16 julho 2018


 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 Foto de Amílcar Sousa Almeida.

Foto de Amílcar Sousa Almeida.

 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 




CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO (CEI)

(I)
Em inícios de 1956, com 19 anos, tomei a decisão de vir para Portugal, prosseguir os meus estudos. Tinha feito em regime “post laboral” a Secção Preparatória para os Institutos Comerciais, uma “ponte” para a licenciatura em Economia.

As condições da “luta” que levou o poder de Lisboa à criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na Escola Comercial de Moçâmedes, foram objecto dum texto que já publicámos.

Decisão muito difícil de tomar. Ia deixar a minha terra, a minha família e os meus amigos, além de um “bom” emprego no Grémio da Pesca.

Mas tinha que ser assim. Na época não havia Ensino Universitário em Angola e quem quisesse obter uma formação “superior” tinha de o fazer obrigatoriamente na “Metrópole”.

O regime da ditadura tinha receio que a criação de universidades nas suas colónias de África fosse uma “porta escancarada” para reivindicações de independências futuras. Os “senhores” de Lisboa não queriam nem pensar em “novos Brazis” na “sua” África.

Escrevi então para o ex-colega da Escola de Pesca, Vítor Manuel Figueiredo, que já estava em Lisboa preparando o seu acesso ao curso de Arquitectura. O Vítor era sócio da Casa dos Estudantes do Império que dispunha de uma cantina e de um lar residencial próprios.

Parti para Lisboa em Março de 1956, no paquete “Império”.

À chegada, na gare de Alcântara, lá o estava o amigo Vítor Manuel à minha espera. Dali seguimos para a Casa dos Estudantes do Império, no nº 23 da Avenida Duque de Ávila, a fim de regularizar a minha situação como seu associado.

De seguida fomos para o lar da CEI na Praça Pasteur, no Areeiro, onde fiquei instalado na companhia do amigo Vítor.

O ambiente foi desde logo muito animador, na CEI cruzávamo-nos com estudantes universitários de todas as faculdades e oriundos de todas as colónias: angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses, santomenses, macaístas e timorenses.

As refeições da cantina eram boas e a preços acessíveis. No Lar habituámo-nos a estudar ao lado de companheiros de Medicina, Direito, Economia, Engenharia e Veterinária.
A iniciar o Instituto Comercial, sentíamo-nos “pequeninos” ao lado deles. Mas era estimulante para seguir em frente e por de lado as saudades que apertavam da terra e da família. Como disse o poeta cabo-verdiano e sócio da CEI, Tomás Medeiros, a Casa era “o cantinho de saudade, o ponto de encontro com a terra distante”.

A CEI dispunha de um posto médico, para consultas e tratamentos. Era médico da CEI o “cardiologista” Dr. Arménio Ferreira, o “nosso quimbanda”, como o tratávamos familiarmente, que viria a conhecer como “um grande antifascista”.

Devo muito ao Dr. Arménio: um ano mais tarde, em consequência de uma pancada no ventre num jogo de futebol no Instituo, sofri de uma peritonite. O Dr. Arménio diagnosticou-me “a tempo” e internou-me no Hospital de Jesus, onde fui operado de urgência, assumindo ele as despesas até ao retorno dos meus pais. A CEI promovia ainda “tardes desportivas”, “bailes”, festas de Natal e conferências culturais. Mantinha um Boletim “A Mensagem”. A cantina servia diariamente à volta de 200 refeições, a preços módicos.

A Casa dos Estudantes do Império, “a Casa”, como carinhosamente a tratávamos, como seria natural face à ditadura, foi o “alforge” duma geração de futuros dirigentes das colónias após as independências. Recordo-me de ver o Dr. Agostinho Neto a almoçar numa mesa ao nosso lado, ele que viria a ser o futuro presidente de Angola independente.

Em Agosto de 1965 numa repressão generalizada da ditadura às associações de estudantes, a PIDE, a mando do ditador, encerrou a CEI e confiscou todo o seu “recheio”, o que causou enormes prejuízos aos estudantes ultramarinos.

Estudantes de Moçâmedes, Torre do Tombo, que, na época, fizeram parte dos órgãos directivos da CEI: Manuel Monteiro, Amílcar Almeida, Júlio Almeida e Ângelo Almeida.