, atraindo-os a si com a organização de eventos (bailes paroquiais, missas yé-yé, programas de assistência social etc). 
  
Em meio a um mundo em transformação, a Igreja toma posição através de alguns párocos que rompendo a tradicional resistência à mudança, passaram a  procurar e a  chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências, resgatando  valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.

Em Moçâmedes foi o Padre Martinho Noronha  um dos promotores do movimento desta causa dedicadas aos jovens paroquianos, que procurava, naturalmente desviá-los  dos "males" trazidos por uma época marcada por um turbilhão de mudanças. Este  foi o tempo da introdução entre a juventude do vício da liamba/haxixe, ou cannabis, entre os jovens de Angola, flagelo para eles e para os pais que não mais tiveram sossego.

Outro exemplo foi o Movimento de Encontros de Jovens Shalom, que se  espalhou por várias cidades de Angola, com o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. Ordenado em 1968 este jovem padre foi sacerdote em  Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude

 
                                No Lubango (Angola). Chamavam-lhe as "missas yé...yé..." 

Em 1972, com outros jovens, o Padre Luís Carlos fundou uma Comunidade voltada para a evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Toda esta abertura da Igreja estava relacionada com as mudanças trazidas pelo  Concilio Vaticano II que se estendeu e  chegou ao fim em 1965, ficando marcado pela reunião  do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com lideres dos movimentos independentistas das colónias portuguesas de África.  A   Encíclica “Populorum Progressio”, acolheu a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Eram  mudanças que  preocupavam o regime. Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluso religioso.

A geração de 60 foi por toda a parte protagonista de uma revolução nos costumes cujos resultados são vivenciados hoje. Foi então que se descobriu lá mais para diante  como o rock podia emanar sensações africanas, e lá para os anos 70, incluso  algumas  letras causticas contra o regime. (1)
                                                                                                        



 MariaNJardim





ATENÇÃO:
Estas fotos são pertença dos nossos amigos e conterrâneos moçamedenses, pelo que ninguém, excepto aqueles a quem as mesmas dizem respeito, poderá daqui retirar algo sem a devida autorização, incorrendo em falta quem o fizer. Também o texto tem direitos de autor que devem ser respeitados.

MariaNJardim

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