22 abril 2020

O boi-cavalo, machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, os carregadores indígenas, as caravanas boeres e finalmente o comboio e o automóvel



O boi-cavalo



A utilização do boi-cavalo como meio de transporte e de tracção animal foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos de Moçâmedes, que na labuta agrícola, nesses tempos iniciais, em que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou a outros meios de transporte, substituindo-os pelos bois.

Bois-cavalos eram utilizados nas deslocações dos primeiros colonos  às Hortas, como vem citado em algumas obras da época, existindo menções à  utilização por  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia de 1849 nas suas deslocações à Quinta dos Cavaleiros.

A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.


"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Moçâmedes, principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois, a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.


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 Na lateral da capela de Nossa Senhora do Quipola vêem-se várias tipóias que transportam f~gente até ali


Conforme «Anais do Município de Moçâmedes», para além do boi-cavalo, de início o transporte utilizado era a machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, ou melhor o dromedário (este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849), e ainda as carroças introduzidas no sul de Angola pelos boeres, que chegavam a ser puxados por quinze parelhas de bois e que vieram promover uma verdadeira revolução nos transportes.

Carregadores mondombes numa rua de Moçâmedes em finais do séc XIX


Mas não podemos esquecer os carregadores africanos, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões. Em Moçâmedes essa tarefa esteve entregue aos mondombes, um trabalho voluntário desses africanos havendo referencias a custos elevados difíceis de comportar.  




Carroça de estilo bóer  puxada por uma junta de bois, Carroças boers vieram revolucionar os transportes no sul de Angola no ultimo quartel do séc xix.

 Carroças boers numa das ruas de Moçâmedes, descarregando víveres



Com as carroças boers o transporte efectuado pelos carregadores africanos entram em recessão e a maioria abandonou a região de Moçâmedes e recolheu-se a região de Benguela de onde era oriundo. (2)

Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando os primeiros colonos chegaram a Moçâmedes nada tinham ao dispôr que lhes facilitasse a deslocação de pessoas e de mercadorias, se não os meios atrás citados,  Não fora a entrada pelo sul de Angola dos já referidos boers, em 1880, que se estabeleceram na Humpata, os problemas seriam muito maiores. (1)


 Partida inaugural da Composição do CFM rumo ao Saco, em 29 de Setembro de 1905.


O Caminho de Ferro, uma das grandes reivindicações dos colonos da época chegou tarde, e chegou sob a pressão dos imperativos militares e não tanto pelas necessidades económicas que se faziam sentir.

Foi quando as potências industrializadas europeias se resolveram pela "partilha da África", quando, obedecendo aos ditames da Conferência de Berlim (1884-5) o direito histórico deixou de ter qualquer valor e passou a ser imposta a ocupação efectiva das colónias, cujo interior era ainda desconhecido, que a ideia de um Caminho de Ferro para Moçâmedes começou a aflorar, mas só veio a concretizar-se em 1905. (3) Portugal corria o risco de ter que ceder as colónias a outra potência em condições de as ocupar e fazer progredir., Por essa altura a fronteira sul estava em perigo, era zona quente cobiçada pelos alemães do Sudoeste Africano, e Portugal teve que enviar contingentes militares que desembarcaram em Moçâmedes e para lá rumaram para a defender e para conter a sublevação dos povos autóctones revoltados. Moçâmedes foi pois o porto de desembarque de soldados, armas e munições destinados a essas operações.O caminho de ferro foi lançado em 1905, mas só subiu a Chela em 1923. Até aí foram sempre precárias as deslocações para o interior, situação que estrangulava a economia do distrito, impossibilitava as trocas e não deixava Moçâmedes progredir. Este período foi de completa recessão e houve colonos que retornaram à metrópole.

Voltando ao boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas cronicas que à chegada dos colonos, em 1849, para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":

MariaNjardim


(1) Próprios para caravanas, eram usados pelos militares para o transporte de armas e munições rumo à fronteira sul de Angola, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto, etc. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada, conforme vem referido por Serpa Pinto, em "Como eu Atravessei a África":

(2) "Carregadores" eram povos exclusivamente dedicados ao transporte de mercadorias, de entre os quais se evidenciavam os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela e os mondombes, em Moçâmedes. Eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam as suas terras em detrimento de quaisquer outras comitivas. Eles impunham-se como únicos intermediários entre o interior e a costa, não deixando espaço para a concorrência.

(3) Entre 1907/1910, governava em Angola Paiva Couceiro, suficientemente intransigente e pragmático para conseguir libertar-se das torrentes emanadas do Terreiro do Paço, e com experiência mais que suficiente para saber que dominar o território implicava ocupar fronteiras, obrigar as autoridades gentílicas insubmissas a submeterem-se, proporcionar a estabilidade necessária para que as caravanas de longo curso pudessem circular, e concretizar o pagamento do imposto de cubata.Como governador geral, deu prioridade à abertura de rotas comerciais para o interior tanto em rodovias, (algumas simples picadas) deu início aos troços de caminhos-de-ferro de Moçâmedes, de entre outroa, mas como foi referido no texto só em 1923 foi possível chegar a Sá da Bandeira. Entre 1914-18 as fábricas europeias estiveram ao serviço da guerra, Portugal endividou-se para estar ao lado dos aliados, e tê-los a seu lado se a Alemanha vencesse a guerra, e no poder de então a l republica (1910-28) que atravessando uma conjuntura difícil, pouco mais pôde fazer nesta época pelas colónias.

 Legenda da Gravura exposta: Colono de Mossâmedes montado num boi-cavalo.