05 novembro 2011

O passeio domingueiro às "Hortas" em Moçâmedes (actual Namibe). A "Horta" do Torres. A romaria anual à Capela do Quipola.



 
Numa das ruas de Moçâmedes, algures nos anos 1920. Foto cedida a LaySilva, por Antunes da Cunha e publicada em Mazungue.


Começo por colocar as fotos mais antigas a que tive acesso sobre o  assunto em questão, na Moçâmedes daquele tempo (esta, de princípios do século XX. Trata-se, na maioria,  de um grupo crianças e jovens de origem europeia, cerimoniosamente vestidos, preparando-se para serem levadas, no interior de uma carroça tipo boer, para uma qualquer  festa, talvez mesmo até para um passeio às Hortas, ou em romaria à capela de Nossa Senhora do Quipola, como acontecia no dia 8 de Dezembro de cada ano.  Tirada por volta de 1910/20 (?). Quero lembrar que naquele tempo, até mesmo para as caçadas no deserto do Namibe, as pessoas de uma pequena burguesia que ali se desenvolveu, integrando alguns descendentes de luso-brasileiros fundadores, e não só, vestiam-se como mandava o figurino metropolitano a época. Homens de gravata, e senhoras vestidas de acordo com meio ambiente a frequentar... Há fotos que mostram isso mesmo. 

Nesta foto elementos da mesma família (Antunes da Cunha), numa das Hortas de Moçâmedes, que à época exibia um arvoredo luxuriante como se pode ver.  Os Antunes da Cunha eram uma família bem posicionada socialmente. Foto de Antunes da Cunha por via de Lay Silva (Sanzalangola).


 
Hortas de Moçâmedes



Segue na íntegra um texto interessante sobre esse Oásis, da obra "Distrito de Mossamedes", 1892, Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913:  
"...A 3 kilometros ao norte da villa de Mossâmedes encontra-se a povoação das Hortas, delicioso oásis, que pela abundância e frescura da sua viçosa arborisação, cuidadosamente cultivada em alamedas de refrigerantes som-bras e parques de odoríferas flores e saborosos fructos, forma um ameno sitio de villegiatura com bellos chales e óptimas casas de campo, banhadas pelas frescas brisas do  mar e onde se abriga a elite da sociedade de Mossamedes durante a estação calmosa.

Esta povoação com vastos terrenos agricultados assenta sobre o valle do rio Bero, cujo fértil solo se acha occupado por 40 propriedades agrícolas que abastecem Mossamedes de fructos, legumes e hortaliças. Os terrenos doeste valle occupam extensas várzeas cultivadas sendo as principaes: as Hortas, Cavalleiros, S. António, Boa Esperança, Boa Vista, e Bemfica, por entre as quaes passam boas estradas carreteiras. As principaes culturas são: cana saecharina, que fornece boa aguardente, o cará, que constitue a principal alimentação dos serviçaes, o algodão, muitas variedades de legumes, hortaliças e cereaes e grande numero de arvores fructiferas da Europa, como: larangeiras, limoeiros, figueiras, macieiras, pereiras, alfarrobeiras, cidreiras, oliveiras, videiras, etc.

A sua producção annual em aguardente é de 500 pipas. A distancia de 8 kilometros do rio Bero, caminhando para o norte, encontra-se o valle do rio Giraul, cavado em terreno accidentado por montanhas de grés e gneiss e profundas ravinas escalvadas. Nelle estão estabelecidas 6 propriedades agricolas que produzem : algodão, cana, cará, hortaliças, cereaes e fructas. Estas propriedades luctam com grandes difficuldades por falta d'agua para a irrigação das culturas, sendo necessário nos annos seccos extrahil-a de poços por meio de
bombas centrífugas e estanca-rios movidos a vapor á pro-fundidade de 20 e 31 metros. Produzem annualmente 410 pipas de aguardente." 

Fim de transcrição.

Continuemos...


A "ida às Hortas" começou na Europa como um hábito burguês cultivado nos finais do século XIX, que tinha por fim aliviar a pressão exercida nas pessoas pelo ambiente contaminado das cidades, devido ao fumo das fábricas por força do avanço da industrialização. 

Este hábito com o decorrer do tempo foi-se democratizando, e como tantos outros, penetrou em Portugal e foi levado para África, neste caso para Moçâmedes, em Angola, através dos colonos que idos da Metrópole, iam chegando, e popularizou-se.

Imaginemos as primeiras famílias que o cultivaram em Moçâmedes, deslocando-se em carroças de estilo boer, puxadas por manadas de bois,  munidas dos seus "comes-e-bebes" destinados aos piqueniques...
Não sou deste tempo, mas recordo que almoços e piqueniques, tal como as romarias ao Quipola, ainda aconteciam em meados da década de 1950. Era aos domingos, preferencialmente no verão, pois nesse tempo o dia de sábado era dia de trabalho, pelo menos da parte da manhã. 


 
Jovens moçamedenses banhando-se no tanque da "Horta" do Torres. Foto Salvador
A Horta do Torres era a minha preferida.  Nesta foto podemos ver elementos da juventude moçamedense da época banhando-se no tanque da Horta do Torres, que era para os mais jovens um grande atractivo. Destinado ao represamento de água doce para rega das plantações, que era efectuada através de um sistema de valas, etc, este tanque, com a sua forma rectangular, situado ao ar livre, convidava a malta feliz e contente a umas banhocas e a uns mergulhos, qual piscina olímpica de tratasse.  Os jovens que aqui se banham, refrescam e divertem-se, no início dos anos 1950, são: de frente para trás: Mavilde, Fernando Andrade Vieira (com a bola), Dudu Carvalho, Costinha, Calila, ?, Mário Bagarrão, Maria Augusta Esteves, Carvalho (Caparula), Orlando Salvador (junto do muro),?,?, Na parte exterior do tanque, de frente para trás: ???, Celeste Barbosa, Fernanda Pólvora Dias, Carolina Mangericão, ?, ?, e Luzete Sousa.

Sem sombra para dúvidas, tal como as romarias ao Quipola, os passeios às Hortas proporcionavam momentos de lazer inesquecíveis que ficaram para sempre gravados nas memórias das gentes que por lá passaram. Na ida às "Hortas" passeava-se, dançava-se, conversava-se, namorava-se, cantava-se, tocavam-se vários instrumentos: guitarra, bandolim, acordeão, etc. (se houvesse no grupo alguém vocacionado para tal), jogava-se às cartas, descansava-se e até se dormia a sesta (os homens mais velhos...), e tudo isso à sombra de frondosas àrvores carregadas de saborosas mangas, goiabeiras, oliveiras,  e junto a latadas de videiras carregadas de uvas que o solo do Namibe era pródigo em oferecer.

Pormenorizando, diremos que a hora da refeição representava um momento essencial que reunia toda a família e amigos em volta da longa mesa onde eram estendidas várias toalhas e onde cada família colocava o seu «farnel», cada um melhor que o outro, onde nada faltava: croquetes, rissóis, panados, pastéis de massa tenra, frangos corados, sandwiches, bolos, pudins, refrigerantes da fábrica do Pereira Simões (gasosas), e outros como as deliciosas carbo-cidrais,  as coca-pinhas muito angolanas, e ainda cervejas, vinhos, etc. E um nunca mais acabar de pequenas gulodices que faziam as delícias  de miúdos e graúdos.  

Muitas vezes as refeições eram  confeccionadas já após a chegada às "Hortas". As famílias levavam de casa  para além dos ingredientes,  um pequeno fogão alimentado a petróleo ,  e era ali mesmo, a um cantinho, que se cozinhava algo delicioso que podia bem ser uma caldeirada de peixe acabado de pesca, ou de cabrito encomendado de véspera num dos talhos da cidade, fornecidos por criadores do distrito.  O momento da refeição era todo ele um momento de alegre confraternização, e no final da mesma enquanto as nossas mães  cuidavam da louça e da arrumação dos cestos, nossos pais jogavam às cartas uns, outros descansavam, os jovens divertiam-se conversando, namorando, e as crianças  corriam, saltavam, trepavam às àrvores, colhiam frutos com os quais se deliciavam, investigavam cantos recantos, davam os restos da comida aos animais do pequeno zoo, e desfrutavam a valer daqueles momentos de verdadeira «rédea solta».

Abro aqui um parêntesis para fazer um elogio às mães de família da minha terra, daquele tempo. Eram senhoras muito prendadas, que sabiam fazer de tudo um pouco, com organização e método, e faziam o dinheiro esticar como boas gestoras que eram do orçamento familiar. Estou a falar desse tempo em que as nossas mães eram donas de casa, inteiramente dedicadas com esmero à família e ao lar.



Uvas de Moçâmedes. Foto da Agência Geral do Ultramar

Não deixarei de lembrar  o quanto na região de Moçâmedes  poderia ter sido altamente rentável a cultura da vinha e da oliveira, não fosse o proteccionismo exasperado que  a Metrópole fazia em relação ao Ultramar, impedido a sua exploração. É que da Metrópole vinha o vinho e o azeite para as colónias, cujo consumo representava uma boa renda em relação à qual os interessados não estavam dispostos a abdicar. 


 

Oliveiras das Hortas


Era de facto deslumbrante a diversidade de árvores de fruto existentes no Distrito, desde mangueiras,  goiabeiras, macieiras, bananeiras, laranjeiras, tangerineiras, figueiras, oliveiras, tamarineiros, mamoeiros,  etc. etc, que lançavam para o ar o seu agradável e característico odôr.




"O distrito de Moçâmedes possuia uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraul: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especiamente na margem esq, que se cultivaram as melhores àrvores de fruto de todo o sul do distrito. Na margem esquerda eram os mamoeiros, os diospirios, as bananeiras ,as nespera-cereja-dendém, o palmeira de óleo palma., et., etc. A razão é que na margem esq., dada a inclinação do terreno e à presença de uma lage cerca 5 km , há curso de àgua permanente e à dt. apenas por infiltração. Na margem esq., o 1º colono aí se instalou foi o bacharel em medicina J. Duarte de Almeida tendo bastado construir uma vala para apoveitamento água do rio ao longo do qual instalou comportas que forneciam água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçãmedes, proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia tendo que a aguardar de novo por infiltração que as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem dt. necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esq. os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes e os da dt. a plumagem era negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto diferente, côr e tamanho. Havia no distrito 8 exemplares de alfarrobeira cidade a dar fruto e decorar rua cidade entre Administração do Concelho Civil do Concelho e a Escola Portugal e também pitangueiras e tamareiras a embelezar as propriedades e os jardins. Também nas ruas, havia a jubea trazida pelos colonos de Pernambuco, a gravílea ,a acácia, o jacarandá, a ravenela ou árvore dos viajantes, a buganvília as euforbiáceas, os hibiscus e tantas outras. Havia a paleira de leque «Ravenala» (urânia-soberba), que crescem margens Cunene, Cuando e Bero, descoberta em Madagáscar no século xvi e trazida para os jardins de várias cidades mundo…" Fim de citação.

Seguem algumas fotos disponibilizadas pelos nossos conterrâneos...
Uma família num desses passeios às "Hortas" de Moçâmedes.





Piquenique típico que juntou alguns elementos das famílias Mascarenhas, Ferreira e Almeida. À entrada da Horta existia uma grande mesa que ficava a meio de uma rua ladeada por arvores de fruto. Cedida por Margarida Mascarenhas. 

Foto do meu álbum

1951. Euzinha, quando tinha 11 anos e a minha tia Lídia Rosa de Sousa Alcario, posando para a posteridade na Horta do Torres. A tia Lídia  que vivia em Porto Alexandre onde o marido, poeta alentejano de Moura, Rodrigo Baião Alcario, era chefe da Guarda Fiscal. Foto do meu álbum.


 

 Passeio à Horta do Torres em 1955. Euzinha de novo aqui já com  15 anos, à frente e à esq. Ao meu lado a minha avó Maria da Conceição, , a seguir Eduarda Vicente, Guilherme Jardim, e no lado dt. 
a tia Maria do Carmo (Carminha), e marido, António Gonçalves de Matos. A seguir o João Ilha (óculos escuros) Vicente, Edmundo Seixal, etc etc Foto do meu álbum. 




Outra foto tirada no mesmo dia na "Horta" do Torres em Moçâmedes. Foto do meu album.


Também no mesmo dia na "Horta" do Torres, em meados de 1950. Com o braço no ar Arnaldo Bagarrão, tendo a seu lado Arnaldo Nunes de Almeida, seguido de Alberto Miranda, de mim . À dt Claudete Bagarrão  e Elizabete Bagarrão e ao fundo Eduarda Vicente e Guilherme Jardim. Em cima da mesa o pormenor das espigardas (para caçar pássaros?). Foto do meu álbum.






No mesmo dia, na "Horta" do Torres: Em cima: O casal António Gonçalves de Matos (Sopapo) e Maria do Carmo Paulo Matos (Carminha), Maria da Purificação Vicente (Gigi), e  Manuela Seixal (Nélita). Embaixo: Alberto Miranda e Maria Lizete Ferreira. Foto do meu álbum.



Ainda no mesmo dia , junto do Chalet da "Horta" do Torres, de cima para baixo, ali estou de novo, seguida da Eduarda Vicente e as manas Claudete e Elizabete Bagarrão.  Foto do meu álbum.



Grupo de moçamedenses num passeio à Horta do Torres, em meados da década de 1950. Em cima, da esq para a dt: Etelvina Ferreira, Graciana Martins Nunes, Olimpia Aquino, Marizete Veiga e Lizete Ferreira. Embaixo: Raquel Nunes, Violete Velhinho e Fernando Miranda. Foto do album de Olimpia Aquino.


A "Horta do Torres" ficava na margem esquerda do rio Bero, antes da passagem da ponte sobre o mesmo rio. Eis como um registo jornalístico efectuado por ocasião da visita a Moçâmedes, em 1938, do Presidente Carmona, tão fielmente a descreve: 

«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» 


Boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162



Mas havia outras "Hortas" nas margens direita e esquerda do rio Bero, igualmente agradáveis de  visitar. Eram elas as "Hortas" do Venâncio Guimarães (Benfica e Boavista, esta no Quipola), a do Costa Santos (Macala), a do Vaz Pereira (um pouco antes do Quipola), a do Martins Pereira (na margem direita do rio), etc. Mais recente, a "Horta" de Prazeres Madeira, na margem esquerda do Rio Bero, que integrava um belo palacete conhecido por "Chalet da  Horta da Nação". O edifício apresenta-se  ainda em bom estado, com pintura em côr azul forte, como se pode ver.  Acredita-se que seja o  palacete  mencionado por Balsemão,  mandado construir pelo Dr Lapa e Faro, o 1º médico de Moçâmedes, que foi  contemporâneo  da fundação, ainda que não pertencesse ao grupo dos fundadores luso-brasileiros de Pernambuco. 

 Segundo Vitor Mendonça Torres, "...fazia parte da propriedade que vinha das salinas até às Hortas  do Torres (Benfica incluso) e foi vendida em lotes ao seu tio Gaspar Madeira e depois passou em herança para o irmão Prazeres,  e a de Benfica para o Venâncio Guimarães.

As "Hortas" situadas na margem esquerda do Bero tinham a vantagem de facilitar os transportes, sobretudo em épocas de cheias, antes da construção da ponte, devido às enxurradas que por vezes aconteciam, vindas do planalto, que tornavam problemática a travessia do rio.  
Lá para finais dos anos 50 em diante, as "Hortas" passaram a ser um lugar de atração para grupos de jovens, rapazes e/ou raparigas, que para ali se deslocavam de bicicleta já sem a presença das famílias, à guisa de exercício físico ou até mesmo para fazerem pequenos piquenique.


Foto cedida por Fernanda Barata

Esta foto tirada na década de 1960 mostra-nos um grupo de estudantes divertindo-se  nas "Hortas". Entre eles, reconheço, à esq. Cidália Calão (1ª à esq.) e Miguel (Miguelito, o 4º à esq.. falecido ainda jovem), irmão de Fernanda Barata (Porto Alexandre/Moçâmedes).

Outras iam de bicicleta... Reconheço nesta foto, da esq. para a dt, de pé: Lalai Jardim, Nide e Claudete Figueiredo? Sentada reconheço Júlia Castro (a 3ª à dt). Tudo gente do Atlético Clube de Moçâmedes, basquetebolistas ou adeptas do clube.

Quanto aos meios de transporte utilizados, se de início as pessoas eram transportadas para as "Hortas" em carroças puxadas por bois, ou até mesmo em tipoias, lá para finais dos anos 1940, quando os veículos automóveis em Moçâmedes já eram uma realidade, mas ainda não abundavam, juntavam-se grupos de familiares e de amigos, quotizavam-se, e faziam-se transportar em carrinhas ou em camionetas de aluguer, de caixa aberta. Acontecia porém, que o trajecto para as Hortas era por vezes problemático. A estrada não era asfaltada, e muito pó se "comia" pelo caminho, sobretudo aqueles que viajavam na parte de trás das tais carrinhas e camionetas. Ver as 2 fotos a seguir.

 

Familias em camioneta alugada a caminho das Hortas...Foto cedida por amigos.   Eis uma "camioneta"!  Era assim que entre nós era conhecido este tipo de veículo automóvel, de caixa aberta, destinado a transporte de mercadorias,  que nestas ocasiões servia para transportar pessoas, uma vez que nesse tempo não eram muitas as famílias  que dispunham de transporte automóvel próprio. Nesta foto encontra-se muita gente conhecida de Moçâmedes e de Sá da Bandeira. Estão aqui elementos das famílias Teixeira, Castro, Sousa, Ferreira e Jardim




Familias em camião alugado a caminho das Hortas... Foto Salvador

Outras vezes organizavam-se passeios à "Praia das Conchas", à "Praia Amélia", etc etc. Aqui as famílias Matias, Paulo, Marques, Salvador. Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos

.. 

 Várias famílias: Nascimento, Custódio, Gastão, Passos Marques, Salvador,  num passeio à Hortas em finais de 1950. Foto Salvador.

 

Famílias Almeida, Mascarenhas, Carequeja, Teixeira...,   num passeio à Hortas em finais de 1950.

Mas pessoas havia que optavam pelos piqueniques tradicionais feitos no chão, onde estendiam uma toalha, sobre a qual depositavam os comes e bebes, as guloseimas, etc, e à roda da qual  ficavam sentadas, e ali se mantinham, conversando e divertindo-se, com pausas para pequenos passeios e caminhadas, e assim perfaziam o tempo até que chegasse a hora de regressar a casa.  Foto Salvador.

 



  Esta foto mostra-nos a entrada da "Horta" do Torres.  Vista do interior, podemos os visitantes procuram interagir sim as gazelas e com  um guelengue que por ali andavam.  À esquerda podemos ver parte do chalé do proprietário (foto Salvador). Esta Horta possuía um pequeno zoo com alguns animais capturados no Deserto do Namibe (gazelas, olongos, bambis, guelengues, impalas, etc.) para além de macacos, viveiros com passarinhos, etc. E creio que cheguei a ver por ali, algures nos anos 1940, um velho leão enjaulado...




Horta do Torres vista de fora

A "Horta" do Torres é aquela em relação à qual possuo memórias mais vivificadas. A entrada para a Horta  fazia-se através de um grande portão de ferro, datado do século XIX, que ficava aberto durante todo dia. Deste portão tive recentemente notícia que o mesmo se encontra desaparecido. Passando o portão, o visitante tinha à sua frente uma extensa rua a percorrer ladeada por frondosas árvores que proporcionavam uma sombra refrescante,  a meio da qual ficava uma longa mesa servida de  bancos corridos, preparada para almoços e piqueniques , que comportava  um elevado número de pessoas.  
 


Eis a parte central do bonito Chalet da "Horta" do Torres que não foi convenientemente protegido nos tempos que se seguiram à independência de Angola, em 1975, e que acabou por cair naturalmente após umas fortes chuvadas,.. Uma pena, pois seria uma mais valia para Moçâmedes e a sua História.

O belo casarão de estilo colonial, de inspiração romântica/arte noveau, que pertenceu à familia  Mendonça Torres (foto retirada da Separata Nr.6 da Revista Africana, Universidade Portugalense, Porto, 1990, intitulada " Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola" ,  do autor Cecílio Moreira).  

Por estas escadarias subiu o Principe Real quando em 1907 visitou Moçâmedes, nesse ano da subida de vila a cidade em cerimoniais que tiveram a sua presença. o Principe  deslocou-se às"Hortas", à casa de campo da familia "Torres",  subiu os degraus da varanda senhorial  que dava acesso à vasta sala de jantar da bela mansão, apreciou o chão de azulejaria à belle-époque, o tecto de pinho da Metrópole, as paredes cobertas de frescos com cenas campestres algo barrocas. Ali almoçou em meio àquele  cenário idílico, ponto de encontro de piqueniques e almoçaradas, dotado de um espaçoso pátio com seus coretos, longas alamedas, numa palavra frescos oásis  onde as oliveiras com viviam com as bananeiras, as  palmeiras, as mangueiras, etc, e onde se cultivava a mandioca, a papaia, o melão, cultivos de várias espécies para consumo da cidade.


A ida às"Hortas" constituiu-se, pois, num verdadeiro culto  que perdurou forte, entre nós, pelo menos até finais dos anos 1950, pelo menos durante todo um tempo em que em Moçâmedes "todos nos conhecíamos, e todos éramos primos e primas...".

O culto do "Passeio às Hortas" surgiu na Europa em finais do século XIX, inícios do século XX, na chamada "Belle Époque", numa altura em que no seio do povo que vivia nas grandes cidades havia emergido uma nova classe, a burguesia, fruto da industrialização, essa mesma classe que dispondo de melhores condições, sentiu necessidade de respirar ares do campo, face à poluição do ar produzida pelos fumos das fábricas. Por mecanismos de imitação social, com o rodar do tempo este uso e costume proletarizou-se, vulgarizou-se, estendendo-se a todas as classes sociais.
Moçâmedes foi fundada em 1849, e presume-se que este culto tenha sido muito forte desde a fundação, e começou a declinar com o surgimento de novas formas de lazer e de  entretenimento que foram penetrando no nosso pequeno burgo, com as inovações surgidas em todo o mundo ocidental no pós II Grande Guerra (1939-45), que vieram  alterar  usos e costumes antigos, como este, que em breve não passariam de gratas recordações em velhos albúns e retratos de família. A partir dos anos 60, tudo em Angola mudou vertiginosamente, com a chegada em massa de muitos metropolitanos.

Também contribuiu para esse recuo a afirmação do modelo de família nuclear,mais restrita, mais autónoma e individualista, que desenvolveu um modo de ser e de estar que nada tinha a ver com a família extensa dos tempos, constituída por um grande número de filhos, onde coexistiam 3 gerações, chegando a juntar-se à volta de uma  mesma mesa, em amena confraternização, avós, pais, filhos, netos, bisnetos,  até tios, primos, sobrinhos, e mesmo compadres e amigos...  


Quanto às novas formas de lazer que tiveram lugar, estou a lembrar-me dessa famosa década de 1950 em que num repente a pacata cidade de Moçâmedes (que desde há uns anos tinha passado a dispôr do seu Rádio Clube e do seu Cine Teatro), passou a contar com um grande número de pessoas,  homens e mulheres, jovens e adultos,  intensamente envolvidos em eventos sociais de toda a ordem: programas radiofónicos de variedades organizados pelo mesmo RCM,  "Programas da Simpatia" (o grande sucesso de Carlos Moutinho), momentos de prazer que cativaram gente de todas as idades.  Até os passeios na Avenida, que não se sabe desde quando, mas que até bem dentro dos anos 1950 se encontrava transformada numa espécie de "picadeiro",  o nosso "passeio público", sobretudo após as sessões da tarde (matinées) no Cine Moçâmedes, não resistiu à viragem do tempo num mundo em mudança. Como eram doces esses tempos em que altifalantes pendurados em frondosas árvores na Avenida da República, transmitiam para quem quisesse ouvir (e curiosos não faltavam), música a pedido, entrevistas ocasionais que eram feitas às pessoas,  e se realizavam concursos infantis, etc, etc., tendo como epicentro o velho Coreto, onde de quando em quando bandas de música iam tocar...

A década de 1950, a primeira grande década da mudança, foi também aquela em que se assistiu à organização de inúmeros  bailes e matinées dançantes, realizados aos fins de semana quer no salão de festas do Atlético Clube de Moçâmedes, quer no Clube Náutico "Casino".   Para trás tinham ficado os salões do Ginásio da Torre do Tombo e do Aero Clube de Moçâmedes, bastante concorridos nos anos 1940.   

Também no campo desportivo esta década foi aquela em que se assistiu a uma autêntica  explosão de novas modalidades, com especial ênfase para o hóquei em patins e para o basquetebol feminino, com toda a juventude a participar, e gente de todas as idades e de ambos os sexos a acorrer aos campos de jogos para aplaudir os clubes e os atletas da sua preferência.  Para além destas, outras modalidades se incrementaram, tais como a vela (Sharps e Snypes), a pesca desportiva, a caça submarina, os circuitos automóveis, etc, etc.

A partir dos anos 1960, foi a vez da inauguração das animadas e deveras atractivas "Festas do Mar".  Dir-se-ia que o Verão de Moçâmedes em menos de uma década tornara-se curto para comportar tanta opção ao alcançe de uma pequena população,  como era a daquele tempo.

E foi assim que o passeio domingueiro às Hortas foi ficando para trás... E as romarias ao Quipola foram perdendo o brilho.

Não posso terminar este texto sem deixar aqui um registo muito especial aos proprietários das "Hortas do Torres" que as disponibilizavam de tal modo que tinham sempre as suas portas totalmente abertas aos visitantes, e a tal ponto que nem havia necessidade de se pedir autorização para lá entrar. E mais, no regresso a casa, geralmente levávamos connosco sacos cheios de fruta que nos era oferecida, e enquanto ali, retirávamos quanta fruta quiséssemos das árvores para comer, sem quaisquer problemas.

Não me lembro de ter saboreado tão deliciosas mangas como as pequeninas (manguitos) das Hortas de Moçâmedes!

Sobre as romarias à Capela de Nossa Senhora do Quipola, pode ver AQUI




Ficam mais estas recordações.

(ass) MariaNJardim



(1) Em Angola como sabemos chove no Verão. Em Moçâmedes, não obstante a baixa pluviosidade (não chovia  durante os 8 meses do ano),  de quando em quando aconteciam grandes enxurradas,  que aconteciam normalmente em Fevereiro ou Março, e prejudicavam o trajecto entre a cidade e as zonas para além rio, nesse tempo em que o leito do rio Bero não estava regulado como viera a acontecer mais tarde, nem havia ainda a ponte sobre o Bero. Quando tal acontecia, os abastecimentos diários de legumes e frutas às «quitandas» da cidade eram transportados, atravessando o rio em carroças puxadas por bois, cujas rodas facilmente enterravam na lama. Também enterravam na lama os pneus dos veículos automóveis que se atreviam à travessia.  Alturas havia em que os próprios comboios que vinham de Sá da Bandeira tinham que ficar no Saco do Giraúl, e as pessoas e mercadorias tinham que ser transportadas através de barcaças ou batelões para a cidade.  Salvava a situação, a escassez de chuvas e o facto do rio só possuir água noVerão, quando chovia.Era o atraso em que, intencionalmente, por esta altura, ainda se encontrava Angola!

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Ainda que se trate de épocas diferentes, vale a pena ler o que sobre vegetais nas Várzeas do Bero, escrevia em 1858 (9 anos após a fundação de Mossâmedes, João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião em Mossâmedes:

"...Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira.  limonum L.—Limoeiro.  medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies têem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)

"...A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui  um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um  solo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.
Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.

"....Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas. A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc. É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade. Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas. Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos. Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão, Annais do Conc Ultramarino, Parte não Oficial, série 1 Set.1858


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Aqui vai o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) que existia em muitas casas de Moçâmedes e nesta também, junto à varanda, para apanhar o fresco da noite.  Encontrei nas páginas de um das separatas do autor Cecílio Moreira, separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola.  A velha "sanga", que ,como dizia Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável... Eram construidas por artistas canteiros de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra de forma de cubo ou de paralelipípedo, que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo Belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.

 MariaNJardim





O Blog "GENTE DO MEU TEMPO" destina-se unicamente a todos aqueles que até 1975 nasceram ou viveram em Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, sendo deles todas estas fotos e recordações, pelo que nada daqui deve ser retirado, por terceiros, a quem o assunto não diga respeito,  sem prévia autorização, sob pela de estar em falta quem assim proceder.






03 novembro 2011

Juventude estudantil de Moçâmedes (Namibe, Angola) em sarau comemorativo do 10 de Junho, o "Dia de Camões e da Raça", em Moçâmedes. Anos 1970,


Entre outras: Adelaide Rosa Quelhas, Manuela Abrantes, Ermelinda Duarte, Clementina, Eduarda Figueiredo, Maria Viegas, Clotilde Jardim, Júlia Silva, Eduarda Seixal, Alexandrina Freitas, Gina Veiga, Elizabeth Jardim Cruz e Nita Castro Abreu. Foto de Isabel Barra. Trata-se de um sarau comemorativo de 10 de Junho, organizado pele Escola  Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes no "Dia de Camões e da Raça". Anos 1970. As jovens estudantes recitavam em coro o poema de Camões " Alma minha gentil que te partiste..."

O dia 10 de Junho " Dia de Camões e da Raça", data do falecimento de Luís Vaz de Camões, era feriado em todo o Portugal, continental e ultramarino. Estas comemorações nasceram com a implantação da Républica, em 1910, ao mesmo tempo que são eliminados  alguns feriados principalmente religiosos. Assim se glorificava o grande poeta Luis Vaz de Camões que para os portugueses representava a geniosidade da cultura portuguesa e se relembrava os feitos passados dos portugueses .

O 10 de Junho começou por ser feriado municipal, porém  com o "Estado Novo", criado por Oliveira Salazar, em 1933, foi elevado a feriado nacional e passou a ter um caracter de propaganda nacionalista explorado pelo regime. 

Quanto ao conceito de "Raça" este não dever ser tido como um conceito racista. É a "Raça" do povo português entendida entendida de uma forma geral, global”. O que está em causa é a “originalidade” e “a capacidade dos portugueses”, explica Conceição Meireles. “O Estado Novo sempre quis sublinhar a originalidade do povo português face aos outros povos europeus. Por alguma razão este pequeno povo tinha uma História de séculos; era dos Estados mais antigos da Europa e tinha um Império colonial que quase nenhum outro país europeu possuía”. O conceito de raça no Estado Novo deve ser entendido no sentido em que significa “um povo diferente, aparentemente frágil, mas com valores que lhe permitiram grandes realizações”. No dia da Raça e de Camões “exaltava-se a nação e o império, a metrópole e as colónias”, diz.

O Estado Novo difundiu uma concepção de nacionalidade segundo a qual a Metrópole se encontrava intrinsecamente ligada aos seus territórios ultramarinos. A do Portugal entendido como nação pluricontinental, que se estende da Europa à Ásia, passando pela África a que correspondia uma paridade entre todos os portugueses independentemente do território onde habitavam. Na opinião de Conceição Meireles, a exaltação de determinados momentos da História de Portugal funcionou como uma espécie de sustentáculo e apoio ao regime, e era sobretudo uma forma de propaganda do mesmo.  “Esse passado que o Estado Novo queria fazer lembrar aos portugueses era um passado de grandeza, quase de heróis”. O Estado Novo procurou fazer “um apelo ao passado no sentido de legitimar o presente”.  O que interessava dar a entender externamente era que “esse património nacional era uno” e incluía “metrópole e colónias”, e, portanto, “Portugal tinha um direito inalienável e inquestionável à manutenção do seu império”, explica Meireles.

Mas, nos Lusíadas, Camões não canta apenas a ousadia e a coragem, também nos fala de vozes que faziam a exaltação e a condenação da conquista, que falavam de medo, quando  aponta o Velho do Restelo, fazendo ouvir a voz do passado inquieto face ao futuro. Os Portugueses iam abandonar a segurança da terra, a estabilidade, e lançar-se na aventura marítima, no risco do desconhecido. É esse momento que simboliza a despedida, o cortar das amarras. A grande inovação da epopeia camoniana está exactamente naquilo que foi ignorado, ou seja, nas reflexões sobre a História, na própria vida e missão do poeta que "questiona até mesmo os heróis que canta". Mas o pior  é a conclusão da obra. Enquanto toda a acção narrada se passava no plano real histórico, o prémio consiste num sonho, um sonho maravilhoso... mas um sonho! “O Dia da Raça foi aproveitado também para determinadas cerimónias oficiais de propaganda e actos de regime”, lembra.

A partir de 1961, o regime passou a utilizar esta data para homenagear as forças armadas portuguesas com desfiles e atribuições de medalhas, em manifestações nas principais cidades, na Metrópole, Ilhas e Ultramar. Com a Revolução do 25 de Abril 1974, o 10 de Junho passou a ser comemorado como "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas", tanto no território Nacional como  pelas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

29 outubro 2011

José Trindade e familia, o jornal «O Namibe», a poesia, a descolonização, etc...



 




Na foto: José Trindade, a esposa e os 3 filhos mais velhos, Gina (à esq.), Clarabela (à dt.), e Roberto (ao colo). Todos os filhos eram naturais de Moçâmedes. Esta foto foi tirada em 1940. Uma nota curiosa para lembrar que as duas meninas, Gina e Clarabela foram ambas, na década de 1950, basquetebolistas do Sport Moçâmedes e Benfica. 


Eis aqui mais uma família de Moçâmedes. A família Trindade, cujo «chefe» José Trindade era  proprietário da Tipografia e do Jornal «Namibe», situada na Rua dos Pescadores, e não apenas era proprietário como ele próprio escrevia muitos dos artigos que eram publicados, os quais assinava tanto como J. Trindade, como Carlos Alberto, ou ainda como REX. Para além disso, dominava também a arte de versejar, faceta da sua vida pouco desconhecida de quantos habitavam a cidade de Moçâmedes. Para que outros possam conhecer esta faceta, seguem dois dos seus poemas que me foram enviados, juntamente com a foto acima, pelo seu filho e meu colega de escola, Roberto Trindade.


Eis o 1º poema:



Moçâmedes e o Mar



Entre as águas azuis do mar uivante
e a areia fulva do deserto agreste
- como presa nos braços de um gigante-
foi, Princesa, que tu aqui nasceste!

Nasceste em terra dura e ressequida
E tens mesmo a welwitschia por irmã,
e, à força de viveres esta vida.
conquistaste a coragem de um titã!

Venceste as bravas ondas turbulentas,
enfrentaste as garrôas do Deserto,
e, após tremendas lutas bem cruentas,
mudaste a rota a um destino incerto!

Tornaste natural o que era estranho
ao dominar os fortes elementos:
nas areias fizeste o seu amanho
e ao Mar foste colher os alimentos:

Consumidos cem anos em batalhas,
és tão pobre como eras no começo,
mas, rica em fidalguia, tu trabalhas
p`r atingir as estradas do Progresso!

Agora, à custa desse teu Namibe
e da formosa Praia das Miragens
como quem ao olhar do Mundo exibe
belezas naturais, raras imagens -

Tu voltaste de novo a triunfar!
fazendo de ambos um cartaz berrante,
passaste a festejar o velho Mar,
companheiro do povo navegante.


Carlos Alberto
 


José Trindade, mais conhecido por «Zé Côco» tinha uma outra faceta. Era um fumador inveterado. Enquanto escrevia e orientava os trabalhos na sua Tipografia,  fumava cigarro atrás de cigarro, até virar «beata» a queimar-lhe a ponta dos dedos...


Eis um poema que José Trindade escreveu numa altura em que, devido à seca, a indústria tabaqueira angolana passava por uma grave crise, e, em consequência, faltou tabaco nos locais de venda em Moçâmedes, situação que agitou os ânimos dos viciados no tabaco...


Não há tabaco!


(Referência alegre à cruciante à tragédia tabaqueira ocorrida há dias)

 
As armas e os barões assinalados
que os tempos vão maus, muito envinagrados!
Não há tabaco e estamos desgraçados!
A seca foi atroz e foi completa
de deixar um parceiro mui pateta!

Desta vez não houve contemplações:
não fumaram pobres, ricos e ladrões!

Conheço fumadores consagrados
que agora apenas ... chucham rebuçados!
Conheço até uma Domingas ,
que é minha lavadeira e confidente.
Sei que adora o tabaco e as boas pingas.

E, como continua sorridente,
indaguei da maneira que ela usava
pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara
disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha
fui comprar umas doses de cangonha!...

A situação tristonha e angustiosa
veio pôr a cidade em polvorosa.
Os cigarros de filtro e os tais sem ponta
são luxo com que a gente já não conta:

Não há Deltas, Marinas, Francesinhos
e até Negritos já não têm os barzinhos!
Fumar é vício lindo que morreu
e, p´ra vida ser feita de veludo,
vamos fumar p´la ponta de um canudo,
recordando a beata que já ardeu!

E como um bom charuto custa caro,
Não fumes disso, ó meu judeu avaro!


José Trindade

 

Estas eram algumas marcas de tabaco que se vendia em Angola.
JORNAIS DE OUTROS TEMPOS EM MOÇÂMEDES: (Namibe): Jornal de Mossamedes (1881), Almanach de Mossamedes (1884), O Sul de Angola (1892), A Tesoura (1892), A Tesourinha (1892) e A Bofetada (1893).


Do "Jornal Namibe" apresentamos a seguir um derradeiro artigo, publicado em 1975, quando Portugal se preparava para pôr a funcionar, com a ajuda de potências estrangeiras, uma «ponte aérea» sem retorno que haveria de promover o repatriamento massivo dos portugueses do território de Angola, numa autêntica "limpeza étnica".


 


  

Clarabela e Gina, as duas meninas de José Trindade já rapariguinhas,
em 1951/2? envergando a camisola do Benfica , 
"o clube de sempre" das duas manas Trindade

Clarabela, era a alma da equipa, aquela que, com a rapidez dos suas esquivas jogadas e os infalíveis lances de bola ao cesto, fazia vibrar moçamedenses e adeptos benfiquistas que não cessavam de a ovacionar. Ver Memórias Desportivas AQUI



 Roberto Trindade, meu colega de turma tal como todos os outros, pode ser visto aqui, de pé, à esq. Este era o grupo masculino dos finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, em 1956. Ver AQUI


Para terminar vou lembrar uma situação que se passou entre José Trindade e a Câmara Municipal de Moçâmedes, que revela o quanto às vezes as pessoas que detêm algum poder são levadas a actos prepotentes, mesmo em situações em que os ventos não correm a favor dos organismos que representam.

Eis a situação:

José Trindade era há já um tempo credor daquela Câmara por trabalhos prestados pela Tipografia que não havia meio de serem pagos. Cansado de esperar, tomou uma decisão: ele que fora sempre cumpridor das suas contas resolveu pura e simplesmente deixar de pagar a água e a luz eléctrica que a Câmara fornecia à Tipografia. Resultado, logo no dia seguinte lá estava o funcionário municipal a cortar o fornecimento de água à Tipografia. Quanto ao resto apenas sei que o problema levantou grande celeuma, que José Trindade fez barulho, protestou, e que pelos vistos o problema acabou resolvido, pois a Tipografia, da qual dependia não apenas o seu sustento como o da sua família, bem  assim como o sustento de mais algumas famílias de pessoas que alí trabalhavam, lá continuou a funcionar. Aliás, pensando bem, lidar com o jornalismo numa época em que a censura do Estado Novo estava activíssima, não devia ser uma missão  nem muito fácil, nem muito agradável...
 




É com carinho que deixo aqui mais esta recordação.
MariaNJardim 



Em tempo:

Aproveito para recordar aqui outros jornais que no século XX foram editados em Moçâmedes:.
1.O Sul de Angola, semanário independente de Moçâmedes, fundado em 1921 e dirigido por Mário Trabullo, seu proprietário.
2.Correio de Angola, de Moçâmedes, dirigido por José Manuel da Costa.
3.Mossâmedes, semanário dirigido por Joaquim Augusto Monteiro.
4.O Académico, de Moçâmedes, dirigido por José Pestana.
5.Sport de Moçâmedes, quinzenário, dirigido por A.A. Torres Garcia.



20 outubro 2011

M.A. Manuel Augusto de Pimentel Teixeira: palestra "Mossâmedes e o seu Feriado" radiodifundida pela Emissora Nacional, em 4 de Agosto de 1939

Manuel Augusto de Pimentel Teixeira

“Mossâmedes e o seu Feriado”
(palestra radiodifundida pela Emissora Nacional em 4 de Agosto de 1939)
por
M.A. de Pimentel Teixeira


Completam-se hoje 90 anos que um punhado de esforçados portugueses aportou a Mossâmedes, risonha cidade do Sul de Angola, que escolheu êste dia para o seu feriado nacional, em justiceira homenagem áquele minguado grupo de seus autênticos fundadores.


É hoje ali o dia da FESTA DA CIDADE à qual a Emissora Nacional gostosamente se associa, começando por lembrar as palavras do falecido Governador daquele distrito, sr. José Pereira Sabrosa, que assim escrevia em Janeiro de 1934:

“As colónias representam a continuação da Pátria, a projecção dos factos nacionais, o prolongamento da acção cultural, cívica e económica, e são difusão das instituïções, dos costumes, das idéias, da língua e do sangue da Nação.

Mossâmedes é verdadeiramente uma Colónia, onde o poder de reprodução e multiplicação do nosso povo e a sua fôrça de expansão se manifestam como triunfo assinalado das nossas qualidades colonizadoras e supremo e eficaz argumento contra monstruosos e insolentes detractores que desconhecem que só os povos espiritualmente grandes, são aptos para efectivar missão civilizadora como a realizada neste querido pedaço de Portugal.

O esplendor inescurecível de que se reveste a obra civilizadora realizada neste distrito, provém de que nela germina e floresce aquêle préstimo positivo que fêz Chailley-Bert chamar às colónias “escolas de heroïsmo” em que os caracteres se retemperam, em que o espírito de iniciativa se aviventa e onde cada indivíduo pode mostrar o que vale.

Fêz-se aqui uma fixação definitiva e exclusiva da nossa raça; plantou-se neste distrito há quási um século – e é já definitivamente consolidado – o mais essencial elemento de soberania, a comprovar a nossa admirável adaptabilidade e a desafiar aspirações e perigos de absorção, por mais poderosos que sejam êsses perigos, por mais insaciáveis que se mostrem tais aspirações!

Centro de almas retinta e insofismàvelmente patriotas, população que na terra e no tempo criou raízes fortes, projecção longínqua da Pátria e continuação dos seus lares, fonte de energia lusíada, o maior e o melhor centro de colonização fixa do Império, o distrito de Mossâmedes, é bem um natural prolongamento do território nacional, a garantir a possibilidade da nossa expansão, a afirmar que Angola é verdadeiramente fonte de prestígio e do poder da Nação”.

Prestada assim, também, uma justa homenagem à memória de José Pereira Sabrosa, distinto funcionário que à obra do Estado Novo, à Colónia de Angola e ao Distrito de Mossâmedes dedicou o melhor dos seus proficientes esforços, vamos apresentar aos nossos prezados ouvintes uma evocação do passado sôbre a acção dêsse minguado número de portugueses que a 4 de Agosto de 1849 ali desembarcou da barca “Tentativa Feliz” que viera comboiada pelo brigue “Douro” da Armada Portuguesa.

O Brasil emancipara-se, proclamara a sua independência que, a breve trecho, o próprio Portugal reconhecia.

Nação pujante que nascia para o Mundo, almas sedentas de liberdade, território imenso em que cada estado abarcava uma área superior à das grandes nações da Europa, cada um dêles chegou a querer para si uma independência absoluta.

Idealistas e visionários, como autênticos descendentes dum país de sonhadores, aqui com um caudilho, ali com outro, depressa surgiram sedições e revoltas a que o Poder Central mal podia acudir, assim se enlutando por largos anos o território brasileiro.

Nem todos os portugueses ali residentes simpatizaram com a nova nacionalidade e até qualquer fútil pretexto lhes servia para, de armas na mão, protestarem contra essa independência em que êles veriam uma diminuïção do prestígio pátrio, um cerceamento de território ao domínio de Portugal, que o seu esfôrço e o de seus maiores tinha desbravado e povoado.

Envolvidos, decerto, nessas lutas fratricidas, logo que sufocada, em 1848, a última revolta em Pernambuco que tinha em mira proclamar a independência da Federação do Equador, é natural que sôbre os portugueses se desencandeassem os maiores ódios e malquerenças!

Tornou-se-lhes, portanto, necessário abandonar o Brasil, onde eram olhados como elementos de desordem, como inimigos, como estrangeiros, senão como traidores!

E visionaram então noutro ponto do Globo um novo Brasil em que mais uma vez demonstrassem ao Mundo que, para o ânimo português, não há desalentos que lhe amorteçam a energia, nem sonhos que o seu esfôrço não saiba e posso converter em realidades!

Se os seus maiores se tinham ontem aventurado “por mares nunca dantes navegados”, porque não iriam êles desbravar terras nunca dantes conhecidas?

E olhando o mapa de Angola, abandonando a terra que entenderam madrasta e lhe pretendia roubar a nacionalidade de que tanto se orgulhavam, aportaram a 4 de Agôsto de 1949 à então chamada Angra do Negro.

Seduziu-os – quem sabe? – a sua vasta baía, as suas águas calmas espraiando-se dolentes em ligeiras ondulações.

Não lhes quebrantou o ânimo a imensidade do areal onde se não descortinava a mais insignificante mancha de verdura!

Mar deserto como a terra, terra deserta como o mar, que importava isso à sua Fé!

E sonham, talvez, melancólicos pinhais, laranjeiras em flôr cobrindo as areias sem fim, a cujas sombras virão um dia cantar suas alegrias ou carpir suas mágoas em versos saüdosos da Pátria distante!

Seu ânimo é arrojado, sua Fé é grande, e bem poderão, pelo seu trabalho, transformar montes em planícies, derrubar milenárias florestas lá para o interior, para delas surgirem vergeis floridos, profundar a terra virgem para nela lançarem as sementes de longe trazidas como tesoiros!

Transformar o humus em pão e com êle criar energias que os conduzam à vitória, tal seria o sonho dêsse punhado de obscuros heróis cujos nomes e esfôrço a Pátria mal relembra!

Tarefa grandiosa que levaria anos, iniciada por êles cheios de ardor e entusiasmo, seguros de que à sua geração outras se haviam de suceder, encontrando no seu exemplo fonte perene de sãs energias que lhes dariam o alento necessário para mais alongarem as fronteiras da Pátria estremecida.

E, semelhando fugitivas caravanas diante do invasor triunfante, êles aí vão, areais em fora, caminhando, caminhando sempre, em procura duma veiga de terra onde possam construir uma choupana e lá, no mais alto do cêrro, firmar tôsco mastro onde hastear a bandeira bi-color com suas quinas e castelos.

Pegureiros do Progresso, missionários da Paz, arautos do Trabalho, olhos incendidos em Fé, corações trasbordando esperanças, ei-los se fixam nos vales dos rios Bero e Giraúl, seguindo os mais audazes em busca doutros oásis que finalmente encontram nas margens do Munhino.

Por ali se espalham êsses paladinos do Trabalho, pois que para além o horizonte se cerra com os contrafortes inacessíveis da Chela, ciclópica muralha natural com suas cristas emergindo das núvens!

Por ali se ficam, êsses modestos colonizadores, sob um calor esbrazeante de 40º à sombra, tão insensíveis às catadupas que dos céus se despenham, como ao rugir das feras que da selva os ameaçam!

Fortes na sua missão, não se acovardam perante o rigor dos elementos nem perante o incógnito que por tôda a parte os rodeia e breve surge a cabana coberta de colmo, a geira de terra desbravada onde começam a verdejar os legumes e os cereais!

Dois..., três anos de labor e luta, e a geira desdobra-se em longas campinas onde a cana sacarina ondeia ao vento os seus longos penachos, ou em várzeas sem fim, em que os casulos de algodão branquejam quais flocos de neve em tapetes de verdura!

Depois, desaparece a cabana e surge o amplo casario de paredes fortes como muralhas, porque era necessário estarem preparados para resistir aos ataques do gentio tantas e tantas vezes repetidos com sucessivos insucessos!

Fortalezas, talvez, mas retintamente casas de aldeia portuguesa, milagrosamente transportadas para terras de degrêdo, com sua pequena loja para o negócio, celeiros e arribana, e lá mais ao longe a eira lageada com longa alpendurada, onde, nas horas cálidas, se acolhem os gados e cães de guarda, tal como em Portugal!

Em baixo, a casa do trapiche, as cubas de fermentação, o alambique e até rudimentar aparelhagem por êles feita, para o fabrico do açúcar!

Longas coberturas de telha mourisca, amplos portados de bom granito ou de tijolo vermelho destacando-se no alvadio das paredes, tudo surgira do seu porfiante trabalho!

De vez em quando, lá descem à vila, atravessando areais sem água, carreando o que a enxada e o arado tinham arrancado à terra e que eles enviam para Lisboa em troca de produtos que as suas geiras lhes não podiam fornecer.

Foi assim que por volta de 1875, Mossâmedes chegou a exportar anualmente 800 toneladas de algodão, ao passo que em 1932 – 57 anos depois – a exportação de tôda Angola apenas atingiu 585 toneladas!

Cheios de Fé, lá regressavam aos seus novos lares, às suas terras, sempre na esperança dum ano mais fértil, “a-pesar-do último não ter sido mau”, como êles uns aos outros diziam para mutuamente se animarem.

Mas, que haveria por detrás daquela gigantesca muralha que ainda hoje se chama a Serra da Chela?
Pimentel Teixeira




Do site de Aida Saiago


About Manuel Augusto de Pimentel Teixeira

Tendo frequentado o liceu de Santarém (1888 a 1895) e encalhado no latim e nas “cachopas”, enveredei para o curso de farmácia que vim a completar em 25 de Junho de 1898, na Escola Médico-Cirurgica do Porto com a classificação de 13 valores. Em 18 de Junho de 1898 fui para Vilar de Paraíso como Director Técnico da Farmácia Moura, mas como tinha um especial azar á “arte de farmácia” vim para Mossâmedes, (Angola) tendo embarcado no vapor ZAIRE, chegando aqui a 19 de Maio de 1902, trazendo no bolso a importante quantia de 3810 reis, 55 quilos de peso e ... esperançosos sonhos. Afinal, protegido por meu primo Serafim Simões de Figueiredo, UM GRANDE AMIGO, tive que montar a Pharmácia Moderna que abri aos 12 de Junho de 1903, a qual por questões políticas locais fui forçado a vender em 1913. Do que se seguiu e está seguindo falarão a ... histórias. Casei com ... minha mulher, D. Berta Pinto Coelho, senhora da minha grande consideração e amizade, que me presenteou com seis filhos, isto é, três filhas e três filhos, um dos quais (Manuel , 1º de nome) veio a falecer em 2 de Maio de 1912 com 14 meses incompletos. (auto-biografia escrita em 1923). In GeneallNet



Acrecento ainda a página que segue de "Publicações Periódicas Portuguesas" existentes na Biblioteca Geral,Universidade de Coimbra:




Pode consultar também:
http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2011/10/gente-de-mocamedes-vera-lucia-pimentel.html


Talentos do Namibe (ex Moçâmedes) : a poetisa Vera Lúcia Carmona Antunes




Foto de http://infinitokalahari.blogspot.com/


Vera Lúcia Carmona Antunes (Vera Lúcia Kalahari),  natural de Moçâmedes, actual cidade do Namibe, filha e neta de mãe e avó moçamedenses,  bisneta de Manuel Augusto Pimentel Teixeira,  o velho  jornalista moçamedense (já falecido), o maçon  natural de Alvaiázere, Maçãs de D. Maria,  Manuel Augusto Pimentel Teixeira  que se radicou em Moçâmedes, onde exerceu funções de farmacêutico, e onde em 1913  foi proprietário do Jornal "A Pátria",  Jornal literário e político, orgão do Partido Republicano Português que defendia "que tínhamos (nós, os brancos) de arranjar em cada "gentio" um amigo se quiséssemos ter uma Angola para todos...».(1)

Vera Lúcia teria herdado deste seu bisavô a veia jornalistica, uma vez que  desde muito cedo começou a dedicar-se à escrita e tornando-se mais tarde jornalista profissional, tendo trabalhado para os jornais “O País”, “O Dia” e “Diário de Notícias”, e para as revistas “África Hoje”, “Família Cristã”, “Gazeta das Aldeias” e “País Agrícola”. Foi também copywriter no Departamento Comercial da Rádio Renascença (Intervoz). 

Hoje, no seu “refúgio” na aldeia de Sortelha, conselho de Sabugal, Vera Lúcia dedica-se à poesia e à literatura, sobretudo à literatura juvenil, onde, em ambiente pleno de serenidade e misticismo se inspirou para escrever o romance A Casa do Vento que Soa que concluiu recentemente. Terminou também a série juvenil Os Primos (O Diamante Real, O Incendiário Tenebroso, O Quadro Misterioso e O Enigma da Aldeia das Broas). O "O homem que falava de paz" foi o seu primeiro livro

(1) CLICAR AQUI
 1913/14, conf. Jornal literário e político – Órgão do Partido Republicano Portuguêz

Ano de início da publicação: 15/11/1913 Local: Mossamedes Diretor, proprietário e editor: M. A. De Pimentel Teixeira. Observações: tablóide, papel jornal, 4 páginas. Há poucos exemplares arquivado


Seguem alguns poemas de Vera Lúcia. São poemas que falam de ideais e de sonhos destroçados, cujas raízes se afundam em Angola. 



 


ORIGENS

 

Eu vim da terra dos traídos
Vim dum monte de sonhos destroçados
Vim de cidades em ruinas
Dum bando de famintos revoltados.
Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.
Fui choro, fui pranto de muitos lares,
Fui o ro�ar de facas, de chibatadas.
Entrei nos templos, p'ra achar pureza,
Desci às ruas, p'ra conhecer tristeza.
Fui bandeira branca, desfraldada,
Fui lágrima de noiva abandonada.
Fui grito de dor, brado de morte,
Fui brinquedo morrendo com um menino.
Fui solidão e fui miséria
Fui flor de sangue derramado.
Eu vim da terra dos traídos...
Da terra sem lares, ou maternas mãos...
Sem portos, sem ruas, sem amores,
Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas...
Vim dum bando de crianças inocentes
Que esperavam com fé pela madrugada,
Que não conheciam ódios raciais
E tinham direito à sua sobrevivência.
Eu sou a que está convosco, incompreendidos,
Que não querem curvar-se ao cativeiro,
Que querem ser livres, encontrarem-se,
E acreditam que num futuro aurifulgente,
Num mundo sem ódios, nem concessões,
Tudo será melhor, será diferente.

Vera Lúcia




A VISÃO


Eu vi,
Corpos negros dançando
Num bailado sem fim…
Vi corpos requebrando ao vento
Como coqueiros  arqueados.
Era algo de profundo e magnífico…
Vi panos coloridos
Desnudando corpos,
Esvoaçando e brilhando,
Azuis, roxos, negros…
Vi  risos e cantos e tambores
Ressoando ao sol
Numa sinfonia sem fim…
Ran…Tan…Tan…
E vi a minha terra toda,
Meus avós, num bater frágil de asas,
Num canto inesquecível, superior à poesia,
Surgindo, surgindo,
De milhões de palmas, das fontes do eterno frio…
Deus… Que futuro imenso para esta terra,
Onde o lodo se tornará cristal,
E onde a liberdade há-de chegar…
Glória a todos os que morreram por ti,
Orgulhosos do seu fim,
Acreditando num mundo melhor…
Quem somos nós para duvidar
Que esse tempo tem que chegar?

Vera Lúcia




O MEU CREDO


Creio
No cristal límpido
Em que se hão de transformar
Os pensamentos lodosos.
No sorriso iluminando rostos
Nos trajes luminosos que hão-de cobrir os homens:
Os trajes da liberdade.
No vinho doce que há-de embriagar
Mentes enlouquecidas…
No tropel de gente esperançada
Que há-de correr, chorando,
Para o Bom Deus, temendo chegar atrasada.
E vós
Que olhais sem verdes nada
Que fechais a alma à esperança,
Que tiritais ao frio da nortada
Esperai, por favor, pelo sol ardente
Que vos virá aquecer…
Porque, crede: O tempo sem violência de que vos falo,
Virá…Terá que vir…Acreditai.

Vera Lúcia


***


CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Queria ter confiança na eternidade
E na terra da verdade…
Queria nunca m’esquecer
Que volta sempre a primavera
Qu’entre pedras faz nascer rosas…

Queria deixar de ser este mar morto
Mar sem ondas e sem portos…
Queria deixar de mendigar
No silêncio das noites escuras
Caminhando por ermas estradas
Sem saber p’ra onde vou.

Queria saber quem me roubou minha coroa de rainha
Quem pisou minhas ilusões desfolhadas…
Queria ser a manhã qu’apaga estrelas
E encontrar amor em todas elas…

Queria ser a perdida, a que não s’encontra
Aquela que ninguém conhece,
A rutilante luz dum impossível…

Queria deixar de segurar nas mãos
O bem que nunca é meu
E encontrar no caminho o meu bordão d’estrelas…

Queria encontrar a água que procuro e de que estou sedenta
Queria não pensar nos que andam descalços pela vida…
Nos que choram em insanas guerras…
Nos que mentiram e nos que mentem…
Não ter pena dos que em má hora nasceram…

Queria ter asas para voar e ser na fé
Na agonia dum moribundo…

Queria ser tudo…e não sou nada.

Vera Lucia
***



AMOR SACRÍLEGO

No meu negro pretérito já passado
Há a sombra triste dum amor imenso.
Imenso mas cruel por ter deixado
O perfume doce do seu incenso.

Amei-o, sim, em doce chama
Meu coração de menina lhe concedi.
Perdi a fé, a paz, perdi a alma,
E era um sacrilégio amar assim.

Era um sacrilégio, mas no seu todo,
Nosso amor era um raro sortilégio…
Criamo-lo neve e era lodo,
Criamo-lo santo e era sacrilégio.

Esse amor, esse amor, foi todo meu.
Em mim, seus laços ficaram impressos.
Nosso amor era luz e era sombra
E eram prantos e risos os nossos beijos.

E foi um sacrilégio e foi loucura
Foi loucura de amor, foi um lamento,
Como um hino imenso de amargura 
Como um imenso, lento tormento.

Vera Lúcia

 ***



SONHO PAGÃO

De noite, 
Nessas noites mornas e lentas, 
Iluminadas pela lua sensual, 
Quando as flores se abrem languescentes, 
De corolas abertas, carnais,
 Como corpos que se entregam 
Vou, como uma deusa pagã em desvario, 
De narinas dilatadas,
 Procurar o excitante odor da tua pele. 
A boca sedenta, quer beber-te no ar em brasa… 
Ávido o olhar, busco encontrar-te  
Nas trevas que m’envolvem… 
Vejo-te em cada sombra que se adensa… 
Ouço no canto das fontes, 
A tua voz, que desconheço… 
Tem o langor deste desejo que voa até ti…
 Quebro de raiva os ramos que me ferem, 
sôfrega dos teus beijos…

Piso…Mastigo as folhas secas que m’acolhem 
Com a ilusão de morder-te a carne ardente… 
Depois, caída na realidade da minha solidão,
 Clamo por ti…
 Berro na noite teu nome d’amor… 
Aperto em meus braços a forma do teu corpo
 E mergulho meus lábios nessa imagem, 
Soltando uivos de prazer e desespero…

Vera Lucia
***


Disseste que voltavas
E eu esperei…
Mandei que as acácias rubras
Florissem só para ti.
Que as casuarinas desgrenhadas
Se vestissem com mantos de nívea espuma.
Mandei que as rosas
Se abrissem só para ti…
Que juncassem de flores
As pedras de cada rua…
Que tocassem batucadas
Na noite luarenta…
Qu’acendessem fogueiras
Em todas as esquinas…
Tu não voltaste.
Murcharam as acácias
A florirem numa ansiedade vã…
Curvaram-se as casuarinas
Com lágrimas d’espuma
Caindo na praia escura…
Calaram-se os cantos nos beirais.
Parados quedávamos
Tentando o som dos teus passos escutar…
Calou-se o menino de barriguinha inchada
Qu’esperava por ti para o salvares…
Que fazias que não voltavas?
Que fizemos p´ra não voltares?
Tu que trouxeras a fé e a crença
A este povo descrente
Eras agora uma voz …
Uma voz…nada mais.

Vera Lúcia


DESEJO FINAL

Quando eu morrer
Não quero rosas,
Não quero prantos.
Quero flores de buganvílias rubras,
De ouro e sangue…
Quero ventos…
Os que mordem as areias do deserto…
Os que curvam os corpos dos coqueiros desgrenhados,
Arrojados para o azul,
Sim…
Quando eu morrer,
Não quero rosas,
Não quero prantos.
Quero o ressoar dos tambores
Atroando os ares…
Ran-tan-tan-tan-ran …
Quero o óleo doce do denden…
Quero tudo …tudo da terra…
Que m’importam rosas?
Que m’importam cantos?
Quero beber as ondas do mar…
O marufo ardente…
Quero sentir o tumulto da terra
A alegria do Povo…
Por isso tragam-me tudo…
Para ter a ilusão,
De ainda viver.

Vera Lúcia 


Ainda sobre Vera Lúcia:
A sua vivência perto da guerra (em Angola naturalmente), deu-lhe a conhecer os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais, um mundo desconhecido da maioria público que envolve comércio de armamento e outros flagelos, operações financeiras por agências especializadas, Companhias de Seguros, etc, etc., em negócios que rendem milhões e milhões e milhões de dólares.

Humanista e livre pensadora, Vera Lúcia ousou trazer a público um assunto que tem vindo a ser, intencionalmente ou não, silenciado pelos fazedores de opinião,  rotulado de "teoria da conspiração", e que a ser verdade já está afectando, e mais  ainda afectará a vida de todos nós.  Trata-se do Clube de Bilderberg, algo que se assemelha a um filme de ficção científica e que, como refere Vera Lúcia, "analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida: Globalização! A autora vai mais longe, aponta para a  "Nova Era", a era da "Escravidão Total" que envolverá as futuras gerações... 

Clicar AQUI se estiver interessado em ler o artigo de Vera Lúcia a este respeito, cujos detalhes são sem dúvida esclarecedores.

Para conhecer melhor seus trabalhos, clicar AQUI

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