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08 fevereiro 2017

Moçâmedes, Memórias com História: O Cantar das Bengalinhas

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O Cantar das Bengalinhas



Na Moçâmedes do antigamente, Maio era simplesmente o mês mais triste do ano. O verão já lá ia, a Praia das Miragens era um lugar vazio e o vento leste que sobrava do deserto, seco e abrasador como vindo dos infernos, arrastava atrás de si poeira fina e grossa e toda a sorte de pequena bicharada, que transformava a pequena cidade numa espécie de terra de ninguém: eram formigas de asas brancas, gafanhotos, libelinhas, carochas, rebola-cacas e outras miniaturas vivas que a Natureza aborta e que acabavam por tudo dominar.
Ninguém sabia ao certo se esses exércitos malquistos vinham fugidos do vento leste, ou se se aproveitavam da sua boleia para invadir a cidade. É que, por essas alturas, no Bero já não corria o rio, apenas uns resquícios finando-se no pantanal da lagoa, à beira da sua foz, onde apenas medravam os caranguejos do Mamedes e nidificavam os patos bravos que, desde tempos imemoriais, ali tinham fixado residência. Aves coloridas, lindas, diga-se de passagem, mas que desgraçadamente um par de mentes iluminadas as foram paulatinamente matando a tiro de caçadeira, até à sua extinção total.
E do meio da poeira trazida pelo vento leste, como almas penadas vindas do outro mundo, iam surgindo em fila distanciada os nossos pobrezinhos para a esmola semanal. Nossos pobrezinhos!,.. assim os chamava a avó Catarina, na genuína convicção de que nada ou quase nada tendo de seu, pelo menos tinha os seus pobrezinhos.
O primeiro a bater à porta era sempre o Samacaca, velho quimbar coveiro do cemitério de Santa Rita, onde ali vivia dia e noite no aconchego da pequena capela e que tratava das campas rasas e dos mausoléus como se fossem o jardim particular do seu contentamento. Fazia a gestão das plantas e das flores com um desvelo singular, seguindo o princípio dos vasos comunicantes, tirando de umas e colocando noutras por forma a atingir um balanço equilibrado entre as campas humildes e as outras mais substantivas.
Daí que o Samacaca não batia à porta para pedir esmola. Não!, ele aparecia para receber a sua avença semanal. Era, aliás, o único probrezinho que não esmolava, antes pelo contrário; vinha cobrar o que achava ser-lhe devido pelo esmero do seu trabalho.
- Senhora, perguntava a Maria Torresmo, o que damos ao Samacaca?
- E a avó Catarina respondia com bonomia: - Dá-lhe duas bananas que ele já não tem dentes para comer maboques ou torresmos.
A seguir, aparecia o Bacia ceguinho, com o rafeiro enrolando-se nas suas pernas para orientar o caminho. E lá recebia o Bacia a esmola de duas macutas furadas que não lhe davam para nada.
Depois, era a vez do Dominguinhos ceguinho, arguto e inteligente, que caminhava sempre com um assobio nos lábios, compondo cazicutas para o carnaval com poemas de escárnio e maldizer de sua autoria. Como um jogador de xadrez, especialista em simultâneas às cegas, o Dominguinhos conhecia cada peça da cidade, cada rua, cada casa, toda a gente de Moçâmedes do antigamente, desde o gourmet da Maria do Quico, já para lá do Bairro da Maria da Glória, até à Baixa do Tapa-Tapa, por trás da loja do Manuel Monteiro, na Torre do Tombo.
- Então, Dominguinhos, sabes quem eu sou?
- Oh!.., menino Tendinha, não precisa falar, basta só rir, respondia o Dominguinhos, recolhendo a moeda.
Na mole dos pobrezinhos, também vinha o Guinguinda, grande e gordo, um louco pacífico mas que se passava de todo quando lhe perguntavam pela sorte do cunhado Surdo, que explorava uma pequena tasca mesmo defronte à loja do Albérico Faustino. A D. Máxima, que sabia tudo, dizia à boca calada que o Surdo violentava as filhas. Certezas, ninguém as tinha, mas a avó Catarina sempre ia dizendo que não havia fumo sem fogo.
- Guinguinda, diz “viva Norton de Matos” - perguntava a Maria Torresmo.
- E o Guinguinda respondia: “viva os cabra do mato”
- Diz "viva os canhões" - e todo o mundo se desmanchava com a resposta do Guinguinda.
- Ri, Guinguinda. E o Guinguinda, com voz de trombone, começava então a rir sem nunca mais parar.
O Manuel da Silva Caluquembe, por seu lado, era um caso muito especial que fugia ao estereótipo dos nossos probrezinhos.. Alto, magro, cego como todos os pobrezinhos da cidade, era o único que vinha calçado, de fato preto, camisa branca, gravata preta e chapéu também ele preto. Tudo velho, tudo esfarrapado. Mas…, que coisa estranha!..., emanava dele uma postura de xamã, uma presença de Homem, uma dignidade que ninguém sabia explicar.
Talvez por isso, quando o João da Silva Caluquembe batia à porta a avó Catarina lhe oferecesse um tratamento especial:
- Maria Torresmo, ao Caluquembe dá-lhe uma ração a dobrar. E lá ia o nosso probrezinho com uma moeda de dois tostões comprar açucar mascavado na loja do Gingubinha.
O Faria das baleias era outro tipo de pobrezinho, que tinha atrás de si toda uma história de amor rejeitado que o terá levado à loucura. A D.Maxima, que tudo sabia, também sabia em pormenor os contornos da sua desgraça, mas limitava-se a filosofar, dizendo que todo o homem que enlouquece por amor a uma mulher devia ter o amparo e a compaixão de Deus Nosso Senhor.
Mas a vida é o que é!... E o Faria das baleias acabou mesmo por ensandecer. E passou, então, a andar com aquele seu ar de meio-louco, meio-profeta, de longa e farta cabeleira branca, trajando um surrado sobretudo, cujas algibeiras dilatadas carregavam sem rei nem roque os mantimentos que recolhia das esmolas. Tinha o aspecto daquilo que na verdade era: um sem abrigo, sempre sujo na roupa e no físico, a tal ponto que não dava para ver se era branco ou moreno.
Mas havia um pormenor com o esmolar do Faria das baleias sobre o qual ninguém conseguia entender. É que o Faria das baleias nunca pedia esmola de porta em porta, nas casas das famílias. Dentro da sua loucura, ele tinha de alguma forma seleccionado meia dúzia de lojas da Rua das Hortas e era com a bondade delas que ia sobrevivendo: a loja do José Duarte, do Brasileiro, do Neves de Graça, do Carvalho de Oliveira, do António Padeiro…
E, então, o Faria das baleias, com a sua voz de barítono e bem timbrada, pedia a sua esmola de uma maneira quase formal:
- V.Exa. terá por acaso a bondade de dar uma esmolinha a este pobre desgraçado a quem as desumanidades da vida o afastaram da benção de Deus?
E com as algibeiras do sobretudo deformadas com o carregamento das esmolas, lá regressava a penates o Faria das baleias, a caminho das Furnas de Santo António, entre a antiga carreira de tiro dos militares e o antigo campo de aviação. E era ali, à entrada da gruta, nas noites de lua nova, escuras como breu, que o Faria das baleias se punha a contemplar, como um louco ou como um sábio, aquele universo sem fim, com milhões de estrelas, de galáxias e outras coisas mais do outro mundo.
E, entretanto, totalmente alheio às misérias humanas que se iam desenrolando em seu redor, ali estava o Monacaia no seu microcosmo de menino, deitado na sua cama, junto à janela que dava para o quintal. A pitangueira, carregada de pitangas vermelhas, quase lhe entrava pelo quarto adentro.
Era a hora da chegada das bengalinhas…
Dizem alguns entendidos que o canário e o rouxinol são o paradigma das aves canoras pela beleza dos seus cantos. Mas acontece que o canário e o rouxinol não passam de aves solitárias que só cantam quando buscam amor e entram nos seus jogos de sedução. As bengalinhas, não!... As bengalinhas vivem em sociedade, voam em bandos, em revoadas, e, ademais, o cantar das bengalinhas não é canto a solo, mas sim um coro, celestial, que toca fundo, um verdadeiro hino à própria natureza.
Daí o Monacaia se perder com o cantar das bengalinhas na pitangueira do seu quintal. Primeiro, do alto do seu ramo, bem à vista de todos, a prima-dona dava o mote, num trinar contínuo, subindo sempre de nota até atingir os agudos sopraninos que só a raros os Deuses concedem. Depois, havia um hiato, quase imperceptível, e vinha, então, de dentro da ramagem, o coro do bando inteiro. Um coro de uma tão sublime beleza que era o enlevo de qualquer ser humano por mais rude e grotesto que fosse.
Porquê, então, essas histórias de anjos e demónios!?... Nem a D.Máxima, que sabia tudo, conseguia responder.
Quando o cantar das bengalinhas terminou, o Monacaia pegou na fisga e com um tiro certeiro matou a prima-dona, a bengalinha que cantava a solo. Não houve debandada geral. Apenas o bando se ajeitou por entre a ramagem verde e as pitangas vermelhas.
Depois, como a coisa mais natural deste mundo, o Monacaia foi apanhar a bengalinha, decepou-lhe a cabeça, arrancou-lhe as penas, rasgou-lhe o ventre, viu-lhe a matriz: o coração pequeno, farrapos de carniça no peito, nas coxas quase nada…
E era o lanche tardio do Monacaia!...


Ass Arménio Jardim

30 janeiro 2017

Recordando Moçâmedes de outros tempos... A Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Os professores. O Padre Galhano. Os enfermeiros de Moçâmedes.






 O Padre Guilhermino Galhano,
 em dia de comunhão solene. 1946


O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1951

   O Padre Guilhermino Galhano, no time de futebol 
do Ginásio Clube da Torre do Tombo
 O Padre Guilhermino Galhano ministrando no velho campo de futebol de terra batida, a missa campal, por ocasião da passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em peregrinação por terras de Angola. 1948.






- Ó Pai Galhano -



O Padre Galhano, ao que creio, chegou a Moçâmedes na 2ª metade dos anos 40. Com uma visão diferente do "munus" de pároco relativamente aos seus percursores ,cedo se mostrou mais próximo dos seus paroquianos, em particular das classes mais simples e das crianças. Na sua postura, o Padre Galhano marcava um certa distância dos " importantes da "vila". Era frequente ver-se o Padre Galhano, com as suas barbas negras e boina preta, de batina branca arregaçada até aos joelhos, a participar com os mais jovens nas "peladas" que se realizavam no descampado entre a Igreja e o Palácio do Governador. Habilmente passava do futebol ao catecismo.

Adepto do desporto, aos domingos lá estava o Padre Galhano no campo de futebol misturado com a claque do Ginásio da Torre do Tombo, a incitar os seus jogadores. Não poucas vezes vimo-lo a acompanhar o Ginásio, até mesmo nos jogos realizados na vizinha Porto Alexandre, contra o Independente.
 
Belenenses de alma e coração, ao chegar a Moçâmedes, logo aderiu ao Ginásio da Torre do Tombo, sua delegação, e tornou-se seu fervoroso adepto.Ali o dragão era a sua " cruz de Cristo", com o mesmo fundo azul. Mau grado algumas tentativas falhadas de levar os pescadores a assistir à missa dominical, tal não o impedia de estar com eles, ao fim do dia, na sede do Ginásio, jogando às cartas, às damas ou ao dominó.

Nunca se vira em Moçâmedes um Padre com tal espírito " democrático ". Sabia como poucos lidar com a gente mais humilde, sem cobrar a ida à missa dominical.

O Padre Galhano deixou a sua marca na Paróquia de Santo Adrião. Em certa medida, e com as devidas proporções, o Padre Galhano parecia antecipar no tempo o espírito do actual Papa Francisco.


Repórter ASA




- Os nossos enfermeiros -



Ao tempo, a Torre do Tombo conheceu dois enfermeiros.  Primeiro, o Coelho e mais tarde, o Franco.
O Coelho era " o terror" das crianças. Desde miúdo que nos habituamos a temer a sua presença. O paludismo era atacado com as dolorosas injecções de quinino aplicadas pelo Coelho, nem sempre da forma mais correcta.Muitas crianças ficavam para sempre marcadas com as injecções agravadas nos seus rabinhos. A "marca do Zorro" como se dizia. Nunca mais dele se esqueceriam.
Ao que constava o Coelho era muito amigo da aguardente. Nem sempre estaria nas melhores condições e as consequências ficavam à vista. No caso do autor, ficamos para sempre com problemas na perna esquerda, o que viria a condicionar a nossa actividade desportiva futura .Na época,teve de ir a Luanda fazer choques eléctricos para poder recuperar a força na perna esquerda. Minha mãe dizia que quando entrava em casa sentia o meu pé a arrastar-se pelo corredor. E tanto quanto sei,à época o Coelho nunca foi chamado à responsabilidade.

Mais tarde, surgiu um novo enfermeiro - o Franco, negro. Trabalhava no Grémio da Pesca e vivia numa casa na Torre do Tombo, com a mulher e duas filhas.Dedicado profissional, rapidamente granjeou simpatias e foi substituindo o nefasto Coelho.

Era o Franco que tratava dos nosso furúnculos e das feridas que sofríamos nas nossas brincadeiras e jogos de futebol. Infelizmente, vieram ambos a sofrer idêntico percalço.

Na época, a bicicleta era o meio de transporte mais usado.Surgiram entretanto as motorizadas e naturalmente os dois enfermeiros aderiram à moda e adquiriram motorizadas para facilitar as suas deslocações em serviço.Por razões que desconhecemos, a não ser a velocidade na condução das motorizadas, ambos tiverem acidentes idênticos, resultantes de choques com automóveis em cruzamentos. Acidentes esses que lhes afectou a vida profissional. Ambos tiveram de passar a usar próteses nas pernas para toda vida, o que o enfermeiro Franco de todo não o merecia.

 Repórter ASA





O dia da despedida do Dr Borges ( o 3º ao fundo à dt, a contar da esq para a dt.)

  O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1948




- Os meus professores do Curso Comercial -


Os jovens da nossa geração estudaram na "velha" Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Designação enganadora pois ali apenas se ministrava o Curso Comercial.Também lá fomos aluno desde Abril de l948 , concluindo o Curso Comercial em Dezembro de l952 , com aproveitamento de "Bom".

Recordamos os nosso professores de então:

O Dr. Borges, que era o Director da Escola e leccionava a aula de Comércio, Contabilidade e Direito Comercial.Coxeava numa das pernas com um aparelho" que trazia no bolso.Como não pertencia ao grupo dos melhores desportistas,nem era um fã da Mocidade Portuguesa, deveu-se a ele concerteza a minha escolha para integrar um grupo de 50 estudantes das várias escolas secundárias de Angola que em Março de 1953 visitou a Metrópole. Bom professor, fazia assim justiça ao nosso trabalho.
O Dr. Rodrigues, "O Calhau" como era conhecido, Professor de Matemática. Os seus métodos de ensino não conseguiam motivar os alunos para tão difícil disciplina. O nosso aproveitamento não ultrapassava o 10.

Seguiu-se-lhe o Tenente Faustino, militar que veio prestar serviço na Fortaleza de São Fernando. Bom professor e bom pescador de garoupas e meros nos barcos do meu pai. Muito exigente, fez de mim um bom estudante de Matemática. Tornou-me a Matemática uma disciplina apetecível.
A Dra. Emilia, professora de Português, Francês e Inglês. As suas aulas eram muito "chatas". Na sua incapacidade para nos ensinar duas línguas "vivas"´, enchia-nos os cadernos de regras e mais regras de gramática. Tornou-se enfadonha e festejamos a sua saída.

Sucedeu-lhe a Dra. Brigitte, esposa do Capitão do Porto. Mulher simpática e bonita, com métodos pedagógicos inovadores . Nas aulas de francês e inglês passamos a privilegiar as traduções e retroversões e iniciamos alguma conversação.A gramática era um mero auxiliar.Os progressos da turma foram evidentes. Habituamo-nos a pouco e pouco a escrever e falar em francês e inglês. Quanto ao português ,a Dra. Brigitte privilegiava as composições redigidas pelos seus alunos.Torna-mo-nos então a atracção das aulas com as redacções em que apelávamos a uma grande imaginação.Eram lidas "com suspense" no final das aulas.

Recordamos uma delas, pela sua originalidade - a génese da palavra "Moçâmedes"...Na minha imaginação de jovem adolescente via um barco que zarpava a Angra do Negro, nome então dado à bela baía de Moçâmedes, onde fundeou. Os barcos iam ali abastecer-se de água e alimentos frescos para as suas tripulações.Os tripulantes vieram a terra para festejar o acontecimento numa taberna junto ao mar.Uma solicita jovem fazia as honras da casa e distribuía canecas de vinho pelas mesas. Já muito animados, os tripulantes do barco entoavam em coro:" moça mede, moça mede,." pedindo-lhe para que enchesse os copos de vinho. Assim terá nascido a génese da designação de Moçâmedes... sem barão.

Escusado será dizer que o autor foi muito cumprimentado pelos colegas do curso.Mais tarde, o Zé Coco , no seu semanário, divulgou a expressão "Namibe", do nosso deserto.

Continuando, o Prof. Carrilho ministrava as aulas de Caligrafia, Dactilografia e Estenografia.Era um calígrafo muito talentoso.Na horas vagas fazia as "escritas" de várias firmas da terra.

O Prof. Cecilio Moreira coordenava as aulas de educação física e desport.


Repórter ASA


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  As instalações da Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes.



- A criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais -



Mais tarde, já a trabalhar no Grémio da Pesca, resolvemos retomar os estudos. Na época, havia uma grande discriminação entre alunos da Escola Comercial e dos Liceus. Eram compartimentos estanques.Os alunos do Curso Comercial eram os patinhos"feios" e os do Liceu do Lubango os meninos "bonitos". Não se permitia que se transitasse de um curso - o comercial- para o outro - o liceal-.. O que significava que apenas era possível prossseguir os estudos na área de Economia e Finanças e em Lisboa.
Assim, tornou-se imperioso lançar um forte movimento para a criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na nossa escola, requerendo ao" poder colonial de Lisboa " a sua instalação. A iniciativa , com grande apoio dos diplomados da Escola, teve sucesso e veio a começar a funcionar pela primeira vez no ano lectivo de 1955, em regime de horário post-laboral.
Tivemos a honra de ser o primeiro aluno da Escola a frequentar o Instituto Comercial de Lisboa,que funcionava no palacete da Rua das Chagas.



Repórter ASA


02 dezembro 2016

A ponte de cais de Moçâmedes.





 Não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía de Moçâmedes os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos, que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado
"Quarenta e cinco dias em Angola"


Quando o autor anónimo publicou o livro «Quarenta e cinco dias em Angola», em 1862, ainda não existia qualquer ponte de embarque/desembarque em Moçâmedes. Nesse livro o  autor aproveita para sugerir a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega, e refere também que já Fernando da Costa Leal, que foi governador de Moçâmedes entre 1854-1859 e entre 1863-1866, estivera empenhado na construção de uma ponte que convergisse na direcção da Alfândega, mas até 1873 esta continuava por construir por falta de verbas, com grande prejuízo para o avanço da economia do Distrito.

E o Governador que se lhe seguiu, Joaquim José da Graça (1866-1870), chegou mesmo a abrir uma subscrição particular entre as pessoas mais abastadas da terra, que produziu a quantia de 20000 réis. O cais era imprescindível até pelo perigo que sempre espreitava o embarque/ desembarque de pessoas e mercadorias do modo como era efectuado, aos ombros dos carregadores, Subscrições públicas eram aliás o meio a que os colonos recorriam quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.





 Piquete da Guarda Fiscal e acesso à ponte
 Embarcando mercadorias



Segundo o mesmo autor, passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . Foi em 1873, 24 anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme informou superiormente o então governador Costa Cabral (1877-1878), ao mesmo tempo que propunha ao Governo a urgente substituição, e lamentava a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

Entretanto, o interesse na "partilha de África" pelas potências europeias leva em 1876 Leopoldo II da Bélgica, a convocar a Conferência Geográfica Internacional, para a qual Portugal não foi convidado, e começou a gizar-se  a abertura de vias de penetração para o interior. Foi então  que Portugal deu início às viagens de exploração e investigação científica, seguindo o exemplo dos parceiros europeus, e também enviou exploradores que se aventuravam pelo interior africano, alegando direitos históricos. A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, patrocinou grandes travessias da África realizadas pelos portugueses Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, e Roberto Ivens, destinadas a explorar e estudar o território. Procedeu-se a explorações mineralógicas e geológicas, a par do reconhecimento geográfico e cartográfico. Procurava-se deste modo abrir caminho para capitais e colonos, promover a colonização dos territórios sobre os quais Portugal  reclamava a tutela, mau grado a fraca vontade dos portugueses metropolitanos de se fazerem transferir para uma África doentia,  vista como fatal para europeus que chegados ali em pouco tempo pereciam vítimas de paludismo, febre amarela, doença do sono, etc.

Foi então que a ponte de cais de Moçâmedes foi construída por iniciativa do Major Gorjão, director da expedição de obras públicas de 1877-1879, e sob a direcção de D. José da Câmara Leme.

Segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar.


 
 Descarregando um batalhão militar e munições no decurso das Campanhas do Sul de Angola, numa época em que encostar à ponte ainda era possível



Portanto, a ponte de Moçâmedes surgiu numa época em que o interesse das potências europeias em África se tornaram bastante mais evidentes para Portugal, e tornava-se a uma necessidade premente a sua construção por interesses geo-estratégicos, e não tanto para responder às necessidades  dos colonos que desde há muito clamavam por ela. Para estes era um tempo desesperante, numa Angola atravessada por crises e mais crises geradas pela ausência de infraestruturas, pela falta de braços de trabalho e de um plano governamental à altura das necessidades.

Em 1884-5 teve lugar a  Conferência de Berlim que teve por finalidade organizar, na forma de regras, a ocupação de África pelas potências coloniais europeias. Aliás decorria ainda aquela Conferência e já Portugal havia conseguido apressadamente enviar para as terras Altas da Huila um primeiros contingentes de colonos oriundos da Ilha da Madeira, os únicos que responderam à chamada (1), desviando-se para o efeito a corrente migratória que estava sendo dirigida na direcção das Ilhas Sandwich, no longínquo Hawai, ilhas Caribe, Guianas. etc.

No quadro do novo paradigma colonial,  a prioridade das Descobertas deixou de ter qualquer valor, impunha-se a ocupação efectiva dos territórios cuja posse Portugal reivindicava, (2) a definição das fronteiras bem como o reconhecimento, por parte dos sobas e régulos indígenas, da soberania de Portugal sobre os territórios tradicionalmente pertencentes a uma ou várias etnias. Na prática, o  avassalamento, situação que redundou numa escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas, e no envio maciço de tropas para as colónias.

Portugal corria o risco da perda da soberania, numa época em que as colónias de África eram o recurso decisivo para a crise económica de países metropolitanos. Preparava-se então o terreno para a entrada de gente e de capitais.





 

 A ponte de Moçâmedes enquanto "plateia"  a partir de onde os residentes acompanhavam os mais diversos eventos marítimos, no caso desta foto, uma corrida de natação



Esta ponte estava, pois, destinada a ser a porta de entrada para os batalhões e para o armamento militar idos da Metrópole, e desembarcados em  Moçâmedes rumo ao Cunene,  necessários ao desenrolar das Campanhas Militares do Sul de Angola.  Iam  em missão assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na “partilha” coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia), e dominar as populações nativas insubmissas, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali tinham vivido.

É aqui que começa a história desta ponte que, tal como o Caminho de Ferro de Moçâmedes, e o comboio inaugurado em 1905, só avançaram quando avançaram por força  de imperativos estratégicos e militares que a tornaram imprescindível, e não tanto por imperativos económicos do Distrito e  do Interland. Por ela não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios, mercadorias, e até gado que era introduzido em batelões através de guindastes, etc etc. Passaram exploradores, cientistas, investigadores, geólogos, missionários, padres, bispos, cardeais, por ela passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros,etc etc.


 
Visita a Moçâmedes do Governador Ramada Curto


 A ponte no início do século XX. Visita a Moçâmedes do Governador Ramada Curto

 
 Visita a Moçâmedes de D. António, Bispo de Angola



Era através dela que tudo escoava, no ir dos navios de carga, de passageiros, etc, dos caíques e palhabotes nas suas viagens de cabotagem, etc, desde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões, e os passageiros através de pequenos "gasolinas" .



Embarque de gado



Inda assim nunca foi  a ponte ideal. Cantada em verso, nem a ponte, nem Moçâmedes daquele tempo escaparam à pena  crítica do poeta:
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto
"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"
Joaquim Paço D´Arcos


(Viveu em Moçâmedes de Setembro de 19
12 a Fevereiro de 1914)
 

 
 A 1ª fase das obras da construção do cais acostável


A inauguração em 1957 do primeiro troço do cais acostável, iniciado com a visita a Moçâmedes do General Craveiro Lopes, em 1954, marcou o início da decadência desta ponte, da qual hoje em dia apenas resta o esqueleto. Uma ponte que foi deveras útil para as pessoas e a economia, não apenas no Distrito como também do Interland .
 

O dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957. A entrada
na baía do paquete "Uije", dirigindo-se ao cais


 
 
Panorâmica vista do alto da falésia, no dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957, com o paquete "Uije"
 
 Inauguração do Cais Acostável em 1957
 
 Governadores da Província e do Distrito

O dia da inauguração do 1º troco do Porto de Moçâmedes em 1957


 A ponte na actualidade



Uma ponte que guarda tanta História, mas que parece ninguém querer salvar!




Pesquisa  e texto de MariaNídiaJardim.


(1) Os madeirenses fugiam da pobreza estrutural de uma sociedade deveras estratificada, onde só alguns podiam viver com dignidade. Iam  para lugares longínquos onde muitas vezes eram obrigados a trabalhos próximos da escravatura, e onde deixavam o suor e o sangue em canaviais de açúcar.

(2)  De acordo com o historiador francês, René Pelissier, em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso encontra-se escrito em “Angola Dois anos de Governo”, do governador Paiva Couceiro. João de Almeida, seu braço direito, fez referência a 180 operações militares a partir de 1845, o que significava que a colónia não estava pacificada. René Pélissier sublinha a falsidade do slogan “Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola”, e considera que, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais, antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa. Todo o resto tinha de ser conquistado.



Nota da autora: Respeitem o nosso trabalho. Se daqui retirarem, este texto ou parte dele para publicação, não esqueçam os "direitos de autor" e façam referência a este blogue a fim de o divulgar. Muito obrigada.





07 novembro 2016

Raul Radich Junior









RAUL RADICH JÚNIOR



A terra que me tem e que me guarda os ossos
É a mesma que amei e que servi!,
Aquela onde nasci
E onde sempre medi
Os homens por colossos!

Amei a minha terra como ama
A luz seus brilhos!
Foi para mim orgulho, honra e fama
Ter sido, embora humilde, um dos seus filhos!
Por ela me nasceram sonhos de riquezas,
E a alma se me abriu de toda fascinada:
Ah!, vê-la transformada
Na mais rica e feliz das terras portuguesas!
Lutei conforme pude
E a ela me entreguei sem outro norte
Que servi-la com honra e com virtude
Do berço até à morte!
A vida, à terra, dei-a
Com sonho e com labor
Na grande maré cheia
De todo o meu amor!
Quando tombei,
Tive-a no pensamento!
E lembro-me que chorei,
Nesse momento!



( Angelino da Silva Jardim )


  


Texto da Homenagem prestada ao Raul Radich
Júnior, a 1 de Agosto de 2004 no Encontro anual
em Caldas da Rainha.
in: Adimo

12 outubro 2016

Moçâmedes na pena da poetisa Concha Pinhão


Moçâmedes, a minha terra e suas suas gentes, foram fonte inspiradora de poetas que por ali passaram, ou que ali nasceram, e nos legaram poemas tocados pelo sentimento e pelas emoções sentidas e vividas pela acutilância da mensagem que procuraram passar, dignos de serem dados a conhecer ao mundo.

Tinham passado 33 anos sobre a independência de Angola. Num dos encontros anuais na mata de Caldas da Rainha voltei a ver a poetisa Concha Pinhão, esposa do Dr. Pinhão de Freitas, que foi médico em Moçâmedes. Estava ali a oferecer aos moçamedenses interessados na sua poesia alguns exemplares do seu livro de poemas «Sabor Amargo, Amargo Sabor». Tive o prazer de ser uma das contempladas com um exemplar desse livro onde a poetisa nos mostra toda exuberância de artista, numa Angola que a fascinou, quer pela sua majestática beleza, quer pelas suas gentes, com quem partilhou os anos mais dourados de sua vida.

A Concha Pinhão que me habituei a ver em Moçâmedes, era uma mulher de altura mediana, magra, tez clara e cabelo negro penteado ao alto, que emanava uma certa exuberância que dava nas vistas. Quem não conhecesse a sua faceta intelectual e de poetisa, era o penteado que a distinguia das demais mulheres da terra. Fazia lembrar uma típica sevilhana.

Em 1971, Concha Pinhão foi contemplada com o 1º prémio dos Jogos Florais das «X Festas do Mar». Aliás, o diploma e a medalha que lhe foram entregues na altura pela Câmara Municipal de Moçâmedes, ilustram a última página deste seu livro.

Desconhecia o tom suavemente provocatório da sua poesia, de onde emana uma velada critica social com apelos tocantes e só por si reveladores da sua fina sensibilidade. Fiquei maravilhada com a erudição, simplicidade e ritmo dos seus escritos, muitos dos quais nos remetem para os últimos anos da colonização, e despertam em nós sensações de toda a nostalgia que Concha sentiu ao escrevê-los. Eis alguns dos seus poemas:

AQUELA ANGOLA

Aquela Angola Mulata!...
Aquela Angola Mestiça!...
Beleza que às vezes mata
E se não mata enfeitiça!...

"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.
E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão



MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão



EMBONDEIRO

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão procurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!
Na solidão... eu e tu.

Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.

Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.

Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abrigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.

Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão

Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...

Nota: Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais 
das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro». Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)



A LISONJA

É a lisonja nefasta
Quando a verdade se afasta
Da verdade que nós somos
Nosso ego cria sonhos
De bergantim* sobre o mar.

Com o falar lisonjeiro
Tem cautela marinheiro
não te deixes afundar.

Concha Pinhão
Do livro de poemas «Sabor Amargo». Estoril 2002

* O bergantim era o mais subtil e veloz dos navios de remo, tipo galé,
 utilizados pelos portugueses.

ESSE MÉDICO... QUE CONHECI

Corria na madrugada
Sempre que alguém gritava
Por um filho que nascia
Na mata verde parava
Cubata se iluminava
O milagre acontecia

Exausto mas deslumbrado
Sorvia cheiro a molhado
Do capim rasgando o chão
Só quem viu terra-parida
Conhece a força incontida
Nessa terra em convulsão

Concha Pinhão
Do livro de poemas «Sabor Amargo»



BRUMA

Chora minha bandeira,
Chora
Que o teu corpo de quinas
Vai amanhã enrolar
Como trapo no mercado
Dos sem fé a governar.

Chora minha bandeira,
Chora
Pelo vermelho sangrento
Do gentio abandonado
De gente que deu suor
Foi escravo,
Foi senhor
E foi evangelizado.

Chora minha bandeira,
Chora
Por portugueses, corsários
Aventureiros,
Audazes
Negreiros
Homens rapaces
Homens que rasgaram mares
Descobriram continentes
Juntaram sangues diferentes
Inventaram essas gentes
Portugueses d'Além Mar

Os homens passam
Pequenos
tempo curto no viver
Ficarão no pó da estrada
Sem merecimento ter

Nossa bandeira irmanada
Há-de brilhar desfraldada
Nos mundos que viu nascer

Concha Pinhão
Do livro de poemas «Sabor Amargo». Estoril, 1976

Ficam estas recordações.
MariaNJardim