09 agosto 2007

«Kazecutas» da nossa terra, num carnaval de rua na década de 50, e mais adiante no tempo...




A concentração começava no antigo campo de futebol de terra batida, situado em local próximo da Estação dos Caminhos de Ferro (fotos 1 e 2). Anualmente pelo Carnaval e durante três dias as "danças de rua" indígenas desfilavam pela cidade, cantando, batucando, dançando, soprando apitos, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes... Era a festa que o povo africano tanto adorava e nós, a garotada branca, negra e mestiça daquele tempo, também!

Nestes dias de Carnaval, na Moçâmedes dos anos 1950, descarregam-se energias, ânimos, desânimos, emoções... 

As danças indígenas, eram nem mais nem menos o que vemos aqui: povo na rua, uns exibindo chapéus de abas largas, outros, lenços, panos garridos, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, bonés, soutiens, óculos, etc... E ainda outros, semi-nús, saia curta sarapilheira, soutiens, colares, brincos, rostos pintalgados, penas na cabeça simulando índios em suas lutas e rituais, apito na boca, pau na mão, máscaras rudimentares de papelão, etc. etc.


 
 
"Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes

 
E a dança sai à rua passando junto às pérgulas e aos  caramanchões da Avenida...

Os tocadores utilizavam bombos, cornetas, reco-reco, marimbas, quissanges, apitos para cadência rítmica, para além de outros objectos julgados necessários tais como latas, garrafas, etc., etc. 

Regra geral eram três as danças indígenas carnavalescas, a do plateau da Torre do Tombo, a da Aguada, e a do Forte de Santa Rita, ambas formadas por quimbares *, homens, mulheres e crianças. 


  

Estas «danças» eram lideradas pelos seus reis e as suas rainhas que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não lhes faltava as respectivas coroas e os ceptros reais...coroas que nas rainhas eram colocadas em cima de véus que vinham até ao chão fazendo lembrar as santas dos altares nas igrejas católicas... Atrás seguiam os músicos com diversos instrumentos para marcar o ritmo, especialmente tambores. Anda mais atrás seguiam os bailarinos, vestindo trajes individualistas ou, nos grupos "mais ricos", apresentando trajes repetitivos de tecidos de algodão de cores fortes. Enfim, toda uma encenação que dava um tom característico ao Carnaval de rua que se desenrolou em Moçâmedes, acredita-se, desde a chegada dos 1º colonos vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, sob a influência dos serviçais, escravos e livres que os acompanharam e que carregavam em sí, já  uma mistura de influências  afro-brasileiras.   

As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas e faziam a sua exibição, passo para a frente, passo para trás, que terminava com uma vénia cortês do líder, que recebia um «mata-bicho», gratificação em dinheiro, ou uma garrafa de vinho e algo para comer, o que vinha a calhar sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar...
 
O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado na cidade que aos sábados a percorria de ponta a ponta em busca de esmolas,  era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita. O cozinheiro do ti Óscar Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia, como o alcoolismo, o endividamento, as mulheres de mau porte, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados, mas também a crítica velada ao sistema político vigente era tema para canções.


E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças" no decurso das exibições efectuadas às portas das casas, os componentes de grupos rivais se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica batalha campal, de luta corpo a corpo, que obrigava, em último recurso, à intervenção da polícia.. 

Era a grande festa do povo, a festa dos «cazecutas» da nossa terra, que se constituía em momentos de autêntica catarze, e  que terminou abruptamente com a proibição de manifestações populares e exibição de máscaras nas ruas da cidade pelas autoridades portuguesas, a partir das sublevações no norte de Angola e dos acontecimentos trágicos de 1961. 




 

Em Luanda, o centro de informação e turismo de Angola (CITA) criou  mais tarde regulamentos próprios para o Carnaval de rua junto das câmaras municipais, determinou os locais onde deveriam decorrer os desfiles, proibiu o uso das máscaras incrementaram os corsos, corsos alegóricos que desfilavam nos espaços que separavam os grupos carnavalescos e incentivaram cada vez mais as festas de salão, entre outras acções. 

 

O mesmo aconteceu com o Carnaval de rua no Lobito que passou a constituir um cartaz turístico para a cidade. Nesse período, depois de Luanda, só o Carnaval de Lobito, na província de Benguela, se destacou, chegando a ser considerado o mais animado e mais organizado Carnaval de Angola. A Câmara Municipal fazia desfilar na bela restinga e desde o início do Porto do Lobito à colina da saudade. 

Porém em Moçâmedes e não se sabe bem porquê, o Carnaval de rua extinguiu-se a partir de 1961, e nunca mais voltou. A Terminou também a "batalha de cocotes" que durante décadas. messes 3 dias, deixava a Avenida da República toda coberta de farinha...  E as danças de rua indígenas acabaram substituídas por dolentes batucadas, das quais apenas se ouviam os ecos vindos de entre muros, lá dos lados da Aguada, Forte de Santa Rita e  Plateau da Torre do Tombo ...

Uma década depois... 
 
Fevereiro de 1974. Estava-se a mês e meio antes do golpe militar de 25 Abril em Portugal, que depôs o Estado Novo, e a pouco mais de ano e meio da independência de Angola...

Carnaval de 1974, sem dúvida! O próprio cartaz o comprova.  Desfilando pela Avenida da Praia do Bonfim,  grupos de jovens africanas vestidas de côr alaranjada, sedas e setins, brincos, colares, turbantes, etc, inauguram um outro modo de viver o Carnaval, bem diferente das tradicionais "danças indígenas" que não  mais tinham voltado às ruas de Moçâmedes!
Outra foto do mesmo grupo


A influência a cultura europeia entre os moçamedenses brancos manteve-se até ao fim! De facto a raiz cultural de um povo, tem muita força. Para quê disfarçar?  No mesmo desfile participaram jovens  exibindo trajes que evocavam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não faltava o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.
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Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em si outras mensagens, como o  da JAEA  (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola, progressiva e multirracial, que agora se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política  de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. O processo de integração e miscegenação estava em marcha, mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido revelaram-se tardias demais...

Este foi, pois, como que um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes. Mas o derradeiro Carnaval festejado mas ruas da cidade foi mesmo o de 1975, a poucos meses da independência de Angola. Desse já nada sei!


Angola foi independente em Novembro de 1975, com a cidade de Moçâmedes esvaziada da sua população europeia. Seguem algumas fotos daquele que penso ter sido o  1º Carnaval (pós dipanda), festejado nas ruas do Namibe:

 
 



Ver também AQUI, tudo sobre os carnavais em Moçâmedes
 
MariaNJardim




* Chamavam-se quimbares os nativos urbanizados naturais de Moçâmedes, em grande parte descendentes de antigos serviçais, livres e escravos, que em 1849 e em 1850 desembarcaram em Moçâmedes acompanhando os seus senhores, que, vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos das hostilidades nativistas, iam dar início à colonização do Distrito de Moçâmedes. Retornados a África, escravos ou livres, esses africanos de origens várias, sobretudo ambundos, transportavam consigo uma cultura própria, cristianizada, eivada de usos e costumes lusos, que haviam adquirido no contacto com seus patrões nas relações de trabalho, no Brasil. Vestiam-se de panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto (as mulheres), e com calças e camisas (os homens) e sabiam festejar o Carnaval, ao qual emprestaram um cunho próprio, com danças de rua e mascaradas acompanhadas de cânticos e batuques, cuja ritmica fazia lembrar danças de recriação espírita, em dias de óbito. Não andavam pois, nús, nem semi-nus como os povos que foram encontrar fixados nas margens dos rios Bero, Giraúl, Coroca, etc, ou deambulando, numa vida nómade e semi-nómade pelo Deserto do Namibe, vivendo da caça, do gado e do pastoreio. 

Com o rodar do tempo esse núcleo inicial dp povo designado por quimbar  foi-se alargando, em resultado da misceginação aos poucos verificada com indivíduos de outros grupos étnicos que com eles se cruzaram. Refiro-me a escravos libertados de navios negreiros apresados e enviados de Luanda para Moçâmedes, nesses tempos de abolição e de luta contra o tráfico clandestino para o Brasil e Américas, tempo de grande carência de mão de obra, quando se pretendia enveredar para um um novo paradigma colonial, de povoamento e desenvolvimento do território. 

Passaram a integrar também o grupo quimbar, povos oriundos das margens do Bero, Giraúl e Curoca, entre os quais os Cuisses, Curocas e Hereros, ou mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W), estes não tanto, que, atraídos para trabalhar na agricultura e na indústria da pesca, e que, deslocados do seu meio, ao passarem a viver na região quimbar (Moçâmedes, Porto Alexandre e outras povoações pesqueiras e agrícolas entre Moçâmedes e Benguela, e mesmo Lubango, Humpata e Chibia) e ao atingirem um certo grau de aculturação no contacto com os brancos e com os primitivos quimbares, passaram a adoptar os modos de ser e de estar quimbar. Ou seja,  aprenderam a falar português, assimilaram alguns usos e costumes que já eram uma mistura de costumes afro-europeus. Tanto que na língua cuanhama o termo que os define o "quimbar", bali, lwimbali ou vimbali, significa, literalmente, "aqueles que vivem como os brancos". Aos primitivos quimbares Lopes Cardoso designaria de "Mbalis próprios", enquanto aos do segundo grupo designaria de"Virados". Olumbali, foi língua por eles criada, para cuja formação contribuiram decisivamente o quimbundu e o umbundu, bem assim como, em menor escala, o português e algumas línguas do sudoeste de Angola.

Resumidamente, a designação quimbar passou a abranger africanos de várias proveniências, sem radicação étnica, nem língua única, povos quimbundos, sobretudo ambundos, povos umbundos, e outros que se expressavam em idiomas do sudoeste de Angola, e que deslocados do seu meio,  passaram a adoptar o modo de ser quimbar, e  inclusive, com o rodar dos tempos passaram a mandar os filhos à escola oficial.

Lingua oficial de Angola: o português
Idiomas existentes em Angola: umbundo, quimbundo, quicongo, fiote, tchocwe, n'ganguela e cuanhama.
Grupos étnicos: perto de 90%, são de origem banto, sendo o principal grupo étnico banto o dos ovimbundos que se concentra no centro-sul de Angola e se expressa tradicionalmente em umbundo, a língua nacional com maior número de falantes em Angola. Por seu lado os ambundos que falam quimbundo, a segunda língua nacional, residentes maioritariamente na zona centro-norte (eixo Luanda-Malange e no Cuanza-Sul). Quimbundo é uma língua com grande relevância, por ser a língua tradicional da capital e do antigo reino dos N'gola. Legou muitas palavras à língua portuguesa e importou desta, também, muitos vocábulos. No norte (Uíge e Zaire) concentram-se os bacongos de língua quicongo que tem diversos dialectos. Era a língua do antigo Reino do Congo. Os quiocos ocupam o leste, desde a Lunda Norte ao Moxico, e expressam-se tradicionalmente em chocué (ou tchokwe), língua que se tem vindo a sobrepor a outras da zona leste do país. Cuanhama, nhaneca e mbunda são outras línguas de origem bantu faladas em Angola. O sul de Angola é também habitado por bosquímanos, povos não bantus que falam línguas do grupo khoisan.



05 agosto 2007

O Carnaval em Moçâmedes nos 1950: bilibaus, tragateiros, torredotombenses, e outros mais ..

 "Bilibaus" e Tragateiros". Reconheço, da esq. para a dt., em cima: Leão da Encarnação, Mário Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e António Barbosa. Em baixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges João Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? , Renato Sousa, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio Peyroteu...

     Estas fotos captam momentos inesquecíveis dos «Tragateiros» envolvidos numa batalha de cacotes nos jardins da Avenida, junto do Quiosque do Faustino, do Cinema e da Alfândega de Moçâmedes.
 

     Batalha de "cocotes" nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, 
em frente ao Quiosque do Faustino visível na foto
 
O grupo «os Tragateiros» desfila na Avenida da Praia do Bonfim, empurrando (sobre rodas), uma enorme pipa de vinho. Nota-se perfeitamente nesta foto a antiga Farmácia do Pequito, à dt,  que ficava entre a Papelaria Regina e o antigo Banco de Angola. Ao fundo, pintado de branco, o prédio do Brian.

Moçâmedes era assim nos três longos e animados dias em que decorria o Carnaval, que, sob a forma de Entrudo, era festejado na Avenida da Praia do Bonfim, na década de 1950, deixando-a completamente irreconhecível, toda coberta de farinha ...

Eram dias, em que toda a gente da cidade e arredores vinha para a rua, assistir às "enfarinhadelas", às batalhas de "cocotes" entre grupos rivais, "bilibaus", "tragateiros" e "torredotombenses", efectuadas no terreno, corpo a corpo, ou a partir do cimo de carrocerias de "camionetas" de caixa aberta, que percorriam de ponta a ponta a Avenida, ou para assistirem aos corsos, que de quando em quando aconteciam nesta quadra festiva, e que era ali que também se realizavam. E chegada a quarta-feira de cinzas, lá estavam os varredores da Câmara a tentar dar um ar civilizado àquele local, que era afinal a sala de visitas da cidade.


 
Eis o grupo dos rebeldes "torredotombenses". No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.

 

Foliões reunidos no antigo campo de futebol, entre eles reconheço, em cima, e da esq. para a dt. Mário Luís Figueiredo, Artur Costa, ??? António Barbosa, ?? João Bernardineli. Embaixo: António Bernardino, Albertino Gomes, Renato Veli, ? Frederico Costa,?? Diogo,??

 
Reconheço Mário Luís Figueiredo e Albertino Gomes
 
Entrada em jeep no Campo de futebol
       Grupo de foliões, do início dos anos 1950, concentrando-se para a paródia e cumprindo «rituais de iniciação» no antigo campo de futebol. Da esq. para a dt: José Adriano Borges, ?,?, Caala, ???, Artur Paulo Carvalho (Turra), ??


  
Esta era a "juventude rebelde" daquele tempo, cujo comportamento se transformava radicalmente, quando, ao anoitecer, começavam as matinées dançantes, ora no salão do Atlético, ora no do Clube Nautico, sabendo ser romântica, qundo as circunstâncias convidavam a tal...

Depois do jantar, aos sábados, estes salões de festas do Atlético e do Casino animavam-se com bailes, no decurso dos quais eram eleitos o rei e a rainha do Carnaval, geralmente escolhidos entre os mais dados à folia... Era sem dúvida gratificante ser-se jovem em Moçâmedes na década de 1950!


Mas o Carnaval de Moçâmedes até aos anos 1950 apresentava também facetas mais populares, que num repente deixaram de acontecer. Reminiscências de outras épocas, costume trazido pelos colonos vindos de Olhão que se instalaram no bairro da Torre do Tombo, era geralmente depois do jantar que um grupo de parodiantes, que incluia por vezes membros de uma mesma família (homens, mulheres e crianças, sem distinção de idades), percorriam as ruas daquele bairro disfarçados com trajes improvisados de momento, que podiam ir de um simples lençol branco simulando fantasmas e um cajado na mão, até ao uso dos mais variados disfarces rudimentares (feitas de papelão, com buracos no lugar dos olhos, grandes narizes e bocas vermelhas, etc, etc...). E assim iam batendo às portas das casas de outras famílias, conhecidas e amigas, ou até mesmo desconhecidas, sendo o objectivo da brincadeira o desafio ao reconhecimento dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer, mudando para tal a tonalidade da voz, ou simulando um qualquer defeito físico, etc, etc. Nesse tempo não havia à venda as requintadas máscaras actuais, e a improvisação era a saída. Eram  paródias nocturnas que foram perdendo actualidade  conforme se avançava para finais da década de 1950.



Segue um poema de Neco Mangericão que sempre tem procurado eternizar em verso este tempo, que foi também o tempo da sua juventude:


PATALIM, PATALIM



Para a Nené Carracinha
e todos os Moçamedenses


O Norberto Gouveia, era um amigo especial
e, quem um dia o conheceu, não o esquecerá jamais.
Brindou-o a Natureza de dons e virtudes tais
que o elevaram e fizeram dele uma figura imortal.

Grande, muito grande em tudo que se meteu,
Honrou a camisola do Atlético, foi desportista,
brindou-nos com a graça e maestria de Artista.
Dos que o viram actuar na revista, quem se esqueceu

dele no papel de compère, junto do Mestre Campos
- que sozinho, com graça e arte podia o palco encher -,
a dar-lhe luta, e respostas brilhantes como pirilampos,
dançando, cantando e fazendo rir até mais não poder.

Foi Homem que, entre o sempre jovem povo Macongino,
como Arcebispo da Praia das Conchas, exerceu com graça
a função de benzedor – provador de barris de boa vinhaça
com prédicas e orações dignas d’um abençoado do destino.

Esta é tão só uma página das minhas Memórias
e, de entre o que me pesa meio século de ausência
da terra natal, é não poder hoje contar mais histórias
de quem que nos fazia rir sem usar da indecência.




João Manuel Mangericão (Neco)




Ficam mais estas recordações
MariaNJardim


Créditos de imagem: algumas destas preciosidades foram encontradas no baú de recordações da minha sogra, 30 anos depois... Outras foram retiradas dos livros de Paulo Salvador( 2ª e 3ª), e outras ainda, de Sanzalangola 

Grupo de foliões preparados da uma batalha de «cocotes» de farinha na Avenida da Praia do Bonfim: CARNAVAL 1955





Grupo de foliões representativos do bairro da Torre do Tombo preparados para a grande «batalha de cocotes» de farinha que iria ser travada contra outros grupos de foliões (Bilibaus e Tragateiros), a partir de camionetas enfeitadas para tal, ou em pleno chão, na Avenida da Praia do Bonfim.... A batalha de «cocotes» de farinha (farinha metida dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, amarrados com linha, em forma de pequenas bolas), que remonta à Idade Média, foi na década de 50 uma prática corrente nos festejos carnavalescos em Moçâmedes, tendo terminado abruptamente, tal como os festejos nas ruas a partir dos acontecimentos do 15 de Março de 1961, no norte de Angola, uma vez que a partir daí passaram a ser proíbidas todas as manifestações públicas, incluindo as danças indígenas de Carnaval, que, mascaradas, percorriam as ruas cantando, dançando e batucando. A partir dessa data tudo ficou mais triste para nós e os festejos passaram a decorrer apenas no interior dos salões dos clubes ou em casas particulares, através dos populares «assaltos de Carnaval». Entre este grupo de foliões, reconheço, da esq. para a dt. e de cima para baixo:
No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida.
De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, ?, Eduardo Faustino (gémeo) ?, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel.
De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?. Foto gentilmente cedida por A. Jardim

03 agosto 2007

Alunos da Escola Prática de Pesca e Comércio de: Moçâmedes (Mocidade Portuguesa): no Cabo Negro, anos 40











Foto, tirada junto do Padrão que foi substituir o original do Cabo Negro,  colocado no decurso da viagem de Diogo Cão 

Trata-se de um grupo de alunos e alunas da então Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, que se haviam deslocado ao Cabo Negro, no decurso de uma visitade estudo, no âmbito da Mocidade Portuguesa, como se pode ver pela farda que envergam os rapazes.

Entre os participantes, reconheço, de baixo para cima e da esq. para a dt.:

1ºfila: Amadeu Pereira, Carriço, ?, Beto de Sousa, Ferreira (Laranja), ?, Arménio Jardim? (o miúdo com a bola na mão à dt.) Mário Guedes
2ºfila: Mário Telmo Frota (Mariuca), Manuel Cruz, Mário Guedes, ?,?,?
3ª fila: ?,?,?,?,?, Jesus, Carlitos Alves (Cabinda), ?,
4ª fila ?,?, Àlvaro Fonseca, Guilherme Jardim, seguem-se senhoras, das quais só reconheço Manuela Bajouca a 3ª em cima e à dt. do padrão, e Leonor Bajouca, de branco, a penúltima senhora à dt., ?,?.

 
Sem atribuir qualquer significado político a esta foto (pois todos os jovens estudantes, na altura, eram obrigados a pertencer à Mocidade Portuguesa) , fica aqui mais uma imagem do passado, um passado não muito distante, pois ainda me lembro de ver jovens estudantes da Mocidade Portuguesa  desfilarem fardados pelas ruas da cidade por ocasiao de alguma visita  de entidades oficiais, nas comemoracoes do 28 de Maio, 1 de Dezembro e a chegada da imagem de Nossa Senhora de Fatima a Mocamedes,  no decurso de uma peregrinacao por terras de Africa.  Quer queiramos ou não, são factos que fazem parte da  nossa História e da Hsitória da nossa cidade, e , como tal,  têm que ser vistas e apreciadas em contexto.



Foto encontrada no espólio de minha sogra, após 30 anos passados sobre a data da independência de Angola .

Para saber mais sobre o Padrão do Cabo Negro recomendo este site: http://www.angola-saiago.net/cabon.html
......................

Do site de Aida Saiago, tomei a liberdade de transcrever aqui este texto:

O Cabo Negro


Um facto inegável que me tem ajudado a enriquecer este trabalho é a contribuição que recebo da família, de amigos, de e-amigos...

São os moçamedenses que mais têm colaborado. Reconhecidamente orgulhosos da sua terra, jamais perdem a oportunidade de dá-la a conhecer.... e está correcto! É quase uma obrigação de quem provém de uma cidade que tem por seus eternos companheiros, de um lado o mais antigo deserto do mundo, o Deserto do Namibe, do outro o mar, o Atlântico Sul...





“Um canto da nossa terra tão desconhecido e com tanta História.”



A frase faz parte do relato que me foi feito por Manuel João de Pimentel Teixeira sobre a sua ida ao Cabo Negro, no Sul de Angola, Província do Namibe, no passado mês de Julho deste ano (2003). O que me contou assim como as fotografias que me enviou do local sensibilizaram-me: foi-me dado conhecer, ainda que virtualmente, um local que é História. Chocou-me ver a destruição a que o símbolo que o Homem lá instalou há mais de 5 séculos tinha mais uma vez sido objecto. O símbolo que não diz respeito somente a Angola e a Portugal. Porque faz parte de feitos que mudaram o mundo. É, portanto, um símbolo que ultrapassa fronteiras, atravessa o Tempo.


Em Angola, a terra que nos viu nascer, passados que estão os tempos de ânimos exacerbados, de lutas fratricidas, deve também ter-se em conta que nem tudo o foi feito estava errado, nem tudo o que se faz é correcto. Assim foi e será sempre porque o Homem não é perfeito. Mas Deus concedeu-lhe a capacidade de discernir, de se sensibilizar. Se quiser, saberá que, se se aproveitar o que foi/é bom, deixando que a História faça o seu julgamento, o povo será o grande beneficiado, a nação será engrandecida.


E porque assim sinto e vejo “as coisas”, querendo partilhar as imagens e a mensagem do Cabo Negro, pedi e obtive a anuência do autor para aqui reproduzir o que me descreveu.


Importa, também, que recordemos o que a História nos relata sobre este local. As páginas finais desta crónica disso darão conta. Basear-me-ei na obra “O Distrito de Moçâmedes”, da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950). São dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe.


Deve, todavia, ter-se em conta que esse escrito reflecte o pensamento da época, o sentimento de nação, de patriotismo, de posse de terra. Como já uma vez escrevi, as ideias e os ideais alteraram-se, a História re-escreveu-se. Não pode, todavia, modificar-se o que foi escrito e que, independentemente dos ideais de cada um, transmite ensinamentos preciosos.


Os dois relatos, infelizmente, não se completam, mas é preciso que se tome conhecimento de ambos. Na esperança de que se acordem consciências. Para que este símbolo possa um dia ser reconstruído.


Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!


Visita ao Cabo Negro - 27 de Julho de 2003


Estava muito cacimbo, a estrada de asfalto molhada e escorregadia. Uma viagem agradável e serena. O ar limpo e húmido. Pouco vento. Nas praias que cercam o cabo e nas suas proximidades, tudo vazio, sem vivalma.

Subimos ao Cabo Negro. É uma marca inconfundível. Visto de longe, a Norte, percorrendo a estrada batida de terra, depois de deixar o asfalto, na direcção do mar, assemelha-se a um barco de pedra, enorme, pronto a entrar no oceano, a meio de praias rasas, solitário.

O carro avança com calma, até um ponto a quase 3/4 da altura das rochas, pela areia. Chegámos. Dirigimo-nos pelo topo, a pé, na direcção do local do Padrão, bem acima do mar, no pequeno "plateau", ponto mais elevado, mas sem grandes socalcos.

Ao longe, mais a norte, a Rocha Magalhães, com as salinas que foram as mais produtivas de Angola. 

A placa de mármore cravada na rocha de formas estranhas, que se vê nas fotos, tem cerca de 50 cm altura por 60 cm de largura, e um corte em forma de ranhura funda como moldura, a dois centímetros das margens e podia ler-se ainda, mas com dificuldade, mas sempre do lado direito no fim da primeira linha,
                  em cima .................. oyses Pinho
                  no meio, ......................... Sagres.
          depois,


          mais afastada destas linhas, lia-se por baixo, ............ nove
As letras entalhadas, muito esbatidas já. A data mencionada talvez fosse de - ou por volta de - 1939, 1949 ou mesmo 1959. Será necessário confirmá-la, possivelmente em relatos escritos sobre alguma comemoração no local.

Qualquer coisa me diz ser possivelmente uma data dessas, não sei por que causa histórica, mas parece-me já ter lido algo sobre isso há muito tempo.....em criança talvez, até relativamente á Mocidade Portuguesa, á história de Gago Coutinho, ou de qualquer coisa assim. Creio até que foi Setembro, o mês do meu aniversário. Seria Dom Moises Alves de Pinho????? Cardeal, Arcebispo, creio eu!!!!!!

Para lá ir, pode chegar-se com o automóvel (4X4, obviamente), tirando-se algum ar das câmaras de ar dos pneus, de todos igualmente, para melhor se conduzir na areia, como se faz no deserto, e indo pelo Sul para a parte mais alta, em declive macio. Depois caminha-se bem a pé, sem qualquer problema, cerca de 50 metros.

Vasculho com os olhos toda a área... Vou-me aproximando e, como num filme, em zoom, tristemente confirmo o que jamais imaginei: encontro-me perante o que restou do Padrão de Diogo Cão. A sua história, todos a conhecemos, devidamente fundamentada e largamente difundida, para quem se interessa pela História da Humanidade.

O toco, deixado por vândalos da inconsciência e das paixões políticas levadas ao extremo, nada mais é que a sua base com cerca de 40 cm de lado por cerca de 25 cm de altura até ao chão, aonde se eleva, quebrado de Poente para Nascente, num ângulo de 50 graus, com 60 cm no ponto mais alto do corte. O tronco do Cruzeiro tem cerca de 24 cm de diâmetro.

Possivelmente foi construído com algum tipo de calcário granulado, como aliás se vê no Cabo Negro, e está muito desgastado pela acção do tempo.

Quando me propus visitar o Cabo Negro, que não conhecia, perguntei a muita gente, dali mesmo e de Porto Alexandre, se sabiam aonde era a cabeça do Diogo Cam, e ninguém soube informar-me. Foi a minha teimosia e a certeza de que o que o meu Avô escrevia era absolutamente EXACTO, que me fez e ao motorista Fernando, de Benguela, escalar pedras e a falésia, perigosa, e depois, por fim, decidir-me a ir por baixo, pela praia, até um ponto mais dentro do mar... mas não muito, quando há baixa-mar (não era baixa-mar na altura). Teimosamente, dizia a mim próprio: “Se o meu Avô disse e fotografou como sendo aqui, TEM QUE SER AQUI!” (Há os que, dizendo-se conhecedores da região, se referem à “Ponta Negra” como se fosse um outro local, muitíssimo mais ao Norte, e a Norte de Mossâmedes!)

Para se ver o "busto de Diogo Cam" ou a "cabeça de Diogo Cão", deve sair-se sempre duas horas antes da baixa-mar, a partir de Porto Alexandre - ou Tombua, como erradamente se lhe designa hoje aquela angra tão bela (o nome usado pelos habitantes do Deserto para designar a welwitschia mirabilis é tumbo) - pelo Sul e pela praia junto do Cabo, até aonde o carro puder ir, o que se faz sem problema, mas tomando-se sempre as devidas e acima mencionadas precauções, até uma distância de cerca de cem metros da ponta do cabo.

É claro que é necessário saber-se dirigir em areia, fugindo sempre das curvas muito apertadas - quanto mais largas melhor, pois numa curva fechada os pneus sem pressão poderão sair das jantes - e nunca forçando movimento algum, nem acelerando demais.

Instala-se o carro em ponto relativamente mais alto que as marcas da maré-alta anterior deixadas na praia, e desloca-se a pé, sem problemas, e como que em reflexão meditativa, até á base do Cabo Negro junto ao mar, pela praia molhada, na direcção Sul-Norte.

A chegada ás rochas da base é feita sem o mínimo perigo, até para crianças, - com cuidado para não escorregar ao subir ás rochas baixas - e tem-se a admirável visão que tantos outros antes de nós tiveram, maravilhados. O meu Avô, há 100 anos, inclusive, aquele apaixonado pelas terras que adoptou como suas, sem jamais haver regressado "à Metrópole" após ter vindo para Angola, concluído que teve o seu Curso em Coimbra e no Porto, e com toda a certeza, deleitado e sentindo-se sublimado também, como Diogo Cam ter-se-á sentido há 518 anos.
 E alguns poucos mais antes de mim, há menos tempo, mais recentemente, se é que tal viram. Era perigosa a descida, diziam. Mas há caminhos mais simples e menos abruptos. É preciso sabê-los. E saber ir em Paz.

Uma rocha única, uma obra natural, desconhecida como "arte" por África e pelo Mundo. Um ornamento natural para a História de Angola. Um monumento eterno.

É realmente um espectáculo, observar-se tanta simplicidade e tanta nobreza, trabalho imponente criado pela Mãe Natureza, esculpindo com o mar, com o vento e com as areias, nas marés calmas ou no mar irado, um símbolo tão belo, como que elevando o Homem acima do Mar e do Tempo.


Escrito aos 23 de Agosto de 2003, em Luanda



O Padrão Original (1485) e o de 1892





Reportagem Fotográfica da Visita ao Cabo Negro

Julho de 2003


Paisagem do Cabo Negro





Registos da Destruição do Padrão de 1892






O Busto de Diogo Cão









O que a História nos relata acerca do Cabo Negro

in “O Distrito de Moçâmedes”, de autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres.



No volume “Das Fases da Origem e da Primeira Organização, 1485-1859”, na sua introdução, intitulada “Abrindo...”, o autor escreve:

Início de citação

Primeira Parte – A História

“Estuda-se, na obra que vai ler-se, o movimento evolutivo do distrito de Moçâmedes na fase da sua origem e na da sua primeira organização.



( ...)

No período da descoberta, que tivera o seu começo em 1482, com a primeira viagem de Diogo Cão, um facto memorável há apenas a consignar na História do Distrito: - a continuação do reconhecimento da costa africana, encetado naquele ano, e a consequente colocação, em 1485, do padrão do Cabo Negro, sinal expressivo da descoberta e posse do território convizinho.

( ...)

D. João II, desde que subira ao trono, mostrara ardente e decidido empenho em levar a cabo dois grandiosos projectos, cuja realização, glorificando o seu reinado, alongaria extraordinariamente os nossos domínios de além-mar: a continuação das descobertas inauguradas sob os auspícios do Infante e o prosseguimento das conquistas empreendidas por D. Afonso V.

Em África, já a bandeira portuguesa tremulava, orgulhosa, nas fortalezas de Ceuta, Alcácer, Arzila e Tânger; Azamor rendia-se; e Diogo de Azambuja, acabava de fundar o Castelo de S. Jorge da Mina. As descobertas dos Portugueses, porém, só tinham chegado até ao Cabo de Santa Catarina, a 1º 52’ de latitude austral, visitada, em 1471, pelo navegador Rui de Sequeira.

Diogo Cão, a Sua Primeira Viagem e o Padrão de S. Jorge


Logo em 1482, um ano depois de ter assumido o governo, D. João II mandou Diogo Cão, seu escudeiro, prosseguir a descoberta para o Sul. Neste propósito, Diogo Cão partiu de Lisboa com duas caravelas, no fim daquele ano, acompanhando-o o notável cosmógrafo Martim Beheim, introdutor do uso do astrolábio na navegação e autor do afamado Globo de Nuremberg.

Diogo Cão descobriu a foz do Zaire, nesse mesmo ano ou no seguinte, e colocou, no extremo da margem esquerda, um padrão para solenizar a descoberta e atestar aos vindouros a posse, que tomava, em nome do Rei de Portugal, das terras contíguas. Este padrão, que denominou de S. Jorge pela particular devoção do rei ao santo do seu nome, foi o primeiro que os Portugueses levantaram como baliza de descoberta e senhoria dos territórios ultramarinos.


Os Primitivos Sinais de Descoberta

Os antigos mareantes erguiam cruzes de madeira nos lugares que descobriram, e entalhavam nos troncos das árvores a divisa do Infante Talent de bien faire. Estes sinais, porém, além de frágeis, não simbolizavam caracterìsticamente um direito nacional. E o padrão de S. Jorge, construído de pedra e comportando inscrições, era já um monumento duradouro e expressivo.

A Segunda Viagem de Diogo Cão e o Padrão de Santo Agostinho

Diogo Cão prosseguiu ainda a derrota ao longo da costa e erigiu, como sinal de descoberta e de posse das terras adjacentes, segundo padrão, o de Santo Agostinho, no Cabo de Santa Maria, a 14º 27' 15". Regressou em seguida a Lisboa, após dezanove meses de viagem, sendo-lhe então conferido o título de cavaleiro e concedida a tença anual de dez mil reais brancos.

Terceira Viagem de Diogo Cão e o Padrão de Cabo Negro

D. João II, animado do vivo desejo de que os portugueses alcançassem o termo da costa africana, ordenou a Diogo Cão uma nova viagem. Com este desígnio, o navegador voltou, em Abril de 1484, a singrar o Atlântico, e, tendo ultrapassado o limite atingido na primeira, colocou, em princípios de 1485, no Cabo Negro, a 15º 40' 30" de latitude Sul, já portanto na costa do Distrito, um terceiro padrão: - o chamado Padrão do Cabo Negro, outro sinal a evidenciar, perante o Direito, a descoberta e a posse, em benefício da Nação, das terras circunvizinhas.

O Padrão do Cabo Cross

Diogo Cão ainda colocou, na Costa Ocidental de África, um quarto padrão, este no Cabo da Serra, também conhecido por Serra Parda e Cross Point, a 21º 48' de latitude Sul, em território administrado pela União Sul-Africana.

Substituição dos Padrões

Os padrões, carcomidos pela acção do tempo e mutilados por criminosos vandalismos, corriam iminente risco de desaparecer. Urgia, pois, evitar a completa destruição desses modestos mas irrecusáveis testemunhos dos nossos direitos sobre territórios, cuja existência fomos os primeiros a revelar ao Velho Mundo. E assim o compreendeu o governador geral Guilherme Augusto de Brito Capelo, que, em 1891, ordenou fossem substituídos e recolhidos ao Museu Colonial, criado vinte anos antes e mandado entregar, em 1892, à Sociedade de Geografia, pelo ministro Francisco Joaquim Ferreira do Amaral.

Substituição do Padrão do Cabo Negro

Em cumprimento da ordem emitida, procedeu-se, a 29 de Janeiro do referido ano de 1892, com as formalidades de uso em tais actos, à deslocação do Padrão de Cabo Negro e ao consecutivo alçamento, no mesmo lugar, dum outro, que ficou a substituir o primitivo. À cerimónia assistiram o então governador do Distrito, Luís Bernardino Leitão Xavier, autoridades locais e representantes das colónias piscatórias de Porto Alexandre e da Baía dos Tigres.

a) Descrição do antigo padrão

O antigo padrão consta duma coluna cilíndrica de mármore, sem pedestal, com cerca de dois metros e meio de alto e oito decímetros de circunferência, e dum paralelepípedo com quarenta e seis centímetros de altura, em que termina superiormente. A coluna encontra-se partida a pouca distância do paralelepípedo. Tem este duas faces mais largas: - numa estava gravado, sem a menor dúvida, o brasão nacional, pois ainda se distingue um traço da coroa; a outra, em que devia ler-se a inscrição, apresenta uma pedra lascada em toda a altura, a ponto de deixar a descoberto o embutido da cruz, que não existe, mas que teria sido presumìvelmente de ferro.

As outras duas faces parece não terem contido inscrições.

O padrão que acabámos de descrever deu entrada, nesse mesmo ano de 1892, na Sociedade de Geografia, em cujo átrio se encontra metido, com os dois fragmentos ajustados, numa forte tripeça de ferro bronzeado, que o mantém em posição vertical.

b) Descrição do novo padrão

O padrão de 1892 é constituído por um paralelepípedo, que lhe serve de pedestal, de cujo centro parte uma coluna cilíndrica, encimada por outro paralelepípedo, elevando-se deste uma cruz de bronze. Uma chapa do mesmo metal, contendo em relevo as armas portuguesas, cobre a face Oeste do paralelepípedo superior, encontrando-se gravada na face oposta uma inscrição já muito obliterada, a qual, com os dizeres que copiámos in loco e outros elementos de que dispusemos, reconstituímos do seguinte modo: - O navegador português Diogo Cão erigiu neste sítio no ano de 1485, reinando D. João II de Portugal, o padrão de Cabo Negro, em memória do descobrimento e senhorio desta costa. Os restos do primitivo padrão foram recolhidos no Museu Colonial de Lisboa no ano de 1891 em que se colocou este novo padrão. Num dos braços da cruz lê-se: D. João II; no outro, está indicada a data do acontecimento: 1485
(1) .

O Padrão do Cabo Negro, postado durante quatro séculos, em terra do Distrito, olhando dominador a vastidão do Oceano, que a imaginação popular enchera de lendas aterradoras e cujo predomínio íamos conquistando em arrancadas titânicas, evoca a quem o contempla, a rígida altivez do seu nobre aprumo, o esforço sem par do Portugal heróico e denodado de antigas eras.


(1)
Diogo Cão, separata do Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 11ª série, nº 2, 1892.
Oliveira Martins, O Brasil e as colónias portuguesas; Pinheiro Chagas, História de Portugal.


Para mais informações sobre as viagens de Diogo Cão, recomendo uma visita a este site: http://www.dightonrock.com/asviagensglorisosasdofamosonaveg.htm

Baía, estaleiros e banhistas : «Praia do Cano» e na Praia das Miragens ( anos 50)




























Vista da baía, tendo por fundo da falésia da Torre do Tombo. A 1ª foto mostra-nos como era esta zona antes da construção da avenida marginal e do cais-acostável. Ainda podemos ver oa estaleiros de construção e reparação de barcos de pesca, dirigidos nesta altura (primeira metade da década de 50 do século passado), por duas figuras conhecidas da cidade, Gilberto Abano e Urbano Canelas. Podemos ver também parte da praia que ficava junto aos estaleiros, conhecida como a «Praia do Cano», frequentada por crianças e jovens moradores das zonas mais próximas, como se pode ver através das 2ª e 3ª fotos.

2ª foto: Nesta foto, da esq. para a dt., reconheço entre outra/os: Clotilde Libório, Olimpia Aquino, Maria Emília Ramos e Raquel Martins Nunes.

3ª foto: ?, Nélita, Rui, ?, Eduarda Vicente, Guilherme Jardim, Lucília Matos e Helena Felix (Paulo).

4ª foto: Jovens posam para a objectiva na Praia das Miragens, tendo como fundo a baía e a falésia. Reconheço em cima e da esq. para a dt.:
Em cima: (?), Piedade, Dito Abano, (?) Guilherme Jardim e Dito Abano e no chão, à frente/esq., Amável Pinto.
A meio: (?), (?), Guilherme Jardim, (?),(?),(?),(?)
Deitados: reconheço apenas Amável Pinto (de calções brancos, à esq.).

Gente de Moçâmedes: irmãs Viveiros na década de 50