08 julho 2018

Os nossos hippies, em 1972 , na Discoteca CARDIN, em Moçâmedes Fotos de Manuel Faustino e outras,,,




Fotos de Manuel Faustino



Estas fotos são históricas!

Sem dúvida, aqui há história das mentalidades, há mudança nos comportamentos da juventude. Aqui há algo que nos faz lembrar esses movimentos culturais da juventude ligados à contra-cultura hippie que varreram a Europa e os Estados Unidos na década de 1960/70. Nas roupas, nos cabelos (compridos em ambos os sexos), nos adornos, no visual, na postura...


Esta foto marca uma época de ruptura com a época anterior, que terminou entre nós com a entrada na década de 1960. Só quem foi adolescente na década de 1950 em Moçâmedes, sofrendo o peso de todos os condicionalismos que eram impostos pelos costumes, sobretudo às raparigas, é que pode ter dúvidas sobre aquilo que na realidade estas fotos de representam. 

Não é que a nossa juventude , neste cantinho dos confins de África, tivesse recebido a influência das movimentações estudantis que tiveram lugar em Berkeley e Columbia em São Francisco e Nova Iorque, nem  da onda contestatária estudantil do 28 de Maio 68 em Paris. Os nossos jovens eram bastante jovens, alheados da política, despreocupados da guerra-fria e da luta pelos direitos cívicos, e de outras lutas que tais, que protestavam então contra as injustiças do sistema capitalista. Não admira que assim fosse, porque eram muito jovens e porque vivíamos em ditadura, e tudo, tudo o que era publicado, noticias, revistas, jornais, livros, rádio, etc , era filtrado pela acção da censura. Excepto a música e a moda. E esses tempos ficaram  marcados pelo Rock n’ Roll mundial como surgimento de de grandes bandas, e diferentes subgêneros. Nomes como Lonnie Donegan, Bob Dylan, Joan Baez, Richie Havens, Clif Richards, os Beatles e outros tantos que influenciaram toda uma geração. E os nossos jovens também queriam romper com a tradição, queriam divertir-se, queriam integrar-se no seu tempo. A moda e a música foram a saída. E Moçâmedes lá teve a sua Discoteca , a CARDIN, onde os jovens, rapazes e raparigas, longe da vigilância dos pais, podiam conviver e divertir-se no seu mais completo à vontade.  Sou de uma geração anterior, e gostaria que jovens desse tempo  em Moçâmedes contassem as suas experiência vividas nesse mundo em mudança.


No interior da discoteca CARDIN, onde os jovens, rapazes e raparigas, podiam conviver e divertir-se sem a vigilância dos adultos.  Muito formalismo, excepto cabelos compridos dos rapazes, talvez calças boca de sino, aqui não há resquícios de indumentária hippie.


Por essa altura e a par das grandes transformações que se iam operando ao nível das mentalidades no mundo Ocidental, a Igreja na pessoa do padre Martinho Noronha  tomou posição e procurou atrair a juventude para a paróquia, onde igualmente se poderiam divertir protegidos dos perigos do consumo da droga que começava a penetrar entre a nossa juventude e inquietava grandemente as famílias.
 
Seria interessante se os próprios por eles mesmos nos contarem,  através da pena, como era essa vivência, e quanto a influência do movimento hippie teve entre eles, e se  reflectiu na sua geração. 


 

 
Grupos de jovens envolvidos com o Padre Luis Carlos, fundador da Comunidade Shalom


 O padre Luís Carlos e s Comunidade Shalom

Outro movimento foi o Movimento Shalom, criado pelo Padre Luís Carlos Contente Garcia de Castro, que viveu em Moçâmedes nos anos 1950,  onde estudou no nocturno o secundário, enquanto trabalhava na Casa Inglesa, e onde ajudou a dizer missa, organizou encontros de juventude, e  a determinada altura  afastou-se da cidade para  prosseguir o seu sonho...

Foi preocupado com  a educação da juventude, que sempre lhe causou inquietação, que durante as férias de 1966, e em 12 de fevereiro de 1967,  depois de vários encontros em Luanda, Lobito, Moçâmedes, Nova Lisboa, realizou um encontro de jovens no salão paroquial da Sé de Nova Lisboa, considerado o início do Movimento Encontros de Jovens Shalom, que logo se espalhou por várias cidades de Angola, sendo o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral. 
 
Por essa altura vivia-se o ambiente do Vaticano II, a Igreja do Papa João XXIII, visando a aproximação à juventude, anunciara  a 25 de Janeiro de 1959 a sua intenção de realizar um Concilio Ecuménico. Muitos achavam não haver motivo para tal…e que este Papa seria era um Papa de transição, que breve seria o seu pontificado… Na verdade eleito em 1958,  viria a falecer em 1963! Mas convocou o Concilio e deixou uma grande herança. Por isso não foi um Papa de transição, como muitos pensavam… 
 
O Concilio teve inicio a 11 de Outubro de 1962 e foi encerrado pelo Papa Paulo VI a 8 de Dezembro de 1965. Foi este Concilio possibilitou aos leigos uma missão definida no seio da Igreja que abriu ao diálogo com o Mundo, deu atenção aos meios de comunicação social para anunciar o Evangelho, a tónica Missionária “ad gentes”, abriu para o Ecumenismo, declarou a Liberdade religiosa e manifestou os valores das outras religiões não cristãs. Eis a riqueza do Vaticano II que dirigiu  aos jovens, rapazes e raparigas de todo o mundo a sua última mensagem:
 
 

MENSAGEM DO CONCÍLIO VATICANO II  (1965)


Aos jovens


É finalmente a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem - pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela.

A Igreja, durante quatro anos, tem estado a trabalhar para um rejuvenescimento do seu rosto, para melhor responder à intenção do seu fundador, o grande vivente, o Cristo eternamente jovem. E no termo desta importante «revisão de vida», volta-se para vós. É para vós, os jovens, especialmente para vós, que ela acaba de acender, pelo seu Concílio, uma luz: luz que iluminará o futuro, o vosso futuro.

A Igreja deseja que esta sociedade que vós ides constituir respeite a dignidade, a liberdade, o direito das pessoas: e estas pessoas, sois vós. Deseja em especial que esta sociedade deixe espalhar-se o seu tesoiro sempre antigo e sempre novo: a fé, e que as vossas almas possam banhar-se livremente nos seus clarões benéficos. Tem confiança que vós encontrareis uma força e uma alegria tais que não chegareis a ser tentados, como alguns dos vossos antepassados, a ceder à sedução das filosofias do egoísmo e do prazer, ou às do desespero e do nada, e que perante o ateísmo, fenómeno de cansaço e de velhice, vós sabereis afirmar a vossa fé na vida e no que dá um sentido à vida: a certeza da existência de um Deus justo e bom.

É em nome deste Deus e de seu Filho Jesus que vos exortamos a alargar os vossos corações a todo o mundo, a escutar o apelo dos vossos irmãos e a pôr corajosamente ao seu serviço as vossas energias juvenis. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitadores, sinceros. E construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados.

A Igreja olha-vos com confiança e com amor. Rica de um longo passado sempre vivo, e caminhando para a perfeição humana no tempo e para os destinos últimos da história e da vida, ela é a verdadeira juventude do mundo. Possui o que constitui a força e o encanto dos jovens: a faculdade de se alegrar com o que começa, de se dar sem nada exigir, de se renovar e de partir para novas conquistas. Olhai-a, e encontrareis nela o rosto de Cristo, o verdadeiro herói, humilde e sábio, o profeta da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens. É em nome de Cristo que nós vos saudamos, que vos exortamos e vos abençoamos.

Papa Paulo VI

(na conclusão do Concílio Vaticano II, 1965).
 

Fotos de missas  yé-yé  na Laje, em Sá da Bandeira (Lubango-Angola)







MariaNJardim 



 


 
(1) O padre Luís Carlos Contente Garcia de Castro, viveu em Moçâmedes, nos anos 1950, estudou no nocturno o secundário, enquanto trabalhava na Casa Inglesa. Ajudou a dizer missa, organizou encontros de juventude, e  a determinada altura  afastou-se da cidade para  prosseguir o seu sonho... O  desejo de ser padre  de fazer alguma coisa em seu favor do próximo, existia  nele desde criança, e, em 1958, levou-o a entrar para o Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola, carregando consigo o "sonho de uma Igreja livre e pobre, numa sociedade livre de pessoas livres".
Preocupado com a educação da juventude que sempre lhe causou inquietação, durante as férias de 1966, e em 12 de fevereiro de 1967,  depois de vários encontros em Luanda, Lobito, Moçâmedes, Nova Lisboa, realizou um encontro de jovens no salão paroquial da Sé de Nova Lisboa, considerado o início do Movimento Encontros de Jovens Shalom. O Movimento logo se espalhou por várias cidades de Angola, sendo o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral.No dia 6 de Julho de 1968 foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude. Em 1972, com outros jovens, continuou a sonhar  na fundação de uma Comunidade que pudesse assessorar a Evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola. Em 1973, fez uma especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este Movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade. Nessa altura, Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluindo religioso. O Concilio Vaticano II tinha chegado ao fim (1965).  Falava-se de um histórico encontro do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com os três principais líderes dos Movimentos de libertação das colónias portuguesas: para além de Amílcar Cabral (da Guiné-Bissau e Cabo Verde), Agostinho Neto (de Angola) e Marcelino dos Santos (de Moçambique). A  Encíclica “Populorum Progressio”, acolhera a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento. Em 7 de dezembro de 1974, chegam ao Lobito e juntam-se ao padre Luís Carlos, o padre Manuel Couto e o diácono José Teixeira,  para formarem Comunidade de missão junto à juventude. D. Américo, bispo de Nova Lisboa, ofereceu uma casa da Diocese onde fizeram morada. Em 1975 a Conferência Episcopal nomeia o padre Luís Carlos Assistente Nacional da Pastoral da Juventude de Angola e os Bispos comprometem-se a dar uma contribuição para o sustento da Comunidade.Em 1 de agosto de 1975, devido à guerra civil, o padre Luís Carlos deixa Nova Lisboa, e chega ao Brasil, Rio de Janeiro no dia 13, depois de uma viagem atribulada. Na CNBB, no Rio de Janeiro, conheceu D. Aloísio Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza e D. Paulo Ponte, Bispo de Itapipoca, que o convidou para trabalhar na sua Diocese.Em 30 de Março de 1976, fixou residência, em Fortaleza, na Rua Olavo Bilac, na capelania de S. Judas Tadeu. A Comunidade Shalom já tinha iniciado e desenvolveu um grande trabalho nas dioceses de Fortaleza e Itapipoca.Em 1978, o padre Luís Carlos veio para Portugal  para apoiar os jovens do Movimento que tinham vindo de Angola. E em 16 de Março desse ano iniciou a Comunidade em Riachos, na Diocese de Santarém, sendo acolhido na casa paroquial pelo padre Américo. Em 15 de Março de 1982, o padre Luís Carlos voltou a Fortaleza, depois de uma ruptura entre os membros da Comunidade. E foi um reinício. Em 5 de junho de 1982, foi instituído pároco da recém-criada Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, Barra do Ceará, onde permaneceu por 10 anos. Em 12 de Janeiro de 1983, D. Aloísio reconheceu a Comunidade e nomeou o padre Luís Carlos seu Coordenador Geral. Em 22 de Abril de 1984, D. Aloísio aprovou as Normas da Comunidade Shalom, como uma Sociedade de Vida Apostólica. Em 15 de agosto de 1997, o padre Luís Carlos deu início à fundação da Comunidade Shalom Feminina.

O Padre Luís Carlos foi Coordenador Geral da Comunidade Shalom, até 16 de julho de 2002, quando, a seu pedido, foi eleito um novo Coordenador. Actualmente, o padre Luís Carlos escolheu viver na sua terra natal, Ilha Terceira, Açores, onde desenvolve trabalho pastoral, sobretudo como pároco.

http://princesa-do-namibe.blogspot.com/2011/02/padre-luis-carlos-fundador-da.html