05 novembro 2007

Praia das Miragens de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), até aos anos anos 1975




 
A ponte nasceu mesmo ali em plena Praia, aquela que viria a chamar-se "Praia das Miragens"... Desde logo o local foi transformado em "mirante" dos eventos acontecidos na baía: regatas, provas de natação, etc.
 

Desde a fundação de Moçâmedes em 1849 a sua praia foi sempre motivo de orgulho dos habitantes e com o rodar do tempo tornou-se o ponto de encontro de grande sociabilidade,  local insubstituível, sobretudo para as camadas mais jovens. Esta foto que pressupomos tirada no início do século XX, mostra-nos a ponte da Praia das Miragens cheia de gente a assistir a uma prova de natação. E não só a ponte, onde até colocaram um toldo protector, como também a praia, onde se podem ver espectadores em ambos os lados.  Estes postais foram publicados na Net através do blogue que vem registado no canto  inferior esq. das mesma, e  foram trazidas de Moçâmedes por um militar que participou nas Campanhas do Sul de Angola, destinadas à demarcação de fronteiras, em 1914.

Nesta foto vê-se a Praia e a ponte, no início do século XX
, quando já existiam a Estação do Caminho de Ferro e os edifícios do Cabo Submarino, Colégio das Madres (Primitivo) , Piquete Guarda Fiscal e Observatório Metereológico   .

Tenho imensa pena de  não possuir uma dessas fotos antigas em que as senhoras tomavam banho vestidas, não só porque os fatos de banho não eram peças de fácil aquisição, como era assim mandavam  as regras...    
             


O tempo foi passando...

A Praia, as Arcadas,  o Casino, as Casuarinas, os DKW,  os SAAB e os Volvo Marrecos, conjugados com as NSU de duas velocidades, completam o cenário idílico da nossa meninice...
Era assim que a Praia das Miragens ficava as domingos, em finais dos anos 1950...  Não sei quem teve a ideia das arcadas, sei que foi uma ideia luminosa... Arcadas e barracas evitavam a exposição demorada ao sol , serviam para relaxar, eram decorativas...

Interessante olhar os modelos carros de cada época. Estava-se já nos anos 1960.
 
O tabuleiro da ponte de embarque e desembarque de Moçâmedes mesmo em cima da Praia das Miragens,  funcionava como autêntico ponto estratégico para curiosos, que, sem irem a banhos gostavam de ficar ali a conversar, e a porem-se ao corrente do quanto naquele local se passava...
 A Praia das Miragens era sem dúvida um ponto de encontro de grande sociabilidade.

 A praia, as arcadas e o Casino vistos do mar
 Vista aérea da cidade de Moçâmedes, com especial enfoque sobre a zona da Praia das Miragens e áreas adjacentes. Década de 1960. Por esta altura um edifício de grande porte (3º andar), propriedade de José Alves, foi inaugurado no local onde até ali. no gaveto da Rua da Praia do Bonfim para a Praça Leal, estava o edifício térreo do Aero Clube. Moçâmedes teve sempre desde as primeiras décadas da colonização, alguns edifícios de 1º andar, mas quando este surgiu houve quem se insurgisse contra o projecto considerado inadequado, perturbador carácter do "centro histórico".


Mas voltemos à Praia das Miragens. Não são todas as cidades que tem o privilégio de ter uma bela praia de areia grossa e branca, mesmo ali bem juntinho ao "centro histórico", bastando atravessar a  Avenida, para lá se chegar... Um praia citadina frequentada por gente de todas as idades que morava  mesmo ali perto, como se estivesse numa estância balnear, frequentada  por jovens ladinas, bonitas, espalhadas por  toda a extensão, a contaminar o ambiente com o ar da sua graça...  E como era agradável o trajecto  para aqueles que viviam na zona alta da cidade, e desciam a florida Avenida  da República, assim  chamada a partir da queda da monarquia em 1910 (até aí era denominada Avenida D. Luiz) .


Na vedeta da frente as irmãs Ferreirim. Na de trás Bento, esposa e filho






 A jangada da Praia das Miragens, em foto cedida por Vitor Torres
 A jangada para onde se atrevia apenas quem sabia nadar, está aqui bem visivel. E até parece  bem pertinho a beira mar...

A jangada anos mais tarde, na década de 1960, teve melhoramentos... À dt as costas do palco da praia


E quem poderá, ao lembrar a Praia das Miragens, esquecer esta jangada, esta velha jangada que fazia as delícias da rapaziada, que nadando até ela, se exibia mergulhando do cimo de duas pranchas, com altura cerca de 2 mts ao nível da água, em saltos acrobáticos de anjo, carpas e saltos mortais?  Em finais dos anos 1940, início de 1950, Romualdo Parreira era o campeão desses saltos acrobáticos, aquele que merecia maior atenção.

E quantos casais de namorados adolescentes, ao redor dela se encontravam, longe dos olhares adultos, e trocaram as primeiras carícias acobertados por toda uma estrutura feita com barrotes fixos e tambores vazios?

Mas a jangada da Praia das Miragens também se prestava a algumas partidas. Constituida por um estrado de madeira de cerca de 3x3metros, assente numa estrutura feita com barrotes fixos a tambores vazios  com capacidade para cerca de 200ltde combustível que serviam de flutuadores, ficava "fundeada" (com 4 cabos presos a blocos e betão assente no fundo do mar), e para que os nadadores pudessem descansar, e facilitar as idas e voltas, da praia para a jangada, e vice-versa, havia duas cordas com pequenas boias côr de laranja "tipo donuts" ligadas a cada um dos dois cantos à praia. Muitas das vezes acontecia que a rapaziada sempre a inventar travessuras, puxava os pés das raparigas enquanto mergulhavam fundo e vinha à superfície, outras vezes afundavam as cordas quando uma rapariga ia a passar.

Até meados da década de 1950, não havia cais comercial em Moçâmedes, a actual Namibe, nem havia marginal, e quando os navios chegavam ficavam fundeados ao largo, na baía. Era em batelões como estes que aqui vemos junto da ponte e  espalhados pela baía, que a carga era carregada e  descarregada. Muitas vezes a garotada nadava até aos batelões que se transformavam também  eles em pontos referencia para os ditos mergulhos.

Possuo comigo um pedaço rasgado de jornal, cujo nome do autor não figura, e que foi escrito  antes da construção do cais acostável e da avenida marginal, nos seguintes termos: "Moçâmedes é senhora da melhor praia de banhos de Angola, absolutamente isenta dos indesejáveis tubarões, uma praia bastante movimentada durante a época balnear, que se prolonga de Novembro a Abril, temporada fértil  mais animada em diversões do que muitas de Portugal. Moçâmedes e Porto Alexandre têm um mar calmo e condições de tanta segurança que tem servido para amaragem de hidroaviões. Assegura, portanto,  as condições ideais para a aprendizagem da natação, na vasta extensão da praias de areia prateada, a iniciar pela "Praia das Miragens", passando pelas do "Cano", pelas que ficam perto "Furnas" e do "Morgado"e por ai fora quase à Ponta do Pau do Sul,  num total de mais de três quilómetros até à enseada do Saco. Por isso não era surpresa para os visitantes turistas que as crianças de sete anos de idade já soubessem nadar, mergulhando das várias pontes (oito) e até da parte superior do guindaste existente na ponte de cais da alfândega, usualmente utilizado no embarque e desembarque de cargas. Ali se fabricavam promissores nadadores! Ainda se pretendeu construir uma piscina em Moçâmedes, mas os ténues recursos financeiros dos clubes da terra, e mesmo da Câmara Municipal, aliados à realidade de então de inferior rentabilidade resultante da utilização da eventual piscina, cuja construção implicaria um custo elevado incompatível, não incentivara nunca a realização desse desiderato. Além disso a "Praia das Miragens", pela amplitude da sua natural plateia, melhor acolheria um publico representado por mulheres, espectadoras entusiásticas e emotivas. As prioridades recairam noutros investimentos, quer da parte da autarquia quer da direcção dos clubes. E assim se foi protelando, ano após ano, a construção de uma piscina olimpica onde se pudesse praticar provas visando melhorar os índices já conseguidos. Independentemente disso, os clubes locais não possuiam nas suas secções de natação técnicos preparados à altura para que pudessem ministrar ensinamentos apropriados, visando tirar o máximo de proveito da modalidade, configurado no aumento da capacidade respiratória, na flexibilidade da coluna e no fortalecimento do sistema nervoso. Cada um nadava a seu bel-prazer, sem disciplina nem método, apenas preocupados em atingir os percursos no mínimo tempo possível. Era casa de ferreiro, espeto de pau! O mar estava à porta de casa desses nadadores incansáveis e era indiscutível a sua habilidade e aptência. Isto bastaria, presumiam. Todavia eram atingidas boas marcas considerando que as provas eram realizadas em "mar aberto" sem a protecção e os cuidados adequados que uma piscina e um bom técnico poderiam proporcionar.  A "Natação" como desporto olímpico mundial, estava em evidência desde o ano 1896, tendo evoluido bastante no numero de modalidades e estilos até 1908, ano em que foram construídas as primeiras piscinas as provas vinham sendo realizadas em mar aberto ou mesmo em rios como aconteceu no Sena, em 1900.


 

Embora frequentada em anos mais atrás, poucas eram as fotos que iam sendo tiradas, que hoje nos deliciariam. Refiro-me a esses tempos em que as senhoras casadas se banhavam vestidas, as solteiras com fatos de banho à moda das épocas passadas ... E eles também,


 Esta foto é de finais dos anos 1940, início de 1950. Nela reconheço Mário Guedes da Silva e Mário Lisboa Frota (Mariúca)

Ainda na mesma altura, em finais da década de 1940, inícios da década de 1950. Da esq para a dt, junto da Guiga do Ginásio: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Braz, Ferreira, João Viegas Ilha, Velhinho, ?, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e Zeca Ilha As senhitas são Olimpia Aquino, Marizete Veiga e Violete Velhinho

Eles pertenciam à equipa de remo e vela do Ginásio Clube da Torre do Tombo. Em cima: António Martins Nunes (Cowboy) e Mário Lisboa Frota (Mariuca). Embaixo:  Mário Guedes, Artur Ferreira (Penha) e ?

A Guiga do Ginásio Clube da Torre do Tombo, com desportistas da modalidade remo, e algumas senhoras do mesmo bairro. Ao fundo a ponte e a Fortaleza.



Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Francelina Gomes, Helena Gomes, Marizette Veiga, Nélinha Costa Santos e Olímpia Aquino. Excepro a Nélinha, eram todas da Torre do Tombo.


Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Olimpia Aquino, Marizette Veiga Violete Velhinho e ?. Embaixo?


Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Rita Seixal, Marizette Veiga, olimpia Aquino e Nélinha Costa Santos. Embaixo. as irmãs Helena e Francelina Gomes

Na praia das Miragens, grupo de senhorinhas de Moçâmedes: Rita Seixal,  Francelina Gomes,  Nélinha Costa Santos e  Helena Gomes. Embaixo:  Marizette Veiga. Não reconheço os elementos do sexo masculino 

Na Praia das Miragens, década de 1950: Em cima,  Angelino Jardim?, Quinha Almeida, Aires Domingos. José Rosa e Arménio Jardim. Embaixo: Claudino Alhinho?


Na Praia das Miragens, anos 1950: Álvaro Jardim (Chamenga), Angelino Jardim, Arménio Jardim. ?. e Carlos Jardim.
Na Praia das Miragens, anos 1950. Os irmãos Angelino e Laurentino Jardim
Na Praia das Miragens, anos 1950



Foto: Da esq. para a dt, sentados: atrás, Armando (Garajau), à frente os primos Arménio, Angelino, Carlos, Guilherme, Laurentino e Álvaro Jardim (Chamenga). Repare-se como eram os toldos característicos desta época, tão diferentes dos actuais.Todas estas fotos foram tiradas em manhãs domingueiras de Verão, na Praia das Miragens de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, entre meados e finais da década de 1950.
 
 Praia das Miragens de Moçâmedes, em 1956. Num "furo" das aulas na Escola Comercial de Moçâmedes,  elementos da turma finalista (5º ano). Em cima: Lurdes Faustino. Graça Nunes Sousa e Rosalina Nunes. Embaixo: Lurdes Tavares, Ricardina Lisboa e Nídia Almeida.



Na Praia das Miragens, em 1961. Desta foto apenas reconheço Guilherme Jardim, ao centro com uma criança (Marília, a filha?)


Nesta altura em Angola trabalhava-se como já referido atrás, aos sábados de manhã, e não havia o hábito de se frequentar a praia na parte da tarde, nem aos dias de semana, excepto por jovens mais disponíveis. A grande avalanche acontecia ao domingo da parte da manhã. Também as férias grandes escolares, para que coincidissem com as da Metrópole, eram gozadas de Junho a Setembro, portanto em pleno Inverno, em prejuízo das crianças e jovens de Angola e das restantes colónias África.


 
Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950: Carlos Moutinho , Chefe de produção do RCM e Rui Bauleth, radialista.

Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960: João Inácio, ? e António José Minas. Embaixo reconheço um jovem pintor Belga

Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960, zona das casuarinas: António José Minas, Arménio Minas, Martins, Cecilio Moreira (professor) e João Inácio. Embaixo: ???
 
Farelos e Snypes
Na Praia das Miragens, nos anos 1960: Apenas reconheço em cima, à esq. Fernando Leonel Pita de Sousa.

O tempo foi passando e eis-nos chegados ao final da década de 1960, início de 1970...


Grupo de jovens na Praia das Miragens
Grupo de jovens na Praia das Miragens, vendo-se ao fundo o Casino e as Arcadas
Na Praia das Miragens, em finais dos anos 1950, princípios dos anos 1960, vendo-se ao fundo o Casino, as Arcadas e as barracas da época
 
 Na Praia das Miragens
 
 Na Praia das Miragens


Na Praia das Miragens, zona do Chiloango, da esq. para a dt, em cima: Lavadinho, Edgar Aboim, Armando Guedes Duarte, Carlos Jardim e Arménio Jardim. Crianças???


O comboio-bébé passando junto à Praia das Miragens por ocasião das Festas do mar, nos anos pós 1961...




 


Mas à Praia das Miragens não iam apenas banhistas, mas também, por ex., senhoras de mais idade, que ficavam sentadas, debaixo de toldos familiares, umas a fazer crochet, enquanto punham a conversa em dia, outras cuidando dos netos, outras ainda, poucas, como não podia faltar, dedicando-se à «coscuvilhice» e ao exercício da «má língua», prática comum em meios pequenos a que o nosso pequeno burgo não escapava.

Praia das Miragens. Foto cedida por Tomás Gavino Coelho


 
Praia das Miragens. Foto cedida por Aurélio Baptista. Esta interessante foto mostra-nos a baia no seu esplendor, os snypes, a Jangada...
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Praia das Miragens. Foto cedida por Marizette Veiga

 
 Praia das Miragens. Foto cedida por Marizette Veiga


Recuando mais atrás no tempo, dou comigo a pensar como era agradável nos meus tempos de menina ir com a família no Verão, depois do jantar, até à Praia das Miragens. Os adultos ficavam sentados ou deitados na areia fresca da praia, em cima de toalhas, a conversar. Uma areia grossa e limpa, que facilmente descolava do corpo. As crianças não paravam quietas, corriam, jogavam à bola, ao ringue, faziam construções na areia, molhavam as pernas até ao joelho, escondiam-se no interior das barracas brincando às escondidas, etc. etc. As noites de luar na praia eram fabulosas, com  revérberos da luz da lua a bater na superfície do mar, o que permitia que apesar da noite todos nos víssemos imd aos outros.  E nas noites escuras, antes da electrificação da cidade, o espectáculo de milhões de estrelas no céu era igualmente digno de ser apreciado. Nunca mais vi céus estrelados como nesse tempo!

O pior que podia acontecer aos banhistas nesta praia, era quando, devido a correntes maritimas apareciam com abundância as chamadas "alforrecas", entre nós "santa-calunga", umas do tipo "Medusa" (Cogumelos) grandes brancos, transparentes, outras mais pequenas mas que ferravam bem.

 Praia das Miragens.As manas Azevedo e Laurentino Jardim. Anos 1960


Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as famílias de toninhas ou golfinhos negros brincalhões (1ª e 2ª fotos), que de longe em longe, vindos do glacial antártico, visitavam a baía de Moçâmedes aproximando-se dos banhistas (na zona entre a jangada e a Praia das Miragens), exercitando desse modo seu costume de salvar náufragos, porque para elas, qualquer ser humano nadando junto à praia é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária.Essas negras e volumosas toninhas ou golfinhos que, de salto em salto, vinham avançando até aos banhistas causavam neles momentos de pavôr, delírio e admiração.Ignoram-se também as focas e que costumavam surgir, nos meses de Junho ou Julho, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós. Ignoram-se os pequenos e engraçados pinguins de «casaca preta e branca» (foto 9), que de quando em quando vinham até nós, e que não raro eram levados por algumas crianças para os quintais de suas casas, onde facilmente se aclimatavam, e de tal modo, que era vê-los a serem levados com seu passinho bamboleado, e uma corda atada ao pescoço, rumo à Praia das Miragens para uma saudável banhoca...  E os albatrozes, os alcatrazes e os garajaus que voavam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul, ou se atiravam ao mar em mergulho picado à caça do peixe que do alto anteviam.Toda esta fauna se deve à corrente fria de Benguela, modeladora do clima, modeladora da costa e das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios (Cunene/Baía dos Tigres). Se o mar do distrito de Moçâmedes era e é um mar riquíssimo em pescado, este aspecto fica dever-se à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climáticada zona.

 

Como funciona este assunto?

De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela»Cada icebergue que se desprende é um zoológico ambulante que vai arrastando consigo grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre (actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).









As cinco Marias

Na praia sentadas, as cinco Marias
São caras fechadas, em cinco agonias!!

Não riem ao vento que possa beijar,
Que beijo é tormento de quem sabe amar!!

Não riem à onda, desfeita em seus pés,
Na forma redonda de trazer marés...

Não riem à ave que de asa quebrada,
Já voar não sabe, e vive arrastada...

Não amam na noite, não vibram nos dias.
Que a noite é açoite, para as cinco Marias!!

E, no cinzento, a voz do travão
Diz que há casamento de nuvens, pagão,,,

E rasgam-se ventres, de fogo doirado,
Na terra há sementes, do amor consumado!!

Só...as cinco Marias, de cara fechada,
São cinco agonias que não viram Nada...

Concha Pinhão, 1971

 Praia das Miragens,  em 1970. Os primos  Luis e Vitor Hugo Jardim
 Praia das Miragens,  em 1970 . Com Ana Paula
 Praia das Miragens,  em 1970

 

Por ocasião das Festas do Mar, Gigantones e Cabeçudos passando entre a Praia das Miragens r o Casino


Em diversas gerações destacaram-se alguns nadadores, atletas de eleição que a seguir são lembrados:  classe feminina (100 metros livres) Ruth Gomes, Semi Amaro, Hélia Paulo e outras na classe masculina, de fundo (da praia do Cano à Praia das Miragens, 1000 metros: Antonio Braga e Manuel dos Santos (Cabouco) do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Renato Nunes da Silva e Sergio Nunes da Silva, do Sporting Moçâmedes e Benfica; Dolbeth e Costa (Chuva), do Atlético. E outros, como os de Ermelindo Costa Pacheco de Independente com seus saltos acrobáticos, Porfirio Parreira, Romualdo Parreira, Tulio Parreira , Rogério Gomes Ilha,  Artur Paulo de Carvalho e José Luis Pinto, todos do Sporting, e outros nadadores de curtas distâncias - 100 metros-  como António Martins Nunes (Cowboy) do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e ainda Mário Andrade Vieira e Norberto do Vale Gouveia, do Atlético, Vicente Ferreira e Angelino França, do Benfica, não poderão deixar de ser lembrados."

A partir do início dos anos 1960 começaram a organizar-se, anualmente, no mês de Março, as "Festas do Mar", que vieram animar aonda mais o pequeno burgo e toda a zona junto da Praia das Miragens, com a inauguração do recinto de festas ( que incluía barracas, pavilhões, carrocéis, pistas, de carros, etc, ), e ficava no terreno então disponível, entre o Clube Nautico (Casino) e a Fortaleza de S. Fernando.

Outra aquisição que veio favorecer grandemente este agradável local, foram as arcadas da praia, com os respectivos bancos, e a plantação, entre elas, de um conjunto de palmeiras, que passaram a proporcionar a desejada sombra e momentos de descanso a quem quizesse passar por alí, sem ir a banhos. E lá mais para os anos 1970, com a construção da estrada da Leba e da nova ponte sobre o rio Bero, graças ao encurtamento de distâncias inter-cidades, passaram a afluir com mais facilidade a esta praia e às outras praias de Moçâmedes e distrito, no Verão, gente de todas as idades vinda de Sá da Bandeira e não só,  assistir às "Festas do Mar", quer para passar um simpes fim de numa cidade diferente, ou ainda para um contacto com o mar, (praia, pesca desportiva, caça submarina, etc), ou para uma ida à caça no Deserto do Namibe, 

      

Ainda sobre a Praia das Miragens, em "Um conto de vez em quando...":

Praia das Miragens

Já lá vão 63 anos, mas ainda me lembro como se fosse hoje. Tinha chovido muito lá para as bandas do planalto da Huíla, e as enxurradas chegavam com força bruta ao rio Bero, devastando as suas margens e poluindo as águas da Praia das Miragens. Eu tinha na altura os meus 10 anos e andava com os restantes capitães da areia atacando os batelões carregados de fruta madura, vinda do Lubango. Nesse tempo ainda não havia nenhuma ponte sobre o rio Bero, de modo que o comboio que vinha do planalto ficava-se pelo Saco do Giraul. Era daí que os batelões eram carregados e rebocados para a Vila. E enquanto aguardavam pela disponibilidade do velho Veli, condutor do guindaste que existia na única ponte de serviço, os batelões ficavam fundeados ao largo, um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos e dos nossos contentamentos. Não havia excepção à regra; todos os batelões tinham um guarda, dia e noite de sentinela. Mas acontecia que os sentinelas, como de resto qualquer animal deste mundo, estavam condicionados ao relógio biológico que foi evoluindo desde os primórdios da vida. E era precisamente às seis da matina, quando o sol ainda ameno começava a despontar no horizonte, que os guardas, de vigia toda a noite, mais se aferravam ao sono. Seis da matina era, contudo, a hora em que os capitães de areia iam à praia para os seus banhos matinais. Nadavam silenciosamente como índios bororós até aos batelões, trepavam como macacos pelo cabo das fateixas, e depois, já lá dentro, deliciavam-se calmamente com toda aquela gostosura das mangas maduras, deleitavam-se com os sabores e odores das belas goiabas, vermelhas por dentro e amarelas por fora, e das peras doces, tão doces que as abelhas as detectavam a quilómetros de distância. E por fim, depois de comidos e fartos de todos aqueles sabores de frutos tropicais, os capitães de areia desciam pelas amarras do batelão, nadavam até à praia do cano e iam felizes à igreja de Santo Adrião confessar os seus pecados ao bom e amigo padre Galhano, que Deus o haja!

(Ass) AiresJardim


Recordo que na Praia das Miragens só existiam uns telheiros feitos com carris de comboio e o Clube Náutico era construído em madeira. Os arcos, chamados “marrecas do Leone”, nem sonhavam existir.
A marginal só muitos anos depois é que surgiu. Para ir à Torre do Tombo pela praia era preciso passar por um carreriinho estreito, entre a falésia da fortaleza e os destroços de um navio ali encalhado há muitos anos. A seguir era a venda do peixe num barraco implantado na falésia. Recordo que quem supervisionava era um senhor chamado Olímpio, sogro do “Caguincha” da Câmara. Adiante a “praia do Cano” estaleiros de reparação naval e as pontes do Manuel Cambuta, do João da Carma, da S.O.S., e outras.

Roberto Trindade

Ralis e circuitos em Moçâmedes













































Moçâmedes parava quando aconteciam circuitos automóveis e ralis. Aliás, todas as cidades de Angola paravam quando havia alguma prova , fosse em que cidade fosse: Moçâmedes, Lobito, Sá da Bandeira, Nova Lisboa, Benguela Luanda...

Eram circuitos de rua demarcados com pneus e fardos de palha colocados em volta dos percursos, em pontos estratégicos e a certa distância das curvas, para evitar despistes e as suas consequências, uma vez que as localidades enchiam-se de gente, e muitas vezes, até não caberem mais. Nesses tempos participavam carros de turismo de diversas marcas e níveis de preparação, todos disputando as provas e correndo juntos, sem distinção. Corria-se porque se gostava, por amadorismo, e os carros com que se corria eram os mesmos do dia a dia e até os pneus eram os mesmos fosse qual fosse o seu piso. Mais tarde as pistas angolanas evoluiram com novas aquisições, entre as quais se salienta o Porsche 904 GTS adquirido por Henrique Ahrens de Novais etc., e na década de 70 as provas eram já divididas em corridas distintas de pilotos consagrados e de pilotos iniciados.

Um dia de provas automobilísticas era sempre uma festa.

As fotos cima expostas, 1ª e 2ª referem-se ao rali do Caraculo. Na 1ª, Carlos Cristão dá a ordem de partida num local junto do edifício dos Correios. Na 2ª junto ao edifício dos CTT, podendo ver-se ao fundo, o edifício dos Cminhos de Ferro. Na 3ª, uma multidão assiste às provas junto à subida da Fortaleza. Repare-se na protecção com sacos de areia. Ao fundo, o Cine Moçâmedes. Na 8ª foto, algumas jovens basquebolistas do Atlético Clube de Moçâmedes assistindo às provas numa das arcadas da varanda do edifício dos Correios. São elas: Minelvina Cruz, Leonilde de Sousa (Nide), Susete Freitas, Júlia Jardim. Embaixo: ? e Geraldo. N 9ª foto são Luísa Pólvora Dias, Zete Veiga e Nelinha Costa Santos.

16 outubro 2007

Gente de Moçâmedes junto da ponte rio Bero. As cheias de Moçâmedes


A ponte sobre o Rio Bero, wm Moçâmedes no inicio dos anos 1950. Da esq. para a dt.
Atrás: Olimpia Aquino e
Graciana Martins Nunes. À frente: Marizete Romão Veiga, Raquel Martins Nunes, Graciana Nunes e Violete Velhinho.  Sobre a ponte alguns curiosos.


A ponte sobre o rio Bero.  Ao volante do Morris, Olímpia Aquino e sobre a ponte alguns curiosos observando o andamento das obras.


Sobre a ponte do Rio Bero, da esq. para a dt :
e Violete Velhinho, Marizete Tmão Veiga,  Graciana Martins Nunes, Olimpia Aquino e Raquel Martins Nunes.

 Moçamedes: ponte capitão Teófilo Duarte sobre o rio Bero | CITAngola
A 1ª ponte sobre o rio Bero, a "Agapito da Silva Carvalho".


As duas pontes sobre o Bero, lado a lado. A primeira, à direita, ficou para a passagem do comboio, e esta, a segunda, a  ponte "Capitão Teófilo Duarte", voltada para o tráfego de viaturas simples e outros transportes. Foto tirada já em 1974 
  



As pontes sobre o rio Bero


Antes da construção da 1ª ponte sobre o rio Bero, a travessia do leito do mesmo rio era algo 
problemático. No tempo seco, o rio apresentava um leito de areia com uma poça de água aqui, outra acolá, até à foz onde vai desaguar. Em consequência, os veículos automóveis que atravessavam o rio faziam-no a custo, uma vez que constantemente os pneus enterravam nas  areias, e quando tal acontecia, o recurso era colocar folhas de bananeiras que se encontravam por perto, arbustros rijos ou uma esteira, à frente dos pneus, de modo a que, após repetidos arranques, os pneus conseguissem galgá-los, permitindo ao veículo avançar. Muitas vezes os passageiros para aliviarem a carga sobre os pneus,  atravessavam o leito do rio a pé, tendo o cuidado de evitar as poças de água e os galhos rijos, até chegarem à outra margem, era então que retomavam o seu lugar no veículo. 

Se antes da construção da 1ª ponte, no tempo seco era problemático, no tempo das cheias (1)  era o caos. Os veículos automóveis não passavam pura e simplesmente. Nem o comboio, inaugurado em 1907, conseguia chegar à Estação. Pessoas, víveres e mercadorias que circulavam entre a cidade de Moçâmedes e as zonas próximas além rio, como as Hortas, etc, confrontavam-se com muitas dificuldades, nesse vai-vem, da travessia do rio com as suas carroças  puxados por juntas de bois (espanas), introduzidos no sul de Angola pelos boers.  E o comboio que fazia a ligação com o planalto da Huila, e vice-versa, ficava parado no Saco do Giraúl, tendo as pessoas que se deslocar até lá por mar, servindo-se de "gasolinas", e sendo os víveres e as mercadorias para ali transportados através "batelões". E o mesmo acontecia com aqueles que do planalto da Huila se deslocavam a Moçâmedes, tinham que desembarcar no Saco do Giraú, apanhar um "gasolina"  que os levava até à ponte da Praia das Miragens, sendo feito o transbordo das mercadorias para batelões que seguiam o mesmo destino. Ora nestas circunstâncias, tornava-se muito difícil  toda aquela região litoral e interior progredir.  Esta situação arrastou-se até ao dia da inauguração da 1ª ponte sobre o rio Bero,  no tempo do Governador de Angola Agapito da Silva Carvalho, que exerceu o cargo entre 1947 e 11 de Junho de 1951.  O sistema politico demasiado centralizado, tudo dependia da autorização da Metrópole, as verbas  arrancadas a ferros e entregues a conta gotas, sempre com uma certa desconfiança. À essa 1ª ponte foi dado o nome "Agapito da Silva Carvalho".

A segunda ponte, Ponte "Capitão Teófilo Duarte",  sobre o rio Bero (1965) representou um grande salto qualitativo para a economia do Distrito. Com os 507 metros de comprimento, destinou-se ao tráfego de viaturas simples e outros transportes. Finalmente as viagens de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Lubango) passaram a ser mais rápidas e as visitas mais frequentes. Ganharam substancialmente os negócios e a economia do Distrito.

Também a estrada da Leba, um empreendimento espectacular levado a cabo pela engenharia nacional sob a direcção do engenheiro Simões Raposo,  muito veio dignificar o sul de Angola, e trazer novas oportunidades de desenvolvimento económico, através de uma maior comunicabilidade entre pessoas e regiões.  Às vésperas da independência de Angola finalmente, o litoral e o planalto ficaram mais próximos um do outro.  O novo percurso Moçâmedes/Lubango além de ter passado a ser efectuado em melhores condições, foi encurtado em cerca de 50km. A nova estrada que passou a ligar Moçâmedes e Sá-da-Bandeira (Lubango) através da da Leba, abriu decisivamente as portas do Namibe ao Turismo. Mas já era tarde demais!
Porquê tanta demora?


Já o Caminho de Ferro de Moçâmedes  primeiro que arrancasse foi um problema.  Este teve o seu primeiro troço de 67 Km inaugurado em 1907, quando da visita do Príncipe D. Luís Filipe,  mas importa não esquecer que o arranque e a aceleração do mesmo aconteceram mais por motivações militares e logísticas ligadas à necessidade de defesa da fronteira sul do território de Angola, cobiçado por alemães, e à subordinação das populações indígenas insubmissas da zona, cuanhamas e cuamatos, que propriamente tendo em vista o desenvolvimento económico da região e o bem estar das populações, brancos e negros que ali trabalhavam e viviam.

Inaugurado em 1907, o comboio só viria a chegar ca Sá da Bandeira (Lubango) em 1923, isto porque  com o deflagrar da I Guerra Mundial (1914/1918) as fábricas europeias passaram a estar ao serviço do material a ela destinado e não possibilitava o andamento de outras encomendas.

 Chamavam pelo morosidade, ao primitivo comboio, o "Camacouve". As carruagens não iam além dos 2 metros de largura, os passageiros ficavam sentados em duas filas separadas por um corredor, e as malas e caixotes seguiram numa pequena carruagem de mercadorias e correio. Mas foi este comboio que permitiu deixar de lado as velhas carroças puxadas por juntas de bois, introduzidas pelos boers, tal como estas permitiram  aliviar o trabalho dos carregadores indígenas.

 Quando os primeiros 67 Km pelo deserto eram percorridos em andamento moderado, 40 e 50km/hora,  e quando a composição após 1923 começava a subir a Chela,  a velocidade ia diminuindo consoante subia,  chegando mesmo a parar nas partes mais íngremes, tendo as pessoas que sair do comboio e o acompanhar por algum tempo, ao lado, a pé. Acontecia também,  por  vezes, que  as paragens eram mais demoradas para que a caldeira da locomotiva atingisse a pressão necessária, ou para que a composição pudesse receber a água necessária. Vila Arriaga (Bibala), era o apeadeiro onde as pessoas saiam para desentorpecer as pernas, comer um farnel, ou mesmo almoçar perto da estação, antes de retomar a viagem, 1 hora depois.  Era quase o dia inteiro de viagem para se completar o percurso de 250 Km de Moçâmedes até Sá da Bandeira.

Na 1ª viagem Presidencial a Angola, com passagem por Moçâmedes, o Presidente da República, Marechal Carmona, promulgou por diploma um que compreendia um conjunto obras que deveriam ser levadas a cabo no período entre 1938/1945, que incluía o prolongamento até ao Tchivinguiro, mas  este acabou travado por força da 2ª Grande Guerra Mundial dada a impossibilidade de aquisição de apetrechamento, máquinas, etc. Em consequência do adiamento do assentamento da nova bitola o rendimento esperado foi reduzido, tendo-se, inda assim, efectuado o alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes ao quilómetro 173, e do quilómetro 205 a Sá da Bandeira, incluindo obras de arte, instalação de pessoal etc. Em 1949 o Caminho de ferro, em direcção ao sul, atinge a Chibia, em traçado de bitola estreita.

Em 1953,  prosseguindo da Chibia, atinge o Chiange. Presidiu à cerimónia da inauguração solene da 1ª fase dos trabalhos de transformação dos CFM, o Presidente da República, General Francisco Egidio Craveiro Lopes a Angola, em 1954, quando da sua passagem por Vila Arriaga, vindo de Sá-da-Bandeira de visita a Moçâmedes. Em 1955, em direcção ao leste, atinge a Matala. Com o fim da II Grande Guerra, quando as fábricas europeias deixaram de estar ao serviço da guerra,  as coisas começaram a andar e chegaram até nós as potentes GARRAT'S, bem adaptadas às lonjuras de África, que mais facilmente movimentarem comboios extensos de passageiros de mercadorias ou mistos, nesse vai-vem entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango), com os seus três corpos distintos que facilitavam as manobras nas apertadas passagens das montanhas. O maquinista seguia no corpo do meio, e no da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No corpo da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que tornava as GARRAT'S poderosas e imparáveis.  E foi assim que  as pequenas locomotivas que rebocavam composições da ordem das 120 toneladas deram lugar às potentes Garrat´s que passaram rebocar comboio da ordem 800 a 100 toneladas, em nova linha de via alargada, num troço de 169 km. A partir daí foi possibilitado um grande avanço, quer em potência, quer na capacidade de transporte mercadorias e pessoas, o que muito contribuiu para o desenvolvimento da zona.





Habitantes de Moçâmedes apreciando a queda em cascata das águas do Bero para o interior das  chamadas «furnas» de Santo António



Esta é a Rua da Praia do Bonfim, paralela à Avenida, nas cheias que aconteceram na década de 1940.


A propósito das cheias do Bero...

Em Moçâmedes raramente chovia, mas de vez em quando era a valer. Neste ano (foto a seguir) as chuvas foram de tal modo intensas que as ruas da cidade ficaram alagadas, havendo gente que teve que utilizar "chatas", ou seja pequenos barcos, para se deslocarem de um lado para outro. Isto aconteceu porque as margens do rio Bero (rio de águas não permanentes que desagua a poucos kms da cidade), ainda não estavam reguladas, e as águas transbordaram do leito e galgaram os terrenos marginais, tendo o caudal, na sua passagem, transvasado como se de uma cascata se tratasse para o interior das «furnas de Santo António» (1), e daí avançado rumo à  zona baixa da cidade. Diziam então que  "furnas" tinham rebentado. A força da enxurrada foi de tal ordem neste ano que destruiu palhotas, plantações e tudo o que encontrava no caminho. Salvava a situação o facto de Moçâmedes não ser uma terra de muitas chuvas, pois sem as margens do Bero reguladas, a cidade encontrava-se em permanente perigo.



Rio Bero o "Nilo de Moçâmedes...

O  baixo Bero, de corrente hídrica irregular, de margens bastante largas rodeadas de areia, com uma grande percentagem de aluvião, mantinha quase permanentemente água no subsolo (salvo as devidas proporções) um pouco à semelhança do Rio Nilo. Esta particularidade foi fundamental para o nascimento de Moçâmedes, e para a sua evolução.
 
Ainda sobre este rio "de cujas águas brotou a ressurreição de Mossâmedes"  conforme vem referido na obra de José Bento Duarte -Senhores do Sol e do Vento, foi grande o desapontamento que tiveram os primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos da revolução praieira, quando, ao entrarem na baía de Moçâmedes, levados pela barca brasileira "Tentativa Feliz", capitaneado pelo Brigue Douro,  em 04 de Agosto de 1849,  enxergaram angustiados as fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero e a monotonia dos areais sem fim. dos quais sobressaia o recorte severo da fortaleza de S. Fernando, onde lhes estava destinado erguerem os seus novos lares, que de início não foram mais que meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha.   
Também Bernardino Freire de Abreu e Castro ter-se-ia sentido igualmente decepcionado, ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, mas  mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as águaa das enxurradas ao invadirem as margens, levavam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de  microclima temperado que fazia das "Hortas" verdadeiros oásis,
Foi então que, repartindo-se pelos campos marginais do Bero, os colonos procuravam os terrenos mais aptos para as culturas, e, informados das inundações periódicas, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região e começaram as lides agrícolas mantendo com os cuvales das vizinhanças relações  aquilo que o autor  designaria de uma "cordialidade distante", e esquadrilharam meticulosamente os subúrbios da povoação.  Porém  o triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e de águas escassas, as primeiras águas, empurradas do planalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado, o Bero tornou-se numa língua de areias crestadas, com as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco, e dos céus patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva, enquanto os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz, remediando-se com cacimbas escavadas nas proximidades ou nos quintais das residências. Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos sobreviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi este o quadro em que a povoação viu, apesar de tudo, ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco, e  transportados pela Barca Bracarense, igualmente capitaneada pelo brigue Douro.  Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, provenientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procuravam dar corpo ao projecto português no Sul de Angola. As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílopes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.




AS CHEIAS DA MINHA INFÂNCIA



Na nossa terra, em Angola, as cheias,
sempre vieram e continuaram a vir
dos altos abruptos da Xela, de roldão,
lembro-me disso bem, não esqueci, não…

Saltavam do leito do Bero e cobriam a linha
e as muitas fazendas que nas margens tinha,
travando o Camacove(*) no Giraul, ou no Saco-Mar,
invadindo as aldeias e Hortas que podia encontrar…

Arrasando povoados e destruindo plantações,
deixavam Mossâmedes, sem o recurso à água pura
do Planalto e a beber da sua, após fortes ebulições,
filtrada em “Sanga de pedra”(1), para ser mais segura…

Cheias que, na sua imparável e imponente cavalgada,
chegavam a inundar as ruas e os ares da Baixa da Cidade,
ameaça esta contra a qual a cidadela não estava preparada(2)
pois, para um surto palustre, só a quina tinha tal capacidade…

Era ali que a inocência infantil se fazia atrevida e sem peias.
Era o tempo das crianças correrem descalços, sem meias…
Para todas, aqueles eram dias de muito rir, de muito brincar.
De pôr barcos de papel a navegar sob, um céu d’andorinhas,
de correr e tentar apanhar aquelas lindas e velozes libelinhas
paradas sobre aquelas águas barrentas que o Sol fazia brilhar.

Tudo ia bem, até que frutas e verduras começavam a desaparecer.
Vinha então o tempo de irmos todos dias p’rá porta da kitanda.
Tínhamos que comprar frescos e frutas, desse lá por onde der.
E compravam-se até ervas mais velhas que o Kaparandanda(3)…

Mas não há mau tempo que não finde, nem bom que deixe de vir.
Um dia, lá chegava o Camacove com água e frescos p’ra a gente.
Ao porto chegam Fardos de Roupa e caixas deQuinino Americano
e, só nesse dia, fomos à praia inaugurar o nosso Verão desse ano…
Aguentem lá essas cheias, Manas,
Patrícias Minhas, Australianas

KANDANDOS
Do
NECO


6.03.2010
 

(1) In Archivo pittoresco, Volume 10, pg 46







Rio Bero, o "Rio das Mortes"

Rio Bero, o "Rio das Mortes" como lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter alli o gentio assassinado o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda  e mais dois marinheiros. Eis o que a este respeito disse Furtado para o governador, barão de Moçâmedes:
"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus,  que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado polo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados qne andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. "  (1)


Com interesse para este assunto segue um texto de J. Pereira do Nascimento, no livro "O Districto de Mossâmedes", 1892:



"... A rede fluvial da zona baixa comprehende os valles de S. Nicolau, Giraul (Dyraul), Bero e Koroká, cujos rios na maior parte do anno estão seccos; apenas levam agua du- rante alguns dias na estação pluvial, quando as chuvas tor- renciaes do plan'alto, depois de encherem os afílu entes do Kunene, se despenham eminnumeras cataractas pela Chella abaixo. E' então que enormes massas de nuvens conden- sadas sobre? a região alta e açoutadas pelo impetuoso vento sueste são arrastadas para a zona baixa do valle de Kapangombe, onde se desfazem em catadupas, que conduzidas por milhares de regatos e ravinas formam enormes mas- sas d'agua, que correm em rápidas e perigosas enchurra- das, que enchem e alagam os terrenos marginaes dos val- les por espaço de dias e mesmo horas.

Na facha arborisada de Kapangombe, limitrophe da Chella, as aguas permanecem por alguns mezes por causa da dureza do terreno e por serem os rios na sua primeira porção alimentados pelo excesso das aguas do plan'alto. Na facha arenosa do litoral ellas desapparecem em pouco tempo por infiltração nas areias dos leitos dos rios. Destes o que conser-va por mais tempo maior volume d'agua é o Bero, que fertilisa os terrenos de Mossamedes. Este rio é o primeiro a conduzir as aguas pluviaes da região alta e o que as conserva por maior espaço de tempo. Resulta esta circurastancia de ser o seu curso entre a Chella e o litoral mais curto e directo, formado em grande extensão por um leito de pedras e principalmente por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de uma nascente que deriva para elle um grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau(Dyau), durante a primeira parte da estação chuvosa do planalto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as primeiras chuvas na zona baixa; em quanto que os rios Nicolau e Koroka são alimentados pelas chuvas que cahem sobre as vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, de janeiro a abril. E' de notar-se que o regimen pluvial d'esta zona diílere considerávelmente do da zona alta. N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro, formando a primeira parte da estação chuvosa, cha- mada das pequenas chuvas. N'esta quadra, dominando os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto descarregam sobre elle não chegando á zona baixa. Apenas de janeiro a maio, que comprehcnde a quadra das chuvas torrenciaes e dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas attingem a zona baixa e chegam á facha arenosa do litoral pro- duzindo innundações passageiras, que ainda assim são o único recurso para a fertilidade dos terrenos agricultados nas proximidades de Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau. Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que se conserva por espaço de um e dois mezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um rico adubo aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos rios. Estas fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes, hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 raachinas a vapor e possuem 32 en- genhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente. Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cor- dilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe. Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a estação chuvosa com prebende seis mezes no anno.

Convém observar que tem havido profundas modificaões no regimen pluvial da zona baixa, cujas causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falavam com saudade dos primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de quatro e cinco annos sem cahir uma gotta de agua. Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas  fi nas areias não chegam a humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de poços praticados a profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, que fornecem agua necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa, produzindo perturbações digestivas. A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém constante apezar das vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nos leva a suppor que ella mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam e continuam com o subsolo da zona baixa. E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricolas do valle de Kapangombe investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros.

A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos. Os annos de secca succedem-se uns após outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar as suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas a troco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos permanentes, que descem do plan alto e formam as origens dos rios da zona baixa. E' de urgente e inadiável a necessidade de proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos é importante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores tempos. O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima da Chella e oferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortir o desejado efeito, fácil será por suceessivas investigações animadoras estabelecer um systema de poços artesianos, que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial incons- tante, o que concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em produetivas fontes de receita. Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada que parte de Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra do Major, Providencia, Moninho e Kapangombe. Esta estrada é percorrida pelos vagons loers que fazem o transporte das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa; pelos viajantes, carregadores e manadas de gado para consumo e exportação. Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que resulta morrer á sede e á fome grande numero de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportação e consumo. Cada vagou é condusido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por falta d'agua durante os 10 ou 12 dias de viagem fatigante por este deserto arenoso, atravez do qual os pesados veliiculos carregados com 100 a 150 arrobas de carga são penosamente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por entre densas nuvens de suffocante poeira. Está calculado que morrem annual mente n'este deserto 400 a 600 bois, o que representa um enorme prejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave damno elevam cada vez mais o preço do transporte. Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em 1:000 réis e actualmente com a persistência das seccas e mortalidade no gado eleva-se a 1:200 réis. Independente da perda material do boi, ha a accrescentar a perda da somma de trabalho que o boer dispende para amansal-o e sujeital-o ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores dos Gambos e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30. Calcule-se do desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros para o transporte das mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem orlando a estrada os cadáveres de um terço ou metade dos seus bois a servir de festim ás hienas e lobos que infestam estas paragens. Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de gado por via de Mossamedes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo o aproveitamento de uns tanques na- turaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que cae sobre a enorme pedra que dá o nomc! a este sitio.  Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos viajantes, um curral para abrigo do gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destacamento. Os tanques cavados na rocha são quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas torrenciaes, os tanques enchem-se d'agaa, que se conserva por bastante tempo. E' d'esta agua que bebem os viajantes e o gado. Quando ella diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só permitte que se tire a porção indispensável para uso dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gado e para cumprimento d'estas ordens e vigilância dos poços tem ali um destacamento militar. O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da Providencia, com a diferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em cavidades das rochas e poças, quando chove; fora d'estas ccmdições anormaes a monotonia do terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Moninho, em cujas fazendas se encontra agua em cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura. A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchia mirabilis, falso cedro, algumas euphorbiaceas, espinheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos. Na facha de terrenos arborisados, que correm parallelos aos contrafortes da Chella, a agua existe com abundandancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem não chega a irrigar a vasta área de terrenos cultivados.
O districto de Mossamedes abrange uma area de 176:250 kilometros quadrados, duas vez4es a superfície de Portugal. Divide-se em sete concelhos, dois na zona baoxa, que são Mossamedes, e kapangombe, e cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Gambos, e Humbe, dos quais os três primeiros formam a +area de colonização eiropea, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas consições de clima não se prestam à colonização da raça branca, formam a área de exploração commercial  europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas condições de clima nào se prestam á adaptação da raça branca, formam a área de exploração commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cuja creação constitue a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto."













Onde antigamente transvasavam as enxurradas no Bero, nas «furnas de Santo António»  que ficavam próximo do antigo aeroporto de Moçâmedes (o velho campo de aviação),  no ano de 1972,  aproveitando a morfologia do terreno, foram ocupadas  pelo novo Estádio Municipal, que pode ser visto, no dia da sua inauguração, clicando AQUI.. 




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Moçâmedes a antiga Angra do Negro (a Little Fish Bay das cartas inglesas), chegou a ter a denominação da Baía onde desembocava o Bero, ou "rio das Mortes", rio sazonal, que  atravessa um vale fértil, seco à superfície na maior parte do ano. Só corre água ali quando chove na serra, a mais de duzentos quilómetros de distância, infiltra-se e alaga tudo, em volta. E quando seca retém as águas debaixo da areia, basta cavar, regar, cultivar mesmo na areia, vai ver vai dar. Era o que acontecia com os olivais e a vinha no tempo colonial.

O curso inferior do Bero conserva-se  todo o ano um vale, verde e extenso, aberto ao deserto  porque de um lado e outro é falésia de grés. É ai que ficam as chamadas «Hortas», onde nos primordios da colonização se cultivou primeiro o açúcar e tempos mais tarde se produziu a malfadada aguardente que salvou a economia em determinado período mas acabou difamada e proibida pelo mal que causava aos negros. Depois veio o algodão (após a crise do algodão nos EUA por virtude da guerra civil de 1862-65) e, finalmente, os inumeros produtos hortícolas que  abasteciam a população e até eram exportados para Luanda.

Já em 1859 existiam no vale do Bero oitenta explorações agrícolas a funcionar e a produzir algodão e aguardente, açúcar e hortícolas, tabaco e vinho, trigo e mandioca, milho e cevada, e a exportar sobretudo algodão em caroço, batata rena, batata doce e aguardente.

As «hortas» eram um verdadeiro celeiro para Moçâmedes, e a elas se deve o nome da principal artéria da cidade, a Rua das Hortas, que às hortas conduzia...  A rua chama-se hoje Nzinga Mbandi, chamou-se Luz Soriano, rua do Alferes, e ficou Rua das Hortas,  o nome pelo qual era conhecida até 1975.



MariaJardim
Caminho de Ferro de Moçâmedes , ver AQUI

O Buggy da miss Moçâmedes e os vencedores de um concurso levado a cabo pelo Rádio Clube de Moçâmedes: 1974?



Fotos tiradas no decurso de um Concurso levado a cabo por José Manuel Frota, radialista do Rádio Clube de Moçâmedes num Stand automóvel da cidade. Sentados no Buggy que iria ser presenteado a Ani de Freitas, a jovem que foi eleita Miss Moçãmedes, os vencedores do Concurso, o casal sempre bem disposto e pronto para a folia, Elizabete e Àlvaro Faustino (sentados no Buggy, de pijama e panelas na cabeça; foram eles que chegaram primeiro ao Stand, e portanto os vencedores...). À esq. Carlos Teixeira.
Na 2ª foto de camisa branca, José Manuel Frota.
Fotos gentilmente cedidas por Elizabete Faustino.

Porto Alexandre (actual Tombwa): bailes de Carnaval nos anos 60










































1ª Foto: Carnaval 1960. Entre outros: Abel Lopes e irmãos Peleira (em cima), e os irmãos Faustino (gémeos) em baixo.
2ªFoto: No Clube Recreativo de Porto Alexandre (actual Tombwa), Elizabete e Alvaro Faustino recebem
o título de vencedores de um concurso de dança, entregue por Rui Filipe Barreto de Lara, (dirigente do Independente Sport Clube de Porto Alexandre).

3ª foto:
Elizabete e Alvaro Faustino parodiando num baile de Carnaval no Recreativo Alexandrense. Anos 60