«...Em
1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na
cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a
perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas
crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali
procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o
projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o
património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica
incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento
que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de
relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar
da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio
financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de
engenhos para fabrico de açúcar.
Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de
Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde
de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias
àquele arrojado empreendimento.
A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se
ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão,
inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido
saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar
terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma
carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e
Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se
pode ler:
«...Eu, que livre de orgulho, afirmo
poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir
compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de
uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente
dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e
plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a
muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a
conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de
agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar
da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações
que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza
de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber,
mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir
medidas acertadas».
Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de
extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões
assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues,
que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria
ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.
Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063
de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos
portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil,
feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum
ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data,
mandar expedir providências necessárias para a passagem dos
mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em
África que por eles for escolhida.»
Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da
Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido
escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a
formação da colónia.
Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39
mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco,
rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no
brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.
Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:
«...Foram os brasileiros quem fez
lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando
tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem
insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio
deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca
«Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do
porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto,
atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o
que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»
Levando consigo máquinas, instrumentos
rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os
primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela
cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo
que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num
areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para
se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao
desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de
bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»
E se sofrimentos houveram na viagem,
nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a
paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias,
tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia
das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente,
56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores
pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais
funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca,
coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» -
Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia
sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro
vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa
elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.
No dia 1 de Agosto entrou em
Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa
Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o
que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»
Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e
examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no
dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se
avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria
cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas
provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as
autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:
«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse
quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam
acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o
menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele
pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões
africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que
houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que
havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em
Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos,
atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a
vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se
montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que
se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço
de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»
Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o
Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do
ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe.
Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são
distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos
Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet
opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na
povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos
Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que
dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da
Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união,
duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista
três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios
sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira),
ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em
bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra
que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas
crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará
ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver
Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou
se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».
A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um
Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr
de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim
estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos.
Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois
a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem
haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada
á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento
instala-se na alma dos colonos.
É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes
fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados
junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos
trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É
neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de
Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»
Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob
a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de
1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se
fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo
grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com
vivacidade.
Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da
ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José
Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número
dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida
fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao
da sua ilha.
Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais
importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve,
por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu
mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se
conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar
ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa
robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes
peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de
cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para
aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta,
etc. etc.
Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples
rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a
pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato.
Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar
para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha
província da Huíla.
A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que
ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que
para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali
construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na
várias redes e pescar.
A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes
as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a
construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em
abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a
contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que
achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento
teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo
quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de
cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as
adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.
E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do
Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal
de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a
quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro
junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria
Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S.
Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como
atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se
numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.
Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de
Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local
conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito
que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a
preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura
de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização
de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira
tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido
grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.
Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa
africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em
moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria»
e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba
do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».
In
“Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua
ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.
Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
Mostrar mensagens com a etiqueta fundação; Moçâmedes; Namibe; Bernardino Abreu e Castro; 1849; Pernambuco; Brasil; Tentativa Feliz; colonizaçao; colonos;. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fundação; Moçâmedes; Namibe; Bernardino Abreu e Castro; 1849; Pernambuco; Brasil; Tentativa Feliz; colonizaçao; colonos;. Mostrar todas as mensagens

