A Capela da Senhora da Conceição do Quipola, e o recinto devidamente engalanado onde anualmente, no dia 08 de Dezembro decorriam os festejos e a procissão. Esta foto representa uma romagem ali efectuada algures no início do século XX. Repare-se as "charretes" encostadas à parede lateral da capela. Era em charretes e em carroças puxadas por bois que naquele tempo os moçamedenses se deslocavam a locais mais ou menos distantes da vila como era o Quipola.
Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela não temos noticia, mas encontrámos o
seguinte texto que sugere que a mesma se encontrava projectada, ou
até mesmo ja em construção, em 1884, tendo decorrido na altura, na vila,
uma subscrição entre moradores para o efeito:
"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em
Moçâmedes. Além das provas do ensino primário elementar, havia uma
aluna que fazia o exame de Francês, e era exactamente a filha do
Governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da
Mata. O prémio referido, de noventa mil réis foi dividido em quatro
fracções, cada uma delas atribuída a um aluno. A filha do Governador
também foi premiada. O Coronel Sebastião da Mata levantou-se e pediu
licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do
prémio concedido à sua filha à Capela de Nossa Senhora da Conceição do
Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às
pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a
sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo
com qualquer das decisões tomadas. " Fonte deste texto
Como era comum acontecer em obras de cariz religioso e popular, subscrições entre a população eram o meio de as levar por diante, não se estranhe pois que a filha do Governador
Sebastião da Mata, tivesse oferecido nesse longínquo 1884 a importância em dinheiro de um
prémio que recebera, à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola. 1884 foi também o ano em que o destino de Áfica mudou com Conferência de Berlim, a
célebre Conferência que reuniu as potências europeias interessadas na
"Partilha de África". Foi o ano da chegada à Huila, do primeiro contingente de
madeirenses. Portugal praticamente nunca rinha colonizado, e apressou-se a fazê-lo mais a sério perante pressões exteriores, e porque a faixa de Angola a sul de Moçâmedes era cobiçada por alemães, e o interior estava por ocupar.
"Quipola" era o nome de um dos sobas de região de Moçâmedes, cujo sobado se encontrava estabelecido junto das margens do rio Bero, onde tinham as suas cubatas e cuidavam das suas lavras e do pastoreio do gado, a sua maior riqueza. Um pouco mais distante havia também o soba Giraúlo que, com as suas gentes habitava uma zona junto ao rio Giraúl, onde levavam o mesmo estilo de vida. Foram os primeiros povos africanos que os portuguesescontactaram quando chegaram a Moçâmedes, em 1849, oriundos de Pernambuco, Brasil, e desde logo estabeleceram com eles um pacto de amizade e cooperação, o mesmo é dizer de vassalagem.
Acredita-se que desde o momento em que a Capela foi erguida começaram as peregrinações.

Esta é a foto mais antiga que possuímos de uma romagem à capela da Senhora da Conceição do Quipola; a ter em conta a indumentária, pensamos que seja dos anos 1920. A foto sugere tratar-se de um grupo de famílias de classe média, pelo modo como se acham apresentadas. Abro aqui um parêntesis para referir que nesse tempo de escasso comércio em Moçâmedes, existia no rés do chão do edifício da família Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, uma loja de modas onde as "elegantes" da terra podiam fazer as suas encomendas ao "Printemps", o famoso Armazém de Paris. O armazém de Moçâmedes denominava-se "Armazém Primavera".Há uma foto desse tempo.
Mais tarde o Caminho de Ferro de Moçâmedes, inaugurado em 1907, passou a colaborar nas festividades pondo à disposição das gentes da terra o comboio. Na foto: Peregrinos chegando de comboio ao Quipola. Anos 1940
Grupo de peregrinos posando junto do comboio que os transportou ao Quipola. (1949/50)
Nesta foto destacam-se de entre os peregrinos alguns alunos das escolas de Moçâmedes, filiados na Mocidade Portuguesa (A MP era uma instituição de cariz obrigatório ao nível das escolas, mos tempos do Estado Novo). Reconheço, em 2º plano:, e da esq. para a dt. Júlia Almeida, Alice
Freiras, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete
Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas. E em 1º plano,
entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos
Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).
Ainda nos finais da década de 1950, esta tradição que reunia grande
número de crentes e de não crentes, mantinha-se viva entre a população de Moçâmedes,
sendo para tal posto à disposição dos interessados um comboio que
assegurava as idas e vindas, ajudando a impulsionar as festividades, uma
vez que não eram muitos os habitantes da cidade que nesta altura possuíam meio de transporte automóvel.
Ao comboio chamavam o «Camacouve»,
porque levava «camas» para os passageiros devido à morosidade dos percursos, e também transportava «couves». Ou seja, era misto, para pessoas e mercadorias. A morosidade era tal que demorava o dia inteiro para completar os 250 Km, do
arrastado percurso de Moçâmedes a Sá da Bandeira. Inaugurado em 1907, o
Camacouve que só em 1923 trepou a Chela, já há muito se encontrava ultrapassado sim, mas era
acarinhado, pois era através dele que a população ia tendo
acesso a distâncias mais ou menos longas, e podia estar presente neste tipo de
festividades sem necessitar de se fazer transportar nas incomodas carroças de bois, e mas ainda mais incomodas e morosas tipoias.
Chegada ao Quipola, a população assistia a «missa campal» seguida de procissão, e a festa prosseguia com um
arraial em recinto de terra batida enfeitado com mastros, bandeiras,
dísticos, folhas de palmeiras, etc, onde eram erguidas barracas que vendiam de tudo um pouco, estatuetas, rifas,
gulodices, bebidas, cigarros, etc. etc, e pavilhões onde se comia, bebia, dançava e confraternizava. Uma misturada à boa maneira portuguesa, entre sagrado e profano!
Na década de 1950 era o carismático Padre Galhano, com a sua bata branca e sua longa barba negra que ministrava a missa campal, e que aqui podemos em pleno acto, como podemos vê-lo mais adiante em outra foto em meio à procissão que juntava peregrinos europeus e africanos.
Outro momento da preparação para a procissão junto da Capela de Nossa Sra da Conceição do Quipola
.
A procissão em andamento dirigida pelo Padre Galhano. Ao fundo o pavilhão onde decorriam os comes-e-bebes, o estrado para
a dança e as barracas onde se vendiam vários artigos, guloseimas, bebidas, etc.
O ponto culminante da festa era como não podia deixar de ser, o baile, que
decorria sobre um estrado em madeira, devidamente embandeirado e enfeitado com o que havia à mão, neste caso, com folhas de bananeira, onde gente de
todas as idades se divertia ao som da velha concertina ou do gramofone,
que atirava para o ar através de um altifalante pendurado em qualquer árvore, as modinhas dos tempos de então. E enquanto uns dançavam e rodopiavam, ali mais adiante outros
disputavam os mais variados jogos (tiro ao alvo, o jogo das argolas,
dos cavalinhos, concursos de corridas do saco, da colher e do ovo, etc,
etc). E ainda outros disputavam a
subida ao cimo do «pau ensebado», um elevado mastro ou poste de
madeira impregnado de sebo no topo do qual era pendurada uma garrafa de
bebida que desafiava quem o ousasse subir para a ir buscar. Este
concurso era sempre ganho por africanos kimbares (1), cuja estratégia
era, para não escorregarem, levar areia nos bolsos das calças, de forma a
que, de quando em quando pudessem esfregar as mãos e subir um pouco
mais, até alcançarem a garrafa de bebida. Tudo decorria ali mesmo ao lado da Capela.
Acreditamos que as romarias começaram logo após a Capela construida. Sabemos que enquanto duraram, elas foram
sempre bem vindas a uma população crente e carente de festas e
distrações, e porque essa era a forma de quebrarem a rotina do quotidiano,
tornando vida mais agradável e digna de ser vivida. Não esqueçamos que nos finais dos anos 1940 muitas casas de Moçâmedes eram
ainda iluminadas a petróleo, os "aparelhos de rádio" eram alimentados a
bateria, e às 9 horas da noite já toda a gente estava na cama. Como não
aproveitar todas essas ocasiões?

Foto Criança
africana junto a um nicho de pedra com a imagem de Nossa Senhora. À esq. duas quadras gravadas sobre a
pedra caiada dedicadas à Santa.
No decurso do Estado Novo as festividades religiosas, missas, procissões, etc, ganharam novo impulso. O poder político mantendo embora a separação do Estado/Igreja, estabelecida pela I República, não ignorou a realidade social e cultural, a crença e o culto predominantes entre os portugueses -a religião católica-. Não dispensou o catolicismo como cimentador da tradição histórico-cultural e referencial da moralização social.
Mas o tempo não pára e estas festividades, que, como tudo na vida tiveram a sua época, foram
aos
poucos perdendo o brilho até que deixámos completamente de ouvir
falar delas. A ida ao Quipola passou para o rol das nossas recordações,
tal como passaram os "Passeios na Avenida", o nosso picadeiro, que marcaram, e de que maneira,
a nossa infância e a nossa juventude.
Depois que chegou a luz eléctrica a Moçâmedes, nos anos 1940, e surgiu o Cine Teatro de Moçâmedes que
veio tomar o lugar o velho Cinema Garret (onde se realizaram os primeiros filmes a preto e branco e em cinema mudo),
multiplicaram-se as sessões cinematográficas, os saraus, as peças de
teatro, de dança, etc, e já na década de 1950 surgiram os muito
concorridos e apreciados "Programas da Simpatia", que esgotava plateias.
Os bailes que antes decorriam no salão do velho Ginásio Clube da Torre, passaram também a realizar-se no Aero Clube de Moçâmedes, e logo de seguida no Ferrovia, no Atlético, e no Nautico, cujos salões se
enchiam de gente vinda de todos os cantos da cidade, gente de todas as idades e de ambos os sexos. Novos ventos começaram a soprar... Com o fim da II Grande Guerra
(1839-45) a população europeia alargou-se, e mais gente passou a viver em Moçâmedes,
e na década de 60 assistiu-se a um verdadeiro "boom" nas práticas desportivas, que antes se encontravam reduzidas
praticamente ao futebol, e se expandiram em novas modalidades com
especial realce para o hóquei em patins e o basquetebol masculino e
feminino, que arrastavam aos fins de semanas inúmeros expectadores para
os campos desportivos do Benfica, do Atlético, do Sporting. E novos usos e
costumes fizeram-se substituir aos antigos. Acabaram os
passeios na Avenida, surgiram as "Festas do Mar", e, no campo religioso, assistiu-se ao declínio das romarias que se realizavam
anualmente à Capela de Nossa Senhora do Quipola. Ficam recordações de um tempo que ficou para trás no tempo, e de
uma realidade vivida algures num recanto do litoral ocidental de África,
na bela cidade de Moçâmedes, erguida entre o deserto e o mar...
Seguem alguns textos e poemas de conterrâneos encontrados na Net:
«...Senhora da Quipola
Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E
quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca,
onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto
e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus
irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada
cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:
Quem quiser ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!
Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...
Pergunta ao João...
(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
***
Em marcha lenta
o comboio lá vai...
Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...
A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!
Em marcha lenta
o comboio lá vai...
Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...
entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes
há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...
estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade
da Menina-Mãe ANGOLA!!!
em marcha lenta
o comboio lá vai...
(recordando...)
Aileda (in Sanzalangola)
À Sr.ª da Quipola
Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece
Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade
Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela
Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar
Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem á Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.
Manuela Lopes
MariaNJardim
Créditos de imagem: algumas fotos de Antunes Salvador, outras cedidas por amigos de Moçâmedes