Anastácia de Jesus fazia já parte de uma 1ª geração de angolanos brancos (euro-africanos, ou brancos de 2ª, como mais tarde passaram a ser designados)* nascida em Sá-da-Bandeira, em São José do Lubango. Seus pais tinham chegado a Mossâmedes, viajando no vapor "ÁFRICA" ali chegado a 19 de Agosto de 1885, integrados na 2ª colónia de madeirenses, que, de acordo com o projecto de Câmara Leme, iam juntar-se aos 222 colonos do primeiro grupo que alí chegara no vapor "India", em Novembro de 1884, para dar início ao povoamento branco das terras altas da Huila (Sá da Bandeira, Lubango).
No mesmo vapor "ÁFRICA" , com apenas 7 anos de idade, viajou Manuel de Abreu, natural de Tábua, Ilha da Madeira (o futuro marido de Anastácia), na companhia de seus pais José de Abreu e Maria do Nascimento, e de seus irmãos, Maria (de 23 anos), Vitorina(de 20 anos), Francisco( de 18 anos), Antónia(de 16 anos), Virgínia (de 12 anos), João( de 10 anos) e António(de 3 anos).
Ambas as familias, desembarcadas em Moçâmedes tiveram que se confrontar com grandes desilusões. Embarcaram cheios de esperança, confiantes nas promessas que lhes haviam sido feitas, viajaram em condições precárias, acreditaram que à sua chegada ao Planalto de Moçâmedes, como então era denominada a vasta região da Huíla, encontrariam alí as Terras da Promissão. Começaram por ter que atravessar o Deserto do Namibe a pé (os mais fortes), ou em carroças boers e tipóias (os mais fracos), carregando com as suas crianças, e assim subirem a serra da Chela seguindo o percurso do primeiro contingente que, acompanhados de alfaias agrícolas, e divididos em dois grupos, consumiram na viagem, mais de um mês, por caminhos acidentados, em períodos de chuvas, num verdadeiro suplício para alcançarem a margem direita do rio Caculevar no dia de Natal. Procurara-se escalar a Chela torneando as dificuldades dos seus tremendas precipícios, de modo a encurtar o trajecto entre Moçâmedes e a Huíla, fugindo às invencíveis dificuldades do acesso ao Planalto pelas difíceis portas do Bruco.
Imaginemos o quanto chegaram ao destino, tristes e vencidos pelo cansaço, imagine-se o desânimo que sentiram ao depararem com as instalações que lhes foram destinadas: quatro barracões amplos de pau a pique cobertos a capim, mandados construir por D. José da Câmara Leme, por ordem do Governador de Moçâmedes. Choraram, protestaram, mas de nada serviu, porque voltar para trás já era impossível, sem dinheiro e sem meios de transporte. Descontentes e lamentando a sua desdita, sentindo-se mais pobres do que eram na sua Ilha que saudosamente recordavam, acabaram por ficar. Sequer podiam decidir. E, não havendo outro remédio, arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar fazendo de tudo um pouco, e com tal determinação que nos seis meses seguintes começaram a surgir, espalhadas pelos campos verdejantes do Lubango, as primeiras moradias provisórias, onde se fazia uma agricultura meramente de subsistência.
Eles partiram para Angola sem saberem lá muito bem para onde iam, nem o que iam encontrar, persuadidos a emigrar através de campanhas levadas a cabo na Metrópolee que incluíam editais colocados nos adros das Igrejas incentivando ao alistamento, numa altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim (1884 e 1885), e de acordo com as determinações daquela Conferência o mero direito histórico que até então conferia a Portugal o direito de posse sobre os territórios ultramarinos perdia todo o valor face ao novo direito de ocupação efectiva. Portugal ou ocupava e desenvolvia os territórios, cuja posse reivindicava desde há séculos em África, ou teria que os ceder a potências europeias em melhores condições para o fazer. Eles com a sua presença , juntamente com outros mais foram o garante da presença portuguesa no sul de Angola, cobiçado pelos alemães do sudoeste africano, e deste modo para manter o território íntegro como hoje o vemos.
Portugal sempre agia no quadro dos limites e empurrado pelas circunstâncias, e desta vez também foi assim foi assim que, temerosos dos alemães, temerosos dos boers, temerosos dos avanços britânicos sobre o sul de Angola, servindo-se de propaganda através de jornais, editais, etc, conseguiram persuadir e reunir dois grupos de madeirenses dispostos a emigrar para as terras longínquas de África. Sabe-se que os madeirenses foram os únicos em todo o território nacional a responder à "chamada", e que para tal fora desviado para Angola o fluxo migratório que até então era dirigido
em grande escala, havia dois séculos, para lugares tão longínquos como o Hawai, a Califórnia e as Guianas, onde, como então se difundia, os madeirenses "arriscavam a vida em incertos destinos, com contratos terríveis de trabalho em canaviais, sujeitos a uma rígida estrutura, a fomes periódica, na sistemas de autêntica escravatura". A Ilha da Madeira passava por uma devastadora crise, e o projecto de D. José da Câmara Leme, o Condutor das Obras Públicas, de criar no Lubango a "Colónia de Sá da Bandeira" aconteceu numa altura em que decorriam campanhas de pacificação do sul de Angola cobiçado por nações estrangeiras vizinhas, situação que caminhou a par com as diversas tentativas de povoamento dirigido, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala, e ia ao encontro da preocupação do Governo de contrabalançar os contingentes boers emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huíla, com elementos lusitanos que imprimiriam o carácter português. O vale do Lubango surgia a D. José da Câmara Leme como um paraíso que contrastava com as securas do deserto do Namibe, região agrícola por excelência, pela abundância de águas límpidas, terrenos férteis e vegetação viçosa, para além de um clima de uma amenidade incomparável que lhe faziam lembrar a sua remota e superpovoada Madeira. Porém o recrutamento de madeirenses não lhe foi fácil e de início teve que se contentar com os que lhe deram, e, a par de famílias completas e estruturadas, teve que aceitar elementos em relação aos quais viria a arrepender-se: degredados por crimes de delito comum, ladrões, e até prostitutas, dos quais esperava se aplicassem a trabalhos da lavoura que desconheciam, e ganhassem hábitos de trabalho que não tinham. Na 2ª colónia passou a haver um maior cuidado na selecção de emigrantes.
No livro "A última estação do Império", António Chaves refere: "...Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns ficavam de guarda aos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxada e pás anos ombros calcorreavam os 5 km até aos domínios reais, agora "desinfestados". Face aos perigos de emboscadas de gente do soba "Cabeça Grande", que embora escorraçado não se deu por vencido., o grupo era escoltado por três praças e uma duzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) animados com absoletas e ferrugentas espingardas de "pederneira" do século XVI. A cavalo, chicote na mão e revolver de tambor à cinta, seguia D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolonga-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos, havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite."
Assim aconteceu o nascimento físico de Sá da Bandeira. E mais contingentes de madeirenses chegaram no período entre 1882 e 1892, e deram seus frutos. Convergiam à chegada para os barracões para em seguida serem deslocados, gradualmente, para a Chibia (667), para a Humpata (91), para a Huila (?), ficando os 823 restantes com destino a Sá da Bandeira e ao Cuculevar a aguardar naqueles humildes alojamentos, cuja movimentação e número constam dos mapas oficiais da época.
A Conferência de Berlim e a consequente pressão sobre a ocupação efectiva sujeita a verificação internacional, numa época em que Portugal ocupava apenas 10% do território hoje ocupado por Angola, veio dar prioridade, a par da fixação de colonos, às Campanhas do Sul de Angola, ou seja, à conquista militar e posterior pacificação através da submissão e avassalamento da autoridade africana. Uma mudança de estratégia que se repercutiu nas primeiras décadas do século XX mas que não teria dado os resultados esperados, conforme é patente nas queixas de Norton de Matos em 1912-14, enquanto Governador Geral, quanto se referia à falta de efectivos militares suficientes enviados pela Metrópole que redundava no facto de após esmagados os conflitos locais e regionais, tudo voltava ao mesmo devido à retirada da presença militar efectiva na área. Como foi dito atrás Portugal tinha que comprovar, Conferencia de Berlim em diante, a efectiva ocupação do territórios que reivindicava na base do direito histórico. Estas tentativas geraram resistência e conflitos armados, de pequenas, médias e grandes proporções, em vários locais da região. René Pellisier, o historiador francês afirmou na sua obra que entre 1881 e 1916 o sul de Angola foi de guerra. Na realidade foi um tempo em que se realizaram 45 expedições armadas de variadas dimensões, desde um dia a sete meses e meio de campanha. Em 1916 já levavam entre 29 e 30 meses de luta armada que envolveu cerca de 40 mil efectivos. Acredita-se ter-se registado entre 2 mil a 3 mil mortos em combate e por doença. J. Bento Duarte adiante que "é provável que a posse do Sul de Angola por Portugal lhe tenha custado quase tantos mortos como a repressão das revoltas de 1961 e o abafamento da guerra colonial entre 1961 e 1974. O sul de Angola para os portugueses teve o sabor de cinza, o Ovambo teve o sabor de sangue." O principal motivo residia em ocupar o território e impedir o avanço para norte do dominio alemão, uma vez que a lesre do Cunene não se conhecia a existência de recursos valiosos que tal justificasse. Em 1898 os alemães chegaram mesmo a a receber permissão da Inglaterra para anexarem o sul de Angola. A guerra anglo-boer veio inviabilizar o processo de negociação, mas este foi retomado em 1912. O objectivo era a divisão das colonias portuguesas entre a Inglaterra e a Alemanha, negociação que era ainda patente às vésperas da primeira guerra mundial (1914.18).
No final do século XIX a população africana representava 99% da população do território. Os portugueses viviam sobretudo no litoral, Luanda, Benguela e Moçâmedes. Mas foi no sul que, uma vez abolido o negócio de escravos para o Brasil e Américas, se partiu para as primeiras experiências de uma economia que tinha como fundamento a fixação de familias portuguesas e o desenvolvimento económico do território, e que teve em Moçâmedes o seu primeiro exemplo, na base da agricultura (algodão, cada de açúcar) e criação de gado, uma situação que levou ao tradicional roubo de gado por parte dos mucubais, replicados pelos colonos a titulo de vingança. O novo paradigma colonial teve como corolário a substituição da imagem de uma colonização levada a cabo pelo envio de degredados, por uma colonização por colonos.
Os colonos madeirenses foram conotados como a causa de todos os fracassos da colonização, apodados de preguiçosos, incompetentes e bêbados. Nunca a autoridade local da época assumiu os fracassos sofridos nos primórdios da colonização daquela zona planaltica de Mossâmedes, como era então designada. Honra seja feita ao ministro Sá da Bandeira, que referiu, preto no branco que "os fracassos do desenvolvimento de Angola, deviam-se aos maus governantes de Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola."
Lamentavelmente foram os humildes madeirenses, maltratados fisicamente e até moralmente pelos novos senhores idos da Metrópole e até da sua ilha da Madeira, sobre quem recaiu a causa de todos os fracassos, eles que fustigados pelo sol e pela chuva, pelo vento e pelo frio, desbravaram e aplanaram, conquistaram a merecida confiança e a aproximação dos dóceis muilas considerados tão hostis, com sobejos motivos, quando da usurpação das suas terras.
Os madeirenses instalaram-se no Lubango arreigarem-se à terra, trabalharam duro, e alí investiram o fruto do seu trabalho, nunca enriqueceram, mas deram a sua quota parte, por meios pacíficos, através de uma vida plena de sacrifícios para que as fronteiras de Angola se firmassem, e Angola fosse o grande território que hoje é. As suas crianças cresceram saudáveis, casaram, tiveram filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranatos... Era alí que viviam no último quartel do século XIX, as famílias europeias mais numerosas de Angola.
(Algumas destas informações encontram no "Boletim Municipal da Câmara de Sá da Bandeira, 1971.)
Passemos a descrever, mais pormenorizadamente, o percurso desta família:
Manuel de Abreu , a criança que havia chegado ao Lubango com 9 anos de idade, um dos filhos de Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu, feito homem, acabou por se radicar em Moçâmedes onde casou e constituiu familia, e era conhecido por "Mata Porcos". Em Moçâmedes continuou a exercer, de certo modo, a anterior profissão de seu avô, José de Abreu, na Ilha da Madeira, que era a de produtor de fumados e salsicharia, e estabeleceu-se com o «Bazar do Povo», loja que vendia de tudo um pouco, apetrechada do respectivo talho, que ficava situada na Rua das Hortas, numa esquina, onde mais tarde mais esteve a «Casa Inglêsa», e ultimamente a firma «Santos e Cabeça», em frente à loja que foi de Graça Mira e Jacinto.
Manuel de Abreu tornara-se um exímio caçador de animais do Deserto de Mossâmedes nesses outros tempos em que se dizia que leões rondavam vila...Havia mesmo leões em zonas circunvizinhas, e a prova está aqui, na foto acima, tirada na Rua dos Pescadores, frente à casa da família
Facto curioso é que os apelidos "Jesus" e "Abreu" são os que mais se repetem nas listas dos componentes das 1ª e 2ª colónias de emigrantes madeirenses, que chegaram a Moçâmedes nos vapores "India" e "Africa", a 18 de Novembro de 1884 e a 19 de Agosto de 1885, com destino ao povoamento das terras altas da Huila.
Seguem alguns nomes das familas "Jesus" e "Abreu" retirados das referidas listas de colonos, conforme o livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume: