19 agosto 2008

Concurso de caninos no rink de patinagem do Parque Infantil







Concurso de caninos no rink de patinagem do Parque Infantil de Moçâmedes.

Na 1ª foto, Melita Parreira da Cruz, que se encontra dentro do rink, à esq. segurando o seu cão, um dos concorrentes, Sónia Madeira (fora do rink, à esq.) e também fora do rink, ao centro, António Marques da Silva (na altura proprietário de uma loja na Rua das Hortas, no gaveto defronte à Robert Hudson).


Na 2ª foto, apenas reconheço Mélita Parreira da Cruz, dentro do rink, à esq., e fora do rink
, Orlanda Cabeça (a 2ª à esq.). Pormenor engraçado na 2ª foto, o da criança tentando aproximar-se do cão para lhe fazer umas festinhas.

Fotos gentilmente cedidas por Mélita Parreira da Cruz

18 agosto 2008

A «Equipa maravilha» do Atlético Clube de Moçâmedes, tri-campeã de Angola
















Rodeada de adeptos que a aplaudiram efusivamente durante o jogo, eis aqui aquela que foi a famosa «Equipa Maravilha» de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes, tri-campeã de Angola na classe de juniores, nos anos de 1962, 1963 e 1964.

Esta foto, tirada em 1962, representa o primeiro ano dessa série de vitórias em que o Atlético Clube de Moçâmedes se consagrou campeão de Angola, após ter vencido no último jogo desse campeonato, a equipa do Sporting de Luanda. Este campeonato de Angola foi realizado em Nova Lisboa.

Este foi o 1º ano da equipa do Atlético na categoria de juniores, e o último ano da equipa do Sporting de Luanda nessa mesma categoria.

Seguiram-se mais vitórias da «Equipa Maravilha» de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes, classe de juniores, nos campeonatos de Angola em 1963 e em 1964. E em 1965 quando ascenderam a seniores, a nova equipa, recheada com muitos destes jovens, venceram igualmente o Campeonato de Angola. Uma autêntica proeza. 

E as coisas não ficaram por aqui para o hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes, apesar da dissolução da «Equipa Maravilha» em 1966, com ida para o serviço militar de todos os seus componentes. Em 1967, com apenas um elemento da antiga «Equipa Maravilha», Carlos Chalupa ( a fazer tropa em Moçâmedes), com Arménio Jardim, Alvaro Ascenso, Rui Sampaio e Briguidé, o Atlético Clube de Moçâmedes consegue  vencer os campeonato de Angola. Mas Atlético estava imparável, e após ter perdido o campeonato de Angola em 1968 no último com o Benfica de Luanda (precisavam vencer e empataram 0-0), eis que novamente em 1969 se sagrou campeão de Angola de hóquei em patins.

Na foto, podemos ver, da esq. para a dt.
Em cima:
Neco Mangericão, ?????, Hemitério Alves , Manuel Rios, Mário de Andrade, Artur Trindade, Congo (irmão do Xico Bamba), Arménio Jardim (Treinador do Atlético), Laurentino Jardim (jogador),Arménio Minas, Zequinha Cruz, Chibante, Orlando Saraiva dos Santos, Faustino, José Costa, Veiga, João Germano Godinha Fernandes, ???.

Embaixo:
?, Carlos Brazão ( jogador), ?, Orlando Santos (jogador), Chico Carmo, Camilo Costa , Pedro Costa (Caála), Daniel Couto, Costa (filho de Camilo Costa), Zé Adriano, Henrique Minas, Fernando Leonel Pita (Leona), Rui Mangerição, Laurindo Couto (jobador), João Martins (Latinhas),

Para mais informações/fotos, sobre esta equipa e sobre o Desporto em Moçâmedes até 1975, consultar o nosso outro sítio AQUI
Foto gentilmente cedida por Artur Trindade

16 agosto 2008

Gente de Moçâmedes na fantástica Leba/Chela



1ª foto: Grupo de moçamedenses de visita à obras construção da estrada da Leba, a nova estrada que iria ligar Moçâmedes/Sá-da-Bandeira. São eles, da esq. para a dt.: Renato Freitas e os dois filhos, Walter e Nelinho, Maria José Azevedo Jardim, Alice Freitas e Florinda Jardim.(Para remontar aos antepassados de Florinda e Renato, clicar AQUI).
 




 2ª foto e seguintes: A estrada da Leba concluida, e a cordilheira da Chela em todo o seu esplendor... Nas duas últimas, a fenda da Tundavala, vista de cima e do sopé da serra.
3ª e seguintes: A espectacular cordilheira da Chela e fenda da Tundavala.
Ver mais In 1000imagens.aspx.jpeg de David Ligeiro



Vai um poema:


Sempre às voltas, sempre, sempre a subir,
olhos atentos, postos e presos na distância,
numa paisagem que, cada vez mais aumenta,
   que sobe até onde ninguém já ousa desistir…
Ai Leba, esse caminho lindo, como outro nunca se viu,
ontem tão longo e difícil, quanto é hoje tão encantador,
não só pela beleza que a mão do Homem nele introduziu,
Mas pelo sublime encanto da Arte de Deus Nosso Senhor.

Aquela Serra imensa, que deste modo assim se agiganta,
espalha e sobe por um céu azul cerúleo, que nos encanta,
que por entre curvas e contracurvas de um asfalto gingão,
agita e renova o ar rarefeito e salva-nos da sufocação.


Do alto da Serra vem uma aragem de sublime fragrância,
que nos ajuda a subir, degrau a degrau, lanço após lanço,
velhos e inenarráveis caminhos de que nunca me canso
e que me proponho subir e descer até à última estância…


5.08.2010

NECO MANGERICÃO





------------------


A Leba faz parte da imensa cordilheira da Chela, nascida a noroeste, na direcção de Benguela, que termina bruscamente na Ponta do Lubango, e que nesta região toma várias designações, como serras do Bimbe, do Lépi, Calenga, Numpaca, Tundavala, Bruco, Leba.

Os primeiros colonos madeirenses desembarcados em Moçâmedes em 1884, com o objectivo de povoar o rico e extenso Planalto de Moçâmedes, como então era designada a região da Huíla.  em Moçâmedes, tiveram que transpor essa gigantesca muralha feita e ageitada em épocas remotas por convulsões geológicas, constituiu o maior desafio colocado aos primeiros colonos madeirenses que, 


No ano seguinte, em 19 de Janeiro de 1885,  ano do término da Conferência de Berlim,  foi a data oficial da fundação da Colónia de Sá da Bandeira. Nos termos daquela Conferência, para Portugal poder manter os territórios "coloniais" tinha que colonizar de facto, caso não estivesse à altura de o fazer teria que os ceder a potência em condições para tal. O direito histórico que Portugal reivindicava desde Diogo Cão, em 1482, deixara de ter valor.

Foi a pé e em carros de bois, que a subida foi feita, através da garganta da Chela, depois de uma paragem na zona da Vila Arriaga ( Bibala).

No livro o «Distrito de Mossâmedes», de Pereira do Nascimento, o autor  refere que se podia escalar a cordilheira da Chela a partir do vale de Capangombe até ao planalto, por quatro gargantas: as portelas do Bruco (abertura rasgada a prumo na rocha por onde se caminha aos zigue-zags por entre tufos de preciosa arborização e aromáticas flores seguindo-se um segundo degrau de subida até ao  arraial da Kaionda (Chela) onde o terreno é cada vez mais íngreme com rochas áridas e  vegetação raquitica incluindo capim, e que desemboca na Humpata., a sul da serra da Neve A altitude é de  1829 metros) e Leba; a aberta de Kilemba; o vale de Tandirikita e, descoberta por caçadores boers, a portela do Hoke.  Pereira do Nascimento refere também que a estrada que sobe pela portela do Bruco (segundo degrau), reveladora de um  vigoroso trabalho de arte, apesar do estado apresenta va devido às chuvas, fora mandada construir pelo Governador Fernando da Costa Leal.

O que se sabe é que um punhado de madeirenses escalou a pé aquelas encostas apoiados com meia dúzia de carroças puxadas por bois que levavam a carga e carregavam os mais frágeis da colónia. Desconhecemos qual terá sido o preço em vidas humanas de tal empreendimento, mas que o trajecto foi conseguido, com a travessia do deserto de Moçâmedes, sob céu escaldante e chuvas torrencias, facto que constituiu a parte mais dramática do nascimento do Lubango!

Desde essa altura e até ao início da década de 70, a transposição da Chela era feita mais a norte, pela garganta da Chela, por uma estrada quase paralela ao Caminho de Ferro, que passava por dentro de Vila Arriaga. Tinha uma extensão de 221 quilómetros, a maior parte em terra-batida e praticamente sem obras de arte, o que significava ter de atravessar linhas de água que na época das chuvas se transformavam em rios caudalosos e lanços muito íngremes sujeitos a deslizamento de terras. Aquele percurso que na época seca demorava de carro de 3 a 4 horas, na estação das chuvas chegava a demorar um dia inteiro e às vezes mais... 

Infelizmente, a estrada da Leba só apareceu a par das realizações  levadas a cabo nese tempo extra, entre 1961-1974, em que Angola,  a par da guerra, teve um grande incremento, mas isso não lhe tira o mérito. Na verdade todas as cidades ficaram ligadas por estradas asfaltadas. Em 1973 Angola dispunha de mais de 8000 km de estradas pavimentadas. Vale ressaltar aqui a excelência da JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola).

:
A Leba, uma das mais majestosas fatias da Serra da Chela, surgia ao nosso olhar como um contraforte aparentemente intransponível, que separa as planícies do Namibe dos férteis planaltos da Humpata, Palanca e da Huíla.
 

Trancrevemos um texto deixado por Diamantino Pereira Monteiro, no site Angola/Lubango:
 
...Foi em meados da década de 60 que se iniciaram os estudos para a construção da nova estrada, tendo-se colocado nessa altura três hipóteses de traçado: a primeira era o aproveitamento do traçado actual (221 Km); a segunda, Moçâmedes - Cainde - Capangombe - Chibia - Sá da Bandeira, um itinerário mais longo (264 Km), mas que tinha a vantagem de contornar a Serra da Chela, entrando em Sá da Bandeira pelo Sul; e finalmente o traçado da Leba (175 Km) mais curto mas muito mais íngreme. A decisão, baseada em estudos de custos de construção e de utilização, foi tomada em finais da década de 60 pela Junta Autónoma de Estradas, então presidida pelo engenheiro Rego Cabral. Foi escolhida a solução mais económica, se bem que a mais pesada em termos de investimento inicial, que no entanto viria a ser largamente compensado pelas diferenças do custo unitário de transporte no percurso total.

A obra, adjudicada à firma portuguesa Lourenços Lda, e dirigida pelos engenheiros da Junta Autónoma de Estradas, viria a ser uma das realizações mais emblemáticas de Angola. Incluindo seis lacetes construídos dentro das normas usadas nos Alpes suíços, o lanço apresenta 20 Km serpenteados, a cobrir uma extensão que em linha recta é inferior a 7 Km. O desnível entre esses dois pontos é de 1000 metros. Nunca até aí fora construído um troço de estrada tão caro: mais de 3 mil contos por quilómetro!
» (1)

...É impossível não ficar algumas horas sentado no miradouro natural em frente daquela serpente rodoviária e deixar que o olhar abrace toda a Chela até aos difusos contornos setentrionais. Espraiar o olhar para poente e saltar de morro em morro até ao início da planície deserta do Namibe, relembrar as lendas do Morro Maluco, a protuberância fálica rompendo o hímen das nuvens e que constitui a referência visual mais marcante daquela paisagem única!»

Quase sem consciência de que o dia se esvai, sou surpreendido pelo mais majestoso dos espectáculos da natureza naquele local: o pôr de Sol na Leba é indescritível! Não há palavras, nem fotografias ou filmes que possam traduzir a luz, as cores, os matizes e os recortes da bola de fogo que se deita de mansinho por trás dos montes, na sua cama do deserto que se adivinha mesmo ali! » (2)


O mais sensacional da Leba é, para além da paisagem, de uma grandiosidade e beleza indescritível que dali se desfruta, formada pela cadeia de montanhas e de vales a perder de vista, o projecto geométrico da estrada, com as suas as curvas e contracurvas bastante pronunciadas, e uma inclinação de pelo menos 10, que imprime ao trajecto o sabor de aventura plena de emoções.
Esta estrada,
um dos «ex-libris» de Angola, 
foi projectada pelo engenheiro António Campinas, natural do Lobito, e é considerada a obra de engenharia mais grandiosa levada a cabo na última fase da colonização portuguesa. Acabada de construir já na década de 70 tal como a ponte do Caminho de Ferro de Moçâmedes  projectada por Edgar Cardoso , aproximaram sobremaneira, moçamedenses e huilanos, que passaram a visitar-se muito mais vezes, e a fruir do grande prazer de viverem numa das zonas mais ricas em potencial turístico de toda a Angola. No campo económico possibilitou um mais fácil escoamento de mercadorias.

Moçâmedes com as suas magnificas praias de areias brancas e águas cristalinas, e
o chamamento de algo verdadeiramente extraordinário como é o deserto do Namibe, habitat das mais belas espécies de animais selvagens, onças, leões, gazelas, elegantes, guelengues, olongos, avestruzes etc. etc, tinha para oferecer ao visitante um conjunto sem igual, todo ele espaço, areia, dunas, pedras, miragens, welwitschias, cactus, as espinheiras... Enfim, tudo quanto o Namibe encerra de especial, em paisagens avassaladoras, diversidade cultural riquíssima, os povos nómadas, as gravuras rupestres do Tchitundu-Hulo (atribuídas aos antepassados dos khoisan), o Iona, as elevadas dunas, o seu rico mar pleno de vida e povoado com a mais excelente e diversificada gama de peixes e mariscos que fazem as delícias da boa mesa.  O Lubango/Huila, terra linda, de ares puros e paisagens deslumbrantes, a oferecer aos visitantes uma mão cheia de belezas naturais, qual delas a mais bela, qual delas a mais prazeirosa: a fenda e a barragem da Tundavala, a Serra da Chela, o Miradouro, a Cascata da Huila, a luxuriante Senhora do Monte, as nascentes de água cristalina, os seus parques e belos jardins floridos, e outros tantos, tantos locais igualmente belos e deleitantes como o Casino, a Piscina e a Capelinha da Senhora do Monte, o monumento ao Cristo Rei, a Barragem da Lagoa, enfim, um conjunto ímpar que faz da região uma das mais bela, senão a mais bela de Angola.

A Tundavala é uma vertigem e uma emoção. Para se chegar ao abismo da Tundavala, é preciso fazer cerca de 15 quilómetros por estradas de terra batida desde a cidade do Lubango. Acho que não há quem não os faça. Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa. A quem olhar a partir de cima para os pés da montanha imponente, a Tundavala surge como um autêntico paredão a mais de 2000 metros de altitude, com a dita fenda de cerca de 700 metros entre dois penhascos, a partir do qual se pode observar o casario raso, colorido e ameno de Vila Arriaga (Bibala), e mais além, estendendo-se até ao limite do horizonte, a terras dos mucubais, povo nativo desta região que vive em tribos no deserto do Namibe e no sopé da Serra, cuja riqueza são os bois, povo que não se mistura com outras tribos, pouco social e resistente à integração. Na 5ª foto podemos, outra pespectiva deste gigantesco paredão que divide a região planáltica da Huila, da região desértica do litoral sul de Angola onde ficam as cidades de Moçâmedes e de Porto-Alexandre, região que se estende mais a leste até ao lendário Cunene, rio que com as suas curvas e contracurvas abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar.

A mítica TUNDAVALA, é hoje para quem a visita, um símbolo de morte e terror, que permanecerá para sempre na mente e no coração povo, como mais uma página negra da História de Angola do século XX. Segundo se diz, ainda hoje é possível encontrar no local testemunhos dessa época, bastando com a biqueira do sapato trazer à superfície cápsulas de balas que alí ainda se encontram enterradas no local, para além dos furos de balas
impressos nas paredes do MIRADOURO. Crimes de violência política do mesmo género, diz-se, ocorreram também na ponta do Pinda (Porto Alexandre), onde foram efectuados vários fuzilamentos, e os corpos em seguida impiedosamente atirados ao mar...


Foi
na fenda da Tundavala, diz-se, que foram efectuados nos momentos a seguir à independência de Angola, fuzilamentos de elementos de movimentos opostos, cujos cadáveres ficaram para sempre no fundo do precipício. Foi o caso de José Espírito Santo, militante do MPLA de Moçâmedes, e funcionário do Banco de Angola, que caiu numa emboscada, ao que consta, da UNITA, quando ao volante do seu carro, passava por Sá-da-Bandeira, a caminho de Luanda.

Aproveito para recordar o assassinato cruel de Armando Sabino Dias, o português empreendedor residente há mais de 35 anos no Lubango, casado com uma moçamedense, Hélia Paulo Dias, que explorou na década de 1950 a Pensão Lubango, foi sócio de J. Franco na Peixaria Lubango, e que meia duzia de anos após a independência, numa noite de Natal, acabaria por sucumbir, brutalmente e à falsa fé, sob as lâminas de uma catana quando se encontrava no interior da sua propriedade, a única na região, nos arredores do Lubango, que na altura abastecia o mercado de víveres ( legumes, frutas, carnes, etc), e que ainda exportava para o carente mercado da capital. Recordo também José Dias Ferreira, mais conhecido por «Ferreira do Saco», o português que teimou em permanecer em Moçâmedes após a independência, e que foi brutalmente assassinado, não se sabe porquê, lá para os lados da Praia Amélia, ou mais propriamente, na praia Azul.


Acredito que esta zona do sul de Angola, há-de vir um dia a ter a projecção que merece nos mapas do turismo internacional. Quando virá este dia, não sei!


Alcançada a paz, o povo de Angola pode hoje contar, graças a Portugal e aos portugueses, com um país enorme, que reune condições excepcionais para num futuro próximo vir a ser a grande potência africana, se o actual governante e os que se seguirem forem capazes de ir além do ciclo dos diamantes e do petróleo, se forem capazes de, emanando exemplos para toda a sociedade, acabaram com o escandaloso sistema de corrupção generalizada que o país atravessa que está a comprometer o futuro das novas gerações. É o único caminho de legar-lhes um país digno, credível e merecedor da confiança dos seus filhos e da comunidade internacional.
Que Deus abençõe o povo humilde e sofrido de Angola!

MNJardim

(2)Pereira Monteiro in Sanzlangola
-----------
Do Bimbe ao Namibe

Dos férteis regadios da Humpata,
pela manhã levantei vôo da chitaca;
do alto divisando a geometria dos valados
sobrevoei o planalto de contornos ondulados.

Chegado à linda Leba, ninho de líricas águias,
onde o meu Irmão Valério erigiu sua Pousada,
meu breve olhar galgou o paredão róseo,
degrau de gigantes, pela serra abaixo.

Seguindo o serpentear do Munhino,
cada vez mais clara se tornava a aridez;
ao longe, avistava-se o azulado horizonte marinho.

Com a baía de Moçâmedes pelo poente,
continuei rumando ao sul, para o belo deserto.

É neste oásis espiritual que se admira a admirável,
tão paradigmática quanto a estranha dualidade humana:
a welwitchia, medrando teimosa na maior secura.

Com duas folhas apenas (como homem e mulher),
lentamente crescendo e sempre se afastando,
tocando-se quando se enrolam, às vezes nunca na vida,
um drama inteiro, sob a doce luz oblíqua na areia fina.

Mais longe, o grande Cunene entre gargantas rochosas.

Nas distantes monumentais dunas do Namibe, as arestas de areias vivas,
os ocres quentes,
o Silêncio Divino.

Zé Kahango


Para mais informação, clicar AQUI
LUBANGO/ LEBA com música Bonga,

MOÇÂMEDES/LEBA
Viagem de comboio (Garrats) Lubango/Moçâmedes

http://www.scribd.com/doc/5568652/Leba

Gente de Moçâmedes (1946)
















Mais uma foto de gente que viveu em Moçâmedes até vésperas da independência de Angola em 11 de Novembro de 1975. Trata-se Artur Ferreira Trindade, esposa e cunhada. Artur Ferreira Trindade, filho de Moçâmedes,
foi funcionário da Câmara Municipal de Moçâmedes , onde exerceu funções de Secretário até finais da década de 60.

Conforme refere o moçamedense Mário António Guedes da Silva no seu livro
«Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes», como desportista, Artur Trindade venceu os dois primeiros campeonatos de Angola de ténis (Lown-ténis), nos anos de 1934 e 1935 em singulares, saiu também vitorioso noutros torneios importantes, e foi líder desta modalidade em várias épocas. Na variante de «pares» ganhou algumas competições destacadas, em parceria com o seu irmão Rogério Ferreira Trindade.

Levava-se a sério, em Moçâmedes, a prática desta modalidade, principalmente até à década de quarenta (século XX), pressupostamente por a cidade estar dotada de alguns «courts de ténis» apropriados, e , crê-se, por não existirem outras alternativas desportivas senão o futebol. Ali foram formados vários campeões, reconhecidos não só em Angola mas também internacionalmente, para gáudio dos seus apaixonados adeptos.
A dedicação e a determinação dos respectivos atletas levava-os à concretização dos sonhos de uma jovem cidade com justificadas ambições em todos os campos.
Foto gentilmente cedida por Artur Trindade (filho)

15 agosto 2008

«Copo de água» no Palácio do Governador - Moçâmedes (finais da década de 60)



Esta foto  foi tirada, segundo a pessoa que me a disponibilizou, no decurso de um «copo de água» oferecido no Palácio do Governador por ocasião do casamento da filha do encarregado do Governo de Moçâmedes, Intendente Amoreira Martins, e nela podemos ver, entre outros, à dt. o moçamedense Artur Trindade, que na altura desempenhava o cargo de Secretário da Câmara Municipal de Moçâmedes.

Como não há nada mais a acrescentar sobre este "copo de água", parodiando «casamentos reais» e outras coisas mais passadas na nossa Moçâmedes, deixo aqui uma das suas muitas estórias  de Jota Carranca que vêm sendo publicadas in Sanzalando em Angola de um modo tão peculiar como é o seu:

"...Já fui ao santo sacrifício da saída da missa, ali ao lado Palácio do Governador, na Igreja de Santo Adrião. Me lembro uma vez que a cidade fechou porque era o casamento da filha do Sr. Governador (Salles de Brito). Parecia o casamento do Príncipe inglês. Cortejo a pé e o povão a atirar qualquer coisa que esqueci. A gente não foi na boda mas ficou feliz. Pobre fica mesmo feliz só de ver os outros feliz. Mas isso era outra coisa. Hoje é Domingo, está calor para caramba e o melhor mesmo é ir até na praia. Vesti os calções, os chinelos de plástico de enfiar no dedo, agarrei na toalha e zarpa que se faz tarde. Praia das Miragens aqui estou eu. Fico na direcção da porta do Club Náutico porque…Num posso nem pensar. Mas ela vai chegar e fica sempre ali. Chapéu de Sol alaranjado. Vem sempre de pai e mãe a tiracolo. O Bouca de Sapo já estacionou. Incho o peito, endireito as costa e dou nas vistas. Bom dia como estao? ‘Bem!’ figuei contente, me olhou. Dou uma corrida e um mergulho. Ai! também tinha que sai chapão? Num porte atlético, estilo Jogos Olímpicos, nado até à jangada. Mas sempre no meio das cordas não vá as caimbras me licharem. Ué, jangada está mais longe ou sou eu que tou fraco? Consegui. Me sento na borda para respirar e poder olhar o Chapeu de Sol Alaranjado. Que nada, não vem aqui. O pai, aloirado e cabelo penteado para trás dá um mergulho cheio de nota 10. Sai da água, não se despenteou, e vai na toalha apanhar sol. Que não se levanta. Trás Biquini azul, mas não se levanta. Mas aqueles cajos ali estão a jogar à bola e me tapam a visão. Sai daí, meus. Nas arcadas estão os mais velhos que já não têm pele para estes sois. E ela que não vem na água. Subo na prancha.Desconsigo de mergulhar. Só mesmo de pés. Não, tenho que tentar. Tomo balanço, fecho os olhos e já esta! pensei eu. Me enganei. Escorreguei e foi de costas mesmo. Grande estilo. Subi na jangada outra vez, me pus num canto e a chorar lá dentro com a dor nas costas. Tá melhor ir para terra. Tá tão longe. Boia e descança. Nada mais um bocado. Já tenho pé. Puxa, tudo por causa dela e ela não viu nada. Quando era mais monadengue, foi o sr. Bauleth que me ensinou a nadar. Que paciência ele tinha. Foram tantos que aprenderam a nadar com ele. Posso jogar à bola? ‘Que não! a bola atrapalha-te’. Fico na baliza?! ‘Já disse não, isto é para homens’, desconheço quem disse mas andava no liceu. Me fiquei pela toalha à espera de um olhar que não veio. Vou até à ponte. Dizem que um D. Luis qualquer desceu nela quando foi visitar a cidade. Está velhinha. Muitas tábuas já foram comidas pelo salite e os pilares têm reboco de mexihlão. Aqui não vejo o Chapéu de Sol alaranjado.

Felizmente só estamos em Novembro e faz calor

13 agosto 2008

Baile no Ferrovia em Moçâmedes, na década de 60





















1ª foto:
Nesta foto, tirada num baile realizado no Ferrovia de Moçâmedes, reconheço, entre outros, o Dr. Mesquita, Chefe da Delegacia de Saúde de Moçãmedes (de óculos, a dançar, creio que com a sua mulher), Fernando Leonel Pita de Sousa (Leona), também a dançar, de perfil, um pouco mais à dt. Na mesa,o piloto da barra (o Sr. forte de costas), tendo por detrás, Dias Ferreira. Na mesma mesa, de frente a conversar, com óculos escuros, o marido de Manuela Martins.

2ª foto: Foto actual, mas que permite recordar a fachada do edifício onde ficava a sede do Ferrovia, hoje uma empresa »Vamar». ...................

O Ferrovia de Moçâmedes, ou Associação Benificente dos Ferroviários de Moçâmedes, ficava na então denominada Rua Serpa Pinto, a rua que fechava com a sede do IASA (Instituto de Assistencia Social de Angola), ao lado dos antigos escritórios de J. Patrício Correia. Mais tarde, nessa rua, em frente ao Ferrovia foi construido um novo edifício, onde ficavam os escritórios da Companhia Mineira do Lobito.

Nos seus primórdios, por volta da década de 20 do século passado, o Ferrovia chegou a possuir uma aguerrida equipa de futebol com grande espírito colectivo, e totalmente constituída por ferroviários. Contudo, com a proliferação de clubes desportivos na cidade de Moçâmedes, a sua Direcção acabaria por encerrar o sector desportivo, tendo mais tarde, por resolução do Governo Geral de Angola , se transformado em instituição de utilidade pública. Não obstante, a vocação desportiva do Ferrovia acabaria por vir de novo à tona, na década de 50, através da sua equipa de basquetebol feminino, surgida numa altura em que Moçâmedes registava uma intensa actividade na modalidade de basquetebol feminino com nada menos de nada menos de 4 equipas, que se disputavam entre si, e enchiam completamente os campos de jogos da cidade. Ou seja, as aguerridas equipas do Atlético Clube de Moçâmedes, Sport Moçâmedes e Benfica, Ginásio Clube da Torre do tombo, e do Sporting Clube de Moçâmedes. Não obstante, a equipa de basquetebol feminino do Ferrovia não passaria porém, de um epifenómeno, pois após as primeiras actuações, acabaria por se diluir.

Quanto à vocação cultural e filantropica do Ferrovia enquanto instituição de utilidade pública, essa sim, manteve-se durante décadas, através de actividades recreativas dinâmicas e vigorosas dignas de louvor, que se mantiveram até à independência de Angola, em 1975.

Era na Associação Benificente dos Ferroviários de Moçâmedes (Ferrovia), que, na década de 40, a população de Moçâmedes assistia a sessões cinematográficas aos sábados e aos domingos, à tarde e à noite, quando a bela sala de espectáculos do Cine Teatro Garrett, que fazia lembrar o Coliseu de Lisboa, com a sua arquitectura clássica ao estilo da época, com camarotes a toda a volta, foi transformada na sede do Atlético Clube de Moçâmedes.

Era nessa altura proprietário do Cine Teatro Garrett, Raul de Sousa (pai de Dina Chalupa e do Lico de Sousa), e com a venda do edifício ao Atlético, toda a aparelhagem cinematográfica foi transferida para o Ferrovia, onde, na amplo salão de festas munido de um palco, passaram a decorrer as sessões. Ainda recordo D. Aninhas, a esposa de Raul de Sousa, antigos proprietários do Cine Teatro Garrett, senhora benemérita por quem a criançada fica à espera à porta da Associação para uma entrada «à borla» nas matinées. ,

A biblioteca do Ferrovia, a única biblioteca publica da cidade, era outro dos atracticos que canalizavam para a Associação grande número de leitores assíduos. Alí o leitor podia encontrar dispostos, numa ampla sala, livros de todos os géneros e para todos os gostos. Cheguei a ler, levados da biblioteca do Ferrovia para minha casa livros de grande nível que alí se encontravam, tais como : Êxodos, Mila 18, Os subterraneos da liberdade (2 vols) de Jorge Amado, « Os capitães da areia», este mais tarde proibido e retirado da Biblioteca pela PIDE, e outros como «Os capitães de areia», «A Cabana do pai Thomás», «As vinhas da ira», «Não matem a cotovia» e outros mais, como coleccção Alexandre Herculano, Eça de Queirós, e autores estrangeiros, como Stefan Zweig,

Foi ali que muitos jovens e adultos tomaram o gosto pela leitura e tiveram a oportunidade de actualizar os seus conhecimentos, ou inteirar-se através da leitura de jornais das últimas notícias da actualidade.

Recordo perfeitamente o interior das instalações do Ferrovia, com o seu amplo salão de festas munido de um palco, ao fundo, onde muitas peças de teatro, (dramas e comédias) subiram à cena, como «Inês de Castro», e outras que não recordo, em espectáculos apinhados de gente e calorosamente aplaudidos, ensaiados por «carolas»que se revelaram grandes actores amadores como Campos, avô Lena Rocha, António Martins (Latinhas), o jovem Norberto Gouveia (Patalim), Jacqueline Simão, e outros tantos que a memória não deixa recordar, como Salomé Inácio, Everdosa, etc., etc.

Recordo o salão de jogos, onde se jogava às damas, ao gamão, xadrez, bilhar, cartas, etc., e onde ao fim do dia se reuniam uma série de frequentadores assíduos, que para ali convergiam ao fim do dia trabalho, como Pissarro da Alfandega, o patriarca da família MInas , Antonio Matos (pai de Julica), Leonel Sousa e outros mais
uns para jogos, outros para ler jornais. Recordo o pequeno bar que ali existia e servia cervejas sandwiches, bolos, refrigerantes, chocolates, etc. , bem como o local onde ficavam os lavabos, num quintal que existia nos fundos do edifício.

No Ferrovia era também comum realizarem-se «copos de água» de casamentos,
bem como bailes como aquele que podemos ver aqui representado através da 1ª fotografia.