Gente do meu tempo (baú de recordações)

Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...

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03 outubro 2019

TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO

O Luso Clube, com Juju, Zé Rosa, Manuel Monteiro, Amilcar, Antonio Joaquim,  ? e Carlos Ferreira
Uma baleeira da arte da sacada, então a mais comum em águas de Moçâmedes


Esta foto é panorâmica, vale a pena aumentar para vêr. Trata.se da baía de Moçâmedes nos anos 1940. Aqui aina não havia traineiras,
Outra vista das pescarias que contornavam parte da baía, até meados de 1950
 

 Licenciou-se em Direito em Lisboa onde foi Conservador e por fim Notário em Almada. Faleceu em 2021.

A 1ª traineira de Moçâmedes

Em Portimão encostada à muralha do porto, próxima da «Casa Inglêsa», a primeira traineira que sulcou os mares de Moçâmedes. Comprada  pela Cooperativa «Galinho», era de início movida a vapôr através de caldeiras. Nos anos 1940 foi adquirida pela família Grade, residente em Moçâmedes, mas teve que nos estaleiros de Portimão o ser submetida a modificações que incluíram a retirada do cano, uma vez que passou a funcionar a motor a gasoil. Foi levada até Luanda como carga de um navio, porém  de Luanda para a Baía dos Tigres, onde ficava a pescaria do proprietário, viajou pelos seus próprios meios. O primitivo nome que lhe foi então dado foi o de «Nossa Senhora da Luz». Ao chegar a Moçâmedes foi baptizada com o nome da filha do proprietário: «Maria José». Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabaram por se radicar em Moçâmedes, onde permaneceram até à independência de Angola, em 1975. (1)
O Amilcar numa zona do topo do morro da Torre do Tombo


Na praia do Mexilhão, junto da Ponta do Pau do Sul (Noronha), em 1953, com os amigos da Torre do Tombo: , Zéziinho Duarte, Norberto Almeida,  Lolita Lisboa, Patrício  e Carlos Calão. 
Na Praia das Miragens, com Zeca Ilha e?

Com o Zéquinha Esteves


Na praia do Mexilhão, junto da Ponta do Pau do Sul (Noronha), em 1953, com os amigos da Torre do Tombo: Patrício,  Lolita Lisboa, Zeziinho Duarte, Juju Almeida,Victor Domingos e  Carlitos Ferreira

No deserto,  à dt., em 1953, com os amigos Norberto Edgar Almeida ( Nor), Carlos Calão, Lolita Lisboa,  Patrício, Zezinho Duarte.
Embaixo,  à esq. na equipa do GCTT, em 1954/5


A equipa de futebol de reservas do Ginásio Clube da Torre do Tombo, momentos antes da realização de um jogo no campo de futebol da vizinha Porto Alexandre.  Da esq. para a dt. em cima: Pedro Eusébio, Aires Domingos, ?, Fernando Pessanha, Rui Abano, Joaquim Gregório e ? Embaixo: Pacheco, John Pereira, Padre Galhano, Fernando Pestana e Amilcar de Almeida. Foto tirada em 1955, e gentilmente cedida por Amilcar de Sousa Almeida. O homem de barbas e barrete negro a que me refiro, trata-se do Padre Guilhermino Galhano, pessoa muito estimada em Moçâmedes, carola do clube azul e branco  e do futebol, que ele próprio praticou, descontraidamente, lado a lado com os jovens daquele clube pioneiro. O Padre Galhano era um padre moderno, no bom sentido do termo, que sabia chamar a si os jovens e as crianças da terra. Ele, aliás , depois do catecismo, aos domingos, jogava futebol com as crianças, no descampado que ficava entre a Igreja Paroquial de Santo Adrião e o Palácio do Governador.

Com os amigos da Torre do Tombo e do GCTT; ?. Carlos Calão, Albino Aquino (Bio) e Amilcar
As primitivas pescarias da Torre do Tombo, que contornavam a baía (metade sul)

A  Fábrica de conservas "Africana", mais tarde "Sociedade Oceânica do Sul".


TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
 
Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão. Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
 
A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 
 
DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
 
DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
 
Do LUSO , meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
 
Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
 
Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
 
Dos GASOLINAS E DOS BATELÕES sulcando A BAÍA, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
 
DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
 
DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
 
Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
 
Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
 
Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
 
DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
 
A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
 
Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
 
TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
 
Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO

Amilcar Sousa Almeida

Amilcar estava gravemente doente há muitos anos a resistir a doença  prolongada. Desde 1955 jovem ainda foi estudar para Portugal, onde se formou em Direito, foi Notário, casou e por lá ficou. Faleceu em 2020, e
deixou-nos estas memórias.
 
 
(1)
Quando se deu a independência de Angola,  esta enorme traineira pertencia a uma sociedade de que faziam parte Virgilio Gonçalves de Matos, Francisco Velhinho e Miguel de Freitas. Com o aumentar dos conflitos os sócios resolveram partir de avião para o Brasil, enquanto a traineira atravessou o mar, rumo às terras de Santa Cruz (Brasil), conduzida pelo seu mestre, de origem madeirense, que com ele levara a família constituída pela mulher seis ou sete filhos. No Brasil, em Santos, acabaria vendida dada a dificuldade na aquisição de licenças de pesca para barcos estrangeiros.
 
Ver tb:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2008/10/maria-petronila-monteiro-mossmedes.html

MariaNJardim à(s) quinta-feira, outubro 03, 2019 Sem comentários:

04 setembro 2019

As Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, no dia 08 de Dezembro de cada ano






 



O Padre Galhano


EVOCAÇÃO:
Moçâmedes (Namibe), séc. XX, anos 50
SENHORA DO QUIPOLA


Na Torre-do-Tombo (Moçâmedes) o dia mal se adivinhava e já D. Maria “Cambuta”, minha mãe que Deus tenha (como se usa dizer!), se afadigava nos preparativos para mais um 8 de Dezembro, dia de consagração da Imaculada Santa-de-Todos-Nós. Feitos de véspera, bolinhos de bacalhau e “jaquinzinhos” aguardavam a entrada na cesta do farnel; agora, era a hora de fritar os panados, as fatias de pão e o frango, cozer os ovos e a batata doce. Num canto da mesa, o indispensável palhinhas tinto de cinco (que os amigos haviam de aparecer!), e as garrafas de bulunga e de gasosa: desde a véspera haviam repousado na selha repleta de gelo; agora, era questão de conservar.
Farnel pronto, cesta composta, era a abalada, "a butes", ate´ `a estação do C.F.M., ora andando, ora correndo, tentando acompanhar a passada de “mestre” Cambuta na pressa de apanhar um aglomerado ainda não muito grande de candidatos a uma viagem de “Camacouve” que nos transportasse ate´ ao recinto das festas. Este, o contributo do C.F.M. para as celebrações da Senhora do Quipola: comboios grátis num vaivém constante, vagaroso, carregando e descarregando avalanches de povo que se apinhava nas carruagens na ânsia de chegar a tempo de um bom lugar.
Mal chegados, procurávamos onde estender mantas e esteiras, `a sombra de uma qualquer arvore que atenuasse o sol abrasador de Dezembro, mesmo que afastada do recinto onde o ar festivo era evidente : mastros decorados, bandeiras e fitas, altifalantes pendendo de arvores e mastros. Afastadas do recinto fronteiro da capela, livre para permitir a passagem da Procissão, pequenas barracas aprestavam-se para o arraial. Eram tômbolas e rifas, barracas de cavalinhos e comes-e-bebes, de venda de um pouco de tudo, e entre o chiar das rodas dos carros-de-bois vindos das Hortas carregados de trabalhadores, e o bater cadenciado dos cascos dos cavalos puxando as “charretes” dos abastados senhores da terra, desde cedo o agradável cheiro do churrasco enchia os ares.
Depois da Missa Campal e da Procissão, a cargo do conceituado e barbudo Padre Galhano, era a corrida aos farnéis aconchegantes dos estômagos e criadores de forças para a tarde que despontava. Primeiro, era a diversão, com jogos e concursos diversos: corridas de cavalinhos, corridas de sacos, lançamento de argolas, entre outros, e o inevitável “Pau Ensebado”, espécie de “ex-libris” de quanto era festa ou arraial, e que tinha por premio a garrafa colocada no alto. E enquanto a petizada, correndo, ia jogando o que lhes era permitido e assistindo a tudo (mas tudo, não e´, Ricardo? ) os adultos dividiam-se entre os jogos e os palhinhas acompanhados pelos bolinhos de bacalhau, “paracucas” e crocantes “macocas” picantes e salgadas.
Finalmente, a meio da tarde, o som de acordeões ou gramofones invadiam o recinto marcando o segundo ponto alto dos festejos: o baile. E enquanto uns se deixavam contagiar pelo pé-de-dança, a maioria do povo, arrumada a trouxa, procurava um lugar no “Camacouve” que a levasse de regresso.
José António Teixeira



    • A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, multidão e ar livre
MariaNJardim à(s) quarta-feira, setembro 04, 2019 Sem comentários:

12 abril 2019

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e o seu tempo


 



DA DITOSA TERRA NOSSA AMADA...

TEXTO DE BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO, O DIRECTOR DA 1ª COLÓNIA DE EMIGRANTES FUNDADORES DE MOÇÂMEDES VINDOS DE PERNAMBUCO- BRASIL EM 04 de AGOSTO DE 1849. In Nossa Senhora de Guararapes, publicado ainda em Recife de Pernambuco, 1847:


«Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade, que te envia o desterrado filho teu. Foi em ti que passei a primavera da vida, que tão rápida se esvaece , que mal se sente! Veiu apoz a estiva quadra que apenas toquei e gozar não pude no solo teu; Malfadada sorte me afugentou de ti, e cá de longe ouço os teus gemidos, que estalar de dor me fazem o coração!... Oh! como me lembro do solar paterno, e aquelles em cujas veas corre o mesmo sangue.
- como os amigos da infância, os folguedos innocentes, os sítios das primeiras impressões!
- como ... os bellos dias, as suas lindas manhãs, em que a vista se recrea..., os ouvidos se afinam...; e em que o olfato se apura pelos esquesitos perfumes... que diffícil fora enumerar!
Dias ditozos! que manso a manso vos evaporastes todos , para mais não volver, e que só deixastes saudades tantas, para onde voaste? Meigos sorrisos que vos agitáveis nos innocentes lábios meus, para onde fugistes? Luz insolente! que brilhavas nos meus puros olhos para onde te ausentaste, que agora ou elles tristes derramam copiosas lágrimas, ou retratam da alma a profunda meditação? Tudo, tudo se esvaneceu, e apenas resta a esperança - esta de todas a mais fiel amiga, a mais constante companheira - esta sim, esta eu cá sinto d'entro da alma...
Saudade,
Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! vocábulo sem par! que inveja fazes a tantos povos; os quaes porque te não sentiram, não te souberam exprimir! Ditosa língua que tal expressão possuis...»

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Em 1839 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro exilou-se em Pernambuco, Brasil, após o triunfo do liberalismo em Portugal sobre os absolutistas, e a partida de Dom Miguel para o exílio.

Porquê Bernardino absolutista?

Quando jovem universitário Bernardino deixou os estudos em Coimbra para se alistar, como tenente de caçadores, nos voluntários realistas do exército de Dom Miguel, levado pelos princípios e sentimentos de sua família, uma família católica, conservadora e legalista, e pela influência de um parente próximo, general das armas da província.

A verdade é D. Pedro era o legítimo herdeiro do trono, mas com o rei seu pai, D. João VI e a corte, refugiados no Brasil, em consequência das invasões francesas (1808-11), tudo se alterou em termos da legitimidade da sucessão. Com a revolução de 1820 em Portugal, Dom João VI, teve que regressar a Portugal deixando o seu filho mais velho, Dom Pedro, como príncipe regente do Brasil. Em Portugal Dom João VI quis efectivar uma recolonização (volta à condição de colónia) do Brasil, mas os brasileiros, recusaram as imposições do Parlamento português e rapidamente a independência do Brasil aconteceu. Logo a seguir Dom João VI morre, e deputados portugueses exigiram o retorno de Dom Pedro, mas o príncipe regente proclamou a sua permanência no Brasil, voltou costas ao trono em Portugal, e perdeu toda legitimidades para os legalistas. A 09 de Janeiro de 1822, ficou conhecido como o dia do “fico”, e o 07 de Setembro desse ano como o dia em que Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil: “É tempo: independência ou morte! Estamos separados de Portugal!”.  A seguir, no dia 12 de Outubro de 1822, Dom Pedro foi nomeado imperador do Brasil (1822-1831). Em 1825 Portugal assinou um acordo com a Inglaterra reconhecendo a autonomia política brasileira.

Entretanto no Brasil cresce a impopularidade do imperador, e em 1824, iniciou-se em Pernambuco um movimento contrário a Dom Pedro que rapidamente ganha proporções, sendo castigados violentamente os líderes. A imprensa brasileira  subiu de tom contra o Imperador e levou a crescentes agitações populares nas províncias, até que no ano de 1831 Dom  Pedro abdicou do trono e retornou a Portugal, onde tal como acontecera a seu pai, depressa faleceu acometido por tuberculose no ano de 1834. Como a monarquia era hereditária, seu filho Pedro de Alcântara, com apenas cinco anos na época, passou ser o herdeiro do trono. Com este facto, findou o Primeiro Reinado no Brasil, iniciando outra fase da história brasileira, o Período Regencial (1831-1840). Brasil e Portugal continuavam nas mãos da mesma família, com Dom Pedro II no Rio de Janeiro e Maria II em Lisboa.


A fase do professorado no Brasil

Quanto a Bernardino, exilado no Brasil, renuncia a toda a actividade política, dedica-se exclusivamente ao ensino no Colégio Pernambucano, regendo as cadeiras de História, Geografia e Latim. Não perdeu o amor aos livros, às letras. Escreveu livros de carácter didáctico, como a História Geral, em seis volumes. O Primeiro volume sobre a “História Sagrada do Antigo Testamento”; o segundo sobre a “História da Vida de Jesus Cristo” e dos Apóstolos, e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias “; o terceiro a “ História Antiga e Grega”; o quarto sobre a “História Romana e da Idade Média”, o quinto sobre a “História Moderna”; e o sexto sobre a “História de Portugal e do Brasil”. Mas o erudito professor não se ficou por aqui, escreveu outros livros dos quais destacamos “Nossa Senhora de Guararapes – romance histórico, descritivo, moral e crítico”, que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses, em 1648 e 1649, nos altos montes dos Guararapes, na região do Recife.


A opção por África e a fundação de Moçâmedes

Bernardino impunha-se como condutor de homens, pelas suas qualidades de liderança e iniciativa. Por essa época o Brasil era já um país independente, foi então que cheio de saudades da sua sua pátria escreveu este texto, numa época em que em Pernambuco, as coisas iam bem. Em 1844, na Assembleia Provincial de Pernambuco, propõe-se que “se expulsem da cidade (ou da província) todos os portugueses solteiros”- (E Bernardino era solteiro).

Em 1847 arruaceiros espancaram pelas ruas da cidade “quantos portugueses encontravam ou que supunham tais”. Foram esses espancamentos que o levaram a incentivar seus conterrâneos a fundarem um colónia bem longe dali, onde tremulasse a bandeira portuguesa, e onde todos juntos pudessem em paz viver e trabalhar: MOÇÂMEDES !

Em 1849, tinha Bernardino 40 anos de idade, quando a Tentativa Feliz  capitaneada pelo brigue Douro, atravessando o oceano, levou-o e aos  165 companheiros para Moçâmedes, onde teve um papel de relevo nesses momentos primordiais da fundação, e onde acabou os seus dias.

Sabe-se que à chegada houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença dos sobas Mossungo e Giraúl e da maior parte dos colonos. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. E que Bernardino seguiu para Luanda no dia seguinte a fim de apresentar cumprimentos ao governador geral, tendo a 21 de Outubro procedido à instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar, com cerimónia às 7 da manhã em que foi içada a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, e com uma salva de 21 tiros, seguida .  houve arraial com largada de foguetes, seguida de almoço e jantar em barracas improvisadas.

Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.

No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Interessado em tudo conhecer, tudo avaliar, tudo projectar, fez viagens de estudo, contactou sobas, colaborou com as autoridades,subiu e desceu a Chela, viajou até ao Cunene, este homem da rija têmpera dos "barões assinalados"apostado no 

Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, em vez de padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".
O governador do distrito ante a desesperada situação faz um apelo à solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes. A situação vai normalizando. Em 26 de Novembro de 12950 entra na baía de Moçâmedes um segundo grupo de colonos, trazidos pela Barca Bracarense, chefiada pelo mesmo Brigue Douro. Estes a expensas suas igualmente direccionados para a  agricultura em Moçâmedes, e  chefiados por José Joaquim da Costa. A pesca foi  outro ramo ao qual se dedicaram naquela terras onde cardumes do pescado entravam
 baía a dentro e vinham dar à praia. Aprenderam a escalar e a secar o peixe, jogando mãos a deetentores dessa técnica que haviam tabalhado na primeira feitoria de Moçâmedes montada em 1939 pelo olhanense Cardoso Guimarães.

Bernardino orgulha-se destes seus companheiros de colonização, o maior exemplo de perseverança em toda a Província, aqueles a quem ele exortou para que conseguiram vencer as adversidades e o deserto. e nunca desistissem nesses primeiros tempos em que a natureza não se compadeceu dos recém-chegados, com uma estiagem de 3 anos que lhes ressecou as terras, levando à  perda as primeiras sementeiras.

O rápido crescimento da povoação é contemplado coma elevação a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existiam 16 pescarias onde trabalham 280 escravos recuperados aos navios negreiros por brigadas inglesas e portuguesas que patrulhavam a costa, após o decreto da abolição do tráfico de escravos que escoava para o Novo Mundo.
Quando no dia 4 de Agosto de 1859, festejaram o 10º aniversário da 1ª colónia já ali havia 83 propriedades agrícolas espalhadas pelas margens do rio Bero, Giraúl, no Bumbo, em S. Nicolau, no Carujamba, no  Coroca, e 
 na Huíla.

O sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela tinha se concretizado, graças  à liderança forte de Bernardino, que também se empenhou na abolição da escravatura. Bernardino bateu-se e até ganhou alguns inimigos. Escreveu em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações".

 Em 1858 foi decretado que dali a 20 anos  não poderia haver escravos. Em 1869, foi abolido o estado de escravidão.

Como memória visual de Bernardino resta um  quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal. Até 1975  existia um busto seu implantado sobre uma coluna a meio da Avenida de Moçâmedes ali colocado na d´cada de 1950. 

Sabe-se que Bernardino faleceu no dia 14 de Novembro de 1871, aos 62 anos de idade, no regresso de uma viagem a Luanda para onde se tinha deslocado em serviço da comunidade. Desconhece-se  o local onde foi sepultado. Outros opinam que se encontra sepultado algures junto a um muro da Quinta dos Cavaleiros, sítio da Bandeira. Não deixou fortuna. Morreu pobre e endividado. Sabe-se também que a Quinta dos Cavaleiros foi assolada por três devastações, e que  este homem que todos reconhecemos como o fundador de Moçâmedes, nunca teve o reconhecimento que merece. As autoridades portuguesas não  prestaram a homenagem merecida a este homem sério, inteligente, culto, cheio de iniciativa e empreendedor, que não admitia escravos na sua fazenda, que sofreu ainda em vida várias devastações à sua Quinta, e que chegou mesmo a ser ostracizado pelas autoridades da terra. 

Mas o povo nunca o esqueceu e lá estava o 04 de Agosto de cada ano  para o lembrar. Assim o demonstrava a claque que acorria ao velho campo de futebol de terra batida, no fundo da Avenida quando em  uníssono invocava  o nome de BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória. Vitória que era sempre conseguida nas competições interselecções .

A história da vida de Bernardino não pode nem deve ficar perdida  em meio a um conjunto de papéis
imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo oficial, ou das colecções de alfarrabistas.

Gostaríamos de acreditar que escrevendo e publicando sobre Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro não estaremos a fazê-lo em vão, e que um dia a História  possa trazer de volta o seu nome
 como exemplo de fé, inteligência, perseverança, dignidade, honradez, trabalho, iniciativa, fidelidade à palavra dada, qualidades de que a nossa humanidade tanto carece.


MariaNJardim


MariaNJardim à(s) sexta-feira, abril 12, 2019 Sem comentários:
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