11 março 2018

As casas da Rua 04 de Agosto em Moçâmedes, no tempo colonial, eram assim...







Ficam na ex-rua "4 de Agosto", aquela que nasce na Avenida da República, passa entre o Cine Moçâmedes e a Alfândega e sobe na direcção do deserto. Por ser um grupo de casas em banda contínua, estas casas são preciosas, elas representam o tipo de casario térreo de traça portuguesa dos primórdios da colonização. São casas que tem também um interior muito característico, e isso talvez seja uma herança dos luso-brasileiros fundadores. Elas possuem todas um vasto corredor, com cerca de 3 quartos de cada lado, sendo geralmente os da entrada aproveitados para a sala de visitas e a sala de jantar. O corredor termina numa grande varanda envidraçada, e esta por sua vez dá para um quintal, onde existe um jardim ou uma pequena horta, onde ficava o galinheiro, e numa das bandas laterais ficavam a dispensa, a cozinha e a casa de banho. É interessante este uso de jardim ou pequena horta integrando a planta das casas. Estava então muito em voga o conceito de cidade-jardim, pelo que em Moçâmedes as pessoas tanto tinham a Avenida como um grande espaço verde, de fruição e de lazer, como tinham o salutar contacto com as plantas nas suas próprias habitações, que geralmente, em tempos mais recuados possuíam também, nos quintais, uma cacimba. Este conjunto que parece não estar mal, merecia ser cuidado e preservado.

Quanto ao conceito de cidades-jardim de que Moçâmedes beneficiou, este teve a sua origem nos danos provocados pela Revolução Industrial (XVIII), na Europa e nos EUA, em consequência da poluição do ar com os fumos das fábricas e o caos urbano em consequência da fuga dos campos para as cidades, da acumulação em cortiços, sem condições de higiene, esgotos a céu aberto, lixo, abastecimento de água inadequado, etc etc. Foi um tempo de intenso deslocamento das populações rurais para as cidades, atraídas pelas ofertas de emprego e pela crise no sector agrícola, em que as cidades não estavam preparadas para as receber, não tinham onde morar, acumulavam-se nos cortiços, sem condições de higiene, esgotos a céu aberto, lixo, abastecimento de água inadequado, doenças, epidemias, etc etc. Foi diante desses problemas que surgiu o urbanismo moderno, para solucionar esse caos urbano, opondo o conceito cultural de cidade à noção material de cidade, e colocando no centro a saúde e o bem estar humano. As cidades não deviam exceder os 30 mil habitantes, seriam limitadas por um cinturão verde para impedir a fusão com outras aglomerações vizinhas. E para lhes dar um aspecto agradável deveria proceder-se à abertura de espaços verdes de lazer e de manifestações públicas, para os quais eram escolhidos locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros.

Moçâmedes beneficiou desta onda que movimentou arquitectos e urbanistas mo século XIX, a cidade não nasceu de forma caótica, foi imaginada e desenhada no papel antes de se as habitações serem erguidas, e pôde beneficiar logo de ínicio de um traçado que fez dela uma das mais belas cidades de Angola. A partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si, onde ficavam os já referidos pequenos quintais que representavam os necessários espaços verdes, a juntar aos dos Jardins da Avenida da República.

E foi assim que ali bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, nasceu esse belo, vasto e longitudinal jardim, que se estende por dez quarteirões de casas, a perder de vista -o jardim da Avenida da Praia do Bonfim- que chegou aos nossos dias preenchido com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc.. É possível ver-se através de fotos muito antigas este espaço já reservado para o efeito, numa altura em que do jardim da Avenida apenas existia um esboço.


MariaNJardim

Sem comentários:

Enviar um comentário