Dina Gaspar, Zito Ferreira, PP Teles, Ana Maria Almeida, Odete, Balula, Bitacaia, Formosinho, Romão Justo Gaspar...
Jacó, Rui Torres, Bitacaia, Zico Ferreira, Carlos Matias, Rui Formosinho, Rui, Walter Serqueira, Odete, Ana Maria...
Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
19 maio 2011
Jovens estudantes de Moçâmedes, Namibe, Angola nos anos 1960/70 (início)
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quinta-feira, maio 19, 2011
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11 maio 2011
Estudantes de Moçâmedes (Namibe) em finais da década de 1960
Tiago Costa, Raúl, Zé Camudo, Neto, Matos, Júlio Almeida (Juleco), Gois, Zé da Fisga, Anatálio, Ernesto Dionísio António Soares, Luís Nóbrega, Neto, Nélito Nóbrega, Nanda Matos Silva
Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
Estudantes de Moçâmedes (Namibe). Excursao finalistas decada 1970
Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
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Estudantes de Moçâmedes (Namibe)
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quarta-feira, maio 11, 2011
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Familias de Moçâmedes: Familias Ferreira, Almeida, Sousa e Alcario. Rodrigo, o poeta alentejano que versejou Moçâmedes...
Os casais Arnaldo Nunes de Almeida/Maria Etelvina Ferreira de Almeida, à esq., e Rodrigo Baião Alcario /Lídia Rosa de Sousa Alcario, à dt., no Luau (Angola), em 1953. Arnaldo, Etelvina e Lídia nasceram em Moçâmedes, Angola nos finais das décadas de 1910 e 1920 e são descendentes de "colonos" algarvios alí chegados nos finais do século XIX. Rodrigo Baião Alcario é o único dos quatro que não nasceu em Angola, mas que nem por isso amou menos aquela terra, tendo eternizado em verso o carinho especial que nutria por Moçâmedes (hoje Namibe):
MOÇÂMEDES – ANGOLA
Moçâmedes, cidade bela
Duma beleza sem par
És qual princesa à janela
Olhando as ondas do mar
Moçâmedes terra querida,
Meu jardim de lindas flores
Moçâmedes das moças lindas
Moçâmedes dos meus amores
Torre do Tombo adorada,
Saudoso Pau do Sul,
Lembro o Bairro da Aguada
E as hortas do Giraúl.
Lembro a Praia das Miragens
E o Deserto do Namibe
Onde a Welwitscia Mirabilis
E a gazela nasce e vive.
Tudo o que tenho te devo
Minha Moçâmedes querida
Tu és todo o meu enlevo
Por ti eu daria a vida
Senti grande desconforto
Quando um dia te deixei
Ao sair desse teu porto
Olhei para trás e chorei
Já vinha longe o navio
Inda olhei mais uma vez
Essa terra de algarvios
Um milagre que Deus fêz
Para sempre, terra amada
Os meus olhos te perderam
Mas sempre serás lembrada
Por todos que em ti viveram.
Moçâmedes das moças lindas
Moçâmedes dos meus amores
Torre do Tombo adorada,
Saudoso Pau do Sul,
Lembro o Bairro da Aguada
E as hortas do Giraúl.
Lembro a Praia das Miragens
E o Deserto do Namibe
Onde a Welwitscia Mirabilis
E a gazela nasce e vive.
Tudo o que tenho te devo
Minha Moçâmedes querida
Tu és todo o meu enlevo
Por ti eu daria a vida
Senti grande desconforto
Quando um dia te deixei
Ao sair desse teu porto
Olhei para trás e chorei
Já vinha longe o navio
Inda olhei mais uma vez
Essa terra de algarvios
Um milagre que Deus fêz
Para sempre, terra amada
Os meus olhos te perderam
Mas sempre serás lembrada
Por todos que em ti viveram.
São João do Estoril, 4/8/992.
Robaial.- Rodrigo Baião Alcario
(aos 85 anos de idade)
Moçâmedes esteve presente, eternamente presente nos poemas Rodrigo Baião Alcario: na Igrejinha de Santo Adrião, no Deserto do Namibe, no Pico do Azevedo, na Pedra da Delfina, na "Torre do Tombo" querida, nas "moças lindas" que o poeta não se cansava de lembrar, e acima de tudo, na mais bela delas todas, Lídia, a sua esposa e a musa inspiradora da sua vocação poética.
E assim Rodrigo Baião Alcario desembarcou em Luanda numa quente manhã de Verão, algures em finais da década de 1920, sem saber bem para onde ia, nem onde ficava Angola, e muito menos sobre a sorte que o aguardava naquela terra que era na altura não mais que uma aldeia, onde a maioria da população era masculina, onde campeavam ainda toda a sorte de doenças tropicais como o paludismo, a febre amarela, biliosas, perniciosas, etc., e onde a vida era difícil de suportar para um jovem só, sem casa, sem familia, sem ninguém que lhe dispensasse um pouco de atenção e de carinho.
Rodrigo não podia casar porque mal ganhava para pagar a Pensão onde se alojou. E mais tarde quando colocado no Lobito, continuou alojado com outros colegas solteirões em humildes pensões, porque o dinheiro mal dava para viver. Dessa época é este soneto que revela o nível alcançado por Rodrigo naquela fase, a fase da maturidade poética.
Exasperado
(Soneto)
Fugi cidade perante o meu olhar
Deixai-me ver apenas a campina,
Esta obra feita pela mão Divina
Onde o cinismo nunca pôde entrar.
Em ti, cidade, nunca eu pude entrar,
O teu cinismo a mim me contamina,
A vaidade, o vício, a podridão que mina
O teu seio me faz exasperar.
O campo... Oh! ... sim, ameno, esplendoroso:
Onde as flores crescem ébrias de gozo
E as aves trinam e se amam docemente!...
Quem dera, ó campo, sempre te habitar
Uma linda herdade ou um fresco pomar
Onde esquecido eu fosse eternamente.
Lobito (Angola) entrada da Catumbela, em 12/07/1934
Robaial.- Rodrigo Baião Alcario
A vida de Rodrigo começou a mudar e a fazer algum sentido quando, nos finais dos anos 1930, foi transferido para a Moçâmedes, onde conheceu uma jovem moçamedense de 19 anos de idade, com quem casou no dia 01 de Novembro de 1940.
Lidia Rosa de Sousa e o sobrinho e meu irmão Amilcar, na Torre do Tombo, em 1939
Lidia Rosa de Sousa não era apenas bonita, era alegre, jovial e meiga, e emanava ar de candura que deixou Rodrigo perdido de amores. Mas Rodrigo também viu o seu amor correspondido. Era inteligente, simpático, tinha boa figura, era alto, moreno, de cabelos negros e ondulados, olhos brilhantes e pestanudos, tinha todos os predicados que Lídia gostava. E além disso a farda (da Guarda Fiscal) assentava-lhe bem, imprimia um ar respeitável aos seus fogosos 30 anos.
Casaram na Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes, tendo presidido ao acto, o popular Padre Guilhermino Galhano. Vestida de branco, com véu corrido até aos pés e um ramo de lírios entre as mãos, Lídia mais parecia uma Santa pronta a ser colocada num altar.
O poema que
segue é uma evocação desse grande dia, e foi escrito aos 90 anos de idade, já em S. João do Estoril. Não admira, pois, a sua devoção a Moçâmedes, cidade onde constituiu família e onde finalmente pode realizar o seu grande sonho:
segue é uma evocação desse grande dia, e foi escrito aos 90 anos de idade, já em S. João do Estoril. Não admira, pois, a sua devoção a Moçâmedes, cidade onde constituiu família e onde finalmente pode realizar o seu grande sonho:
O DIA MAIS FELIZ
Eu tenho gravada no meu pensamento
Aquela tão doce e querida recordação
Do dia feliz do meu casamento
Naquela igrejinha de Santo Adrião.
Rompia na cidade, alegre e risonho,
O dia popular de Todos-os-Santos
Eu ia afinal realizar o meu sonho
Receber o tesouro dos meus encantos.
Quatro horas da tarde desse lindo dia
Uma brisa amena soprava do mar,
Eu, já inquieto, olhava e não via
O meu querido tesouro à igreja chegar.
Mas eis que um carro à igreja chegou
E toda a gente olhou para aquele lado
Minha linda noiva dele se apeou
E pedia desculpa por se ter atrasado.
Minha noiva intranquila seguia nervosa
De flores na mão e envolta em seu véu
Seu lindo rosto tinha a cor da rosa
Qual Anjo que houvesse descido do Céu.
Pelo braço do pai, que feliz sorria,
Entre alas de amigas ela caminhava
Em todos os rostos se via alegria
E o padre Galhano já nos esperava.
Celebrado o acto com solenidade,
Troca de alianças e beijo marital
Agradeço a Deus tamanha bondade
Dando-me um Anjo meigo e celestial.
Nunca em minha vida tive um dia igual
Eu senti em mim toda a felicidade
Que pode sentir um feliz mortal
Ao sentir-se amado por uma beldade.
Porque nos queremos, porque nos amamos
Nossos juramentos nunca desmentidos
Eu e minha amada junto caminhamos
Em nome de Deus para sempre unidos.
Eu tenho gravada no meu pensamento
Aquela tão doce e querida recordação
Do dia feliz do meu casamento
Naquela igrejinha de Santo Adrião.
Rompia na cidade, alegre e risonho,
O dia popular de Todos-os-Santos
Eu ia afinal realizar o meu sonho
Receber o tesouro dos meus encantos.
Quatro horas da tarde desse lindo dia
Uma brisa amena soprava do mar,
Eu, já inquieto, olhava e não via
O meu querido tesouro à igreja chegar.
Mas eis que um carro à igreja chegou
E toda a gente olhou para aquele lado
Minha linda noiva dele se apeou
E pedia desculpa por se ter atrasado.
Minha noiva intranquila seguia nervosa
De flores na mão e envolta em seu véu
Seu lindo rosto tinha a cor da rosa
Qual Anjo que houvesse descido do Céu.
Pelo braço do pai, que feliz sorria,
Entre alas de amigas ela caminhava
Em todos os rostos se via alegria
E o padre Galhano já nos esperava.
Celebrado o acto com solenidade,
Troca de alianças e beijo marital
Agradeço a Deus tamanha bondade
Dando-me um Anjo meigo e celestial.
Nunca em minha vida tive um dia igual
Eu senti em mim toda a felicidade
Que pode sentir um feliz mortal
Ao sentir-se amado por uma beldade.
Porque nos queremos, porque nos amamos
Nossos juramentos nunca desmentidos
Eu e minha amada junto caminhamos
Em nome de Deus para sempre unidos.
escrito em S.João do Estoril, 30/09/97 (aos 90 anos de idade)
Robaial / R. Baião Alcario (1907-2005 )
*********
Segue outro poema deste Rodrigo, este, escrito aos 69 ano de idade, em Moura:
À MINHA MULHER
Eu passei toda a minha mocidade
À procura da mulher com que sonhei
Corri vilas, aldeias e cidades
Até que finalmente a encontrei.
Vivia numa terra bem distante,
Cidade das mais belas e formosas
Onde há mar e sol e amor constante
E parques e jardins cheios de rosas.
É ela a minha doce companheira,
É ela a minha doce companheira,
O sol que ilumina a minha vida,
O anjo que não sai da minha beira;
A jóia mais amada e mais querida.
É ela a minha estrela do norte
É ela a minha estrela do norte
Que me guia por caminhos sem escolhos,
É ela que em chegando a minha morte
Piedosa virá cerrar os meus olhos.
Piedosa virá cerrar os meus olhos.
Moura, Outubro de 1976.
(Aos 69 anos de idade, em Moura)
(Aos 69 anos de idade, em Moura)
Robaial R. Baião Alcario
Rodrigo compunha e Lídia, declamava como só ela tão sabia fazer. Este poema "À MINHA MULHER" era o seu preferido, aquele que era lido vezes sem conta. Rodrigo apenas frequentou a escola durante 15 dias. Era um autodidacta, e a sua poesia simples e singela, é bem o reflexo da sua alma, do quanto amou, do quanto viveu, do quanto sofreu, do quanto observou. São pedaços de si e do seu modo de ser e de estar no mundo, por vezes polémico e controvérso.
Nunca tiveram filhos (por opção), dada a ingrata profissão que obrigava o casal a viver em Angola, tanto em cidades como no "mato". Dedicaram um ao outro, inteiramente, as suas vidas. Aliás a diferença de idades, cerca de 12 anos, levava de Rodrigo a tomar não apenas atitude marido também a de um pai. Após a fase inicial, a de Rodrigo solteiro em Luanda e no Lobito, o casal percorreu, lado a lado, Angola de lés a lés. Esteve em Moçâmedes, em Porto Alexandre, em Porto Amboim, em Vila Teixeira de Sousa, no Luau e em zonas fronteiriças e isoladas do norte e do leste de Angola. Rodrigo chegou a Chefe da Guarda Fiscal. Reformou-se por "doença" em 1958, aos 51 anos de idade. Inteligentemente! O tempo de serviço no "mato" contou-lhe a dobrar. Esclarecido e atento, tinha-se apercebido de certas movimentações e ajuntamentos duvidosos de africanos em zonas fronteiriças por onde passou, e concluiu atempadamente que havia escolhido a profissão errada. Quando alguns anos depois, em 1961, reagindo aos trágicos acontecimentos perpretados pela UPA, movimento pró-independência de raiz tribal, constituído por uma maioria bakongo, contra as populações trabalhadoras e indefesas das fazendas do norte de Angola, Portugal daria início à luta armada contra os movimentos de libertação, Rodrigo já lá não se encontrava. Havia regressado a Portugal, onde fora viver para a sua terra natal, Moura, onde na situação de
reformado, ainda viveu mais 47 anos, e onde adquiriu moradia própria, no Largo José Maria dos Santos.
Em Moura, seu habitat natural, Rodrigo Baião Alcario passou um tempo feliz e, apesar da sua pequena reforma, viveu uma vida despreocupada, ora pescando no rio, ora caçando perdizes, fazendo-se transportar na sua moto, sempre acompanhado da cadela Diana, que nunca o largava. Ou ainda dormitando a sesta na cadeira de encosto, de lona, na garagem da casa, lendo o jornal da terra, propriedade do amigo Cunha, frequentando a casa dos amigos do casal, os bailes do Recreativo, os jantares e festas para as quais eram convidados, o Cinema, os Cafés da terra, o Jardim da Salúquia, etc, etc... Tinha chegado de África, era considerado e estimado. Era um senhor!
Durante a sua permanência em Moura, Rodrigo viveu os momentos quentes do PREC, após a revolução dos cravos, em 25 de Abril de 1975. Homem de convicções fortes e inabaláveis, direitista e conservador em terra de comunistas, chegou a temer a ocupação da sua moradia por outras famílias, e chegou mesmo a pegar na caçadeira com que matava perdizes para mostrar àqueles que o provocavam qual seria a sua sorte, caso ousassem fazê-lo.
A última fase da sua vida foi passada na residência do Estoril para onde se transferiu em 1990, numa altura em que Lídia fora submetida a uma operação cirúrgica em Lisboa. Homem previdente, procurou fixar-se mais próximo da capital, onde o casal tinha acesso, em caso de necessidade, a recursos assistenciais na doença, que em Moura não dispunha, para além de que, alí, estaria próximo de alguns familiares seus e de Lídia.
No Estoril esperava Rodrigo um tipo de vida que já nada tinha a ver com os momentos passados no seu dolente e calmoroso Alentejo. Já não podia ir ao rio pescar, nem calcorrear pelos montes e pelas vastas planícies de searas louras ondulando ao vento. Desfizera-se definitivamente da sua "burra", a motorizada que durante décadas a fio o transportara às margens do Guadiana, a Brinches, a Serpa, a Beja e a tantos recantos mais que conhecia como a palma das suas maõs. Já não fazia o pino como tantas vezes o vi fazer, aos 70 anos de idade, na garagem da moradia de Moura, mas ainda continuava, apesar dos 90 anos, a deixar-nos a todos estupefactos quando trepava, de dois em dois, em grande velocidade, os vários lances de degraus das escadas que o conduziam ao seu apartamento, no 2º andar de um ediício em S. João do Estoril, que não possuia elevador.
A doença começou a apoderar-se de Rodrigo Baião Alcario aos 95 anos de idade, ainda que no seu corpo musculoso e esguio continuasse a pulsar um saudável coração e não se verificasse presença de malignidade. Rodrigo era de uma cepa de alentejanos centenários. O mal que o roía eram as tonturas, a insegurança e a ansiedade, era a sensação de falta de ar, e... o medo de morrer.
Numa das crises, após ter saido do Hospital (Cuf), em Alcântara, Rodrigo teve que recuperar num Lar de Cascais. Acompanhou-o Lídia, a eterna companheira, que já não tinha idade para dele cuidar. O intuito de ambos, e sobretudo o de Lídia, era o de uma estadia temporária alí. Nunca se conformou com o facto ter deixado abruptamente a sua casa. Recordo o dia em que Lídia, a minha querida tia,
sempre viva e alegre apesar dos seus 84 anos, entrou naquele Lar. Ia como sempre gostava de andar, cabelo arranjado, mãos cuidadas, unhas pintadas, salto alto, brincos, colar, e envergava o seu melhor vestido de seda. Ia fazer companhia ao marido, mas sempre com o espírito de quem ia passar umas repousantes e reparadoras férias num qualquer Hotel de 5 estrelas em Cascais, com varandas debruçadas sobre o mar...
Rodrigo Baião Alcario, o alentejano de Moura faleceu aos 98 anos no citado Lar, apenas uma semana a seguir à morte de Lidia, falecida aos 85 anos de idade no mesmo Lar.
Não chegaram a estar alí um ano. Nada fazia prever que Lídia fosse a primeira a partir. Soube que uns tempos após terem alí ingressado, Lídia passou a receber tratamento para o mal de Alzheimer, e pude verificar como em cada dia que passava ela ia perdendo a alegria de viver e toda a anterior vivacidade, para se tornar parada, taciturna e entristecida. Deixara também completamente de ouvir. O aparelho que durante alguns anos utilizara para os ouvidos já não servia para nada.
Para além de poesia, Rodrigo Baião Alcario fez crítica literária (ainda por publicar) e, desde os seus tempos de Guarda Fiscal pelas matas de Angola, pude constatar que, apesar de politicamente conservador e de salazarista convicto, não se coibiu de deixar expresso em seus escritos a sua reprovação a certos e determinados actos da governação que iam ocorrendo naquela colónia. Guardo comigo dois poemas escritos por Rodrigo ainda em Angola, sem data, um deles intitulado "Agapiteida", o outro intitulado "O Mano" (Confidencial). Já em Portugal Rodrigo escreveu também dois poemas dedicados ao período da governação socialista de António Guterres. Irónicamente seria na vigência de Guterres que Rodrigo viria a beneficiar de uma substancial melhoria na sua degradada pensão de reforma, tal como outros militares.
Se deixou no seu espólio, registado em prosa ou em verso, pedaços dos últimos momentos passados da sua vida enquanto naquele Lar de Cascais com vista sobre a baía, desconhecemos. Sei que até morrer nunca deixou de escrever. Todo o seu espólio ficou na posse de um sobrinho que, a poucos meses da sua morte cuidou da venda da casa do Estoril e do destino das suas economias bancárias. Rodrigo e Lídia quando faleceram, em termos materiais, encontravam-se tão leves quanto haviam nascido. Já nada possuiam de seu. Foram a enterrar, com uma semana de diferença, e repousam ambos, lado a lado, no Cemitério de Moura.
Termino com mais um dos poemas escritos por Rodrigo, este dedicado ao Deserto do Namibe, às caçadas em que participou, aos amigos que o acompanharam, ao Virgílio, ao Aníbal, ao Zeca Assis..., a lugares que visitou e que nunca esqueceu, o Pico do Azevedo, a Pedra da Delfina, etc. etc. Foi escrito aos 90 anos de idade, no apartamento de S. João do Estoril:
A MORTE DA GAZELA
Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo».
Tudo «malta» conhecida
E por isso eu aceitei
No outro dia à partida
No grupo me incorporei.
Era o Virgílio e era eu
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz.
Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E aí todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina.
Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo».
Tudo «malta» conhecida
E por isso eu aceitei
No outro dia à partida
No grupo me incorporei.
Era o Virgílio e era eu
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz.
Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E aí todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina.
A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor.
Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão.
Quando o sol já descaía
Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente.
Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas.
O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão.
Todos nos precipitámos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificámos
Que ela ainda tinha vida.
Com certeza nunca viste,
E eu não mais desejo ver,
O olhar sereno e triste
Duma gazela a morrer.
S. João do Estoril, 16/10/96.
ROBAIAL – Rodrigo Baião Alcario
S. João do Estoril, 16/10/96.
ROBAIAL – Rodrigo Baião Alcario
FIM
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quarta-feira, maio 11, 2011
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10 maio 2011
Maria da Cruz Rolão, a primeira autoridade civil (regedora) de Porto Alexandre
Monumento a Maria da Cruz Rolão a primeira autoridade civil (regedora) de Porto Alexandre
Esta estátua, que presentemente não existe em Tombwa, a ex-Porto Alexandre, cidade litorânea mais a sul de Angola, foi mandada erigir pela sua Câmara Municipal, em 1972, em homenagem a Maria da Cruz Rolão, a primeira autoridade civil de Porto Alexandre (regedora), como tributo pela sua capacidade de liderança, coragem e decisão.
Quem foi então Maria da Cruz Rolão?
“A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, «o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.
”Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.
“O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhes proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.
“Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”
Delgado, Ralph, vol. II pp. 60/61
“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.
“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.
“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho, fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”
Moreira, Cecílio, pp. 20/21
Outras informações
A estátua de Maria da Cruz Rolão foi construida em Sá-da-Bandeira, em cimento pintado da côr do bronze e colocada à entrada da cidade. Para além desta havia uma outra estátua em bronze, erigida anteriormente, em homenagem ao Pescador, igualmente construida em Sá da Bandeira. A estátua de Maria da Cruz Rolão foi retirada, se não mesmo destruida, mas creio que se mantém a estátua do pescador.
Ainda relacionado com a odisseia destes pioneiros olhanenses em terras do sul de Angola, segundo informações contidas no blog Memórias e Raízes de Claudio Frota e de acorso com o Dr. Alberto Iria e outras fontes nas quais ele próprio foi beber, os Sousa Ganho, pai e filho "íam na canoa de pesca para Moçâmedes mas conseguiram entrar na barca D. Ana. Primeiro estiveram na Baía das Salinas onde se dedicaram á pesca á linha e á extracção de óleo de fígado de cação, e só depois rumaram depois para Porto Alexandre e Baía dos Tigres, sendo dos primeiros a fixarem-se nessas praias. O Júnior teve a sua primeira pescaria na Baía dos Tigres. Possuíam o caíque Restaurador que fazia o comércio de cabotagem na costa até S. Tomé, Gabão e Congo Francês. Estiveram no Mocuio, Baía das Pipas e Baba onde possuíam uma armação à valenciana destinada à pesca da sardinha, a 3ª. que foi montada no distrito. Foi o 1º.olhanense a construir uma casa em Moçâmedes.Conta-se o seguinte episódio muito curioso: "Em 3 de Fevereiro de 1871 o olhanense Francisco de Sousa Ganho indemnizou Maria da Cruz Rolão por ter lançado ao mar as madeiras para construção duma casa e mais utensílios de pesca que Maria da Cruz Rolão desembarcava na Praia do Sal ao norte da Vila de Moçâmedes". E a seguir "declarou perante testemunhas que promete sob palavra de honra viver bem com os seus vizinhos residentes na Praia do Sal ou em qualquer parte deste distrito".(Maria da Cruz Rolão foi mais tarde heroína de Porto Alexandre e regedora).Pensa-se que sucederam alguns descontentamentos na fixação das populações em certas praias.
Há ainda um registo de 1921 em que foi concedido passaporte de Moçâmedes para Lisboa a Tolentino de Sousa Ganho, médico, casado com uma brasileira do Rio de Janeiro D. Adelina Salvatério Santos e a 2 filhas, Maria e Suzana, respectivamente de 7 anos e 14 meses. Tolentino era filho do Júnior.
Foi tudo o que encontrei sobre a sua ascendência graças ao Dr. Alberto Iria e à sua obra "Os caíques do Algarve no Sul de Angola".
Foi tudo o que encontrei sobre a sua ascendência graças ao Dr. Alberto Iria e à sua obra "Os caíques do Algarve no Sul de Angola".
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MariaNJardim
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terça-feira, maio 10, 2011
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Tombwa história
09 maio 2011
Famílias de Moçâmedes, Namibe, Angola: Famílias Bagarrão, Martins Pereira, Guedes da Silva, Sousa, Freitas de Sousa, Tendinha...Freitas de Sousa...
De entre este grupo de familiares e amigos, que parecem em agradável confraternização no interior de um daqueles paquetes que faziam escala em Moçâmedes, reconheço: Ao centro: o casal João Martins Pereira (à época industrial e agricultor) e Noémia Bagarrão Pereira e o neto Serginho. Atrás, Rui Tendinha. À dt : o casal Carlos Roberto de Sousa (Beto) e Maria Orbela Guedes da Silva e Sousa e filho Betinho e o casal Fernando Tendinha e Zita Freitas de Sousa Tendinha. À esq. o casal José de Sousa (à época, proprietário da firma Sousa & Irmão, Lda - Oficina-Auto e da Carreira de Autocarros Moçâmedes-Porto Alexandre) e Linda Freitas de Sousa, e o casal Mário Eugénio Freitas de Sousa (Zezo) e Noémia Bagarrão Pereira de Sousa. Mais à frente e à esq, o Dr Carneiro, advogado na praça. À frente Lucibela Sousa, Calita, Márito...
Algures numa viagem a Lisboa, à esq. as irmãs Noémia Bagarrão Pereira e Otília Bagarrão Guedes da Silva, tendo à direita, na foto, Armando Guedes da Silva, marido de Olília (foi proprietário de uma mercearia na Torre do Tombo até ao início da década de 1950, tendo posteriormente se radicado na Metrópole, em Lisboa), e ainda mais à dt o casal José de Sousa e Linda Freitas de Sousa, também vindo de Moçâmedes e ali em gozo de férias. Agradeço à minha priminha Micaela que as colocou no Facebook. Beijinhos a todos os corajosos descendentes da bisavó Catarina Ferreira, que estão na 1ª foto, e que no Namibe ousaram ficaram por amor à nossa querida terra.
Armando Guedes da Silva e João Martins Pereira, fomos encontrá-los nesta foto integrados na 1ª equipa de futebol do Sport Moçâmedes e Benfica, em 1936, completamente formada por dissidentes do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro de Moçâmedes (1919). Com um ramo de flores na mão, Armando Guedes da Silva encabeçou com Júlio de Andrade um processo de desvinculações, que não só os levou a abandonaram o Ginásio, como levou atrás de si para o novo clube, que de inicio adoptou a designação de Sport Lisboa e Benfica, formado em 9 de Setembro de 1936, outros tantos jogadores aqui representados tais como: Edmundo Seixal, Aníbal Nunes de Almeida, Arnaldo Nunes de Almeida, João da Silva Estrela, Artur da Silva Estrela, Carlos Guedes da Silva, João Viegas Seixal e João Martins Pereira Jr., o que representou uma verdadeira catástrofe para o velho clube pioneiro azul e branco.
http://memoriasdesportivas.blogspot.pt/2007/11/blog-post.html
Na foto, ao centro e um pouco abaixo, de gravata e óculos, João Martins Pereira, em meio a uma mole humana que caminhava para os Paços dos Concelho, quando da visita a Moçâmedes, em 1961, do Ministro do Ultramar, Professor Doutor Adriano Moreira.
D. Noémia Bagarrão Pereira em foto após 1975, em Lisboa
John Pereira, na pesca desportiva em Moçâmedes
Termino com esta homenagem a D. Noémia que por esta altura já completou os 90 anos de idade:

Termino com esta homenagem a D. Noémia que por esta altura já completou os 90 anos de idade:

PIONEIRAS
Noémia Emília Bagarrão Martins Pereira
“Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
Já todo o mundo é diferente.
Já outro ar me rodeia;
Outros lábios o respiram;
Outros aléns se tingiram
De outro sol que os incendeia.
........
Tudo é foi. Nada acontece.”
António Gedeão, “tudo é foi”, Poesias Completas (1956‑1967), Lisboa, Portugália Editora, 1978, pp. 41‑42.
Nasceu no Algarve, em Olhão, então vila piscatória a poucos quilómetros de Faro, capital do distrito, a 4 de Agosto de 1916, a terceira de quatro irmãos, dois rapazes, os mais velhos, e uma rapariga. O pai, António Martins Bagarrão, era mandador de redes de pesca, actividade ligada à malhagem das redes para os diferentes tipos de pescaria. A mãe, Maria Inácia Bagarrão, era doméstica.
A pesca era uma actividade sazonal, com paragens cíclicas nos meses de Março de cada ano, coincidentes com a recolha das embarcações, a fim de serem retocadas, pintadas e arranjadas as armações e respeitado o tempo de defeso do peixe, período destinado ao crescimento das espécies capturadas naquelas águas. No mês de Março de 1926, o pai ponderou os repetidos convites de uma irmã, que residia com a família em Angola, para emigrar para Moçâmedes. As promessas eram aliciantes, falavam de uma vida maravilhosa e da possibilidade de ganhar muito dinheiro. Era a oportunidade para um chefe de família com quatro filhos, um dos quais já casado e com uma filha pequena, de singrar na vida. Para pagar a passagem, hipotecaram a casa própria em que viviam e foram, pai e filho, com carta de chamada e emprego numa empresa de pescaria pertencente a João Tomás da Fonseca e João Martins Pereira, conhecido, tanto em Olhão como em Angola, por João da Carma, por ser filho de Maria do Carmo.
A parte feminina da família, esposa, duas filhas, nora e neta, seguiram seis meses mais tarde, quando os homens já estavam instalados e não aguentavam mais as saudades familares. Assim, aos 9 anos, Noémia embarcava para Angola, fazendo os 10 anos na ilha da Madeira, quando o vapor em que seguiam atracou durante uma semana.
Em Angola, foram para a Baía dos Tigres, na enseada pequena, terra árida, de areal, com fortes ventos, onde só chegavam transportes semanais, numa embarcação pequena, com alimentos, com a frescura perdida. A mãe de Noémia era muito doente e ali só se alimentava de caldos de peixe cozido; a restante família completava a dieta com pirão feito pelos naturais, arrefecido, fatiado e frito. A continuação naquele local era insustentável e o pai entrou em contacto com João da Carma para o pôr ao corrente da situação. Saíram, então, da Baía dos Tigres para Mocuio, mais perto da cidade, até que noutro mês de Março, quando as tempestades assolavam a costa, receberam ordem de fazer as malas e regressar a Moçâmedes.
Em Moçamedes, alojaram‑se por algum tempo em casa de amigos, até que o pai foi convidado por um francês, de nome Rascaret, para ingressar na sua firma como mandador, em Praia Amélia, ficando responsável por todas as actividades, excepto a da contabilidade, atribuída a outro português, o “velho Mangericão”. A vida da família melhorou até pela curta distância à cidade de Moçâmedes.
Noémia podia, então, seguir o percurso das raparigas prendadas do tempo. Concluída a instrução primária, ainda em Olhão, a menina foi para uma escola aprender a bordar e a pintar seda, em grandes bastidores, donde saíam lindas almofadas e quadros. Também se tornou exímia no croché, de que conserva, ainda hoje, colchas e toalhas de mesa de esmerado labor. A família estava, por fim, fixada geograficamente num local aprazível e numa situação económica confortável, diga‑se, instalados comodamente na colónia.
A amizade com João da Carma, também ele natural de Olhão, mantinha‑se para lá dos laços laborais iniciais. Como nunca esquecerá, foi João da Carma que a recebeu, num dia de tempestade, à chegada a Moçamedes, vinda num baleeiro que, dado não haver cais, fazia o transporte de passageiros e mercadoria do navio para terra. O primeiro local africano onde Noémia se instalou, depois de mais de um mês de viagem, foi na casa de João da Carma. Foi também nesse dia e aí, que recebeu o primeiro beijo dado por um rapaz – o filho de João da Carma, também ele de nome João ‑, quando brincavam na varanda da casa, em Torre do Tombo1, enquanto os adultos lembravam memórias do solo pátrio, no salão. Noémia recorda como ficou atrapalhada com a situação, escondendo o acontecimento da mãe.
A figura de João torna‑se presente, convivendo nos fins‑de‑semana com os irmãos de Noémia. Os seus olhos ainda hoje se iluminam, lembrando a chegada a sua casa do rapaz veloz na bicicleta, a qual lhe permitia colmatar a distância entre Moçamedes e Praia Amélia. Quando Noémia completou 14 anos, João, com 17 anos feitos, veio pedir autorização ao pai dela para iniciar o namoro. Namoro este desejado e incentivado por aquele que virá a ser o seu sogro. Ficou‑lhe registada na memória, a frase que o seu segundo pai – como gosta de chamar a João da Carma ‑, dizia à sua mãe, nas visitas semanais que esta fazia à família, referindo‑se a Noémia “deixe estar a pêra na pereira, não apodreça” e, subtilmente, a seu filho, ao acrescentar “que lá virá quem a mereça”.
A sete meses de concluir os 18 anos, em Janeiro de 1934, casa com o único homem com quem namorou e diz ter amado. Noémia também não esquece que ele assistiu à primeira gincana da sua vida, da qual saiu vencedora, aplaudindo‑a. Revelaram‑se, então, as suas capacidades competitivas, a par da descoberta por si mesma do prazer pelas actividades desportivas e pela visibilidade social, que lhe permitiriam participar num grande número de eventos locais.
Anos mais tarde, com 34 anos e já com dois filhos, uma rapariga com 17 anos – Coca (Noémia) – e um rapaz de 13 anos – Jone (João) ‑, Noémia, a nossa pioneira, resolveu fazer uma experiência, quiçá, matar tempos mortos do seu dia‑a‑dia. Liberta da realização da grande maioria das tarefas domésticas, para as quais contava com o pessoal indígena – que ia formando para responder às necessidades e hábitos da família –, com os filhos ocupados na escola e o marido ausente nas suas actividades empresariais ou no Grémio da Pesca – do qual foi funcionário e depois presidente –, pensou divertir‑se a aprender a conduzir. Recorreu ao irmão Arnaldo, que a ensinou a fazê‑lo numa das carrinhas de caixa aberta ao serviço da sua fazenda agrícola.
Nessa fazenda, de cuja extensão nunca conheceu os limites, como recorda, a par da criação pecuária – porcos e bezerros – e do cultivo de produtos hortículas e de frutos autóctones, que vendiam para o Grémio da Agricultura, desenvolveram, ainda, a cultura de camarão em cacimbas, espécie de poços feitos na margem do rio Bero, o qual a atravessava. A facilidade com que aprendeu a guiar despertou o interesse de um examinador, que vinha de Sá da Bandeira avaliar os candidatos a encartados, o qual a aprovou. Noémia, tornou‑se, assim uma das primeiras mulheres residentes em Angola com carta de condução, a primeira a tê‑la, em Moçâmedes.
A destreza nas manobras e o pé pesado no acelerador, a par do bichinho pela competição, levaram‑na a participar em provas automobilísticas, algumas das quais todo‑o‑terreno, de que lembra a subida da montanha de Giraúl. Exibe‑nos uma folha do jornal local O Namibe, de 24 de Setembro de 1955, onde é abordada a sua participação pioneira numa corrida e gincana automóvel, patrocinadas pela Rádio Club de Moçamedes, sendo Noémia entrevistada.
Foi a primeira mulher a obter a licença de concorrente nacional, emitida pela Comissão Desportiva do Automóvel Touring Clube de Angola. Como se assinala, no documento que ainda hoje conserva, esta licença era válida, pelo período de um ano, em todo o território nacional e era requerida para tomar parte em manifestações desportivas.
Foram muitas as provas em que participou e os prémios ganhos também foram alguns. Reconhece, com uma certa mágoa, que o favoritismo determinava alguns dos resultados das provas, afirmando “quando começaram a entrar na competição esposas de certas figuras do poder local deixei de ser a vencedora”.
À pergunta se reconhece ter sido uma mulher que foi diferente das do seu tempo, responde que não. Considera que sempre foi uma dona‑de‑casa e mãe de família, exemplares, e que era o seu marido quem orientava a vida económica, garantindo que no presente nada faltasse aos seus e investindo para assegurar um futuro ainda melhor. Identifica claramente papéis sociais tradicionalmente atribuídos à mulher e ao homem, sintetizados por si na expressão “ele mandava na rua e eu em casa”, denotando um reconhecimento dos limites do poder do feminino, circunscrito à esfera do privado. Com uma lucidez crítica afirma ter participado, e as outras senhoras também, nas competições porque eram os maridos que, mais do que aceitarem que participassem, as incentivavam a fazê‑lo. Remata, em tom de confirmação da sua avaliação, “eram eles que nos inscreviam”. Conjectura‑se que as competições automobilísticas femininas eram potenciadoras da exibição das esposas como troféus dos respectivos maridos.
Acrescentando, diz‑nos que as senhoras só entravam em provas competitivas locais, reservando os homens, para si, a participação noutras cidades. Assumindo eles uma função disciplinadora e normativa da actividade feminina, ditavam as regras da presença das suas mulheres no espaço público. Limitada a prática desportiva às competições locais, via‑se salvaguardado o lugar das mulheres no meio familiar, dado estas provas não requererem um assinalável afastamento do mesmo.
Não se adivinha resignação no seu discurso, mas tão só aceitação daquilo que se considera ser a realidade da vida de então, norteada pelo princípio de subalternidade, por si implícito na expressão “mandava ele [o marido] e eu aconselhava‑o”.
A componente lúdica, assim como o carácter social, está sempre presente na abordagem saudosista que faz da vida em África. Recorda as festas de âmbito mais alargado, como os bailes, sobretudo, os do Casino, do Atlético Clube de Moçamedes e do Aero Clube de Moçamedes, a “Festa de Moçamedes, Mar e Março” ou, ainda, o Carnaval, organizando um carro alegórico para desfilar com os seis netos – Mário, João, Filipe, Carlo, Sílvia e Sérgio. Torna também presente os encontros com grupos restritos de amigos, em sua casa, para jogar à sueca ou para fazer caçadas no mato, pernoitando no acampamento turístico desenvolvido para safaris pela família do marido da sua filha. E das festas familiares, retém o Natal, preparando para os seus criados uma mesa com o mesmo tipo de iguarias às servidas para os senhores, assim como a Festa de Ano Novo, brindando efusivamente à Passagem do Ano, na varanda que acompanhava toda a sua casa, sob a marginal, com cálices de Marie Brizard, sua bebida preferida.
Fazem ainda parte das suas memórias o cinema e as viagens. Em Moçâmedes a família frequentava assiduamente o Cine‑Moçamedes, não deixando ainda de ir às tão apreciadas sessões cinematográficas, ao ar livre, no Impala Cine. Reconhece, mesmo, que o cultivo do cinema terá influenciado o amor que o seu fiho lhe tem devotado, tendo fundado uma sala de cinema, em Peniche, localidade onde se veio a fixar quando teve de abandonar Angola. Refere, ainda, que o seu neto “Jonica” gosta de recordar que foram os avós que o levaram, a ele e ao primo Mário, pela primeira vez a uma sessão de cinema com cenas de nus, muito ousadas para os costumes da época, com a exibição de A Piscina (1969), de Jacques Deray e tendo por protagonistas Romy Schneider e Alain Delon. Acrecenta, por último, que tem quase a certeza que passavam lá filmes que na Metrópole não eram exibidos ou, quando o eram, tinham partes censuradas.
Das viagens recorda ter sabido do fim da II Guerra Mundial, em 1945, quando estava na ilha da Madeira, escala da sua primeira vinda à Metrópole. Com uma frequência média de dois anos visitava Portugal, aproveitando para conhecer minuciosamente o país, assim como Espanha, que percorreu de lés‑a‑lés, e algumas capitais europeias. As férias na África do Sul também são por si lembradas com um misto de prazer e de dor, dado ter sido numa destas que teve conhecimento da morte do sogro, que havia anos deixara o continente africano e residia em Lisboa.
Se o clima era propício a banhos, a proximidade do mar, residindo, uma grande parte da vida na Avenida Marginal de Moçâmedes, fazia com que a chamada “ida à praia” fizesse parte do seu espaço quotidiano. Noémia confidencia‑nos, divertida, que o seu fato‑de‑banho preferido, branco e vermelho, de duas peças, a que hoje chamaríamos de biquíni, tinha a cor do Benfica. A expressão deste culto pelo seu clube desportivo de sempre evidencia‑a exibindo‑nos um exemplar da secção desportiva do jornal O Namibe, de 4 de Agosto de 1955, referindo a participação do clube na “Pequena Taça do Mundo”, e ao revelar‑nos o fetiche de ver os jogos do clube sempre com o simbólico cachecol ao pescoço. Dizendo‑se uma desportista e uma fanática benfiquista, não esquece um dos ídolos do futebol, o moçambicano Eusébio.
A forte ligação emocional à sua experiência de vida em África, consubstancia‑se no interesse que teve em seguir o destino da moradia familiar, conservando um retrato da residência que a viu partir e da mesma ocupada na actualidade pelos serviços policiais da Namibe (actual nome de Moçâmedes).
Invocando o poeta António Gedeão, diremos que Noémia experimentou que tudo é foi, tendo a filosofia de vida suficiente para, reconhecendo a implacável lei do devir, entender que neste abrir e fechar de olhos/já todo o mundo é diferente.
Ilda Soares de Abreu e Maria José Remédios
1Designação de um dos bairros de Moçamedes, onde a família de João da Carma tinha, para lá da sua residência, a empresa ligada à actividade piscatória – frota de armação de pesca, fábrica de secagem de peixe e de produção de óleo e farinha do mesmo ‑, a qual seria vendida, no final da década de 60, para ser construído o cais de Moçâmedes. Entende‑se que o nome atribuído àquele bairro faça alusão ao registo de memórias, dado naquele local terem sido encontrados vestígios da passagem de corsários e mareantes, que esculpiram na rocha sinais da sua presença.
Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher no.33 Lisboa 2015
Universidade Nova de Lisboa
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Grupo de Investigação Faces de Eva, Estudos sobre a Mulher
Noémia Emília Bagarrão Martins Pereira
“Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
Já todo o mundo é diferente.
Já outro ar me rodeia;
Outros lábios o respiram;
Outros aléns se tingiram
De outro sol que os incendeia.
........
Tudo é foi. Nada acontece.”
António Gedeão, “tudo é foi”, Poesias Completas (1956‑1967), Lisboa, Portugália Editora, 1978, pp. 41‑42.
Nasceu no Algarve, em Olhão, então vila piscatória a poucos quilómetros de Faro, capital do distrito, a 4 de Agosto de 1916, a terceira de quatro irmãos, dois rapazes, os mais velhos, e uma rapariga. O pai, António Martins Bagarrão, era mandador de redes de pesca, actividade ligada à malhagem das redes para os diferentes tipos de pescaria. A mãe, Maria Inácia Bagarrão, era doméstica.
A pesca era uma actividade sazonal, com paragens cíclicas nos meses de Março de cada ano, coincidentes com a recolha das embarcações, a fim de serem retocadas, pintadas e arranjadas as armações e respeitado o tempo de defeso do peixe, período destinado ao crescimento das espécies capturadas naquelas águas. No mês de Março de 1926, o pai ponderou os repetidos convites de uma irmã, que residia com a família em Angola, para emigrar para Moçâmedes. As promessas eram aliciantes, falavam de uma vida maravilhosa e da possibilidade de ganhar muito dinheiro. Era a oportunidade para um chefe de família com quatro filhos, um dos quais já casado e com uma filha pequena, de singrar na vida. Para pagar a passagem, hipotecaram a casa própria em que viviam e foram, pai e filho, com carta de chamada e emprego numa empresa de pescaria pertencente a João Tomás da Fonseca e João Martins Pereira, conhecido, tanto em Olhão como em Angola, por João da Carma, por ser filho de Maria do Carmo.
A parte feminina da família, esposa, duas filhas, nora e neta, seguiram seis meses mais tarde, quando os homens já estavam instalados e não aguentavam mais as saudades familares. Assim, aos 9 anos, Noémia embarcava para Angola, fazendo os 10 anos na ilha da Madeira, quando o vapor em que seguiam atracou durante uma semana.
Em Angola, foram para a Baía dos Tigres, na enseada pequena, terra árida, de areal, com fortes ventos, onde só chegavam transportes semanais, numa embarcação pequena, com alimentos, com a frescura perdida. A mãe de Noémia era muito doente e ali só se alimentava de caldos de peixe cozido; a restante família completava a dieta com pirão feito pelos naturais, arrefecido, fatiado e frito. A continuação naquele local era insustentável e o pai entrou em contacto com João da Carma para o pôr ao corrente da situação. Saíram, então, da Baía dos Tigres para Mocuio, mais perto da cidade, até que noutro mês de Março, quando as tempestades assolavam a costa, receberam ordem de fazer as malas e regressar a Moçâmedes.
Em Moçamedes, alojaram‑se por algum tempo em casa de amigos, até que o pai foi convidado por um francês, de nome Rascaret, para ingressar na sua firma como mandador, em Praia Amélia, ficando responsável por todas as actividades, excepto a da contabilidade, atribuída a outro português, o “velho Mangericão”. A vida da família melhorou até pela curta distância à cidade de Moçâmedes.
Noémia podia, então, seguir o percurso das raparigas prendadas do tempo. Concluída a instrução primária, ainda em Olhão, a menina foi para uma escola aprender a bordar e a pintar seda, em grandes bastidores, donde saíam lindas almofadas e quadros. Também se tornou exímia no croché, de que conserva, ainda hoje, colchas e toalhas de mesa de esmerado labor. A família estava, por fim, fixada geograficamente num local aprazível e numa situação económica confortável, diga‑se, instalados comodamente na colónia.
A amizade com João da Carma, também ele natural de Olhão, mantinha‑se para lá dos laços laborais iniciais. Como nunca esquecerá, foi João da Carma que a recebeu, num dia de tempestade, à chegada a Moçamedes, vinda num baleeiro que, dado não haver cais, fazia o transporte de passageiros e mercadoria do navio para terra. O primeiro local africano onde Noémia se instalou, depois de mais de um mês de viagem, foi na casa de João da Carma. Foi também nesse dia e aí, que recebeu o primeiro beijo dado por um rapaz – o filho de João da Carma, também ele de nome João ‑, quando brincavam na varanda da casa, em Torre do Tombo1, enquanto os adultos lembravam memórias do solo pátrio, no salão. Noémia recorda como ficou atrapalhada com a situação, escondendo o acontecimento da mãe.
A figura de João torna‑se presente, convivendo nos fins‑de‑semana com os irmãos de Noémia. Os seus olhos ainda hoje se iluminam, lembrando a chegada a sua casa do rapaz veloz na bicicleta, a qual lhe permitia colmatar a distância entre Moçamedes e Praia Amélia. Quando Noémia completou 14 anos, João, com 17 anos feitos, veio pedir autorização ao pai dela para iniciar o namoro. Namoro este desejado e incentivado por aquele que virá a ser o seu sogro. Ficou‑lhe registada na memória, a frase que o seu segundo pai – como gosta de chamar a João da Carma ‑, dizia à sua mãe, nas visitas semanais que esta fazia à família, referindo‑se a Noémia “deixe estar a pêra na pereira, não apodreça” e, subtilmente, a seu filho, ao acrescentar “que lá virá quem a mereça”.
A sete meses de concluir os 18 anos, em Janeiro de 1934, casa com o único homem com quem namorou e diz ter amado. Noémia também não esquece que ele assistiu à primeira gincana da sua vida, da qual saiu vencedora, aplaudindo‑a. Revelaram‑se, então, as suas capacidades competitivas, a par da descoberta por si mesma do prazer pelas actividades desportivas e pela visibilidade social, que lhe permitiriam participar num grande número de eventos locais.
Anos mais tarde, com 34 anos e já com dois filhos, uma rapariga com 17 anos – Coca (Noémia) – e um rapaz de 13 anos – Jone (João) ‑, Noémia, a nossa pioneira, resolveu fazer uma experiência, quiçá, matar tempos mortos do seu dia‑a‑dia. Liberta da realização da grande maioria das tarefas domésticas, para as quais contava com o pessoal indígena – que ia formando para responder às necessidades e hábitos da família –, com os filhos ocupados na escola e o marido ausente nas suas actividades empresariais ou no Grémio da Pesca – do qual foi funcionário e depois presidente –, pensou divertir‑se a aprender a conduzir. Recorreu ao irmão Arnaldo, que a ensinou a fazê‑lo numa das carrinhas de caixa aberta ao serviço da sua fazenda agrícola.
Nessa fazenda, de cuja extensão nunca conheceu os limites, como recorda, a par da criação pecuária – porcos e bezerros – e do cultivo de produtos hortículas e de frutos autóctones, que vendiam para o Grémio da Agricultura, desenvolveram, ainda, a cultura de camarão em cacimbas, espécie de poços feitos na margem do rio Bero, o qual a atravessava. A facilidade com que aprendeu a guiar despertou o interesse de um examinador, que vinha de Sá da Bandeira avaliar os candidatos a encartados, o qual a aprovou. Noémia, tornou‑se, assim uma das primeiras mulheres residentes em Angola com carta de condução, a primeira a tê‑la, em Moçâmedes.
A destreza nas manobras e o pé pesado no acelerador, a par do bichinho pela competição, levaram‑na a participar em provas automobilísticas, algumas das quais todo‑o‑terreno, de que lembra a subida da montanha de Giraúl. Exibe‑nos uma folha do jornal local O Namibe, de 24 de Setembro de 1955, onde é abordada a sua participação pioneira numa corrida e gincana automóvel, patrocinadas pela Rádio Club de Moçamedes, sendo Noémia entrevistada.
Foi a primeira mulher a obter a licença de concorrente nacional, emitida pela Comissão Desportiva do Automóvel Touring Clube de Angola. Como se assinala, no documento que ainda hoje conserva, esta licença era válida, pelo período de um ano, em todo o território nacional e era requerida para tomar parte em manifestações desportivas.
Foram muitas as provas em que participou e os prémios ganhos também foram alguns. Reconhece, com uma certa mágoa, que o favoritismo determinava alguns dos resultados das provas, afirmando “quando começaram a entrar na competição esposas de certas figuras do poder local deixei de ser a vencedora”.
À pergunta se reconhece ter sido uma mulher que foi diferente das do seu tempo, responde que não. Considera que sempre foi uma dona‑de‑casa e mãe de família, exemplares, e que era o seu marido quem orientava a vida económica, garantindo que no presente nada faltasse aos seus e investindo para assegurar um futuro ainda melhor. Identifica claramente papéis sociais tradicionalmente atribuídos à mulher e ao homem, sintetizados por si na expressão “ele mandava na rua e eu em casa”, denotando um reconhecimento dos limites do poder do feminino, circunscrito à esfera do privado. Com uma lucidez crítica afirma ter participado, e as outras senhoras também, nas competições porque eram os maridos que, mais do que aceitarem que participassem, as incentivavam a fazê‑lo. Remata, em tom de confirmação da sua avaliação, “eram eles que nos inscreviam”. Conjectura‑se que as competições automobilísticas femininas eram potenciadoras da exibição das esposas como troféus dos respectivos maridos.
Acrescentando, diz‑nos que as senhoras só entravam em provas competitivas locais, reservando os homens, para si, a participação noutras cidades. Assumindo eles uma função disciplinadora e normativa da actividade feminina, ditavam as regras da presença das suas mulheres no espaço público. Limitada a prática desportiva às competições locais, via‑se salvaguardado o lugar das mulheres no meio familiar, dado estas provas não requererem um assinalável afastamento do mesmo.
Não se adivinha resignação no seu discurso, mas tão só aceitação daquilo que se considera ser a realidade da vida de então, norteada pelo princípio de subalternidade, por si implícito na expressão “mandava ele [o marido] e eu aconselhava‑o”.
A componente lúdica, assim como o carácter social, está sempre presente na abordagem saudosista que faz da vida em África. Recorda as festas de âmbito mais alargado, como os bailes, sobretudo, os do Casino, do Atlético Clube de Moçamedes e do Aero Clube de Moçamedes, a “Festa de Moçamedes, Mar e Março” ou, ainda, o Carnaval, organizando um carro alegórico para desfilar com os seis netos – Mário, João, Filipe, Carlo, Sílvia e Sérgio. Torna também presente os encontros com grupos restritos de amigos, em sua casa, para jogar à sueca ou para fazer caçadas no mato, pernoitando no acampamento turístico desenvolvido para safaris pela família do marido da sua filha. E das festas familiares, retém o Natal, preparando para os seus criados uma mesa com o mesmo tipo de iguarias às servidas para os senhores, assim como a Festa de Ano Novo, brindando efusivamente à Passagem do Ano, na varanda que acompanhava toda a sua casa, sob a marginal, com cálices de Marie Brizard, sua bebida preferida.
Fazem ainda parte das suas memórias o cinema e as viagens. Em Moçâmedes a família frequentava assiduamente o Cine‑Moçamedes, não deixando ainda de ir às tão apreciadas sessões cinematográficas, ao ar livre, no Impala Cine. Reconhece, mesmo, que o cultivo do cinema terá influenciado o amor que o seu fiho lhe tem devotado, tendo fundado uma sala de cinema, em Peniche, localidade onde se veio a fixar quando teve de abandonar Angola. Refere, ainda, que o seu neto “Jonica” gosta de recordar que foram os avós que o levaram, a ele e ao primo Mário, pela primeira vez a uma sessão de cinema com cenas de nus, muito ousadas para os costumes da época, com a exibição de A Piscina (1969), de Jacques Deray e tendo por protagonistas Romy Schneider e Alain Delon. Acrecenta, por último, que tem quase a certeza que passavam lá filmes que na Metrópole não eram exibidos ou, quando o eram, tinham partes censuradas.
Das viagens recorda ter sabido do fim da II Guerra Mundial, em 1945, quando estava na ilha da Madeira, escala da sua primeira vinda à Metrópole. Com uma frequência média de dois anos visitava Portugal, aproveitando para conhecer minuciosamente o país, assim como Espanha, que percorreu de lés‑a‑lés, e algumas capitais europeias. As férias na África do Sul também são por si lembradas com um misto de prazer e de dor, dado ter sido numa destas que teve conhecimento da morte do sogro, que havia anos deixara o continente africano e residia em Lisboa.
Se o clima era propício a banhos, a proximidade do mar, residindo, uma grande parte da vida na Avenida Marginal de Moçâmedes, fazia com que a chamada “ida à praia” fizesse parte do seu espaço quotidiano. Noémia confidencia‑nos, divertida, que o seu fato‑de‑banho preferido, branco e vermelho, de duas peças, a que hoje chamaríamos de biquíni, tinha a cor do Benfica. A expressão deste culto pelo seu clube desportivo de sempre evidencia‑a exibindo‑nos um exemplar da secção desportiva do jornal O Namibe, de 4 de Agosto de 1955, referindo a participação do clube na “Pequena Taça do Mundo”, e ao revelar‑nos o fetiche de ver os jogos do clube sempre com o simbólico cachecol ao pescoço. Dizendo‑se uma desportista e uma fanática benfiquista, não esquece um dos ídolos do futebol, o moçambicano Eusébio.
A forte ligação emocional à sua experiência de vida em África, consubstancia‑se no interesse que teve em seguir o destino da moradia familiar, conservando um retrato da residência que a viu partir e da mesma ocupada na actualidade pelos serviços policiais da Namibe (actual nome de Moçâmedes).
Invocando o poeta António Gedeão, diremos que Noémia experimentou que tudo é foi, tendo a filosofia de vida suficiente para, reconhecendo a implacável lei do devir, entender que neste abrir e fechar de olhos/já todo o mundo é diferente.
Ilda Soares de Abreu e Maria José Remédios
1Designação de um dos bairros de Moçamedes, onde a família de João da Carma tinha, para lá da sua residência, a empresa ligada à actividade piscatória – frota de armação de pesca, fábrica de secagem de peixe e de produção de óleo e farinha do mesmo ‑, a qual seria vendida, no final da década de 60, para ser construído o cais de Moçâmedes. Entende‑se que o nome atribuído àquele bairro faça alusão ao registo de memórias, dado naquele local terem sido encontrados vestígios da passagem de corsários e mareantes, que esculpiram na rocha sinais da sua presença.
Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher no.33 Lisboa 2015
Universidade Nova de Lisboa
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Grupo de Investigação Faces de Eva, Estudos sobre a Mulher
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segunda-feira, maio 09, 2011
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Familias de Moçâmedes (hoje, Namibe), Angola: Familias Simões e Arnedo
Outras famílias interligadas e residentes em Moçâmedes: Zeca Simões, Henrique Sarmento, Olivia Arnedo, João José Arnedo, Minha mãe Luisa Simões, Zezinha Arnedo, Oriete Simões, Graça Carapinha (Bebé da foto) Fatima Simões, Ildemarina Simões, Avó Beatriz Simões, Maria do Monte, Jaquelina Arnedo, José Luis Simões, Jorge Arnedo, João Arnedo, Veríssmo Simões, Augusto Simões, José Raul da Silva Simões. Foto gentilmente cedida por Graça Carapinha.
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