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23 maio 2011

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mucuio


João Thomás da Fonseca, o fundador do Mocuio, junta da esposa, 
Celeste e da filha Celeste, por volta de 1914


João Thomás da Fonseca, o proprietário da pescaria do Mucuio, ao centro, rodeado de amigos (1920), entre eles, Manuel Vaz Pereira (de branco)
João Thomás da Fonseca chegou ao Mocuio em finais do século XIX, e ali, naquela pequena praia deserta perdida nas escarpas do deserto montou a sua pescaria, que foi evoluindo ao longo do tempo, e mandou construir o seu bonito chalet onde nada faltava, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água, um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra e Gabão,  levando dalí ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.

O Mocuio não possuía água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões. Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos áureos possuía salinas, fábrica de farinha de peixe e conservas, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuía também mais de 20 embarcações pequenas.


 


Na continuidade do Mocuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os portugueses foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, alí  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI.
A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos


Entre outros, João Thomás da Fonseca II (filho) e o gerente da pescaria, Faria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.
Trata-se das instalações da pescaria do Mocuio. Em 1º plano tarimbas ou giráus para peixe seco.


 
Foto tirada por volta de 1914, onde se pode ver João Thomás da Fonseca, o patriarca desta família, rodeado de amigos e de algumas personalidades da Marinha portuguesa quando daziam uma paragem para descanso, no decurso de uma visita ao Mucuio. Não sei se terá alguma relação, mas foi em Moçâmedes que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte dos efectivos militares portugueses cujo objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Repare-se que as senhoras  estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira devidamente rotulados. Naquele tempo e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas nesses caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietário dos escassos transportes automóveis existentes em Moçâmedes, nas suas deslocações, tinham que levar consigo alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito esgotava. Aliás, as bombas existentes nas principais cidades de Angola e em certas povoações do mato, com um pouco de sorte, eram nesse tempo bombas manuais que eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que transportavam um tambor de 200 litros de gasolina, e tinham uma "torre" de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ... África eram assim!


Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos antigas publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).

05 maio 2011

Jovens na Moçâmedes de outros tempos... em Angola (actual cidade do Namibe), no Parque Infantil

Jovens de Moçâmedes posam para a posteridade junto à cerca onde ficava o pequeno zoo com alguns animais  capturados no Deserto do Namibe, sendo visíveis duas belas zebras. São eles, da esq. para a dt: António Manuel Passos Marques, Carlos Vilhena Piedade,Virgilio Paradanta Marques Couto, António Cebolo (de óculos) e  Luís Rosa Palmeira. Embaixo, José Neves Almeida (*)
(*) Créditos foto.

22 março 2011

Famílias antigas de Mossâmedes (Moçâmedes-Namibe): Familias Abreu e Jesus. Manuel de Abreu, «O mata-Porcos»

O casal Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu (pai), com os filhos Manuel de Abreu (à dt.) e Raul de Abreu (à esq.). Interessante foto que nos mostra a indumentária e os costumes da época (século XIX, início do século XX). As senhoras ainda usavam vestidos compridos, e era chic vestir-se as crianças com fatos de marujo, assim como era comum ver-se crianças pequenas sexo masculino vestidas como meninas, com vestidos de folhos, laços no cabelo, cabelos compridos, caracóis, etc., tal como era normal os meninos brincarem com bonecas.


Anastácia de Jesus fazia já parte de uma 1ª geração de angolanos brancos (euro-africanos, ou brancos de 2ª, como mais tarde passaram a ser designados)* nascida em Sá-da-Bandeira, em São José do Lubango. Seus pais tinham chegado a Mossâmedes, viajando no vapor "ÁFRICA" ali chegado a 19 de Agosto de 1885, integrados na 2ª colónia de madeirenses, que, de acordo com o projecto de Câmara Leme, iam  juntar-se aos 222 colonos do primeiro grupo que alí chegara no vapor "India", em Novembro de 1884,  para dar  início ao povoamento branco das terras altas da Huila (Sá da Bandeira, Lubango). 

No mesmo vapor "ÁFRICA" , com apenas 7 anos de idade, viajou Manuel de Abreu, natural de Tábua, Ilha da Madeira (o futuro marido de Anastácia), na companhia de seus pais  José de Abreu e Maria do Nascimento, e de seus irmãos, Maria (de 23 anos), Vitorina(de 20 anos), Francisco( de 18 anos), Antónia(de 16 anos), Virgínia (de 12 anos), João( de 10 anos) e António(de 3 anos). 
Ambas as familias, desembarcadas em Moçâmedes tiveram que se confrontar com grandes desilusões. Embarcaram cheios de esperança, confiantes nas promessas que lhes haviam sido feitas, viajaram em condições precárias, acreditaram que à sua chegada ao Planalto de Moçâmedes, como então era denominada a vasta região da Huíla, encontrariam  alí as Terras da Promissão. Começaram por ter que atravessar o Deserto do Namibe a pé (os mais fortes), ou em carroças boers e tipóias (os mais fracos), carregando com as suas crianças, e assim subirem a serra da Chela seguindo o percurso do primeiro contingente que, acompanhados de alfaias agrícolas, e divididos em dois grupos, consumiram na viagem, mais de um mês, por caminhos acidentados, em períodos de chuvas, num verdadeiro suplício para alcançarem a margem direita do rio Caculevar no dia de Natal. Procurara-se escalar a  Chela torneando as dificuldades dos seus tremendas precipícios, de modo a encurtar o trajecto entre Moçâmedes e a Huíla, fugindo às invencíveis dificuldades do acesso ao Planalto pelas difíceis portas do Bruco.

Imaginemos  o quanto chegaram ao destino, tristes e vencidos pelo cansaço, imagine-se o desânimo que sentiram ao depararem com as instalações que lhes foram destinadas: quatro barracões amplos de pau a pique cobertos a capim, mandados construir por D. José da Câmara Leme, por ordem do Governador de Moçâmedes. Choraram, protestaram, mas de nada serviu, porque voltar para trás  já era impossível, sem dinheiro e sem meios de transporte. Descontentes e lamentando a sua desdita, sentindo-se mais pobres do que eram na sua Ilha que saudosamente recordavam, acabaram por ficar.  Sequer podiam decidir. E, não havendo outro remédio, arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar fazendo de tudo um pouco, e com tal determinação que nos seis meses seguintes começaram a surgir, espalhadas pelos campos verdejantes do Lubango, as primeiras moradias provisórias, onde se fazia uma agricultura meramente de subsistência.

Eles partiram para Angola  sem saberem lá muito bem para onde iam, nem o que iam encontrar,  persuadidos a emigrar  através de campanhas levadas a cabo na Metrópolee que incluíam editais colocados nos adros das Igrejas incentivando ao alistamento, numa altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim  (1884 e 1885), e de acordo com as determinações daquela Conferência o mero direito histórico que até então conferia a Portugal o direito de posse sobre os territórios ultramarinos perdia todo o valor face ao novo direito de ocupação efectiva. Portugal ou ocupava e desenvolvia os territórios, cuja posse reivindicava desde há séculos em África, ou teria que os ceder a potências europeias  em melhores condições para o fazer. Eles com a sua presença , juntamente com outros mais foram o garante da presença portuguesa no sul de Angola, cobiçado pelos alemães do sudoeste africano, e deste modo para manter o território íntegro como hoje o vemos.

Portugal sempre agia no quadro dos limites e empurrado pelas circunstâncias, e desta vez também foi assim foi assim que, temerosos dos alemães, temerosos dos boers, temerosos dos avanços britânicos sobre o sul de Angola, servindo-se de propaganda através de jornais, editais, etc, conseguiram  persuadir e reunir dois grupos de madeirenses dispostos a emigrar para as terras longínquas de África. Sabe-se que os madeirenses foram os únicos em todo o território nacional a responder à "chamada", e que para tal fora desviado para Angola o fluxo migratório que até então era dirigido em grande escala, havia dois séculos, para lugares tão longínquos  como o Hawai,  a Califórnia e as Guianas, onde, como então se difundia, os madeirenses "arriscavam a vida em incertos destinos, com contratos terríveis de trabalho em canaviais, sujeitos a uma rígida estrutura, a fomes periódica, na sistemas de autêntica escravatura". A Ilha da Madeira passava por uma devastadora crise, e o projecto de D. José da Câmara Leme, o Condutor das Obras Públicas, de criar no Lubango a "Colónia de Sá da Bandeira" aconteceu numa altura em que decorriam campanhas de  pacificação do sul de Angola cobiçado por nações estrangeiras vizinhas, situação que caminhou a par com as diversas tentativas de povoamento dirigido, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala, e ia  ao encontro da preocupação do Governo de contrabalançar os contingentes boers emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huíla, com elementos lusitanos que imprimiriam o carácter português. O vale do Lubango surgia a D. José da Câmara Leme como um paraíso que contrastava com as securas do deserto do Namibe, região agrícola por excelência, pela abundância de águas límpidas, terrenos férteis e vegetação viçosa, para além de um clima de uma amenidade incomparável que lhe faziam lembrar a sua remota e superpovoada Madeira. Porém o recrutamento de madeirenses não lhe foi fácil e de início teve que se contentar com os que lhe deram, e,  a par de famílias completas e estruturadas, teve que aceitar elementos em relação aos quais viria a arrepender-se: degredados por crimes de delito comum, ladrões, e até prostitutas,  dos quais esperava se aplicassem a trabalhos  da lavoura que desconheciam, e ganhassem  hábitos de trabalho que não tinham.  Na 2ª colónia passou a haver um maior cuidado na selecção de emigrantes.

No livro "A última estação do Império", António Chaves refere: "...Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns ficavam de guarda aos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxada e pás anos ombros calcorreavam os 5 km até aos domínios reais, agora "desinfestados". Face aos perigos de emboscadas de gente do soba "Cabeça Grande", que embora escorraçado não se deu por vencido., o grupo era escoltado por três praças e uma duzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) animados com absoletas e ferrugentas espingardas de "pederneira" do século XVI. A cavalo, chicote na mão e revolver de tambor à cinta, seguia D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolonga-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos, havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite."

Assim aconteceu o nascimento físico de Sá da Bandeira. E mais contingentes de madeirenses chegaram no período entre 1882 e 1892, e deram seus frutos. Convergiam à chegada para os barracões para em seguida serem deslocados, gradualmente,  para a Chibia (667), para a Humpata (91), para a Huila (?), ficando os 823 restantes com destino a Sá da Bandeira e ao Cuculevar a aguardar naqueles humildes alojamentos, cuja movimentação e número constam dos mapas oficiais da época.

A Conferência de Berlim e a consequente pressão sobre a ocupação efectiva sujeita a verificação internacional, numa época em que Portugal ocupava apenas 10% do território hoje ocupado por Angola, veio dar prioridade, a par da fixação de colonos, às Campanhas do Sul de Angola, ou seja, à conquista militar e posterior pacificação através da submissão e avassalamento da autoridade africana. Uma mudança de estratégia que se repercutiu nas primeiras décadas do século XX mas que não teria dado os resultados esperados, conforme é patente nas queixas de Norton de Matos em 1912-14, enquanto Governador Geral, quanto se referia à  falta de efectivos militares suficientes enviados pela Metrópole que redundava no facto de após esmagados os conflitos locais e regionais, tudo voltava ao mesmo devido à retirada da presença militar efectiva na área.  Como foi dito atrás Portugal tinha que comprovar, Conferencia de Berlim em diante, a efectiva ocupação do territórios que reivindicava na base do direito histórico. Estas tentativas geraram  resistência e conflitos armados, de pequenas, médias e grandes proporções, em vários locais da região. René Pellisier, o historiador francês afirmou na sua obra que entre 1881 e 1916 o sul de Angola foi de guerra. Na realidade foi um tempo em que se realizaram 45 expedições armadas de variadas dimensões, desde um dia a sete meses e meio de campanha. Em 1916 já levavam entre 29 e 30 meses de luta armada que envolveu cerca de 40 mil efectivos. Acredita-se ter-se registado entre 2 mil a 3 mil mortos em combate e por doença. J. Bento Duarte adiante que "é provável que a posse do Sul de Angola por Portugal lhe tenha custado quase tantos mortos como a repressão das revoltas de 1961 e o abafamento da guerra colonial entre 1961 e 1974.  O sul de Angola para os portugueses teve o sabor de cinza, o Ovambo teve o sabor de sangue." O principal motivo residia em ocupar o território e impedir o avanço para norte do dominio alemão, uma vez que a lesre do Cunene não se conhecia a existência de recursos valiosos que tal justificasse. Em 1898 os alemães chegaram mesmo a a receber permissão da Inglaterra para anexarem o sul de Angola. A guerra anglo-boer veio inviabilizar o processo de negociação, mas este foi retomado em 1912. O objectivo era a divisão das colonias portuguesas entre a Inglaterra e a Alemanha, negociação que era ainda patente às vésperas da primeira guerra mundial (1914.18).

No final do século XIX a população africana representava 99% da população do território. Os portugueses viviam sobretudo no litoral, Luanda, Benguela e Moçâmedes. Mas foi no sul que, uma vez abolido o negócio de escravos para o Brasil e Américas, se partiu para as primeiras experiências de uma economia que tinha como fundamento a fixação de familias portuguesas e o desenvolvimento económico do território, e que teve em Moçâmedes o seu primeiro exemplo, na base da agricultura (algodão, cada de açúcar) e criação de gado, uma situação que levou ao tradicional roubo de gado por parte dos mucubais, replicados pelos colonos a titulo de vingança. O novo paradigma colonial teve como corolário a substituição da imagem de uma colonização levada a cabo pelo envio de degredados, por uma colonização por colonos.


Os colonos madeirenses foram conotados como a causa de todos os fracassos da colonização, apodados de preguiçosos, incompetentes e bêbados. Nunca a autoridade local da época assumiu os fracassos sofridos nos primórdios da colonização daquela zona planaltica de Mossâmedes, como era então designada. Honra seja feita ao ministro Sá da Bandeira, que referiu, preto no branco que  "os fracassos do desenvolvimento de Angola, deviam-se aos maus governantes de Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola."

Lamentavelmente foram os humildes madeirenses, maltratados fisicamente e até moralmente pelos novos senhores idos da Metrópole e até da sua ilha da Madeira,  sobre quem recaiu a causa de todos os fracassos, eles que fustigados pelo sol e pela chuva, pelo vento e pelo frio, desbravaram e aplanaram, conquistaram a merecida confiança e a aproximação dos dóceis muilas considerados tão hostis, com sobejos motivos, quando da usurpação das suas terras.

Os madeirenses instalaram-se no Lubango arreigarem-se à terra, trabalharam duro, e alí investiram o fruto do seu trabalho, nunca enriqueceram, mas deram a sua quota parte, por meios pacíficos, através de uma vida plena de sacrifícios  para que as fronteiras de Angola se  firmassem, e Angola fosse o grande território que hoje é. As suas crianças cresceram saudáveis, casaram, tiveram filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranatos...  Era alí que viviam  no último quartel do século XIX, as famílias europeias mais numerosas de Angola.



(Algumas destas informações encontram no "Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971.)


Passemos a descrever, mais pormenorizadamente, o percurso desta família:

Manuel de Abreu , a criança que havia chegado ao Lubango com 9 anos de idade, um dos filhos de  Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu, feito homem, acabou por se radicar em Moçâmedes onde casou e constituiu familia, e era conhecido por "Mata Porcos". Em Moçâmedes continuou  a exercer, de certo modo, a anterior profissão de seu avô, José de Abreu, na Ilha da Madeira,  que era a de produtor de fumados e salsicharia, e estabeleceu-se com  o «Bazar do Povo», loja que vendia de tudo um pouco, apetrechada do respectivo talho,  que ficava situada na Rua das Hortas, numa esquina, onde mais tarde  mais esteve a «Casa Inglêsa», e ultimamente a firma «Santos e Cabeça», em frente à  loja que foi de Graça Mira e Jacinto.

 




Manuel de Abreu tornara-se um exímio caçador de animais do Deserto de Mossâmedes nesses outros tempos em que se dizia que leões rondavam vila...Havia mesmo leões em zonas circunvizinhas, e a prova está aqui, na foto acima, tirada na Rua dos Pescadores, frente à casa da família, e mais abaixo no quintal da mesma casa, em Moçâmedes 

 Manuel de Abreu exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, deitado na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, e os Armazéns de Antunes da Cunha. 


As crianças da  família Abreu, observando no quintal da casa do avô Manuel  a leoa abatida
Mas o que é curioso é que a faceta de caçador de Manuel de Abreu  (filho) encontrava-se intimamente ligada à actividade do comércio de carnes. Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no talho do seu «Bazar do Povo».


  

Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Manuel de Abreu, com e Raul de Abreu a seu lado e um familiar. À dt. um empregado doméstico (criado)


Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel e do seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas , olongos, e outros animais tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.

Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo pois subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê.

Manuel de Abreu, à dt. de chapéu na cabeça e cigarro na boca, com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da caça, um enorme guelengue. Repare-se como naquele tempo se ia para o deserto caçar de fato e gravata como se fosse para uma festa.

 
Manuel Abreu, David Abreu (óculos), António Abreu (?)...

 Manuel de Abreu, à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem
se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe  Anos 30.



Manuel de Abreu, à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é Raul de Abreu, o 3º, David Abreu



Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxe consigo para Moçâmedes uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava-o  para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe.




                                            Manuel de Abreu segurando a zebra acabada de capturar
E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela.

Imagino como seria o primeiro carro surgido em Moçâmedes, o carro do Dr. Lapa e Faro, médico na década de 1860 na recem criada povoação, que havia mandado construir para transportar as pessoas para caçadas pelos areais do deserto do Namibe. Um carro que além de conduzir passageiros, servia também para transportar doentes e combalidos.


 


Caçada no deserto do Namibe, com toda a família envolvida.  Angelo Abreu (1º à esq.), seguido de  algumas jovens  da família  vestidas a preceito. Manuel Abreu (filho)  e esposa (à dt.), ao lado de João Abreu;  sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)

Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é precido dizer que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos. Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando às habilidades de Manuel de Abreu (filho), importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra na década de 1940 a colocar no lugar ossos e articulaçõe, es que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre, tal era o estado de atraso de Angola nessa época.




Eis aqui a familia constituida pelo irmão de Manuel Abreu, o Raúl Abreu (vidé 1ª foto era então a criança da esq.). Raul de Abreu  e Zenóbia Trindade Abreu,  junto dos filhos, Fernanda (Babá), Nito e Leta, todos nascidos em Moçâmedes.


   

Nesta foto podemos ver , à dt., Zenóbia Trindade Abreu (casada com Raúl Abreu) então ainda criança junto dos pais Lucinda Ferreira Trindade e João Rodrigues Trindade, e à esq. a irmã Leovegilda (à esq.). Faltam aqui os outros dois filhos desta família, João e Lumelino Trindade.
 
Facto curioso é que os apelidos "Jesus"  e  "Abreu" são os que mais se repetem nas listas dos componentes das 1ª e 2ª colónias de emigrantes madeirenses, que chegaram a Moçâmedes nos vapores "India" e "Africa", a 18 de Novembro de 1884 e  a 19 de  Agosto de 1885,   com destino ao povoamento das terras altas da Huila. 

Seguem alguns nomes das familas  "Jesus"  e  "Abreu" retirados das referidas  listas de colonos, conforme o livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume:


Elementos destas famílias que integraram a 1ª colónia: 1884

--- FRANCISCO MARQUES DE JESUS - natural de Santa Ana(48 anos), casado com JOANA ROSA DE JESUS; filhos : - Maria(17), Manuel(13), Francisco(5) e João (16 meses ?).
--- FELISBERTO GONÇALVES DELGADO - natural de Porto Monis(4o anos), casado com MARIA DE JESUS.
--- FRANCISCO GOMES FARIA - natural de Curral das Freiras(26 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel (1),João (nasceu a 1/6/1885).
---JOSÉ FERREIRA JÚNIOR - natural de S. Martinho(20 anos). Casou com MARIA DE JESUS em Janº/1886; filho : - Manuel(17/9/1886).
--- LUIS DE ABREU FARIA - natural de Ribeira Brava(30 anos), casado com CRISTINA DA SILVA DE JESUS; filho - Manuel(20 anos).
--- MANUEL PAULO DE FREITAS - natural de Boaventura(35 anos), casado com BASÍLIA DE JESUS; filhos :- Maria(3) e Manuel(nascido em Dezº 1886.
--- MANUEL VICENTE FERREIRA - natural de S.Jorge(42 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(8), Maria(6) e António(2).

Elementos destas famílias que integraram a 2ª colonia: 1885

~-- ANTÓNIO DE ABREU, natural de Boa Ventura(24 anos),casado com MARIA DE JESUS.
----ANTÓNIO GOMES JÚNIOR - natural de S. Roque(32 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Matilde (21), Gregório(9), Maria(3 meses).
--- ANTÓNIO MANUEL GOUVEIA - natural de S. Vicente(31 anos), casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Maria(4), Manuel(7 meses), Isabel(nascida a 28/9/1886), Maria(nascida 23/7/1887).
--- ANTÓNIO MARQUES LUIZ - natural de Santa Ana(46 anos), casado com JOAQUINA FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(14), José(12), Carolina(8), Ana(6), Luisa(3) e António (22 dias).
--- FRANCISCO DE GOUVEIA - natural de Ribeira Brava(25 anos),casado com ISABEL DE JESUS GOMES.
--- JOSÉ DE ABREU - natural de Tábua, casado com MARIA DO NASCIMENTO ; filhos : - Maria(23), Vitorina(20), Francisco(18), Antónia(16), Virgínia(12), João(10), Manuel(7), António(3).
--- JOÃO NUNES - natural de Ribeira das Galinhas(20 anos),solteiro. Casou com MARIA DE JESUS em 1/8/1887.
--- JOSÉ DE CASTRO - natural de Santo António(49 anos),casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Luis(15), Alexandre(13) e Augusto(1).
--- JOÃO DE FREITAS - natural do Machico(43 anos),casado com CRISTINA DE JESUS; filhos : - Romana(13), Maria(12), Augusta(10), Cristina(7), Manuel(5), Tereza(2) e Alexandrina(1 mês).
--- JOÃO DOS SANTOS - natural de S.Martinho(29 anos),casado com JUSTINA DE JESUS; filha - Maria(2) e cunhado JOSÉ DE PONTES(17 anos).
--- JOÃO MARQUES CALDEIRA - natural de S. Jorge(45 anos), casado com MARIA ROSA DE JESUS; filhos - Maria(16),FRancisco(12) e José(8).
--- JOÃO SOARES DE ABREU - natural de Porto da Cruz(40 anos), casado com MARTA ROSA; filhos : - Rosa(6), João(4), José(nascido a bordo em 20/5/1885).
--- JOÃO DE FREITAS GOMES - natural de Santa Ana(48 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(20),António(16), Joaquina(12) e António(primo - 19 anos).
--- JOÃO MARQUES LUIS - natural de Santa Ana(41 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Manuel(6),Maria(4), Gertrudes(2) e João (nascido a bordo em Outubro de 1885).
--- JOÃO DA COSTA - natural de Machico(32 anos), casado com FRANCISCA DE JESUS; filhos : - Maria(13),Francisca(10),José(8), Francisco(6) e João(4 anos).
--- JÓSÉ DE ABREU PEREIRA - natural de Tábua(42 anos), casado com VIRGINIA ROSA; filhos : - António(11), Jacinto(7), Maria(4) e Manuel Francisco(pupilo).
--- JOÃO FERNANDES DA SILVA - natural de Calheta(50 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(12), Cristina(7)e Maria(6 anos).




(ass) MariaNJardim


Nota: As fotos foram-me cedidas por Nito Abreu,um dos filhos de Raul de Abreu e de Zenóbia Trindade Abreu, sobrinho de Manuel de Abreu (filho), e neto paterno de Manuel de Abreu (pai).  Nito Abreu era neto materno de  José Rodrigues Trindade e de Lucinda Ferreira Trindade , os pais de Zenóbia, que podemos ver numa das fotos atrás publicadas. Por Nito Abreu foram-me fornecidos os elementos com que o texto foi descrito, bem como as respectivas fotos.
http://tracosdememoria.letras.ulisboa.pt/pt/arquivo/documentos-escritos/36/?context=

17 março 2011

Moçâmedes : eleição das "Miss Mar" e "Miss Moçâmedes" 1971



O "Miss Mar" 1971

Este foi o Concurso de "Miss Mar" 1971, que aconteceu na cidade de Moçâmedes, hoje Namibe, no decurso de um Baile realizado no edifício da Associação Comercial, integado nas X "Festas do Mar". A eleita foi Marilia da Conceição Campos Rodrigues (Lita)  que vemos na foto ladeada por Riquita Bauleth, "Miss Angola" 1971, à dt, e por  "Miss Moçambique", à esq. Na foto encontram-se também as Damas de Honor, Paula Chalupa, à esq (n.6), a mais séria concorrente ao título de "Miss Mar" 1971 , e Fernanda Lourenço "Dama de Honor, à dt (n. 7). Mais à dt, Miss Simpatia.   Nesse ano Celmira Bauleth  (Riquita) havia sido eleita "Miss Angola" 1971, e preparava-se  para, com todo o mérito, no Casino do Estoril, em Lisboa, disputar o título de Miss Portugal, que acabaria por vencer.



 

Chegada a Moçâmedes da Miss Moçambique 1971,  das Damas de Honor de Miss Angola 1971, Maria Clélia Pereira dos Santos (2ª classificada),   Ana Paula Varela Antunes (3ª classificada e  "Miss" Simpatia),   Rosemary Pedroso (Miss Informação) , Ana Paula Antunes da Silva, "Miss" Futuro,  e de outras candidatas ao título de miss beleza angolana que vieram fazer parte, juntamente com Riquita, do juri deste Concurso.  Estiveram igualmente presentes, Maria dos Anjos Roque Alfredo e Fernanda de Jesus Rodrigues. A aguardá-las, elementos de algumas familias de Moçâmedes em cujas casas iriam ficar hospedadas. 

          Finalistas do concurso de "Miss Mar" 1971:  Marilia da Conceição Campos Rodrigues (Lita) "Miss Mar" 1971, ladeada por Paula Chalupa
e Fernanda Lourenço. Concorreram ao título, também, Paula de Carvalho,
 e Ani de Freitas. Cedida por Paula Chalupa


 

No dia seguinte, no campo de jogos do Benfica, o espectáculo foi repetido, com entradas mais em conta, de modo a que mais gente pudesse assistir. Participaram no espectáculo o conjunto musical "Os Desafinados"  de Sá da Bandeira, a Banda do Cassequel e o Grupo Folclórico de S. Nicolau, que se exibiram com muito agrado da parte do público assistente.



 Recorte do "Jornal Namibe" + foto, com Paula Chalupa. Cedida por Paula Chalupa

Conforme o jornal "O Namibe",  o desfile das candidatas no campo de jogos do Benfica foi algo de espectacular, tendo as misses e as concorrentes sido delirantemente aplaudidas,  com especial realçe para as Miss Moçambique e  Miss Angola, e Maria Paula de Sousa Joyce Chalupa, a  1ª dama de honor favorita do público.  Seguiu-se um baile que decorreu com grande animação.


    Bela foto onde podemos ver Paula Chalupa (ao centro) ladeada por Marilia Campos (Lita), à esq. e Ani de Freitas, à dt. Cedida por Paula Chalupa




Como se sabe, neste tipo de Concurso, nem sempre a escolha do jurí coincide com a escolha do público, e nem sequer com a escolha dos orgãos de informação. No que diz respeito à escolha do júri para do Concurso de "Miss Mar" 1971,  a redacção do Jornal "Namibe" veio a público  manifestar a sua discordância por entender que este deveria ser constituido por gente independente e não, como foi, integralmente  constituido por jovens, também elas concorrentes a rainhas de beleza. Também a redacção do mesmo Jornal   manifestou-se  surpreendida por não lhe ter sido dado conhecimento pela Organização do Concurso de "Miss" Mar 1971,  de que iria ser eleita uma "Miss" Informação: "concordamos  com a escolha de Maria José, mas estranhamos que não tivessemos sido avisados de que ia haver uma  "Miss" Informação ... Porque o "Namibe" também é Jornal,  e por sinal o único deste Distrito, e não fomos tidos nem achados...



O "Miss Moçâmedes 1971"

 http://1.bp.blogspot.com/-HMNXqtVgNt4/TZYwNzTVuyI/AAAAAAAAWeU/s4ZnxDpdk2s/s1600/de+paula+chalupa+s%25C3%25A3o+orquidea+nabais+lidia+ferreira+elizabete+cruz+guida+bento+cesar.jpg

Nesse ano decorreu também,  como atrás foi citado, o "Miss Moçâmedes 1971", sendo candidatas, por ordem do desfile: Maria Dulce Pontes, Conceição Ramos Cruz, Elsa Maria, Maria Raquel Gomes,  Maria de Fátima, Elsa Maria Formosinho,  Lidia Rosa Couto, Orquidea Nabais, Maria Eugénia Sena, Maria Lidia Ferreira, Elizabeth Sena, Orieta Bagarrão, Elizabeth Loureiro, Maria Paula de Carvalho, Aurea Maria Novo, Maria de Lurdes Pinto, Alcina Loureiro, Elizabeth Cruz e Guida Bento César.

Destas concorrentes, Maria de Lurdes Pinto  viria a ser eleita, em 1972, "Miss" Angola.  Maria Paula de Carvalho e Maria Lídia Ferreira, as duas Damas de Honor. Maria Paula de Carvalho foi ainda eleita Miss Jovem Internacional no Japão. Desde a eleição de Celmira Bauleth  (Riquita) , como Miss Angola e Miss Portugal 1971, as beldades de Moçâmedes estavam imparáveis.

É caso para repetir mais uma vez  este badalado poema:
 


                                                                              AS GAROTAS DO MAR


Todos ficaram sabendo
que assim mesmo é que isto é,
contra as garotas do Mar
é remar contra a maré...

Vencemos em toda a linha!
Foi vitória das mais lindas,
pois nós ganhamos a todas,
Preciosas, Caraslindas...

Contra o que muitos pensavam
nós vencemos o despique,
pois entre ondas de beleza
não podemos ir a pique.

Que as moças iam vencer
era aqui por nós sabido,
pois o Namibe jamais
em beleza foi vencido!

Ninguém nos pode tirar,
cá nesta terra angolana
no campeonato das lindas
a posição soberana.

Todos queriam com bairrismo,
do fundo do coração,
neste Concurso famoso,
a bela repetição.

Lurdes tu és segunda
(Riquita foi a primeira)
e as Miragens do Deserto
hão-de indicar a terceira.

Em loucura colectiva,
no momento final,
a alegria sem limites
dominou a Areal.

Muitos cortejos de carros!
Bancos, pretos... Da cama,
homens, mulher's, crianças,
vêm pr'a rua de pijama!

As Welwistchias ajudaram,
com mil palmas prazenteiras,
que deram com frenezi,
as mil palmas das palmeiras!

E o bom Mar que é nosso Amigo,
em vozes portentosas,
bradou logo o mundo inteiro:
-São nossas as mais formosas!

(Autor desconhecido)




O  "Miss" Mar 1972


 
 Concorrentes
 

 No ano seguinte foi a vez de Paula Chalupa ascender ao título de "Miss" Mar 1972.


 Paula Chalupa , uma das mais sérias concorrentes com o Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, Rogério Marques dos Santos, António José da Costa Minas e Zé Pegado.
 
 Paula Chalupa
 

  Paula Chalupa



Chegou-nos esta foto, com esta descrição: "Concorreram também Maria José Pegado (foi escolhida para "Miss Informação"),  Teresa Neto, Eva Machado, Manuela Antoninho e Isabel Carvalho Gomes. Não conseguimos ainda confirmar o ano deste concurso..



O  "Miss" Mar 1973

 

 Em 1973 foi a Ondina Sancadas de Sousa a Miss Mar. 
Na foto a ser coroada por Paula Chalupa. Eram ambas funcionárias da Câmara Municipal de Moçâmedes.



Ficam mais estas recordações.


MariaNJardim



Clicar AQUI para ver Ana Paula Almeida, Miss Moçambique 1971,  3º lugar  no Miss Mundo substituindo Riquita, a ganhadora desistente.

Ver também AQUI
 


03 março 2011

Culto de Nossa Senhora de Fátima em Moçâmedes (actual cidade do Namibe), Angola, em finais da década de 1960


Estas fotos foram tiradas já na década de 1960, creio. Como podemos ver, passadas quase suas décadas  da chegada a Moçâmedes, em peregrinação, da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em 1948, o culto à Virgem ainda estava bem vivo entre os moçamedenses. Na 1ª foto,  tirada junto ao muro do Cemitério de Moçâmedes, ali mesmo ao lado do Forte de Santa Rita, reconheço, entre outros, o Dr. Balsa, que foi professor e director da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes e posteriormente, da Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, por extinção daquela.

01 março 2011

Alunos da Escola Pratica de Pesca e Comércio de Moçâmedes: 1948



                                                          Clicar sobre a foto para aumentar, é grande.

Foto interessantíssima, gentilmente cedida por Antonieta Bagarrão Lisboa, através da qual podemos ver o conjunto de alunos e alunas que frequentava a Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, do 1º ao 5º ano, no ano lectivo de 1948/49, actualmente todos eles já na casa dos 70 anos e mais, de idade, felizmente, a maioria ainda vivos e cheios de vitalidade, reflexo da boa alimentação na infância em Moçâmedes (Angola), a terra do bom peixe, rico em ómega3!!! Também podemos ver, mais acima, o corpo do professorado que na altura lecionava na referida Escola.


De baixo para cima e da esq. para a dt., reconheço, entre outros:



1º plano: Albino Aquino (Bio), Carlos Pinho Gomes, ?, Manuel Dias Monteiro (Neca), ?, Amilcar Almeida, José Patrício, Arnaldo Van der Keller (Nado), ?, Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita), Nito Abreu, Bajouca Zezinho Guedes Duarte, Manuel Rodrigues Araújo, António José Carvalho Minas e Norberto Edgar Almeida.

2º plano: Carlos Calão, ??????, Fernando Morais (o 7º, de camisa escura), ?,?,?, Licas Freitas (de pé, ao centro), Dito Abano, Jaime Custódio, Zezo Freitas, Carequeja, ?, Soares, ???, Beto de Sousa,?? , Albertino Gomes e?

3º plano: Antonieta Bagarrão (Dédé), Mimi Carvalho (5ª), Maximina Teixeira (8), ???
4º plano: Fátima Abrantes, ?, Nelinha Costa Santos, Salete Leitão, Fátima Duarte, Malanie Sacramento, Carolina Mangericão, ?, Lucia Brazão, ???, Raquel Martins Nunes, Orbela Guedes, ???, Fernanda Vieira,..

5º plano: Francelina Gomes, ???; Augusto Martins, ??, Padre Galhano, Dr. Borges (Director), ?;?: Prof. Carrilho (Dactilog/Caligraf./Estenograf.), Luzete de Sousa, e mais à dt, Bernardete Diogo, ?, e Fernandina Peyroteu

Sobre o ensino secundário em Moçâmedes, encontrei na Net as seguintes informações, que passo a transcrever:


32. ENSINO SECUNDÁRIO EM MOÇÂMEDES

Referimo-nos já, em diversos lugares deste trabalho, à determinação de 23 de Agosto de 1919, do visconde de Pedralva, Francisco Coelho do Amaral Reis, quando criou em Luanda uma escola comercial e uma escola industrial, que deveriam funcionar anexas ao liceu, e concedeu autorização aos governadores dos distritos de Benguela, Huíla e Moçâmedes para criarem e fazerem funcionar em cada uma das suas capitais as respectivas escolas primárias superiores.
Em Moçâmedes, demorou bastante tempo para que a medida fosse aplicada e a resolução concretizada. Só em 30 de Março de 1925 foi decidido que a Escola Primária Superior de Moçâmedes entrasse em funcionamento, no ano lectivo que ia iniciar-se. Simultaneamente, era aprovado, publicado e entrou em vigor o respectivo regulamento.
No dia 23 de Maio do mesmo ano era-lhe atribuído como patrono o conhecido e prestigioso governador-geral de Angola cujo nome de certo modo já a cidade ostentava — José de Almeida e Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria, vulgarmente conhecido por Barão de Moçâmedes.
Segundo o que dispunha a portaria de 17 de Junho de 1927, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes passou a ser directamente administrada pelo Estado, visto que a Câmara Municipal não reunia condições para continuar a manter o encargo de sustentá-la, pois lhe faltavam recursos monetários. Os seus professores estavam sem receber os vencimentos desde Novembro do ano anterior, por falta de verba com que pudessem ser pagos. Ora esta situação não podia manter-se indefinidamente, não se antevendo qualquer hipótese de solução, qualquer possibilidade de resolver o impasse, a não ser a que foi executada, dando assim remédio àquele embaraço.
A partir de 10 de Julho de 1930, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, fazendo coincidir as férias com as destes estabelecimentos de ensino.
Tal como acontecera em Sá da Bandeira, sonhava-se com a promoção e transformação da escola, elevando-a a categoria superior na escala da classificação. Os respectivos professores não deixavam de salientar por todos os meios de que dispunham que se tratava de uma escola de ensino secundário, pugnando para que assim fosse considerada.
O decreto de 30 de Novembro de 1936, que tinha em vista organizar em moldes novos o orçamento dos territórios ultramarinos, pondo em prática os princípios já experimentados em Portugal, extinguiu a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes, do distrito e cidade deste nome, e criou em sua substituição a Escola Prática de Pesca e Comércio.
O diploma legislativo de 9 de Janeiro de 1937, tendo em consideração os diversos problemas levantados com a extinção daquele estabelecimento e a criação deste, de categoria que se não considerava exactamente igual nem superior, determinou que os exames finais dos alunos a frequentá-lo, chamados também exames de saída, seriam realizados no decorrer desse mês de Janeiro, sendo o júri constituído pelos professores em exercício. O director da escola e o único professor efectivo que nele trabalhavam transitariam, sem mais exigências, para o quadro do recém-criado estabelecimento de ensino.
Havia um texto legal que defendia que o ensino ministrado em cada meio social fosse o mais adaptado possível ao seu ambiente e às suas necessidades. Por isso entendeu-se que, sendo Moçâmedes terra de pescadores, a nova escola deveria ter esta característica e, portanto, relacionar-se com as actividades marítimas e o sector piscatório.
No dia 3 de Abril de 1937, foi aprovado o Regulamento da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Segundo o que este diploma legal determinava, o ensino teria a organização seguinte:
Sexo masculino
—Mestre de pesca e carpinteiro-calafate;
Sexo feminino
—Costura e bordados;
Os dois sexos
—Curso geral do comércio.
No curso de mestre de pesca, os alunos estudariam Português, Francês, Ciências Geográfico-Naturais, Matemática, Desenho e Trabalhos Manuais, e Educação Moral e Cívica. Tomariam contacto com os trabalhos de construção e reparação de barcos; treinariam nas actividades da navegação e pilotagem; atenderiam aos trabalhos da pesca e conserva do peixe; seriam iniciados na reparação dos instrumentos de bordo e outras tarefas afins. Os alunos do curso de carpinteiro-calafate estudariam as mesmas disciplinas e ainda Desenho de Projecções, Desenho Profissional e Estilos, e Tecnologia; nas oficinas, aprenderiam o que dizia respeito à construção e reparação de barcos.
As alunas de costura e bordados estudavam as mesmas disciplinas e tinham trabalhos práticos, de cuja amplitude não podemos aperceber-nos, pois o texto legal não é suficientemente claro.
No curso comercial, estudavam-se as mesmas matérias acrescidas de Inglês, Elementos de Direito Comercial, Economia Política, Noções Gerais de Comércio, Contabilidade e Escrituração Comercial, Caligrafia, Dactilografia e Estenografia. Continuava a prestar-se atenção a tudo o que dizia respeito à pesca e conserva de peixe, construção e reparação de barcos.
A Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes era considerada, mesmo no aspecto burocrático e estrutural, como uma escola de ensino técnico secundário, pois havia em Angola pelo menos uma escola de ensino técnico elementar, criada em 5 de Junho de 1930, a que fazemos referência no lugar próprio. Podemos chegar à mesma conclusão se atendermos ao ensino literário nela ministrado. Todavia, não chegou a criar tradição que a prestigiasse, esbatendo-se no panorama da escolaridade que temos vindo a analisar.
Tirei DAQUI





Portaria n.º 17899
A Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes é a mais antiga da província de Angola entre as do grau de ensino a que respeita, pois resulta da conversão decretada em 1952 da anterior Escola de Pesca e Comércio. Para a sua instalação definitiva foi construído edifício próprio, de aspecto condigno, e que pela sua situação domina a importante e laboriosa cidade a que pertence, bem como a vasta baía que lhe fica adjacente. A inauguração da nova sede é um dos actos que na província hão-de constituir a comemoração do centenário da morte do infante D. Henrique, como participação da patriótica população de Angola em tão solene preito de justiça e reconhecimento de todo o País à memória gloriosa daquele excelso português. Dado que as actividades características da cidade de Moçâmedes se associam aos trabalhos do mar ou em grande parte são deles resultantes, é do maior acerto que nele fique alguma coisa a recordar esta quadra comemorativa. Nada mais expressivo poderá haver, para esse efeito, do que invocar como patrono para a escola que ali prepara os trabalhadores mais graduados o nome do infante navegador. Nesse sentido se manifestou o Governo-Geral da província.
Pelo que:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes seja dada a denominação de «Escola Infante D. Henrique». 
Ministério do Ultramar, 13 de Agosto de 1960. - O Ministro do Ultramar, Vasco Lopes Alves. 

Para ser publicada no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves. 






(1) Professores do EICIDH 




Alguém escreveu num comentário: "...Houve outros professores que me marcaram mais: Dr. Brandão, Dra. Isabel Serrano, Dra. Cristina Solas, Professora Leonor Bajouca, Professor Minga, Professora Lucília Falcão, Dra. Luísa Mesquita (tive mta pena qdo se foi embora para o Luso) e o querido Dr. Campos que era uma belíssima pessoa. Ainda vi a Dra. Luísa Campos, umas 2 vezes qdo trabalhava na escola n.o 26 dos Anjos. Fez-me uma festa. A minha tia Guida é que manteve contacto com a Dra. Luísa Mesquita até vir para cá. Há uns anos (muitos), organizaram uma visita ao Dr. Brandão. Éramos muitos, um autocarro cheio. Foi mto bom."

27 fevereiro 2011

Moçâmedes: baile para entrega de prémios aos vencedores das provas das "Festas do Mar", no salão da Associação Comercial, algures nos anos1970...

O Governador do distrito de Moçâmedes, comandante Salles Henriques de Brito fazendo a entrega aos vencedores das provas das "Festas do Mar". Na mesa encontra-se para além da esposa do Governador, e outros, o Capitão do Porto na altura, Comandante Marrecas Ferreira e esposa. Ao fundo, reconhecemos Egidio Robalo da União Nacional.

Em primeiro plano, reconheço, entre outros, divertindo-se ao ritmo da dança, o casal Mário Rocha e Lucília Rocha
Grupo de jovens moçamedenses de então.
Nesta foto: , Castro, Rafael, Rosa Dias, Rosa Seixal, Eduarda Figueiredo e Conceição. Foto de Eduarda Figueiredo.

 
 Camilo Costa, Manuela Oliveira (Maboque) e marido e  Horácio Reis