16 agosto 2017

Os transportes utilizados em Moçâmedes, pelos primeiros colonizadores





Carregadores. Fotografia de Veloso e Castro, 1909

Carregadores numa das ruas de Moçâmedes

Uma carroça boer junto do edificio da Alfândega então ainda em construção


Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando famílias de colonos chegaram a Moçâmedes idos de Pernambuco (Brasil), nos longínquos 1849 e 1850,  inflamados pelo desejo de encontrar ali a fortuna, e a segurança de que haviam desesperado em terra estranha, encontraram apenas uma baía em forma de concha, preenchida na sua metade por uma extensa praia arenosa, onde desaguava um rio de águas temporárias, e na outra metade por um morro agreste, no seu conjunto um lugar desértico entalado entre o deserto e o mar. Por falta de meios do governo da Metrópole, insignificantes haviam sido os progressos, e Moçâmedes estava à época reduzida a pequenas feitorias de vida breve, a alguns soldados alojados no rudimentar forte/presídio, e a uns poucos degradados a cumprir as mais diversas penas. Conta-se que Bernardino Freire de Abreu e Castro, o chefe da colónia de 1849, ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, o Bero,  ter-se-ia sentido decepcionado, porém, mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as água das enxurradas ao invadirem as margens, levam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que fazia das "Hortas" um verdadeiros oásis. 

Conforme os «Annais do Muncípio de Moçâmedes», de início os meios de transporte utilizados  foram o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó e o camelo, ou mais propriamente o dromedário,  este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849. Mas não podemos esquecer os carregadores, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões. Aliás vamos começar este apontamento, precisamente pelos "carregadores".


Os "Carregadores"

Este foi um meio de transporte humano crucial nas colónias de África e não só, eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam os seus países, em detrimento de quaisquer outras comitivas, impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas.  Entre esses povos exclusivamente dedicados por conta própria ao transporte de mercadorias em Angola, na época, evidenciavam-se os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela, e os mondombes, em Moçâmedes.

Reunidos em caravanas para evitar o risco de assaltos e roubos pelos homens da guerras étnicas, insubmissas à  colonização, os carregadores atravessavam o sertão em viagens sempre penosas, transportando consigo uma esteira ou um cobertor, uma pele de cabra a servir-lhes de cama estendida no chão onde acampavam, uma panela de barro para o infundi (massa de farinha de mandioca ou de milho),  uma cabaça para a água e os utensílios indispensáveis para a viagem. As caravanas iniciavam a marcha descansando ao pino do sol e reiniciando mais pela tarde. As das expedições militares eram compostas por mais de mil carregadores, evitando assim os ataques, e em casos de deserção ou doença, para mais fácil redistribuição da carga. Demoravam em marcha forçada (sem impedimentos de qualquer ordem, como ataques inimigos ou chuvadas torrenciais), entre quatro a cinco dias, para perfazer entre 50 a 70 quilómetros, com a agravante de carregarem todo o material às costas. Corriam ainda os riscos da condição física, da fome, das chuvas tropicais que grassavam. Eles transpunham rios, subidas e descidas onde os mais fracos sucumbiam, sendo deixados, por vezes, moribundos. Não raro, a escassez de alimentos a isso obrigava. A caravana era completada por exploradores, os pisteiros que conheciam na perfeição todos os traços “ocultos” dos caminhos, dependendo dos seus conhecimentos maior rendimento das caravanas.  Na Lunda os bangalas ciosos das suas prerrogativas de intermediários do comércio, e senhores dos portos do Cuango, não permitiam a passagem para oeste aos undas e kiokos, nem para leste aos comerciantes, e em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estava ainda sob a dependência das caravanas de "carregadores" sujeitos
às mais variadas contingências, de entre as quais, os capricho dos sobas, a rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio, as já referidas guerras gentílicas, os conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos, proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciais, etc.

No último quartel do século XIX, no distrito de Moçâmedes, com o estabelecimento da colónia boer que veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, a elevados preços, as caravanas de "carregadores" mondombes entraram em recessão.




Legenda: Colono de Moçâmedes montado n'um boi-cavalo. O boi-cavalo era o transporte utilizado por alguns colonos fundadores de Moçâmedes, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, nas suas deslocações às Hortas ou à Quinta dos Cavaleiros, como seria o caso de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.


O boi-cavalo

A utilização do boi-cavalo como meio de transporte foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou outros meios de transporte, substituindo-as pelos bois. O boi-cavalo foi o meio de transporte para montado e tracção adoptado na labuta agrícola nesses tempos iniciais, para além da machila, da tipoia e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas no sul de Angola pelos boers.

Sobre o boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas crónicas que à chegada dos colonos, em 1849,  para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes,
em 1884, que Francisco Maia Barreto, da 1ª colónia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

 A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":

  "...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere  também o autor do livro "45 Dias em Angola", 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia" --designação que os moradores davam à povoação de Moçâmedes--,  principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica  à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois,  a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.


  Um riquexó em Moçambique


 O «riquexó»

O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado à mão por um condutor...

O 8 de Dezembro de cada ano, e as Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Moçâmedes. Esta foto das primeiras décadas do século XX, ainda de um tempo em que o transporte da pessoa era efectuado em veiculo de tracção humana (?), tipo riquexó ou cabriolet, talvez "charrete"de tracção animal (?), conforme se pode ver encostadas às paredes laterais da Capela . (à esq. na foto)



Subindo a Chela de machila

A machila

Outro meio de transporte utilizado era a machila, "...espécie de palanquim suspenso, servido por dous pretos.", como  referido pelo mesmo autor:

"...Farei a descripção d'este traste, que faz parte de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em todos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por motivo de retirada, como de fallecimento. A base que serve de assento pôde comparar-se á de um canapé de palhinha, de metro e meio de comprido, e setenta centímetros de largura. N'uma das extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitudinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremidades partem cinco cordões, que atravessam a grade de madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de um metro, a umas argolas que se introduzem em dous ganchos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notável leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de um bambolim, para esconder os arames em que correm duas cortinas de chita adamascada de cores muito vistosas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da tunga e como então o assento fica apenas arredado do chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar para entrar para a machilla, onde se senta com as pernas estendidas, como quem está n'um banho de tina. Os pretos carregadores marcham um diante do outro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeitamente os dous carregadores, e até quem vai dentro d'e11a. Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chibalinha, ou um cacetinho curto, principalmente os carregadores, que parece ao andar equilibrarem-se com elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Alguns usam um pau curto com uma bola na extremidade, e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a grandes distancias tão certeiramente, que chegam a matar caça. A primeira vez que entrei n'uma machilla senti grande repugnância ao vêr-me transportado por dous homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguardado por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a cidade alta. O balanço que se sente ao andar é agradável como o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo este meio de locomoção não deixa também de ter seus inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, ou que a tunga quebra, tem a gente de sofrer não só a queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos à pequena altura entre o chão e o assento da machilla."


Os camelos, ou mais propriamente, os dromedários



Conforme «Anais do Município de Moçâmedes»,  esta raça de camelos foi introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849. (1) 


Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia de fundadores, vinda de Pernambuco, Brasil, em 1849 (1)


Era o meio de transporte mais aconselhado em substituição dos carregadores (1) a quem os colonos
tinham que pagar preços considerados exorbitantes, para além de levarem menos carga, e de muitas vezes não estarem dispostos a prestar os seus serviços onde e quando se requerem, sujeitando o comércio e a agricultura a contingências de que resultavam prejuízos e despesas.



Subindo a Chela com dromedários, a 
 caminho do Cunene...


Informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862,  referem que o camelo, ou melhor o dromedário, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Moçâmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de construção, tais como malas de peixe, sacos de fuba, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, pedra, cal, adobe, etc., etc.´

Chegados a Moçâmedes, adquiridos  nas Canárias, estes animais adaptavam-se bastante bem, e reproduziam uma raça robusta, sem vestígio de degeneração. Eram de uma variedade da raça primitiva do norte de Africa,  que conseguia  trilhar terrenos montanhosos, os trajectos entre Moçâmedes e a  Chibia, com resultado satisfatório. Sem grande esforço era capaz de transportar uma carga de até 450 kg, enquanto um carregador em viagem demorada não levava mais de 30 k. Tornaram-se imprescindíveis quando das campanhas do Sul de Angola, desde finais do séc XIX, quando após a Conferência de Berlim e a "partilha de África" pelas potências europeias  (1884-5),  a penetração territorial e a ocupação efectiva e o  avassalamento dos chefes tribais tiveram lugar.


Esta foto de 1915, no Lubango, mostra-nos a descarga dos dromedários que transportaram o material militar e viveres  destinados  às forças do Batalhão Expedicionário de Marinha que avançavam sobre o Sul de Angola, desde o seu desembarque em Moçâmedes. (Foto de Alberto de Castro). 


Com a Fortaleza de S. Fernando ao fundo, à dt, numa época em que já existiam alguns postes de  luz nas ruas, alimentados a óleo de peixe, e que se pressupõe no início do século XX, este postal mostra-nos dois dromedários daqueles aqui referidos, que foram uma mais valia em tempos de campanhas militares e desembarques de munições no porto de Moçâmedes, rumo à  fronteira sul.


In Exploração geografica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895, podemos ler:

"...Os camelos são de fácil tratamento, sobretudo se vierem das ilhas Canárias acompanhados por pessoas habilitadas a tratal-os; comem pouco, bebem pouco` andam bem, transportam cada um meia tonelada de carga e o seu apparelho, chamado cangalha, é de facil manejo e construcção; 3 a 4 camelos transportam a carga de um Wagon com economia de tempo e dinheiro. O preço de um camelo (dromedario) originario das Canarias regula por 455000 a 60$OO0 réis. Tal foi o preço por' que elles vieram para o agricultor que os introduziu em Mossamedes. Accresce ainda que este animal é um excellente meio de transporte para passageiros, podendo conduzir até 4 pessoas em sellas especiaes, de que existem modelos em Mossamedes. Melhor seria que em vez dos dromedarios (de uma só bossa) se adoptassem os verdadeiros camelos de duas bossas que podem transportar quasi uma tonelada, escolhendo-se para passageiros os pequenos, chamados vnelzaris, que foram adoptados pelo exercito francez para o transporte de tropas no Sudan. Com estes ligeiros animaes fazem-se viagens longas, rápidas e económicas com vantagem sobre os cavallos, bois-cavallos e tipoias.

"...O ensaio feito em Mossâmedes com os camelos oriundos das Canárias tem dado bom resultado; os animaes acclimaram-se reproduzindo uma raça robusta, em que não encontrei o menor vestígio de degeneração. Tem-se dito que o camelo não serve para os terrenos pedregosos e planálticos abundantes de vegetação, aguas e dotados de clima frio` por ser originário dos países arenosos, baixosI aridos e quentes e por não ter os cascos apropriados ao terreno duro. Estas considerações serão verdadeiras para os camelos originários do Sahara, mas não o são com certeza para os das Canarias, variedade da raça primitiva do norte d”Africa, longamente modificada pelo clima temperado do archipelago e habituada a trilhar terrenos montanhosos. Posto que em Mossamedes os empreguem habitualmente em viagens na zona baixa, as experiencias no planalto, feitas por mim e pelo negociante da Chibia, o sr. Antonio d'Almeida, deram resultado satisfactorio. "





As "caravanas boers"

Em 1881, levados para as terras altas da Huíla desde o Transvaal pelos boeres, que se fixaram  na região da Humpata, surgiram as "caravanas boers" veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes, sob um toldo curvo de lona. destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam entre Moçâmedes e a Huila, e vice-versa, etc, que se fazia a distribuição das mercadorias  dos locais onde eram produzidas, para os locais onde eram procuradas por consumidores, que de outro modo estavam  impossibilitados de as adquirir. Foi uma verdadeira revolução nos transportes.
Os chefes boers que negociaram a entrada em Angola, e o seu estabelecimento 
na região da Huila com o governo português

Quem eram os Boers?

Os boers eram descendentes de colonos calvinistas de origem alemã, francesa e sobretudo holandesa, expulsos da Europa, na sua maioria pela revogação do edito de Nantes, e perseguidos religiosamente em diversos países, que desde 1652 haviam se fixado no Orange e no Transval (África do Sul), então em guerra de independência com os ingleses. Em 1870, boers holandeses, fugindo da guerra entre holandeses e ingleses, e ao domínio dos ingleses, devido jurisdição colonial inglesa, atravessaram o deserto a partir da Ovambolândia,e começaram a chegar a Moçâmedes, onde se refugiaram através da fronteira do Cunene, em 17 Setembro de 1880 (1).

Em 1881, 57 boeres partiram de Moçâmedes rumo ao planalto, região da Humpata, onde estabeleceram um primeiro núcleo de famílias, em terrenos concedidas pelo Estado (100 hectares por cada família), a troco da obediência às leis portuguesas, fundando a «Colónia de São Januário». (1).

A chegada dos boers a Angola foi proveitosa para a agricultura e para os transportes. Eles deslocavam-se em carroções compostos de 4 grandes rodas de madeira protegidas com aros de ferro, puxados por 10, 12 ou 18 juntas de bois (espanas), conforme o peso das cargas, e com mais duas ou três espanas de reserva ligados por "cangas". Próprios para caravanas, eram usados pelos militares, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada.

Por esta altura a influência de Portugal no planalto era insignificante, com apenas pequenos núcleos de portugueses dispersos pela região da Huíla e do Humbe, resultante de uma primeira tentativa de colonização, na base de degredados, que dependiam da autoridade dos sobas da região. Também havia chegado ali uma colónia alemã que acabara por desaparecer sem deixar vestígios, para além uns poucos colonos livres do norte de Portugal que travavam negócios com povos da área, e da célebre Companhia Militar Agrícola, onde predominavam soldados deportados que acabaram por desaparecer devido a má administração, roubos extorsões aos indígenas, etc. 

Com a fixação dos boers nas terras férteis da Huíla,  não tardou que tivessem início sangrentas lutas entre eles e os indígenas da região, acostumados que estavam a vencer e a dominar africanos, a quem rapidamente impunham a sua influência, que passava a ser acatada em beneficio da autoridade portuguesa. Os boers ajudaram a pacificar a região, a capturar e a substituir o Soba dos Gambos, e deram uma grande contribuição para o desenvolvimento do sul de Angola na abertura de «picadas» (estradas), que deram lugar a novas rotas de comércio entre a Huila e Moçâmedes e também para as longínquas terras do além Cunene. Mas a presença boer no território preocupava a autoridade portuguesa, temerosa do alemão, do boer, dos avanços britânicos sobre o sul de Angola. Houve que atrair agricultores madeirenses para o local.

 Sabe-se que boers, que até então eram únicos senhores a fértil e salubre região planáltica, cultores do seu viver austero e pouco exuberante, possuidores de casas bem construídas, espaçosas, cómodas e organizadas, desgostaram-se da proximidade dos novos e turbulentos vizinhos, os concorrentes madeirenses que por sua vez constantemente os acusavam de terem conseguido a melhor partilha na divisão dos terrenos pela autoridade, e sobre a partilha das águas. Note-se que na 1ª colónia de madeirenses não houve lugar a selecção, e com a pressa de colonizar, Câmara Leme, o promotor da fixação, deixou embarcar indivíduos de baixa esfera, indolentes e viciosos que contribuiram para a difamação do grupo. Em consequência, os boers venderam os seus terrenos e foram estabelecer-se na Palanca, e alguns mesmo, os mais descontentes, tomaram a resolução do regressar para o Transvaal, na época em que findaram os seus contratos, em 1885. 

Descarregando víveres na Rua das Hortas, em Moçâmedes


Carregando água em barris através de um chafariz, com edifício da Alfândega ao fundo. Conforme Manuel Júlio de Mendonça Torres na sua obra "Moçâmedes, no período entre 1860 e 1879" a vila já contava com o edificio da Alfândega, e já estava feito o traçado para a primeira ponte de cais e estrada para Capangombe. 


 Carroça Boer com edifício da Alfândega ao fundo.
Rua dos Pescadores, no troço que passa pela Praça Leal, antiga de Táxis. Neste tempo as carroças de estilo boer eram o mais eficiente meio de transporte, antes do comboio e do automóvel. Para grandes travessias no deserto preferiam os dromedários adquiridos nas Canárias. Foto de finais do século xix
Preparados para uma festa, numa das ruas de Moçâmedes. Cedida por Antunes da Cunha

O que resta hoje em dia  de uma carroça boer, que foi algo revolucionário  
na Angola do ultimo quartel do século XlX...




Pesquisa e texto de MariaNJardim





(1)  Joaquim de Paiva Ferreira, trata-se de um componente da Primeira Colónia que foi proprietário de uma fazenda situada na várzea da Boa Esperança, e cujo nome vem mencionado como vogal de uma comissão formada em Moçâmedes para a formação da Escola Luz Africana, por iniciativa da Loja Luz Africana, de raiz maçónica, inaugurada em Janeiro de 1882. São referidos outros nomes sonantes ligados à maçonaria e a esta Escola, como o do presidente da referida comissão, Francisco José de Almeida, e o professor do novo estabelecimento de ensino, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior . À cerimónia da sua abertura da dita Escola teria assistido grande número de pessoas. Moçâmedes , segundo se salientava, «era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforço.»...«Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. »  In CULTURA, EDUCAÇÃO E ENSINO EM ANGOLA


A região que ocuparam, nas terras altas da Huíla, situada a uma altitude de 1887 metros, era dotada de um clima salubérrimo, com água em abundância e terrenos férteis, prestando-se a todas as culturas de tipo europeu.