
.Chegou-me às maõs o 2º caderno do Jornal O COMÉRCIO, editado em Luanda no dia 4.8.1970, e dedicado à passagem do 121º aniversário da cidade de Moçâmedes, com este interessante diálogo (imaginário) com Angelino Jardim. Por se tratar de um poeta moçamedense, considerado por aqueles que conhecem a sua obra, como um dos valores mais autênticos da poesia angolana, (lamentavelmente ainda desconhecido do grande público), resolvi digitalizar esta parte do referido caderno e colocá-la aqui.
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Os poemas que integraram o diálogo:
CÂNTICO
Bendito seja quem te visionou
Aquém do grande mar,
E, escorraçando medos te encontrou
E sorriu ao teu virgem despertar!
Bendito seja quem te abriu o seio
E nele fecundou o gosto pela vida!
E misturou o trigo e o centeio
Com o maná da terra prometida!
E quem te deu a vida incondicionalmente,
Só pelo gosto puro de ser teu;
E quem por ti lutou e o sangue quente
Por ti feliz verteu!
E mais sincerasmente:
BENDITO SEJA QUEM POR TI MORREU!
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Bendito seja quem te pôs a água
No seio do deserto a arder em mágoa!
Bendito quem te deu cravos e rosas
E carnes sãs e frutas saborosas!
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Bendito quem te deu as velas brancas,
Os risos claros e as almas francas!
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Bendito seja quem te abriu as ruas
E que te fez linda como virgens nuas!
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Benditos sejam todos os que lutam,
Os que aqui vivem, sofrem e labutam,
Pioneiros do Sonho e da Verdade!
Benditos sejam todos! Que o meu grito
Repercuta sonoro no infinito
E faça eco em Deus na eternidade!
(Angelino da Silva Jardim)
ENCONTRO
Velho Mar,
Aqui me tens, de novo e por inteiro,
No gosto de rimar
E de me embriagar
De sal... de sol... de sul... e nevoeiro!
Funda saudade foi a que me trouxe,
Presa dentro de mim
Como o eco sem fim
Da tua voz salgadamente doce!
Nos recessos ocultos da minha alma
Sopra o leste da antiga inspiração,
Que encrespa a onda calma
Da tua sempiterna agitação!
E vislumbrando, ao longe o assomo da calema
Que faz ranger os mastros no convés,
Dou forma, vida e cor ao meu poema,
-Marinhos versos que te são fiéis!
E sinto na extensão das minhas veias
Onde, em contínuo anseio, o sangue estua e salta,
O pronúncio das grandes marés-cheias
Que hão-de trazer à praia a rima que me falta!
De novo, pois, fraternalmente unidos,
inundo-me de paz e imensidade,
Sentindo refluir nos meus sentidos
A onda...a espuma... os longes...e a saudade!
(Angelino da Silva Jardim)
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Poema seleccionado para o CATÁLOGO do 1º Salão de fotografia do Mar, realizado na cidade de Moçâmedes pelo Grémio dos Industriais da Pesca do Distrito, tendo como finalidade promover a cultura da fotografia relacionada com a natureza maritima e suas actividades, aproveitando a celebração do 123ª aniversário da chegada à baía de Moçâmedes da 2ª. Colónia de Pescadores Portugueses oriunda do Brasil.
O Salão esteve patente ao público na sala de exposições da Associação Comercial, Industrial e Agrícola, em Moçâmedes das 17 às 20 horas de 26 a 30 de Novembro 1973.
MAR ALTO
Ir mar em fora,
Ao sopro de ligeira e doce brisa,
Quando mal rompe a aurora
E o dia é só pronúncio e a hora se eterniza!
Sentir a alma cheia
do frio ar salino,
Livre de toda a areia
do mísero destino!
E como um deus antigo
-Desses que só existem por sonhados-
Dar ao perigo
A proa, sob os ventos admirados!
E ir e navegar!
E ser feliz,
Sem nunca achar
Nem porto, nem país!
(Angelino Silva Jardim)
![[000.jpg]](http://3.bp.blogspot.com/_QN04x6AzKRw/RfcpyEttbwI/AAAAAAAAAxI/p3plH-OIb_0/s400/000.jpg)



nos magoarmos, rochas que picavam os pés, com um banco no mar idêntico ao da Praia Amélia mas mais próximo de terra, que provocava uma forte rebentação. Esta praia, no entanto, apesar de pedregosa e incapaz para banhos de mar, era um atractivo que levava muitas famílias a se deslocarem alí aos fins de semana. O que atraia então as pessoas que aos fins de semana iam passear até alí?

