16 fevereiro 2018

O fugitivo do Iona




Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um autóctone da região
Dixon Ferreira junto de um rino que tinha acabado de abater


"O fugitivo do Iona"


No primeiro quartel do século XX,  as terras do Iona, onde as distâncias eram enormes e o acesso difícil, eram pouco conhecidas dos portugueses , e foi no primeiro quartel do século XX que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, num tempo em que o acesso se fazia através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros, que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as famílias, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrar em terras do Iona, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e possibilidades financeiras para tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.



Alfredo Bobela da Mota, jornalista e poeta
 1905 (f. 1978)

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.
 
A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o  Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa na década de 1960  por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo.  Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos  e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. Mas para além destes fenómenos Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola,  pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpôr.  Era difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído na época pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2) 

Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido. Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, também chamados de Mu-tuas,  era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.

Sobre este povo, Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que nos penhascos de Tchamalinde  vivia clandestinamente um branco estrangeiro, conhecido  pelo " homem branco da casa de barro", que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua, e  cuja identidade e actividades eram desconhecidas,  sendo levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento daquilo que efectivamente a passava.

Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras,  a  dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral  e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma  mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros.  Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido  às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera, preferindo afastar-se da civilização e ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo, tornara-se admirado e querido.

Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando o tipo de vida  da selva, no  seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar, feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro", e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira.

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família  ligada a empresas agrícolas e comerciais,  tornou-se amigo de Dixon,  desde que o fugitivo fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria  sido essa amizade que levou Daniel Dixon  a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?  Acredira-se que sim!

Cecílio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro",  o que o levara de facto a fugir para ali,  palmilhando mais de 2.500  quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro, que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? O súbdito britânico (?) Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estavam? Quem era? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Cecílio Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos,  consultou documentos oficiais,  deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre  o " branco da casa de barro", das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.

Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali.  Estes dois companheiros afirmavam  que Dixon,  de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo, talvez porque eles também não o instaram para isso, mas enquanto no mato, sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia, punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Contactou a tribo dos Mu-tuas que o aceitou, e mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se ele mesmo não tivesse descido,  naquele dia,  do cimo das cerranias, para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento, sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua família e os Mu-tua.

 O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando  falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa.  Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto pela autoridade, em Moçâmedes, e à concessão da nacionalidade portuguesa. Teodósio Cabral e Vasco Ferreira, dois moçamedenses muito estimados, deviam ter intercedido por ele.  Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense.  E o Iona estava a 1700 km distância...para sul! Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934,  Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria,  era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, aos portugueses e a Moçâmedes, por várias vezes Dixon manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

3 caçadores muito conhecidos na Angola daquele tempo

Muíla Sá da Bandeira


 Rapariga Cuisse



Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória


Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a  mulher Mu-Tua com quem viveu , e que preferiu ficar na sua tribo, onde ficou também a linda menina  loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer,  que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no  após a morte dos pais, pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." .  Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira,  por volta  de 1945.

Depois do falecimento de Ema,  a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira,  seu bom amigo, então já falecido. Mas parece que não conseguiu porque os Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina  e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la.  Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, teria sido vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene,  para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.  Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como  o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da  Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português  e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer.  O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas  estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados,  uma vez que  no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários. Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro  escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito.  Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito do qual  Cecilio Moreira possui cópia,  manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês,  que veio a falecer na  sua casa e na sua própria cama que a cedera,  na doença,  ao amigo  e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses. 

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe como criador de gado, vários anos após ter deixado a montanha. Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!

Quanto à região do IONA esta estende-se desde a margem direita do rio Cunene para norte, formando a transição das grandes dunas do Namibe, até  à encosta sul das regiões planálticas, e que se convencionou chamar de IONA que se compõe de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara,  que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul.  E que à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente  e verdejante.

Nesta região encontram-se três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustos. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida.  Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra. O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras. 

Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que  levou a Administração Portuguesa a criar  em  1944, o Parque Nacional do Iona, na  região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a  partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente



Os Cuíssi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas, que povo é este?


Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os  Cuepes e  Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram  mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis  Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi.  Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos. Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ovambundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos. 

A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e  avançaram para o Sul,  onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã). 

O Pe. Carlos Estermann,  in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", refere que eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas.

 Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação relacionada com Mucuissos:

Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis.

Conclusão. Perseguidos e discriminados como diferentes, os Cuissi-Tua, povo pré-banto e considerado não banto, viviam na montanha. onde se refugiaram.  Os Chimbas, ou Himbas, co grupo herero banto, viviam mais na anhara e na encosta da serrania. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental,  contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha, amedrontado, vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização.  Foram sempre inacessíveis  à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo. O nome dos Cuíssis deste surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado, também conhecido por "Morro Sagrado dos Mucuísses", um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História existentes em Angola, onde abundam representações de animais e desenhos esquematizados.


             Chimbas no Deserto do Namibe. Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)


Caçador e Pigmeus


Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT



Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)


Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias,  e mais ainda com europeus.  Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que  teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Dimbas e aos Cuvales.  Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Tal como os Chimbas ou Himbas, os Mucubais (Ova-kuvale), pertencem também do grupo etnolinguistico banto Herero, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte,  são a população emblemática do sudoeste de Angola.

Existem escritos que integram nos subgrupos Herero, os Curocas que desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e  uma cultura pastoril que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, mas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. 

O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan.  Redinha não se refere,  contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale,  há já cerca de quatro gerações.

Alguma bibliografia:

-Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935).  “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,






Pesquisa e texto de MariaNJardim