09 maio 2011

Famílias de Moçâmedes, Namibe, Angola: Famílias Bagarrão, Martins Pereira, Guedes da Silva, Sousa, Freitas de Sousa, Tendinha...Freitas de Sousa...



Mais algumas familias de Moçâmedes, que faziam falta  neste blogue para nos ajudar a completar a nossa comunidade virtual, de forma a manter viva em recordação aquela que foi uma realidade que de um dia para outro se esboroou, naquele Inverno de 1975, em que fomos dispersos pelo mundo.

De entre este grupo de familiares e amigos, que parecem em agradável confraternização no interior de um daqueles paquetes que faziam escala em Moçâmedes, reconheço: Ao centro: o casal João Martins Pereira (à época industrial e agricultor) e Noémia Bagarrão Pereira e o neto Serginho. Atrás, Rui Tendinha. À dt : o casal Carlos Roberto de Sousa (Beto) e Maria Orbela Guedes da Silva e Sousa e filho Betinho e o casal Fernando Tendinha e Zita Freitas de Sousa Tendinha. À esq. o casal José de Sousa (à época, proprietário da firma Sousa & Irmão, Lda - Oficina-Auto e da Carreira de Autocarros Moçâmedes-Porto Alexandre) e Linda Freitas de Sousa, e o casal Mário Eugénio Freitas de Sousa (Zezo) e Noémia Bagarrão Pereira de Sousa. Mais à frente e à esq, o Dr Carneiro, advogado na praça. À frente Lucibela Sousa, Calita, Márito...

 


Algures numa viagem a Lisboa, à esq. as irmãs Noémia Bagarrão Pereira e Otília Bagarrão Guedes da Silva, tendo à direita, na foto, Armando Guedes da Silva, marido de Olília (foi proprietário de uma mercearia na Torre do Tombo até ao início da década de 1950, tendo posteriormente se radicado na Metrópole, em Lisboa), e ainda mais à dt o casal José de Sousa e Linda Freitas de Sousa, também vindo de Moçâmedes  e ali em gozo de férias.  Agradeço à minha priminha Micaela que as colocou no Facebook. Beijinhos a todos os corajosos descendentes da bisavó Catarina Ferreira, que estão na 1ª foto, e que no Namibe ousaram ficaram por amor à nossa querida terra.
Armando Guedes da Silva e João Martins Pereira, fomos encontrá-los nesta foto integrados na 1ª equipa  de futebol do Sport Moçâmedes e Benfica, em 1936, completamente formada por dissidentes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro de Moçâmedes (1919). Com um ramo de flores na mão, Armando Guedes da Silva encabeçou com Júlio de Andrade um processo de desvinculações, que não só os levou a abandonaram o Ginásio, como  levou atrás de si para o novo clube, que de inicio adoptou a designação de Sport Lisboa e Benfica, formado em 9 de Setembro de 1936, outros tantos jogadores aqui representados tais como: Edmundo Seixal, Aníbal Nunes de Almeida, Arnaldo Nunes de Almeida, João da Silva Estrela, Artur da Silva Estrela, Carlos Guedes da Silva, João Viegas Seixal e João Martins Pereira Jr., o que representou uma verdadeira catástrofe para o velho clube pioneiro azul e branco.

 http://memoriasdesportivas.blogspot.pt/2007/11/blog-post.html
 
 Na foto, ao centro e um pouco abaixo, de gravata e óculos, João Martins Pereira, em meio a uma mole humana que caminhava para os Paços dos Concelho, quando da visita a Moçâmedes, em 1961, do Ministro do Ultramar, Professor Doutor Adriano Moreira.

 D. Noémia Bagarrão Pereira em foto após 1975, em Lisboa

 
John Pereira, na pesca desportiva em Moçâmedes
 Termino com esta homenagem a D. Noémia que por esta altura já completou os 90 anos de idade:
 

PIONEIRAS
Noémia Emília Bagarrão Martins Pereira

“Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
Já todo o mundo é diferente.
Já outro ar me rodeia;
Outros lábios o respiram;
Outros aléns se tingiram
De outro sol que os incendeia.
........
Tudo é foi. Nada acontece.”
António Gedeão, “tudo é foi”, Poesias Completas (1956­‑1967), Lisboa, Portugália Editora, 1978, pp. 41­‑42.

Nasceu no Algarve, em Olhão, então vila piscatória a poucos quilómetros de Faro, capital do distrito, a 4 de Agosto de 1916, a terceira de quatro irmãos, dois rapazes, os mais velhos, e uma rapariga. O pai, António Martins Bagarrão, era mandador de redes de pesca, actividade ligada à malhagem das redes para os diferentes tipos de pescaria. A mãe, Maria Inácia Bagarrão, era doméstica.
A pesca era uma actividade sazonal, com paragens cíclicas nos meses de Março de cada ano, coincidentes com a recolha das embarcações, a fim de serem retocadas, pintadas e arranjadas as armações e respeitado o tempo de defeso do peixe, período destinado ao crescimento das espécies capturadas naquelas águas. No mês de Março de 1926, o pai ponderou os repetidos convites de uma irmã, que residia com a família em Angola, para emigrar para Moçâmedes. As promessas eram aliciantes, falavam de uma vida maravilhosa e da possibilidade de ganhar muito dinheiro. Era a oportunidade para um chefe de família com quatro filhos, um dos quais já casado e com uma filha pequena, de singrar na vida. Para pagar a passagem, hipotecaram a casa própria em que viviam e foram, pai e filho, com carta de chamada e emprego numa empresa de pescaria pertencente a João Tomás da Fonseca e João Martins Pereira, conhecido, tanto em Olhão como em Angola, por João da Carma, por ser filho de Maria do Carmo.
A parte feminina da família, esposa, duas filhas, nora e neta, seguiram seis meses mais tarde, quando os homens já estavam instalados e não aguentavam mais as saudades familares. Assim, aos 9 anos, Noémia embarcava para Angola, fazendo os 10 anos na ilha da Madeira, quando o vapor em que seguiam atracou durante uma semana.
Em Angola, foram para a Baía dos Tigres, na enseada pequena, terra árida, de areal, com fortes ventos, onde só chegavam transportes semanais, numa embarcação pequena, com alimentos, com a frescura perdida. A mãe de Noémia era muito doente e ali só se alimentava de caldos de peixe cozido; a restante família completava a dieta com pirão feito pelos naturais, arrefecido, fatiado e frito. A continuação naquele local era insustentável e o pai entrou em contacto com João da Carma para o pôr ao corrente da situação. Saíram, então, da Baía dos Tigres para Mocuio, mais perto da cidade, até que noutro mês de Março, quando as tempestades assolavam a costa, receberam ordem de fazer as malas e regressar a Moçâmedes.
Em Moçamedes, alojaram­‑se por algum tempo em casa de amigos, até que o pai foi convidado por um francês, de nome Rascaret, para ingressar na sua firma como mandador, em Praia Amélia, ficando responsável por todas as actividades, excepto a da contabilidade, atribuída a outro português, o “velho Mangericão”. A vida da família melhorou até pela curta distância à cidade de Moçâmedes.
Noémia podia, então, seguir o percurso das raparigas prendadas do tempo. Concluída a instrução primária, ainda em Olhão, a menina foi para uma escola aprender a bordar e a pintar seda, em grandes bastidores, donde saíam lindas almofadas e quadros. Também se tornou exímia no croché, de que conserva, ainda hoje, colchas e toalhas de mesa de esmerado labor. A família estava, por fim, fixada geograficamente num local aprazível e numa situação económica confortável, diga­‑se, instalados comodamente na colónia.
A amizade com João da Carma, também ele natural de Olhão, mantinha­‑se para lá dos laços laborais iniciais. Como nunca esquecerá, foi João da Carma que a recebeu, num dia de tempestade, à chegada a Moçamedes, vinda num baleeiro que, dado não haver cais, fazia o transporte de passageiros e mercadoria do navio para terra. O primeiro local africano onde Noémia se instalou, depois de mais de um mês de viagem, foi na casa de João da Carma. Foi também nesse dia e aí, que recebeu o primeiro beijo dado por um rapaz – o filho de João da Carma, também ele de nome João ­‑, quando brincavam na varanda da casa, em Torre do Tombo1, enquanto os adultos lembravam memórias do solo pátrio, no salão. Noémia recorda como ficou atrapalhada com a situação, escondendo o acontecimento da mãe.
A figura de João torna­‑se presente, convivendo nos fins­‑de­‑semana com os irmãos de Noémia. Os seus olhos ainda hoje se iluminam, lembrando a chegada a sua casa do rapaz veloz na bicicleta, a qual lhe permitia colmatar a distância entre Moçamedes e Praia Amélia. Quando Noémia completou 14 anos, João, com 17 anos feitos, veio pedir autorização ao pai dela para iniciar o namoro. Namoro este desejado e incentivado por aquele que virá a ser o seu sogro. Ficou­‑lhe registada na memória, a frase que o seu segundo pai – como gosta de chamar a João da Carma ­‑, dizia à sua mãe, nas visitas semanais que esta fazia à família, referindo­‑se a Noémia “deixe estar a pêra na pereira, não apodreça” e, subtilmente, a seu filho, ao acrescentar “que lá virá quem a mereça”.
A sete meses de concluir os 18 anos, em Janeiro de 1934, casa com o único homem com quem namorou e diz ter amado. Noémia também não esquece que ele assistiu à primeira gincana da sua vida, da qual saiu vencedora, aplaudindo­‑a. Revelaram­‑se, então, as suas capacidades competitivas, a par da descoberta por si mesma do prazer pelas actividades desportivas e pela visibilidade social, que lhe permitiriam participar num grande número de eventos locais.
Anos mais tarde, com 34 anos e já com dois filhos, uma rapariga com 17 anos – Coca (Noémia) – e um rapaz de 13 anos – Jone (João) ­‑, Noémia, a nossa pioneira, resolveu fazer uma experiência, quiçá, matar tempos mortos do seu dia­‑a­‑dia. Liberta da realização da grande maioria das tarefas domésticas, para as quais contava com o pessoal indígena – que ia formando para responder às necessidades e hábitos da família –, com os filhos ocupados na escola e o marido ausente nas suas actividades empresariais ou no Grémio da Pesca – do qual foi funcionário e depois presidente –, pensou divertir­‑se a aprender a conduzir. Recorreu ao irmão Arnaldo, que a ensinou a fazê­‑lo numa das carrinhas de caixa aberta ao serviço da sua fazenda agrícola.
Nessa fazenda, de cuja extensão nunca conheceu os limites, como recorda, a par da criação pecuária – porcos e bezerros – e do cultivo de produtos hortículas e de frutos autóctones, que vendiam para o Grémio da Agricultura, desenvolveram, ainda, a cultura de camarão em cacimbas, espécie de poços feitos na margem do rio Bero, o qual a atravessava. A facilidade com que aprendeu a guiar despertou o interesse de um examinador, que vinha de Sá da Bandeira avaliar os candidatos a encartados, o qual a aprovou. Noémia, tornou­‑se, assim uma das primeiras mulheres residentes em Angola com carta de condução, a primeira a tê­‑la, em Moçâmedes.
A destreza nas manobras e o pé pesado no acelerador, a par do bichinho pela competição, levaram­‑na a participar em provas automobilísticas, algumas das quais todo­‑o­‑terreno, de que lembra a subida da montanha de Giraúl. Exibe­‑nos uma folha do jornal local O Namibe, de 24 de Setembro de 1955, onde é abordada a sua participação pioneira numa corrida e gincana automóvel, patrocinadas pela Rádio Club de Moçamedes, sendo Noémia entrevistada.
Foi a primeira mulher a obter a licença de concorrente nacional, emitida pela Comissão Desportiva do Automóvel Touring Clube de Angola. Como se assinala, no documento que ainda hoje conserva, esta licença era válida, pelo período de um ano, em todo o território nacional e era requerida para tomar parte em manifestações desportivas.
Foram muitas as provas em que participou e os prémios ganhos também foram alguns. Reconhece, com uma certa mágoa, que o favoritismo determinava alguns dos resultados das provas, afirmando “quando começaram a entrar na competição esposas de certas figuras do poder local deixei de ser a vencedora”.
À pergunta se reconhece ter sido uma mulher que foi diferente das do seu tempo, responde que não. Considera que sempre foi uma dona­‑de­‑casa e mãe de família, exemplares, e que era o seu marido quem orientava a vida económica, garantindo que no presente nada faltasse aos seus e investindo para assegurar um futuro ainda melhor. Identifica claramente papéis sociais tradicionalmente atribuídos à mulher e ao homem, sintetizados por si na expressão “ele mandava na rua e eu em casa”, denotando um reconhecimento dos limites do poder do feminino, circunscrito à esfera do privado. Com uma lucidez crítica afirma ter participado, e as outras senhoras também, nas competições porque eram os maridos que, mais do que aceitarem que participassem, as incentivavam a fazê­‑lo. Remata, em tom de confirmação da sua avaliação, “eram eles que nos inscreviam”. Conjectura­‑se que as competições automobilísticas femininas eram potenciadoras da exibição das esposas como troféus dos respectivos maridos.
Acrescentando, diz­‑nos que as senhoras só entravam em provas competitivas locais, reservando os homens, para si, a participação noutras cidades. Assumindo eles uma função disciplinadora e normativa da actividade feminina, ditavam as regras da presença das suas mulheres no espaço público. Limitada a prática desportiva às competições locais, via­‑se salvaguardado o lugar das mulheres no meio familiar, dado estas provas não requererem um assinalável afastamento do mesmo.
Não se adivinha resignação no seu discurso, mas tão só aceitação daquilo que se considera ser a realidade da vida de então, norteada pelo princípio de subalternidade, por si implícito na expressão “mandava ele [o marido] e eu aconselhava­‑o”.
A componente lúdica, assim como o carácter social, está sempre presente na abordagem saudosista que faz da vida em África. Recorda as festas de âmbito mais alargado, como os bailes, sobretudo, os do Casino, do Atlético Clube de Moçamedes e do Aero Clube de Moçamedes, a “Festa de Moçamedes, Mar e Março” ou, ainda, o Carnaval, organizando um carro alegórico para desfilar com os seis netos – Mário, João, Filipe, Carlo, Sílvia e Sérgio. Torna também presente os encontros com grupos restritos de amigos, em sua casa, para jogar à sueca ou para fazer caçadas no mato, pernoitando no acampamento turístico desenvolvido para safaris pela família do marido da sua filha. E das festas familiares, retém o Natal, preparando para os seus criados uma mesa com o mesmo tipo de iguarias às servidas para os senhores, assim como a Festa de Ano Novo, brindando efusivamente à Passagem do Ano, na varanda que acompanhava toda a sua casa, sob a marginal, com cálices de Marie Brizard, sua bebida preferida.
Fazem ainda parte das suas memórias o cinema e as viagens. Em Moçâmedes a família frequentava assiduamente o Cine­‑Moçamedes, não deixando ainda de ir às tão apreciadas sessões cinematográficas, ao ar livre, no Impala Cine. Reconhece, mesmo, que o cultivo do cinema terá influenciado o amor que o seu fiho lhe tem devotado, tendo fundado uma sala de cinema, em Peniche, localidade onde se veio a fixar quando teve de abandonar Angola. Refere, ainda, que o seu neto “Jonica” gosta de recordar que foram os avós que o levaram, a ele e ao primo Mário, pela primeira vez a uma sessão de cinema com cenas de nus, muito ousadas para os costumes da época, com a exibição de A Piscina (1969), de Jacques Deray e tendo por protagonistas Romy Schneider e Alain Delon. Acrecenta, por último, que tem quase a certeza que passavam lá filmes que na Metrópole não eram exibidos ou, quando o eram, tinham partes censuradas.
Das viagens recorda ter sabido do fim da II Guerra Mundial, em 1945, quando estava na ilha da Madeira, escala da sua primeira vinda à Metrópole. Com uma frequência média de dois anos visitava Portugal, aproveitando para conhecer minuciosamente o país, assim como Espanha, que percorreu de lés­‑a­‑lés, e algumas capitais europeias. As férias na África do Sul também são por si lembradas com um misto de prazer e de dor, dado ter sido numa destas que teve conhecimento da morte do sogro, que havia anos deixara o continente africano e residia em Lisboa.
Se o clima era propício a banhos, a proximidade do mar, residindo, uma grande parte da vida na Avenida Marginal de Moçâmedes, fazia com que a chamada “ida à praia” fizesse parte do seu espaço quotidiano. Noémia confidencia­‑nos, divertida, que o seu fato­‑de­‑banho preferido, branco e vermelho, de duas peças, a que hoje chamaríamos de biquíni, tinha a cor do Benfica. A expressão deste culto pelo seu clube desportivo de sempre evidencia­‑a exibindo­‑nos um exemplar da secção desportiva do jornal O Namibe, de 4 de Agosto de 1955, referindo a participação do clube na “Pequena Taça do Mundo”, e ao revelar­‑nos o fetiche de ver os jogos do clube sempre com o simbólico cachecol ao pescoço. Dizendo­‑se uma desportista e uma fanática benfiquista, não esquece um dos ídolos do futebol, o moçambicano Eusébio.
A forte ligação emocional à sua experiência de vida em África, consubstancia­‑se no interesse que teve em seguir o destino da moradia familiar, conservando um retrato da residência que a viu partir e da mesma ocupada na actualidade pelos serviços policiais da Namibe (actual nome de Moçâmedes).
Invocando o poeta António Gedeão, diremos que Noémia experimentou que tudo é foi, tendo a filosofia de vida suficiente para, reconhecendo a implacável lei do devir, entender que neste abrir e fechar de olhos/já todo o mundo é diferente.

Ilda Soares de Abreu e Maria José Remédios
1Designação de um dos bairros de Moçamedes, onde a família de João da Carma tinha, para lá da sua residência, a empresa ligada à actividade piscatória – frota de armação de pesca, fábrica de secagem de peixe e de produção de óleo e farinha do mesmo ­‑, a qual seria vendida, no final da década de 60, para ser construído o cais de Moçâmedes. Entende­‑se que o nome atribuído àquele bairro faça alusão ao registo de memórias, dado naquele local terem sido encontrados vestígios da passagem de corsários e mareantes, que esculpiram na rocha sinais da sua presença.
Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher no.33 Lisboa 2015
Universidade Nova de Lisboa
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Grupo de Investigação Faces de Eva, Estudos sobre a Mulher
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Familias de Moçâmedes (hoje, Namibe), Angola: Familias Simões e Arnedo

Outras famílias interligadas e  residentes em Moçâmedes: Zeca Simões, Henrique Sarmento, Olivia Arnedo, João José Arnedo, Minha mãe Luisa Simões, Zezinha Arnedo, Oriete Simões, Graça Carapinha (Bebé da foto) Fatima Simões, Ildemarina Simões, Avó Beatriz Simões, Maria do Monte, Jaquelina Arnedo, José Luis Simões, Jorge Arnedo, João Arnedo, Veríssmo Simões, Augusto Simões, José Raul da Silva Simões. Foto gentilmente cedida por Graça Carapinha.

05 maio 2011

Jovens na Moçâmedes de outros tempos... em Angola (actual cidade do Namibe), no Parque Infantil

Jovens de Moçâmedes posam para a posteridade junto à cerca onde ficava o pequeno zoo com alguns animais  capturados no Deserto do Namibe, sendo visíveis duas belas zebras. São eles, da esq. para a dt: António Manuel Passos Marques, Carlos Vilhena Piedade,Virgilio Paradanta Marques Couto, António Cebolo (de óculos) e  Luís Rosa Palmeira. Embaixo, José Neves Almeida (*)
(*) Créditos foto.

22 abril 2011

Visita do Presidente da República, General Francisco Higínio Craveiro Lopes a Moçâmedes, em 1954








O Presidente Craveiro Lopes, em 1954, deu início a uma visita prolongada a Angola, no decurso da qual percorreu cidades, vilas, aldeias, e os sítios mais recônditos do imenso território, ao longo de trinta e seis dias, onde teve vários e breves encontros com as populações nativas, servindo-se de intérpretes de várias origens (funcionários administrativos, comerciantes da zona, autóctones, missionários, etc).

Fazendo um levantamento breve do que se passava em Angola, em Portugal, e pelo Mundo nesta época, diremos que esta visita aconteceu nove anos após a II Grande Guerra Mundial (1939-1945), numa altura em que,  com a Carta da ONU e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, tinha começado a onda das independências das colónias em África,  sob a égide da França e da Inglaterra, e estavam criadas as condições que a médio prazo levariam ao desfecho do sistema colonial português, visto pelas grandes potências como um entrave.  



A VISITA DO PRESIDENTE CRAVEIRO LOPES A MOÇÂMEDES


Ao longo dessa prolongada visita a Angola e S. Tomé, Moçâmedes foi também visitada pelo Presidente da República, General Francisco Egíno Craveiro Lopes, que, vindo de Sá da Bandeira (Lubango) com a respectiva comitiva, desceu a serra da Chela de comboio,  tendo na sua passagem por Vila Arriaga, por volta das 10.30 da manhã, feito uma paragem, para presidir à cerimónia da inauguração da nova linha alargada dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, num troço de 90km, que veio proporcionar um melhor escoamento de produtos e ajudar a incrementar a economia do Distrito.



 
Cerimónia da inauguração da nova linha na bitola internacional de África, realizada estação de Vila Arriaga (Bibala)


No acto da inauguração, o Presidente da República envergando camisa e calça de caqui, tipo militar, e capacete colonial, assinou o auto e queimou, como era costume em actos do género,  a simbólica fita  (como a foto acima documenta) com o fogo da fornalha da locomotiva. 

Esta obra, enquadrada no Plano de Fomento Nacional, tinha em vista o povoamento do vale do Cunene e de outras regiões, bem como o desenvolvimento económico e de colonização em zonas menos povoadas do território, porém esteve por muito tempo paralisada, por falta de materiais, no periodo da II Grande Guerra (1939-1945), em que as fábricas  europeias se encontravam ao serviço da indústria do armamento.

Com esta inauguração, o Caminho de Ferro de Moçâmedes passou a dispor de potentes locomotivas que aumentaram a capacidade transporte de carga e de passageiros,  e passaram  a proporcionar uma maior rapidez no escoamento da produção, uma vez que passaram a rebocar comboios da ordem das 800 a 1000 toneladas, quando as anteriores rebocavam composições da ordem das 120 toneladas apenas.

No decurso da cerimónia de inauguração, falaram o Eng. Vasco Outeiro, o então director da 
Exploração do Porto e Caminhos de Ferro de Moçâmedes, o Presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial da Huila, Nuno Pedrosa, e o Engº Melo Vieira, Vice-Presidente da Comissão Administrativa do Fundo de Fomento de Angola. A fechar a sessão, falou o Chefe Estado General Craveiro Lopes. 

Através dos sucessivos discursos foi feito um breve historial do CFM, desde os primeiros estudos, em 1888, iniciado com fins militares,  até à abertura em 1907 do 1º troço até ao km 67,  que prometia vir a ser um dos melhores de Angola. Falou-se  da importância dos vários Planos de Fomento quinquenais postos em acção desde 1938, da autoria do Dr Vieira Machado, Ministro das Colónias (1938-45), da suspensão dos trabalhos por falta de apetrechamento, devido à guerra, do alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes, ao Km 173 e do Km 205 a Sá da Bandeira.  Foram tecidos elogios ao Plano que veio proporcionar importantes melhoramentos ao nível dos CFM. Falou-se ainda da construção do Porto de cais de Moçâmedes, e da promoção do povoamento do vale do Cunene em prol do desenvolvimento económico da região. 
Os discursos terminaram com os tradicionais "vivas" a Portugal e a Salazar, e elogios à governação pelos vertiginosos progressos que estavam a ser levados a cabo em Angola. 

O Presidente da República continuou o percurso partindo de Vila Arriaga rumo a Moçâmedes, tendo feito uma paragem no Posto Experimental do Caraculo, onde percorreu diversas secções e procurou  informar-se de todos os pormenores de  funcionamento, mostrando-se bastante impressionado. Esta visita terminou com um almoço volante, e a marcha prosseguiu rumo a Moçâmedes, tendo o comboio ao entrar na Estação apitado 3 vezes, ao mesmo tempo que estalaram 30 morteiros lançados, e os clarins executaram a marcha de continência, sendo o Presidente à chegada à Estação, delirantemente ovacionado. 


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Batalhão da marinha desembarcado de três navios de guerra da escolta presidencial



A Guarda de honra ao Presidente foi constituída por um batalhão da marinha desembarcado de três navios de guerra da escolta presidencial, e por um pelotão de caçadores comandado por José Relvas, comandante do destacamento militar de Moçâmedes, e ainda por uma "bandeira" da Mocidade Portuguesa, comandada por Raúl Trindade Abreu (Nito), e um contingente dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes. 
 Seguiu-se o desfile no qual se incorporaram o batalhão da Marinha, o pelotão de caçadores, alunas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes uniformizadas de branco, e o contingente dos Bombeiros Voluntários. 



 


O Presidente da República e comitiva passando por entre basquetebolistas dos clubes locais, em representação do Ginásio Clube da Torre do Tombo, do Atlético Clube de Moçâmedes, do Sporting Clube de Moçâmedes, e do Sport Moçâmedes e Benfica




 
O Presidente da República assistindo ao desfile


 Na tribuna erguida para o efeito,  no terreno defronte à Estação do Caminho de Ferro, o Presidente Craveiro Lopes e comitiva assistiram ao desfile, vendo-se na foto, à esquerda, representantes das forças vivas da cidade, entre os quais o Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, Dr Mário Moreira de Almeida (Médico), os vereadores Raul Radich Júnior, Rui Torres, Virgilio Carvalho e Gomes da Silva, e o Secretário da Câmara Municipal, Artur Trindade que, empunhando o estandarte, fez a entrega das chaves da cidade ao Presidente. Encontrava-se também junto à Tribuna, um grupo de senhoras da JIC (Juventude Independente Católica), que à passagem do Presidente lançaram para o ar pétalas de flores que transportavam em pequenos cestinhos.

 A sessão de boas vindas nos Paços do Concelho


Terminada a cerimónia, o Presidente seguiu em cortejo automóvel até ao salão Nobre da Câmara Municipal, para a sessão de boas vindas, tendo sentados à sua direita, o Ministro do Ultramar r  o Governador da Huila, Engenheiro Raimundo Serrão, e à sua esquerda, o Governador Geral, Comodoro Sousa Uva e o Engenheiro Melo Vieira.
No decurso da cerimónia tomou a palavra, em primeiro lugar, o Presidente da Edilidade que apresentou cumprimentos em nome da população, e fez um resumo da Historia do Distrito, deste Diogo Cão, passando pela época em que a velha Angra do Negro era visitada por mareantes que deixaram impressas no Morro da Torre do Tombo, centenas de inscrições, que a mão do homem foi apagando, uma das quais rezava assim:

 " Aos seis dias do mês de Fevereiro saltou o sargento Domingos Morais nesta baía, que é formosa, em campanhia do seu capitão José Rosa, em 1665".  Gente que não chegara ali para caçar nem para comprar escravos, mas que tripulava o patacho " Senhora da Nazaré", e que a mando do Governador Vidal de Negreiros vinham em reconhecimento da costa, e certamente em missão de soberania. 

O Presidente da Edilidade recordou ainda a chegada, em 1785, de Pinheiro Furtado, na fragata "Loanda" tendo, tendo este proposto ao Governador Geral o nome Mossâmedes, em substituição de Angra Negro. Recordou acontecimentos como o assassinato, no "Rio das Mortes" (Rio Bero), do oficial José Sepúlveda, do cirurgião Francisco Bernardes, e mais dois marinheiros caídos em embuscadas levadas a cabo pelos indígenas, e a expedição de Pedro Alexandrino e de Francisco Garcia, por mar e por terra, em reconhecimento da costa e do interior, na 4ª década do século XIX. Recordou também as instruções do General Sá da Bandeira ao Governador António Noronha, e os resultados daquelas duas expedições que levaram à criação, em 1840, do Presidio e Estabelecimento, sob a condução do Tenente Garcia, que por terra havia penetrado até aos sertões de Caconda. Salientou o carácter militar da primeira ocupação regular da futura Mossâmedes, que definhara por sete e oito anos após estabelecimento de algumas feitorias, recordou a guarnição do Presidio com quatro centenas de degredados, sendo na altura a população europeia compreendida por alguns comerciantes e seus familiares, e chamou atenção para o facto de que já por esse tempo tivera início a pequena indústria de pesca, bem como a agricultura no fértil vale do Bero, sendo com a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, que se entrou na fase em que finalmente algo começava a mudar em Angola, até então abandonada e esquecida, transformada desde há muito em entreposto de trafico escravos para o Brasil e Américas.

Em seguida tomou a palavra  o Presidente Craveiro Lopes para manifestar o seu entusiasmo pelo que lhe fora dado assistir no decurso da sua viagem por parte do povo de Angola, que tão carinhosamente o  recebeu, manifestando o seu patriotismo por uma "tria exovalhada pelo mundo", ao que naturalmente se seguiram calorosos aplausos. Finda a sessão, a multidão que se aglomerava no exterior e aguardava o General Craveiro Lopes, convergiu para o Palácio-residência do governador, onde se seguiu uma recepção pública.

Às 15 horas do dia 23 foi a vez da inauguração dos trabalhos do cais acostável, a cuja cerimónia acorreu uma grande multidão, salientando-se as camadas estudantis, como as fotos a seguir deixam ver.




Alunas e alunos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes preparando-se para marcar a sua presença na inauguração ...

 

Um grupo de estudantes filiados da Mocidade Portuguesa dirigindo-se para o local.  Nesta foto podemos ver também alguns africanos preparados para seguir o mesmo trajecto. À esquerda moradores da zona nossos conhecidos, entre os quais Rita Seixal, Paula Ferreira, Conceição Gois (Lili) e Guilhermina Góis Jardim assistem ao desenrolar dos acontecimentos.

O Chefe do Estado, acompanhado do Ministro Ultramar,  do Governador da Huila, e das Senhoras que integravam a Comitiva, chegou ao local dos estaleiros das obras  do porto de cais, na base da falésia da Torre do Tombo, onde era aguardado pelo Engº Melo Vieira, do Fundo de Fomento,  por Rocha de Carvalho, da Fiscalização de Obras, por Raimundo Serrão e por Vasco Outeiro, dos Portos Caminhos Ferro, além de entidades de locais. Falou em seguida o Presidente da Associação Comercial de Moçâmedes que fez um historial da cidade desde os tempos da sua formação. Os discursos empolgaram os assistentes, e as últimas palavras proferidas, por fim, pelo Presidente Craveiro Lopes, foram objecto de salvas de palmas vivas e calorosos.

 

O momento em que tomou a palavra  Raúl Radich Jr.

 
O momento da inauguração dos trabalhos do novo porto

Seguiu-se o momento solene da inauguração dos trabalhos do novo porto de Moçâmedes. Na foto acima podemos ver o momento em que o Presidente Craveiro Lopes carrega no botão que irá fazer explodir uma parte da falésia, como documenta a foto a seguir.
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O estalar das primeiras minas
 
A tribuna onde decorreu a Cerimónia
Multidão concentrada no cimo da falésia da Torre do Tombo, para assistir à cerimónia da inauguração das obras do porto de cais. Mais perto,  bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento.
Desportistas, alunos das escolas  e população em geral a assistir à cerimónia do lançamento da 1ª pedra para a construção do cais comercial
O regresso ao Palácio
Estudantes e povo acompanham o carro presidencial


Chegada a cerimónia ao fim, é o regresso a casa, via Bairro da Torre do Tombo



O Presidente Craveiro Lopes partiu em seguida para a  Baía dos Tigres, acompanhado da comitiva antes de partir para Porto Alexandre, onde terminou a sua visita ao Distrito de Moçâmedes.



 Durante a visita do Presidente, a reverenda professora primária, D. Alina de Campos, cumprimenta D. Berta Craveiro Lopes

 




Sabe-se que em 24 de Junho de 1954 foi entregue com encadernação de pele castanha, gravada com ferros dourados; guardas e versos da capa e da contracapa forrados de tecido bege, com cortes das folhas em dourado, um álbum composto por 27 folhas e 132 documentos fotográficos, não legendadas, que documentam a visita do presidente Craveiro Lopes, acompanhado da primeira-dama, Berta Craveiro Lopes, à cidade de Moçâmedes, no âmbito da sua viagem oficial a Angola. É muito provável que o álbum tenha sido oferecido à primeira-dama, na medida por um elenco de senhorinhas de Moçâmedes na medida em que em que nas folhas I e II, ambas em papel vegetal, existe o total de 25 assinaturas femininas após a seguinte dedicatória manuscrita: "Para que Moçâmedes viva sempre em vosso pensamento, como em nós perdura a doce recordação da vossa passagem, pedem licença para ofertar-vos esta modesta lembrança: [seguem-se as assinaturas de mulheres, com identificação dos seus cargos ou funções]. A reportagem fotográfica regista vários aspetos arquitetónicos da cidade, bem como cenas de desfiles cívicos pelas ruas, homenagens prestadas ao chefe do Estado, iluminações municipais noturnas, a visita da primeira-dama a uma instituição católica de ensino infantil e, por fim, apresenta algumas imagens de exemplares da fauna angolana.




Recepção feita por um grupo de senhorinhas da JIC (Juventude Independente Católica) de Moçâmedes, a D. Berta Craveiro Lopes. 



Soube-se mais tarde que as relações entre o Presidente da República Craveiro Lopes e Salazar, sempre foram frias e formais. Com o Presidente Craveiro Lopes foi nascendo a esperança de mudança para Portugal. Por meio de cartas, pedidos de reuniões, audiências, as populações  davam ao Presidente conta do que se passava no país, a questão da censura, a falta de liberdade de reunião, a questão do sufrágio, etc. O Presidente acabou por ser conectado com a oposição ao regime,  como um homem disposto a substituir Salazar. O ano de 1958 chegou. As eleições presidenciais também, tal como estava previsto na Constituição. O Presidente Craveiro Lopes ambicionava um segundo mandato mas a União Nacional escolheu outro candidato, o Almirante Américo de Deus Thomás.

MariaNJardim 


Nota: os textos foram feitos a partir de uma leitura dos Cadernos Colonias de época.

Ver tb aqui: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1954/N1597/N1597_master/GazetaCFN1597.pdf



09 abril 2011

Festas no Atlético Clube de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), em Angola

Festa no Atlético Clube de Moçâmedes, organizada como não podia deixar de ser, nesta época, por Hemitério Alves de Oliveira, um dos directores e grande "carola" daquele Clube. Na foto, no topo, Hemitério Alves de Oliveira e Belinha Costa Santos. Encontram-se nesta foto, entre outras/os, da esq para a dt: Dulce Alves de Oliveira (Dudu), Eduarda Figueiredo, ?,  Maria João Nascimento,  Iolanda, ?, Fernanda Quadros, ?, Irene Faustino,  Mariália Matos, Alexandrina, Isabel Fragata, Céu Costa Santos, Fernanda Mendes, Raquel Martins, Rosa Seixal, Júlia Castro, Gena, Eugénia Figueiredo,
Elisa...









 Nesta foto, reconheço, entre outros/as: Ilda Bacalhau, António José Carvalho Minas (Tó Zé), Vieira (filho do professor Vieira da Escola 49), Joaquim Horácio Silva Reis, Moutinho, São Figueira Fernandes, Maria João Nascimento, Farinha e Neves Almeida. Foto de Neves Almeida in Sanzalangola

06 abril 2011

Fuga da cidade do Namibe (Moçâmedes) no "Silver Sky": um dramático testemunho




Aos 10 de Janeiro de 1976...
Moçâmedes, já é Namibe!

Nas ruas, sirenes soam
Nas casas, o pânico instala-se
Na rádio vozes ecoam:

"Fujam, fujam p'ró cais…"

Do alto da Chela
Mabecos avançam
Serpentes rastejam
Clamando vingança

São rostos alucinados,
São hienas, são chacais...
São olhos esgazeados,
São ferozes animais...

"Fujam, fujam p'ró cais…"

Moçâmedes, já é Namibe!!
Ardem caixotes no cais...
Moçâmedes já foi Namibe...
Adeus até nunca mais...

(MSA)


Este poema, por "autor desconhecido" foi-me enviado há uns 8 anos atrás, e não tem qualquer relação com o autor ou autora do texto que segue, que mais tarde encontrei na Net, e que nos traça um relato da fuga da cidade do Namibe no velho navio cerealífero grego, o "Silver Sky", que no dia 10 de Janeiro de 1976, já com Angola independente, deixou a cidade rumo a Welvis Bay, com mais de 1600 pessoas a bordo, comprimidas no convés e nos porões, partilhando a comida, o agasalho e a angústia no porvir, longe de se aperceberem que aquela viagem marcava o fim da presença em terras do Namibe de quantos naquele navio viajavam, e que de forma abrupta se viram obrigados a abandonar o seu torrão-natal.

A ideia era o afastamento temporário para o alto mar à espera que a situação acalmasse. Foi a salvação possível!

Eis um testemunho a que tivemos acesso através da Net:

"...O Sonho

Angola, Setembro de 1964, numa morna e calma madrugada, por entre o som do bater das ondas nas rochas e o ecoar dos tambores na sanzala, um choro de criança irrompe pelo ar... Nascia Imga, filha de Al e Gavi, neta pelo lado materno de Katchero e Espirito Santo e pelo lado paterno de Gingubinha e Victória. Imga crescia feliz, amante dos livros e das tradições ancestrais, dona de uma inteligência e tenacidade, raras para uma criança de tenra idade. Os prémios escolares sucediam-se, estudava com afinco mas ainda assim, tinha tempo para o teatro e para a música, para os fins de semana na praia com a família, e as tardes passadas com o pai, no estabelecimento comercial que detinham no centro de Moçâmedes, o que lhe dava tanto prazer...

Alheias a este idílio de felicidade familiar, as tensões sociais cresciam e as quesilias entre partidos políticos começavam a tomar proporções preocupantes...

Estávamos em finais do ano de 1975. A tão almejada Independência de Angola estava em curso e a movimentação dos "retornados" intensificava-se. Castrava-se assim a felicidade de uma criança, a esperança de um pai, a unidade de uma família...


O Início do Pesadelo


Dezembro de 1975, Imga tinha então onze anos de idade. O sorriso sempre presente no seu rosto, com que presenteava todos aqueles que cruzavam o seu caminho, desvanece-se repentinamente, dando lugar a uma torrente de lágrimas e gritos de desespero, sufocados apenas pela sinfonia trepidante e estridente das armas de fogo, daqueles que se degladiavam na inconsciência da soberba e do poder.
O caminho de regresso a casa era impensável. Era o período de férias do Natal. Imga como de costume deslocara-se ao Mercado, a pedido da mãe, levando consigo seu irmão Atot, que a acompanhava sempre nessas andanças enquanto, sua mãe, permanecia no recanto do lar com seus outros três irmãos infantes ainda : Ainos, Yzus e Oigres. Subitamente, o edifício do Mercado é atingido pelo arremesso de bazucas e granadas. Num gesto alucinado, Imga arrasta Atot, por entre a chuva de balas e pó em direcção à casa da irmã mais velha, Asle, que vivia a poucos metros dali. Asle tinha uma bebé com oito meses, Aivlis, e estava grávida de cinco meses de outra menina que viria a chamar-se Aluap. Para se protegerem das balas, pois a casa estava cercada por militares, tentavam esconder-se debaixo das camas mas, a aflição, o medo, o desespero eram asfixiantes e não havia como proteger Asle pois, a sua enorme barriga não lhe permitia meter-se debaixo da cama...
Foram momentos extenuantes de aflição, incerteza e dor. A falta de notícias de seus pais, irmãos e demais familiares, toldava o semblante de Imga de uma agonia misto de revolta e dor, mesclada de impotência. Estariam ainda vivos?

A comida escasseava, a água era quase nada. Qualquer movimento, o menor ruido, servia de pretexto para que os disparos chovessem em direcção à casa... ninguém se podia mover, nem mesmo para ir à casa de banho... Foram horas intermináveis! As persianas cerradas, as janelas e portas trancadas, não permitiam discernir entre o dia e a noite. Vencidos pela dor, a fome e o cansaço, adultos e crianças adormecem...

Entretanto, sempre alerta, Imga apercebe-se que o barulho dos tiros estava mais disperso. Anel, prima de Imga, lembra-se de um tacho de caldeirada de peixe que ficara na cozinha do quintal. O risco era grande... Quem se arriscaria a sair do esconderijo, atravessar o quintal até à cozinha, para alcançar a famijerada caldeirada?  Anel, como sempre, devota à família, tomou a si essa responsabilidade. Mas, Imga, vivaça como sempre e, do alto da sua inocência, vendo que mais ninguém se decidia, estendeu a sua mãozinha a Anel e puxou-a, em passo de corrida, em direcção ao quintal...

Ao sairem da cozinha de tacho nas mãos, uma voz entoa em tom ameaçador... Imga, ergue os seus olhos no sentido da voz e, sem deixar transparecer o turbilhão de emoções que lavavam a sua alma infantil, sussurra -"...os meninos têm fome, viemos apenas pegar este tacho...", - o desconhecido de arma empunhada na sua direcção interpela -"... quem mais está aí?", Imga responde,-" ...ninguém..."

Liberadas pelo seu algoz, retornam à casa principal juntando-se aos demais... Os tiros recomeçam e ouvem-se gritos e o barulho de algo a cair ao chão nas imediações...
As horas passaram, as trocas de tiros cessaram...De repente, alguém bate à porta... O medo paralisa todos os que ali estavam, temia-se o pior...  Entretanto, por entre as batidas ouve-se uma voz, -"... pessoal, respondam por favor, estão todos bem?"

Ao ouvir a voz do pai, Imga corre em direcção à porta e, num misto de tristeza e alegria entre lágrimas e sorrisos constatam que estavam todos vivos, pois de ambos os lados tinha-se temido o pior. Era noite de Natal. E que Natal! Não haveria Ceia, nem Presentes, nem Luzes nem Cânticos. Apenas, a unidade de uma família, em torno da vida que esteve prestes a ser-lhes roubada. Nos quintais da vizinhança, jaziam corpos de militares. Nas ruas os feridos, os mortos... eram esses os presentes dos moçamedenses, naquele fatídico Natal de 1975.


A FUGA


Temendo uma recidiva dos confrontos, Al reune a família em retirada para a Baía das Pipas, o refúgio, o paraíso da família. Aí, recuperam energias e aguardam notícias para poderem voltar a normalidade.
No aconchego da casa dos avós de Imga, saboreando a deliciosa sopa de peixe da querida avó Katchero, em torno da longa mesa da sala, com o velho avô Espírito Santo, nos seus cabelos prateados e ternas mãos de longos dedos amarelecidos pelo cigarro, comungavam todos daquela paz familiar, alheios ao facto de que esta seria a última vez que este quadro se pintaria...

As notícias vindas da cidade, eram favoráveis ao regresso da família à vida normal. Os adultos retomam a sua actividade nas lojas e as crianças regressam à escola. A vida teria de seguir o seu curso... Contudo, esta calmia era apenas aparente. O novo ano de 1976 ainda mal havia iniciado.

Imga como era costume, todas as manhãs, foi para o colégio acompanhada de seu primo Onem. De repente, o curso normal das aulas é interrompido pelo toque incessante de sirenes. As freiras apelam à calma e ao silêncio, na tentativa de impedir que as crianças saíssem em debandada. Mas era muito difícil conter o medo e o desespero que se apoderava de todos! As notícias que chegavam indiciavam o reeinício dos confrontos.

As portas do Colégio Nossa Senhora de Fátima abriram-se por fim e, entre lágrimas e gritos de desespero, deu-se início a uma louca corrida contra o tempo pois, anunciava-se nas ruas a existência de barcos atracados no Cais, prontos a transportar quem quisesse abandonar a cidade pois, as forças opositoras estariam a escassos quilómetros.

Muitas crianças desencontraram-se dos seus pais. Até mesmo Imga! Ao chegar a casa a mãe já se encontrava com sacos de mão, pois não haveria tempo para arrumar mais nada. Mas o pai, onde estava o pai de Imga? O pai saíra ao seu encontro no colégio. Imga chorava pois não sairia dali sem o seu pai...

Felizmente, o pai de Imga chegou, reuniu a família e dirigiram-se para o Cais, apenas com a roupa do corpo e pouco mais...

Lá estava ele: O Silver Sky. O nosso salva-vidas! Num abrir e fechar de olhos, estávamos a zarpar em direcção ao alto mar.



Chegados ao Porto, apressadamente fomos "enfiados" dentro do Silver Sky, amontoados como sardinhas em lata. Alguns, enquanto aguardavam na fila ainda se lembraram, e em boa hora, de arrombar os caixotes de madeira que se encontravam no cais e que, ainda não haviam seguido o seu destino...
Entretanto, é dada a ordem para zarpar informando-nos que ficaríamos ao largo até que as coisas em terra acalmassem....Apagaram-se as luzes, ouviram-se os motores e, lá fomos nós de mansinho escondermo-nos em alto mar...

As horas passavam, a fome apertava...as crianças choravam...os adultos suspiravam... Apenas o click dos enlatados e das latas de leite condensado, retirados do Porto no momento do embarque, quebrava a monotonia daquela atmosfera de angustia e incerteza que respirávamos naqueles instantes...

As poucas notícias que nos iam chegando não eram nada favoráveis e, com o passar das horas, veio-nos a certeza de que para trás já não voltaríamos: o único barco que entretanto conseguira deixar o porto, zarpando no nosso encalço, chega até nós com duas pessoas com ferimentos de bala, trazendo as piores notícias possíveis...

A palavra de ordem era salvar vidas....a alternativa, seguir em frente mesmo que rumo à terra do nunca...