15 julho 2008

Familias de Moçâmedes: Família Pita de Sousa



Trata-se de uma família, cujos elementos aqui presentes, nasceram todos em Moçâmedes. São eles, Irene Pita e Leonel Sousa (ao centro), tendo Irene ao colo o neto, Rui Alberto Sousa Jardim, Fernando Leonel Pita de Sousa (à esq) e Maria de Lurdes Pita de Sousa Jardim (à dt.)

Jovens moçamedenses nos anos 50






1ª foto: Deste grupo de jovens, todos eles nascidos em Moçâmedes, e à época residentes no Bairro da Torre do Tombo, que aqui vemos procurando escalar a falésia da Ponta do Pau do Sul (ponta do Noronha), reconheço:
Da esq. para a dt:
De pé: José Patrício, Carlos Manuel Guedes Lisboa, Manuel Dias Monteiro e Carlos Calão. De joelhos: Amilcar de Sousa Almeida e Norberto Edgar Almeida.


2ª foto:
Da esq. para a dt.:

Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita), Victor Domingos, Carlos Ferreira (Miroides), Amilcar de Sousa Almeida, José Guedes Duarte e Guida Duarte (?).

3ª foto;
Vista panorâmica das pescarias da Torre do Tombo, antes da demolição das mesmas.

Estas fotos permitem ver como era anesta época a zona onde mais tarde foi construido o cais comercial de Moçâmedes. Nesta altura,
como se pode ver, ainda ali existiam as primitivas pescarias, que mais tarde viriam a ser demolidas. O local onde este grupo de jovens, todos eles nascidos em Moçâmedes, posam para a posteridade, era na altura conhecido por «Pedras», e ficava mais ou menos entre a zona onde mais tarde, com a construção do cais comercial, passaram a ficar os estaleiros e o local onde passou a ficar a a ARAN (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se, era o Almirante Henrique Tenreiro, que fazia parte do triunvirato Salazar/Cardeal Cerejeira/Almirante Tenreiro.

A ARAN, surgida após a demolição das pescarias e a contrução do cais e da marginal, funcionava como um entreposto frigorífico onde era depositado o peixe apanhado pelos arrastões, essencialmente pescada, que ali ficava a aguardar o transporte para a Metrópole, para a subsequente comercialização, constando naquele tempo que era vendida como pescada Vigo.


A pescada era abundante na costa mais a sul do distrito de Moçâmedes, ao ponto de muitas vezes o pessoal não dar escoamento ao peixe capturado, como testemunha o site Mar de Viena
onde se pode colher algumas informações sobre o modo como funcionava na época, a pesca de arrastão.
MNjardim

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ANGOLA, PEIXES E PESCADORES

Já te contei a razão pela qual aos fardos de peixe seco lhe chamavam «malas de peixe». Acrescentarei que todas tinham o mesmo aspecto, a mesma forma, dimensões precisas e o peso líquido de 30 quilos. De um modo geral havia grande respeito pela qualidade e apresentação do produto, cuidado que não se notava noutras actividades industriais.

O peixe, sem cabeça, fosse corvina ou carapau, depois de seco e salgado, devia acomodar-se em camadas sobrepostas e em zig-zag simétrico, «cabeça com rabo, rabo com cabeça». Formava blocos compactos que deviam ser atados e contidos em esteiras feitas com fibra grossa de mateba. As malas de peixe ganharam tal popularidade e valor comercial no interior de Angola que, em 1950 e anos seguintes, se transformaram no principal produto de candonga interna do país.

Porque razão se contrabandeava peixe seco ? Simplesmente porque a secagem e o transporte estavam regulados e obedeciam a regras claras estabelecidas pelo Estado e aplicadas pelo Grémio dos Industriais de Pesca. Tudo isto tinha que ver com sanidade e impostos. Quem se desviasse destas regras era considerado marginal e perseguido. Mas o não cumprimento da lei dava lucro fácil e volumoso. Aos industriais e aos candongueiros que entravam no negócio ilegal, o que gerava intrigas, delações e lutas ferozes. Os camiões que transitavam clandestinamente ou seja, com cargas não fiscalizadas, deviam escapar-se a corta mato e tinham os seus caminhos exclusivos que atravessavam a vasta anhara de Benguela. Sobre a areia, as picadas estendiam-se e entrelaçavam num espectacular labirinto, cujas curvas e contra curvas eram dominadas, apenas, por duas categorias de camioneiros, os autenticos «candongueiros» e os «pecadores».

E não era candongueiro quem queria. A própria natureza do delito impunha duras condições. Dinheiro para o negócio, coragem e decisão para enfrentar tanto a polícia como os ladrões que faziam de polícias, boas armas, incondicionais ajudantes ou companheiros de viagem que fossem bons atiradores e, sobretudo, um camião novo, agil e rápido, para evitar encrencas. A partir daqui a mercadoria ou seja o «peixe seco» comprava-se em qualquer pescaria ou salga e havia muitas ao longo da costa, legais ou clandestinas, desde Benguela à Baía dos Tigres e todas dispostas a vender por «dinheiro doce» as malas de peixe que escondiam ou lhes sobravam.

Reconhecidamente, o grande entreposto situava-se na Baía Farta e praias dos arredores, especialmente a Caóta e Caótinha. O negócio era à vista e sempre de noite. Poucos se arriscavam durante o dia. Carregava-se o camião, tapava-se com lonas o melhor que se podia e no acto pagava-se a mercadoria, «cash» e mais barata do que a tabela oficial. Esse era o cerne do negócio, facilmente denunciado pelo cheiro nauseabundo e persistente do peixe seco, que deixava vestígio ou esteira odorífera durante quilómetros, depois da passagem do candongueiro. O cheiro não deixava ocultar a carga aos fiscais que andavam bem armados, ganhavam bem e ainda por cima recebiam metade do valor da multa. Fiscais eram polícias comuns ou guardas fiscais que se passeavam pelas entradas e saidas das cidades principais à caça da multa.

Uma vez em andamento o candongueiro não parava mais e não baixava dos cem quilómetros por hora, escapando-se. Escolhia o caminho como uma lotaria ou inventava novas picadas que só ele conhecia. Se, por acaso, se encontrava com a fiscalização, estavam em risco a carga, o camião e o modo de vida. Velocidade e tiros eram as armas que entravam em jogo. Era um vale tudo. A polícia atirava a matar e de cima dos camiões da candonga, os ajudantes também atiravam a matar.

Dessa guerra e da velocidade dependia a vitória da lei ou a sobrevivência do rico negócio de vender peixe seco na clandestinidade. Contudo, os fiscais não eram o único perigo que o candongueiro enfrentava na estrada. Havia também os falsos fiscais, que eram candongueiros ladrões. Diziam-lhes «pecadores», porque naom só assaltavam os transportistas legais, como se encarniçavam sobre os candongueiros «bons», para lhes roubarem as cargas e completarem eles o negócio.

Todas as noites havia, em qualquer lugar do mato e sem testemunhas, estórias fortes de perseguições e roubos e tiros. Se alguém ficava no terreno, os leões ou os mabecos encarregavam-se de limpar o terreno... As malas de peixe e os transportes desapareciam por artes mágicas. Havia as máfias da candonga e as máfias da fiscalização e por vezes, associações das duas máfias. O peixe seco fazia parte obrigatória da ração dos contratados que deviam receber em cada dia uma caneca de fuba e um peixe seco, o salário da fome. A candonga dava resultado porque havia sempre comprador assegurado, o patrão do contratado.

Sebastião Coelho

14 julho 2008

Gente de Moçâmedes: anos 50


Através desta foto um pouco apagada, podemos recordar mais uma das muitas familias que viviam na cidade de Moçâmedes nos anos que precederam a independência de Angola em 1975. Trata-se do casal Caridade Ponteviane e Homem da Trindade, e dos filhos, Mª de Lurdes Ponteviane Infante da Câmara e Carlos Homem da Trindade conhecido entre nós por «Careca», que nesta altura estava a iniciar-se nas primeiras letras.

Nos estaleiros da Torre do Tombo: década de 50



1ª foto: Vista da baía, pescarias e estaleiro.

O morro da Torre do Tombo com as suas furnas ou grutas. Ali foram encontradas inscrição impressas na rocha branda em tempos remotos, por mareantes que por ali passavam e ali faziam aguada ...





2ª foto: Uma embarcação tipo enviada, - destinada a ser rebocada por outra, para ser utilizada quando a quantidade de peixe o exige-, acabadinha de ser construida nos estaleiros que à época existiam na Torre do Tombo, junto à praia, mais ou menos na direcção da Igreja de Santo Adrião, local até onde chegavam as pescarias ali existentes, e mais tarde demolidas por força da construção da marginal e do porto de cais. Foto tirada no início da década de 50.



Pesca de Sacada foi importantissima até aos 1950. Depois foi ultrapassada pelas traineiras....





Os construtores que aqui vemos, faziam parte da equipa do mestre Alfredo Dias (à esq. do mastro), da qual fazia parte, entre outros o seu filho, Armando Sabino Dias (à dt. do mastro), algarvio casado com uma moçamedense e que mais tarde se radicou em Sá da Bandeira, onde foi proprietário da Pensão Lubango e se lançou-se no negócio de peixe fresco/congelado. Alfredo Dias pertencia já a uma 2ª leva de construtores de barcos chegada a Moçâmedes na década de 30/40. Outros construtores havia, como Gilberto Abano, Urbano Canelas, Augusto Martins, todos eles de origem algarvia, na 1ª década do século XX radicados em Moçâmedes. Mais atrás João de Deus teria sido o 1º. 

É interessante ver-se o nome que foi posto a esta embarcação: «Algarvio», escolha que tem a sua justificação no facto de tanto os construtores como os proprietários, bem como a maioria esmagadora da população europeia de Moçâmedes ser constituida por algarvios e descendentes que nesta altura já se contavam em várias gerações alí nascidas. Foto do livro «Era uma vez Angola» de Paulo Salvador.

O fluxo de algarvios para Moçâmedes, iniciado em 1860 (dez anos após a chegada de portugueses vindos de Pernambuco (Brasil), por força da Revolução Praeeira), foi mais importante no que diz respeito ao desenvolvimento da actividade pesqueira em terras do Namibe. Conhecedores que eram das artes de pescar e daquilo que pensavam vir ali a instalar, levaram consigo linhas, anzóis, para a pesca de vários tamanhos de peixes, de fundo e de superfície, chumbadas, roletes de cortiça, cabos variadíssimos, modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. Mas uma simples rede de não mais que cem braças de comprimento, alada de terra a pulso, não permitia pescar para além do necessário para a sobrevivência, não chegava para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla. Também os pequenos barcos de pesca já não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais algarvios para que viessem instalar os seus estaleiros em Moçâmedes, de modo a que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes de pescar.

Sobre os primeiros construtores navais que chegaram a Moçâmedes , Carlos Cristão escreve in: Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva:

«(...) A convicção e a vontade de vencer convenceram outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»

A zona de Moçâmedes, junto à praia, onde ficavam os estaleiros, ficava na direcção da Igreja de Santo Adrião , arriba abaixo. Chamavamos a Praia do Cano, onde os miúdos os jovens da Torre do Tombo iam a banhos. Seguem alguma fotos mais da zona dos estaleiros e da praia






Junto aos mesmos estaleiros de construção de barcos de pesca, reconheço, da esq. para a dt.
Em cima: ? Serra, ??? Embaixo: Olimpia, Georgete Serra Duarte, o filho e Cuanhama







Na «praia do cano», junto dos estaleiros, da esq. para a dt.: Gertrudes Libório, Olímpia Aquino, Maria Emilia Ramos e Raquel Martins Nunes.


 Nos mesmos estaleiros, da esq. para a dt.: Marizete Veiga, Adelaide Abreu e Olimpia Aquino.







07 junho 2008

Passeios à Praia Amélia no início da década de 50






























Passeio a uma pescaria nos arredores de Moçâmedes, a Pescaria de João Duarte, na Praia Amélia, praia a 5km/sul do centro da cidade.
Na 1ª foto, reconheço, no topo, ao centro, Elisa Romão Veiga. No 3º degrau a partir de cima, e da esq. para a dt: Noémia Bagarrão Pereira (Cócas), Violete Velhinho, e as três mais à dt., de chapeu, Marizette Veiga, Maria Enília Ramos e Olímpia Aquino, todas moradoras na altura, no Bairro da Torre do Tombo. Embaixo, à esq., reconheço apenas Rui Bauleth de Almeida, o 1º à esq., sentado no degrau.

Na 2ª foto, em 1º plano, Maria Emilia Ramos passeando de motorizada sobre as areias soltas da Praia Amélia. Ao fundo e à dt., de chapéu, sentada na areia da praia, reconheço Aninhas Gouveia. Mais ao fundo, a pescaria de João Duarte e respectivos giraus (tarimbas) onde secavam o peixe.


Era comum na época, em Moçâmedes, juntarem-se grupos de famílias e amigos no Verão, aos domingos, em almoçaradas na Praia Amélia. Logo pela manhã cedo partiam as carrinhas que carregavam na carroceria uma boa dúzia de pessoas, de pé, cabelos ao vento, por vezes mal acomodadas, mas felizes, na expectativa do dia agradável que as esperava. Descarregadas as panelas, tachos, pratos, talheres, toalhas, caixas com fruta, legumes, bebidas, etc., as manhãs eram destinadas a banhos de mar nas águas cristalinas e nem sempre calmas com que a Praia Amélia brindava os habitantes da terra. Estes passeios tinham o seu ponto alto à hora da reunião do grupo à volta da mesa para o almoço, que, na maior parte dos casos se traduzia numa boa caldeirada de peixe acabado de pescar pelos homens do grupo, alí mesmo por perto. A corvina prestava-se muito a este tipo de refeição, que muitas vezes levava, em vez de azeite, o óleo de palma, para além do imprescinsível piri-piri... O acompanhamento era à boa maneira africana, uma «piroada» de farinha de milho amarelo. Era de comer e chorar por mais! E se a caldeirada em vez de corvina, fosse de barbelas de corvina, tanto melhor. A variedade de peixes também era uma opção.

Esta prática já vinha de tempos idos, quando não existiam carros em Moçâmedes e o transporte eram as embarcações.
Escusado será dizer que havia gente que enjoava no caminho, e por vezes estragava a sua festa. A partir da década de 60, a prática das almoçaradas na Praia Amélia caiu em desuso, ficando delas a grata recordação de insquecíveis momentos de convívio que mobilizaram durante décadas gente todas as idades, familiares e amigos.

Gente de Moçâmedes: 1952




















Desta foto reconheço, da esq. para a dt. Álvaro Macedo, ? Codinha, Alice e Guilherme da Silva Jardim