10 maio 2011

Maria da Cruz Rolão, a primeira autoridade civil (regedora) de Porto Alexandre

Monumento a Maria da Cruz Rolão a primeira autoridade civil (regedora) de Porto Alexandre



Esta estátua, que presentemente não existe em Tombwa, a ex-Porto Alexandre, cidade litorânea mais a sul de Angola, foi mandada erigir pela sua Câmara Municipal, em 1972, em homenagem a Maria da Cruz Rolão, a primeira autoridade civil  de Porto Alexandre (regedora), como tributo pela sua capacidade de liderança, coragem e decisão.

Quem foi então Maria da Cruz Rolão?


“A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, «o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.

”Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.

“O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhes proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.

“Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”


Delgado, Ralph,  vol. II pp. 60/61

“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.

“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.

“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho, fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”

Moreira, Cecílio,  pp. 20/21


 

Outras informações 

A estátua de Maria da Cruz Rolão foi construida em Sá-da-Bandeira, em cimento pintado da côr do bronze e colocada à entrada da cidade. Para além desta havia uma outra estátua em bronze, erigida anteriormente, em homenagem ao Pescador, igualmente construida em Sá da Bandeira. A estátua de Maria da Cruz Rolão foi retirada, se não mesmo destruida,  mas creio que se mantém a estátua do pescador. 

Ainda relacionado com a odisseia destes pioneiros olhanenses em terras do sul de Angola, segundo informações contidas no blog Memórias e Raízes de Claudio Frota e de acorso com o Dr. Alberto Iria e outras fontes nas quais ele próprio foi beber, os Sousa Ganho, pai e filho "íam na canoa de pesca para Moçâmedes mas conseguiram entrar na barca D. Ana. Primeiro estiveram na Baía das Salinas onde se dedicaram á pesca á linha e á extracção de óleo de fígado de cação, e só depois rumaram depois para Porto Alexandre e Baía dos Tigres, sendo dos primeiros a fixarem-se nessas praias. O Júnior teve a sua primeira pescaria na Baía dos Tigres. Possuíam o caíque Restaurador que fazia o comércio de cabotagem na costa até S. Tomé, Gabão e Congo Francês. Estiveram no Mocuio, Baía das Pipas e Baba onde possuíam uma armação à valenciana destinada à pesca da sardinha, a 3ª. que foi montada no distrito. Foi o 1º.olhanense a construir uma casa em Moçâmedes.

Conta-se o seguinte episódio muito curioso: "Em 3 de Fevereiro de 1871 o olhanense Francisco de Sousa Ganho indemnizou Maria da Cruz Rolão por ter lançado ao mar as madeiras para construção duma casa e mais utensílios de pesca que Maria da Cruz Rolão desembarcava na Praia do Sal ao norte da Vila de Moçâmedes". E a seguir "declarou perante testemunhas que promete sob palavra de honra viver bem com os seus vizinhos residentes na Praia do Sal ou em qualquer parte deste distrito".(Maria da Cruz Rolão foi mais tarde heroína de Porto Alexandre e regedora).Pensa-se que sucederam alguns descontentamentos na fixação das populações em certas praias.

Há ainda um registo de 1921 em que foi concedido passaporte de Moçâmedes para Lisboa a Tolentino de Sousa Ganho, médico, casado com uma brasileira do Rio de Janeiro D. Adelina Salvatério Santos e a 2 filhas, Maria e Suzana, respectivamente de 7 anos e 14 meses. Tolentino era filho do Júnior.
Foi tudo o que encontrei sobre a sua ascendência graças ao Dr. Alberto Iria e à sua obra "Os caíques do Algarve no Sul de Angola".

09 maio 2011

Famílias de Moçâmedes, Namibe, Angola: Famílias Bagarrão, Martins Pereira, Guedes da Silva, Sousa, Freitas de Sousa, Tendinha...Freitas de Sousa...



Mais algumas familias de Moçâmedes, que faziam falta  neste blogue para nos ajudar a completar a nossa comunidade virtual, de forma a manter viva em recordação aquela que foi uma realidade que de um dia para outro se esboroou, naquele Inverno de 1975, em que fomos dispersos pelo mundo.

De entre este grupo de familiares e amigos, que parecem em agradável confraternização no interior de um daqueles paquetes que faziam escala em Moçâmedes, reconheço: Ao centro: o casal João Martins Pereira (à época industrial e agricultor) e Noémia Bagarrão Pereira e o neto Serginho. Atrás, Rui Tendinha. À dt : o casal Carlos Roberto de Sousa (Beto) e Maria Orbela Guedes da Silva e Sousa e filho Betinho e o casal Fernando Tendinha e Zita Freitas de Sousa Tendinha. À esq. o casal José de Sousa (à época, proprietário da firma Sousa & Irmão, Lda - Oficina-Auto e da Carreira de Autocarros Moçâmedes-Porto Alexandre) e Linda Freitas de Sousa, e o casal Mário Eugénio Freitas de Sousa (Zezo) e Noémia Bagarrão Pereira de Sousa. Mais à frente e à esq, o Dr Carneiro, advogado na praça. À frente Lucibela Sousa, Calita, Márito...

 


Algures numa viagem a Lisboa, à esq. as irmãs Noémia Bagarrão Pereira e Otília Bagarrão Guedes da Silva, tendo à direita, na foto, Armando Guedes da Silva, marido de Olília (foi proprietário de uma mercearia na Torre do Tombo até ao início da década de 1950, tendo posteriormente se radicado na Metrópole, em Lisboa), e ainda mais à dt o casal José de Sousa e Linda Freitas de Sousa, também vindo de Moçâmedes  e ali em gozo de férias.  Agradeço à minha priminha Micaela que as colocou no Facebook. Beijinhos a todos os corajosos descendentes da bisavó Catarina Ferreira, que estão na 1ª foto, e que no Namibe ousaram ficaram por amor à nossa querida terra.
Armando Guedes da Silva e João Martins Pereira, fomos encontrá-los nesta foto integrados na 1ª equipa  de futebol do Sport Moçâmedes e Benfica, em 1936, completamente formada por dissidentes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro de Moçâmedes (1919). Com um ramo de flores na mão, Armando Guedes da Silva encabeçou com Júlio de Andrade um processo de desvinculações, que não só os levou a abandonaram o Ginásio, como  levou atrás de si para o novo clube, que de inicio adoptou a designação de Sport Lisboa e Benfica, formado em 9 de Setembro de 1936, outros tantos jogadores aqui representados tais como: Edmundo Seixal, Aníbal Nunes de Almeida, Arnaldo Nunes de Almeida, João da Silva Estrela, Artur da Silva Estrela, Carlos Guedes da Silva, João Viegas Seixal e João Martins Pereira Jr., o que representou uma verdadeira catástrofe para o velho clube pioneiro azul e branco.

 http://memoriasdesportivas.blogspot.pt/2007/11/blog-post.html
 
 Na foto, ao centro e um pouco abaixo, de gravata e óculos, João Martins Pereira, em meio a uma mole humana que caminhava para os Paços dos Concelho, quando da visita a Moçâmedes, em 1961, do Ministro do Ultramar, Professor Doutor Adriano Moreira.

 D. Noémia Bagarrão Pereira em foto após 1975, em Lisboa

 
John Pereira, na pesca desportiva em Moçâmedes
 Termino com esta homenagem a D. Noémia que por esta altura já completou os 90 anos de idade:
 

PIONEIRAS
Noémia Emília Bagarrão Martins Pereira

“Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
Já todo o mundo é diferente.
Já outro ar me rodeia;
Outros lábios o respiram;
Outros aléns se tingiram
De outro sol que os incendeia.
........
Tudo é foi. Nada acontece.”
António Gedeão, “tudo é foi”, Poesias Completas (1956­‑1967), Lisboa, Portugália Editora, 1978, pp. 41­‑42.

Nasceu no Algarve, em Olhão, então vila piscatória a poucos quilómetros de Faro, capital do distrito, a 4 de Agosto de 1916, a terceira de quatro irmãos, dois rapazes, os mais velhos, e uma rapariga. O pai, António Martins Bagarrão, era mandador de redes de pesca, actividade ligada à malhagem das redes para os diferentes tipos de pescaria. A mãe, Maria Inácia Bagarrão, era doméstica.
A pesca era uma actividade sazonal, com paragens cíclicas nos meses de Março de cada ano, coincidentes com a recolha das embarcações, a fim de serem retocadas, pintadas e arranjadas as armações e respeitado o tempo de defeso do peixe, período destinado ao crescimento das espécies capturadas naquelas águas. No mês de Março de 1926, o pai ponderou os repetidos convites de uma irmã, que residia com a família em Angola, para emigrar para Moçâmedes. As promessas eram aliciantes, falavam de uma vida maravilhosa e da possibilidade de ganhar muito dinheiro. Era a oportunidade para um chefe de família com quatro filhos, um dos quais já casado e com uma filha pequena, de singrar na vida. Para pagar a passagem, hipotecaram a casa própria em que viviam e foram, pai e filho, com carta de chamada e emprego numa empresa de pescaria pertencente a João Tomás da Fonseca e João Martins Pereira, conhecido, tanto em Olhão como em Angola, por João da Carma, por ser filho de Maria do Carmo.
A parte feminina da família, esposa, duas filhas, nora e neta, seguiram seis meses mais tarde, quando os homens já estavam instalados e não aguentavam mais as saudades familares. Assim, aos 9 anos, Noémia embarcava para Angola, fazendo os 10 anos na ilha da Madeira, quando o vapor em que seguiam atracou durante uma semana.
Em Angola, foram para a Baía dos Tigres, na enseada pequena, terra árida, de areal, com fortes ventos, onde só chegavam transportes semanais, numa embarcação pequena, com alimentos, com a frescura perdida. A mãe de Noémia era muito doente e ali só se alimentava de caldos de peixe cozido; a restante família completava a dieta com pirão feito pelos naturais, arrefecido, fatiado e frito. A continuação naquele local era insustentável e o pai entrou em contacto com João da Carma para o pôr ao corrente da situação. Saíram, então, da Baía dos Tigres para Mocuio, mais perto da cidade, até que noutro mês de Março, quando as tempestades assolavam a costa, receberam ordem de fazer as malas e regressar a Moçâmedes.
Em Moçamedes, alojaram­‑se por algum tempo em casa de amigos, até que o pai foi convidado por um francês, de nome Rascaret, para ingressar na sua firma como mandador, em Praia Amélia, ficando responsável por todas as actividades, excepto a da contabilidade, atribuída a outro português, o “velho Mangericão”. A vida da família melhorou até pela curta distância à cidade de Moçâmedes.
Noémia podia, então, seguir o percurso das raparigas prendadas do tempo. Concluída a instrução primária, ainda em Olhão, a menina foi para uma escola aprender a bordar e a pintar seda, em grandes bastidores, donde saíam lindas almofadas e quadros. Também se tornou exímia no croché, de que conserva, ainda hoje, colchas e toalhas de mesa de esmerado labor. A família estava, por fim, fixada geograficamente num local aprazível e numa situação económica confortável, diga­‑se, instalados comodamente na colónia.
A amizade com João da Carma, também ele natural de Olhão, mantinha­‑se para lá dos laços laborais iniciais. Como nunca esquecerá, foi João da Carma que a recebeu, num dia de tempestade, à chegada a Moçamedes, vinda num baleeiro que, dado não haver cais, fazia o transporte de passageiros e mercadoria do navio para terra. O primeiro local africano onde Noémia se instalou, depois de mais de um mês de viagem, foi na casa de João da Carma. Foi também nesse dia e aí, que recebeu o primeiro beijo dado por um rapaz – o filho de João da Carma, também ele de nome João ­‑, quando brincavam na varanda da casa, em Torre do Tombo1, enquanto os adultos lembravam memórias do solo pátrio, no salão. Noémia recorda como ficou atrapalhada com a situação, escondendo o acontecimento da mãe.
A figura de João torna­‑se presente, convivendo nos fins­‑de­‑semana com os irmãos de Noémia. Os seus olhos ainda hoje se iluminam, lembrando a chegada a sua casa do rapaz veloz na bicicleta, a qual lhe permitia colmatar a distância entre Moçamedes e Praia Amélia. Quando Noémia completou 14 anos, João, com 17 anos feitos, veio pedir autorização ao pai dela para iniciar o namoro. Namoro este desejado e incentivado por aquele que virá a ser o seu sogro. Ficou­‑lhe registada na memória, a frase que o seu segundo pai – como gosta de chamar a João da Carma ­‑, dizia à sua mãe, nas visitas semanais que esta fazia à família, referindo­‑se a Noémia “deixe estar a pêra na pereira, não apodreça” e, subtilmente, a seu filho, ao acrescentar “que lá virá quem a mereça”.
A sete meses de concluir os 18 anos, em Janeiro de 1934, casa com o único homem com quem namorou e diz ter amado. Noémia também não esquece que ele assistiu à primeira gincana da sua vida, da qual saiu vencedora, aplaudindo­‑a. Revelaram­‑se, então, as suas capacidades competitivas, a par da descoberta por si mesma do prazer pelas actividades desportivas e pela visibilidade social, que lhe permitiriam participar num grande número de eventos locais.
Anos mais tarde, com 34 anos e já com dois filhos, uma rapariga com 17 anos – Coca (Noémia) – e um rapaz de 13 anos – Jone (João) ­‑, Noémia, a nossa pioneira, resolveu fazer uma experiência, quiçá, matar tempos mortos do seu dia­‑a­‑dia. Liberta da realização da grande maioria das tarefas domésticas, para as quais contava com o pessoal indígena – que ia formando para responder às necessidades e hábitos da família –, com os filhos ocupados na escola e o marido ausente nas suas actividades empresariais ou no Grémio da Pesca – do qual foi funcionário e depois presidente –, pensou divertir­‑se a aprender a conduzir. Recorreu ao irmão Arnaldo, que a ensinou a fazê­‑lo numa das carrinhas de caixa aberta ao serviço da sua fazenda agrícola.
Nessa fazenda, de cuja extensão nunca conheceu os limites, como recorda, a par da criação pecuária – porcos e bezerros – e do cultivo de produtos hortículas e de frutos autóctones, que vendiam para o Grémio da Agricultura, desenvolveram, ainda, a cultura de camarão em cacimbas, espécie de poços feitos na margem do rio Bero, o qual a atravessava. A facilidade com que aprendeu a guiar despertou o interesse de um examinador, que vinha de Sá da Bandeira avaliar os candidatos a encartados, o qual a aprovou. Noémia, tornou­‑se, assim uma das primeiras mulheres residentes em Angola com carta de condução, a primeira a tê­‑la, em Moçâmedes.
A destreza nas manobras e o pé pesado no acelerador, a par do bichinho pela competição, levaram­‑na a participar em provas automobilísticas, algumas das quais todo­‑o­‑terreno, de que lembra a subida da montanha de Giraúl. Exibe­‑nos uma folha do jornal local O Namibe, de 24 de Setembro de 1955, onde é abordada a sua participação pioneira numa corrida e gincana automóvel, patrocinadas pela Rádio Club de Moçamedes, sendo Noémia entrevistada.
Foi a primeira mulher a obter a licença de concorrente nacional, emitida pela Comissão Desportiva do Automóvel Touring Clube de Angola. Como se assinala, no documento que ainda hoje conserva, esta licença era válida, pelo período de um ano, em todo o território nacional e era requerida para tomar parte em manifestações desportivas.
Foram muitas as provas em que participou e os prémios ganhos também foram alguns. Reconhece, com uma certa mágoa, que o favoritismo determinava alguns dos resultados das provas, afirmando “quando começaram a entrar na competição esposas de certas figuras do poder local deixei de ser a vencedora”.
À pergunta se reconhece ter sido uma mulher que foi diferente das do seu tempo, responde que não. Considera que sempre foi uma dona­‑de­‑casa e mãe de família, exemplares, e que era o seu marido quem orientava a vida económica, garantindo que no presente nada faltasse aos seus e investindo para assegurar um futuro ainda melhor. Identifica claramente papéis sociais tradicionalmente atribuídos à mulher e ao homem, sintetizados por si na expressão “ele mandava na rua e eu em casa”, denotando um reconhecimento dos limites do poder do feminino, circunscrito à esfera do privado. Com uma lucidez crítica afirma ter participado, e as outras senhoras também, nas competições porque eram os maridos que, mais do que aceitarem que participassem, as incentivavam a fazê­‑lo. Remata, em tom de confirmação da sua avaliação, “eram eles que nos inscreviam”. Conjectura­‑se que as competições automobilísticas femininas eram potenciadoras da exibição das esposas como troféus dos respectivos maridos.
Acrescentando, diz­‑nos que as senhoras só entravam em provas competitivas locais, reservando os homens, para si, a participação noutras cidades. Assumindo eles uma função disciplinadora e normativa da actividade feminina, ditavam as regras da presença das suas mulheres no espaço público. Limitada a prática desportiva às competições locais, via­‑se salvaguardado o lugar das mulheres no meio familiar, dado estas provas não requererem um assinalável afastamento do mesmo.
Não se adivinha resignação no seu discurso, mas tão só aceitação daquilo que se considera ser a realidade da vida de então, norteada pelo princípio de subalternidade, por si implícito na expressão “mandava ele [o marido] e eu aconselhava­‑o”.
A componente lúdica, assim como o carácter social, está sempre presente na abordagem saudosista que faz da vida em África. Recorda as festas de âmbito mais alargado, como os bailes, sobretudo, os do Casino, do Atlético Clube de Moçamedes e do Aero Clube de Moçamedes, a “Festa de Moçamedes, Mar e Março” ou, ainda, o Carnaval, organizando um carro alegórico para desfilar com os seis netos – Mário, João, Filipe, Carlo, Sílvia e Sérgio. Torna também presente os encontros com grupos restritos de amigos, em sua casa, para jogar à sueca ou para fazer caçadas no mato, pernoitando no acampamento turístico desenvolvido para safaris pela família do marido da sua filha. E das festas familiares, retém o Natal, preparando para os seus criados uma mesa com o mesmo tipo de iguarias às servidas para os senhores, assim como a Festa de Ano Novo, brindando efusivamente à Passagem do Ano, na varanda que acompanhava toda a sua casa, sob a marginal, com cálices de Marie Brizard, sua bebida preferida.
Fazem ainda parte das suas memórias o cinema e as viagens. Em Moçâmedes a família frequentava assiduamente o Cine­‑Moçamedes, não deixando ainda de ir às tão apreciadas sessões cinematográficas, ao ar livre, no Impala Cine. Reconhece, mesmo, que o cultivo do cinema terá influenciado o amor que o seu fiho lhe tem devotado, tendo fundado uma sala de cinema, em Peniche, localidade onde se veio a fixar quando teve de abandonar Angola. Refere, ainda, que o seu neto “Jonica” gosta de recordar que foram os avós que o levaram, a ele e ao primo Mário, pela primeira vez a uma sessão de cinema com cenas de nus, muito ousadas para os costumes da época, com a exibição de A Piscina (1969), de Jacques Deray e tendo por protagonistas Romy Schneider e Alain Delon. Acrecenta, por último, que tem quase a certeza que passavam lá filmes que na Metrópole não eram exibidos ou, quando o eram, tinham partes censuradas.
Das viagens recorda ter sabido do fim da II Guerra Mundial, em 1945, quando estava na ilha da Madeira, escala da sua primeira vinda à Metrópole. Com uma frequência média de dois anos visitava Portugal, aproveitando para conhecer minuciosamente o país, assim como Espanha, que percorreu de lés­‑a­‑lés, e algumas capitais europeias. As férias na África do Sul também são por si lembradas com um misto de prazer e de dor, dado ter sido numa destas que teve conhecimento da morte do sogro, que havia anos deixara o continente africano e residia em Lisboa.
Se o clima era propício a banhos, a proximidade do mar, residindo, uma grande parte da vida na Avenida Marginal de Moçâmedes, fazia com que a chamada “ida à praia” fizesse parte do seu espaço quotidiano. Noémia confidencia­‑nos, divertida, que o seu fato­‑de­‑banho preferido, branco e vermelho, de duas peças, a que hoje chamaríamos de biquíni, tinha a cor do Benfica. A expressão deste culto pelo seu clube desportivo de sempre evidencia­‑a exibindo­‑nos um exemplar da secção desportiva do jornal O Namibe, de 4 de Agosto de 1955, referindo a participação do clube na “Pequena Taça do Mundo”, e ao revelar­‑nos o fetiche de ver os jogos do clube sempre com o simbólico cachecol ao pescoço. Dizendo­‑se uma desportista e uma fanática benfiquista, não esquece um dos ídolos do futebol, o moçambicano Eusébio.
A forte ligação emocional à sua experiência de vida em África, consubstancia­‑se no interesse que teve em seguir o destino da moradia familiar, conservando um retrato da residência que a viu partir e da mesma ocupada na actualidade pelos serviços policiais da Namibe (actual nome de Moçâmedes).
Invocando o poeta António Gedeão, diremos que Noémia experimentou que tudo é foi, tendo a filosofia de vida suficiente para, reconhecendo a implacável lei do devir, entender que neste abrir e fechar de olhos/já todo o mundo é diferente.

Ilda Soares de Abreu e Maria José Remédios
1Designação de um dos bairros de Moçamedes, onde a família de João da Carma tinha, para lá da sua residência, a empresa ligada à actividade piscatória – frota de armação de pesca, fábrica de secagem de peixe e de produção de óleo e farinha do mesmo ­‑, a qual seria vendida, no final da década de 60, para ser construído o cais de Moçâmedes. Entende­‑se que o nome atribuído àquele bairro faça alusão ao registo de memórias, dado naquele local terem sido encontrados vestígios da passagem de corsários e mareantes, que esculpiram na rocha sinais da sua presença.
Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher no.33 Lisboa 2015
Universidade Nova de Lisboa
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Grupo de Investigação Faces de Eva, Estudos sobre a Mulher
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Familias de Moçâmedes (hoje, Namibe), Angola: Familias Simões e Arnedo

Outras famílias interligadas e  residentes em Moçâmedes: Zeca Simões, Henrique Sarmento, Olivia Arnedo, João José Arnedo, Minha mãe Luisa Simões, Zezinha Arnedo, Oriete Simões, Graça Carapinha (Bebé da foto) Fatima Simões, Ildemarina Simões, Avó Beatriz Simões, Maria do Monte, Jaquelina Arnedo, José Luis Simões, Jorge Arnedo, João Arnedo, Veríssmo Simões, Augusto Simões, José Raul da Silva Simões. Foto gentilmente cedida por Graça Carapinha.

05 maio 2011

Jovens na Moçâmedes de outros tempos... em Angola (actual cidade do Namibe), no Parque Infantil

Jovens de Moçâmedes posam para a posteridade junto à cerca onde ficava o pequeno zoo com alguns animais  capturados no Deserto do Namibe, sendo visíveis duas belas zebras. São eles, da esq. para a dt: António Manuel Passos Marques, Carlos Vilhena Piedade,Virgilio Paradanta Marques Couto, António Cebolo (de óculos) e  Luís Rosa Palmeira. Embaixo, José Neves Almeida (*)
(*) Créditos foto.

22 abril 2011

Visita do Presidente da República, General Francisco Higínio Craveiro Lopes a Moçâmedes, em 1954








O Presidente Craveiro Lopes, em 1954, deu início a uma visita prolongada a Angola, no decurso da qual percorreu cidades, vilas, aldeias, e os sítios mais recônditos do imenso território, ao longo de trinta e seis dias, onde teve vários e breves encontros com as populações nativas, servindo-se de intérpretes de várias origens (funcionários administrativos, comerciantes da zona, autóctones, missionários, etc).

Fazendo um levantamento breve do que se passava em Angola, em Portugal, e pelo Mundo nesta época, diremos que esta visita aconteceu nove anos após a II Grande Guerra Mundial (1939-1945), numa altura em que,  com a Carta da ONU e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, tinha começado a onda das independências das colónias em África,  sob a égide da França e da Inglaterra, e estavam criadas as condições que a médio prazo levariam ao desfecho do sistema colonial português, visto pelas grandes potências como um entrave.  



A VISITA DO PRESIDENTE CRAVEIRO LOPES A MOÇÂMEDES


Ao longo dessa prolongada visita a Angola e S. Tomé, Moçâmedes foi também visitada pelo Presidente da República, General Francisco Egíno Craveiro Lopes, que, vindo de Sá da Bandeira (Lubango) com a respectiva comitiva, desceu a serra da Chela de comboio,  tendo na sua passagem por Vila Arriaga, por volta das 10.30 da manhã, feito uma paragem, para presidir à cerimónia da inauguração da nova linha alargada dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, num troço de 90km, que veio proporcionar um melhor escoamento de produtos e ajudar a incrementar a economia do Distrito.



 
Cerimónia da inauguração da nova linha na bitola internacional de África, realizada estação de Vila Arriaga (Bibala)


No acto da inauguração, o Presidente da República envergando camisa e calça de caqui, tipo militar, e capacete colonial, assinou o auto e queimou, como era costume em actos do género,  a simbólica fita  (como a foto acima documenta) com o fogo da fornalha da locomotiva. 

Esta obra, enquadrada no Plano de Fomento Nacional, tinha em vista o povoamento do vale do Cunene e de outras regiões, bem como o desenvolvimento económico e de colonização em zonas menos povoadas do território, porém esteve por muito tempo paralisada, por falta de materiais, no periodo da II Grande Guerra (1939-1945), em que as fábricas  europeias se encontravam ao serviço da indústria do armamento.

Com esta inauguração, o Caminho de Ferro de Moçâmedes passou a dispor de potentes locomotivas que aumentaram a capacidade transporte de carga e de passageiros,  e passaram  a proporcionar uma maior rapidez no escoamento da produção, uma vez que passaram a rebocar comboios da ordem das 800 a 1000 toneladas, quando as anteriores rebocavam composições da ordem das 120 toneladas apenas.

No decurso da cerimónia de inauguração, falaram o Eng. Vasco Outeiro, o então director da 
Exploração do Porto e Caminhos de Ferro de Moçâmedes, o Presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial da Huila, Nuno Pedrosa, e o Engº Melo Vieira, Vice-Presidente da Comissão Administrativa do Fundo de Fomento de Angola. A fechar a sessão, falou o Chefe Estado General Craveiro Lopes. 

Através dos sucessivos discursos foi feito um breve historial do CFM, desde os primeiros estudos, em 1888, iniciado com fins militares,  até à abertura em 1907 do 1º troço até ao km 67,  que prometia vir a ser um dos melhores de Angola. Falou-se  da importância dos vários Planos de Fomento quinquenais postos em acção desde 1938, da autoria do Dr Vieira Machado, Ministro das Colónias (1938-45), da suspensão dos trabalhos por falta de apetrechamento, devido à guerra, do alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes, ao Km 173 e do Km 205 a Sá da Bandeira.  Foram tecidos elogios ao Plano que veio proporcionar importantes melhoramentos ao nível dos CFM. Falou-se ainda da construção do Porto de cais de Moçâmedes, e da promoção do povoamento do vale do Cunene em prol do desenvolvimento económico da região. 
Os discursos terminaram com os tradicionais "vivas" a Portugal e a Salazar, e elogios à governação pelos vertiginosos progressos que estavam a ser levados a cabo em Angola. 

O Presidente da República continuou o percurso partindo de Vila Arriaga rumo a Moçâmedes, tendo feito uma paragem no Posto Experimental do Caraculo, onde percorreu diversas secções e procurou  informar-se de todos os pormenores de  funcionamento, mostrando-se bastante impressionado. Esta visita terminou com um almoço volante, e a marcha prosseguiu rumo a Moçâmedes, tendo o comboio ao entrar na Estação apitado 3 vezes, ao mesmo tempo que estalaram 30 morteiros lançados, e os clarins executaram a marcha de continência, sendo o Presidente à chegada à Estação, delirantemente ovacionado. 


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Batalhão da marinha desembarcado de três navios de guerra da escolta presidencial



A Guarda de honra ao Presidente foi constituída por um batalhão da marinha desembarcado de três navios de guerra da escolta presidencial, e por um pelotão de caçadores comandado por José Relvas, comandante do destacamento militar de Moçâmedes, e ainda por uma "bandeira" da Mocidade Portuguesa, comandada por Raúl Trindade Abreu (Nito), e um contingente dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes. 
 Seguiu-se o desfile no qual se incorporaram o batalhão da Marinha, o pelotão de caçadores, alunas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes uniformizadas de branco, e o contingente dos Bombeiros Voluntários. 



 


O Presidente da República e comitiva passando por entre basquetebolistas dos clubes locais, em representação do Ginásio Clube da Torre do Tombo, do Atlético Clube de Moçâmedes, do Sporting Clube de Moçâmedes, e do Sport Moçâmedes e Benfica




 
O Presidente da República assistindo ao desfile


 Na tribuna erguida para o efeito,  no terreno defronte à Estação do Caminho de Ferro, o Presidente Craveiro Lopes e comitiva assistiram ao desfile, vendo-se na foto, à esquerda, representantes das forças vivas da cidade, entre os quais o Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, Dr Mário Moreira de Almeida (Médico), os vereadores Raul Radich Júnior, Rui Torres, Virgilio Carvalho e Gomes da Silva, e o Secretário da Câmara Municipal, Artur Trindade que, empunhando o estandarte, fez a entrega das chaves da cidade ao Presidente. Encontrava-se também junto à Tribuna, um grupo de senhoras da JIC (Juventude Independente Católica), que à passagem do Presidente lançaram para o ar pétalas de flores que transportavam em pequenos cestinhos.

 A sessão de boas vindas nos Paços do Concelho


Terminada a cerimónia, o Presidente seguiu em cortejo automóvel até ao salão Nobre da Câmara Municipal, para a sessão de boas vindas, tendo sentados à sua direita, o Ministro do Ultramar r  o Governador da Huila, Engenheiro Raimundo Serrão, e à sua esquerda, o Governador Geral, Comodoro Sousa Uva e o Engenheiro Melo Vieira.
No decurso da cerimónia tomou a palavra, em primeiro lugar, o Presidente da Edilidade que apresentou cumprimentos em nome da população, e fez um resumo da Historia do Distrito, deste Diogo Cão, passando pela época em que a velha Angra do Negro era visitada por mareantes que deixaram impressas no Morro da Torre do Tombo, centenas de inscrições, que a mão do homem foi apagando, uma das quais rezava assim:

 " Aos seis dias do mês de Fevereiro saltou o sargento Domingos Morais nesta baía, que é formosa, em campanhia do seu capitão José Rosa, em 1665".  Gente que não chegara ali para caçar nem para comprar escravos, mas que tripulava o patacho " Senhora da Nazaré", e que a mando do Governador Vidal de Negreiros vinham em reconhecimento da costa, e certamente em missão de soberania. 

O Presidente da Edilidade recordou ainda a chegada, em 1785, de Pinheiro Furtado, na fragata "Loanda" tendo, tendo este proposto ao Governador Geral o nome Mossâmedes, em substituição de Angra Negro. Recordou acontecimentos como o assassinato, no "Rio das Mortes" (Rio Bero), do oficial José Sepúlveda, do cirurgião Francisco Bernardes, e mais dois marinheiros caídos em embuscadas levadas a cabo pelos indígenas, e a expedição de Pedro Alexandrino e de Francisco Garcia, por mar e por terra, em reconhecimento da costa e do interior, na 4ª década do século XIX. Recordou também as instruções do General Sá da Bandeira ao Governador António Noronha, e os resultados daquelas duas expedições que levaram à criação, em 1840, do Presidio e Estabelecimento, sob a condução do Tenente Garcia, que por terra havia penetrado até aos sertões de Caconda. Salientou o carácter militar da primeira ocupação regular da futura Mossâmedes, que definhara por sete e oito anos após estabelecimento de algumas feitorias, recordou a guarnição do Presidio com quatro centenas de degredados, sendo na altura a população europeia compreendida por alguns comerciantes e seus familiares, e chamou atenção para o facto de que já por esse tempo tivera início a pequena indústria de pesca, bem como a agricultura no fértil vale do Bero, sendo com a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, que se entrou na fase em que finalmente algo começava a mudar em Angola, até então abandonada e esquecida, transformada desde há muito em entreposto de trafico escravos para o Brasil e Américas.

Em seguida tomou a palavra  o Presidente Craveiro Lopes para manifestar o seu entusiasmo pelo que lhe fora dado assistir no decurso da sua viagem por parte do povo de Angola, que tão carinhosamente o  recebeu, manifestando o seu patriotismo por uma "tria exovalhada pelo mundo", ao que naturalmente se seguiram calorosos aplausos. Finda a sessão, a multidão que se aglomerava no exterior e aguardava o General Craveiro Lopes, convergiu para o Palácio-residência do governador, onde se seguiu uma recepção pública.

Às 15 horas do dia 23 foi a vez da inauguração dos trabalhos do cais acostável, a cuja cerimónia acorreu uma grande multidão, salientando-se as camadas estudantis, como as fotos a seguir deixam ver.




Alunas e alunos da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes preparando-se para marcar a sua presença na inauguração ...

 

Um grupo de estudantes filiados da Mocidade Portuguesa dirigindo-se para o local.  Nesta foto podemos ver também alguns africanos preparados para seguir o mesmo trajecto. À esquerda moradores da zona nossos conhecidos, entre os quais Rita Seixal, Paula Ferreira, Conceição Gois (Lili) e Guilhermina Góis Jardim assistem ao desenrolar dos acontecimentos.

O Chefe do Estado, acompanhado do Ministro Ultramar,  do Governador da Huila, e das Senhoras que integravam a Comitiva, chegou ao local dos estaleiros das obras  do porto de cais, na base da falésia da Torre do Tombo, onde era aguardado pelo Engº Melo Vieira, do Fundo de Fomento,  por Rocha de Carvalho, da Fiscalização de Obras, por Raimundo Serrão e por Vasco Outeiro, dos Portos Caminhos Ferro, além de entidades de locais. Falou em seguida o Presidente da Associação Comercial de Moçâmedes que fez um historial da cidade desde os tempos da sua formação. Os discursos empolgaram os assistentes, e as últimas palavras proferidas, por fim, pelo Presidente Craveiro Lopes, foram objecto de salvas de palmas vivas e calorosos.

 

O momento em que tomou a palavra  Raúl Radich Jr.

 
O momento da inauguração dos trabalhos do novo porto

Seguiu-se o momento solene da inauguração dos trabalhos do novo porto de Moçâmedes. Na foto acima podemos ver o momento em que o Presidente Craveiro Lopes carrega no botão que irá fazer explodir uma parte da falésia, como documenta a foto a seguir.
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O estalar das primeiras minas
 
A tribuna onde decorreu a Cerimónia
Multidão concentrada no cimo da falésia da Torre do Tombo, para assistir à cerimónia da inauguração das obras do porto de cais. Mais perto,  bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento.
Desportistas, alunos das escolas  e população em geral a assistir à cerimónia do lançamento da 1ª pedra para a construção do cais comercial
O regresso ao Palácio
Estudantes e povo acompanham o carro presidencial


Chegada a cerimónia ao fim, é o regresso a casa, via Bairro da Torre do Tombo



O Presidente Craveiro Lopes partiu em seguida para a  Baía dos Tigres, acompanhado da comitiva antes de partir para Porto Alexandre, onde terminou a sua visita ao Distrito de Moçâmedes.



 Durante a visita do Presidente, a reverenda professora primária, D. Alina de Campos, cumprimenta D. Berta Craveiro Lopes

 




Sabe-se que em 24 de Junho de 1954 foi entregue com encadernação de pele castanha, gravada com ferros dourados; guardas e versos da capa e da contracapa forrados de tecido bege, com cortes das folhas em dourado, um álbum composto por 27 folhas e 132 documentos fotográficos, não legendadas, que documentam a visita do presidente Craveiro Lopes, acompanhado da primeira-dama, Berta Craveiro Lopes, à cidade de Moçâmedes, no âmbito da sua viagem oficial a Angola. É muito provável que o álbum tenha sido oferecido à primeira-dama, na medida por um elenco de senhorinhas de Moçâmedes na medida em que em que nas folhas I e II, ambas em papel vegetal, existe o total de 25 assinaturas femininas após a seguinte dedicatória manuscrita: "Para que Moçâmedes viva sempre em vosso pensamento, como em nós perdura a doce recordação da vossa passagem, pedem licença para ofertar-vos esta modesta lembrança: [seguem-se as assinaturas de mulheres, com identificação dos seus cargos ou funções]. A reportagem fotográfica regista vários aspetos arquitetónicos da cidade, bem como cenas de desfiles cívicos pelas ruas, homenagens prestadas ao chefe do Estado, iluminações municipais noturnas, a visita da primeira-dama a uma instituição católica de ensino infantil e, por fim, apresenta algumas imagens de exemplares da fauna angolana.




Recepção feita por um grupo de senhorinhas da JIC (Juventude Independente Católica) de Moçâmedes, a D. Berta Craveiro Lopes. 



Soube-se mais tarde que as relações entre o Presidente da República Craveiro Lopes e Salazar, sempre foram frias e formais. Com o Presidente Craveiro Lopes foi nascendo a esperança de mudança para Portugal. Por meio de cartas, pedidos de reuniões, audiências, as populações  davam ao Presidente conta do que se passava no país, a questão da censura, a falta de liberdade de reunião, a questão do sufrágio, etc. O Presidente acabou por ser conectado com a oposição ao regime,  como um homem disposto a substituir Salazar. O ano de 1958 chegou. As eleições presidenciais também, tal como estava previsto na Constituição. O Presidente Craveiro Lopes ambicionava um segundo mandato mas a União Nacional escolheu outro candidato, o Almirante Américo de Deus Thomás.

MariaNJardim 


Nota: os textos foram feitos a partir de uma leitura dos Cadernos Colonias de época.

Ver tb aqui: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1954/N1597/N1597_master/GazetaCFN1597.pdf



09 abril 2011

Festas no Atlético Clube de Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), em Angola

Festa no Atlético Clube de Moçâmedes, organizada como não podia deixar de ser, nesta época, por Hemitério Alves de Oliveira, um dos directores e grande "carola" daquele Clube. Na foto, no topo, Hemitério Alves de Oliveira e Belinha Costa Santos. Encontram-se nesta foto, entre outras/os, da esq para a dt: Dulce Alves de Oliveira (Dudu), Eduarda Figueiredo, ?,  Maria João Nascimento,  Iolanda, ?, Fernanda Quadros, ?, Irene Faustino,  Mariália Matos, Alexandrina, Isabel Fragata, Céu Costa Santos, Fernanda Mendes, Raquel Martins, Rosa Seixal, Júlia Castro, Gena, Eugénia Figueiredo,
Elisa...









 Nesta foto, reconheço, entre outros/as: Ilda Bacalhau, António José Carvalho Minas (Tó Zé), Vieira (filho do professor Vieira da Escola 49), Joaquim Horácio Silva Reis, Moutinho, São Figueira Fernandes, Maria João Nascimento, Farinha e Neves Almeida. Foto de Neves Almeida in Sanzalangola