21 junho 2011

Os bairros de Moçâmedes (Namibe) e as suas gentes no tempo colonial: "Sanzala dos Brancos" ou Bairro Stº. António


Vejamos o que sobre este bairro e as suas gentes encontrámos na Net  (Sanzalangola):

«...Sanzala dos Brancos ou Bairro Stº. António, bairro onde vivi a minha infância e parte da adolescência, situava-se entre a estrada da Circunvalação e a rua do Rádio Clube de Moçâmedes. Rua essa que terminava no arreal em frente ao Impala Cine. Tenho dificuldade em lembrar-me do nome, e era atravessado pela Rua 4 de Agosto, aliás esta rua começava aí.

Era composto por dois núcleos de casas, a norte um bloco de casas económicas divididas por um corredor de acesso aos quintais traseiros, umas com a fachada principal para a Estrada da Circunvalação e outras para a rua do RCM. Nesse bloco viviam entre outros, o Vergílio, o Matias (tio do Vergílio), o Edgar Teixeira, a família Espírito Santo (filho do último Soba de Porto-Alexandre), o senhor Pinto táxista, o Mário de Albufeira, o Horta, o António Homem(filho do enfermeiro), o Jorge Almeida, o Turra, os Ilhas, o Tiago Costa, o Lanucha Dolbeth e Costa, o Claúdio Dolbeth e Costa, o António Soares, a Augustinha e outros de que já não me lembro os nomes.

Esse corredor que divide os dois blocos norte, tinha muros altos que eram as paredes dos anexos e portões de acesso aos quintais, por isso era um lugar com sombra e fresco, ideal para a garotada.

Era o local predilecto para brincar, pois assim estávamos protegidos dos carros e outros perigos, e ao mesmo tempo controlados pelas nossas mães. Era aí que se faziam os jogos tradicionais infantis, como a cabra cega, saltar os sóis, escondidas, saltar à corda e outros, foram tempos inesquecíveis.

O núcleo sul era composto por vivendas de maiores dimensões, que estavam dispostas como no núcleo norte, mas sem corredor a separar os quintais, começavam na Rua 4 de Agosto e acabavam na rua do Sr. Esteves da padaria, também não me lembro do nome, o Rádio Clube de Moçâmedes era mesmo em frente, e aí viviam a Lucy (filha do Zé de Sousa), os Grilos, o Sr. Abel (do Benfica), a familia Sequeira, a Mária Viegas, os Formosinhos, entre outros.

O Jorge Van Der Kelen vivia na 4 de Agosto mas muito próximo da famosa esquina.

Lembro-me de ir espreitar ao quintal dele os treinos de alterofilia que o pai fazia com alguma malta lá do bairro, lembro-me do Alfredo Grilo, era pequenino mas tinha um grande “caparro”.

Vivia-se modestamente, mas bem, o pessoal dava-se bem e ajudava-se muito, lembro-me daquele ceguinho chamado “Trimtimtim” que pedia cantando “oh trimtimtim um quinhento só” a minha mãe ajudava-o a sentar-se na cadeira da varanda e dava-lhe prato de sopa, para além do “quinhento” claro.

Lembro com saudade as festas populares que lá se faziam por altura do Santo António, montava-se um arraial com enfeites de papel colorido, balões e tudo, no areal em frente à casa do Edgar Teixeira. Cada um trazia bebida e comida, iamos á Mercearia do Sr. Oliveira, na Rua das Hortas, pedir alguns barris de vinho vazios, pregávamos uns aos outros, enchiamos de lenha, papel velho o que estivesse à mão e faziamos belas fogueiras, outra vez a estória da reciclagem que o amigo Xindere fez questão de enaltecer na sua crónica, era mesmo uma cidade muito avançada.

byToninho da Sanzala dos Brancos (Sanzalangola)

Sanzala dos Brancos ou Bairro Stº. António, bairro onde vivi a minha infância e parte da adolescência, situava-se entre a estrada da Circunvalação e a rua do RCM. Rua essa que terminava no areal em frente ao Impala Cine. Tenho dificuldade em lembrar-me do nome, e era atravessado pela Rua 4 de Agosto, aliás esta rua começava aí. Era composto por dois núcleos de casas, a norte um bloco de casas económicas divididas por um corredor de acesso aos quintais traseiros, umas com a fachada principal para a Estrada da Circunvalação e outras para a rua do RCM. Nesse bloco viviam entre outros, o Vergílio, o Matias(tio do Vergílio), o Edgar Teixeira, a família Espírito Santo(filho do último Soba de Porto-Alexandre), o senhor Pinto táxista, o Mário de Albufeira, o Horta, o António Homem(filho do enfermeiro), o Jorge Almeida, o Turra, os Ilhas, o Tiago Costa, o Lenucha Dolbeth e Costa, o Claúdio Dolbeth e Costa, o António Soares, a Augustinha e outros de que já não me lembro os nomes. Esse corredor que divide os dois blocos norte, tinha muros altos que eram as paredes dos anexos e portões de acesso aos quintais, por isso era um lugar com sombra e fresco, ideal para a garotada. Era o local predilecto para brincar, pois assim estávamos protegidos dos carros e outros perigos, e ao mesmo tempo controlados pelas nossas mães. Era aí que se faziam os jogos tradicionais infantis, como a cabra cega, saltar os sóis, escondidas, saltar à corda e outros, foram tempos inesquecíveis. O núcleo sul era composto por vivendas de maiores dimensões, que estavam dispostas como no núcleo norte, mas sem corredor a separar os quintais, começavam na Rua 4 de Agosto e acabavam na rua do Sr. Esteves da padaria, também não me lembro do nome, o RCM era mesmo em frente, e aí viviam a Lucy (filha do Zé de Sousa), os Grilos, o Sr. Abel(do benfica), a familia Sequeira, a Mária Viegas, os Formosinhos, entre outros. O Jorge Van Der Kelen vivia na 4 de Agosto mas muito próximo da famosa esquina.Lembro-me de ir espreitar ao quintal dele os treinos de alterofilia que o pai fazia com alguma malta lá do bairro, lembro-me do Alfredo Grilo, era pequenino mas tinha um grande “caparro”.

Vivia-se modestamente, mas bem, o pessoal dava-se bem e ajudava-se muito, lembro-me daquele ceguinho chamado “Trimtimtim” que pedia cantando “oh trimtimtim um quinhento só” a minha mãe ajudava-o a sentar-se na cadeira da varanda e dava-lhe prato de sopa, para além do “quinhento” claro.
Lembro com saudade as festas populares que lá se faziam por altura do Santo António, montava-se um arraial com enfeites de papel colorido, balões e tudo, no areal em frente à casa do Edgar Teixeira. Cada um trazia bebida e comida, iamos á Mercearia do Sr. Oliveira, na Rua das Hortas, pedir alguns barris de vinho vazios, pregávamos uns aos outros, enchiamos de lenha, papel velho o que estivesse à mão e faziamos belas fogueiras, outra vez a estória da reciclagem que o amigo Xindere fez questão de enaltecer na sua crónica, era mesmo uma cidade muito avançada.
Passávamos a noite toda a cantar, dançar e a saltar à fogueira, claro que no dia seguinte alguns tinham o cabelo chamuscado, aliás estas festas espalharam-se pela cidade e até havia uma certa rivalidade entre os bairros.
Era ver quem fazia a maior fogueira, lembro-me que houve um ano que o bairro da Facada fez uma fogueira com mais ou menos 17 metros de altura, diziam eles, e à qual chamaram Apollo 11, juntaram pneus e barris e formaram um foguetão. Tornou-se um hábito as pessoas andarem a passear pela cidade e a ver qual era o melhor arraial, claro que para mim o da Sanzala dos Brancos era sempre o melhor.
De vez em quando organizavam-se jogos de futebol com outros bairros, eram jogados no areal junto ao RCM, lembro-me de um em que o guarda-redes era o Edgar Teixeira, aliás ele ou era guarda-redes ou treinador, e era contra os Heróis do Mucaba salvo o erro, também jogavam os Grilos, o Lenucha, o Mário de Albufeira e um miúdo mais novo, da minha idade, e que era um crack, o Claúdio Dolbeth e Costa.
Bons tempos, não podiamos estar parados, quando não era futebol, eram corridas de carros de rolamentos, e aí eu também entrava pois tinha facilidade em arranjar rolamentos, o meu pai apesar de ser mecânico não mos podia arranjar, no Saco os comboios não tinham rolamentos, mas bastava ir à oficina do meu tio Abel e tinha logo ali os melhores rolamentos da praça, até eram melhores que os reciclados do Vadinho, pois eram os do carro do Novais. Arranjava duas duelas de barril para servirem de eixos, uma fixava na madeira que servia de assento, era o eixo traseiro e a outra levava um furo a meio e servia de eixo dianteiro. As duelas, devido à sua curvatura faziam de suspensão, era um espanto de carro, e lá iamos fazendo gincanas por entre pedras postas no meio da rua com intervalos entre elas, os mais velhos empuravam-nos, pois eramos mais leves, lembro-me que o meu “empurra” era o Claúdio, tinha cá uma velocidade, ganhávamos as corridas todas, pudera, eu era o mais leve!
Quem me dera que os nossos filhos, tivessem passado uma infância como a nossa, ou pelo menos parecida.
Que saudades eu tenho da SANZALA DOS BRANCOS.
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by Toninho da Sanzala dos Brancos (Sanzalangola)

 FOTOS DE MOÇÂMEDES
VIDEOS DE MOÇÂMEDES:
1. Centro cidade
2. Vivendas
3. Marginal e Praia
4. Torre do Tombo e Praias
5. Deserto do Namibe
6. Hortas até à Leba
7. Da Leba ao Lubango

14 junho 2011

Jovens raparigas de Moçâmedes (hoje Namibe), Angola, em 1950


Reconheço, entre outras, nesta interessante foto, em cima e da esq. para a dt: Lúcia Reis, Antonieta Botelho (Taneta), Lizete Ferreira, Isabel Valente, Júlia Jardim, ?, Irene Sena Evangelista, Fernanda Bráz de Sousa (Anselmo), ?, Fátima Cunha, Filomana Matos (Filó), Ercília Calheiros (Xila).

Embaixo, da esq. para a dt: Aurora Freitas (Lola), Celeste Matos, Maria Júlia Maló de Abreu (Pitula), Maria Amália Duarte de Almeida (Mamaia), Maria Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé) , Maria Amélia Braz de Sousa (Mélita), Ema Abano e Helena Osorio (Lena). Todas estas jovens frequentavam na altura o Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes e em grande número encontravam-se inscritas na JECF (Juventude Estudantil Católica Feminina), como aliás se pode ver pela braçadeira que ostentam no braço esquerdo. Mais uma foto que, como tantas outras neste blog disponibilizadas, poderá vir a  enriquecer os álbuns de famílias que alí nasceram, ali viveram e que em 1975 se dispersaram por Portugal e pelo mundo, muitas das quais sem ao menos  terem  levado consigo as suas recordações.


Maria Amalia disse...Adorei esta surpresa tão agradavel! Reconheço-as todas exepto a que esta atras da Julia Jardim! Ja agora e se me permite a liberdade vou legendar como ainda me recordo...
Na fila de tras e da esquerda para a direita estao:
Lucia Reis,Antonieta Botelho (Tanete), Lisete Ferreira , Julia Jardim, ? esta é que não consigo mesmo recordar, depois Fatima Santos, Fernanda Bras de Sousa (Anselmo) , Irene Sena Evangelista, Fatima Cunha, Filomena Matos (Filo), Ercilia Calheiros (Xila), em baixo e tambem da esquerda para a direita Aurora Freitas (Lola e que veio a casar com o meu irmao Armando), Maria Julia Maló de Abreu (Pitula), Maria Antonieta Almeida Bagarrao (Dedé), Euzinha (Mamaia), Mª Amelia Bras de Sousa (Mélita), Ema Abano e Helena Osorio (Lena).
Se ainda não se apercebeu eu sou a Maria Amalia Duarte d'Almeida (Mamaia)e agora Braz, pois estou ainda e felizmente casada com o Antonio.
E porque ja fui longa demais por aqui me fico com um grande abraço para si que teve a sensibilidade de nos proporcionar tao boa surpresa! E ja agora um beijinho para todas as minhas amigas que figuram na foto e que tenham como eu a felicidade de a rever! Bem haja!
17 de Julho de 2011 19:32

12 junho 2011

Grupo de moçamedenses nos finais da década de 1940

Grupo de moçamedenseso da JEC- Juventude Estudantil Católica, nos finais dos anos 1940, junto ao edifício do primitivo Colégio das Irmãs Doroteias, que ficava ao fundo da Avenida da Praia do Bonfim (ex-Avenida da República), em Moçâmedes (Namibe), Angola . Reconheço, entre outras: Lizete Ferreira, Carolina Mangericão, ?, Lúcia Brazão, ? e Noémia Van der Kellen (Becas).

27 maio 2011

Juventude moçamedense no início dos anos 1971. Moçâmedes, Namibe, Angola

Vera Freitas, Paula e Anabela, Ondina Sancadas de Sousa e Marília Faustino, no salão nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Moçâmedes, quando da recepção oferecida a Riquita Bauleth, no regresso  à sua terra, após ter vencido, na Metrópole, o título de  "Miss" Portugal 1971. Foto da Ondina.

23 maio 2011

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mucuio


João Thomás da Fonseca, o fundador do Mocuio, junta da esposa, 
Celeste e da filha Celeste, por volta de 1914


João Thomás da Fonseca, o proprietário da pescaria do Mucuio, ao centro, rodeado de amigos (1920), entre eles, Manuel Vaz Pereira (de branco)
João Thomás da Fonseca chegou ao Mocuio em finais do século XIX, e ali, naquela pequena praia deserta perdida nas escarpas do deserto montou a sua pescaria, que foi evoluindo ao longo do tempo, e mandou construir o seu bonito chalet onde nada faltava, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água, um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra e Gabão,  levando dalí ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.

O Mocuio não possuía água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões. Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos áureos possuía salinas, fábrica de farinha de peixe e conservas, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuía também mais de 20 embarcações pequenas.


 


Na continuidade do Mocuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os portugueses foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, alí  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI.
A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos


Entre outros, João Thomás da Fonseca II (filho) e o gerente da pescaria, Faria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.
Trata-se das instalações da pescaria do Mocuio. Em 1º plano tarimbas ou giráus para peixe seco.


 
Foto tirada por volta de 1914, onde se pode ver João Thomás da Fonseca, o patriarca desta família, rodeado de amigos e de algumas personalidades da Marinha portuguesa quando daziam uma paragem para descanso, no decurso de uma visita ao Mucuio. Não sei se terá alguma relação, mas foi em Moçâmedes que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte dos efectivos militares portugueses cujo objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Repare-se que as senhoras  estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira devidamente rotulados. Naquele tempo e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas nesses caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietário dos escassos transportes automóveis existentes em Moçâmedes, nas suas deslocações, tinham que levar consigo alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito esgotava. Aliás, as bombas existentes nas principais cidades de Angola e em certas povoações do mato, com um pouco de sorte, eram nesse tempo bombas manuais que eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que transportavam um tambor de 200 litros de gasolina, e tinham uma "torre" de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ... África eram assim!


Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.

Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos antigas publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).

19 maio 2011

Grupo de alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, em Moçâmedes, Namibe, Angola


Eis o edifício da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de planta rectangular, com três pisos e cerca de 135 metros de comprimento. Coberturas de telha sobre estrutura de madeira. Seguindo o modelo comum nas escolas projectadas pelo Gabinete de Urbanização Colonial neste período, procurou-se dar à entrada central um certo toque de monumentalidade com a execução de um grande pórtico, ao centro e erguendo-se à altura do segundo piso, sobre o qual existe uma varanda de grandes dimensões. A existência deste pórtico, que se desenvolve através de uma colunata de quatro colunas em pedra, permite acentuar o carácter de simetria do edifício. Ao contrário do comum nas construções escolares projectadas pelo Gabinete de Urbanização do Ultramar, não existem galerias exteriores a todo o comprimento do edifício, tendo sido estas substituídas por elementos em betão que as simulam. Ao nível da cobertura possui uma platibanda de betão que acompanha a totalidade do comprimento da fachada.

O edifício não foi executado para o terreno inicialmente previsto, cuja parcela acabou  reduzida para dar lugar a lotes habitacionais, tendo o remanescente sido ocupado pelo Liceu Almirante Américo Tomás. Construído cerca de 500 metros a Oeste do referido terreno, o edifício surge amputado do segundo corpo inicialmente previsto, que deveria acolher a biblioteca, o ginásio e as oficinas, bem como o corpo dos ginásios e auditório, comuns na tipologia de escolas projectadas pelos arquitectos do Gabinete de Urbanização do Ultramar.

1956 - data do projecto da autoria dos arquitectos Fernando Schiappa de Campos, Lucínio Cruz e Luiz Possolo, técnicos do Gabinete de Urbanização do Ultramar).











Na década de 1960,  princípios da década de 1970, grupo de docentes e de alunos da Escola Industrial e Comercial Infante S. Henrique, de Moçâmedes nas  escadarias do edifício daquela Escola. Seguem várias fotos de alunos que a frequentaram neste período.

























 





Um pouco da História do ensino secundário em Moçâmedes
 



Naquele tempo havia a ideia retrógada de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinar-se-iam aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole,  uma vez que a Universidade de Luanda só veio a ser criada em 1969,  ideia que não apenas veio prejudicar os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas familias, e  em muitos casos com os maiores sacrifícios.


Recuando no tempo, abordaremos a seguir um pouco daquilo que foi a evolução histórica do "Ensino Secundário" em Moçâmedes:

- Foi em 1918 que surgiu pela primeira vez uma fugaz tentativa de criação de uma escola para o Ensino Secundário em Moçâmedes, a "Escola Marítima de Moçâmedes", prevendo-se para a mesma um curso preparatório com a duração de dois anos, um  ensino primário complementar, o que só podia conceber-se se soubessem já ler e escrever correntemente e efectuar as operações aritméticas.  Estava previsto que, além da parte literária propriamente dita, aprendessem outras coisas, como ginástica educativa, exercícios paramilitares, natação, remo, trabalhos de velame, cordoaria e calafate. Deveriam estudar também os acidentes geográficos litorais de Angola, sobretudo os da costa do distrito de Moçâmedes, a influência e orientação predominante dos ventos, correntes, etc.. Eram ainda ministradas aos alunos noções relacionadas com a História da Colonização do Sul de Angola. O curso especial, que durava também dois anos, consistia no estudo de Aritmética e Geometria, Físico-Química, Ciências Histórico-Naturais, Legislação, Contabilidade, Escrituração Comercial, Desenho, Indústrias Marítimas, Construções Navais, etc.. A parte prática do curso obrigava a aprender a fazer sondagens, medir a força das correntes, treino na caça à baleia, fabricação de óleos, guanos e colas, curtume de peles. etc. Contudo esta ideia não chegou a ser levada à prática.

No ano seguinte, em 1919, Filomeno da Câmara ousou criar, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes. Era um novo tipo
de Escola que seria regulamentada, três anos depois, por Norton de Matos. De facto a "Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes" foi posta a funcionar em 1925. Não obstante, houve ainda uma tentativa de se se criar em Moçâmedes essa outra Escola agora com a designação de Escola Industrial Marítima de Moçâmedes.  

A Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes embora ostentasse a designação depreciativa de Escola Primária Superior, possuia um currículo de cariz literário que a demarcava de um ensino meramente profissional e primário, e a colocava a par de um ensino secundário. Em 1927, esta Escola, que de início era administrada pela Câmara Municipal, passou a sê-lo pelo Estado, e a partir de 1930, passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, mantendo embora não o currículo distinto do liceal, apesar dos  sonhos, que já nesta altura, acalentavam professores, educandos e população, da sua elevação a categoria superior na escala da classificação. Contudo em 1936, a Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes foi extinta para dar  lugar à Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, de cariz tecnico-profissional, que não dava a equivalência ao Curso Geral dos Liceus, e que em 1952 foi extinta para dar lugar à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes que continuou a funcionar nas mesmas instalações, no cimo da Rua das Hortas. E assim se manteve o ensino secundário  até 1961, submetido às directrizes de Lisboa. Existia em Moçâmedes apenas uma Escola de nível geral  secundário, até ao 5º ano. Em 1960,  por evolução natural,  essa é substituida pela actual Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, que passou a funcionar em novas e modernas instalações apropriadas para o efeito. O Infante de Sagres, o Navegador, um apaixonado pelas ciências náuticas, foi o seu Patrono.   

Moçâmedes  não tinha um Liceu  onde os alunos pudessem no máximo avançar até ao 5º ano. Mas o ensino daquela escola era um ensino rigoroso e exigente, um diploma do 5º ano, por exemplo, era uma garantia para um emprego.

Quanto ao Liceu de  Moçâmedes, este só viria a ser fundado, com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961, nesse ano fatídico, como atrás referi em que em Angola tudo começou a mudar, com os movimentos independentistas a começarem a movimentar-se como foram o assalto do MPLA às cadeias de Luanda e  os massacres da UPA levados a cabo contra populações trabalhadoras e indefesas, europeus e africanos, nas fazendas do norte de Angola.

Lembro-me perfeitamente do dia em que o Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar, de visita a Moçâmedes, no decurso de uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!.. veio à varanda do Palácio dizer simplesmente à multidão: o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». Conclusão óbvia: quando a manifestação foi preparada, a decisão já estava tomada, mas ainda bem, finalmente tínhamos alcançado o direito ao nosso Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais.

Apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses, muito poucos, conseguiram ingressar no ensino superior, ou seja, uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Estes tiveram que se matricular no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, onde podia prosseguir até ao 7º ano liceal. Em Moçâmedes as raparigas que frequentavam o Colégio das Irmãs Doroteias podia completar ali o equivalente ao 5º ano  liceal, mas após ai chegadas tinham que se deslocar para o Diogo Cão na cidade planáltica a expensas da familia, se quisessem prosseguir até ao 7º ano e posterior entrada numa Universidade Metropolitana.
 Um ou dois fizeram exposições a Salazar e lá conseguiam a bolsa de estudo, outros tiraram os seus cursos a expensas das respectivas famílias, com grandes sacrifícios financeiros, outros tiraram os seus cursos numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhe dificultava a caminhada, obrigando-os a autênticos malabarismos.

Foram grandes as barreiras e inúmeras as dificuldades, é certo, mas os «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de gente vivaz, inteligentes e capaz,  que por via dos seus cursos, gerais, médios ou superiores, atingiam cargos de prestígio, não só os que partiam em busca do ideal, e acabavam por ficar lá fora,  também os que regressavam e aqueles que nunca partiram, ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, ou entre os que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros filhos da terra  ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários.


A partir da década de 60,  e a par de uma situação de guerra de guerrilha contra os movimentos independentista, depressa reduzida a zonas frontreiriças do norte e do leste de Angola,  houve uma verdadeira  explosão do ensino, e Angola ficou "semeada" de escolas comerciais e industriais onde se leccionavam cursos técnicos médios (contabilistas, electricistas, serralheiros, carpinteiros, construção civil etc). Repare-se, preferencialmente cursos de cariz tecnológico, o que explica que durante muito tempo ainda os estudos universitérios em Angola não passavam de uma miragem.  Dizia-se que no Terreiro do Paço não "queria doutores angolanos", o que até tinha certa lógica, pois que as massas cultivadas sempre estavam ligadas à ideia de independência, o que era mais do que inevitável. E a verdade é que os poucos estudantes que iam de Angola para Universidades metropolitanas, brancos, negros e mestiços, passaram a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, que se revelou um alfobre de contestatários contra o regime de Salazar e defensores da independência das colónias.

Tudo isto explica porque eram os cursos médios, modernos , os preferidos, que aliás foram de grande utilidade, e representaram uma mais valia para  a Angola independente , quando foi esvaziada de quadros. Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar foi o "pai"deste modelo de ensino, de inegável valor para o futuro da terra. Estrangeiros que visitavam Angola  ficavam espantados com o bom nível destas escolas aparelhadas com o que de melhor havia no mundo, todas elas instaladas em edifícios imponentes, eram motivo de orgulho de professores e alunos.







MariaNJardim

TEXTO :
Portaria n.º 17899
A Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes é a mais antiga da província de Angola entre as do grau de ensino a que respeita, pois resulta da conversão decretada em 1952 da anterior Escola de Pesca e Comércio.
Para a sua instalação definitiva foi construído edifício próprio, de aspecto condigno, e que pela sua situação domina a importante e laboriosa cidade a que pertence, bem como a vasta baía que lhe fica adjacente.
A inauguração da nova sede é um dos actos que na província hão-de constituir a comemoração do centenário da morte do infante D. Henrique, como participação da patriótica população de Angola em tão solene preito de justiça e reconhecimento de todo o País à memória gloriosa daquele excelso português.
Dado que as actividades características da cidade de Moçâmedes se associam aos trabalhos do mar ou em grande parte são deles resultantes, é do maior acerto que nele fique alguma coisa a recordar esta quadra comemorativa. Nada mais expressivo poderá haver, para esse efeito, do que invocar como patrono para a escola que ali prepara os trabalhadores mais graduados o nome do infante navegador.
Nesse sentido se manifestou o Governo-Geral da província.
Pelo que:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que à Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes seja dada a denominação de «Escola Infante D. Henrique».
Ministério do Ultramar, 13 de Agosto de 1960. - O Ministro do Ultramar, Vasco Lopes Alves.

Para ser publicada no Boletim Oficial de todas as províncias ultramarinas. - Vasco Lopes Alves.






1. Ver também aqui: https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.htmlhttps://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2010/09/gente-de-mocamedes-dr-julio-mac-mahon.html
2. E Aqui a anterior Escola comercial e Industrial na Rua das Hortas:  https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2009/03/escola-comercial-e-industrial-de.html