16 novembro 2018

Calipalula e as Campanhas do Cuamato de 1907.

 

Na foto: Calipalula e as Campanhas do Cuamato de 1907. Fidalgo Suamato que conduziu as tropas à embala do Cuamato Pequeno, em Maghogo.Autor: José de Almeida "Pesca-Rãs". Estando de relações cortadas com o sóba, foi o guia da coluna. Ao ver a embála d'este destruida, suicidou-se. Documentos Carvalhão Duarte/Rocha MartinsTipo


"A esse tempo acabava seus dias no Cuanhama, o regulo
Calipalula, que tantos serviços prestou ás tropas poriugaczas, servindo de guia nas campanhas do Cuamato,

Calipalula, fidalgo das tribus do Cuamato, era um verdadeiro heroe de romance. De estatura gigantesca, e com conhecimentos litterários,impuzera-se ao gentio, e o Soba Chaula receoso, julgou vêr nelle um pretendente. Um conselho secreto resolvia a sua morte e nas florestas era o negro atacado á zagaia, escapando porém e sendo tratado na missão allemã do Cuanhama, onde novos elementos de instrução lhe foram ministrados. De regresso ao território do Cuamato, sem no coração reter ódios, teve logo novas investidas contra a vida e o gentio, levado pelo soba, revoltava-se, dizendo-o traidor, amigo dos brancos A tuga impoz-se e Calipalula, dessa vez cheio de ameaças,resolveu procurar os portuguezes a despeito do tio lhe predizer má recepção, visto ter sido um dos auctores do desastre de 1904 das forças lusitanas. O que foi esse desastre?

N'um acto de reconhecimento aos negros revoltados do Cuamato, feito por 16 officiaes, 2 primeiros sargentos, 10 segundos sargentos e 907 praças europeas com o appoio de 146 indígenas, o inimigo, apparecendo ao transpor do Cunene. trucidava a columna do commando do capitão de artilharia Pinto de Almeida, sendo 1.as victimas o tenente de Marinha João de Faria Machado Pinto Roby de Miranda Pereira e o medico naval dr.Manuel João da Silveira, e escapando apenas pequeno numero de praças irregulares que lograram fugir, aos primeiros tiros. No Cuamato pereceram 254 heroes da Atrica. Levado pela sua ideia, Calipalula, monta a cavallo e parte. No caminho, um troço de cuamatos, assalta-o.Destroça-o e é ferido, conseguiu passar o Cunene e abrigar-se nom Calú, donde transitou para o Humbe, apresentando-se ao commando portuguez. Era a vingança de Calipalula.Descrevia a chacina de 19o4: nem um branco escapara, visto os de Cuamato não perdoarem vidas;as armas apprehendidas foram para o Cuamato grande e dos guerreiros da época, muitos ambicionavam nova guerra, estando o armamento Já todo no matto. Fornecia elementos para a incursão , traçou itinerários e a expedição de 1907 fazia-se servindo ele de guia levado pelo ódio pelo espirito de reivindicta. O expatriado pôs-se à frente da coluna que ia para o Cubango e guiou-o pelos meandos misteriosos de África, até que Portugal se apossava do Cuamato Grande. Ao içar a bandeira azul e branca o capitão Alves Roçadas, investia-o solenemente no sobado. O reconhecimento pelo gentio consistia na entrega de uma negra, a mais linda da tribo. Os vassalos trouxeram-lhe contudo uma velha horrível , feia, entre os esgares de alguns e o voltar costas de outros . O desprestígio era patente. e Calipalula tentou suicidar-se desfechando um tiro sobre o queixo. Voltava ao Humbe ferido e sem esperanças. O régulo vencido atormentava-o nos seus sonhos e Calipalula, usando a sua vingança ao mesmo tempo que o íntimo o censurava a traição aos seus, recusava continuar a viver com os portugueses e internando-se no Cuanhama, ali falecia ignorado e solitário, fim predicto pelos "quimbandas" como recompensa ao seu acto.
A sua atitude nas campanhas de 1907 foi relembrada numa conferência realizada em 31 de Maio de 1908 na Sociedade de Geographia pelo então já tenente coronel Alves Roçadas e exalçada, como a de um oficial precioso dos portugueses para a conquista do Ovampo..


In "A Revolução Portuguesa - 1915 - Armando Ribeiro.
https://pt.scribd.com/…/2661154…/A-Revolucao-Portuguesa-1915

04 novembro 2018

Aguarelas de Namibe


 Serra da Leba

Os cerca de 200 km que separam o Namibe do Lubango são feitos pela nacional 280, uma estrada agora de bom asfalto que inicialmente atravessa superfícies arenosas quase desérticas à cota do mar, até se aproximar da Serra da Leba onde pela sua influencia tudo se vai tornando mais verdejante e fresco. Aí iniciamos um dos percursos mais curtos, mas mais contrastantes e vertiginosos de todos os que fizemos em Angola. A Serra da Leba constitui um enorme degrau geográfico que divide aquela zona de África da influencia atlântica e da influencia continental. Em pouco mais de 20 Km passamos quase do nível do mar até mais de 2000 metros de altitude. Nas curvas que serpenteiam a subida vamos sentindo as mudanças climáticas, passamos pelas nuvens, pelas sombras frias, por cascatas cobertas de musgo, assim como pelas escarpas expostas ao calor tórrido, também por trovoadas e aguaceiros que na curva seguinte se dissipam na evaporação do asfalto ainda quente. Todo o cenário é já um filme, mas não havia espaço para parar e filmar. Saí do carro e subi alguma parte a pé entalado entre o esmagamento do rodado dos camiões que desciam a chiar dos travões e a vertigem das escarpas separadas pelos rails de protecção que pareciam não ter espaço na beira onde se agarrar. Numa curva uns quilómetros mais acima havia de estar o Câmera-men que com a lente me ia seguindo à distancia.








 Rio Muninho


Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos.
Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos. 



 

 No Namíbe

No Namíbe tudo se estende na horizontal, a construção é de baixa densidade e de baixa altura, há muito espaço para tudo se espraiar junto do litoral pelo solo árido e desértico. O caminho de ferro de Moçâmedes começa ali num emaranhado de carris até à data ferrugentos. Esta é segunda linha férrea mais importante de Angola começada a construir logo no início do século XX pouco depois da linha de Benguela. Em Agosto passado foi reactivada, pouco a pouco as artérias de Angola sejam em ferro ou asfalto vão recomeçando a funcionar.
No Namíbe tudo se estende na horizontal, a construção é de baixa densidade e de baixa altura, há muito espaço para tudo se espraiar junto do litoral pelo solo árido e desértico. O caminho de ferro de Moçâmedes começa ali num emaranhado de carris até à data ferrugentos. Esta é segunda linha férrea mais importante de Angola começada a construir logo no início do século XX pouco depois da linha de Benguela. Em Agosto passado foi reactivada, pouco a pouco as artérias de Angola sejam em ferro ou asfalto vão recomeçando a funcionar. 


 

 A Baía de Namibe


A Baía de Namibe é desolada suja e encantadora. Felini podia bem ter rodado ali um filme, mesmo no seu tempo e nos anos que a cidade conheceu alguma prosperidade o cenário não terá sido muito diferente. Agora com a patine impressa pelo tempo, a ferrugem dos aparelhos de pesca que restam, as brincadeiras das crianças descalças que chutam qualquer coisa que sirva de bola, as carcaças das embarcações, a vadiagem de canitos pele e osso, o ar desocupado das pessoas numa cidade com tanta terra ainda por ocupar, torna tudo verdadeiramente encantador, com tanto tempo que parece ter para gastar apetece ficar a fazer um filme sem mais nada, montar o tripé e deixar a câmera ligada. Esse seria o verdadeiro registo da Baía de Namibe, mas a história que tinha-mos de contar era outra. Foram estas as primeiras casas algumas edificadas outras escavadas na falésia que os Portugueses vindos do Algarve construíram. Quando Capelo e Ivens aqui chegaram em 1884 a cidade de Moçâmedes (actual Namibe) ainda mal figurava no mapa, aqui formaram a caravana de guias, carregadores e toda a logística necessária, deixaram o atlântico e partiram por terra a caminho do Índico na contra costa de África.  




No sul de Angola tudo continuava a parecer muito familiar, já tarde depois de procurarmos alojamento numa pequena pensão numa casa de traça algarvia com um pátio interior empedrado, onde se seca e lava a roupa num tanque de cimento como nas casas que se alugavam nas férias no Algarve antes da oferta de camas ser o que é hoje. No clube Naval do Namibe ainda nos serviram jantar, na ementa não havia um só ingrediente que não fosse completamente familiar. A corrente fria de Benguela faz com que ali seja um dos lugares de pesca mais importantes de Angola, terra de bom peixe mas a fome ditou que em pleno Namibe o que veio à mesa fosse depois de uma sopa de legumes com rodelas de chouriço a flutuar uma bela carne de porco à Alentejana. 


Contra todas as advertências e expectativas sobre a resistência e a capacidade que o pequeno Chevrolet teria em conseguir transpor os obstáculos que encontrou pela frente, lá chegámos ao Namibe graças sobretudo à perícia de condução dos nossos produtores. Esse sempre foi aliás o meu maior receio antes e depois de partir para África, o facto de não conhecer devidamente a equipa com quem me ia enfiar dentro de um carro durante cerca de um mês para atravessar África de Angola à Contra Costa. A noite caía rápido algumas dezenas de quilómetros antes de chegar ao Namibe, quando alguém nos avisou que teríamos de voltar para trás porque uma ponte tinha caído recentemente durante a estação das chuvas. Já bem cansados e com a expectativa da meta à vista tornava-se bem mais difícil de segurar o moral. Tínhamos mesmo de voltar para trás e conforme as indicações, seguir já de noite durante largos quilómetros por um desvio sobre pistas de pedras e areia sobre o deserto do Namibe, passámos por vários jeeps parados com pneus furados, uma família com o carro atolado montava um abrigo à luz dos faróis, para ali pernoitar junto dos trilhos de areia que se iam abrindo com a passagem dos jeeps. Com sorte escolhemos o trilho certo. Chegamos à antiga cidade de Moçâmedes onde Capelo e Ivens teriam organizado a sua comitiva de guias e carregadores que os acompanharam atravessar África a pé até do Atlântico até ao Índico. 

Depois de Benguela o caminho mais curto pelo mapa até ao Namibe, seria pela estrada do litoral, cujo asfalto termina pouco depois de Benguela e daí segue por atalhos e desvios, por montes e vales desérticos atravessando pequenas povoações de pescadores por uma costa de praias e falésias arenosas infindáveis e quem sabe até com baías de água cristalina e ondas perfeitas ainda por descobrir. Essa era a via que eu gostava de ter feito mas impensável para o nosso pequeno chevrolet citadino. A estrada transitável para sul é só uma, a que segue por Chongoroi, pelo interior até ao Lubango e depois ruma a oeste desce as curvas da Serra da Leba e daí até ao Namibe segue por uma planície na mesma cota do mar. Depois de Chongoroi afinal a dita via transitável pelo interior, a seguir à estação das chuvas deixara de o ser. Há muito que o asfalto tinha sumido, havia vestígios de antigos marcos de estrada, de bermas empedradas e protecções em cimento como as que vemos na estrada marginal entre Cascais e Lisboa a mais de um metro de altura do nível onde hoje os camiões escavam na lama um novo rodado. Vários foram os que paravam para nos avisar de que a estrada não estava transitável para o pequeno Chevrolet sem tracção total, mas se os Kupapata ou mesmo alguns candongueiros passavam nós também havia-mos de passar. 
 http://cargocollective.com/conversas/Joao-Catarino

07 outubro 2018

O "SOBRADO" de Moçâmedes, a Companhia de Mossâmedes, e o património histórico e cultural do centro-histórico

 Há 5 anos atrás era ainda assim... Repare-se nos detalhes telhado, nos remates em ferro rendilhado  à volta do mesmo,  e nas sacadas das portas do 1º piso. Todo esse material em ferro fundido e folha de ferro com efeitos rendilhados vinha em navios mercantes a partir da Europa industrializada, que os exportava já acabados, após encomendas que eram efectuadas através de catálogos, naqueles tempos em que o ferro estava na moda, tendo como ícone máximo das construções naquele material, a Torre Eiffel em Paris, a "dama de ferro" da França, construída entre os anos de 1887 e 1889.
Seria necessário conhecer a HISTÓRIA antes de se proceder a qualquer danificação neste edifício emblemático para a cidade de Moçâmedes, como o próprio nome da Companhia sugere.





Cinco anos depois está assim.... Como foi possível permitirem esta barbaridade que irá acelerar a sua queda? Trata-se também em termos de aequitectura, do único SOBRADO de Moçâmedes. E quanta HISTÓRIA este tipo de construção encerra!



 
O "SOBRADO" da  "COMPANHIA DE MOSSÂMEDES"


A decadência deste SOBRADO que pertenceu à Companhia de Mossâmedes,  pleno de carácter e de História, tem acelerado  desde que há uns 5 anos alguém lhe mandou retirar o telhado, não se sabe bem porquê, excepto para que se degrade mais rapidamente.

Este telhado tinha por característica assentar sobre um remate em folha de ferro fundido trabalhado com rendilhado, muito ao gosto da época, o mesmo ferro que se pode ver  nas sacadas das varandas. Estes pormenores tem a ver com a época em que este edifício foi construído numa altura em que o ferro estava na moda, tendo como ícone máximo das construções naquele material, a Torre Eiffel em Paris, a "dama de ferro" da França construída entre os anos de 1887 e 1889, por ocasião da Exposição Universal de Paris.

Na verdade foi a partir da segunda metade do século XIX que o ferro fundido começou a integrar o material de construção, substituindo a madeira e a pedra. A folha de ferro rendilhado era aplicada em detalhes como neste edifício ainda dá para ver, e o ferro em geral era utilizado em construções de todo o tipo, como quiosques (Moçâmedes teve um), coretos, mercados, estações, teatros, fontes, postes de iluminação, portões (Moçâmedes teve alguns). pontes, elevadores, ferrovias, pavilhões de exposição. A técnica de ferro fundido permitia a reprodução de diversos estilos de elementos decorativos, etc. Eram peças  de todos os tamanhos e feitios, que iam da Europa já confeccionadas, encomendadas através de catálogos, que viajavam  em grande número em navios para as colónias de África, para o Brasil e para todo o mundo, em grande número.  Os edifícios de ferro, bem como os detalhes para edifícios, podiam ser fabricados longe do local onde seriam montados, eram facilmente desmontáveis e podiam ser transferidos de lugar. 

Também em termos arquitectónicos estamos perante um SOBRADO, um tipo de construção única na cidade, um exemplar raro e irrepetível, que teve o seu tempo, e deviaser valorizado, classificado e protegido, e não votado ao abandono como se apresenta, já sem o telhado, progressivamente a degradar-se.

Aliás o SOBRADO, é o tipo de construção um tipo de habitação característico de um certo modo de ser e de estar, que ficou a marcar uma época pela sua arquitectura específica. Muito difundido no Brasil colonial, segundo o sociólogo Gilberto Freire,  SOBRADOS disseminaram-se precisamente no momento em que começou a dissolver-se o sistema económico fundado no tráfico de escravos, quando os proprietários rurais, aburguesados, se transferiram  de suas "Casas Grandes" rodeadas de "Senzalas", erguidas junto das plantações, para os centros urbanos, onde procuraram manter nesta fase, usos e costumes tradicionais, levando consigo a criadagem que se habituaram a ter por perto para os servir. O SOBRADO permitiu-lhes um tipo de habitação muito especial, com características próprias em termos de espaço interior, de divisões, etc, adaptados ao  estilo de vida citadino, sem um corte abrupto com o passado rural, nessa fase de transição. Permitiu-lhes essa superação e essa adaptação.
 
Os SOBRADOS de dois pavimentos eram destinados às classes mais abastadas, comumente possuem um espaço livre frontal cercado por grades, um amplo lance de escadas que leva ao pavimento superior composto por uma sala e portas que se abrem para os quartos de dormir, além das quais se situa a varanda, onde a família geralmente faz as refeições e recebe visitas durante o dia. A parte mais baixa da construção é ocupada pelos serviçais, ex-escravos, por animais ou destinada a fins domésticos, ou ocupados por lojas. Dava-se grande importância às varandas internas voltadas para dentro, as bandeiras nas portas e janelas, e as sacadas externas voltadas para a rua, com grades de ferro. Os SOBRADOS podiam ter uso residencial, comercial ou misto. O uso determinava  a compartimentação.

No Brasil existem muitos SOBRADOS a recordar esses velhos tempos que em que o trabalho escravo alimentara secularmente uma economia que tinha por base as plantações de cana de açucar. Em Angola também os havia, sobretudo em Luanda e em Benguela. Em Moçâmedes onde a colonização foi tardia, conhecemos apenas este. Até neste pormenor se revela o tipo de colonização ali levada a cabo. Até porque muito poucos podiam ter a veleidade de mandar construir um SOBRADO! 


Na 2ª foto acima, a foto a preto e branco, está a prova acabada de que este belo SOBRADO,
situado na ex-Rua da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, a olhar para a ex-Avenida da República e para o edificio dos CTT, cujo último proprietário foi Venâncio Guimarães,  pertenceu à  Companhia de Mossâmedes, ou "Mossâmedes Society", Companhia de responsabilidade limitada, com sede em Paris, criada em 1894 pela Royal Society, com a maioria do capital francês, na sequência do Tratado assinado entre França e Portugal, em Maio de 1886,  por altura da célebre Conferência de Berlim,* e da assinatura do Mapa Cor-de-Rosa**, o célebre mapa com o qual Portugal pretendia que lhe fossem reconhecidos os direitos às regiões entre Angola e Moçambique, "descoberta" pelos oficiais da Marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens entre 1884 e 1885, pretensão que levou ao Ultimato Inglês de 1890 (1), uma verdadeira declaração de guerra da Inglaterra a Portugal, numa época em que o interesse pela colonização do sul de Angola se encontrava legitimado perante as potências europeias concorrentes, pelas explorações realizadas nos anos 1870 e seguintes, e pela colonização iniciada com colonos oriundos de Pernambuco, Brasil, no final dos anos 1840, e outros vindos do Algarve a partir dos anos 1860, nomeadamente de Olhão, bem como pela presença dos colonos madeirenses chegados à região planaltica da Huila (1884-5), enquanto em Berlim decorria a célebre Conferência. 

Por essa altura a soberania de Portugal em toda uma faixa do território angolano a sul de Benguela e seu Interland encontrava-se em perigo. Os ancoradouros e portos do sul, estavam sendo alvo da cobiça dos alemães do Sudoeste Africano (actual Namibia), que aspiravam a construção de um caminho de ferro transafricano que garantisse aos territórios que ocupava uma saída para o mar, ligando o Índico ao Atlântico, e chegaram a realizar uma expedição à Baía dos Tigres. Questão sensível numa época em que não estavam ainda definidas as linhas de fronteira, era grave a crise financeira portuguesa, e com nitidez se  revelava ao exterior a  incapacidade  dos portugueses de subjugarem os povos guerreiros do Cuamato e do Cuanhama, que habitavam a sul do Cunene.   Foi então que a Companhia fez deslocar para Moçâmedes vários especialistas, de prospetores a engenheiros, biológos e agronómos, etc., com o objectivo de levar a Angola a dar o grande salto de que necessitava para progredir e se modernizar, e para que Portugal ganhasse o respeito de nações cobiçosas. 

Eram  tempos de reconversão económica, o tráfico de escravos que durante 3 séculos escoara de Angola na direcção do Brasil e Américas, tinha sido definitivamente abolido em 1869, o investimento da parte dos colonos, sem grandes capitais, não era suficiente para levar por diante o desenvolvimento de infra-estruturas necessárias, nomeadamente a construção da ferrovia, a implantação e o desenvolvimento da produção agrícola, bem como a exploração de recursos minerais, etc etc, o principal objectivo da Companhia.

Estes são alguns pedaços da História de Moçâmedes, que se confundem com a história deste SOBRADO que mereceria ser salvo , antes que o processo de destruição se torne irreversível. Este o meu apelo a quem tem nas suas mãos o poder de manter ou de deixar cair este edifício, que foi também fruto do trabalho árduo de tantos africanos que ali deixaram o seu suor, para além daquilo que representa para a compreensão da História de Moçâmedes e de toda a região sul de Angola. Olhemos para os edificios antigos, procurando ler através deles a mensagem que do fundo dos tempos nos estão enviando!

Como alguém muito bem disse:
“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”

MariaNJardim


O  CONTEXTO DA ÉPOCA

(1) No contexto da  chamada "Partilha da África" entre as potencias europeias, Portugal apresentou um projecto de ligação entre Angola e Moçambique (o "mapa cor-de-rosa"), na tentativa de alargar a sua presença no continente africano, projecto que colidia com os interesses da Inglaterra que sonhava com um caminho-de-ferro ligando a África do Sul ao Egipto, e apresentou a Portugal o Ultimato de 1890, que intimava a desocupação dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique num curto espaço de tempo: "Ou esquecem o mapa ou têm guerra!  O Ultimato levou Portugal ao abandono das pretensões assinaladas, e foi uma verdadeira declaração de guerra, que na Metrópole caiu como uma bomba face à humilhação provocada, tendo à época levantado uma onda de patriotismo, que foi aproveitada para incentivar os portugueses a partir para uma Africa que à maioria ainda despertava temores e medos.

18 agosto 2018

A fundação de Moçâmedes e a revolução praieira


                                                                                             
            

                                                                               
(excerto)


«(...) Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e atual, pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação da colônia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram Pernambuco em conseqüência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da campanha antilusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos célebres movimentos chamados “mata marinheiro”. A narrativa não tem indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de 1850 do diretor da colônia. Intitula-se "A Colônia de Moçâmedes. História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos de Marinha e Ultramar". Começa: "No ano de 1848, grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de outubro de 1848, fez expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Batista Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o relatório não menciona o número exato dos emigrantes, nem a composição do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de quase todos os ofícios mecânicos"... "Os colonos portugueses que haviam resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de 1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo: "entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente chegados à África, o diretor da Colónia, que era o próprio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou a inspecionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a "extensíssima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva, e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira" dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a colônia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em abril de 1850 o diretor Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colônia, fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos colonos"... (...) »

Origem: http://bvjagm.fgf.org.br/obra/Imprensa/030404-00008.pdf.

            
                                                                                                        


 

17 agosto 2018

AINDA DA COLECÇÃO ALBERTO LAMEGO


                                                                                             
            

                                                                               
(excerto)


«(...) Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e atual, pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação da colônia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram Pernambuco em conseqüência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da campanha antilusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos célebres movimentos chamados “mata marinheiro”. A narrativa não tem indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de 1850 do diretor da colônia. Intitula-se "A Colônia de Moçâmedes. História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos de Marinha e Ultramar". 

Começa: "No ano de 1848, grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de outubro de 1848, fez expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Batista Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o relatório não menciona o número exato dos emigrantes, nem a composição do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de quase todos os ofícios mecânicos"... 

"Os colonos portugueses que haviam resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de 1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo: "entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente chegados à África, o diretor da Colónia, que era o próprio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou a inspecionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a "extensíssima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva, e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira" dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a colônia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em abril de 1850 o diretor Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colônia, fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos colonos"... (...) »

Origem: http://bvjagm.fgf.org.br/obra/Imprensa/030404-00008.pdf.

            
                                                                                                        


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

                                               
                                
 

Simão da Luz Soriano

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro                    António Sérgio de Sousa 





 

«Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata António Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser esta
belecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.


O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levandoem sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".

Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.




                                                      Ângelo Francisco Carneiro

 
Em tempo:

Supresas por vezes nos esperam quando resolvemos aprofundar a verdade dos factos. Veja aqui quem foi Ângelo Francisco Carneiro:

"DE TRAFICANTE DE ESCRAVOS A VISCONDE DE LOURES: A TRAJETÓRIA ATLÂNTICA DE ANGELO FRANCISCO CARNEIRO1 Aline E. De Biase Albuquerque

"...Em agosto de 1842, o cônsul inglês em Pernambuco informava ao ministro Lord Palmerston que um traficante se organizava para desafiar a Inglaterra por ter tido um de seus navios negreiros apreendido. Na carta, ele dizia que o “Sr. Angelo”, o tal negociante, “era o mais bem sucedido e notório traficante de escravos do norte do Brasil” e que planejava pedir indenizações após a volta da barca Ermelinda ao Recife. Esse navio tinha sido apreendido em 1841, mas foi absolvido na Comissão Mista em Serra Leoa, até então, lugar certo de condenação pelos ingleses de navios engajados no tráfico ilegal de escravos. Por causa do notável desfecho, o armador e provável dono do barco se articulou para não só pedir indemnização pela “injusta captura” e estrago da carga, mas também enviar um outro navio à Costa da África com o sugestivo nome de Ermelinda Segunda e um objetivo específico de ser apreendido pelos ingleses. Com a embarcação Segunda, o “Sr. Angelo” pretendia ganhar indemnização duas vezes da Inglaterra pelos danos causados as suas negociações negreiras.3 O ousado traficante protagonista desse episódio era Angelo Francisco Carneiro, comerciante português estabelecido no Recife e futuro visconde de Loures. Dono de uma das maiores fortunas de Pernambuco, Angelo Francisco Carneiro foi comendador da Ordem de Cristo, gerente do consulado dos Estados Pontifícios e financiou os projetos de urbanização do Recife na década de 1840.4 O caráter negreiro dos seus negócios era de domínio público e foi alvo de comentários de estrangeiros como o citado agente inglês e o engenheiro francês Louis Vauthier. Sua carreira atlântica, iniciada antes mesmo da lei antitráfico de 1831, estruturou-se em redes negreiras que abrangiam e interligavam, principalmente, Recife, Angola e Rio de Janeiro.  (continua...)


  http://www.escravidaoeliberdade.com.br/congresso/index.php/E-X/7/paper/viewFile/161/71

PERNAMBUCO E ANGOLA




"Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".


BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello

http://www.fgf.org.br/bvjagm




 
...«A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira.

A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavaminteressados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849.

Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização.
 

Fonte: MELLO, José Antonio Gonçalves de. Diário de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956

FONTE






OUTROS TEXTOS  CORRELACIONADOS

Sobre a revolução praieira:



Segundo Joaquim Nabuco em «Um estadista do Império»: 



"O povo pernambucano acreditava que possuia dois inimigos que o impediam de ganhar a vida e desfrutar algum bem estar . Eles eram os portugueses que monopolizavam o comércio das cidades e os senhores de engenho que monopolizam a terra no interior. A guerra dos praieiros era feita contra estes dois elementos, daí o seu carácter social mais do que político."

Sobre a «rebelião praieira» sabe-se que em 1848 os discursos radicais dos jornais agitaram de tal modo a população contra os portugueses que ali trabalhavam e a violência tomou proporções tais que levou a que pela primeira vez na história de Pernambuco, um grupo de 177 imigrantes tivesse pedido a ajuda da Corôa portuguesa para abandonar o Brasil e fundar uma nova colónia em Moçâmedes, Angola, onde tentaram uma nova vida com suas alfaias agrícolas e os seus engenhos de aguardente de cana. Um ano depois, nova leva de 125 colonos acompanhados das famílias, chegaram a Moçâmedes.

Ainda sobre Bernardino: Na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem.




A memória destes pioneiros encontra-se ainda hoje representada nas lápides mais antigas do Cemitério de Moçâmedes.

Mais inf. em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/263/26304509.pd
http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/paginas/historia/124revolucao_praieira_1848.htm

http://www.pernambuco.com/diario/2004/01/27/opiniao.html
http://www.culturabrasil.pro.br/praieira.htm
Revista Lisbonense (troca de corresponência entre colonos de Mossãmedes e familiares em Portugal

Ver tb annais Cons Ultramarino 1879
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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro



 POBRE NA VIDA, POBRE NA MORTE

 

".....Sim. A Historia regista o seu nome como o de um dos meiores obreiros da pátria. Embora não lhe tenha sido prestada verdadeiramente a justiça que lhe é devida.

Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha sessenta e dois anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Cauda da morte: uma pneumonia dupla.

Não receberam bens de fortuna os seus herdeiros. Bernardino não fora para África para ser africanista, no sentido vulgar desta palavra. Para explorar os nativos, fazer fortuna e vir depois para a Metrópole com réditos de nababo que lhe dessem para viver à grande e ainda para com eles fazer ostentação de caridade-vaidade.

Pobre na vida, pobre na morte. Tão pobre que nem sequer se sabe em que local exacto foi sepultado no cemitério que mandara fazer, na cidade que fundara. Nem isto lhe falta para ser grande.

Sabe-se que Bernardino distribuia generosamente os seus bens pelos companheiros mais necessitados. Distribuia-os com a mão esquerda sem que a direita se apercebesse, o que quer dizer: sem vaidade, sem outro motivo que não fosse a verdadeira caridade.

A sua casa era uma espécie de hospedaria. Nela se acolhiam os homens do mar que aportavam em Moçâmedes. Nela se congregavam pobres e ricos, que para todos chegava o pão. O seu desejo era que todos os habitantes de Moçâmedes se sentissem bem na cidade, e pela cidade, e por aquela região de Angola, trabalhassem sem desfalecimentos. Escreveu um dia: "Portugal tornaria a florescer tanto ou mais do que quando possuia o Brasil, se soubesse aproveitar-se da utilidade que lhe podia resultar de ser senhor do centro de Angola."

Vinte anos depois da morte de Bernardino, isto é, em 1891, exactamente a 2 de  Junho de 1891, era concedida à cidade de Moçâmedes o Brasão de Armas, para distintivo honorífico do seu município. Termos sob os olhos esse brasão, cuja leitura é : um escudo aquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana-de-açucar, postos em aspa; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca, verde, sobre o mar, e no quarto, em campo vermelho, um arado de oiro; em contrapartida, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;  sobre o escudo a corôa mural, e, por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de oiro.

O brasão é quanto a nós a mais expressiva homenagem às virtudes do fundador da cidade. Nas armas de Portugal está assinalado o seu fervor patriótico. No ramo de algodoeiro, na cana-de-açucar e no arado, o seu amor à agricultura. No barco de pesca, o incremento que deu às pescarias da região. A legenda resume admiravelmente a constante do carácter de Bernardino: o seu amor ao trabalho.

Desse amor ao trabalho de Bernardino e seus companheiros nos dá conta Alfredo Felver, em artigo escrito a 04 de Agosto de 1926 no Jornal de Moçâmedes "O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a quatro de Agosto de 1859, ao festejarem o seu sétimo aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero, que tiveram de conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraúl, três; no Bumbo, duas; em S. Nicolau, três;  no Carunjamba, uma; no Curoca, três; na Huila, sete; e ainda a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Molondo, percorrendo o Sul de Angola em todas as direcções com as suas caravanas, e levando a sua penetração até além Cunene, aonde iam buscar o marfim.

Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado: em 1858 e em 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte  e um mil couros, cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batatas, e dezasseis toneladas de carne seca."

E termina o articulista:

"Que queriam que fizessem? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção de um sacerdote, ao abrir o relicário para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus." 

Obra sem par, a obra de Bernardino e seus companheiros. Henrique Galvão, na sua obra Angola -- Para uma nova política, volume 1, pág. 197, diz da obra em causa que ela foi "uma das notáveis obras portuguesas de povoamento, constituindo o único triunfo sério e respeitável em tal matéria". 

Com razão nos orgulhamos de Bernardino, considerando-o um dos maiores beirões de todos os tempos. Um daqueles "varões assinalados em quem poder não teve a morte".

 

In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes / Padre José Vicente (Gil Duarte). ... In: Dokumentation zum staatsstreich in Guine-Bissau : im November 1980 = Documentação sobre o golpe de Estado na Guiné

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CURIOSIDADES




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«Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes». Era seu Autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa.
Nesse livrinho, a páginas 14, vem referido um episódio, que procurarei resumir. Alguns anos antes, tinha-se deslocado a Lisboa um indivíduo de certa projecção social em Angola com os apelidos «Freire de Figueiredo Abreu e Castro». O Dr. Augusto Abranches Freire de Figueiredo (bisavô do confrade Nuno Canas Mendes), dirigiu-se imediatamente ao hotel onde ele se encontrava hospedado para inquirir sobre o grau de parentesco que os unia e obteve a seguinte resposta: «Não. Não somos parentes. A coincidência de apelidos explica-se desta forma: na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. Assim aconteceu aos meus antepassados, que não são, de facto, consanguíneos de Bernardino.»
É, pois, muito natural que a mudança de apelidos de seu Bisavô e irmãos se insira nesta curiosa moda que surgiu em Moçâmedes.

Ao rever o citado livro para lhe dar esta resposta, encontrei dentro um recorte do «Diário de Notícias» (sempre tive a mania de guardar papéis), com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Moçâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo – me leva a conjecturar que também fosse da sua família.
(...)Cumprimentos,
José Caldeira »
in www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=117179&fview=e







Nota sobre Bernardino: Confirma-se a ascendência nos Reis de Portugal. Para mais informações consulte: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=584348

Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes





«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:


«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».

In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.