07 novembro 2011

O maravilhoso DESERTO DO NAMIBE, em Moçâmedes, Namibe, Angola...

 Junto a uma welwitschia no Deserto do Namibe. Foto cedida ao grupo Moçâmedes por Nhuca.Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio.
Mme. Parreira da  Cruz no Deserto do Namibe, com mucubal. Foto gentilmente cedida por Mélita Parreira da Cruz.  Proibida publicação para outros fins sem autorização do próprio.





NAMIBE

Grande é o Namibe
Aquém e além Cunene
Vida em murmúrio a passar.

Grande é o Namibe
e a alma-poeta
uma grande Welwitschia Mirabilis
macho e fêmea
cio em flor
no deserto vida teimosa a rasgar.

Namibiano Ferreira


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TENACIDADE

Aberta ao infinito árido sem tempo,
a Welwitschia é um poeta ermo e solitário
aspirando a Vida escassa em cada missanga húmida
pérola minúscula de cacimbo luz e cristal.

Namibiano Ferreira


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Welwitschia Mirabilis


Welwitschia de longos braços
Que vive e nasce aos abraços
Que vive e morre em tormento.
Por tanto amar o deserto
Por tê-lo perto, tão perto
Num amor sem casamento.

Concha Pinhão

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 Origem da foto ALIM

«Deserto do Namibe, perante ti sentimo-nos como vermes! - disse alguém ao tomar contacto pela primeira vez com a sua solidão, monotonia, aridez, miragens e imensidão incomparáveis! "in caderno/programa das Festas do Mar- Moçâmedes Março-1970

 
Mulher da tribo mucubal caminhando pelo deserto, então coberto por capim...




Welwitschia Mirabilis

 

Saindo da cidade na direcção do Tombwa, antiga Porto Alexandre, podemos  apreciar a célebre Welwitschia Mirabilis, considerada única no mundo também conhecida por "tumbo" pelos povos da região, a planta que escolheu o Deserto do Namibe, no sul de Angola, para seu habitat, uma zona a cerca de 80 km para o interior, a partir da linha do mar, entre as coordenadas 14º e 30´, e 17º e 20´ de latitude sul; e 11º e 40', e 12º e 30' de longitude leste, que penetra o antigo Sudoeste Africano, a Damaralândia onde aparecem alguns exemplares, mas pouco desenvolvidos e em pequena quantidade.   Os mais surpreendentes exemplaresa da Welwitschia, quanto ao porte, ficam para os lados da Damba dos Carneiros, já a caminho da foz do rio Cunene.   também conhecida por "tumbo" pelos povos da região

Planta milenar, disforme, rasteira, de folhas longas em forma de fita larga, rijas, fibrosas, achatadas, de côr verde escura, por vezes verde-alaranjado quando já em pleno desenvolvimento, de caule lenhoso, suculenta, atinge alguns metros de comprimento, e uma largura que muitas vezes ultrapassa também 1,m00, em determinados pés, continua a crescer durante toda a vida,  podendo atingir mais de dois metros de comprimento, apesar das condições severas do deserto (com uma precipitação de cerca de 500 mm)  numa área de cerca de 50 000km², em condições áridas ou semi-áridas, entre desertos escaldantes e leitos de rios desesperadamente secos, suportando temperaturas de 60° na sombra, e uma humidade ambiente baixíssima.  

As sementes da  Welwitschia germinam com rapidez formando uma raiz cónica de 6 a 18 m de profundidade, e conseguem captar  através de suas folhas a água do orvalho e do nevoeiro proveniente do Oceano Atlântico, distante a menos de 150km. Durante o dia, as folhas mantêm os estomas foliares fechados, impedindo a transpiração, mas à noite eles abrem-se, para absorver o dióxido de carbono, necessário à fotossíntese. Todos estes aspectos permitem viver nesta região.  Do centro desse tronco surgem as inflorescências ramificadas em 2. Quando os cones femininos entram no “cio”, um líquido pegajoso cobre o estigma, para receber os grão de pólen (vindas pelo vento ou por uma vespinha noturna) da planta masculina.

 Assim como a “Ginkgo”, existe a planta macho e a planta fêmea na mesma planta e na mesma flor, sinal de evolução. Ou seja: Na Botânica define-se como sendo planta dióica, provavelmente um sinal de primitividade. Faz parte das gimnospermas, portanto trata-se de uma planta primitiva, do período Jurássico, como os pinheiros. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos.  Antílopes e rinocerontes alimentam-se do suco das folhas durante o período de seca total.

Esta espécie foi descoberta em 1859, e foi baptizada a partir do nome do Dr. Friedrich Welwitsch, que contribuiu para o conhecimento desta e de muitas outras plantas de Angola. Devido às suas características únicas, é considerada uma espécie ameaçada. 

Mesmo nas condições severas do deserto (com uma precipitação de cerca de 500 mm) as sementes germinam com rapidez formando uma raiz cônica de 6 a 18 m de profundidade. Admite-se, inclusive, que elas possam viver mais do que mil anos.



 

Welwitschia Mirabilis 




Inflorescêncías femininas






VELVÍTCHIA

Mora a velvítchia no emo solitário,
A flor de Angola, dum areal do Sul,
Braços coleantes, sob céu azul,
Á flo da sede, em prece, num calvário...
A estranha raridade vegetal
Será, talvez, num velho mar extinto
Um polvo exótico o a flor do mal,
Vencendo a morte, no vigôr do instinto...

Será, talvez, no cálido deserto,
Uma estrela cadente que tombou
Da convulsão da noite, em céu aberto,
ou a alma dum aspro que expirou...

Seja o que for - estrela, monstro,flor -
Eu sinto-lhe nos braços revoltados
A trágica expressão da imensa dor,
talvez, de belos sonhos destroçados...
E eu penso que a velvítchia exilada
No seu mundo de sede e solidão,
É irmã de tanta alma torturada
Que anda sózinha em meio da multidão...

(José Galvão Balsa)

De «Feitiço do Namibe»




 
O Arco do Carvalhão, um espetáculo da natureza.

“Entre os morros descansa como doce surpresa, uma lagoa sonhadora,de onde
se levantam aves ribeirinhas, entre balsas muito verdes. É um dos suaves
mistérios do Deserto. E não é só fresca esta lagoa. É imponente também, com
a sua moldura de fantasmas pardos, os seus buracos escancarados, as suas
guardas bárbaras e muito quietas. Formou-se com águas do Coroca, rio que tira
a alegria e o pitoresco, do contraste em que está com as terras depiladas que
banha e que viaja no Deserto, desde as bandas da Chela até Porto Alexandre”
Henrique Galvão





O Arco do Carvalhão e a Lagoa do Arco


Partindo de  Moçâmedes/Namibe em direcção  ao sul, lá para os lados de Porto Alexandre/Tombwa, após uma longa caminhada em meio à aridez do deserto, ao aproximarmo-nos da margem direita do rio Curoca, em frente à fazenda de S. João do Sul, deparamo-nos com este singular Oásis. Um local estranho que nos faz sentir em um outro planeta, pelos constrastes que se nos oferecem aos sentidos.  A Natureza esculpira um arco natural com dois grandes orifícios, numa das rochas da montanha,  permitindo-nos visualizar a lagoa tanto de um lado, como do outro. Um trabalho de arte de indiscritível beleza!  Lá dentro, a lagoa, os nenúfares flutuando na sua superfície... A temperatura ali nada tem a ver com o calor do deserto.  O Arco é uma magnífica formação rochosa natural onde se respira um ambiente de silêncio, de paz e calmaria. As rochas sedimentares mostram o que terá sido esta zona há milhões de anos atrás: um braço de mar, ou talvez um lago marinho que progressivamente teria secado em consequência da acção do sol, que se abate sobre o deserto, da carência de chuvas, e dos ventos que secularmente as vem fustigando e desgastando...



 A Lagoa do Arco



Neste Oásis conhecido pelo "Oásis das três torres", fica o maior lago do mundo num deserto. É um pequeno mar. 

O rio Curoca é um rio seco, tipo rio de enxurrada, que só transporta água no período das chuvas, que ocorrem de Outubro a Maio, e que normalmente revive entre Fevereiro e Abril. As chuvas que o fazem transbordar com águas barrentas e furiosas, não caem no deserto mas a centenas de quilómetros, nas terras altas da Huíla. O deserto aperta o rio que aqui consegue espraiar-se e formar um lago de grandes proporções , quando as chuvas são mais pródigas. Como um pequeno Nilo permite a agricultura nas suas margens. 




 A Lagoa do Arco no seu esplendor. Os nenúfares em pleno deserto...


A Lagoa, com os belos e elegantes flamingos que por ali campeiam,  a vegetação aquática e a profusão de nenúfares que sobressaem do seu  azul esverdeado quando chuvas esporádicas alimentam o caudal do rio Coroca que lhes dá força e vida,  é algo a que ninguém pode ficar
indiferente.


 



 Os flamingos






Henrique Galvão, quando lá passou escreveu:

“Entre os morros descansa como doce surpresa, uma lagoa sonhadora, de onde se levantam aves ribeirinhas, entre balsas muito verdes. É um dos suaves mistérios do Deserto. E não é só fresca esta lagoa. É imponente também, com a sua moldura de fantasmas pardos, os seus buracos escancarados, as suas guardas bárbaras e muito quietas. Formou-se com águas do Coroca, rio que tira a alegria e o pitoresco, do contraste em que está com as terras depiladas que banha e que viaja no Deserto,
desde as bandas da Chela até Porto Alexandre”





Omauha Lodge.  Foto daqui


O Lodge e o Parque Nacional do Iona


 A cerca de 150 Km a sul da Cidade do Namibe, na estrada que liga esta localidade ao Parque Nacional do Iona à Foz do Cunene e Posto fronteiriço de Calueque, no limite com a Namíbia,  surge ao viajante actual um pequeno lodge com cerca de 5.000h, totalmente vedado,  virado para a preservação de algumas espécies de animais selvagens em vias de extinção (como é o caso da zebra montanha), e para a criação de outras espécies que outrora habitaram esta região, bem como para permitir às pessoas desfrutarem de tours pelo Deserto e da companhia de cerca de 300 de animais de diversas espécies: gazelas elegantes,  guelengues majestosos,  punjas, babuínos, avestruzes e a passarada que assim vão aguentando as agruras da seca, guardando energias, lutando pela vida. 



Junto da "gruta" desfrutando do aquecimento de uma fogueira...

Omauha (pedra em dialecto regional) fica situado numa região de características sub-desérticas de paisagens planas entre grandes maciços graníticos, fornece  apoio ao turismo, organizando visitas ao deserto,  contactos com a tribo Mucubal e Himba,  às pinturas rupestres às quais nos referiremos a seguir, a construções de interesse arqueológico, à  welwitchia mirabilis, ao oásis e águas termais, organiza safaris fotográficos no Parque Nacional do Iona, com destinos diversos e tours ao rio e Foz do Cunene, ao longo da costa e dunas, para além de organizar momentos de pesca e caça submarina.

Neste lodge o visitante pode fazer uma paragem para descansar, ou junto a ele erguer suas tendas, bem como  para uma pequena refeição ou  para petiscar e confraternizar num restaurante,  que é uma caverna no interior de uma pedra que se apresenta cada vez mais "sofisticado".  Pode desfrutar de um olhar para a multidão de estrelas que à noite brilham na negritude do céu  e parecem vir até nós, bem como aquecer-se, virar as costas ao frio em frente a uma fogueira... para na manhã seguinte partir para um safari, para ver orixes, cabras de leque, avestruzes...

Um acampamento
No interior da  "gruta" em amena confraternização

 
 Hoje, no interior desta enorme pedra funciona a sala de refeições e de estar.Ver AQUI

 


                  Alguns testemunhos...   
                 


"...Não sei se era mar ou rio, que milhares de anos antes por ali andava nas correrias de menino, o certo é que deixou marcas das traquinices de então. A sala de refeições é uma caverna, parece que talhada a escopro, mas não, foi o tal de mar ou rio que assim fez....água mole em pedra dura...o quarto também aproveitado em pedra oca e outro ainda também. Pedras, calhaus rolados, mas enormes, que viraram casas da gente, abrigo para descansar o corpo depois da picada. E malvadeza das malvadezas....em pleno deserto sermos recebidos com caranguejos do Namibe, é de fazer invejinhas e babar muita gente.
                                          
"... Espaço, areia, dunas, ahh a Duna Vermelha, subir e ficar sem fôlego, puro prazer e espanto, todo aquele conjunto de montanhas, dunas, pedra, areal, esta diversidade única e que faz do Iona tão diferente, único e sempre belo. Atravessar a Garganta do Mota e ver aquela "cacofonia" de formas, caotica e extraordinária, qual paisagem lunar, pintalgada de algum verde das Welvitchias ou cactus ou espinheiras ou mutiatis.

"...À noite, magia! As estrelas aos milhares, nítidas, quase ao alcance da mão, ali mesmo e o som puro da voz da Filipa Van Eck (fixem este nome, angolana/sul africana, 22 anos) a cantar ópera, tendo como palco uma das grutas de Omahua e a Lua como maestrina. O tempo parou espantado e aquele chão de pó sentiu as lágrimas de emoção de quem a escutava.

"...Ir ao Iona, é como ir ao coração do deserto do Namibe, sentir o pulsar indómito da natureza, ainda tão pura, é sentir como se estivessemos no centro do Universo, pequenos seres, grãos de areia daquelas dunas, atirados pelo vento segundo a vontade de qualquer lei e voltar, lavados por dentro.O Iona e ainda por cima com ópera...morremos felizes vivendo mais um pouco.

 By Mário Tendinha


           
Pista de Capim - Parque Iona 


O Parque Nacional de Iona, a cerca de 240 km de Moçâmedes (Namibe), estende-se desde as dunas de areia junto ao oceano atlãntico até às montanhas de Tchamalinde, a leste.  Ocupa a área de 15.150 km². é limitado a Norte pelo Rio Curoca, a Sul pelo Rio Cunene, a Oeste pelos Rios Cunene e Curoca e, a Leste, pelo Rio dos Elefantes. Foi estabelecido como reserva de caça em 1937 e transformado em parque nacional em 1964. O centro do Parque é de planícies abertas. A pluviosidade média anual varia entre 100 mm a 500mm, aumentando à medida que nos afastamos do mar. Existem trinta e uma fontes naturais dentro do Parque.




 

 


Antes da independência  de Angola e da Guerra Civil que se seguiu, o Iona era um "paraíso animal, rico em caça grossa", mas a caça ilegal e a destruição das infra-estruturas vieram causar danos consideráveis ao parque. Existem três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustos. Abunda a  Welwitschia, a exótica planta do Namibe atrás referida, que pode atingir mais de mil anos de vida. O parque também é conhecido por flora única e incríveis formações rochosas. O antílope emblemático do Parque era a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existiam outros mamíferos como o elefante, o leão, o rinoceronte negro, a onça, a hiena, o guelengue, o olongo, e várias espécies de zebras.



Espinheira e welwitschias

Montanhas Tchamalinde e manada de cabras de leque, em foto actual no  Parque Nac. do Iona
DAQUI.

 

  Pediva, lugar bonito à  vista , do qual resultam, também, fotos lindas...

 
Povos do Deserto em foto da época colonial: mucubaes

Cabras de leque
 Guelengues...


Cacto característico do Deserto do Namibe


 O esplendor no deserto quando chove...









A ÁREA DESOLADA QUE BORDEJA A COSTA SUL DE ANGOLA E DA NAMIBIA




O Deserto de Namibe que bordeja a costa atlântica sul de Angola e da Namíbia surge-nos como que uma desolada cinta de contrastes, rochas, cascalhos e areia...

Em 1850, o explorador, pioneiro sueco, Charles Anderson, assim referiu a sua esterilidade; “As duras penas poderiam encontrar-se, procurando através do mundo, um lugar mais ajustado para representar as regiões infernais.Um estremecimento, quase equivalente ao medo, me sobreveio quando sua espantosa desolação se abriu pela primeira vez perante minha vista… Seria preferível a morte ao desterro em semelhante região”



Lagarto o Deserto

Lagarto do Deserto (Aporosaura anchietae), consegue mergulhar na areia em plena velocidade e nela desaparecer com movimentos ondulantes - protegido dos inimigos e das temperaturas extremas. In Revistage



Camaleão do Deserto
DAQUI


O Deserto de Namibe, com sua única fonte de humidade, suporta uma variedade de animais que se adaptaram a este insólito meio. A maioria é pequena, como os escaravelhos, as térmitas, as vespas, as aranhas e os lagartos, porque apenas sobrevivem os animais que resistem a um pequeno consumo de água.Os lagartos contam com os insectos que são sua comida, e para satisfazer suas necessidades de água, contam com o escasso orvalho acumulado durante as manhãs de nevoeiro.

É realmente um dos lugares mais inóspitos do mundo. A aridez é causada pela descida de ar seco arrefecido pela fria corrente de Benguela que bordeja a costa do Namibe podendo chegar a até 60 °C. Menos de 1 cm de chuva cai anualmente e o deserto é quase completamente estéril. A natureza dos ventos predominantes do poente criou uma panorama único no Deserto de Namibe. Fluindo para o norte desde as águas da Antártida, encontra-se a poderosa, porém fria, “corrente de benguela”. Os ventos do poente, carregados de humidade do cálido Oceano Atlântico, esfriam-se quando se encontram com estas correntes, vendo-se forçados a soltar sua chuva no mar. Como conseqüência, o Deserto recebe uma media anual de chuva de apenas 2,5 mm.

 Na zona das dunas, só de jeep especial sendo necessário vazar os pneus e seguir em alta velocidade para se atingir o sítio onde termina Angola bem no canto sudoeste. A instalação é no Lodge Flamingo, com a protecção próxima da tropa guarda fronteira. Depois é ver os pelicanos e os pescadores e seguir rumo aos norte a beira-mar. Pneus vazios e rolar com as velocidades mais altas. À direita, uma parede de dunas e à esquerda, o mar. O tempo é contado, se se pára o carro enterra e se enterra a maré sobe, se sobe leva o carro. É o máximo que se pode exigir em termos de aventura. Perto de 400km de fuga e com a Baía dos Tigres, deserta a acenar, como que dizendo "Aventura, aventura, é vir à ilha que já foi cabo, que se isolou e guarda os canídeos mais famosos de Angola". Os edifícios estão lá, vêm-se da costa. À espera de quem for capaz.



As desconfiadas Suricatas

Suricatas: Estes animais são exclusivamente diurnos e vivem em colónias de até 40 indivíduos, que constroem um complicado sistema de túneis no subsolo, onde permanecem durante a noite. Dentro do grupo, os animais revezam-se nas tarefas de vigia e proteção das crias da comunidade. O sistema social dos suricates é complexo e inclui uma linguagem própria que parece indicar, por exemplo, o tipo de um predador que se aproxima. Estudos mostram que os suricates são capazes de ensinar activamente suas crias a caçarem, um método semelhante à capacidade humana de ensinar. Ver AQUI e AQUI
 
As suricatas habitam normalmente zonas de uma imensidão escalvada e pedregosa, crestada de mil sóis, onde a vegetação, definhada e triste, que se animava a espaços com manchas de arbustos e arvoredos ralos. Na parcela mais meridional deste mundo inóspito estendem-se grandes dunas movediças, a que as ventanias salgadas arrancavam turbilhões espessos que encobrem a luz solar...





 TCHITUNDU-UPSTREAM



Tchitundu-Hulu 1

Tchitundu-Hulu 2
Ver AQUI

São as gravuras do "Morro Sagrado dos Mucuisses", atribuídas aos antepassados dos khoisan (bosquímanos ou mukankalas), os primeiros povos que habitaram Angola na Proto-História. Trata-se de um dos mais valiosos conjuntos rupestres da Pré-História de Angola, situado num morro granítico denominado Tchitundo-Hulo, no Capolopopo, a cerca de 137 km para leste da cidade de Moçâmedes, actual cidade do Namibe, area do Virei, nas fronteiras da concessão do Caraculo, um pouco a sul do paralelo de Porto Alexandre (Tombwa) .





QUANDO PASSEI POR TCHITUNDU-HULU


Quando passei por Tchitundu-Hulu
tinham acabado de gravar as paredes.
Terminados os rituais de consagração, cá fora,
o povo mágico dançava, comemorando alegremente.
Depois, o povo mágico partiu subindo o Kane-Wia*
– a montanha sagrada onde Deus dorme –
e não mais voltou.

Entretanto, diariamente, sucederam aos dias
o veludo negro das noites
e, anualmente, os cacimbos trouxeram as chuvas
e as chuvas devolveram os cacimbos... sopraram ventos
ventando num dorido e constante lamento.
Houve chuvas ansiadas, esperadas em vão
no desejo árido do umbigo dos deuses e o Tempo,
vento de nada, passou leve e mangonheiro
inspirando o Infinito... expirando o Esquecimento
sobre as gravuras sagradas acabadas de gravar
quando por lá tinha passado naquele dia.

Tchitundu-Hulu rodopiou na bruma esquecida
no regaço do Tempo, encoberto e misterioso...

Um dia, no espreguiçar sem depressas, o Tempo
acordou os Kwissis e eles vieram e sem entender
ou perguntar o quer que fosse acreditaram
e adoraram a Gruta do Morro Sagrado do Céu
fazendo de Tchitundu-Hulu o mistério de sua Fé.





Próximo do Virei, a 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe), fica o morro ao qual os mucubais chamam de Kane-Wia, que traduzido para português quer dizer  "quem o subir não volta". 

A  verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo caído no desinteresse, no entanto se se pedisse a um mucubal para nos acompanhar como guia ele de imediato se recusaria,  e nem a oferta de uma manada de bois o faria mudar de ideias.

 O Kane-Wia surge-lhes como que uma montanha sagrada onde Deus dorme, interditada ao comum dos mortais. O certo é que em 1937 acabou por sucumbir em pleno deserto o Dr. Luís Wittnich Carrisso, biólogo da Universidade de Coimbra, que se deslocara alí em missão de estudo da flora local. Como homem de ciência que era, resolveu contrariar a crença e subir o Kane-Wia, porém, ainda que socorrido pelo seu companheiro, já não voltou. Nesse local foi mais tarde erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII.



QUE SUBA O MWATA O KANE-WIA

O tempo arrasta garroa
como se fosse um vento fétido
expirado por deuses amnésicos.
Na noite, oximalankas e mabecos,
dão risadas sob o luar da Morte.

O tempo traz garroa no ventre
e uma aridez uterina ondula despertando
o Kazumbi ancestral que vem dizendo:
– Que suba o mwata o Kane-Wia,
Depressa-depressa!
– Que suba o mwata o Kane-Wia,
a montanha quem sobe não volta
para nunca mais impedir a chuva
sobre a terra, roseira bela!

– Que suba o mwata o Kane-Wia,
deixando açucenas florindo
nos ombros dos caminhos e sobre a terra,
roseira bela, a chuva crepitando
purgando e redimindo nosso corpo
desalmado e sem sentido.
– Que suba o mwata o Kane-Wia...

Namibiano Ferreira (in No Vento e No Tempo)

Mwata – senhor, chefe, líder. Oximalankas – hienas.Mabeco – cão selvagem.
 ver também AQUI


 O Deserto, tal como o mar apresenta-nos aspectos ilusórios, efeitos singulares produzidos pela luz solar nas areas finas e escaldanres - as Miragens -  sobre as quais Henrique Galvão in Outras Terras, Outras Gentes refere:  “Com a força do sol multiplicam-se efeitos de miragem. Ora vemos lagos espelhentos  que se somem na terra, à medida que nos aproximamos, ora parece o próprio mar
que está na nossa frente, com arquipélagos fantásticos e silhuetas de veleiros”. 





Wildlife já se habituou a vida no deserto

 
 



Muitos destes animais que outrora deambulavam livres e felizes pelo Deserto do Namibe, a guerra pós-independência fez liquidar e dispersar..



 
                                                                                         Daqui



 Daqui

Alguém um dia passou por aqui e resolveu começar... Em seguida tornou-se um ritual para todos aqueles que passavam por aqui a caminho do parque do Iona... O viajante deve depositar uma pedra para ter sorte. Em consequência, já não há pedras no raio de 200 metros. Não obstante, hoje veicula-se a ideia da existência de uma tradição herero que diz ser  este o local do túmulo de um soba. Será?


      Mais um quilómetro e estamos no local em que o Cunene encontra o mar. Emoção sem medida.
                                           Pelicanos, patos e outras aves na foz do Cunene.
                                         Início do regresso rumo ao norte, sempre pela costa.



   


CANÇÃO DO SILÊNCIO





Ouvindo o silêncio das coisas remotas,
Distingo legendas que os outros não
lêem...
Vislumbro paisagens confusas, remotas,
- Silhuetas de imagens que muitos não
vêem!...
Desvendo os mistérios da selva distante,
Aonde costuma rugir o leão...
- Arroios cantando, num som murmurante,
Anharas perdidas p'ra além do sertão...
Capim verdejante nas húmidas chanas,
Lençol de esmeralda que o sol vai
Corando ...
Matizes da selva, luar das savanas,
Mabecos fugindo, pacaças pastando...
Silêncio das noites sombrias, caladas,
Segredos da selva, murmúrios da aragem...
-Holongos ligeiros, fugindo, em manadas,
Regatos correndo por entre a folhagem...

Latidos de hienas em torno dos quimbos,
Já dentro da noite, se a fome as aperta;
Quimbundas alegres, sachando os arimbos
Depois que o som cavo do goma as desperta
Chingufos ao longe - rufar permanente -
Chamando ao batuque de intensa folgança...
E os pretos, gingando pra trás e pra
Frente,
Agitam as ancas na febre da dança!...
E a lua, do alto - qual "hostia boiante" -

Envolve o cenário num manto sidério...
- Canção do silêncio da selva distante,
Bem poucos entendem teu som de mistério!

M. Correia da Silva



Situado sobre uma falésia frontal ao mar e à praia, próximo à foz do Rio dos Flamingos surge ao viajante o Flamingo Lodge, localizado na costa a cerca de 70 km  de Moçâmedes, zona desabitada, cujo mar suporta populações de peixes praticamente intocadas, e paisagens desérticas altamente diversificadas, contendo algumas áreas de especial beleza. É hoje o local ideal para a pesca com anzol, mergulho, caminhadas,  passeios em moto-quatro ou com veículos e barcos infláveis e quad-bikes, local onde podemos observar tartarugas, tubarões, golfinhos, baleias, pelicanos e flamingos, focas, caranguejos, etc, que povoam o mar e a praia...





Zona da Baía dos Tigres
Por aqui pode-se fazer uma paragem rápida para apanhar enormes de mexilhões ...

O trajecto até à Baía dos Tigres de jeep, ou melhor, à ilha que já foi cabo e que se isolou, ou indo mais além, através das escaldantes areias, entre uma parede de dunas o mar, é uma autêntica aventura que obriga o condutor a partir de determinada altura a ter que a vazar os pneus,  seguir em alta velocidade num  trajecto em que o veículo não pode parar para não enterrar e  obriga a uma atenção permanente à subida da maré para que esta não o leve.

 
 DAQUI 



Bando de pelicanos na Foz do
Rio Cunene com as dunas por trás. Foto DAQUI

Para os lados do mar desdobrava-se um cordão arenoso de enseadas e baías, divididas por arribas de um dourado vivo, confinantes com o deserto do Namibe...


DESERTO

Cruzei tuas areias tantas vezes sem destino
Pasmei com a beleza agreste dos teus cactos
Nas tuas dunas fui solitário peregrino
Saciei a minha sede nos teus odres fartos
Dos alcantilados desnudos e arenosos
Dourei-me em poentes e mágicas auroras
Mergulhei no oceano meus olhos temerosos
Banhei-me em tuas águas sulfurosas.

Figuras monumentais, formas estranhas
Esculpidas pelos ventos cortantes erosivos
Escorpiões, lagartos coloridos e aranhas
Esgueirando-se ligeiros, prudentes e esquivos
Ágatas de mil cores colorindo o teu regaço
Arcos, gargantas e grutas majestosas
Fendido por rios aluviónicos o teu espaço
Florindo com a escassa chuva, a erva formosa

E à noite quando as estrelas brilham mais
Sentado ao calor das fogueiras na negrura
Ouviam-se histórias antigas de gado e mucubais
Evocando a terra do mel do leite e da fartura
E então nas madrugadas calmas, sonolentas
Aguardando do sol o cálido beijo matinal
Dissolvendo as neblinas, rasteiras, friorentas
Perante os meus olhos o meu deserto universal.

Dias de Sousa



Daqui

Finalmente e após uma viagem extenuante através do deserto em que dunas são vencidas graças a muita persistência, é possível alcançar-se o rio Cunene e passar para o outro lado, até à capital da Namíbia, Windhoek, ou prosseguir até à Africa so Sul...


 
  Daqui





 
 Fotos retiradas da Net em relação às quais ainda não consegui detectar o autor para aqui colocar a devida referência

Nesta zona as águas da costa são geladas devido à corrente de Benguela, que flui para o norte ao longo do sudoeste da África, transportando consigo uma parte das águas antárticas. Com o movimento da corrente e o vento sudoeste intenso, ocorre o “upwelling”,  fenômeno que traz camadas profundas de água mais fria e rica em nutrientes para a superfície, sustentando animais e plantas microscópicas que alimentam grandes populações de peixes, que por sua vez são fonte de proteína para animais maiores, como foca, golfinhos e aves.

Daqui
 Foto DAQUI



Mais para  sul a Namibia e a Costa dos Esqueletos...




Trecho da Costa dos Esqueletos, Namíbia, África Ocidental

A Costa dos Esqueletos, já na Namibia (ex-sudoeste Africano) é um território inóspito dentro de uma paisagem desoladora. Aos náufragos que alguma vez atingiam a praia, vencendo águas demasiado frias e correntes sobre-humanas, só lhes restava festejar o adiamento da morte porque os esperava um deserto quente e seco, ainda mais cruel que o oceano.




UMA REFERÊNCIA ESPECIAL AOS POVOS DO DESERTO DO NAMIBE:


Os primeiros habitantes do  território actualmente ocupado por Angola foram povos caçadores  caçadores-recolectores  originários da África Central, os Pigmeus (Mbuti), que passaram a ocupar as florestas-galeria na metade norte do território (Províncias de Kongo, Uíge, Kuanza-Norte e Lundas) e os Khoisan, Bosquímanos ou Mukalas (escravos segundo os bantos). Foram provavelmente os únicos habitantes da zona até ao século XIV, e ocuparam os extensos planaltos interiores das províncias de Benguela, Huambo, Bié, Moxico, Kuando-Kubango, Cunene, Huíla e Namibe na época que os bantos vieram do norte e uma parte se teria fixado a norte e ao sul da parte inferior do Rio Congo ou Zaire. Acredita-se que os koisan tenham remota origem caucasiana.



 Boquímanos ou mukankalas, "os verdadeiros donos" de Angola
DAQUI

O povo bosquimano ou mukankala do grupo Koisan foi aquele que primeiro surgiu no território que é actualmente ocupado por Angola. Ancestralmente adaptados à vida no Deserto, possuem características físicas e antropológicas que os diferem de todas as outras raças do mundo: cor terrosa clara, olhos rasgados e oblíquos de oriental (bons para proteção da forte luminosidade ), as pernas são desproporcionalmente compridas em relação ao tronco. Os pés são bem largos, com dedos curtos, adaptados para as caminhadas pelas areias do deserto

Perseguidos pelos povos bantos quando estes, séculos mais tarde, provenientes da África Central começaram a descer rumo ao sul e a leste,  este povo encontra-se actualmente reduzido a pequenas populações vivendo principalmente no deserto do Kalahari (Namíbia) e no deserto do Namibe (Angola). Os bosquímanos ou mukankalas vivem como vivíamos há 100 mil anos. Entre eles não existem guerras, porque daado a vida simples que vêm desde sempre mantendo, não têm pelo que lutar:  não possuem terras, são nómades, e apenas precisam de se deslocar de um lado para outro com um mínimo de posses. Falam com estalidos na língua, como os xhôsas e outros bantos.


 Famílias de bosquímanos ou mukankalas
DAQUI



Mas há outros grupos não bantos descendentes deste povo: são os kuissis, mukuísses e kurokas, chamados pelos povos da etnia banto, por Wá-Twa (errantes), pelos escravos, por Ova-Zolotwa ( negros errantes, para distingui-los dos mukuankalas). Os kuissis vivem na faixa litorânea do norte do Namibe, entre o mar e o deserto, são descendentes mestiços dos mukuankalas e estão no mesmo estágio de evolução que eles. Vivem da caça e coleta de frutos, raízes, mel e répteis. Alimentam-se também de restos deixados pelos animais carnívoros. Os mukuisses "descendentes também dos mukuankalas -- linha étnica hotentote -- eram inicialmente sedentários. Alguns vivem atualmente nas cercanias do Morro Maluco, perto da Huíla. Não belicosos, sempre foram perseguidos pelos outros povos para serem utilizados como escravos. Tornaram-se em consequência, hábeis na fuga e na camuflagem. Como os seus perseguidores tentam pegá-los normalmente à mão, para não os danificarem para o trabalho escravo, os mukuísses untam o corpo com uma mistura à base de gordura animal, que os deixa escorregadios e lhes facilita se livrarem dos captores quando agarrados." Os kurokas são um povo pré-Bantu, com características físicas e antropológicas e fala similares às dos mukuankalas, mas em vez da cor terrosa, são negros.

ver também AQUI

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Foi, pois, só depois, muito tempo depois, que chegaram os "bantos" que hoje dominam. Foi apenas nos primeiros quinhentos anos da era actual, que as populações  da África Central deram inicio a uma série de migrações para leste e para sul, a que se chamou expansão banto, tendo uma parte se fixado a norte e ao sul da parte inferior do Rio Congo ou Zaire (bakongos), enquanto que outras populações que se fixaram inicialmente na região dos Grandes Lagos, no século XVII deslocaram-se para oeste, atravessando o alto Zambeze até ao Cunene (n`ganguelas, ovambos e xindongas). Em 1568  entraram pelo norte os jagas que são, através de cobates, empurrados pelos bakongo para sul, para a região de Cassange. No século XVI, ou mesmo antes, os Nhanecas entraram pelo sul de Angola, atravessaram o Cunene e instalaram-se no planalto Huila, enquanto ao mesmo tempo um outro povo, os Hereros, povo de pastores, abandonava a sua terra na região dos Grandes Lagos,  entraram pelo extremo leste de Angola, atravessaram o planalto do Bié e instalaram-se entre o Deserto do Namibe e a Serra da Chela, no sudoeste angolano.Já no século XVIII
  entraram os Ovambos ou Ambós provenientes do baixo Cubango, e estabeleceram-se entre o alto Cubango e o Cunene, enquanto os Quiocos abandonaram o Catanga, atravessaram o rio Cassai e instalaram-se de inicio na Lunda, no nordeste de Angola, migrando depois para sul. Finalmente, já no século XIX apareceram os cuangares, provenientes de Orange, na África do Sul , instalando-se primeiro no Alto Zambeze (macocolos), passando alguns passaram para o Cuangar no extremo sudoeste angolano, onde estão hoje, entre os rios Cubango e Cuando. As guerras entre estes povos eram frequentes. Os migrantes mais tardios eram obrigados a combater os que se estavam estabelecidos para lhes conquistar terras.  Infs de Wikipedia
Ver tb AQUI

"...Secos, altivos e ferozmente independentes, os Cuvales chegaram ao território com as suas mulheres de invulgar beleza - os olhos amendoados e cintilantes, o sorriso enigmático, a cabeça coberta pelo gracioso chapéu de pele de carneiro - e procederam sem delongas à conquista das áreas mais fecundas. (...)

Senhores de uma nova pátria, desembaraçados de qualquer oposição séria, os Cuvales, tal como os restantes hereros, disseminaram pelo território a sua lei (...)."

(José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa, 1999)- Lisboa, 1999)
Família Himba
DAQUI

A tribo Himba é uma das mais fascinantes de África. Os Himbas (ou Ovahimbas) são uma tribo do grupo étnico dos Hereros, tal como os Cuvales, que, vindos da Etiópia com as suas ovelhas e bois no século XVI, atravessaram a Africa, estenderam-se pelo Sul de Angola, nas proximidades do Cunene, e um número elevado atravessou mesmo a correnteza, fixando-se nas paragens áridas e fascinantes do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã), vivendo uma vida semi-nómada sem terem em conta fronteiras  por onde vagam à vontade ainda hoje, caminhando pelo deserto às vezes mais de 80 Km a pé em busca de água para o gado. Criadores de gado excepcionais, são considerados como um dos últimos povos pastores nómadas. 

É surpreendente hoje em dia a forma como ainda se mantêm tão ligados às tradições e, principalmente, ao seu antigo modo de vida. Parte da resposta, dizem alguns, reside no facto de se tratar de um povo extremamente orgulhoso, fiel às suas origens, que não tem pressa nem sequer pretende aderir às “maravilhas” civilizacionais a que outros grupos, tal como os bosquímanos, que acabaram por sucumbir, em muito por entre essa "maravilha"  que se chama  álcool.

senhora himba / kaokaveld
A bela imagem de uma Himba

Um rapaz himba


as belas e coquetes "mulheres vermelhas" que não dispensam os seus adornos


e  os seus artísticos e belos penteados...de um gosto estético fora do comum...






Mulheres da etnia Himba, habitantes da região Norte da Namíbia, consideradas as mais belas e elegantes habitantes do Deserto do Namibe...São objecto de muita curiosidade por aqueles que visita a zona onde habitam, em Angola, a norte do Cunene.  Elegantes, coquetes e belas elas  untam o corpo com um "creme ocre" que fabricam com manteiga do leite das vacas ou cabras, que misturam com uma fina terra avermelhada extraída do deserto, moida e misturada também com o suco de um cacto. Tudo isso faz a maquilhagem  "atractiva" que usam e a cor avermelhada da pele que ostentam, maquilhagem que também   lhes serve para se protegerem do vento e do sol, bem como das mordidas dos insectos. À estética utilizada no cuidado dos seus corpos e dos seus rostos, elas juntam o gosto pelos penteados e conseguem efeitos dignos de uma obra de arte. Adornam-se com uma infinidade de pulseiras, colares e curtas peças de vestuário, feitas de quase tudo o que lhes é possível utilizar: cobre, búzios, ráfia, pedrinhas, peles, paus e mesmo plásticos, que cortam e decoram de forma igualmente tradicional – não importa de onde vem, desde que possam utilizar como sempre utilizaram ou como bem entendem. São um povo de feições e estatura elegantes, de fazer inveja aos modelos ocidentais. Os Himba, trata-se de uma tribo baseada numa sociedade matriarcal, com as mulheres a ocuparem o papel central Elas gerem os filhos, possuem as casas, o gado e os vários utensílios que existem nas aldeias. 
foto DAQUI
Ver também AQUI







O Deserto do Namibe penetra a Namibia...

Onde já é Kalahari . Possui vasta área coberta por areia avermelhada sem afloramento de água com  caráter permanente. Não é um deserto verdadeiro. Partes dele possuem bastante vegetação, sendo realmente árido somente no sudoeste (menos de 175 mm de chuva ao ano), o que dele faz  um deserto de fósseis. As temperaturas no verão do Kalahari vão de 20 a 40°C. No inverno possui um clima seco e frio com geada à noite, e as temperaturas podem descer abaixo de 0°C. No verão em algumas regiões pode alcançar 50°C





Nos tribos
E assobios
Dos pássaros bravios
Ouço a tua voz Angola.
Dos fios
Esguios
Em arrepios
De mulembas sólidas
Escorre a tua voz Angola.

Nas ondas calemas
Barcos e velas
Dongos traineiras
Âncoras e cordas
Freme a tua voz Angola.

Em rios torrentes
Regatos marulhentos
Lagoas dormentes
Onde morrem poentes
Brilha a tua voz Angola.

No andar da palanca
No chifre do olongo
No mosqueado da onça
No enrolar da serpente
Inscreve-se a tua voz Angola.

No acordar dos quimbos
Nos cúmulos e nimbos
Nos vapores tímidos
Em manhãs de cacimbo
Flutua a tua voz Angola.

Na pedra da encosta
No cristal de rocha
Na montanha inóspita
No miolo e na crosta
Talha-se a tua voz Angola.

Do chiar dos guindastes
Do estalar dos braços
Do esforço e do cansaço
Emerge a tua voz Angola.

No ronco da barragem
No camião da estrada
No comboio malandro
Nos gados transumantes
Ecoa a tua voz Angola.

Dos bongos e cuicas
Concertinas apitos
Que animam rebitas
Farras das antigas
Salta a tua voz Angola.

A flor da buganvilia
A rosa e o lírio
Cachos de gladíolos
O gengibre e a cola
Perfumam a tua voz Angola.

Ouve-se e sente-se e brilha
A tua voz Angola

Inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
A tua voz Angola

Vai com o vento goteja com o suor
A tua voz Angola

Por toda a parte por toda a parte
A tua voz Angola

Que voz é essa tão forte e omnipresente
Angola?

Que voz é essa omnipresente e permanente
Angola?

É a voz dos vivos e dos mortos
De Angola
É a voz das esperanças e malogros
De Angola
é a voz das derrotas e vitórias
De Angola
É a voz do passado do presente e do porvir
De Angola
É a voz do resistir
De Angola
É a voz dum guerrilheiro
De Angola
É a voz dum pioneiro
De Angola.

Antero Abreu
in "A Tua Voz Angola


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LIVRO 

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MariaNJardim

Hoquistas de Moçâmedes, Angola (Namibe) em Nova Lisboa: Atlético Clube de Moçâmedes e adeptos na década de 1960. Equipa Maravilha.

 



Estava-se em 1962 em Nova Lisboa. Este foi o primeiro ano de uma série de vitórias que iria tornar famosa a «Equipa Maravilha», do Atlético Clube de Moçâmedes, na classe de júniores. O Atlético acabaria por se consagrar campeão após ter vencido a equipa do Sporting de Luanda, em encontro realizado em Nova Lisboa. Era também este o último ano da equipa na categoria de juniores. Um verdadeiro feito ao qual que se seguiram outros feitos, na medida em que iriam vencer também os Campeonatos nos anos que se seguiram: 1963, 1964 e 1965, este último, já na classe de seniores.

Entre hoquistas, adeptos e gente conhecida, na foto acima: João Mangericão (Neco)???, Hemitério Alves (dirigente), Manuel Rios, Mário Andrade Vieira, Rui Mangericão, Artur Trindade, Congo (irmão do Xico Bamba de Nova Lisboa), Arménio Jardim (treinador), Laurentino Jardim, Arménio Minas, José Ramos da Cruz (Zequinha), Laurindo Couto, Alberto Costa, Reinaldo Chibante, Orlando Saraiva dos Santos (dirigente), Soares, Veiga, João Germano Códinha Fernandes e António Mafra. Embaixo: ?, Carlos Brazão (Touro), Orlando Santos (Camona), Chico do Carmo, José Costa , Pedro Costa (Caála), Daniel Couto, Costa (Caála), José Adriano Borges, Henrique Minas (dirigente), Fernando Leonel Pita (Leona), Laurindo Couto, Manuel Rios, Castro (tropa).
 




A equipa em 1962. Da esq. para a dt. Em cima: Raul Jardim (Baía), Laurindo Couto, José Adriano Borges (treinador), C. Brazão e Mário António (Graúna) Embaixo: Eloi Craveiro, Laurentino Jardim e Orlando Santos (Camona)


A equipa "Maravilha" vencedora do Campeonato de Angola de juniores 1962. Da esq. para a dt. Em cima: Arménio Jardim (treinador), Laurentino Jardim, Eloi Craveiro e Laurindo Couto . Embaixo: C. Brazão, Carlos Chalupa e Orlando Santos (Camona)

 

A «equipa maravilha» posando para a posteridade, acompanhada por dirigentes, treinador e adeptos do clube, por ocasião da vitória alcançada no Campeonato de Angola 1962. Da esq. para a dt, em cima: Arménio Jardim (treinador), Hemitério Alves (dirigente), Rui Minas, Laurentino Jardim, Eloi Craveiro, Laurindo Couto, José Adriano Borges (treinador séniores), Leonel Fernando P. Sousa, João Martins (Latinhas), Reinaldo Chibante, Saraiva dos Santos (dirigente) e Henrique Minas (dirigente). Embaixo: Chico Carmo (reinador basquetebol masc.), Orlando Santos (Camona), C. Brazão e Daniel Couto.
 

Em 1963 a «Equipa Maravilha» de oquei em patins (juniores) do Atlético Clube de Moçâmedes que viria a ser tricampeã de Angola (Selecção de Moçâmedes Juniores 1963). Em cima: Carlos Chalupa, José Adriano Borges (treinador), Eloi Craveiro, Laurentino Jardim. Embaixo: Rui Minas, Orlando Santos, Brazão, Raul Jardim (Baía) e Laurindo Couto.


















 
 
Recepção à equipa  «Equipa Maravilha», no seu regresso a Moçâmedes, após terem vencido o Campeonato de Angola 1964, sagrando-se tri-campeã.
À chegada
a Moçãmedes havia gente com cartazes à sua espera no aeroporto, e em seguida várias viaturas percorreram as ruas da cidade, por onde os vencedores foram saudados e aclamados. Uma homenagem demasiado simples para tão grande feito. Os campeões mereciam muito mais!

Nessa altura o Atlético encontrava-se em grande luta pela sua sobrevivência, sem uma ajuda mínima do Governo Civil e da Câmara Municipal, e as forças vivas da cidade pareciam pouco ou nada sensibilizadas em relação ao desporto junior.

Outras referências a esta equipa, podem ser lidas mais abaixo.

Para saber mais, clicar AQUI


05 novembro 2011

O passeio domingueiro às "Hortas" em Moçâmedes (actual Namibe). A "Horta" do Torres. A romaria anual à Capela do Quipola.



 
Numa das ruas de Moçâmedes, algures nos anos 1920. Foto cedida a LaySilva, por Antunes da Cunha e publicada em Mazungue.


Começo por colocar as fotos mais antigas a que tive acesso sobre o  assunto em questão, na Moçâmedes daquele tempo (esta, de princípios do século XX. Trata-se, na maioria,  de um grupo crianças e jovens de origem europeia, cerimoniosamente vestidos, preparando-se para serem levadas, no interior de uma carroça tipo boer, para uma qualquer  festa, talvez mesmo até para um passeio às Hortas, ou em romaria à capela de Nossa Senhora do Quipola, como acontecia no dia 8 de Dezembro de cada ano.  Tirada por volta de 1910/20 (?). Quero lembrar que naquele tempo, até mesmo para as caçadas no deserto do Namibe, as pessoas de uma pequena burguesia que ali se desenvolveu, integrando alguns descendentes de luso-brasileiros fundadores, e não só, vestiam-se como mandava o figurino metropolitano a época. Homens de gravata, e senhoras vestidas de acordo com meio ambiente a frequentar... Há fotos que mostram isso mesmo. 

Nesta foto elementos da mesma família (Antunes da Cunha), numa das Hortas de Moçâmedes, que à época exibia um arvoredo luxuriante como se pode ver.  Os Antunes da Cunha eram uma família bem posicionada socialmente. Foto de Antunes da Cunha por via de Lay Silva (Sanzalangola).


 
Hortas de Moçâmedes



Segue na íntegra um texto interessante sobre esse Oásis, da obra "Distrito de Mossamedes", 1892, Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913:  
"...A 3 kilometros ao norte da villa de Mossâmedes encontra-se a povoação das Hortas, delicioso oásis, que pela abundância e frescura da sua viçosa arborisação, cuidadosamente cultivada em alamedas de refrigerantes som-bras e parques de odoríferas flores e saborosos fructos, forma um ameno sitio de villegiatura com bellos chales e óptimas casas de campo, banhadas pelas frescas brisas do  mar e onde se abriga a elite da sociedade de Mossamedes durante a estação calmosa.

Esta povoação com vastos terrenos agricultados assenta sobre o valle do rio Bero, cujo fértil solo se acha occupado por 40 propriedades agrícolas que abastecem Mossamedes de fructos, legumes e hortaliças. Os terrenos doeste valle occupam extensas várzeas cultivadas sendo as principaes: as Hortas, Cavalleiros, S. António, Boa Esperança, Boa Vista, e Bemfica, por entre as quaes passam boas estradas carreteiras. As principaes culturas são: cana saecharina, que fornece boa aguardente, o cará, que constitue a principal alimentação dos serviçaes, o algodão, muitas variedades de legumes, hortaliças e cereaes e grande numero de arvores fructiferas da Europa, como: larangeiras, limoeiros, figueiras, macieiras, pereiras, alfarrobeiras, cidreiras, oliveiras, videiras, etc.

A sua producção annual em aguardente é de 500 pipas. A distancia de 8 kilometros do rio Bero, caminhando para o norte, encontra-se o valle do rio Giraul, cavado em terreno accidentado por montanhas de grés e gneiss e profundas ravinas escalvadas. Nelle estão estabelecidas 6 propriedades agricolas que produzem : algodão, cana, cará, hortaliças, cereaes e fructas. Estas propriedades luctam com grandes difficuldades por falta d'agua para a irrigação das culturas, sendo necessário nos annos seccos extrahil-a de poços por meio de
bombas centrífugas e estanca-rios movidos a vapor á pro-fundidade de 20 e 31 metros. Produzem annualmente 410 pipas de aguardente." 

Fim de transcrição.

Continuemos...


A "ida às Hortas" começou na Europa como um hábito burguês cultivado nos finais do século XIX, que tinha por fim aliviar a pressão exercida nas pessoas pelo ambiente contaminado das cidades, devido ao fumo das fábricas por força do avanço da industrialização. 

Este hábito com o decorrer do tempo foi-se democratizando, e como tantos outros, penetrou em Portugal e foi levado para África, neste caso para Moçâmedes, em Angola, através dos colonos que idos da Metrópole, iam chegando, e popularizou-se.

Imaginemos as primeiras famílias que o cultivaram em Moçâmedes, deslocando-se em carroças de estilo boer, puxadas por manadas de bois,  munidas dos seus "comes-e-bebes" destinados aos piqueniques...
Não sou deste tempo, mas recordo que almoços e piqueniques, tal como as romarias ao Quipola, ainda aconteciam em meados da década de 1950. Era aos domingos, preferencialmente no verão, pois nesse tempo o dia de sábado era dia de trabalho, pelo menos da parte da manhã. 


 
Jovens moçamedenses banhando-se no tanque da "Horta" do Torres. Foto Salvador
A Horta do Torres era a minha preferida.  Nesta foto podemos ver elementos da juventude moçamedense da época banhando-se no tanque da Horta do Torres, que era para os mais jovens um grande atractivo. Destinado ao represamento de água doce para rega das plantações, que era efectuada através de um sistema de valas, etc, este tanque, com a sua forma rectangular, situado ao ar livre, convidava a malta feliz e contente a umas banhocas e a uns mergulhos, qual piscina olímpica de tratasse.  Os jovens que aqui se banham, refrescam e divertem-se, no início dos anos 1950, são: de frente para trás: Mavilde, Fernando Andrade Vieira (com a bola), Dudu Carvalho, Costinha, Calila, ?, Mário Bagarrão, Maria Augusta Esteves, Carvalho (Caparula), Orlando Salvador (junto do muro),?,?, Na parte exterior do tanque, de frente para trás: ???, Celeste Barbosa, Fernanda Pólvora Dias, Carolina Mangericão, ?, ?, e Luzete Sousa.

Sem sombra para dúvidas, tal como as romarias ao Quipola, os passeios às Hortas proporcionavam momentos de lazer inesquecíveis que ficaram para sempre gravados nas memórias das gentes que por lá passaram. Na ida às "Hortas" passeava-se, dançava-se, conversava-se, namorava-se, cantava-se, tocavam-se vários instrumentos: guitarra, bandolim, acordeão, etc. (se houvesse no grupo alguém vocacionado para tal), jogava-se às cartas, descansava-se e até se dormia a sesta (os homens mais velhos...), e tudo isso à sombra de frondosas àrvores carregadas de saborosas mangas, goiabeiras, oliveiras,  e junto a latadas de videiras carregadas de uvas que o solo do Namibe era pródigo em oferecer.

Pormenorizando, diremos que a hora da refeição representava um momento essencial que reunia toda a família e amigos em volta da longa mesa onde eram estendidas várias toalhas e onde cada família colocava o seu «farnel», cada um melhor que o outro, onde nada faltava: croquetes, rissóis, panados, pastéis de massa tenra, frangos corados, sandwiches, bolos, pudins, refrigerantes da fábrica do Pereira Simões (gasosas), e outros como as deliciosas carbo-cidrais,  as coca-pinhas muito angolanas, e ainda cervejas, vinhos, etc. E um nunca mais acabar de pequenas gulodices que faziam as delícias  de miúdos e graúdos.  

Muitas vezes as refeições eram  confeccionadas já após a chegada às "Hortas". As famílias levavam de casa  para além dos ingredientes,  um pequeno fogão alimentado a petróleo ,  e era ali mesmo, a um cantinho, que se cozinhava algo delicioso que podia bem ser uma caldeirada de peixe acabado de pesca, ou de cabrito encomendado de véspera num dos talhos da cidade, fornecidos por criadores do distrito.  O momento da refeição era todo ele um momento de alegre confraternização, e no final da mesma enquanto as nossas mães  cuidavam da louça e da arrumação dos cestos, nossos pais jogavam às cartas uns, outros descansavam, os jovens divertiam-se conversando, namorando, e as crianças  corriam, saltavam, trepavam às àrvores, colhiam frutos com os quais se deliciavam, investigavam cantos recantos, davam os restos da comida aos animais do pequeno zoo, e desfrutavam a valer daqueles momentos de verdadeira «rédea solta».

Abro aqui um parêntesis para fazer um elogio às mães de família da minha terra, daquele tempo. Eram senhoras muito prendadas, que sabiam fazer de tudo um pouco, com organização e método, e faziam o dinheiro esticar como boas gestoras que eram do orçamento familiar. Estou a falar desse tempo em que as nossas mães eram donas de casa, inteiramente dedicadas com esmero à família e ao lar.



Uvas de Moçâmedes. Foto da Agência Geral do Ultramar

Não deixarei de lembrar  o quanto na região de Moçâmedes  poderia ter sido altamente rentável a cultura da vinha e da oliveira, não fosse o proteccionismo exasperado que  a Metrópole fazia em relação ao Ultramar, impedido a sua exploração. É que da Metrópole vinha o vinho e o azeite para as colónias, cujo consumo representava uma boa renda em relação à qual os interessados não estavam dispostos a abdicar. 


 

Oliveiras das Hortas


Era de facto deslumbrante a diversidade de árvores de fruto existentes no Distrito, desde mangueiras,  goiabeiras, macieiras, bananeiras, laranjeiras, tangerineiras, figueiras, oliveiras, tamarineiros, mamoeiros,  etc. etc, que lançavam para o ar o seu agradável e característico odôr.




"O distrito de Moçâmedes possuia uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraul: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especiamente na margem esq, que se cultivaram as melhores àrvores de fruto de todo o sul do distrito. Na margem esquerda eram os mamoeiros, os diospirios, as bananeiras ,as nespera-cereja-dendém, o palmeira de óleo palma., et., etc. A razão é que na margem esq., dada a inclinação do terreno e à presença de uma lage cerca 5 km , há curso de àgua permanente e à dt. apenas por infiltração. Na margem esq., o 1º colono aí se instalou foi o bacharel em medicina J. Duarte de Almeida tendo bastado construir uma vala para apoveitamento água do rio ao longo do qual instalou comportas que forneciam água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçãmedes, proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia tendo que a aguardar de novo por infiltração que as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem dt. necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esq. os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes e os da dt. a plumagem era negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto diferente, côr e tamanho. Havia no distrito 8 exemplares de alfarrobeira cidade a dar fruto e decorar rua cidade entre Administração do Concelho Civil do Concelho e a Escola Portugal e também pitangueiras e tamareiras a embelezar as propriedades e os jardins. Também nas ruas, havia a jubea trazida pelos colonos de Pernambuco, a gravílea ,a acácia, o jacarandá, a ravenela ou árvore dos viajantes, a buganvília as euforbiáceas, os hibiscus e tantas outras. Havia a paleira de leque «Ravenala» (urânia-soberba), que crescem margens Cunene, Cuando e Bero, descoberta em Madagáscar no século xvi e trazida para os jardins de várias cidades mundo…" Fim de citação.

Seguem algumas fotos disponibilizadas pelos nossos conterrâneos...
Uma família num desses passeios às "Hortas" de Moçâmedes.





Piquenique típico que juntou alguns elementos das famílias Mascarenhas, Ferreira e Almeida. À entrada da Horta existia uma grande mesa que ficava a meio de uma rua ladeada por arvores de fruto. Cedida por Margarida Mascarenhas. 

Foto do meu álbum

1951. Euzinha, quando tinha 11 anos e a minha tia Lídia Rosa de Sousa Alcario, posando para a posteridade na Horta do Torres. A tia Lídia  que vivia em Porto Alexandre onde o marido, poeta alentejano de Moura, Rodrigo Baião Alcario, era chefe da Guarda Fiscal. Foto do meu álbum.


 

 Passeio à Horta do Torres em 1955. Euzinha de novo aqui já com  15 anos, à frente e à esq. Ao meu lado a minha avó Maria da Conceição, , a seguir Eduarda Vicente, Guilherme Jardim, e no lado dt. 
a tia Maria do Carmo (Carminha), e marido, António Gonçalves de Matos. A seguir o João Ilha (óculos escuros) Vicente, Edmundo Seixal, etc etc Foto do meu álbum. 




Outra foto tirada no mesmo dia na "Horta" do Torres em Moçâmedes. Foto do meu album.


Também no mesmo dia na "Horta" do Torres, em meados de 1950. Com o braço no ar Arnaldo Bagarrão, tendo a seu lado Arnaldo Nunes de Almeida, seguido de Alberto Miranda, de mim . À dt Claudete Bagarrão  e Elizabete Bagarrão e ao fundo Eduarda Vicente e Guilherme Jardim. Em cima da mesa o pormenor das espigardas (para caçar pássaros?). Foto do meu álbum.






No mesmo dia, na "Horta" do Torres: Em cima: O casal António Gonçalves de Matos (Sopapo) e Maria do Carmo Paulo Matos (Carminha), Maria da Purificação Vicente (Gigi), e  Manuela Seixal (Nélita). Embaixo: Alberto Miranda e Maria Lizete Ferreira. Foto do meu álbum.



Ainda no mesmo dia , junto do Chalet da "Horta" do Torres, de cima para baixo, ali estou de novo, seguida da Eduarda Vicente e as manas Claudete e Elizabete Bagarrão.  Foto do meu álbum.



Grupo de moçamedenses num passeio à Horta do Torres, em meados da década de 1950. Em cima, da esq para a dt: Etelvina Ferreira, Graciana Martins Nunes, Olimpia Aquino, Marizete Veiga e Lizete Ferreira. Embaixo: Raquel Nunes, Violete Velhinho e Fernando Miranda. Foto do album de Olimpia Aquino.


A "Horta do Torres" ficava na margem esquerda do rio Bero, antes da passagem da ponte sobre o mesmo rio. Eis como um registo jornalístico efectuado por ocasião da visita a Moçâmedes, em 1938, do Presidente Carmona, tão fielmente a descreve: 

«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» 


Boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162



Mas havia outras "Hortas" nas margens direita e esquerda do rio Bero, igualmente agradáveis de  visitar. Eram elas as "Hortas" do Venâncio Guimarães (Benfica e Boavista, esta no Quipola), a do Costa Santos (Macala), a do Vaz Pereira (um pouco antes do Quipola), a do Martins Pereira (na margem direita do rio), etc. Mais recente, a "Horta" de Prazeres Madeira, na margem esquerda do Rio Bero, que integrava um belo palacete conhecido por "Chalet da  Horta da Nação". O edifício apresenta-se  ainda em bom estado, com pintura em côr azul forte, como se pode ver.  Acredita-se que seja o  palacete  mencionado por Balsemão,  mandado construir pelo Dr Lapa e Faro, o 1º médico de Moçâmedes, que foi  contemporâneo  da fundação, ainda que não pertencesse ao grupo dos fundadores luso-brasileiros de Pernambuco. 

 Segundo Vitor Mendonça Torres, "...fazia parte da propriedade que vinha das salinas até às Hortas  do Torres (Benfica incluso) e foi vendida em lotes ao seu tio Gaspar Madeira e depois passou em herança para o irmão Prazeres,  e a de Benfica para o Venâncio Guimarães.

As "Hortas" situadas na margem esquerda do Bero tinham a vantagem de facilitar os transportes, sobretudo em épocas de cheias, antes da construção da ponte, devido às enxurradas que por vezes aconteciam, vindas do planalto, que tornavam problemática a travessia do rio.  
Lá para finais dos anos 50 em diante, as "Hortas" passaram a ser um lugar de atração para grupos de jovens, rapazes e/ou raparigas, que para ali se deslocavam de bicicleta já sem a presença das famílias, à guisa de exercício físico ou até mesmo para fazerem pequenos piquenique.


Foto cedida por Fernanda Barata

Esta foto tirada na década de 1960 mostra-nos um grupo de estudantes divertindo-se  nas "Hortas". Entre eles, reconheço, à esq. Cidália Calão (1ª à esq.) e Miguel (Miguelito, o 4º à esq.. falecido ainda jovem), irmão de Fernanda Barata (Porto Alexandre/Moçâmedes).

Outras iam de bicicleta... Reconheço nesta foto, da esq. para a dt, de pé: Lalai Jardim, Nide e Claudete Figueiredo? Sentada reconheço Júlia Castro (a 3ª à dt). Tudo gente do Atlético Clube de Moçâmedes, basquetebolistas ou adeptas do clube.

Quanto aos meios de transporte utilizados, se de início as pessoas eram transportadas para as "Hortas" em carroças puxadas por bois, ou até mesmo em tipoias, lá para finais dos anos 1940, quando os veículos automóveis em Moçâmedes já eram uma realidade, mas ainda não abundavam, juntavam-se grupos de familiares e de amigos, quotizavam-se, e faziam-se transportar em carrinhas ou em camionetas de aluguer, de caixa aberta. Acontecia porém, que o trajecto para as Hortas era por vezes problemático. A estrada não era asfaltada, e muito pó se "comia" pelo caminho, sobretudo aqueles que viajavam na parte de trás das tais carrinhas e camionetas. Ver as 2 fotos a seguir.

 

Familias em camioneta alugada a caminho das Hortas...Foto cedida por amigos.   Eis uma "camioneta"!  Era assim que entre nós era conhecido este tipo de veículo automóvel, de caixa aberta, destinado a transporte de mercadorias,  que nestas ocasiões servia para transportar pessoas, uma vez que nesse tempo não eram muitas as famílias  que dispunham de transporte automóvel próprio. Nesta foto encontra-se muita gente conhecida de Moçâmedes e de Sá da Bandeira. Estão aqui elementos das famílias Teixeira, Castro, Sousa, Ferreira e Jardim




Familias em camião alugado a caminho das Hortas... Foto Salvador

Outras vezes organizavam-se passeios à "Praia das Conchas", à "Praia Amélia", etc etc. Aqui as famílias Matias, Paulo, Marques, Salvador. Foto cedida gentilmente por amigos. Interdita para reprodução em obras e para fins lucrativos

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 Várias famílias: Nascimento, Custódio, Gastão, Passos Marques, Salvador,  num passeio à Hortas em finais de 1950. Foto Salvador.

 

Famílias Almeida, Mascarenhas, Carequeja, Teixeira...,   num passeio à Hortas em finais de 1950.

Mas pessoas havia que optavam pelos piqueniques tradicionais feitos no chão, onde estendiam uma toalha, sobre a qual depositavam os comes e bebes, as guloseimas, etc, e à roda da qual  ficavam sentadas, e ali se mantinham, conversando e divertindo-se, com pausas para pequenos passeios e caminhadas, e assim perfaziam o tempo até que chegasse a hora de regressar a casa.  Foto Salvador.

 



  Esta foto mostra-nos a entrada da "Horta" do Torres.  Vista do interior, podemos os visitantes procuram interagir sim as gazelas e com  um guelengue que por ali andavam.  À esquerda podemos ver parte do chalé do proprietário (foto Salvador). Esta Horta possuía um pequeno zoo com alguns animais capturados no Deserto do Namibe (gazelas, olongos, bambis, guelengues, impalas, etc.) para além de macacos, viveiros com passarinhos, etc. E creio que cheguei a ver por ali, algures nos anos 1940, um velho leão enjaulado...




Horta do Torres vista de fora

A "Horta" do Torres é aquela em relação à qual possuo memórias mais vivificadas. A entrada para a Horta  fazia-se através de um grande portão de ferro, datado do século XIX, que ficava aberto durante todo dia. Deste portão tive recentemente notícia que o mesmo se encontra desaparecido. Passando o portão, o visitante tinha à sua frente uma extensa rua a percorrer ladeada por frondosas árvores que proporcionavam uma sombra refrescante,  a meio da qual ficava uma longa mesa servida de  bancos corridos, preparada para almoços e piqueniques , que comportava  um elevado número de pessoas.  
 


Eis a parte central do bonito Chalet da "Horta" do Torres que não foi convenientemente protegido nos tempos que se seguiram à independência de Angola, em 1975, e que acabou por cair naturalmente após umas fortes chuvadas,.. Uma pena, pois seria uma mais valia para Moçâmedes e a sua História.

O belo casarão de estilo colonial, de inspiração romântica/arte noveau, que pertenceu à familia  Mendonça Torres (foto retirada da Separata Nr.6 da Revista Africana, Universidade Portugalense, Porto, 1990, intitulada " Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola" ,  do autor Cecílio Moreira).  

Por estas escadarias subiu o Principe Real quando em 1907 visitou Moçâmedes, nesse ano da subida de vila a cidade em cerimoniais que tiveram a sua presença. o Principe  deslocou-se às"Hortas", à casa de campo da familia "Torres",  subiu os degraus da varanda senhorial  que dava acesso à vasta sala de jantar da bela mansão, apreciou o chão de azulejaria à belle-époque, o tecto de pinho da Metrópole, as paredes cobertas de frescos com cenas campestres algo barrocas. Ali almoçou em meio àquele  cenário idílico, ponto de encontro de piqueniques e almoçaradas, dotado de um espaçoso pátio com seus coretos, longas alamedas, numa palavra frescos oásis  onde as oliveiras com viviam com as bananeiras, as  palmeiras, as mangueiras, etc, e onde se cultivava a mandioca, a papaia, o melão, cultivos de várias espécies para consumo da cidade.


A ida às"Hortas" constituiu-se, pois, num verdadeiro culto  que perdurou forte, entre nós, pelo menos até finais dos anos 1950, pelo menos durante todo um tempo em que em Moçâmedes "todos nos conhecíamos, e todos éramos primos e primas...".

O culto do "Passeio às Hortas" surgiu na Europa em finais do século XIX, inícios do século XX, na chamada "Belle Époque", numa altura em que no seio do povo que vivia nas grandes cidades havia emergido uma nova classe, a burguesia, fruto da industrialização, essa mesma classe que dispondo de melhores condições, sentiu necessidade de respirar ares do campo, face à poluição do ar produzida pelos fumos das fábricas. Por mecanismos de imitação social, com o rodar do tempo este uso e costume proletarizou-se, vulgarizou-se, estendendo-se a todas as classes sociais.
Moçâmedes foi fundada em 1849, e presume-se que este culto tenha sido muito forte desde a fundação, e começou a declinar com o surgimento de novas formas de lazer e de  entretenimento que foram penetrando no nosso pequeno burgo, com as inovações surgidas em todo o mundo ocidental no pós II Grande Guerra (1939-45), que vieram  alterar  usos e costumes antigos, como este, que em breve não passariam de gratas recordações em velhos albúns e retratos de família. A partir dos anos 60, tudo em Angola mudou vertiginosamente, com a chegada em massa de muitos metropolitanos.

Também contribuiu para esse recuo a afirmação do modelo de família nuclear,mais restrita, mais autónoma e individualista, que desenvolveu um modo de ser e de estar que nada tinha a ver com a família extensa dos tempos, constituída por um grande número de filhos, onde coexistiam 3 gerações, chegando a juntar-se à volta de uma  mesma mesa, em amena confraternização, avós, pais, filhos, netos, bisnetos,  até tios, primos, sobrinhos, e mesmo compadres e amigos...  


Quanto às novas formas de lazer que tiveram lugar, estou a lembrar-me dessa famosa década de 1950 em que num repente a pacata cidade de Moçâmedes (que desde há uns anos tinha passado a dispôr do seu Rádio Clube e do seu Cine Teatro), passou a contar com um grande número de pessoas,  homens e mulheres, jovens e adultos,  intensamente envolvidos em eventos sociais de toda a ordem: programas radiofónicos de variedades organizados pelo mesmo RCM,  "Programas da Simpatia" (o grande sucesso de Carlos Moutinho), momentos de prazer que cativaram gente de todas as idades.  Até os passeios na Avenida, que não se sabe desde quando, mas que até bem dentro dos anos 1950 se encontrava transformada numa espécie de "picadeiro",  o nosso "passeio público", sobretudo após as sessões da tarde (matinées) no Cine Moçâmedes, não resistiu à viragem do tempo num mundo em mudança. Como eram doces esses tempos em que altifalantes pendurados em frondosas árvores na Avenida da República, transmitiam para quem quisesse ouvir (e curiosos não faltavam), música a pedido, entrevistas ocasionais que eram feitas às pessoas,  e se realizavam concursos infantis, etc, etc., tendo como epicentro o velho Coreto, onde de quando em quando bandas de música iam tocar...

A década de 1950, a primeira grande década da mudança, foi também aquela em que se assistiu à organização de inúmeros  bailes e matinées dançantes, realizados aos fins de semana quer no salão de festas do Atlético Clube de Moçâmedes, quer no Clube Náutico "Casino".   Para trás tinham ficado os salões do Ginásio da Torre do Tombo e do Aero Clube de Moçâmedes, bastante concorridos nos anos 1940.   

Também no campo desportivo esta década foi aquela em que se assistiu a uma autêntica  explosão de novas modalidades, com especial ênfase para o hóquei em patins e para o basquetebol feminino, com toda a juventude a participar, e gente de todas as idades e de ambos os sexos a acorrer aos campos de jogos para aplaudir os clubes e os atletas da sua preferência.  Para além destas, outras modalidades se incrementaram, tais como a vela (Sharps e Snypes), a pesca desportiva, a caça submarina, os circuitos automóveis, etc, etc.

A partir dos anos 1960, foi a vez da inauguração das animadas e deveras atractivas "Festas do Mar".  Dir-se-ia que o Verão de Moçâmedes em menos de uma década tornara-se curto para comportar tanta opção ao alcançe de uma pequena população,  como era a daquele tempo.

E foi assim que o passeio domingueiro às Hortas foi ficando para trás... E as romarias ao Quipola foram perdendo o brilho.

Não posso terminar este texto sem deixar aqui um registo muito especial aos proprietários das "Hortas do Torres" que as disponibilizavam de tal modo que tinham sempre as suas portas totalmente abertas aos visitantes, e a tal ponto que nem havia necessidade de se pedir autorização para lá entrar. E mais, no regresso a casa, geralmente levávamos connosco sacos cheios de fruta que nos era oferecida, e enquanto ali, retirávamos quanta fruta quiséssemos das árvores para comer, sem quaisquer problemas.

Não me lembro de ter saboreado tão deliciosas mangas como as pequeninas (manguitos) das Hortas de Moçâmedes!

Sobre as romarias à Capela de Nossa Senhora do Quipola, pode ver AQUI




Ficam mais estas recordações.

(ass) MariaNJardim



(1) Em Angola como sabemos chove no Verão. Em Moçâmedes, não obstante a baixa pluviosidade (não chovia  durante os 8 meses do ano),  de quando em quando aconteciam grandes enxurradas,  que aconteciam normalmente em Fevereiro ou Março, e prejudicavam o trajecto entre a cidade e as zonas para além rio, nesse tempo em que o leito do rio Bero não estava regulado como viera a acontecer mais tarde, nem havia ainda a ponte sobre o Bero. Quando tal acontecia, os abastecimentos diários de legumes e frutas às «quitandas» da cidade eram transportados, atravessando o rio em carroças puxadas por bois, cujas rodas facilmente enterravam na lama. Também enterravam na lama os pneus dos veículos automóveis que se atreviam à travessia.  Alturas havia em que os próprios comboios que vinham de Sá da Bandeira tinham que ficar no Saco do Giraúl, e as pessoas e mercadorias tinham que ser transportadas através de barcaças ou batelões para a cidade.  Salvava a situação, a escassez de chuvas e o facto do rio só possuir água noVerão, quando chovia.Era o atraso em que, intencionalmente, por esta altura, ainda se encontrava Angola!

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Ainda que se trate de épocas diferentes, vale a pena ler o que sobre vegetais nas Várzeas do Bero, escrevia em 1858 (9 anos após a fundação de Mossâmedes, João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião em Mossâmedes:

"...Em outra occasião darei uma enumeração de todas as plantas importantes que vivem em Mossamedes, liroitando-me por agora a mencionar as arvores e arbustos que já aqui se plantaram, e que são:
Amygdalus pérsica. L.—Pecegueiro.
Mangifera iudia L.—Manga,
Olea europea L.—Oliveira.
Pirus malus L.—Maceira. (Existe um só individuo de cada uma d'estas quatro espécies, e ainda com pequeno crescimento.)
Carica papaya—Mamoeiros. (Poucos ha plantados.)
Ficus carica L.—Figueira.
Anacardium occidentale—Cajueiro.
Pessidium pomiferum—Goiaba. (Estas tres ultimas espécies começam a propagar-se, e dão excellentes productos; as figueiras ganham pouca altura.)
Citrus aurantiura L.—Larangeira" bergamium L.—Limeira.  limonum L.—Limoeiro.  medica L.—Cidreira. (São ainda raras estas quatro plantas, e só vegetam bem nos logares abrigados das virações.)
Cocus nucifera L.—Coqueiro.
Phenixdactylifera L.—Tamareira. (Os coqueiros, e não ha muitos, têem bom desenvolvimento, mas parece que não fructiíicam. As tamareiras dão algum fructo de muito má qualidade.)
Gossypsium herbaceum L.—Algodoeiro. (Dá-se bem, e já existem algumas plantações d'este arbusto.)
Morus nigra L.—Amoreira. (Algumas ha, e com crescimento, que muito fructiíicam.)
Musa L.—Bananeira. (Esta é das plantas mais cultivadas, ofterecendo algumas quatro ou cinco espécies.)
Púnica granatum L.—Romeira. (Acha-se bastante propagada.)
Yitis vinifera L.—Videira. (Vegeta e fructifica muito bem. Apresenta cinco variedades: moscatel, ferral, malvazia, ainda com curiosidade de uma só pessoa, bastardo e dedo de dama, mais vulgarisadas. Todas eatas variedades ou espécies têem sido cultivadas para parreiras, ainda se não plantaram para vinha, o que muito conviria experimentar, porque as extensas e incultas várzeas dos Casados se devem prestar a esta cultura.)

"...A cultura mais ou menos aperfeiçoada constitui  um dos meios mais poderosos que o homem pôde aproveitar em favor da sua espécie. Um  solo sem cultura não offerece recursos para a subsistência do homem; e de todas as modificações que esta pode imprimir na salubridade das regiões, a mais importante é a formação de arvoredos; elles operam como apparelhos de condensação dos vapores atmosphericos, purificam o ar, assimilando as emanações miasmaticas, são obstáculos naturaes aos ventos violentos ou nocivos, e oppera-se ao desmoronamento dos terrenos.
Achando-se esta possessão ainda bastante afastada das referidas condições de salubridade, e merecendo os melhoramentos de que é susceptível, indicarei alguns meios que convém empregar.
Como para os habitantes de Mossamedes se torna muito difficil o obterem de outra parte qualquer cousa que precisem, pela falta de relações e communicações em que se acham, conviria que o Governo prestasse auxilio de mandar sementes, pés ou enxertos de arvores próprias tanto para viverem nos terrenos arenosos que circumdara a villa, escolhendo espécies de prompto crescimento e boa sombra, como para povoarem as várzeas quasi desertas, dando preferencia para este local ás espécies fructiferas. Alem d'isto, não podendo a agricultura n'esta colónia progredir, sem que obtenha o quádruplo dos braços que hoje possue, deveria o mesmo Governo facilitara transportação dos libertos de que os colonos necessitassem.

"....Por outro lado, á Camara Municipal do districto pertencem outros misteres. Deverá esta encarregar-se de dirigir a plantação das ditas arvores, escolhendo os sitios mais convenientes, vigiar no que diz respeito á conservação d'ellas, tomar mesmo a seu cargo e despendio o tratamento que exigirem as que forem postas em logares públicos, e impôr certas obrigações ou condições aos donos das propriedades onde também forem collocadas. A estrada plana e direita, que atravessa a várzea dos Casados, e conduz aos Cavalleiros, quanto ficaria bella se fosse cercada por duas alas de arvoredo; o mesmo direi de alguns caminhos da Boa Esperança, etc. É também de muita importância o limitar por meio de arvoredos a corrente do rio, que passa pelo meio das várzeas, porque sem este obstáculo se favorece a successiva ele vação do fundo sobre que correm as aguas, passando estas cada vez mais a invadir as margens. O ricinus communis, L , mamona; o populus nigra L., choupo; o salix alba, L, salgueiro, são as arvores que para isto melhor se prestam; crescem muito depressa, enraizam bem, e propagam-se com grande facilidade. Á mesma Camara compele mandar aterrar os logares cavados onde permanecem aguas estagnadas, ou abrir canaes para dar vasão a estas mesmas aguas. Emfim ainda uma outra medida resta a empregar mais tarde, vem a ser: o tirar do centro da villa as pescarias e colloca-las no sacco do Giraul. É este um local que reúne todas as condições favoráveis para taes estabelecimentos. Mossamedes, 15 de Fevereiro de 1858.= João Cabral Pereira Lapa e Faro, Cirurgião de segunda Classe da Armada, em commissão, Annais do Conc Ultramarino, Parte não Oficial, série 1 Set.1858


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Aqui vai o desenho de uma "sanga" (desenho de de Carlos Janeiro) que existia em muitas casas de Moçâmedes e nesta também, junto à varanda, para apanhar o fresco da noite.  Encontrei nas páginas de um das separatas do autor Cecílio Moreira, separata n.6 da Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola.  A velha "sanga", que ,como dizia Cecilio Moreira, deixou saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho muito agradável... Eram construidas por artistas canteiros de Moçâmedes (quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra de forma de cubo ou de paralelipípedo, que desbastavam com maceto de ferro e cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. Na cavidade cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros, tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e também servia de decoração. Eram, regra geral, colocados em varandas, e escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e 1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo Belga, o Congo francês, S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.

 MariaNJardim





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