As "grutas" ou "furnas" dos meus avós
Deixo aqui algumas das memórias ainda
vivas e claras que possuo de momentos vividos na minha
infância e na minha adolescência, intimamente ligados a este histórico
local. Essas memórias tornaram-se mais transparentes quando deparei na net com esta foto há tanto desejada e finalmente
conseguida, a foto das "grutas" ou "furnas" que pertenceram à pescaria dos meus
avós, situadas no morro da Torre do Tombo, em Moçâmedes, Angola.
Embora a foto não mostre na íntegra aquilo que de facto eram estas muito propaladas "grutas" ou "furnas", uma vez que apenas nos mostra uma parte da fachada, já em estado de degradação, fica-se com uma ideia do seu exterior, da porta da entrada, das janelas para o exterior, que eram várias, bem como do troço de escadas às quais tínhamos acesso por um corredor, entre dois quartos em adobe que existiam no exterior, e que serviam de apoio à pescaria, aqui já sem reboco e em estado lastimável, como podemos ver nas laterais da fotografia.
A tia Lídia e meu irmão à porta da entrada das "grutas" ou "furnas" do morro da Torre do Tombo. Por esta altura, devido à salinidade do mar já começava a verificar.se um certo grau de desgaste na pintura exterior. Estava-se em 1940, o ano em que nasci.
Foi pois com um certo requinte que meus avós transformaram numa casa de habitação essas 3 "grutas" ou "furnas", ao ponto de quem estivesse lá dentro não tivesse a mínima sensação de enclausuramento, e se sentisse como se estivesse no interior de uma habitação normal. E como as 3 "grutas" ou "furnas" ficavam num plano elevado em relação à base do morro, tiveram que construir uma escadaria em cimento para que a elas se tivesse acesso. A verdade é que foram transformadas numa confortável habitação, com compartimentos de paredes rebocadas, caiadas, pintadas, quartos interligados entre si, ventilados através de janelas envidraçadas para o exterior, porta de entrada principal à qual se podia aceder através daquele troço de escadas em cimento, que a foto permite ver. O tecto era alto, em abóbada, e tal como as paredes da entrada,
encontrava-se rebocado e caiado de branco. Num dos compartimentos ficava uma sala
comum, devidamente mobilada, com mesas, cadeiras, louceiro, um sofá onde se
podia dormir, e pendurados nas paredes encontravam-se um quadro e um relógio. Noutro compartimento ficava o quarto de dormir, com uma cama de
casal em ferro, duas mesas de cabeceira, uma cómoda e um guarda roupa. No terceiro compartimento ficava uma rudimentar casa de banho, com chuveiro tipo balde de fabrico artesanal, feito de zinco ou latão, daqueles de colocar a água dentro, subir e descer na direcção do tecto, com a ajuda de uma corda, onde ficava pendurado, uma vez que na Moçâmedes da então era o que havia. Até porque na zona a água canalizada chegou já os anos 1950 iam avançados, e nem cacimbas havia de onde a retirar, tendo que ser a mesma acarretada em baldes, e levada para as habitações em barris puxados por cordas, que rolavam pelo chão, a partir de chafarizes que existiam a considerável distância. Isto já em meados do século XX. As populações estavam abandonadas à sua sorte, não havia créditos bancários, vivia-se essencialmente da pesca e as crises no sector eram frequentes e tinham reflexos em toda a vida citadina. Quanto à cozinha, esta ficava num cantinho de um dos compartimentos da «casa/furna/gruta», junto da janela, e compunha-se de um fogão a petróleo, havendo também, no lado de fora, após descidas as escadas, um
forno em tijolo e barro, de formato arredondado, tipo antigo forno de padaria, com porta de ferro de abrir e fechar, onde se
podia cozer o pão, os bolos, etc etc. Minha avó, natural de Olhão era perita nos famosos "bolos de folha", que no Natal não faltavam nas boas mesas, e eram feitos em catadupa. Lembro-me que na parte de fora havia uns quantos
vasos com flores que davam alguma alegria àquele ambiente árido e cinzento, e que meus avós tinham plantado nas proximidades uma oliveira, tipo de árvore que se dá bem em Moçàmedes, mas devido à salinidade e ao tipo de areia solta do terreno, nunca medrou. Em Moçâmedes dava-se também muito bem a videira. Aliás, lá para as várzeas do rio Bero, onde ficam as Hortas, era só plantar..., mas Angola tinha que ser consumidora dos produtos que vinham feitos da Metrópole e não produtora. Talvez uma casuarina fosse a solução naquela terra árida e ressequida do Morro da Torre do Tombo, onde nada medrava. Na verdade parece
incrível que os meus avós tivessem conseguido aquela verdadeira obra de arte, facilitada porque entre 1935/1940, o meu avô tinha recebido
uma pequena herança de família, vinda da Metrópole, e resolveram investir no seu arranjo, embora tivessem a morada de
família numa casa grande e de boa construção para a época, no Bairro da Torre do Tombo, lá
para os lados de uma pedreira que existia perto do local onde foi mais
tarde construída a Escola Industrial e Comercial Infante D.
Henrique, de Moçâmedes. É que as «grutas» ou «furnas» ficavam próximas dos
armazéns do Sindicato da Pesca e seus Derivados do Distrito de
Moçâmedes, onde meu avô trabalhava, ali ao lado da fábrica de conservas Sociedade Oceânica do Sul, S.O.S, a ex-Fábrica Africana, e ter uma casa ali facilitava a gestão do tempo. Dava-lhe jeito porque ficava junto da pescaria, onde trabalhavam «quimbares», gente africana aportuguesa,
descendente de antigos escravos, que se dedicavam voluntariamente à pesca à linha numa
embarcação, e ganhavam uma percentagem do pescado, com prévio acordo. Sei
que era ali que ele almoçava, e que dormia a
sesta, regressando à casa grande da Torre do Tombo ao fim do dia. Soube
que chegou a estar arrendada e que pagava impostos ao Estado.
Resta
referir que estas «grutas» ou «furnas», pela forma cuidada em que se
encontravam, eram motivo de curiosidade de altos dignitários do nação, no decurso das suas visitas a Moçâmedes, que não deixavam de as visitar, conduzidos para ali pelo grande amigo de Moçâmedes, o veterinário Dr. Carlos Carneiro. Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1938, estas "grutas" ou "furnas"
foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e
Cesaltina Carmona Silva e Costa, que ali se deslocaram acompanhadas de
vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de
entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das
Colónias, Francisco José Vieira Machado. Antes porém já havia sido
visitada por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que ali se deslocara no automóvel de Mário de Sousa (proprietário de uma oficina de reparação de automóveis na Rua dos Pescadores e de um
táxi), para combinar o momento da referida visita, que incluiu um brinde. Mário de Sousa era quem sempre
disponibilizava o transporte para este tipo de deslocações, nesse tempo em que
eram escassos os automóveis na cidade de Moçâmedes.
Muitas destas recordações, que fazem parte da História de Moçâmedes, foram-me transmitidas oralmente pela minha tia Carminha (Maria do Carmo), que à época tinha apenas 12 anos de idade, e que por ter o mesmo nome que Maria do Carmo Fragoso Carmona, esposa do Presidente da República, foi por esta convidada para prosseguir os estudos na Metrópole, internada num colégio, sonho que não realizou porque a família a tal não autorizou, com grande pena da tia. Ainda a respeito desta tia que me foi passando memórias suas quando estávamos juntas, não quero deixar de referir que ela chegou a ver ainda algumas dessas inscrições, que até podiam ser das mais recentes, e que igualmente se apagaram.
Convém ainda referir que as «grutas» ou furnas» dos meus avós se encontravam naquele tempo registadas na Conservatória de
Moçâmedes e pagavam imposto ao Estado. Aliás quando o Presidente Carmona visitou Moçâmedes, em 1838, meu avó apresentou uma reclamação a esse respeito, considerando que pagava indevidamente imposto por aquele bem que encontrou completamente abandonado, inserido numa zona não urbanizada, completamente entregue aos proprietários das pescarias, na maioria pescadores, tendo eles que abrir carreiros, uma vez que sequer uma estrada digna ali havia, por onde pudessem passar. Esse facto encontrei num dos registos oficiais relativos à citada visita presidencial.
Por esta altura, como mostram as fotos colocadas atrás, não havia
estrada que permitisse avançar pela base do morro até às últimas pescarias que ficavam próximas da Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do
Sul, existia apenas um carreiro através do qual se ia avançando, a pé, de pescaria em pescaria, uma vez que o morro ia até ao mar. E esse carreiro foi em conjunto mandado abrir pelos proprietários das pescarias da zona que tinham solicitado o trabalho a degredados de então que se encontravam a cumprir penas na Fortaleza, sendo mais tarde esse mesmo carreiro alargado na zona próxima do Sindicato e da Fábrica Africana, mais tarde S.O.S. E foi assim até
à construção da Avenida Marginal e do Cais Comercial, iniciadas em 1954,
que levou ao desmantelamento das primitivas pescarias.
Eram precários os meios de que dispunham os pescadores e os industriais-pescadores das primitivas pescarias da Torre do Tombo.
Apenas o troço intermédio entre a Fábrica de Conservas S.O.S e os
Armazéns do Sindicato da Pesca, mais tarde Grémio da Pesca, que ficava próximo
da pescaria dos meus avós, pôde beneficiar de uma estrada de terra
batida que permitia a um veículo passar. Não faltavam reclamações das gentes da terra sempre que um alto dignatário da Nação a visitava. Se Angola durante séculos não fora mais que um entreposto para o tráfico de escravos dirigido essencialmente para o Brasil, após a independência desta colónia, e a abolição, manteve-se paralisada no seu desenvolvimento até bem dentro do século XIX, séculos agitado em Portugal, que não permitiu a paz necessária para legislar. E quando por força das determinações saídas da Conferência de Berlim e da "Partilha da África" pelas potencias europeias industrializadas, que obrigavam Portugal efectivamente a colonizar, ou a ceder as colónias a outras potência em condições de o fazer, a colonização continuou a marcar passo. Não convinha deslocar o fluxo da emigração que corria na direcção do Brasil de onde vinham as divisas dos emigrantes, nem convinha despovoar Portugal num tempo em que o Alentejo estava por povoar, e a colonização com recurso a degredados começava a ser contestada como um factor de maus exemplos para os povos colonizados. E assim se chegou à 1ª República, que apesar das vontades, foi um tempo de crises e nada resultou, e na fase em que decorreu a 1ª Grande Guerra de 1914-18, Angola estagnou. Entre 1939-45 veio a 2ª Grande Guerra, e de novo tudo paralisou. Com os seus interesses voltados para fora, de onde vinham os proventos que alimentavam desde os velhos tempos uma corte perdulária, enquanto o povo, pobre e analfabeto não medrava se não emigrando, Portugal foi-se esquecendo de si, sequer se industrializou, Distanciando-se de uma intervenção directa nos empreendimentos industriais, o que, na época, podia ser até uma disposição favorável, o poder centralizado n não providenciou, as condições para que outros pudessem concorrer para o seu adiantamento. Incapaz de gerir e controlar o território nacional, de chegar junto das populações, vivendo das receitas do Império e das alfândegas, não tinha, por exemplo, nem os meios nem as motivações para construir estradas, abrir ou reparar caminhos, rasgar no País as vias da circulação interior. O problema dos transportes continuaria, assim, por muito tempo ainda, a afligir a economia portuguesa. E as colónias pagaram por tudo isso. persistindo num sistema de governação que via num mercantismo tardio, e na centralização, a única saída. Foi a partir da segunda metade do século XX que Angola entrou numa fase decisiva do seu desenvolvimento, de que cidades como Moçâmedes muito beneficiou. Em toda a primeira metade do século XX, a precaridade dos meios era enorme, e as ajudas estatais quase nulas.
Terminada
a 2ª Grande Guerra em 1945, com a Europa industrializada a refazer-se
rapidamente, 9 anos depois, em 1954, começaram finalmente as obras do
cais acostável de Moçâmedes. Num pais dependente das importações, era
enorme a dependência de materiais voltados para o erguer de toda a
espécie das infraestruturas necessárias, fossem pontes, linhas férreas,
portos marítimos, etc etc., e tudo paralisava quando as fábricas
europeias, em tempo de guerras, se voltavam para a industria do
armamento.
Eu, e as velhas pescarias e a Avenida Felner, numa foto tirada pelo meu
irmão, em 1955 do cimo do «morro» da Torre do Tombo, precisamente por
cima do sitio onde ficavam "grutas" ou "furnas" e a pescaria dos meus avós
Nós, junto do morro da Torre do Tombo, em 1955/6. Por esta altura tinha terminado a fase das terraplanagens
para as obras da marginal e do cais acostável, e partia-se para a fase seguinte. Ao fundo, à esq., vêem-se
algumas "furnas" ou "grutas" a descoberto
Com amigas junto das tarimbas ou giraus, onde secavam o peixe
Com a prima Margareth rumando a caminho de uma traineira de dimensões mais reduzidas (rapa), num pequeno barco a remos (chata)
Enfim,
uma paisagem da
cor da areia, que me surge agora paupérrima e triste, tal como era a
«Mossâmedes do antigamente» aos olhos do poeta, conforme poema que se
descreve a seguir:
Moçâmedes beijada pelo Deserto
"A velha ponte-cais
de traves carcomidas,
O morro triste,
a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre
da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."
(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos. (1)
(1) Era assim que o poeta, romancista,
dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos
via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes, entre
de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito. Não admira, este poema do início do século XIX, tempo de
estagnação no
desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola, tempos de total anarquia,
tendo
muitos portugueses resolvido abandonar
o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi
melhor. Aliás, Portugal passou a olhar Angola como a nova "Joia da Corôa
após a perda do Brasil, independente em 1822, mas não tinha condições para
avançar com grandes realizaçóes guerras, confrontos, avanços e recuos ões. Em toda a 1ª metade do sec xix , até 1851, a situação em Portugal foi de confrontos, guerras, avanços e recuos, falta ed condições para legislar. Em 1875, a fundação da Sociedade de Geografia de
Lisboa, seguindo o exemplo de outras congéneres europeias, veio acompanhada de algumas boas vontades, mas não foi
suficiente. A Conferência de Berlim (1884-5) veio impôr uma nova ordem, e
Portugal foi obrigado que até então ocupava nas colónias uma faixa estreita costeira do território, praticamente sem penetração, para o interior, viu.se obrigado a uma ocupação efectiva e ao seu
desenvolvimento, perdendo o direito histórico todo o valor. Foi então
que com
muita dificuldade se procurou fixar as bases de uma nova administração,
promover o
povoamento com famílias
portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Mas
este
foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação
da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de
Matos, que em 1912 havia reacendido a
esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a
revolta
dos autóctones eram uma realidade do que
resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que
fizeram de
Moçâmedes o seu porto de desembarque.
Muito haveria mais para dizer...
MariaNJardim
Texto com "Direitos de Autor"
(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes..............................................................................................
As pescarias até meados de 1950
AINDA SOBRE AS «FURNAS» ou «GRUTAS», e as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA TORRE DO TOMBO.
O que resta das mesmas e o significado histórico...
Na verdade conheci este local como às minhas mãos,
porque era ali que ficavam as
"grutas" ou "furnas" dos meus avós, a sua pescaria e a pescaria dos
meus pais, lá mais para diante já próximo da Ponta do Pau do Sul,
num local onde apenas se podia penetrar a pé. E em tempos mais recuados,
apenas de barco. E também porque foi em
Moçâmedes que nasceram meus pais, que nasci, que casei e que nasceram os meus filhos.
Na
infância trepei algumas vezes este morro, de cima baixo e de baixo para
cima, entrei em algumas dessas «grutas» ou «furnas», que na sua maior
parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, onde se guardavam os
apetrechos, redes, anzóis, tambores de alcatrão, bidões de óleo,
caixotes, latas de tinta, etc etc. Nunca pensei que fossem tantas!
Na adolescência assisti às demolições das pescarias que circundavam a
falésia da Torre do Tombo, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» até então escondidas pelas pescarias, a
descoberto, e mais expostas à erosão do
tempo, e à impiedosa mão do homem. Lamentavelmente,
não me lembro de lhes ter dado alguma importância em termos de História. Não admira! No meu tempo de Escola a matéria que nos era ministrada estava mais voltada para o conhecimento dos rios de Portugal, dos afluentes e confluentes, dos montes, serras e montanhas, das dinastias sucessivas desde D, Afonso Henriques até à Implantação da República, e pouco mais, não estimulava o gosto pela pesquisa, e nas livrarias da terra os livros à venda passavam pelo crivo da censura prévia, uma das características do regime.
Se
é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este
histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas
pescarias, por famílias dedicadas à pesca do atum, que fizeram desaparecer as «inscrições» mais antigas,
gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme nos diz Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que avança também que
Brito Aranha, nas suas Memórias
Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da
Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870),
deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro, é também certo
que outras mais recentes intervenções e insensibilidades acabaram por
fazer desaparecer aquilo que restava de histórico neste local. quando,
com a demolição das pescarias, na década de 1950, por força da
construção do cais
acostável, na fase dos
aterros e terraplanagens, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, toneladas e toneladas de areia que
desfiguraram a topografia do terreno.
Já alguém disse que um povo sem História é um povo sem memória que está fadado a cometer no presente e no futuro os mesmos erros do passado. A História é algo abrangente, ela está presente até no ar que respiramos. Então será que devemos esquecer que a velha "Angra do Negro" de Diogo
Cão, a «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas da zona, foi em tempos remotos ponto de
passagem dos primeiros navegantes e corsários, que nas suas navegações ao longo de séculos pelo vasto mundo ali faziam "aguada", ou seja, abasteciam-se da água do Bero, e descansavam antes de prosseguir viagem? E que foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas
«inscrições» de incalculável valor histórico, datadas desde 1645 a 1770, e outras mais recentes que não chegaram aos nossos dias?
Para além do historial que ficou para trás, essas «furnas» ou «grutas» serviram
também de primeira morada aos pioneiros algarvios de Olhão que começaram
a chegar a Moçâmedes a partir de 1861, sem quaisquer ajudas dos
Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em
caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e
variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as
suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. Eles levaram para Moçâmedes o seu saber de experiência feito, e com eles anzóis, redes, e tantos outros apetrechos, barcos, etc, que transmitiram a outro povos.
Trata-se pois de um verdadeiro «ex-libris», faz
parte da História de Angola, da História de Portugal e da História
Universal. Um lugar pouco reconhecido e estimado, quer antes quer após a independência de Angola, actualmente em processo de acelerada degradação,
bastando comparar o aspecto de então com o
seu aspecto actual.
O bairro da Torre do Tombo na zona mais a sul, já a subir para o Canjeque e Praia Amélia, podendo ver-se as casas de traça portuguesa de João Duarte, outro dos ex-libris da cidade em estado decadente.
Prossigamos com as nossas recordações sobre este histórico e mal cuidado local. Em 24 de Junho de 1954, no decurso de uma visita a Moçâmedes do
Presidente da República, General Craveiro Lopes, tiveram início as
obras da marginal e do cais acostável. E em 24 de Maio de 1957 o 1º troço era inaugurado, com a presença do Governador Geral.
24 de Maio de 1957. Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se do cais e
prepara-se para encostrar...
24 de Maio de 1957. Momentos da inauguração, com a presença de alunos do colégio e das escolas, futebolistas e basquetebolistas dos clubes da cidade, e povo em geral.
24 de Maio de 1957. O paquele "Uige" e a multidão, vistos do cimo do morro da Torre do Tombo.
24 de Maio de 1957. De mais perto, o paquete e a multidão. As alunas do Colégio de Nossa Senhora
de Fátima de Moçâmedes abrem alas para o Governador passar. De entre outros reconhece-se Mário Guedes da Silva, Mário Rocha, e o professor
Canedo. 24 de Maio de 1957.
24 de Maio de 1957. A aguardar a chegada do Governador Geral, o bispo da Diocese de Sá da Bandeira e elementos representativos das "forças vivas" da cidade

24 de Maio de 1957. O momento da entrega das chaves da cidade ao Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de
Sá Viana Rebelo, pela basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Celísia
Calão. A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Dr.Nunes da Ponte
A apresentação de cumprimentos de boas vindas ao Governador Geral de Angola, por elementos representativas das "Forças Vivas" da cidade, ou seja, da esquerda para a direita, o Dr Mário Moreira de Almeida (médico), Raúl Radich Junior, Rui de Mendonça Torres, Abilio Simões da Silva e Virgílio Carvalho de Oliveira.
24.05.1957. O momento simbólico do descerramento da placa comemorativa da
inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá
Viana Rebelo.
Por baixo de um toldo erguido no cais, o Governador de Moçâmedes, Vasco
Nunes da Ponte, entre o Governador Geral de Angola, Tenente Coronel
Horácio José de Sá Viana Rebelo, e o Dr. Mário Moreira de Almeida
(Médico), presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, procede à
assinatura do auto da inauguração.
O Governador Geral de Angola,Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, no topo da falésia, tendo a seu lado o Governador
do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte.
Finda a cerimónia, o cais vazio de gente...
O paquete Uije descansa enquanto os visitantes e comitiva, forças
vivas e povo se deslocam para outros pontos da cidade para
assistir a outras cerimónias. Na mesma data procedeu-se à inauguração do novo
edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca do Distrito de Moçâmedes, e ainda à cerimónia da colocação da primeira pedra que
deu início à construção do complexo desportivo do Sport Moçâmedes e
Benfica, ambos os actos presididos pelo Governador Geral de Angola,
Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.
Panorâmica
do cais e da baía no decurso das obras da construção nesta 1ª fase das
obras, em que grande número das primitivas pescarias ainda ali se
encontravam. Não tardariam muito a ser demolidas. Com
as terraplanagens, o morro sofreu vários desgastes e as "grutas" ou
"furnas" igualmente. Posteriormente estas têm continuado a sofrer a
erosão do tempo, e as consequências trazidas pela mão dos homens...
A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a
empreitada por 3 anos, pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma
adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno.
Foi assim que se apresentou à noite a baía de Moçâmedes quando da
inauguração da Avenida Marginal em 1963. Fotos cedidas por Vitor Torres
O aspecto actual das «grutas» ou «furnas»
Termino com este texto
carregado de significado, escrito pelo primeiro sociólogo angolano, Mário
Pinto de Andrade, fundador do MPLA, que lembra a necessidade quanto possível da preservação deste histórico
local, que já não guarda as velhas «inscrições» de grande valor
histórico, mas que ainda pode oferecer à cidade, a Angola, e ao mundo, com a preservação das "grutas" ou "furnas" que restam, testemunhos da história desse mesmo Mundo.
"...A
cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o
seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças,
conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma
oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo
que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas
religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco,
sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo
os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais;
gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da
cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da
educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário,
instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e
objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau -
representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto
material» in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].
(1) Era assim que o poeta, romancista,
dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos
via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes, entre
de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito. Não admira, este poema do início do século XIX, tempo de
estagnação no
desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola, tempos de total anarquia, tendo
muitos portugueses resolvido abandonar
o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi
melhor. Aliás, Portugal passou a olhar Angola como a nova "Joia da Corôa após a perda do Brasil, independente em 1822, mas tinha condições para avançar com grandes realizações. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa em 1875, veio acompanhada de algumas boas vontades mas não foi suficiente. A Conferência de Berlim (1884-5) veio impôr uma nova ordem, e Portugal foi obrigado a uma ocupação efectiva das colónias e ao seu desenvolvimento, perdendo o direito histórico todo o valor. Foi então que com
muita dificuldade se procurou fixar as bases de uma nova administração, promover o
povoamento com famílias
portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Mas este
foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação
da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de
Matos, que em 1912 havia reacendido a
esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a
revolta
dos autóctones eram uma realidade do que
resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que
fizeram de
Moçâmedes o seu porto de desembarque.
Muito haveria mais para dizer...
MARIANJARDIM