16 fevereiro 2011

Alguns dados genealógicos de familias antigas de Moçâmedes: a família de Francisco José Serra

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Quem viveu em Moçâmedes decerto conheceu José Serra, o moçamedense que fo um conceituadoi funcionário do Sindicato de Pesca de Moçâmedes, e mais tarde  do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, após extinção do referido Sindicato. Na foto,  enquanto guarda-redes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube do dragão flamejante (como se pode ver impresso na camisola), inaugurado em 1919, que foi pioneiro em Moçâmedes com as modalidades desportivas de futebol, natação, remo e vela. 


 José Serra,  na Praia das Miragens em Moçâmedes quando era ainda jovem

José Serra era casado com Ivone de Sousa, uma das filhas de José de Sousa (1), mais conhecido por José de Deus (1). Era  irmã de José de Sousa (conhecido pela alcunha de José Malcriado, casado com Ângela Martins Nunes pais da Graça e  da Ângela),  e de Henrique de Sousa (casado com Guilhermina (não deixaram descendência) , e ainda  de Leonilde de Sousa (casada com o professor Marques, da Escola Portugal). 


 

Francisco José Serra, pai de José Serra



José Serra era filho de Francisco José Serra, natural de Olhão,  um dos muitos olhanenses que emigraram para Mossâmedes /Moçâmedes, Angola, hoje cidade do Namibe, no último quartel do século XIX,   numa época em que, após a Conferência de Berlim, decorriam na Metrópole  campanhas de sensibilização para angariamento de "colonos", efectuadas através da imprensa e de editais, que  de norte a sul de Portugal eram colocados  nos adros das igrejas,  incentivando os portugueses a partir  para as terras longínquas de África, onde lhes prometiam uma vida melhor.  Portugal  de acordo com os ditames  saidos daquela Conferância (1884-5), era  obrigado pelas potências europeias industrializadas de então,, a  povoar e a explorar as  muitas e diversificadas riquezas das suas  colónias,  sob a pena de as ter que ceder  a quem tivesse melhores condições para o fazer.
 
Do casamento de José Serra com Ivone de Sousa nasceram Ivone Serra e Alexandre Serra. Mais tarde, viúvo, José Serra voltou a casar com Arménia,  de cujo casamento nasceu mais uma filha  que faleceu novinha  ainda em Moçâmedes.

Os pais de José Serra,  Francisco José Serra e Inês de Jesus Serra, tiveram mais três filhas:  Florinda Serra, Clarisse Serra  e Georgete Serra, todos nascidos em Moçâmedes.  Florinda foi casada em primeiras núpcias  com Raúl de Pinho Gomes e mais tarde com Matos Mendes. Clarisse  casou em Moçâmedes com Dinis, mas cedo partiu da cidade indo viver para a Metrópole.. Georgete casou com  José Duarte, conceituado comerciante da terra até 1975 (Mercearia e Modas, ao fundo da Rua da Hortas, e Pescaria na Baia dos Tigres em sociedade com Olimpio Aquino)
  A família Francisco José Serra, possuia, na época, uma das muitas pescarias que circundavam a baía de Moçâmedes, situada  junto da Fábrica de Conservas que nos anos 1950 era propriedade da Sociedade Oceânica do Sul (SOS). O patriarca Francisco José Serra faleceu ainda novo, em plena laboração, quando saltava de um barco para a ponte,  este virou e bateu-lhe no peito.

                                                                
Os estaleiros da Torre do Tombo, em Moçâmedes, hoje Namibe


Foto tirada nos estaleiros da Torre do Tombo, que ficavam onde é hoje a marginal, em zona próxima da Igreja Paroquial de Santo Adrião. Em cima e da esq para a dt: Florinda Serra Matos Mendes, Getinha Serra Duarte, José António Serra Duarte e José (Zeca) Embaixo: Olimpia Aquino, Georgete Serra Duarte, Florindo Matos Mendes e Leonélio Matos Mendes


Do  primeiro casamento de Florinda Serra com Raúl de Pinho Gomes nasceram Artur Pinho Gomes,  Carlos Pinho Gomes, e ? Pinho Gomes. Do 2ºcasamento, com Matos Mendes nasceram Leonélio (de alcunha Cuanhama) Florindo e José, 


Georgete Serra Duarte e José Duarte, eram  pais.  de Georgete (Getinha) e de José  António (faleceu de acidente automóvel,  quando ia de viagem de férias, de Luanda para Moçâmedes,  enquando prestava  serviço militar). Ambos encontram-se na foto, em cima e ao centro.

(1) Segundo Carlos Cristão,  in Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola):

"... A convicção e a vontade de vencer contaminou  outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.


E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus -  que,  acompanhado pelo calafate João de Pêra, se estabeleceu  numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»




Fica mais esta recordação.
MariaNJardim


Fotos gentilmente cedidas por Leonélio Matos Mendes e Olímpia Aquino Arvela

09 fevereiro 2011

Padre Luís Carlos, Fundador da Comunidade Shalom. Tudo começou em Moçâmedes. Namibe, Angola, nos anos 1950...





Para os moçamedenses e para todos quantos privaram com o Luís Carlos, aquele jovem bom, inteligente, trabalhador e sonhador,  que viveu entre nós nos anos 1950,  que em Moçâmedes foi crismado  por D. Daniel Gomes Junqueira, que vimos trabalhar na Casa Inglesa, ajudar a dizer missa, organizar encontros de juventude, e que a determinada altura se afastou da cidade para  prosseguir o seu sonho...  


 



O desejo de ser padre existia em Luis Carlos desde criança e, em 1958, entrou no Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola.  No dia 6 de julho de 1968, foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e onde transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude. 



 O amor me chamou e eu vim

Deixei minha casa e meu trabalho
Por um chamado maior
Estou aqui para te seguir até ao infinito
Jesus libertador
Na partilha da minha vida, até me perder
Para ser livre na liberdade do amor
Meu pensamento está na justiça e na verdade
E meu coração ama a bondade com ternura
O meu desejo não pára na beleza das coisas
Eu te desejo meu Deus, bondade, beleza e verdade sem fim
Para os jovens doarei minha vida
Na aliança da transformação do Reino
Sou feliz porque vim e estou aqui
E na aventura de um amor maior
Minha liberdade se faz no desafio
Quero responder para te seguir
Minha vida quer ser livre como o vento
E minha ação saborosa como o pão
O vinho da alegria eu hei-de beber no calor da luta
O Reino é mais importante que tudo
E eu vou te seguir generosamente
Eu te agradeço, meu Deus
Porque me amas na minha fragilidade
E me transcendo no caminho que tu me dás
Tu és meu caminho, Senhor, minha verdade e minha vida
Eu te amo e confio no amor e na confiança
Que teu amor me dá
Com a Humanidade eu caminho
Clamando por vida em abundância
Como uma pequena semente da libertação
Que o teu amor sustenta

Pe. José Luís, Comunidade Shalom



Recordemos, pois, o Luís Carlos que conhecemos, ou melhor, o Padre Luís Carlos,  através do video acima colocado e concebido em sua homenagem pela Comunidade Shalom, e destas fotos que ousei retirar do mesmo...
 


Fotos de missas juvenis na Laje, em Sá da Bandeira (Lubango-Angola)






Enquadramento


O  Papa João XXIII e o Concílio VATICANO ll

Foi com grande surpresa para a Igreja que o Papa João XXIII (1886-1963) anunciou a 25 de Janeiro de 1959 a sua intenção de realizar um Concilio Ecuménico. Muitos achavam não haver motivo para tal…e que este Papa seria era um Papa de transição, que breve seria o seu pontificado… Eleito em 1958, faleceu em 1963! Mas convocou o Concilio e deixou uma grande herança. Por isso não foi um Papa de transição, como muitos pensavam…

O Concilio teve inicio a 11 de Outubro de 1962 e foi encerrado pelo Papa Paulo VI a 8 de Dezembro de 1965, no dia de Nossa Senhora da Conceição. Foi este Concilio que abriu a Bíblia aos católicos; reformou toda a liturgia; deu valor ao Povo de Deus, ao possibilitar que os leigos uma missão definida; abriu a Igreja ao diálogo com o Mundo; deu atenção aos meios de comunicação social para anunciar o Evangelho; a tónica Missionária “ad gentes”; abriu para o Ecumenismo; declarou a Liberdade religiosa e manifestou os valores das outras religiões não cristãs. Eis a riqueza do vaticano II:



MENSAGEM DO CONCÍLIO VATICANO II  (1965)


Aos jovens


É finalmente a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem - pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela.

A Igreja, durante quatro anos, tem estado a trabalhar para um rejuvenescimento do seu rosto, para melhor responder à intenção do seu fundador, o grande vivente, o Cristo eternamente jovem. E no termo desta importante «revisão de vida», volta-se para vós. É para vós, os jovens, especialmente para vós, que ela acaba de acender, pelo seu Concílio, uma luz: luz que iluminará o futuro, o vosso futuro.

A Igreja deseja que esta sociedade que vós ides constituir respeite a dignidade, a liberdade, o direito das pessoas: e estas pessoas, sois vós. Deseja em especial que esta sociedade deixe espalhar-se o seu tesoiro sempre antigo e sempre novo: a fé, e que as vossas almas possam banhar-se livremente nos seus clarões benéficos. Tem confiança que vós encontrareis uma força e uma alegria tais que não chegareis a ser tentados, como alguns dos vossos antepassados, a ceder à sedução das filosofias do egoísmo e do prazer, ou às do desespero e do nada, e que perante o ateísmo, fenómeno de cansaço e de velhice, vós sabereis afirmar a vossa fé na vida e no que dá um sentido à vida: a certeza da existência de um Deus justo e bom.

É em nome deste Deus e de seu Filho Jesus que vos exortamos a alargar os vossos corações a todo o mundo, a escutar o apelo dos vossos irmãos e a pôr corajosamente ao seu serviço as vossas energias juvenis. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitadores, sinceros. E construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados.

A Igreja olha-vos com confiança e com amor. Rica de um longo passado sempre vivo, e caminhando para a perfeição humana no tempo e para os destinos últimos da história e da vida, ela é a verdadeira juventude do mundo. Possui o que constitui a força e o encanto dos jovens: a faculdade de se alegrar com o que começa, de se dar sem nada exigir, de se renovar e de partir para novas conquistas. Olhai-a, e encontrareis nela o rosto de Cristo, o verdadeiro herói, humilde e sábio, o profeta da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens. É em nome de Cristo que nós vos saudamos, que vos exortamos e vos abençoamos.

Papa Paulo VI

(na conclusão do Concílio Vaticano II, 1965).







 O padre Luís Carlos e s Comunidade Shalom



O padre Luís Carlos Contente Garcia de Castro, nasceu em 16 de janeiro de 1938, na cidade de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, Portugal. Orfão de mãe quando tinha 6 anos de idade e, na ausência do pai, foi criado por um tio. Aos 12 anos emigrou para Angola. Desde logo começou a trabalhar para se manter e estudar. 

Em Moçâmedes, nos anos 1950, estudou no nocturno o secundário, enquanto trabalhava na Casa Inglesa. Ajudou a dizer missa, organizou encontros de juventude, e  a determinada altura  afastou-se da cidade para  prosseguir o seu sonho... O  desejo de ser padre  de fazer alguma coisa em seu favor do próximo, existia  nele desde criança, e, em 1958, levou-o a entrar para o Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola, carregando consigo o "sonho de uma Igreja livre e pobre, numa sociedade livre de pessoas livres".

Preocupado com a educação da juventude que sempre lhe causou inquietação, durante as férias de 1966, e em 12 de fevereiro de 1967,  depois de vários encontros em Luanda, Lobito, Moçâmedes, Nova Lisboa, realizou um encontro de jovens no salão paroquial da Sé de Nova Lisboa, considerado o início do Movimento Encontros de Jovens Shalom. O Movimento logo se espalhou por várias cidades de Angola, sendo o Padre Luís Carlos nomeado  seu Assistente Geral.

No dia 6 de Julho de 1968 foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.

Em 1972, com outros jovens, continuou a sonhar  na fundação de uma Comunidade que pudesse assessorar a Evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola.

Em 1973, fez uma especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este Movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz.  O objectivo  era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.

Nessa altura, Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política  (PIDE) estava atenta  à formação de todo e qualquer Movimento, incluindo religioso. O Concilio Vaticano II tinha chegado ao fim (1965).  Falava-se de um histórico encontro do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com os três principais líderes dos Movimentos de libertação das colónias portuguesas: para além de Amílcar Cabral (da Guiné-Bissau e Cabo Verde), Agostinho Neto (de Angola) e Marcelino dos Santos (de Moçambique). A  Encíclica “Populorum Progressio”, acolhera a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento.

Em 7 de dezembro de 1974, chegam ao Lobito e juntam-se ao padre Luís Carlos, o padre Manuel Couto e o diácono José Teixeira,  para formarem Comunidade de missão junto à juventude. D. Américo, bispo de Nova Lisboa, ofereceu uma casa da Diocese onde fizeram morada. Em 1975 a Conferência Episcopal nomeia o padre Luís Carlos Assistente Nacional da Pastoral da Juventude de Angola e os Bispos comprometem-se a dar uma contribuição para o sustento da Comunidade.

Em 1 de agosto de 1975, devido à guerra civil, o padre Luís Carlos deixa Nova Lisboa, e chega ao Brasil, Rio de Janeiro no dia 13, depois de uma viagem atribulada.

Na CNBB, no Rio de Janeiro, conheceu D. Aloísio Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza e D. Paulo Ponte, Bispo de Itapipoca, que o convidou para trabalhar na sua Diocese.

Em 30 de Março de 1976, fixou residência, em Fortaleza, na Rua Olavo Bilac, na capelania de S. Judas Tadeu. A Comunidade Shalom já tinha iniciado e desenvolveu um grande trabalho nas dioceses de Fortaleza e Itapipoca.

Em 1978, o padre Luís Carlos veio para Portugal  para apoiar os jovens do Movimento que tinham vindo de Angola. E em 16 de Março desse ano iniciou a Comunidade em Riachos, na Diocese de Santarém, sendo acolhido na casa paroquial pelo padre Américo.

 Em 15 de Março de 1982, o padre Luís Carlos voltou a Fortaleza, depois de uma ruptura entre os membros da Comunidade. E foi um reinício. Em 5 de junho de 1982, foi instituído pároco da recém-criada Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, Barra do Ceará, onde permaneceu por 10 anos. Em 12 de Janeiro de 1983, D. Aloísio reconheceu a Comunidade e nomeou o padre Luís Carlos seu Coordenador Geral. Em 22 de Abril de 1984, D. Aloísio aprovou as Normas da Comunidade Shalom, como uma Sociedade de Vida Apostólica. Em 15 de agosto de 1997, o padre Luís Carlos deu início à fundação da Comunidade Shalom Feminina.

O Padre Luís Carlos foi Coordenador Geral da Comunidade Shalom, até 16 de julho de 2002, quando, a seu pedido, foi eleito um novo Coordenador. Actualmente, o padre Luís Carlos escolheu viver na sua terra natal, Ilha Terceira, Açores, onde desenvolve trabalho pastoral, sobretudo como pároco.

Sobre a Comunidade ver aqui:






Pedagogia

 






MariaNJardim

Partes do texto, retiradas de:
Comunidade Shalom. 
Shalom o que é? 

08 fevereiro 2011

HÓQUEI EM PATINS: "Selecção de Moçâmedes" e "Atlético Clube de Moçâmedes", Angola, 1955 e 1956. O inesquecível José Adriano Borges e outros tantos mais...


Foto do meu album

A euforia dos nossos vitoriosos!
Nunca é de mais lembrar o quanto Moçâmedes (hoje, cidade do Namibe), era  uma cidade ligada à prática do DESPORTO. A adesão da população jovem às várias modalidades desportivas, nas diferentes épocas,  era tanta, que alguém que esteja  interessado em alguém que  em Moçâmedes tivesse vivido entre 1920 e 1970, sobretudo do sexo masculino, terá muitas possibilidades de o encontrar nas fotos publicadas neste blog dedicado ao desporto naquela cidade: Moçâmedes: memórias desportivas.

A foto acima,  diz respeito à Selecção de Moçâmedes vencedora do torneio quadrangular de hóquei em patins das Festas de Nossa Senhora do Monte, em Sá da Bandeira, em 1956, nas quais participaram as selecções de Moçâmedes, Sá da Bandeira, Nova Lisboa e Benguela. A final foi disputada entre Moçâmedes e Sá da Bandeira, tendo vencido, como não podia deixar de ser, a aguerrida selecção de Moçâmedes, por 4-2.

Para além dos hoquistas, encontram-se nesta foto  bastantes caras conhecidas. São, da esq. para dt., em cima:  Quim Guedes (hoquista), Antoninho Jardim, Rui Mangericão (hoquista), Vitalino Amem, Rui Coelho de Oliveira (hoquista), Costa, José Adriano Borges (hoquista-treinador), Álvaro Jardim (hoquista), ?, Tolentino Ganho (hoquista), José Cicorel, Zequinha Carvalho, Chibante, Pinheiro (Galo Encarnado), ?, Jorge Canelas,  Carlos Jardim,???, e Humberto Pinho Gomes.  Embaixo, também da esq. para a dt.: Jorge Madeira, Arménio Lemos, Arménio Jardim (hoquista), José Pedro Bauleth, Rui Figueiredo (Rabiga-hoquista), Hernâni Silva, Neco Mangericão, Carlitos Guedes (hoquista), Carapanta e ?.




Foto do meu album

Esta foto representa a finalíssima conquistada pela equipa de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes, num torneio quadrangular, em 1957, na cidade do Lobito.  Entre simpatizantes lobitangas, moçamedenses e atletas de basquetebol feminino do Benfica de Nova Lisboa, podemos ver, embaixo, da esq. para a dt: António Araújo, José Adriano Borges (hoquista-treinador), Arménio Jardim (hoquista) e Tolentino Ganho (hoquista).
 
Foto do meu album

Foto da mesma finalíssima conquistada pela equipa de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes, num torneio quadrangular, em 1957, na cidade do Lobito.

Falar do hóquei em Moçâmedes sem falar de José Adriano Borges, o popular Zé Adriano, seria um sacrilégio. Foi graças a José Adriano Borges que a modalidade de hóquei patins foi fundada em Moçâmedes, através da formação da 1ª equipe do Atlético, no início da década de 50, equipe que ele próprio integrou. José Adriano Borges não sendo embora uma pessoa excepcionamente dotada para a prática do desporto, foi um amante do desporto, que além de jogar e praticar futebol, hóquei em patins, cilismo, atletismo e caça submarina, possuía excepcionais qualidades e capacidades organizativas essenciais para o bom êxito desta modalidade desportiva.

José Adriano Borges, chegouh a Moçâmedes, vindo do Lobito, numa altura em que Portugal já havia ganho vários campeonatos do mundo de hoquei em patins, tendo acabado com a hegemonia dos inglêses na modalidade, e os nossos jovens ouviam através dos relatos de hoquei, os nomes de Jesus Correia e Correia dos Santos, nomes que se tornaram nos seus próprios ídolos. José Adriano que já havia praticado a modalidade na cidade do Lobito, conseguiu não só criar empatias e sinergias entre a juventude  da terra como sensibilizar Raúl Radich Júnior, na altura Presidente da Direcção do Atlético Clube de Moçãmedes, levando-o a oferecer ao Atlético dois equipamentos completos para aquela que viria a ser a 1ª equipe de hóquei em patins do Namibe. E foi graças  à dedicação e paixão de José Adrioano que o Atlético Clube de Moçâmedes conseguiu vencer nada menos que 7 campeonatos de Angola de hóquei patins, entre séniores (4) júniores (3), de 1962 a 1971. Uma autêntica proeza, se tivermos em conta que estes campeonatos provinciais apenas haviam começado na década de 1960.

José Adriano Borges, popular Zé,  ficará para sempre como uma referância positiva na memória daqueles que com ele lidaram e partilharam nesses anos de glória do hoquei moçamedense, e daqueles que tiveram o privilégio beneficiar da sua sociabilidade.

MariaNJardim

Gente de Moçâmedes (actual Namibe) em agradável convívio: 1964

 


Muitas caras conhecidas neste grupo de moçamedenses, que se divertem, confraternizando. Da esq. para a dt, de pé: Eugénio Paulo (de costas)e Helena Felix Paulo, José Adriano Borges, Rui Frota, , Teresa Banha Duarte,  Ângela Frota, Manuela Campos Frota (só se vê parte da cara), ?????,  a mãe e a esposa de A.Militão (do Banco de Angola) no canto dt..
Da esq. para a dt. de pé: José Guedes Duarte, Sallete Leitão


 
Da esq. para a dt: o saudoso José Adriano Borges, Ruth Gomes Borges e a filha Manuela, Mário Rogério e Afra Leitão, ??????, A. Militão (do Banco de Angola),  esposa, mãe e filhos, e no canto dt. Aurélio Saavedra de Oliveira e Gina Saavedra, a esposa. De Aurélio Saavedra de Oliveira, o inesquecível Chefe de Repartição da Câmara Municipal de Moçâmedes (sector obras públicas), tenho a imagem de uma pessoa excepcionalmente bem disposta e brincalhona, junto da qual ninguém poderia estar infeliz. Fotos gentilmente cedidas por Telmo Ascenso. Ficam mais estas recordações.

27 janeiro 2011

Povos do Deserto do Namibe (Angola): Mucuisses ou Cuisses


Muíla Sá da Bandeira

Cuisses, Cuisses, (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT


POVOS NÃO "BANTOS" DO DESERTO NAMIBE EM ANGOLA

A região de Moçâmedes, à chegada dos primeiros colonos, era ainda muito pouco habitada, havia o grupo étnico banto, os cuvales ou mucubais, pastores e criadores de gado por excelência, que faziam uma vida semi-nómada à procura de pastos e de águas para os seus gados, eram de um etnocentrismo atroz, não se misturavam com outras etnias, e à chegada dos europeus afastaram-se cerca de 200 quilómetros para o interior, a fim de que não viessem a ser solicitados para outros trabalhos. Havia os chimbas ou himbas, do grupo Herero,
etnia que hoje está quase extinta, pois dela restam apenas  uns escassos milhares de pessoas, que habitam   Namíbia, o Botswana, e uma muito limitada porção do território de Angola, a norte do rio Cunene.  Na região, havia também em meados do século XIX um outro grupo étnico de "raça" negra, não banto, que embora mais pequeno, já habitava o território desde há séculos atrás, os Cuisses, para além dos bosquímanes, outro subgrupo igualmente não-banto.
 
Desconhece-se a existência de quaisquer referências aos Cuísses, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação na sua natureza avessa a qualquer tipo de convivências, isolando-se e evitando todo o tipo de convívio com outras etnias,  e mais ainda com elementos brancos.  Ou porque a denominação "Cuísse" era  rejeitada pelos "Bacuandos" ou"Cuandos" ou, ainda "Cuambúndios", como eram conhecidos Cuissis e Curocas. Ora, é exactamente com este vocábulo ou vocábulos etnonímicos que aparecem referidos no fim do século XVIII, num mapa de Pinheiro Furtado. Contudo, é interessante notar que a designação "Mucuíxes" aparece igualmente no mesmo mapa, referindo um agregado etno-linguístico. 

Fugidos das tribos banto, e resistentes à integração,  os Cuísses viviam numa zona geográfica bem definida, no interior do Deserto do Namibe,  que constituía toda ela o seu habitat, e o limite para a sua vida errante e bem adaptada às condições climatéricas daquele deserto. 


No século XIX, segundo os Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos dos Annaes do Conselho Ultramarino (1839/1849), encontra-se uma interessante anotação:


"Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os "Mucuissos", que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis." (I.c. pg. 487).   

Aliás, quando Diogo Cão colocou o Padrão do Cabo Negro, em 1485, e, navegando em seguida à vista duma costa baixa e correndo nordeste sudoeste com a Angra das Aldeias, a quinze léguas, achou uma enseada, a que deu o nome de Manga das Areias (Baía dos Tigres),  que se estendia por terra a dentro cinco ou seis léguas, com doze a quinze braças de fundo, os negros que ali encontrou, eram negros miseráveis, que viviam do peixe, aproveitavam as costelas das baleias que davam à costa para com elas construírem abrigos cobertos de seba do mar e das próprias areias. Conta-se que vinha daí a discriminação sobre os Cuísses, por serem não banto, pela vida errante que levavam, e pelo facto de este povo em determinada altura ter ingerido peixe envenenado e quase se extinguido.

De entre os Cuisses, destacavam-se os "Cuisses da Beira-Mar", que, segundo o Padre Estermann, eram um grupo bastante pequeno que andava sempre fugido e esquivo,  com medo dos Chimbas e dos Cuvale invasores, e vivia sobretudo nas montanhas e nas furnas. Esta gente só muito mais tarde se acolheu junto dos colonos europeus, com quem conviveu amigavelmente. Foi talvez o grupo humano que melhor se adaptou às terríveis condições climatéricas do Deserto do Namibe.

Transcrevo a seguir a parte de uma comunicação apresentada a 25-26/Nov/1999 pelo Dr. Miguel Faria de Bastos, na "Sociedade da Língua Portuguesa", inserta na obra "Memórias da Angra do Negro (Moçâmedes), pgs. 96/97, de António A. M. Cristão. 2005:
 
"Os Cuissos e os Curocas, antigamente chamados Bacuandos, são parecidos com os Bosquímanes, de baixa estatura, esqueléticos e de pele áspera e suja e andam curvados - o que se explica por conveniência aerodinâmica, contra o vento. Os Cuisses, por terem degenerado, em consequência da ociosidade, perderam o estatuto de criadores de gado, não passando, agora, de simples pastores sob a maior vigilância dos Mucubais.  Os Cuisses, tal como os Cuandos, são atrasados e miseráveis, alguns um pouco desnutridos, obesos e com o ventre proeminente. Alimentam-se miseravelmente de frutos da Muchieia (Albízia angolensis), de raízes de árvores, de pequenos animais, moluscos e de peixe".

Fossem mucubais ou chimbas, os perseguidores, os Cuisses  eram a eles submetidos e por eles escravizados, dada a repugnância que por eles nutriam, tratando-os como inferiores.

Povo monogâmico e monoteísta, os Cuísses organizavam-se vivendo em grupos de um máximo de duas famílias, em céu aberto, resguardando-se quantas vezes das chuvas e dos ventos, junto a formações rochosas, quando isso era possível, sendo o vestuário reduzido a duas pequenas peles de animais, sobretudo antílopes para taparem os órgãos genitais, indumentária que nas mulheres, era completada por pequenas fiadas de cor branca, após a festa da puberdade.
Viviam exclusivamente de frutos silvestres e da caça, em que são exímios, com a utilização do arco e flexas envenenadas. Chegavam a atacar animais de grande porte, tais como elefantes e rinocerontes e dominavam como autênticos mestres do emprego de sistemas de armadilhas.  
Conta-se que em tempos mais atrás, quando o território era atravessado por um ribeiro, chegaram a praticar a agricultura, cultivando o milho com o auxílio de pedras pontiagudas. 


Reza a História   que foi nas montanhas de Tchamalinde que se refugiaram, fugidos da perseguição dos posteriores bantos. Também existiam alguns sobreviventes dessa pobre gente, no vale do Coroca, próximo de São João do Sul, que por não serem bantos, eram igualmente discriminados: os Cuepes, que além de serem muito poucos, não satisfaziam como trabalhadores, nesse tempo de relançamento do novo paradigma colonial,  em que o tráfico de escravos para o Brasil e Américas tinha sido abolido, embora fazendo-se ainda na clandestinidade, era enorme a falta de mão de obra, e as gentes das tribos do Namibe desconfiavam das intenções dos brancos.

O nome deste povo surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local venerado pelos Mucuisses, Mucuisses ou Cuisses. Para mais informação ver AQUI

De tudo isto resultou que os primeiros colonos europeus se vissem obrigados ao recrutamento de trabalhadores noutras localidades da Província, dada a pujança com que despontou aquele distrito. De inicio chegaram a Moçâmedes como escravos e depois como libertos, de forma que a região foi-se povoando de gente africana proveniente das mais diversas localidades e das mais variadas etnias, que, desenraizados do seu habitat, se miscigenaram entre si, adqiriram no contacto com seus "patrões" hábitos e costumes portugueses e  deram lugar ao grupo social denominado por "quimbares de Moçâmedes". 



Pesquisa e texto MariaNJardim
Fotos:ICTT

25 janeiro 2011

Jovens de Moçâmedes (hoje Namibe) em Angola em finais dos anos 1960



Deste grupo reconheço: Em cima, da esq. para a dt.: Matias, Berta, Elsa Vieira, Paula Lourenço, Lino. Em baixo: Beta Samudio, Bonvalot, Magucha e América. Foto gentilmente cedida por Vera Freitas.

Finais de 1960/ início dos anos 1970.