Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
26 fevereiro 2011
17 fevereiro 2011
Visita do Chefe do Estado Português, Óscar de Fragoso Carmona, a Angola: 1938
O Chefe do Estado Português, Óscar de Fragoso Carmona
O Ministro das Colónias, Dr. Vieira Machado, que acompanhou o Presidente nesta viagem

Visita a Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) do Presidente da República, General Óscar de Fragoso Carmona, no decurso das suas visitas a São Tomé e Príncipe e Angola, em 1938
8 de Agosto de 1938
O «Angola» chega a Mossâmedes às 9 horas precisas.
Notas de reportagem de bordo:
Desde as 9 horas que navegávamos à vista da costa de Mossâmedes. A cidade foi-se pouco a pouco mostrando, com a sua fisionomia de terra de pescadores, branca e graciosa.
Às 10 e 15, no meio duma flotilha composta de mais de trezentas canoas e outras embarcações de pesca, embandeiradas, o «Angola» e o «República» navegavam nas águas da baía. Desses pequenos barcos, e de terra, incessantemente, sobem foguetes no ar. Por cima dos navios que chegam sobrevoam aviões do Aero-clube.
A
rainha Galinaxo, sentada à esq., aguarda o Chefe do Estado, junto a
comitiva de cuanhamas e cuamatos. Ao fundo a baía, as embarções, o navio
e a falésia da Ponta do Pau do Sul
Além, na ponte, formava a tropa. Indígenas dançam. Vêem-se pretos do N’giva, da Namacunda, compondo um soberbo friso de bárbara beleza, quarenta cavaleiros cuanhamas, para os quais foi preparada uma aldeia. Os demais negros, agitam bandeirolas das cores nacionais.Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes.
Das janelas e varandas, pendem vistosas colgaturas. Mais de duzentas embarcações festivamente rodeiam o «Angola».
Às 10 horas da manhã efectuou-se o desembarque do Senhor Carmona. Os navios de guerra «Beira» e «República», que comboiou o «Angola», salvam. De terra, a foltaleza de D. Fernando dispara os seus canhões antigos e fazem ouvir a sua voz. Estralejam no ar foguetes, estoiram morteiros.
Um quarto de hora depois, via-se acolhido na ponte pelas individualidades principais da província, por muitas senhoras, e uma delegação de colonos da Huila com seus estandantes.
A vereação achava-se sob o arco que simboliza as portas da cidade- descreve um espectador do espectáculo - . O seu presidente faz entrega das chaves ao Senhor Presidente da República, que, amavelmente, pede para as devolver. Novas e vibrantes manifestações, enqunto de cima, do alto do arco, um grupo de crianças gentis deixa cair flores. «Vivas», aclamações, envolvem também o Sr. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província. O hino nacional é ouvido em religioso silêncio. O Senhor Carmona passou em revista a guarda de honra. Segue-se o desfile das Companhias de infantaria indígenas que a constituem e depois organiza-se o cortejo para o Município. Sempre no meio de aclamações - conta o Notícias da Huíla - dirigem-se sob arcos que ornamentam as ruas para a Casa da Câmara. Mas o entusiasmo é tanto, que o povo invade as ruas, querendo rodear o Presidente, a quem não cessa de saudar vibrantemente. As janelas, engalanadas, estão apinhadas de gentis senhoras. Cai uma chuva de flores. E as senhoras e as meninas não são as que menos mantém o seu júbilo. O friso lindíssimo de crianças das escolas primárias de Mossâmedes e do Lubango, levam num beijo ao Senhor Presidente da República, a saudade de milhares de crianças suas companheiras, nota enternecedora que rasa os olhos de lágrimas de comoção e de ternura. E neste pequeno campo, grande pela vibração e pelo entusiasmo com que milhares e milhares de portugueses prestam a sua homenágem à Pátria na pessoa do Presidente da República, vivem-se momentos inolvidáveis. E o Senhor General Carmona, figura bondosa bondosa de olhar enternecedor para tudo quanto o rodeia, sentindo bem a vibração sincera das almas em delírio, agradece, sorrindo, sorrindo sempre, emocionado e dominado. A multidão cerca o edifício da Câmara, pois lá dentro não cabem todos, apesar da
sala ser ampla.
O Senhor Presidente da República chegou à Câmara que inaugurou, com a sessão solene no seu salão nobre. Nas paredes destacam-se os retratos do Chefe do Estado e de Salazar. Os estandartes de todas as edilidades da Província, do Aero Clube, do Ginásio Atético, do Sporting de Lisboa, do Sporting, da Associação Ferroviária, dos Empregados do Comércio, do Liceu da Huíla, formam no fundo em volta da mesa de honra, onde tomam lugar, entre prolongados «vivas» e aclamações ao Chefe do Estado, o Ministro das Colónias, o Governador Geral, o Governador da Província, e o Presidente da Câmara Municipal.
Fora, em frente do do edifício, a multidão continua a aclamar o Senhor General Carmona. Por isso, antes da sessão começar, viu-se o Chefe do Estado na necessidade de aparecer na varanda com o Sr. Ministro das Colónias. As aclamações redobram de delírio então. Andam no ar capas de estudantes.
Uma vez no salão o Senhor Presidente da República, começa a sessão solene. Tudo quanto a Huíla e Mossâmedes contam de representativo estava presente: convidados, oficiais da Marinha, do Exército, muitas Senhoras. Em cadeiras reservadas no estrado sentam-se as esposas do Sr. General Carmona, Dr. Vieira Machado, Coronel Lopes Mateus, Capitão Ferreira de Carvalho e outras distintas damas, magistrados, vereadores de Câmaras. Preside o Sr. General Óscar Carmona, que tem à direita o Sr. Ministro das Colónias e o Governador da Huíla, e à esquerda o Dr. Governador Geral e o Presidente do Município.
É o Presidente da municipalidade, Sr. Francisco Monteiro do Amaral, quem primeiro usa da palavra.
Disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 312 a 316)
Depois falou o sr. José Antunes da Cunha, presidente da Associação Comercial e Industrial de Mssâmedes, que disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 316 a 321)
Seguiu-se no uso da palavra o Governador Provincial da Huila sr. Capitão Ferreira Carvalho.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 321 a 324)
Chegou o momento mais solene da cerimónia. Toda a assistência , homens e senhoras se erguem e preparam-se para escutar. O Sr. Presidente da República, vai falar.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs.324 a 327)
Depois
o sr. General Carmona condecorou as seguintes pessoas: Coronel médico
dr. Monteiro do Amaral, com a Comenda de Cristo; Antunes da Cunha e Dr.
Carlos Tenreiro Carneiro, respectivamente, presidentes da Associação
Comercial e Sindicato do Pesca, com o grau de Cavaleiro de Mérito
Industrial, Manuel Seabra, comerciante do Lubango, Caetano Evaristo
Peixoto, funcionário ferroviário, oficiais de Mérito Industrial, António
Joaquim Ribeiro, de Mossâmedes, e José Nóbrega, do Lubango,
agricultores, oficiais de Mérito Agrícola.
À saida da sessão solene realizada no salão nobre da Câmara Municipal de Mossâmedes
O Sr. Presidente da Republica dirigiu-se para o antigo palácio do Governo, de carro, que a multidão tirou. Foi uma apoteose. A multidão, - brancos e pretos, - comprimia-se, galvanizada pelo mesmo anseio de saudar. Os estudantes rodeavam o automóvel. Os alunos do Liceu da Huila cobriam o veiculo com as suas capas. O Sr. General Carmona, de pé, comovidamente, agradecia as manifestações de carinho que de novo lhe manifestavam.
O Chefe do Estado acenando à multidão da varanda do Palácio do Governador
Chegado àquele Palácio, o Sr. General Carmona apareceu à varanda, a fim de satisfazer as insistências da multidão clamorosa. Igualmente foi chamado o Sr. Ministro das Colónias, que veio acompanhado da senhora de Fragoso Carmona, a qual foram dados, também «vivas» entusiásticos.
Às 13 e 30 foi o almoço na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição» da família Mendonça Torres, à beira do Bero.
Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, dquela deliciosa festa íntima.
O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse: (vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330)
Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Nota da visita feita pelos jornalistas à fazenda:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»
Às 16 horas efectuaram-se na sala de recepção do Palácio do Governo os cumprimentos o Sr. Presidente da República. Além das autoridades civis militares e funcionários superiores , haviam acorrido corporações, colectividades económicas, imprensa, e os colonos do distrito de Mossâmedes, estando a recepção imensamente concorrida. Afavelmente, o Sr. General Carmona recebeu cumprimentos, tendo palavras amáveis para todos. O mesmo aconteceu no dia seguinte, quando a população dos colonos e deputação com as autoridades e imprensa da Huila foram levar o Chefe do Estado a expressão da sua respeitosa homenagem. A todos o General Carmona encantou pela gentileza e simplicidades do trato.
O Sr. Presidente da Republica visitou as instalações do Sindicato da Pesca e as fábricas de conservas da Torre do Tombo, cujos operários o aclamavam com ardor.
Após as visitas às fábricas, o Sr. Presidente da Republica, sempre acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província e vários membros da comitiva, deu um passeio de automóvel pela cidade.
O povo saúda em delírio a esposa do Chefe do Estado e o Dr. Vieira Machado
Outra perspectiva das manifestações de júbilo pela visita do Chefe do Estado a Mossâmedes
À tarde e à noite, no coreto da Avenida da República, tocou a banda da 1ª C. I.I. O movimento no lindo jardim de Mossâmedes foi enorme.
Notas da reportagem.
São 19 horas. A cidade iluminada e bela. Os edifícios públicos e a Fortaleza de S. Fernando estão iluminado a electricidade. Vêem-se balões a correr pelas ruas. Encosta sobre o palácio está cheia de luz. O jardim público regorgita de gente.
No
Clube Nautico e em outras casas dança-se desde as cinco horas da tarde.
O entusiasmo é geral e indiscritível. Mossâmedes está a dar, com o Lubango, cuja população na maior parte está aqui, um nota de portuguesismo inequecível.
9 de Agosto.
A nota cativante deste dia foi a festa infantil que teve por quadro o Jardim Público, à beira mar, oferecida pelo Sr. Presidente da Republica e sua ilustre esposa, sra. D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona.
Principiou a festa por um desfile de milhares de crianças de Mossâmedes, Lubango e Huila, e uma explêndida demonstração do poder de adaptação da nossa gente. Todos aqueles pequeninos eram filhos e até netos de colonos. Lindíssimo espectáculo que arrancou por vezes ardentes palmas à assistência, principalmente ao ser entoado por aquele Portugal de miúdos o hino nacional. Centenas de senhoras presenciaram a festa, tendo algumas delas auxiliado a esposa do Chefe do Estado na distribuição de brinquedos, que dela fez parte.
Depois, o público pequenino sentou-se, em alacre algazarra, às mesas, sobre as quais havia guloseimas em abundância, a encantar os olhos, a alvoraçar o apetite. Terminada a refeição, espalhou-se a pequenada pelo jardim, brincar, até quase ao fim da tarde.
Eis como um jornalista angolano descreve a festa:
«À tarde, no lindo jardim da linda Mossâmedes, terra encantadora e de encantos, coberto de flores do deserto, na expressão feliz de Vieira da Cruz, realizou-se a parada infantil de que participaram mais de mil crianças das escolas de Mossâmedes e da Huila. Apenas crianças das escolas, porque, necessário é dizê-lo, se todas formassem, as da Huila e de Mossâmedes, formariam uma legião de mais de quatro mil".
Rapazes
e meninas, todas branquinhas, de pele e vestuário, a sorrir ao sol, o
sol amigo dos pobres, e a sorrir ao venerando Chefe do Estado, que elas,
na sua brandura sentem ser alguma coisa de muito respeitável.
Impecavelmente formadas a quatro, tambor à frente, bandeira de cada escola em cada grupo, assim passavam durante quase meia hora, saudando o Senhor Presidente, da Repúbliba que embevecido seguia com a vista admirada a longa fila de laçarotes brancos, esvoaçando como pombas nas cabecitas louras e escuras das pequeninas.
-Estão alí os frutos da colónia, a garantia da perpetuidade da nação portuguesa, disse o venerando Chefe do Estado no seu curso da chegada, referindo-se às criancinhas.
É assim de facto. As crianças são o repositório de todas as nossas esperanças: esperanças de pais e esperanças dos estadistas. Ai do país que descure a preparação da sua infância e o ensinamento da sua mocidade. Mas isto são doutrinas e nós por hojs só queremos noticiar, para mostrar mais tarde, logo que as circunstâncias no-lo permitam, colher os ensinamentos e tirar as conclusões das inúmeras manifestações de que foi alvo o Sr. General Carmona».
Antes de retirar, o Chefe do Estado percorreu, de automóvel as ruas, tendo sido, durante o percurso, sempre, delirantemente aclamado.
O Chefe do Estado enviou um rádio ao comandante do aviso «Afonso de Albuquerque» a manifestar a sua grande satisfação por a guarnição do navio o ter acompanhado nessa grata missão de enaltecer a Pátria do Império Português.
À noite, no Palácio, realizou-se um jantar de gala.
9 de Agosto.
A nota cativante deste dia foi a festa infantil que teve por quadro o Jardim Público, à beira mar, oferecida pelo Sr. Presidente da Republica e sua ilustre esposa, sra. D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona.
Principiou a festa por um desfile de milhares de crianças de Mossâmedes, Lubango e Huila, e uma explêndida demonstração do poder de adaptação da nossa gente. Todos aqueles pequeninos eram filhos e até netos de colonos. Lindíssimo espectáculo que arrancou por vezes ardentes palmas à assistência, principalmente ao ser entoado por aquele Portugal de miúdos o hino nacional. Centenas de senhoras presenciaram a festa, tendo algumas delas auxiliado a esposa do Chefe do Estado na distribuição de brinquedos, que dela fez parte.
O Ministro das Colónias e esposa distribuindo brinquedos às crianças na festa realixada no Jardim
O Chefe do Estado acariciando uma criança no decurso da festa
Outro aspecto da festa oferecida às crianças no Jardim Público
Depois, o público pequenino sentou-se, em alacre algazarra, às mesas, sobre as quais havia guloseimas em abundância, a encantar os olhos, a alvoraçar o apetite. Terminada a refeição, espalhou-se a pequenada pelo jardim, brincar, até quase ao fim da tarde.
Eis como um jornalista angolano descreve a festa:
«À tarde, no lindo jardim da linda Mossâmedes, terra encantadora e de encantos, coberto de flores do deserto, na expressão feliz de Vieira da Cruz, realizou-se a parada infantil de que participaram mais de mil crianças das escolas de Mossâmedes e da Huila. Apenas crianças das escolas, porque, necessário é dizê-lo, se todas formassem, as da Huila e de Mossâmedes, formariam uma legião de mais de quatro mil".
![[016.png]](http://1.bp.blogspot.com/_QN04x6AzKRw/SfUH-NH9w4I/AAAAAAAAQQE/J41E-6aMYFk/s400/016.png)
Impecavelmente formadas a quatro, tambor à frente, bandeira de cada escola em cada grupo, assim passavam durante quase meia hora, saudando o Senhor Presidente, da Repúbliba que embevecido seguia com a vista admirada a longa fila de laçarotes brancos, esvoaçando como pombas nas cabecitas louras e escuras das pequeninas.
-Estão alí os frutos da colónia, a garantia da perpetuidade da nação portuguesa, disse o venerando Chefe do Estado no seu curso da chegada, referindo-se às criancinhas.
É assim de facto. As crianças são o repositório de todas as nossas esperanças: esperanças de pais e esperanças dos estadistas. Ai do país que descure a preparação da sua infância e o ensinamento da sua mocidade. Mas isto são doutrinas e nós por hojs só queremos noticiar, para mostrar mais tarde, logo que as circunstâncias no-lo permitam, colher os ensinamentos e tirar as conclusões das inúmeras manifestações de que foi alvo o Sr. General Carmona».
Antes de retirar, o Chefe do Estado percorreu, de automóvel as ruas, tendo sido, durante o percurso, sempre, delirantemente aclamado.
O Chefe do Estado enviou um rádio ao comandante do aviso «Afonso de Albuquerque» a manifestar a sua grande satisfação por a guarnição do navio o ter acompanhado nessa grata missão de enaltecer a Pátria do Império Português.
À noite, no Palácio, realizou-se um jantar de gala.
Pormenoriza do aspecto da sala, a reportagem local:
«Profusão
de luzes, de flores e de cristais. Notas de distinção e de elegância. A
refulgência dos ouros das fardas e a severidade do negro das casacas
contrastavam com as cores variadas dos vestidos das senhoras, de grande
elegância,sôbre os quais as jóias punham cintilantes fulgurantes».
Abriu a série de brindes, o Sr. capitão Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, governador da província, que disse: (vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 335 a 339)
Falou depois o sr Eduardo de Mendonça Torres pelos colonos do planalto: (vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg . 339 a 343
Pouco depois pediu vénia para brindar o representante dos colonos da Huíla, sr. João Ricardo Rodrigues, que se expressou nos seguintes termos: vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 343 a 346 )
Encerrou a série de brindes, o Dr. Carlos Baptista Carneiro, pelos orbanismos económicos da Huíla:(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg.
Por último o Sr. Presidente da República pronunciou breves palavras de profundo reconhecimento pelas atenções que lhe têm sido dispensadas e mostrando quão grata tem sido para o seu coração de lusíada esta viagem que o trouxe a terras tão portuguesas, onde todos se congregam para dignificar o nome de Portugal.
10 de Agosto
Às 16 horas, realizou-se uma parada militar, a que assistiram, numa tribuna, levantada na Avenida, o Sr. Presidente da República, o Sr. Ministro das Colónias, o sr. Governador Geral, casas civil e militar do Chefe do Estado, e outras altas entidades.
Ao lado da tribuna formava uma força da marinha do aviso «República». Brilhantíssima de impecável garbo a marcha das forças militares. À passagem das unidades, o público irrompia em aplausos.
Cuamatos preparando-se para o desfile no velho campo de futebol de Mossâmedes
Ao desfile das duas companhias de Infantaria Indígena, seguiu-se os das deputações indígenas de toda a província. Cada soba vestia farda de pano branco, de alamares verde e encarnados, trazendo na cabeça bonés de pala. Na Avenida comprimia-se o povo curioso do bizarro espectáculo desse desfile. Iniciaram-no os escoteiros.
Vinha depois o grupo dos quarenta cavaleiros cuanhamas que passaram em frente da tribuna, no belo arranque de um galope, a saudarem, agitando no ar os chapéus emplumados, soltando ao mesmo tempo entusiástica gritaria.
O desfile dos quarenta cavaleiros cuanhamas
A seguir, numerosas tribus, cada uma formada por numerosos indígenas, indo à frente a rainha Galinaxo do Cuanhama, com seu traje de gala e grande séquito de damas, uma das quais, a seu lado, ostentava alto a bandeira portuguesa.
«No local onde estamos - descreve o representante da Província de Angola, - vê-se a Avenida extensa que é um mar de pretos e de tribus, todos com bandeirinhas nacionais que agitam no ar, produzindo um lindíssimo efeito e comunicando o seu entusisasmo à multidão que irrompe em «vivas» prolongados.
Todas as tribus indígenas, levavam ao lado os respectivos sobas e régulos, bem como a bandeira nacional. Sempre que passavam em frente da tribuna presidencial para saudar o Chefe do Estado, - soltando gritos de entusiasmo, a seu modo, como homenagem do máximo respeito e veneração a Sua Exª - , ouviram-se também , entre os gritos, muitos «vivas» a Portugal e de simpatia pela Nação. Cada tribu apresentou os seus batuques ao som dos quais os guerreiros e dançarinos negros rodopiavam e faziam cabriolas, oferecendo assim um espectáculo inédito, de cor local interessantíssina. Toda a gente o admirou, incluindo aqueles que vivem em Angola. O desfile prolongou-se por longo tempo. Muito curioso o facto de se terem apresentado na parada indumentárias indígenas das mais variadas, tanto em homens como em mulheres, segundo as regiões. As mães conduziam à mão ou às costas os filhos, visto que associavam a família a estas manifestações.
Assim foram passando cuanhamas, cuamatos, cacondas, ngivas, naulilas, evales, namacundes, quipungos, quilengues, muílas, muhembes, as raças bravias do Sul de Angola …
A Rainha Galinaxo e o seu séquito de damas cumprimentando o Presidente Carmona
Terminado o desfile a rainha Galinacho, com o seu séquito e as mulheres dos principais sobas, dirigiram-se à tribuna a cumprimentar o Chefe do Estado , que comunicou por meio de um intérprete, e ofereceu à soberana preta cortes de seda, além de outros valiosos presentes,entregando aos chefes medalhas comemorativas da sua visita a Angola.
Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa
Rainha GALINACHO dos cuanhamas
(imagem colocada além texto pela autora do blog)
Grande alegria produziu a gentileza do Sr. Presidente da República, que foi aclamado pelos negros, assim como o nome de Portugal. O Sr. General Carmona retirou-se em seguida para o Palácio, sempre muito ovacionado pela multidão, que também aclamou os Srs. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província.
À noite, os edifícios e a fortaleza iluminavam novamente, assim como muitas casas particulares. A Câmara Municipal ofereceu um baile que decorreu com o maior brilho. Mossâmedes apresentava o aspecto de uma animação de que não se guardava memória.
Às 6 horas da manhã, do Palácio do Governo largou uma extensa fila de automóveis. Ia-se ao deserto de Mossâmedes a caçar. Diversão interessantíssima em honra do Sr. General Carmona. No Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço. Depois repartiram-se em três grupos de caçadores, cada qual com o seu sentido, tomando o do Sr. Ministro das Colónias, a direcção do local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – onde foi prestada homenagem à memória do ilustre professor e naturalista.
«O deserto apresenta aspectos vários e diferentes. Encontra-se areia endurecida sobre a qual os carros deslizam velozes; e noutros pontos pedras soltas. No fundo vêem-se morros altos que o circundam, e árvores de pequeno porte que vivem numa espécie de leito de rios que aqui se chamam danibas e são locais geralmente frequentados por caça de toda a espécie».
A primeira peça abatida foi uma gazela com um tiro da carabina do Sr. Dr. Francisco Vieira Machado, que por esse motivo recebeu muitas felicitações. Encontrou o grupo Leste chefiado pelo velho caçador João Teixeira e Raimundo Serrão , várias manadas de cabras das quais foram abatidas algumas.
Cerca das 11 horas encontrava-se outra de guelengues, - grandes antiólopes- de que, na perseguição, tombaram três exemplares. O primeiro caiu com uma bala do Sr. António Eça de Queiroz, que também derrubou um famoso e célebre avestruz. Correm lebres. Fora do alcance do tiro, precipitam-se na fuga manadas de zebras. Os operadores cinematográficos não descansam. Os carros rodam a toda a velocidade, em todos os sentidos, e às 13 horas voltam ao Pico do Azevedo, para o almoço
Daí a pouco aparece o automóvel que conduzia o Sr. General Carmona, e sua esposa, que haviam saído de Mossâmedes às 11 e meia. O automóvel encontrou uma gazela que o Sr. Presidente encontrara no trajecto, matando-a com um tiro certeiro no coração, dado a mais de 50 metros e com o automóvel em movimento, o que foi aplaudido por todos os presentes.
O resultado da caçada do Presidente Carmona
O almoço decorreu com a maior alegria e à-vontade. Conversando com familiaridade, o Sr. General Carmona inquiria de todos acerca dos princípios da caçada. A um brinde do Sr. Eduardo Torres, felicitando-o pelo belo tiro certeiro, o Sr. General Carmona respondeu espirituosamente, dizendo que para não envergonhar os caçadores saira mais tarde, mas uma gazela, teimosamente, viera postar-se na trajectória da bala, sacrificando-se à sua glória de caçador. A assistência levantou três calorosos «vivas», ao Sr. Presidente da República.
Balanço da caçada: 8 cabras, 6 guelengues. 1 avestruz e uma «tua» abatida por um tiro do sr. dr. José Saldanha, secretário do Sr. Ministro das Colónias. O regresso a Mossâmedes, da qual se estava a cerda de 70 quilómetros, fez-se depois das 16 horas. Foi então digna de ver-se a competição dos carros, como numa grande corrida em enorme pista, todos procurando atingir primeiro o carro do Sr. Presidente da República, ao qual formaram por fim um grande séquito até perto da cidade. O Sr. Presidente da República, com um tiro certeiro, abatera outra gazela. Um magnífico fecho da caçada , - escreveram os jornalistas:
À entrada da cidade, próximo do seu acampamento, encontravam-se os cavaleiros cuanhamas, que, compondo alas, aguardam o automóvel presidencial, acompanhando-o depois, no meio de ruidosas aclamações. Todos os outros indígenas dançaram à passagem, dando «vivas» e saudando calorosamente o Chefe do Estado, que, descendo do automóvel com a sua esposa, se acercou das pretas, risonho, afável.
A Senhora de Fragoso Carmona, o Sr. Ministro das Colónias, visitaram, antes de deixarem Mossâmedes, os acampamentos indígenas, onde as mulheres lhes ofereceram pulseiras, retribuindo generosamente as ilustres senhoras, o que às presenteadas causou grande alegria.
Assim, à tarde, realizaram-se na Avenida Marginal várias diversões que estiveram muito concorridas, vendo-se em grande número, crianças que vestiam trajos regionais portugueses.(1)
À noite percorreu a cidade, que continuou a iluminar, uma deslumbrante marcha «aux flambeaux», que, dirigindo-se ao Palácio do Governo, ali saudou o Chefe do Estado, principalmente quando sua excelência apareceu na varanda a agradecer.
O Sr. Ministro das Colónias, que se encontrava ao lado do Sr. Presidente da República, foi também na ocasião vivamente aclamado.
12 de Agosto
O embarque do Sr. Presidente da República para o Lobito estava marcado para as dez horas. Já muito antes daquela hora na ponte-cais e nas proximidades comprimia-se a concorrência. Estava triste o dia, sem sol. Não se tratava duma despedida, depois de dois dias de grande alegria, duma animação como nunca a cidade ali conhecera. Estão as Escolas, - alunos, mestres e estandartes em duas filas; os estudantes do liceu da Huila, os rapazes da Escola de Pesca; o elemento oficial, figuras notáveis da colónia; a guarda de honra; duas companhias de Infantaria Indígena. A multidão é cada vez mais densa. A mocidade escolar solta diversos «vivas» patrióticos: a Portugal, ao Chefe do Estado, a Salazar, ao Ministro das Colónias…
11 horas e meia.
Morteiros estalando no ar anunciam a saída do Senhor Presidente da República do Palácio do Governo. Ao chegar junto das crianças das escolas, o Sr. General Carmona, saindo do automóvel, passou a pé entre elas, que «vivaram» com calor.
O Sr. General Carmona afaga-as e despede-se dos professores. Tornando ao automóvel que o vai levar ao ponto do embarque, pelo caminho fora as aclamações não cessam. Um toque de sentido. Os soldados perfilam-se. É o Sr. Presidente que chega. Às vozes do comando os soldados apresentam armas. Segue-se a cerimónia da revista à guarda de honra, finda a qual o Chefe do Estado se despede dos oficiais. A multidão aclama sempre. A emoção da despedida a todos toma. E é no meio de uma multidão compacta, carinhosa, que expande a sua saudade, que o Sr. Presidente da República se dirige para a ponte, onde muitas senhoras compareceram, também para apresentar as suas despedidas às esposas dos Srs. General Carmona e Dr. Vieira Machado.
O Sr. Presidenta da República aperta a mão aos vereadores de Mossâmedes, aos magistrados, aos representantes de associações e organismos e funcionalismo.Depois, num gesto gentilíssimo, a todas as senhoras presentes agradecendo assim o carinho com que o receberam e a sua esposa. Acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, embarca em seguida no «gasolina» qie iça imediatamente o pavilhão presidencial. O «República» salva. Dos barcos ancorados soltam-se também saudações:
Recebidos a bordo, o Sr. Presidente da República, o Sr Ministro das Colónias, e pessoas da sua comitiva, logo o Angola levantava ferro e começava a afastar-se.. E desaparecia, por fim, no rumo do Lobito.»
Outra reportagem da época...
«....Os que vamos a bordo do «Angola», os que mais de perto convivemos com o Chefe sentimos de cada vez que as obrigações do cargo o obrigam a ficar em terra, penosa saudade. Quando Ele sai, - o barco parece maior, mais vazio. Aqui em Mossâmedes há três dias que só o vemos na rua - nas recepções, nos actos oficiais. Na hora do regresso, ao recomeçar da jornada, vamos todos esperá-lo ao «deck». Está lá sempre a guarda de honra - um grupo selecto de aprumados marinheiros. Mas as nossas palmas, que o Presidente retribui com generosos apertos de mão, são cada vez mais prolongadas e sonoras. É como se saudassemos um Chefe da familia, um ente muito querido e muito amado. Portugal , que pela primeira vez mandou às colónias o Chefe da Nação Não há, a este respeito, duas opiniões diferentes. Os efeitos desta visita, nacional e internacionalmente, já se fazem sentir. Rck, o alegre camarada alemão, que trabalha dia e noite coligindo toda a espécie de documentos, diz-nos amiúde: «A África é bem vossa». Ele vê, ele ouve, e como sabe ver e ouvir -- compreende.
O Presidente em Angola não cativou só os brancos-- que vivem na saudade de Portugal distante, que desta rica e vasta província estão a fazer um novo e maior Portugal
Os negros, os pretos, que distingue com o seu olhar inteligente e bondoso, com o seu sorriso iluminado e claro, adoram-no. Far-se-iam matar por ele. A tropa indígena, a tropa de África -- milhares de soldados -- é que lhes presta honras, é que vela por ele. E nunca o Presidente esteve tam carinhosamente guardado.
--Branco é bom! Branco é bom!
E nesta frase simples, espontânea, muito do coração, o preto diz quanto lhe vai na alma, o preto, que bate palmas como uma criança, diz quanto quer dizer."
"...Das comemorações de Mossâmedes, a bela cidade do extremo sul de Angola, dolorosa conquista à aridez do deserto, focaremos hoje a festa que o Presidente ofereceu às crianças da cidade e da Huila -- e, ainda, o crepitante e estranho desfilar dos indígenas. São dois acontecimentos memoráveis, dois acontecimentos que ficarão na história da cidade enquanto Portugal existir.
Um desfile de crianças brancas, na Metrópole, é vulgar, e talvez, porque temos dois filhos, nunca os vemos sem emoção. Mas um desfile desses em Moçâmedes, a dois passos do calcinante Kalaari tem cambiantes que se não descrevem -- porque apenas se sentem. Sim, também aqui desfilaram para cima de mil crianças, as meninas e os meninos vestidos de roupas brancas, sapatinhos brancos, cabeleiras bem cuidadas e bem penteadas. Vimo-los de todas as idades -- e quase todos nascidos em Angola. As mães, que se reviam nelas, extaticamente tinham-lhes dado, para que saudassem o Sr Presidente, pequeninas bandeiras com as cores nacionais. O desfile demorou uma hora larga. Tanto menino -- tanta menina! Nem um só faltou à parada. Nem um só deixou de saudar o Chefe -- saudando a Pátria-Mãe. E, como eles gritavam. Como a saudade despertara neles a mágua instintiva da ausência!
Pequeninos rebentos em botão de Portugal Novo . Passaram sob flores, entre aplaudos enternecidos. Não se viam olhos enxutos. O Presidente e a esposa, comovidíssimos, beijavam-nos, um a um, com uma boa palavra, com um lindo brinquedo. O Ministro das Colónias e a esposa, D. Cesaltina Costa e o marido, colaboraram na obra meritória, edificante, carinhosa. Não houve menino por mais pobrezinho e humilde que não tivesse o seu bonito -- um rico bonito -- comprado em Lisboa por muitas dezenas de contos. Portugal não esquecia os brancos que não o esqueciam. E os pais, chorando, exultavam com os filhos:
--Viva o Chefe da Nação!
Doidas de entusiasmo, as crianças cantavam a «Portuguesa». As suas vozitas flébeis subiam no espaço num canto de esperança e de resgate. E a festa continuou pela tarde fora. Houve uma merenda, a banda indígena tocou, fizeram-se roda à boa moda das nossas províncias. E o Presidente, encantado, lembrando-se certamente dos seus netinhos, que por bem de Portugal não vê há tantas semanas deixou-se ficar entre eles, entre os pequenos, em conversas demoradas e enternecedoras, prendendo-os e prendendo-se. O coração, para os Portugueses, é tudo!
"...A tarde de hoje, forma, com a tarde de ontem, violento contraste. Ao desfile dos brancos -- crianças a sorrir para a vida -- sucedeu o desfile dos negros, indígenas do Lubango e do Cunene, quipungos, cuamatos, cuanhamas, evales, mahumbes, andubos, quacas, cacondas, mucorecos, quilengues...
À frente, aprumada, a banda indígena. Depois os contingentes militares negros --pés descalços, cofiós vermelhos, fardas bem limpas, passo marcial e decisivo. Sob o céu plúmbeo, pesado, sem réstea de sol, os soldados caminham prasenteiramente, numa saudação à Pátria, onde há vida, alegria, emoção. A farda que envergam orgulhosamente, emancipou-os, aproximou-os do branco. Falam Português, muitos deles escrevem na nossa língua, lavam-se, repudiam baixas superstições -- e sonham com Portugal.
Uma grande clareira -- e inicia-se o desfile das tribus. Abrem o longo e impressionante cortejo, o mais bizarro e estranho de quantos temos visto -- os valorosos cavaleiros cuanhamas. Nem selas, nem esporas. Pernas nuas, agarrando, guiando, conduzindo as montadas -- pernas e torsos nus. Na cabeça, de um negro cintilante, largos chapéus castanhos. À cintura, curtos e delgados punhais. Passam com estrépito, soltando gritos guerreiros. Os cavalos, de boa estampa, não são ferrados. Frente à Tribuna do Presidente, os seus clamores redobram. A multidão branca aplaude.
Veêm-se sobas e sobetas, de fatos brancos agaloados a verde ou vermelho, pés muito lustrosos, comandando as danças mais estranhas que possam imaginar-se. A rainha Galinaxo, arrasta, num ar cansado, a sua túnica de seda, insensivel aos aplausos. Interessa, pela flexibilidades dos bustos e pela harmonia das linhas, à corte de raparigas que a segue. Muitas são virgens. Vão quási nuas. Todo o seu luxo está nos penteados -- fantasias macabras que os cabeleireiros de Paris ainda não sonharam. Os corpos, untados de azeite e tacula, tomaram um tom acobreado, quási rubro. São mulheres serpentes, demoníacas mulheres de uma beleza fatal, perigosíssima, capaz de tentar o mais santo dos homens.
Há-as de cabelo inteiramente rapado, há-as ainda com cabeleiras arritmicas e assimétricas, há-as que usam inacreditáveis «crochés» -- numa policromia arbitrária, sem leis possíveis. Algumas escondem as pernas altas sob apertadas voltas de arame amarelo, outras enfeitam-se com conchas e búzios. A maior parte caminha em semi-nudez, com um simples «cache sexe» exibindo o torço com garridice e orgulho. Rapazes e velhos confundem-se com as mulheres . Tem o mesmo riso infantil, o mesmo passo incerto, a mesma exuberante alegria. Na indumentária -- todos se parecem. Colares e brincos -- quase todos usam. Só diferem na maneira de mostrar a sua satisfação , na maneira de saudar Muene Puto.
Se uns dançam ao som do batuque, com reverências cortesanescas, outros saltam como gorilas, outros ainda guincham como macacos, os terceiros imitam o cantar das aves da selva. As tribus do Lubango, mais silenciosas e calmas, habituadas já à vida pastoril, passam, agitando bandeiras. Neste desfile imenso de tribus vindas de toda a Huíla, o que mais impressiona é o respeito que todos mostram por Portugal. A bandeira de Portugal vai sempre à frente de cada tribu. E é sempre um rei ou um príncipe, uma rainha ou uma princesa, que a segura. Ai de quem a desrespeitar! Estes pretos semi-bárbaros têm ritos e leis de que são escravos. Portugal é de há muito, uma das suas leis maiores -- o seu maior rito. E Portugal, para eles, sempre que o chefe não está, é aquela bandeira a sua, a nossa bandeira.
Na tarde que morre como nasceu, sem sol -- pesada de nuvens pardas e baixas -- o desfile continua. Não há, entre os que o veêm, a paleta de um Goya -- o génio ultra-satânico de um Beaudelaire. Exteriormente -- é um mundo de gnomos, animado aqui e ali por um ou outro busto sensual de mulheres. Os efebos, de formas apolíneas são muitos. Os velhos, cansados, de barbas brancas, ainda mais. Aquilo prende, excita, entristece, alucina. Penalizam os corpos, mirrados, secos, torsos, esqueléticos, a tremer de frio. O preto não se resguarda, não conhece o mais elementar dos agasalhos, as mais elementares regras de higiene. Os mucubais, para se defenderem da nortada, embrulham-se na casca dos imbondeiros, os gigantes da flora africana. Formam «toilettes» irrisórias, inverosímeis. Muitos deles, a completar o quadro, põe na cabeça solideus. São os mais valentes, os mais decididos, os que vivem ainda na pura tradição gentílica...
"...O desfile acaba quase noite. A rainha Galinaxo, já sorridente, recebe valiosos presentes do Chefe do Estado. Sobas e sobetas
são também premiados. Uma grande alegria aquece aqueles corpos. A
gritaria cresce na noite que se adensa. O acampamento, à porta do
deserto, movimenta-se como colossal cidade. Repetem-se os batuques
estridentes, clamorosos. Um quibala faz soar o quissange --
melancolicamente. Mas o batuque, de desnalgamentos sensuais, domina,
vence, arrasta tudo. Esta febre de luxúria consome-nos, devora-nos. É
um quadro novo, um quadro que talvez não voltemos a ver. Ficamos na
tentação da terra e desta enorme e improvisada senzala. Outros camaradas
precedem , ou seguem, o nosso exemplo. As damas de Galinaxo, lascivas e
sensuais, querem beber. Beber e fumar. A noite é de festa, festa
grande, festa rija. Dá-se-lhes de beber, dá-se-lhes de fumar. Canta-se,
dança-se, escuta-se o batuque, ouve-se o tom covo do n'dongo.
Noite alta, já com os primeiros alvores matutinos, reentramos no
«Angola». Assaltam-nos monstruosas visões. E, tontos de sono e de
fadiga, esmagados por emoções, tam contrárias e tam profundas, duvidámos
do que vimos, do que ouvimos -- duvidámos de nós próprios. Será certo
que só agora começamos a ver
(...)"...Lobito, 13 de Agosto. Deixámos Mossâmedes ontem, a meio da manhã, num clarão de apoteose. A cidade piscatória, a cidade que agrupa o homem do mar, o homem da montanha e o homem da planície, pedaço de terra arrancada ao deserto, caldeada em sangue e em mil sacrifícios, não queria seprar-se do Presidente. Acompanhou-o ao cais, entre saudações frementes, hinos de esperança, hossanas de vitória. E quando o gasolina do porto cortou as águas em direcção ao Angola -- marejaram-se de lágrimas todos os olhos.
Os pequeninos, as crianças que o Chefe do Estado e a Senhora Fragoso Carmona, tam carinhosamente trataram, na mais linda das festas a que temos assistido, é que davam mais «palmas», é que gritavam mais «vivas». E os seus lencitos acenados por mãos débeis, ficaram muito tempo no cais, ao longo da restinga, num inocente e saudoso adeus. Não poderia encontrar maior nem melhor representante comemorações Mossâmedes a bela cidade do extremo sul de Angola
Fim da transcrição de textos sobre a visita do Presidente Carmona a Moçâmedes.
FONTES:
VISITA A ANGOLA
-Esta reportagem foi efectuada a partir de textos e fotos retirados do Boletim Geral das Colónias . XIV - 162 [Número especial dedicado à viagem de S. Ex.ª o Presidente da República a S. Tomé e Príncipe e a Angola (I)] PORTUGAL. Agência Geral das Colónias. Nº 162 - Vol. XIV, 1938, 684 pags.
-Os discursos foram propositadamente omitidos porque tornariam o texto demasiado alongado
Respeite este trabalho! Esta página é de leitura e estudo, dactilografada pela autora deste
blog na íntegra a partir de textos originais, excepto os discursos que o tornariam demasiado longo. Inclui referências às fontes (oficiais), pelo que nada daqui deverá ser retirado sem que seja respeitado o mesmo princípio.
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MariaNJardim
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quinta-feira, fevereiro 17, 2011
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Visita a Moçâmedes do Presidente Carmona. Namibe,
Visita General Carmona Mossâmedes,
Visita General Carmona a Angola
16 fevereiro 2011
Alguns dados genealógicos de familias antigas de Moçâmedes: a família de Francisco José Serra
.
Quem viveu em Moçâmedes decerto conheceu José Serra, o moçamedense que fo um conceituadoi funcionário do Sindicato de Pesca de Moçâmedes, e mais tarde do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, após extinção do referido Sindicato. Na foto, enquanto guarda-redes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube do dragão flamejante (como se pode ver impresso na camisola), inaugurado em 1919, que foi pioneiro em Moçâmedes com as modalidades desportivas de futebol, natação, remo e vela.
José Serra era casado com Ivone de Sousa, uma das filhas de José de Sousa (1), mais conhecido por José de Deus (1). Era irmã de José de Sousa (conhecido pela alcunha de José Malcriado, casado com Ângela Martins Nunes pais da Graça e da Ângela), e de Henrique de Sousa (casado com Guilhermina (não deixaram descendência) , e ainda de Leonilde de Sousa (casada com o professor Marques, da Escola Portugal).
José Serra era filho de Francisco José Serra, natural de Olhão, um dos muitos olhanenses que emigraram para Mossâmedes /Moçâmedes, Angola, hoje cidade do Namibe, no último quartel do século XIX, numa época em que, após a Conferência de Berlim, decorriam na Metrópole campanhas de sensibilização para angariamento de "colonos", efectuadas através da imprensa e de editais, que de norte a sul de Portugal eram colocados nos adros das igrejas, incentivando os portugueses a partir para as terras longínquas de África, onde lhes prometiam uma vida melhor. Portugal de acordo com os ditames saidos daquela Conferância (1884-5), era obrigado pelas potências europeias industrializadas de então,, a povoar e a explorar as muitas e diversificadas riquezas das suas colónias, sob a pena de as ter que ceder a quem tivesse melhores condições para o fazer.
Foto tirada nos estaleiros da Torre do Tombo, que ficavam onde é hoje a marginal, em zona próxima da Igreja Paroquial de Santo Adrião. Em cima e da esq para a dt: Florinda Serra Matos Mendes, Getinha Serra Duarte, José António Serra Duarte e José (Zeca) Embaixo: Olimpia Aquino, Georgete Serra Duarte, Florindo Matos Mendes e Leonélio Matos Mendes
Do primeiro casamento de Florinda Serra com Raúl de Pinho Gomes nasceram Artur Pinho Gomes, Carlos Pinho Gomes, e ? Pinho Gomes. Do 2ºcasamento, com Matos Mendes nasceram Leonélio (de alcunha Cuanhama) Florindo e José,
(1) Segundo Carlos Cristão, in Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola):
"... A convicção e a vontade de vencer contaminou outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.
E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - que, acompanhado pelo calafate João de Pêra, se estabeleceu numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»
Fica mais esta recordação.
MariaNJardim
Fotos gentilmente cedidas por Leonélio Matos Mendes e Olímpia Aquino Arvela
Quem viveu em Moçâmedes decerto conheceu José Serra, o moçamedense que fo um conceituadoi funcionário do Sindicato de Pesca de Moçâmedes, e mais tarde do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, após extinção do referido Sindicato. Na foto, enquanto guarda-redes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube do dragão flamejante (como se pode ver impresso na camisola), inaugurado em 1919, que foi pioneiro em Moçâmedes com as modalidades desportivas de futebol, natação, remo e vela.
José Serra, na Praia das Miragens em Moçâmedes quando era ainda jovem
José Serra era casado com Ivone de Sousa, uma das filhas de José de Sousa (1), mais conhecido por José de Deus (1). Era irmã de José de Sousa (conhecido pela alcunha de José Malcriado, casado com Ângela Martins Nunes pais da Graça e da Ângela), e de Henrique de Sousa (casado com Guilhermina (não deixaram descendência) , e ainda de Leonilde de Sousa (casada com o professor Marques, da Escola Portugal).
Francisco José Serra, pai de José Serra
José Serra era filho de Francisco José Serra, natural de Olhão, um dos muitos olhanenses que emigraram para Mossâmedes /Moçâmedes, Angola, hoje cidade do Namibe, no último quartel do século XIX, numa época em que, após a Conferência de Berlim, decorriam na Metrópole campanhas de sensibilização para angariamento de "colonos", efectuadas através da imprensa e de editais, que de norte a sul de Portugal eram colocados nos adros das igrejas, incentivando os portugueses a partir para as terras longínquas de África, onde lhes prometiam uma vida melhor. Portugal de acordo com os ditames saidos daquela Conferância (1884-5), era obrigado pelas potências europeias industrializadas de então,, a povoar e a explorar as muitas e diversificadas riquezas das suas colónias, sob a pena de as ter que ceder a quem tivesse melhores condições para o fazer.
Do casamento de José Serra com Ivone de Sousa nasceram Ivone Serra e Alexandre Serra. Mais tarde, viúvo, José Serra voltou a casar com Arménia, de cujo casamento nasceu mais uma filha que faleceu novinha ainda em Moçâmedes.
Os pais de José Serra, Francisco José Serra e Inês de Jesus Serra, tiveram mais três filhas: Florinda Serra, Clarisse Serra e Georgete Serra, todos nascidos em Moçâmedes. Florinda foi casada em primeiras núpcias com Raúl de Pinho Gomes e mais tarde com Matos Mendes. Clarisse casou em Moçâmedes com Dinis, mas cedo partiu da cidade indo viver para a Metrópole.. Georgete casou com José Duarte, conceituado comerciante da terra até 1975 (Mercearia e Modas, ao fundo da Rua da Hortas, e Pescaria na Baia dos Tigres em sociedade com Olimpio Aquino)
A família Francisco José Serra, possuia, na época, uma das muitas pescarias que circundavam a baía de Moçâmedes, situada junto da Fábrica de Conservas que nos anos 1950 era propriedade da Sociedade Oceânica do Sul (SOS). O patriarca Francisco José Serra faleceu ainda novo, em plena laboração, quando saltava de um barco para a ponte, este virou e bateu-lhe no peito.
Os pais de José Serra, Francisco José Serra e Inês de Jesus Serra, tiveram mais três filhas: Florinda Serra, Clarisse Serra e Georgete Serra, todos nascidos em Moçâmedes. Florinda foi casada em primeiras núpcias com Raúl de Pinho Gomes e mais tarde com Matos Mendes. Clarisse casou em Moçâmedes com Dinis, mas cedo partiu da cidade indo viver para a Metrópole.. Georgete casou com José Duarte, conceituado comerciante da terra até 1975 (Mercearia e Modas, ao fundo da Rua da Hortas, e Pescaria na Baia dos Tigres em sociedade com Olimpio Aquino)
A família Francisco José Serra, possuia, na época, uma das muitas pescarias que circundavam a baía de Moçâmedes, situada junto da Fábrica de Conservas que nos anos 1950 era propriedade da Sociedade Oceânica do Sul (SOS). O patriarca Francisco José Serra faleceu ainda novo, em plena laboração, quando saltava de um barco para a ponte, este virou e bateu-lhe no peito.
Os estaleiros da Torre do Tombo, em Moçâmedes, hoje Namibe
Foto tirada nos estaleiros da Torre do Tombo, que ficavam onde é hoje a marginal, em zona próxima da Igreja Paroquial de Santo Adrião. Em cima e da esq para a dt: Florinda Serra Matos Mendes, Getinha Serra Duarte, José António Serra Duarte e José (Zeca) Embaixo: Olimpia Aquino, Georgete Serra Duarte, Florindo Matos Mendes e Leonélio Matos Mendes
Do primeiro casamento de Florinda Serra com Raúl de Pinho Gomes nasceram Artur Pinho Gomes, Carlos Pinho Gomes, e ? Pinho Gomes. Do 2ºcasamento, com Matos Mendes nasceram Leonélio (de alcunha Cuanhama) Florindo e José,
Georgete Serra Duarte e José Duarte, eram pais. de Georgete (Getinha) e de José António (faleceu de acidente automóvel, quando ia de viagem de férias, de Luanda para Moçâmedes, enquando prestava serviço militar). Ambos encontram-se na foto, em cima e ao centro.
(1) Segundo Carlos Cristão, in Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola):
"... A convicção e a vontade de vencer contaminou outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.
E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - que, acompanhado pelo calafate João de Pêra, se estabeleceu numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»
Fica mais esta recordação.
MariaNJardim
Fotos gentilmente cedidas por Leonélio Matos Mendes e Olímpia Aquino Arvela
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quarta-feira, fevereiro 16, 2011
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09 fevereiro 2011
Padre Luís Carlos, Fundador da Comunidade Shalom. Tudo começou em Moçâmedes. Namibe, Angola, nos anos 1950...
Para os moçamedenses e para todos quantos privaram com o Luís Carlos, aquele jovem bom, inteligente, trabalhador e sonhador, que viveu entre nós nos anos 1950, que em Moçâmedes foi crismado por D. Daniel Gomes Junqueira, que vimos trabalhar na Casa Inglesa, ajudar a dizer missa, organizar encontros de juventude, e que a determinada altura se afastou da cidade para prosseguir o seu sonho...
O desejo de ser padre existia em Luis Carlos desde criança e, em 1958, entrou no Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola. No dia 6 de julho de 1968, foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e onde transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.
O amor me chamou e eu vim
Deixei minha casa e meu trabalho
Por um chamado maior
Estou aqui para te seguir até ao infinito
Jesus libertador
Na partilha da minha vida, até me perder
Para ser livre na liberdade do amor
Por um chamado maior
Estou aqui para te seguir até ao infinito
Jesus libertador
Na partilha da minha vida, até me perder
Para ser livre na liberdade do amor
Meu pensamento está na justiça e na verdade
E meu coração ama a bondade com ternura
O meu desejo não pára na beleza das coisas
Eu te desejo meu Deus, bondade, beleza e verdade sem fim
Para os jovens doarei minha vida
Na aliança da transformação do Reino
E meu coração ama a bondade com ternura
O meu desejo não pára na beleza das coisas
Eu te desejo meu Deus, bondade, beleza e verdade sem fim
Para os jovens doarei minha vida
Na aliança da transformação do Reino
Sou feliz porque vim e estou aqui
E na aventura de um amor maior
Minha liberdade se faz no desafio
Quero responder para te seguir
Minha vida quer ser livre como o vento
E minha ação saborosa como o pão
O vinho da alegria eu hei-de beber no calor da luta
O Reino é mais importante que tudo
E eu vou te seguir generosamente
E na aventura de um amor maior
Minha liberdade se faz no desafio
Quero responder para te seguir
Minha vida quer ser livre como o vento
E minha ação saborosa como o pão
O vinho da alegria eu hei-de beber no calor da luta
O Reino é mais importante que tudo
E eu vou te seguir generosamente
Eu te agradeço, meu Deus
Porque me amas na minha fragilidade
E me transcendo no caminho que tu me dás
Tu és meu caminho, Senhor, minha verdade e minha vida
Eu te amo e confio no amor e na confiança
Que teu amor me dá
Com a Humanidade eu caminho
Clamando por vida em abundância
Como uma pequena semente da libertação
Que o teu amor sustenta
Porque me amas na minha fragilidade
E me transcendo no caminho que tu me dás
Tu és meu caminho, Senhor, minha verdade e minha vida
Eu te amo e confio no amor e na confiança
Que teu amor me dá
Com a Humanidade eu caminho
Clamando por vida em abundância
Como uma pequena semente da libertação
Que o teu amor sustenta
Pe. José Luís, Comunidade Shalom
Recordemos, pois, o Luís Carlos que conhecemos, ou melhor, o Padre Luís Carlos, através do video acima colocado e concebido em sua homenagem pela Comunidade Shalom, e destas fotos que ousei retirar do mesmo...
Fotos de missas juvenis na Laje, em Sá da Bandeira (Lubango-Angola)
Enquadramento
O Papa João XXIII e o Concílio VATICANO ll
Foi com grande surpresa para a Igreja que o Papa João XXIII (1886-1963) anunciou a 25 de Janeiro de 1959 a sua intenção de realizar um Concilio Ecuménico. Muitos achavam não haver motivo para tal…e que este Papa seria era um Papa de transição, que breve seria o seu pontificado… Eleito em 1958, faleceu em 1963! Mas convocou o Concilio e deixou uma grande herança. Por isso não foi um Papa de transição, como muitos pensavam…
O Concilio teve inicio a 11 de Outubro de 1962 e foi encerrado pelo Papa Paulo VI a 8 de Dezembro de 1965, no dia de Nossa Senhora da Conceição. Foi este Concilio que abriu a Bíblia aos católicos; reformou toda a liturgia; deu valor ao Povo de Deus, ao possibilitar que os leigos uma missão definida; abriu a Igreja ao diálogo com o Mundo; deu atenção aos meios de comunicação social para anunciar o Evangelho; a tónica Missionária “ad gentes”; abriu para o Ecumenismo; declarou a Liberdade religiosa e manifestou os valores das outras religiões não cristãs. Eis a riqueza do vaticano II:
MENSAGEM DO CONCÍLIO VATICANO II (1965)
Aos jovens
É finalmente a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem - pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela.
A Igreja, durante quatro anos, tem estado a trabalhar para um rejuvenescimento do seu rosto, para melhor responder à intenção do seu fundador, o grande vivente, o Cristo eternamente jovem. E no termo desta importante «revisão de vida», volta-se para vós. É para vós, os jovens, especialmente para vós, que ela acaba de acender, pelo seu Concílio, uma luz: luz que iluminará o futuro, o vosso futuro.
A Igreja deseja que esta sociedade que vós ides constituir respeite a dignidade, a liberdade, o direito das pessoas: e estas pessoas, sois vós. Deseja em especial que esta sociedade deixe espalhar-se o seu tesoiro sempre antigo e sempre novo: a fé, e que as vossas almas possam banhar-se livremente nos seus clarões benéficos. Tem confiança que vós encontrareis uma força e uma alegria tais que não chegareis a ser tentados, como alguns dos vossos antepassados, a ceder à sedução das filosofias do egoísmo e do prazer, ou às do desespero e do nada, e que perante o ateísmo, fenómeno de cansaço e de velhice, vós sabereis afirmar a vossa fé na vida e no que dá um sentido à vida: a certeza da existência de um Deus justo e bom.
É em nome deste Deus e de seu Filho Jesus que vos exortamos a alargar os vossos corações a todo o mundo, a escutar o apelo dos vossos irmãos e a pôr corajosamente ao seu serviço as vossas energias juvenis. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitadores, sinceros. E construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados.
A Igreja olha-vos com confiança e com amor. Rica de um longo passado sempre vivo, e caminhando para a perfeição humana no tempo e para os destinos últimos da história e da vida, ela é a verdadeira juventude do mundo. Possui o que constitui a força e o encanto dos jovens: a faculdade de se alegrar com o que começa, de se dar sem nada exigir, de se renovar e de partir para novas conquistas. Olhai-a, e encontrareis nela o rosto de Cristo, o verdadeiro herói, humilde e sábio, o profeta da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens. É em nome de Cristo que nós vos saudamos, que vos exortamos e vos abençoamos.
Papa Paulo VI
(na conclusão do Concílio Vaticano II, 1965).
O padre Luís Carlos e s Comunidade Shalom
Em Moçâmedes, nos anos 1950, estudou no nocturno o secundário, enquanto trabalhava na Casa Inglesa. Ajudou a dizer missa, organizou encontros de juventude, e a determinada altura afastou-se da cidade para prosseguir o seu sonho... O desejo de ser padre de fazer alguma coisa em seu favor do próximo, existia nele desde criança, e, em 1958, levou-o a entrar para o Seminário de Cristo Rei, em Nova Lisboa (Huambo), Angola, carregando consigo o "sonho de uma Igreja livre e pobre, numa sociedade livre de pessoas livres".
Preocupado com a educação da juventude que sempre lhe causou inquietação, durante as férias de 1966, e em 12 de fevereiro de 1967, depois de vários encontros em Luanda, Lobito, Moçâmedes, Nova Lisboa, realizou um encontro de jovens no salão paroquial da Sé de Nova Lisboa, considerado o início do Movimento Encontros de Jovens Shalom. O Movimento logo se espalhou por várias cidades de Angola, sendo o Padre Luís Carlos nomeado seu Assistente Geral.
No dia 6 de Julho de 1968 foi ordenado sacerdote da Diocese de Sá da Bandeira, onde congregou e entusiasmou gente jovem, e transformou as "missas da Laje" em verdadeiras festas de juventude.
Em 1972, com outros jovens, continuou a sonhar na fundação de uma Comunidade que pudesse assessorar a Evangelização da juventude nas várias dioceses de Angola.
Em 1973, fez uma especialização em pastoral juvenil, pedagogia e dinâmica de grupos em Madrid, onde conheceu e assumiu a "educação libertadora". Assim, unidos pelo mesmo ideal, jovens juntaram-se e formaram este Movimento que mais tarde se expandiu para Portugal e Brasil. Shalom era a palavra com que estes se identificavam, que significa harmonia, unidade, benção, alegria e paz. O objectivo era criar espaços para oração e partilha de vida, criar laços mais profundos de amizade entre os elementos do grupo permitindo um crescimento individual e também em comunidade.
Nessa altura, Angola estava em guerra, havia censura, a polícia política (PIDE) estava atenta à formação de todo e qualquer Movimento, incluindo religioso. O Concilio Vaticano II tinha chegado ao fim (1965). Falava-se de um histórico encontro do Papa Paulo VI, em Julho de 1970, com os três principais líderes dos Movimentos de libertação das colónias portuguesas: para além de Amílcar Cabral (da Guiné-Bissau e Cabo Verde), Agostinho Neto (de Angola) e Marcelino dos Santos (de Moçambique). A Encíclica “Populorum Progressio”, acolhera a promoção de todos os povos, nomeadamente os que viviam situações de dependência colonial ou de subdesenvolvimento.
Em 7 de dezembro de 1974, chegam ao Lobito e juntam-se ao padre Luís Carlos, o padre Manuel Couto e o diácono José Teixeira, para formarem Comunidade de missão junto à juventude. D. Américo, bispo de Nova Lisboa, ofereceu uma casa da Diocese onde fizeram morada. Em 1975 a Conferência Episcopal nomeia o padre Luís Carlos Assistente Nacional da Pastoral da Juventude de Angola e os Bispos comprometem-se a dar uma contribuição para o sustento da Comunidade.
Em 1 de agosto de 1975, devido à guerra civil, o padre Luís Carlos deixa Nova Lisboa, e chega ao Brasil, Rio de Janeiro no dia 13, depois de uma viagem atribulada.
Na CNBB, no Rio de Janeiro, conheceu D. Aloísio Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza e D. Paulo Ponte, Bispo de Itapipoca, que o convidou para trabalhar na sua Diocese.
Em 30 de Março de 1976, fixou residência, em Fortaleza, na Rua Olavo Bilac, na capelania de S. Judas Tadeu. A Comunidade Shalom já tinha iniciado e desenvolveu um grande trabalho nas dioceses de Fortaleza e Itapipoca.
Em 1978, o padre Luís Carlos veio para Portugal para apoiar os jovens do Movimento que tinham vindo de Angola. E em 16 de Março desse ano iniciou a Comunidade em Riachos, na Diocese de Santarém, sendo acolhido na casa paroquial pelo padre Américo.
Em 15 de Março de 1982, o padre Luís Carlos voltou a Fortaleza, depois de uma ruptura entre os membros da Comunidade. E foi um reinício. Em 5 de junho de 1982, foi instituído pároco da recém-criada Paróquia de Nossa Senhora da Assunção, Barra do Ceará, onde permaneceu por 10 anos. Em 12 de Janeiro de 1983, D. Aloísio reconheceu a Comunidade e nomeou o padre Luís Carlos seu Coordenador Geral. Em 22 de Abril de 1984, D. Aloísio aprovou as Normas da Comunidade Shalom, como uma Sociedade de Vida Apostólica. Em 15 de agosto de 1997, o padre Luís Carlos deu início à fundação da Comunidade Shalom Feminina.
O Padre Luís Carlos foi Coordenador Geral da Comunidade Shalom, até 16 de julho de 2002, quando, a seu pedido, foi eleito um novo Coordenador. Actualmente, o padre Luís Carlos escolheu viver na sua terra natal, Ilha Terceira, Açores, onde desenvolve trabalho pastoral, sobretudo como pároco.
Sobre a Comunidade ver aqui:
Pedagogia
MariaNJardim
Partes do texto, retiradas de:
Comunidade Shalom.
Shalom o que é?
Publicada por
MariaNJardim
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quarta-feira, fevereiro 09, 2011
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