09 abril 2011

Festas no Atlético Clube de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), em Angola

Festa no Atlético Clube de Moçâmedes, organizada como não podia deixar de ser, nesta época, por Hemitério Alves de Oliveira, um dos directores e grande "carola" daquele Clube. Na foto, no topo, Hemitério Alves de Oliveira e Belinha Costa Santos. Encontram-se nesta foto, entre outras/os, da esq para a dt: Dulce Alves de Oliveira (Dudu), Eduarda Figueiredo, ?,  Maria João Nascimento,  Iolanda, ?, Fernanda Quadros, ?, Irene Faustino,  Mariália Matos, Alexandrina, Isabel Fragata, Céu Costa Santos, Fernanda Mendes, Raquel Martins, Rosa Seixal, Júlia Castro, Gena, Eugénia Figueiredo,
Elisa...









 Nesta foto, reconheço, entre outros/as: Ilda Bacalhau, António José Carvalho Minas (Tó Zé), Vieira (filho do professor Vieira da Escola 49), Joaquim Horácio Silva Reis, Moutinho, São Figueira Fernandes, Maria João Nascimento, Farinha e Neves Almeida. Foto de Neves Almeida in Sanzalangola

06 abril 2011

Fuga da cidade do Namibe (Moçâmedes) no "Silver Sky": um dramático testemunho




Aos 10 de Janeiro de 1976...
Moçâmedes, já é Namibe!

Nas ruas, sirenes soam
Nas casas, o pânico instala-se
Na rádio vozes ecoam:

"Fujam, fujam p'ró cais…"

Do alto da Chela
Mabecos avançam
Serpentes rastejam
Clamando vingança

São rostos alucinados,
São hienas, são chacais...
São olhos esgazeados,
São ferozes animais...

"Fujam, fujam p'ró cais…"

Moçâmedes, já é Namibe!!
Ardem caixotes no cais...
Moçâmedes já foi Namibe...
Adeus até nunca mais...

(MSA)


Este poema, por "autor desconhecido" foi-me enviado há uns 8 anos atrás, e não tem qualquer relação com o autor ou autora do texto que segue, que mais tarde encontrei na Net, e que nos traça um relato da fuga da cidade do Namibe no velho navio cerealífero grego, o "Silver Sky", que no dia 10 de Janeiro de 1976, já com Angola independente, deixou a cidade rumo a Welvis Bay, com mais de 1600 pessoas a bordo, comprimidas no convés e nos porões, partilhando a comida, o agasalho e a angústia no porvir, longe de se aperceberem que aquela viagem marcava o fim da presença em terras do Namibe de quantos naquele navio viajavam, e que de forma abrupta se viram obrigados a abandonar o seu torrão-natal.

A ideia era o afastamento temporário para o alto mar à espera que a situação acalmasse. Foi a salvação possível!

Eis um testemunho a que tivemos acesso através da Net:

"...O Sonho

Angola, Setembro de 1964, numa morna e calma madrugada, por entre o som do bater das ondas nas rochas e o ecoar dos tambores na sanzala, um choro de criança irrompe pelo ar... Nascia Imga, filha de Al e Gavi, neta pelo lado materno de Katchero e Espirito Santo e pelo lado paterno de Gingubinha e Victória. Imga crescia feliz, amante dos livros e das tradições ancestrais, dona de uma inteligência e tenacidade, raras para uma criança de tenra idade. Os prémios escolares sucediam-se, estudava com afinco mas ainda assim, tinha tempo para o teatro e para a música, para os fins de semana na praia com a família, e as tardes passadas com o pai, no estabelecimento comercial que detinham no centro de Moçâmedes, o que lhe dava tanto prazer...

Alheias a este idílio de felicidade familiar, as tensões sociais cresciam e as quesilias entre partidos políticos começavam a tomar proporções preocupantes...

Estávamos em finais do ano de 1975. A tão almejada Independência de Angola estava em curso e a movimentação dos "retornados" intensificava-se. Castrava-se assim a felicidade de uma criança, a esperança de um pai, a unidade de uma família...


O Início do Pesadelo


Dezembro de 1975, Imga tinha então onze anos de idade. O sorriso sempre presente no seu rosto, com que presenteava todos aqueles que cruzavam o seu caminho, desvanece-se repentinamente, dando lugar a uma torrente de lágrimas e gritos de desespero, sufocados apenas pela sinfonia trepidante e estridente das armas de fogo, daqueles que se degladiavam na inconsciência da soberba e do poder.
O caminho de regresso a casa era impensável. Era o período de férias do Natal. Imga como de costume deslocara-se ao Mercado, a pedido da mãe, levando consigo seu irmão Atot, que a acompanhava sempre nessas andanças enquanto, sua mãe, permanecia no recanto do lar com seus outros três irmãos infantes ainda : Ainos, Yzus e Oigres. Subitamente, o edifício do Mercado é atingido pelo arremesso de bazucas e granadas. Num gesto alucinado, Imga arrasta Atot, por entre a chuva de balas e pó em direcção à casa da irmã mais velha, Asle, que vivia a poucos metros dali. Asle tinha uma bebé com oito meses, Aivlis, e estava grávida de cinco meses de outra menina que viria a chamar-se Aluap. Para se protegerem das balas, pois a casa estava cercada por militares, tentavam esconder-se debaixo das camas mas, a aflição, o medo, o desespero eram asfixiantes e não havia como proteger Asle pois, a sua enorme barriga não lhe permitia meter-se debaixo da cama...
Foram momentos extenuantes de aflição, incerteza e dor. A falta de notícias de seus pais, irmãos e demais familiares, toldava o semblante de Imga de uma agonia misto de revolta e dor, mesclada de impotência. Estariam ainda vivos?

A comida escasseava, a água era quase nada. Qualquer movimento, o menor ruido, servia de pretexto para que os disparos chovessem em direcção à casa... ninguém se podia mover, nem mesmo para ir à casa de banho... Foram horas intermináveis! As persianas cerradas, as janelas e portas trancadas, não permitiam discernir entre o dia e a noite. Vencidos pela dor, a fome e o cansaço, adultos e crianças adormecem...

Entretanto, sempre alerta, Imga apercebe-se que o barulho dos tiros estava mais disperso. Anel, prima de Imga, lembra-se de um tacho de caldeirada de peixe que ficara na cozinha do quintal. O risco era grande... Quem se arriscaria a sair do esconderijo, atravessar o quintal até à cozinha, para alcançar a famijerada caldeirada?  Anel, como sempre, devota à família, tomou a si essa responsabilidade. Mas, Imga, vivaça como sempre e, do alto da sua inocência, vendo que mais ninguém se decidia, estendeu a sua mãozinha a Anel e puxou-a, em passo de corrida, em direcção ao quintal...

Ao sairem da cozinha de tacho nas mãos, uma voz entoa em tom ameaçador... Imga, ergue os seus olhos no sentido da voz e, sem deixar transparecer o turbilhão de emoções que lavavam a sua alma infantil, sussurra -"...os meninos têm fome, viemos apenas pegar este tacho...", - o desconhecido de arma empunhada na sua direcção interpela -"... quem mais está aí?", Imga responde,-" ...ninguém..."

Liberadas pelo seu algoz, retornam à casa principal juntando-se aos demais... Os tiros recomeçam e ouvem-se gritos e o barulho de algo a cair ao chão nas imediações...
As horas passaram, as trocas de tiros cessaram...De repente, alguém bate à porta... O medo paralisa todos os que ali estavam, temia-se o pior...  Entretanto, por entre as batidas ouve-se uma voz, -"... pessoal, respondam por favor, estão todos bem?"

Ao ouvir a voz do pai, Imga corre em direcção à porta e, num misto de tristeza e alegria entre lágrimas e sorrisos constatam que estavam todos vivos, pois de ambos os lados tinha-se temido o pior. Era noite de Natal. E que Natal! Não haveria Ceia, nem Presentes, nem Luzes nem Cânticos. Apenas, a unidade de uma família, em torno da vida que esteve prestes a ser-lhes roubada. Nos quintais da vizinhança, jaziam corpos de militares. Nas ruas os feridos, os mortos... eram esses os presentes dos moçamedenses, naquele fatídico Natal de 1975.


A FUGA


Temendo uma recidiva dos confrontos, Al reune a família em retirada para a Baía das Pipas, o refúgio, o paraíso da família. Aí, recuperam energias e aguardam notícias para poderem voltar a normalidade.
No aconchego da casa dos avós de Imga, saboreando a deliciosa sopa de peixe da querida avó Katchero, em torno da longa mesa da sala, com o velho avô Espírito Santo, nos seus cabelos prateados e ternas mãos de longos dedos amarelecidos pelo cigarro, comungavam todos daquela paz familiar, alheios ao facto de que esta seria a última vez que este quadro se pintaria...

As notícias vindas da cidade, eram favoráveis ao regresso da família à vida normal. Os adultos retomam a sua actividade nas lojas e as crianças regressam à escola. A vida teria de seguir o seu curso... Contudo, esta calmia era apenas aparente. O novo ano de 1976 ainda mal havia iniciado.

Imga como era costume, todas as manhãs, foi para o colégio acompanhada de seu primo Onem. De repente, o curso normal das aulas é interrompido pelo toque incessante de sirenes. As freiras apelam à calma e ao silêncio, na tentativa de impedir que as crianças saíssem em debandada. Mas era muito difícil conter o medo e o desespero que se apoderava de todos! As notícias que chegavam indiciavam o reeinício dos confrontos.

As portas do Colégio Nossa Senhora de Fátima abriram-se por fim e, entre lágrimas e gritos de desespero, deu-se início a uma louca corrida contra o tempo pois, anunciava-se nas ruas a existência de barcos atracados no Cais, prontos a transportar quem quisesse abandonar a cidade pois, as forças opositoras estariam a escassos quilómetros.

Muitas crianças desencontraram-se dos seus pais. Até mesmo Imga! Ao chegar a casa a mãe já se encontrava com sacos de mão, pois não haveria tempo para arrumar mais nada. Mas o pai, onde estava o pai de Imga? O pai saíra ao seu encontro no colégio. Imga chorava pois não sairia dali sem o seu pai...

Felizmente, o pai de Imga chegou, reuniu a família e dirigiram-se para o Cais, apenas com a roupa do corpo e pouco mais...

Lá estava ele: O Silver Sky. O nosso salva-vidas! Num abrir e fechar de olhos, estávamos a zarpar em direcção ao alto mar.



Chegados ao Porto, apressadamente fomos "enfiados" dentro do Silver Sky, amontoados como sardinhas em lata. Alguns, enquanto aguardavam na fila ainda se lembraram, e em boa hora, de arrombar os caixotes de madeira que se encontravam no cais e que, ainda não haviam seguido o seu destino...
Entretanto, é dada a ordem para zarpar informando-nos que ficaríamos ao largo até que as coisas em terra acalmassem....Apagaram-se as luzes, ouviram-se os motores e, lá fomos nós de mansinho escondermo-nos em alto mar...

As horas passavam, a fome apertava...as crianças choravam...os adultos suspiravam... Apenas o click dos enlatados e das latas de leite condensado, retirados do Porto no momento do embarque, quebrava a monotonia daquela atmosfera de angustia e incerteza que respirávamos naqueles instantes...

As poucas notícias que nos iam chegando não eram nada favoráveis e, com o passar das horas, veio-nos a certeza de que para trás já não voltaríamos: o único barco que entretanto conseguira deixar o porto, zarpando no nosso encalço, chega até nós com duas pessoas com ferimentos de bala, trazendo as piores notícias possíveis...

A palavra de ordem era salvar vidas....a alternativa, seguir em frente mesmo que rumo à terra do nunca...

05 abril 2011

Festas populares , teatro e bailes em Moçâmedes (Namibe, Angola) nos finais dos anos 1930 ao início dos anos 1950. O Ginásio Clube da Torre do Tombo



Foto interessante que nos remete para o ano de 1938, por ocasião da   visita do Presidente da República, General Óscar Fragoso Carmona a Moçâmedes.  Reconheço, entre outras, em cima e da esq. para a dt:  Dina Ascenso (3ª), Rosalina Ilha (4ª),mais tarde casada com Armindo Gonçalves Bento; Ruth Gomes  (15ª), mais tarde casada com José Adriano Borges, e Rosete Ilha (17ª). Embaixo,  Regina Peixoto (à esq. de casaco branco), e a penúltima à esq. Iolanda Freitas (filha de Cesaltina Seixal e José Gomes de Freitas, mais tarde casada com Teixeira Homem). Créditos de Imagem: Foto do blog Ex-libris, de Francisco Teixeira Homem, filho de Iolanda.

Trata-se, pois, de um grupo de meninas e de senhorinhas da época, cujas sobreviventes são hoje respeitáveis octagenárias e até nonagenárias.

Moçâmedes  nunca passou de uma pequena cidade, mas nesta altura era ainda bem mais pequena, pois resumia-se a umas quantas famílias (1), sendo a maior parte destas meninas e senhorinhas que aqui vemos, algumas das quais respeitáveis octagenárias e até nonagenárias de hoje, descendentes de primitivos colonos que ali se estabeleceram  a partir do último quartel do século XIX. 

Como se sabe o desenvolvimento de Angola enquanto colónia esteve paraticamente estagnado até finais dos anos 1940,  por causas várias, como a crise pela qual passou a I República,  sendo grande a carência de meios, ainda mais agravada no século XX, com o envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial (1914-1918), para além do laxismo das autoridades metropolitanas, etc. etc. 

Por esta altura, como já referido, tinha visitado Moçâmedes, sendo recebido com grande aparato, o Presidente da Republica portuguesa, General Carmona, e estas crianças tinham sido chamadas a participar nas festividades: desfile de alunos das escolas do distrito na Avenida da Répública (mais tarde Avenida da Praia do Bonfim), pequenas peças de teatro, danças populares, etc.   Era então o Ginásio Clube da Torre do Tombo  a associação desportiva animadora da cidade (décadas 1920/30/40) . Clube pioneiro, as suas actividades excediam as desportivas (futebol, remo, vela, natação, ping-pong, etc) e estendiam-se também a actividades lúdicas e recreativas. Falemos um pouco deste clube, fundado em 1919, que marcou uma época na cidade de Moçâmedes nesse tempo em ainda se escrevia com dois "ss".

Outras festas organizadas pelo Ginásio Clube da Torre do Tombo, eram os arraiais de S. João, na quadra dos Santos Populares, em Junho de cada ano. Estes decorriam em plena rua, no local em frente à sede do clube, onde geralmente erguiam um estrado de madeira, rodeado de mastros engalanados com flores de papel, folhas de palmeiras, arquinhos e balões. E enquanto sobre o estrado  decorria o bailarico, um pouco mais ao lado, rapazes e raparigas de mãos dadas cantavam cantigas de roda à volta de uma enorme fogueira que ateavam, feita de barris ardendo em pilha, e adultos jovens tentavam trepar até ao cimo de um pau encebado onde uma garrafa de uma qualquer bebida como prémio do seu esforço, esperava por eles.







Mais abaixo, outro grupo infantil de teatro que à época participava em espectáculos promovidos pelo Ginásio Clube da Torre do Tombo, em Moçâmedes. Reconheçe-se  Maria Augusta Esteves (4ª em cima), Maria Etelvina Ferreira (à dt. em cima), e Manuel Esteves embaixo, à dt. Fotos e informação gentilmente cedidas por Etelvina Ferreira




das sobreviventes


Os Santos Populares foram sempre festejados em Moçâmedes e o hábito das fogueiras às portas das casas, ainda que fossem progressivamente perdendo intensidade, perdurou até quase ao fim da permanência portuguesa em terras de África, ou seja, até Junho de 1975. Eram estes usos e costumes, transladados pelos portugueses da terra mãe para aquele cantinho de África, que iam sendo consecutivamente alimentados pelos recém chegados àquelas paragens, e iam suprindo a nostalgia da distância. Junto de gente daquele tempo pude apurar alguns nomes de alguns "carolas" associados do Ginásio Clube da Torre do Tombo que naquele tempo organizaram bailes e bailaricos, levaram à cena teatros, festas e arrai, tais como António Martins (Latinhas), Luís da Piedade, Campos..., para além de outros nomes mais que as brumas da memória não permitem recordar,


Mas o velho clube da Torre do Tombo, antes de ser destronado pelo Atlético e pelo Clube Nautico (Casino) como local de eleição que era para a organização de festas de festa, bailes, peças de teatro, etc,  era também o ponto de encontro dos homens do bairro, na maioria gente ligada ao mar, que diariamente, ao fim do dia de trabalho, para ali convergiam na busca de  agradável convívio até à hora do jantar, ao mesmo tempo que jogavam à sueca, à bisca, aos dados e ao dominó, quando não ao ping-ponge e ao bilhar. Faziam-no na sala anexa ao salão de festas, onde existia uma mesa para bilhar, outra para ping-pong, umas quantas mesas de jogos de cartas  e um pequeno Bar onde se vendiam bebidas, tabaco e algumas gulodices, para além do referido palco  Mas havia também nos anos 1940 o Aero Clube de Moçâmedes (cuja sede ficava num bonito prédio, térreo, de arquitectura portuguesa, em frente à Avenida, de esquina com a Praça Leal (táxis), onde foi mais tarde construido um edificio de vários andares, propriedade de José Alves). Foi no salão do Aero Clube, por ser mais central e se encontrar junto da Avenida, local previlegiado da cidade onde se realizavam todos os eventos, que se realizaram animados bailes quando a cidade de Moçâmedes se engalanou para receber a visita do Chefe do Estado, General Carmona em 1938 e também em 1949, quando do Centenário de Moçâmedes. 

Ficam mais estas recordações.
MariaNJardim