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12 agosto 2007

Jornal o COMÉRCIO: Diálogo (imaginário) com Angelino Jardim: poeta moçamedense


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Chegou-me às maõs o 2º caderno do Jornal O COMÉRCIO, editado em Luanda no dia 4.8.1970, e dedicado à passagem do 121º aniversário da cidade de Moçâmedes, com este interessante diálogo (imaginário) com Angelino Jardim. Por se tratar de um poeta moçamedense, considerado por aqueles que conhecem a sua obra, como um dos valores mais autênticos da poesia angolana, (lamentavelmente ainda desconhecido do grande público), resolvi digitalizar esta parte do referido caderno e colocá-la aqui.
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Os poemas que integraram o diálogo:

CÂNTICO

Bendito seja quem te visionou
Aquém do grande mar,
E, escorraçando medos te encontrou
E sorriu ao teu virgem despertar!

Bendito seja quem te abriu o seio
E nele fecundou o gosto pela vida!
E misturou o trigo e o centeio
Com o maná da terra prometida!

E quem te deu a vida incondicionalmente,
Só pelo gosto puro de ser teu;
E quem por ti lutou e o sangue quente
Por ti feliz verteu!
E mais sincerasmente:
BENDITO SEJA QUEM POR TI MORREU!
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Bendito seja quem te pôs a água
No seio do deserto a arder em mágoa!
Bendito quem te deu cravos e rosas
E carnes sãs e frutas saborosas!
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Bendito quem te deu as velas brancas,
Os risos claros e as almas francas!
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Bendito seja quem te abriu as ruas
E que te fez linda como virgens nuas!
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Benditos sejam todos os que lutam,
Os que aqui vivem, sofrem e labutam,
Pioneiros do Sonho e da Verdade!
Benditos sejam todos! Que o meu grito
Repercuta sonoro no infinito
E faça eco em Deus na eternidade!

(Angelino da Silva Jardim)


 
ENCONTRO

Velho Mar,
Aqui me tens, de novo e por inteiro,
No gosto de rimar
E de me embriagar
De sal... de sol... de sul... e nevoeiro!

Funda saudade foi a que me trouxe,
Presa dentro de mim
Como o eco sem fim
Da tua voz salgadamente doce!

Nos recessos ocultos da minha alma
Sopra o leste da antiga inspiração,
Que encrespa a onda calma
Da tua sempiterna agitação!

E vislumbrando, ao longe o assomo da calema
Que faz ranger os mastros no convés,
Dou forma, vida e cor ao meu poema,
-Marinhos versos que te são fiéis!

E sinto na extensão das minhas veias
Onde, em contínuo anseio, o sangue estua e salta,
O pronúncio das grandes marés-cheias
Que hão-de trazer à praia a rima que me falta!

De novo, pois, fraternalmente unidos,
inundo-me de paz e imensidade,
Sentindo refluir nos meus sentidos
A onda...a espuma... os longes...e a saudade!

(Angelino da Silva Jardim)
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Poema seleccionado para o CATÁLOGO do 1º Salão de fotografia do Mar, realizado na cidade de Moçâmedes pelo Grémio dos Industriais da Pesca do Distrito, tendo como finalidade promover a cultura da fotografia relacionada com a natureza maritima e suas actividades, aproveitando a celebração do 123ª aniversário da chegada à baía de Moçâmedes da 2ª. Colónia de Pescadores Portugueses oriunda do Brasil.
O Salão esteve patente ao público na sala de exposições da Associação Comercial, Industrial e Agrícola, em Moçâmedes das 17 às 20 horas de 26 a 30 de Novembro 1973.

MAR ALTO

Ir mar em fora,
Ao sopro de ligeira e doce brisa,
Quando mal rompe a aurora
E o dia é só pronúncio e a hora se eterniza!

Sentir a alma cheia
do frio ar salino,
Livre de toda a areia
do mísero destino!

E como um deus antigo
-Desses que só existem por sonhados-
Dar ao perigo
A proa, sob os ventos admirados!

E ir e navegar!
E ser feliz,
Sem nunca achar
Nem porto, nem país!

(Angelino Silva Jardim)

11 julho 2007

Lembrando lugares da nossa terra: Praia das Conchas

[000.jpg]






































MAR DESFEITO
Na Praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito,
Bater nas rochas, desfeito...
E, olhamo-nos tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
CONCHA PINHÃO
(Vencedora do 1º prémio dos jogos florais das «x Festas do Mar», com o poema «Imbondeiro» . 1971)

Esta é a Praia das Conchas, para lá do Saco do Giraul , já em plena costa, Praia que de praia não tinha nada. Praia rochosa, nela tinhamos que andar com muito cuidado para não escorregarmos e nos magoarmos, rochas que picavam os pés, com um banco no mar idêntico ao da Praia Amélia mas mais próximo de terra, que provocava uma forte rebentação. Esta praia, no entanto, apesar de pedregosa e incapaz para banhos de mar, era um atractivo que levava muitas famílias a se deslocarem alí aos fins de semana. O que atraia então as pessoas que aos fins de semana iam passear até alí?

Umas, iam pura e simplesmente contemplar o espectáculo da rebentação do mar nas rochas, as altas ondas e a branca espuma, a fúria deslumbrante da natureza, outras, iam fazer caça submarina, ainda que a rebentação sobre as rochas as obrigasse a entrar no mar na zona entre Praia Conchas e o Barambol ( é o caso dos nossos mais fanáticos mergulhadores que elogiavam a beleza dos recortes rochosos submarinos da zona); outras ainda, sobretudo mulheres e crianças, apanhavam búzios, burriés, pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, e finalmente outros (sobretudo homens) pescavam à cana e à linha do cimo das rochas uma imensa variedade de peixe, (garoupas, pargos, sargos, canelas, meros, moreias, etc.) que davam para encher o frigorífico para toda a semana. Afinal valia mesmo a pena ir até à Praia das Conchas!
Uma curiosidade: na «Praia das Conchas», como em algumas outras praias como a do Chiloango, etc., era comum verem-se grandes ossaturas de baleias, que alí haviam «encalhado» trazidas pelas correntes desde a Praia Amélia (*), em tempos mais para trás (década de 1920/30), uma vez que durante essa década existiu naquela praia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes, uma grande empresa norueguesa que alí se instalou, vocacionada para a industrialização de carne e gordura desses cetáceos.
(*) O nome Praia Amélia foi dado a essa praia a 5 km da cidade de Moçâmedes
, pelo facto de alí ter naufrado, em meados do século XIX, a escuna «Amélia», da Marinha de Guerra portuguesa.

MariaNJardim

1ª foto: Herondina Mangericão, Zete Veiga e ?
2ª foto: Pesca à vara sobre um rochedo da Praia das Conchas.
3ª foto: Os irmãos Belany e Paulo Veiga Baptista na Praia das Conchas. 2ª e 3ª fotos gentilmente cedidas por Marizette Veiga Baptista.

08 julho 2007

Lembrando gente da nossa terra: finais dos anos 60

À esq: Nicky (mulher do Hernani Nunes), Otilia, Ferreira do Saco (de pé), ?,?,?,?. Mguelito e avô.
Não posso deixar de referir aqui que Ferreira do Saco, como era conhecdo o Sr. que se encontra de pé, à esq., reconhecido por toda a gente como uma boa criatura, foi mais uma das muitas vítimas daqueles momentos de grande instabilidade que se seguiram à independência e Angola. Tendo optado por ficar, Ferreira foi cobardemente morto à pancada tendo o seu corpo aparecido na Praia Amélia. Afinal, para quê tanta atrocidade cometida gratuitamente?

A propósito desta foto, de gente serena, à mesa, lembrei-me de uns versos escritos por Júlio Gomes de Almeida (Lx 1978):
NO NOSSO TEMPO

Havia tempo,
Sem contratempo...
I
No nosso tempo:
havia «musunguê»,
«muambá»,
e «funge»,
farinha de «bombó»
«pirão» e pão-de-ló.
II
No nosso tempo:
havia visitas
informais.
«merengues»;
«rebitas» com calôr,
mas sem questões de côr...
III
No nosso tempo:
havia «batuques»,
«fogueiras»
e «gongo»
«cachipembe» ou vinho,
«gindungo» e carinho.
IV
No nosso tempo:
havia fartura,
vontade,
trabalho
nos campos e cass,
«churrasco» nas brasas.
V
No nosso tempo:
havia Carnaval
p'ra todos,
dançado
nas ruas e salões,
com luzes festões.
VI
No nosso tempo:
havia muita Fé,
procissões,
com salmos,
e a visita Pascal
-sempre, sempre NATAL!
VII
NO NOSSO TEMPO,
HAVIA TEMPO,
A TODO O TEMPO,
SEM CONTRATEMPO...
lX 1978
Júlio Gomes de Almeida

17 abril 2007

Jovens de Moçâmedes (actual Namibe) junto ao Farol da Ponta do Pau do Sul ou Ponta do Noronha: 1954


Grupo  de  jovens raparigas de então, em Moçâmedes, junto do Farol da Ponta do Pau do Sul. 



Deste farol ficou-me esta grata recordação. Éramos um gupo de nove raparigas, seis das quais nascidas em Moçâmedes, e todas residentes no Bairro da Torre do Tombo. Umas, descendentes de algarvios alí chegados em finais do século XIX, outras de madeirenses de longa data, outras ainda, de nortenhos. A maioria eram na basquetebolistas do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Da esq. para a dt, em cima: Francelina Gomes (basquetebolista) e Olímpia Aquino 2. Mais à frente: Violete Velhinho, Lurdes Infante da Câmara e Paula Ferreira (basquetebolista). 4. De joelhos: M. Nídia Almeida, Celísia Calão e Helena Costa Gomes (basquetebolistas) Deitada: Georgete Aprígio..

Segue o poema "A Escala Vai Começar" dedicado ao Sr Domingos, um pescador de eleição. É mais um poema com que nos brinda o poeta moçamedense Neco Mangericão, bisneto de colonos fundadores de Moçâmedes (Namibe), vindos de Pernambuco (Brasil) em meados do século XIX . Este remete-nos para a Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul, sobre a qual se encontrava este farol:



A ESCALA VAI COMEÇAR

Foi assim que, de repente, hoje acordei
e surpreendido senti, como quem sonha,
que era lá que me encontrava,
e não aqui- surpresas do mundo da poesia,
bem sei –mas estava lá,
bem na Ponta do Noronha.

Aos meus pés, a penedia, o Mar e a baía.
Acredita. Não pode haver mais feliz despertar.
A manhã clara, o mar calmo e transparente
mostravam a vida que nela vivia febrilmente, 
à tona, estrelas corriam no espelho cristalino,
revelando, a cada instante, 
imensos cardumes a perseguirem-se, 
levantando brilhos e lumes.

Nas ricas águas, sob um céu azul ultramarino.
No ar, passam alegres bandos de gaivinas,
Gaivotas e garajaus que não cessam de grasnar
e, depois de quase parar, 
num constante vaivém,
a pique mergulham, 
perseguem o peixe e vêm 
com o fruto do seu lidar, nos bicos a agitar. 
Ajeitam e engolem-no. É o seu melhor manjar.

De repente noto movimentos e gritaria nas pontes
Que ao longo da beira-mar se espalham, em profusão.
Negros, Mulatos, Brancos, na maioria contratados,
Falam alto, fazem apostas e com os braços apontados
Vão dizendo os nomes dos mestres ou da embarcação
Que mais se destacada vem, ou de todos juntos, aos montes.

São os pescadores que regressam de uma noite de labor,
Que agora ali vêm, felizes, trazendo o fruto do seu suor
e, ansiosos de primeiro chegar, e sua mulher e filhos beijar
pela vitória da canoa ou traineira, acabadinha de comprar.
Nas pontes alinham-se homens e bancos: a escala vai começar.

Nesse momento alguém me chama, no meio daquela agitação,
- Hoje é dia de trabalho. Toca a levantar! – São seis horas João!
E pronto! Lá se foi a minha alegria, todo o encanto e satisfação.


João M. Mangericão
( Neco )
Barreiro, 9.08.2005



 
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