18 agosto 2018

A fundação de Moçâmedes e a revolução praieira


                                                                                             
            

                                                                               
(excerto)


«(...) Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e atual, pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação da colônia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram Pernambuco em conseqüência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da campanha antilusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos célebres movimentos chamados “mata marinheiro”. A narrativa não tem indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de 1850 do diretor da colônia. Intitula-se "A Colônia de Moçâmedes. História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos de Marinha e Ultramar". Começa: "No ano de 1848, grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de outubro de 1848, fez expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Batista Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o relatório não menciona o número exato dos emigrantes, nem a composição do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de quase todos os ofícios mecânicos"... "Os colonos portugueses que haviam resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de 1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo: "entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente chegados à África, o diretor da Colónia, que era o próprio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou a inspecionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a "extensíssima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva, e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira" dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a colônia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em abril de 1850 o diretor Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colônia, fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos colonos"... (...) »

Origem: http://bvjagm.fgf.org.br/obra/Imprensa/030404-00008.pdf.

            
                                                                                                        


 

17 agosto 2018

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

                                               
                                
 

Simão da Luz Soriano

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro                    António Sérgio de Sousa 





 

«Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata António Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser esta
belecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.


O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levandoem sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".

Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.




Em tempo:

Supresas por vezes nos esperam quando resolvemos aprofundar a verdade dos factos. Veja aqui quem foi Ângelo Francisco Carneiro:

"DE TRAFICANTE DE ESCRAVOS A VISCONDE DE LOURES: A TRAJETÓRIA ATLÂNTICA DE ANGELO FRANCISCO CARNEIRO1 Aline E. De Biase Albuquerque

"...Em agosto de 1842, o cônsul inglês em Pernambuco informava ao ministro Lord Palmerston que um traficante se organizava para desafiar a Inglaterra por ter tido um de seus navios negreiros apreendido. Na carta, ele dizia que o “Sr. Angelo”, o tal negociante, “era o mais bem sucedido e notório traficante de escravos do norte do Brasil” e que planejava pedir indenizações após a volta da barca Ermelinda ao Recife. Esse navio tinha sido apreendido em 1841, mas foi absolvido na Comissão Mista em Serra Leoa, até então, lugar certo de condenação pelos ingleses de navios engajados no tráfico ilegal de escravos. Por causa do notável desfecho, o armador e provável dono do barco se articulou para não só pedir indemnização pela “injusta captura” e estrago da carga, mas também enviar um outro navio à Costa da África com o sugestivo nome de Ermelinda Segunda e um objetivo específico de ser apreendido pelos ingleses. Com a embarcação Segunda, o “Sr. Angelo” pretendia ganhar indemnização duas vezes da Inglaterra pelos danos causados as suas negociações negreiras.3 O ousado traficante protagonista desse episódio era Angelo Francisco Carneiro, comerciante português estabelecido no Recife e futuro visconde de Loures. Dono de uma das maiores fortunas de Pernambuco, Angelo Francisco Carneiro foi comendador da Ordem de Cristo, gerente do consulado dos Estados Pontifícios e financiou os projetos de urbanização do Recife na década de 1840.4 O caráter negreiro dos seus negócios era de domínio público e foi alvo de comentários de estrangeiros como o citado agente inglês e o engenheiro francês Louis Vauthier. Sua carreira atlântica, iniciada antes mesmo da lei antitráfico de 1831, estruturou-se em redes negreiras que abrangiam e interligavam, principalmente, Recife, Angola e Rio de Janeiro.  (continua...)


  http://www.escravidaoeliberdade.com.br/congresso/index.php/E-X/7/paper/viewFile/161/71

PERNAMBUCO E ANGOLA




"Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".


BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello

http://www.fgf.org.br/bvjagm




 
...«A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira.

A campanha não se limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavaminteressados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849.

Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José Antônio Gonsalves de Mello · http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia autorização.
 

Fonte: MELLO, José Antonio Gonçalves de. Diário de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956

FONTE






OUTROS TEXTOS  CORRELACIONADOS

Sobre a revolução praieira:



Segundo Joaquim Nabuco em «Um estadista do Império»: 



"O povo pernambucano acreditava que possuia dois inimigos que o impediam de ganhar a vida e desfrutar algum bem estar . Eles eram os portugueses que monopolizavam o comércio das cidades e os senhores de engenho que monopolizam a terra no interior. A guerra dos praieiros era feita contra estes dois elementos, daí o seu carácter social mais do que político."

Sobre a «rebelião praieira» sabe-se que em 1848 os discursos radicais dos jornais agitaram de tal modo a população contra os portugueses que ali trabalhavam e a violência tomou proporções tais que levou a que pela primeira vez na história de Pernambuco, um grupo de 177 imigrantes tivesse pedido a ajuda da Corôa portuguesa para abandonar o Brasil e fundar uma nova colónia em Moçâmedes, Angola, onde tentaram uma nova vida com suas alfaias agrícolas e os seus engenhos de aguardente de cana. Um ano depois, nova leva de 125 colonos acompanhados das famílias, chegaram a Moçâmedes.

Ainda sobre Bernardino: Na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem.




A memória destes pioneiros encontra-se ainda hoje representada nas lápides mais antigas do Cemitério de Moçâmedes.

Mais inf. em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/263/26304509.pd
http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial/paginas/historia/124revolucao_praieira_1848.htm

http://www.pernambuco.com/diario/2004/01/27/opiniao.html
http://www.culturabrasil.pro.br/praieira.htm
Revista Lisbonense (troca de corresponência entre colonos de Mossãmedes e familiares em Portugal

Ver tb annais Cons Ultramarino 1879
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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro



 POBRE NA VIDA, POBRE NA MORTE

 

".....Sim. A Historia regista o seu nome como o de um dos meiores obreiros da pátria. Embora não lhe tenha sido prestada verdadeiramente a justiça que lhe é devida.

Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha sessenta e dois anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Cauda da morte: uma pneumonia dupla.

Não receberam bens de fortuna os seus herdeiros. Bernardino não fora para África para ser africanista, no sentido vulgar desta palavra. Para explorar os nativos, fazer fortuna e vir depois para a Metrópole com réditos de nababo que lhe dessem para viver à grande e ainda para com eles fazer ostentação de caridade-vaidade.

Pobre na vida, pobre na morte. Tão pobre que nem sequer se sabe em que local exacto foi sepultado no cemitério que mandara fazer, na cidade que fundara. Nem isto lhe falta para ser grande.

Sabe-se que Bernardino distribuia generosamente os seus bens pelos companheiros mais necessitados. Distribuia-os com a mão esquerda sem que a direita se apercebesse, o que quer dizer: sem vaidade, sem outro motivo que não fosse a verdadeira caridade.

A sua casa era uma espécie de hospedaria. Nela se acolhiam os homens do mar que aportavam em Moçâmedes. Nela se congregavam pobres e ricos, que para todos chegava o pão. O seu desejo era que todos os habitantes de Moçâmedes se sentissem bem na cidade, e pela cidade, e por aquela região de Angola, trabalhassem sem desfalecimentos. Escreveu um dia: "Portugal tornaria a florescer tanto ou mais do que quando possuia o Brasil, se soubesse aproveitar-se da utilidade que lhe podia resultar de ser senhor do centro de Angola."

Vinte anos depois da morte de Bernardino, isto é, em 1891, exactamente a 2 de  Junho de 1891, era concedida à cidade de Moçâmedes o Brasão de Armas, para distintivo honorífico do seu município. Termos sob os olhos esse brasão, cuja leitura é : um escudo aquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo, em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana-de-açucar, postos em aspa; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca, verde, sobre o mar, e no quarto, em campo vermelho, um arado de oiro; em contrapartida, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;  sobre o escudo a corôa mural, e, por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de oiro.

O brasão é quanto a nós a mais expressiva homenagem às virtudes do fundador da cidade. Nas armas de Portugal está assinalado o seu fervor patriótico. No ramo de algodoeiro, na cana-de-açucar e no arado, o seu amor à agricultura. No barco de pesca, o incremento que deu às pescarias da região. A legenda resume admiravelmente a constante do carácter de Bernardino: o seu amor ao trabalho.

Desse amor ao trabalho de Bernardino e seus companheiros nos dá conta Alfredo Felver, em artigo escrito a 04 de Agosto de 1926 no Jornal de Moçâmedes "O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a quatro de Agosto de 1859, ao festejarem o seu sétimo aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero, que tiveram de conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraúl, três; no Bumbo, duas; em S. Nicolau, três;  no Carunjamba, uma; no Curoca, três; na Huila, sete; e ainda a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Molondo, percorrendo o Sul de Angola em todas as direcções com as suas caravanas, e levando a sua penetração até além Cunene, aonde iam buscar o marfim.

Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado: em 1858 e em 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte  e um mil couros, cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batatas, e dezasseis toneladas de carne seca."

E termina o articulista:

"Que queriam que fizessem? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção de um sacerdote, ao abrir o relicário para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus." 

Obra sem par, a obra de Bernardino e seus companheiros. Henrique Galvão, na sua obra Angola -- Para uma nova política, volume 1, pág. 197, diz da obra em causa que ela foi "uma das notáveis obras portuguesas de povoamento, constituindo o único triunfo sério e respeitável em tal matéria". 

Com razão nos orgulhamos de Bernardino, considerando-o um dos maiores beirões de todos os tempos. Um daqueles "varões assinalados em quem poder não teve a morte".

 

In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes / Padre José Vicente (Gil Duarte). ... In: Dokumentation zum staatsstreich in Guine-Bissau : im November 1980 = Documentação sobre o golpe de Estado na Guiné

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CURIOSIDADES




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«Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes». Era seu Autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa.
Nesse livrinho, a páginas 14, vem referido um episódio, que procurarei resumir. Alguns anos antes, tinha-se deslocado a Lisboa um indivíduo de certa projecção social em Angola com os apelidos «Freire de Figueiredo Abreu e Castro». O Dr. Augusto Abranches Freire de Figueiredo (bisavô do confrade Nuno Canas Mendes), dirigiu-se imediatamente ao hotel onde ele se encontrava hospedado para inquirir sobre o grau de parentesco que os unia e obteve a seguinte resposta: «Não. Não somos parentes. A coincidência de apelidos explica-se desta forma: na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. Assim aconteceu aos meus antepassados, que não são, de facto, consanguíneos de Bernardino.»
É, pois, muito natural que a mudança de apelidos de seu Bisavô e irmãos se insira nesta curiosa moda que surgiu em Moçâmedes.

Ao rever o citado livro para lhe dar esta resposta, encontrei dentro um recorte do «Diário de Notícias» (sempre tive a mania de guardar papéis), com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Moçâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo – me leva a conjecturar que também fosse da sua família.
(...)Cumprimentos,
José Caldeira »
in www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=117179&fview=e







Nota sobre Bernardino: Confirma-se a ascendência nos Reis de Portugal. Para mais informações consulte: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=584348

Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes





«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:


«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».

In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.




Bernardino - o intelectual, o militar, o patriota, o exilado que se fez colono, "Fundador de Moçâmedes"


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é considerado pelos historiadores portugueses como o fundador da cidade de Moçâmedes, em meados do sec. XIX por colonos quando no areal imenso do deserto do Namibe bordejava por inteiro a baía do soba Mossungo.

Exilado em Pernambuco, no então Império do Brasil, Bernardino foi o mentor da 1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, também eles, radicados em Pernambuco,  de lá saíram no dia 23 de Maio de 1849 (166, entre homens, mulheres e crianças), com rota ao novo porto de Moçâmedes e com chegada ali no dia 4 de Agosto desse ano.

As políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da costa fora mandado fazer pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da "Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do século XVIII.

A chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe, revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão, fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da Huíla, com a introdução de novos colonos.

Uma biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à política, à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas lutas.

AS LUTAS DE UM GRANDE LÍDER E O PATRIOTA

Nasceu em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe. Esteve matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família e se alistara no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Participou na guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.

A guerra civil (1826-1834) foi dura e sangrenta e originou muitas baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu, e em 26 de Maio de 1834, tinha 25 anos de idade, assinava-se a convenção de Évora Monte de que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam dissolvidos e partiu para o exílio no dia 1 de Junho, desse ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e colaborou no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve, chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas tetranetas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos grandes heróis nacionais. Remexido tinha o seu quartel general na Serra de Monchique e foi mais tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo da Trindade em Faro, em 48 horas, por ter sido capturado de arma na mão, segundo a lei. A tomada de Albufeira tomou contornos duma verdadeira chacina e Remexido fora responsabilizado. Uma das vítimas dessa chacina foi Jacintho d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e curiosamente, a sua viúva e seu filho, com o mesmo nome, seriam os padrinhos duma minha tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.

Mas, o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse ganho a guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao juramento que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia, organizada por ele, em Pernambuco, não teria existido. A fundação de Moçâmedes não seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia). Não seria invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções, em aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO... BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos interselecções e amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias se terem oposto à sua demolição.

Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio Pernambucano. Escreve livros de carácter didático, como a História Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do Brasil.Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de Guararapes, na região do Recife.As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho teu."

Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais, casas, a ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.

Bernardino decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África.Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto.Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultâneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras angolanas.

Era funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do Negro". A seu ver, o local mais indicado para fixação europeia.O relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em Pernambuco, no Brasil.

É dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres) para a viagem. Adquiriu-se 3 engenhos de açúcar, que custaram 8.000 reis e seriam entregues a 3 sociedades ou a 3 concessionários, para exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras, sendo o primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos. Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno para construção de uma habitação e formar maior ou menor estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses, farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..


                                                     O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES



A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.

Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.

Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.


No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas.Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.

Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.

Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.

Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante. Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.

Não se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: sòmente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim, plantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições interselecções quando a claque o invocava em uníssono BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a alcançar a vitória.

A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás.

Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita.

Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com


21 julho 2018

Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do cais acostável de Moçâmedes, em Angola





Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se  do cais e prepara-se para encostrar... Fotos, históricas, marcam o momento da chegada do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo a Moçâmedes (actual cidade do Namibe), a bordo do paquete Uíge, em 24.05.1957, para inaugurar o 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.



O paquele "Uige" e a multidão que para ali se havia deslocado para assistir à inauguração, vistos do cimo da falésia




Panorâmicas do cais e da baía no decurso das obras da construção  Nesta 1ª fase das obras ainda a maioria das primitivas pescarias  alí se encontravam. Não tardaria muito a serem  demolidas, tenso em vista as obras do cais acostável e da avenida marginal de Moçâmedes.


Foto tirada em 1961, 5 anos após a inauguração da 1ª fase da construção cais acostável de Moçâmedes, e 7 anos após o lançamento da primeira pedra para  o início da mesma.

A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos,  pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno

O arranque deste 1º troco foi inaugurado com em cerinónia de colocação da 1ª pedra, pelo General Craveiro Lopes a Moçâmedes, no decurso da sua visita em 24.06.1954. Clicar AQUI.
 


(Parecer do Comandante Correia da Silva).
Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.
Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.
Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).
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Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.

…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.

Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.

A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.

O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.

Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.

A sua importância futura, é pois, considerável.

Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.

O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.

Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas

 


Do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres

 


Porto de Moçâmedes. Outras opiniões sobre o equipamento

(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico)

«Mossãmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Mossãmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
 

 Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.

 
 

Para mais informação: AQUI


Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.               



 
 Pesquisa de MariaNJardim

 Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.

-Para mais informação: AQUI -Para ver fotos sobre a visita do General Craveiro Lopes a Moçâmedes e a cerimónia da colocação da 1ª pedra, que em 24.06.1954 deu o arranque à construção do cais de Moçâmedes, clicar AQUI.

Nota: Agradece-se se forem daqui tiradas fotos e textos que não esqueçam os respectivos créditos de texto e de imagem.


18 julho 2018

O morro da Torre do Tombo. As «furnas» ou «grutas». As «inscrições»



O «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas históricas e numerosas «furnas» ou «grutas».
Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT


Outra foto do «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas «furnas» ou «grutas». Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT

Hoje já nenhuma destas «inscrições», verdadeiras preciosidades, podem ser vistas, nem pelas gentes que habitam Moçâmedes, nem pelo visitante ou pelo turista que ali se desloque. Porque simplesmente elas já não existem. Porém na data em que esta foto foi tirada,  provavelmente já em finais do século XIX, ou inícios do século XX,  estas eram, como vem legendado, as mais recentes «inscrições» do morro da Torre do Tombo, a Ocidente da povoação. Também das inúmeras «grutas» ou «furnas» que percorriam a base do morro, já muito poucas restam e estas em estado de lastimosa  degradação. Nada disto foi preservado, nem no tempo colonial nem no pós-independência, por falta de consciência daquilo que é um património histórico da humanidade. Uma falta de consciência que persiste e se prolonga no tempo...




O MORRO DA TORRE DO TOMBO: «FURNAS» OU «GRUTAS»  E  «INSCRIÇÕES»




Escavadas a punho na rocha branda desde tempos imemoriais, para servirem de abrigo a mareantes e  a corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada», ou seja, abasteciam-se de água potável e descansavam antes de prosseguirem viagem, foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de inegável valor histórico. A mais remota informação sobre este histórico local, vem-nos das «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha. Este autor diz-nos que foi o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, enquanto comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa,  quem pela primeira vez registou as referidas «inscrições» impressas na rocha branda do Morro da Torre do Tombo, quando fazia uma visita, em 1785,  à «Angra do Negro», nome pelo qual era designada a baía de Moçâmedes. E mais adianta que foi Pinheiro Furtado quem destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, que essas «inscrições» estavam datadas desde 1645 a 1770, como mais adiante se descreve. Aliás, pensa-se que foi Pinheiro Furtado quem primeiro deu o nome de «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e colocando uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.

Eis as inscrições, tal como foram registadas pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, conforme as «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha.

"Kemy 1723, II-IS-1766;

LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER GY 1665;

JAN DIER;

FRANCISCO DE BARROS,

BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;

o- FRN - PMO
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;

JOSÉ DA ROSA 1645;

MR 1649;

MEDIDA W 1768;

18-1770;

DE TONCHON;

RIO CONENE;

MUNDO en..65;

SF 1770;

Aqui esteve o patacho GOYA 1665;

MANUEL RODRIGUES COELHO;

MARTIM em 1770;

Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;

THOMAZ DE SOUSA;

O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;

O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;

Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;

JAN DIMMESEN 1669;

VNSSENGAE PARA 1669;

ADRIIEENDIRERSEN".

A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento transladado no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior:  «1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES ». 

Devemos, finalmente, salientar o  reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía», diferindo aquela data (1765) precisamente um século da primeira (1665). Acredita Sousa Dias, houvesse um erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.

Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:

"...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossamedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais."

"...Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. "

No segundo volume da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação: «...Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc... Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666». (Gastão de Sousa Dias, in "Pioneiros de Angola»)


Há notícia de que existia no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes cópia de um documento onde se podia ler o seguinte: «...lembraram-se três moradores de Moçâmedes, em 1858, de o desentulhar e de reproduzir as inscrições...»  Nesta página, não foi, porém, encontrada a referida inscrição de 1641. Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que a teria fixado em sua memória.

Encontrámos uma referência dos tempos em que o Brasil e Angola estiveram sob a ocupação holandesa, quando Salvador Correia de Sá e Benevides partiu para o Brasil em Dezembro de 1644, incumbido de organizar uma expedição de socorro a Angola, e logo ali contactou com o governador cessante do Rio de Janeiro que entretanto havia sido nomeado governador de Angola, encarregando-o da dita expedição. A partida de Souto-Maior para Angola ocorreu em 08 de Maio de 1645. A armada, constituída por 300 homens, fundeou na Enseada do Negro (Baía de Mossâmedes), a 10 de Julho de 1645, que não era então habitada, e de onde seguiu para norte (evitando Benguela, em poder dos holandeses), até chegar a Quicombo, onde ainda se encontrava um barco da expedição anterior. Porém perante o impasse, que em concreto nada modificou a precária situação em que se encontravam os portugueses em Angola, D. João IV propôs que fosse organizada uma nova expedição, que definitivamente libertasse Angola da ocupação holandesa, o que veio a acontecer em Maio de 1648. Nem o nome de Souto-Maior nem o ano da sua passagem pela  Angra do Negro vêm mencionados na vasta lista das inscrições registadas por Pinheiro Furtado, conforme as «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha.

No ano de 1862, sobre este assunto refere o autor anónimo de um  livro bastante crítico então publicado, e assim intitulado


...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram àquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous séculos.

(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes



Esta foto mostra-nos uma dessas "grutas" ou "furnas" que iam sendo utilizadas pelos proprietários das pescarias. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT


Estas são as instalações pesqueiras da firma de Martins Pereira/ex Morgado& Morgado, de concessão régia. Aqui podemos ver, à direita, uma das  muitas "grutas" ou "furnas" ali encontradas, então encoberta  pelas instalações pesqueiras.  Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT


 
 Um trecho do morro de Torre do Tombo





O morro da Torre do Tombo visto do mar. Esta é a zona onde ficavam as instalações da firma Morgado & Morgado, de concessão régia, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira

 


Ao centro desta foto vêem-se as instalações pesqueiras da firma Morgado & Morgado, de concessão régia, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira




Esta foto mostra-nos várias "inscrições", de entre as quais  ÍNDIA e SADO. Ainda que nos pareçam
"inscrições" forjadas e não reais, a verdade é que os nomes ali impresos, INDIA e SADO, estão intimamente ligados à História de Moçâmedes.   

A "inscrição" SADO remete-nos para a chegada a Moçâmedes do brigue assim designado, em Julho de 1857, transportando consigo 12 alunos da Casa Pia de Lisboa, e uma colónia de 29 alemães. Iam com destino à colonização das Terras Altas de Mossâmedes, como então se designava o planalto da Huila, e com o patrocínio de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos, com a recomendação ao Governador para que constituíssem com eles uma aldeia que deveria denominar-se "KRUSS", apelido do contratador.  

Este grupo, 16 dias após ter desembarcado em Moçâmedes, marchou rumo ao planalto durante 7 dias, com paragem de 2 dias no Bumbo, segundo informação de Francisco Godinho Cabral de Melo, de 22 de Junho de 1957. Acabou por desaparecer sem deixar vestígios, segundo refere Pereira do Nascimento (in "O Distrito de Mossamedes"), ou como refere Ponce de Leão no artº n. 4 do Jornal de Mossâmedes:  "Esfacelou-se pelos erros da sua organização"  (...) "Os alemães desgostosos perante os insucessos no interior acabaram por se estabelecer em Mossâmedes onde prestaram relevantes serviços".

Consultando o Boletim do Conselho Ultramarino: "Legislação Novissima", Volume 3 By Portugal, Conselho Ultramarino, podemos ver a lista dos nomes colonos alemães, bem como outros dados alusivos ao assunto, que por ser extensa não colocaremos aqui.


Quanto à "inscrição" ÍNDIA, esta remete-nos para a chegada a Moçâmedes, em 19 de Novembro de 1884, do navio com aquele nome, que  largara do Funchal, na Ilha da Madeira, a 18 de Outubro de 1884, carregando no bojo mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças e  mais uma criança, entretanto nascida a bordo, tendo por destino o planalto da Huila.  

Era o primeiro contingente de europeus que ia dar inicio ao povoamento branco das então designadas "Terras Altas  de Mossâmedes", concretizando um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e de pressão internacional, enquanto na Europa decorria a Conferência de Berlim (1884-1885) cujo objectivo era definir as regras para a partilha de África entre potências industrializadas.

Dava-se assim início à colonização europeia das terras de Moçâmedes, a sul de Benguela, uma precária colonização que por muito tempo esteve àquem da concretização do sonho do Visconde de Sá da Bandeira,  o liberal progressista que, aproveitando-se de uma conjuntura favorável, assinou e mandou publicar o  Decreto de 12 de Dezembro de 1836, visando a abolição do tráfico de escravos para  o Brasil e as Américas, e inaugurando um novo paradigma colonial de fixação e desenvolvimento para as colónias africanas. Foi  após a Conferência de Berlim que a ocupação efectiva passou a ser vista como uma prioridade. 

Por esta altura as famílias portuguesas preferiam  continuar a emigrar para o Brasil, a África era vista como um Cemitério para os europeus, devido a doenças mortais, como paludismo, malária, doença do sono que por lá livremente campeavam. Para Angola iam degredados, gente não grata, a cumprir as mais diversificadas penas, que em grande número por lá ficou, e deu mau nome à colonização.  No entanto, começava a ser difundida a ideia da benignidade do clima naquelas paragens do sul de Angola onde se se encontravam já instalados  desde 1849 os colonos fundadores de Moçâmedes, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, ali chegados, vindos de Pernambuco, em 1849, Brasil, fugidos da Revolução Praeeira.

Portugal detinha os "direitos históricos" mas não  uma "ocupação efectiva". O interior era praticamente desconhecido, não obstante a  expedição de Serpa Pinto, em 1869, ao Zambeze, e as expedições de Roberto Ivens e de Hermenegildo Capelo, em 1877,  entre Angola e a  Contra-Costa, sob os auspícios da Sociedade de Geografia, onde colheram todo um conjunto de registos geográficos, cartográficos e etnográficos com intenções políticas implícitas e bem definidas. Por essa altura a ocupação portuguesa encontrava-se reduzida ainda a pequenos nucleos instalados nas cidades litorâneas de Luanda, Benguela e Moçâmedes, sendo desconhecida a maior parte do interior do território angolano.


Sobre a odisseia dos madeirenses em terras de África poderá consultar mais dados AQUI 



Esta foto que se pressupõe seja de finais do século XIX,  mostra-nos o morro da Torre do Tombo  com as «grutas» ou «furnas» ainda soterradas pelas areias soltas acumuladas pelo vento que cobriam o morro até grande altura. Existem escritos dos quais existem cópias no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes que revelam que três moradores da povoação, em 1858, se lembraram de o desentulhar e de reproduzir as "inscrições". Nesses escritos encontravam-se descritas as inscrições, tal como Pinheiro Furtado as destacara num ofício, datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, onde referia que as mesmas estavam datadas desde 1645 a 1770. Não foi, porém referida inscrição de 1641. A este respeito consulte-se as Memórias «Histórico-Estatísticas de Brito Aranha.



Mais uma foto do morro da Torre do Tombo, onde foram encontradas as «grutas» ou «furnas»  e as célebres «inscrições» , e onde surgiram as primeiras e rudimentares pescarias.

Esta foto retrata a mesma zona das fotos anteriores, embora tirada de sul para norte. O morro de facto apresentava um aspecto desolador.



 Clicar sobre esta foto para ampliar.
Clicar sobre o Postal. É uma foto panorâmica
 


Aqui de novo a Pescaria de João da Carma/ João Martins Pereira,  apresentando aqui um estado lastimoso...



MEMÓRIAS COM HISTÓRIA



As "grutas" ou "furnas" dos meus avós




Deixo aqui algumas das memórias ainda vivas e claras que possuo de momentos vividos na minha infância e na minha adolescência, intimamente ligados a este histórico local.  Essas memórias tornaram-se mais transparentes quando deparei na net com esta foto há tanto desejada e finalmente conseguida,  a foto das "grutas" ou "furnas" que pertenceram à pescaria dos meus avós, situadas no morro da Torre do Tombo.

Embora esta foto não  mostre na íntegra aquilo que de facto eram as citadas "grutas" ou "furnas", uma vez que apenas nos mostra uma parte da fachada, e esta já em estado de degradação, fica-se com uma ideia do seu exterior, da porta da entrada, das janelas, e do troço de escadas que nos levava até elas, bem como se fica dos quartos em adobe que existiam no exterior, e que serviam de apoio à pescaria, também eles aqui já sem reboco e em estado lastimável. Enfim, uma paisagem da cor da areia, que me surge agora paupérrima e  triste, tal como surgia a «Mossâmedes do antigamente» aos olhos do poeta, conforme poema que se descreve a seguir:  



 Moçâmedes beijada pelo Deserto
 


"A velha ponte-cais

de traves carcomidas,
O morro triste,

 a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre

 da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos. (1)



Minha tia Lídia e meu irmão à porta da entrada das "grutas" ou "furnas"que nesta altura, devido à salinidade do mar já apresentavam um certo grau de desgaste na pintura exterior. Estava-se em 1940, o amo em que nasci.
                                  



Foi pois  com um certo requinte que meus avós transformaram numa casa de habitação essas 3  "grutas" ou "furnas", ao ponto de quem estivesse lá dentro não tivesse a mínima sensação de enclausuramento, e se sentisse como se estivesse no interior de uma habitação normal. E como as 3 "grutas" ou "furnas" ficavam num plano elevado em relação à base do morro, tiveram que construir uma escadaria em cimento para que a elas tivessem acesso. A verdade é que foram transformadas numa confortável habitação, com compartimentos de paredes rebocadas, caiadas, pintadas, quartos interligados entre si, ventilados através de janelas envidraçadas para o exterior, porta de entrada principal à qual se podia aceder  através daquele troço de escadas em cimento, que a foto permite ver. O tecto era alto, em abóbada, e tal como as paredes da entrada, encontrava-se rebocado e caiado de branco. Num dos compartimentos ficava uma sala comum, devidamente mobilada, com mesas, cadeiras, louceiro, um sofá onde se podia dormir, e pendurados encontravam-se um quadro e um relógio de parede. Noutro compartimento ficava o quarto de dormir,  com uma cama de casal em ferro, duas mesas de cabeceira, uma cómoda e um guarda roupa. No terceiro compartimento ficava uma rudimentar casa de banho, com chuveiro tipo balde de fabrico artesanal, feito de zinco ou latão, daqueles de colocar a água dentro, subir e descer na direcção do tecto, com a ajuda  de uma corda, onde ficava pendurado, pois na Moçâmedes da época era o que havia, e na zona a água canalizada chegou já nos anos 1950, e nem cacimbas havia de onde a retirar, tendo a água que ser acarretada em baldes, ou levada para as habitações em barris puxados por  cordas, a partir de chafarizes que existiam a considerável distância. Isto já em meados do século XX. A cozinha ficava num cantinho da «casa», num pequeno compartimento junto da entrada, e compunha-se de um  fogão a petróleo, existindo no lado de fora um forno em tijolo e barro, de formato arredondado, tipo antigo forno de padaria, com porta de abrir e fechar, onde se podia cozer o pão, os bolos, etc etc.   Lembro-me que na parte de fora havia uns  quantos vasos com flores que davam alguma alegria àquele ambiente árido e rudimentar, e que meus avós tinham plantado nas proximidades uma oliveira, que devido à salinidade e ao tipo de areia solta do terreno, nunca medrou. Talvez uma casuarina fosse a solução naquela terra árida e ressequida, onde nada medrava. Na verdade parece incrível que os meus avós tivessem conseguido  aquela verdadeira obra de arte, facilitada porque entre 1935/1940 tinham recebido uma herança de família vinda da Metrópole, e resolveram investir com paixão no seu arranjo, embora tivessem a morada de família numa casa grande e de boa construção para a época, no Bairro da Torre do Tombo, lá para os lados de uma pedreira que existia perto do local onde foi mais tarde construida a Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes.  É que as «grutas» ou «furnas» ficavam próximas dos armazéns do Sindicato da Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, onde meu avô trabalhava, ali ao lado da fábrica de conservas Sociedade Oceânica do Sul, S.O.S, a ex-Fábrica Africana,  e  ter uma casa ali facilitava a gestão do tempo.  Sei que era ali que ele almoçava, que dormia a sesta, regressando à casa grande da Torre do Tombo ao fim do dia. Soube que chegou a estar arrendada. Ficava junto da pequena pescaria dos meus avós, onde trabalhavam «quimbares», gente africana aportuguesa, descendente de antigos escravos, que se dedicavam-se voluntariamente à pesca à linha numa canôa (pequena embarcação), e ganhavam uma percentagem do pescado, com prévio acordo. Resta referir que estas «grutas» ou «furnas», pela forma cuidada em que se encontravam, eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português,  de passagem por Moçâmedes, que  não deixavam de as visitar, conduzidos para ali pelo grande amigo de Moçâmedes, o veterinário Dr. Carlos Carneiro. Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1938, estas "grutas" ou "furnas" foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e Cesaltina Carmona Silva e Costa, que ali se deslocaram acompanhadas de vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado.  Antes porém já havia sido visitadas por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que ali se deslocara no automóvel de Mário de Sousa  (proprietário de uma oficina de reparação de automóveis na Rua dos Pescadores e de um táxi), para combinar o momento da referida visita. Mário de Sousa era quem sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações, nesse tempo em que eram escassos os automóveis na cidade. Estas recordações que fazem parte da História de Moçâmedes, foram-me transmitidas por uma tia de nome Maria do Carmo, que tinha então 12 anos de idade, e que por ter o mesmo nome que  a Maria do Carmo Fragoso Carmona, esposa do Presidente da República, foi por esta convidada para prosseguir os estudos em  na Metrópole, sonho que não realizou porque a familia a tal não autorizou.

Convém ainda referir que as «grutas» ou furnas» dos meus avós se encontravam registadas na Conservatória de Moçâmedes e pagavam imposto ao Estado. Aliás quando o  Presidente Carmona visitou Moçâmedes, em 1838, meu avó apresentou uma reclamação a esse respeito, considerando que pagava indevidamente imposto  por aquele bem que encontrou completamente abandonado,  inserido numa zona não urbanizada, completamente entregue aos proprietários das pescarias, na maioria pescadores, tendo eles que abrir carreiros, uma vez que sequer uma estrada digna ali havia, por onde pudessem passar. 

Por esta altura, como mostram as fotos colocadas atrás, não havia estrada que permitisse avançar pela base do morro até às últimas pescarias que ficavam próximas da Ponta do Pau do Sul, existia apenas um carreiro através do qual se ia avançando, a pé, de pescaria em pescaria, uma vez que o morro ia até ao mar. E foi assim até à construção da Avenida Marginal e do Cais Comercial, iniciada em 1954, que levou ao desmantelamento  das pescarias. Eram precários meios de que dispunham os pescadores e os industriais-pescadores das primitivas pescarias da Torre do Tombo. Apenas o troço intermédio entre a Fábrica de Conservas S.O.S e os Armazéns do Sindicato da Pesca, mais tarde Grémio da Pesca, que ficava próximo da pescaria dos meus avós, pôde beneficiar de uma estrada de terra batida que permitia a um veículo passar. Não faltavam reclamações das gentes da terra sempre que uma personalidade de relevo a visitava. Angola esteve paralizada na fase em que decorreu a 1ª Grande Guerra de 1914-18 e durante a vigência da 1ª República como que estagnou. Entre 1939-45 foi a vez da 2ª Grande Guerra, e riso de novo paralisou Foi a partir da segunda metade do século XX que Angola entrou numa fase decisiva do seu desenvolvimento, de que Moçâmedes muito beneficiou. Em toda a primeira metade do século XX, a precaridade dos meios era enorme, e as ajudas estatais quase nulas.



 Eu e as velhas pescarias e a Avenida Felner, numa foto tirada pelo meu irmão, em 1955 do cimo do «morro» da Torre do Tombo, precisamente por cima do sitio onde ficavam  "grutas" ou "furnas" e  a pescaria dos meus avós



Nós, junto do morro, em 1955. Por esta altura estavam fazendo terraplanagens para as obras da marginal e do cais acostável. Ao fundo, à esq., vêem-se algumas "furnas" ou "grutas" a descoberto



 
 As eiras onde secavam o peixe




Eu e um prima rumando a caminho de uma pequena traineira (rapa), num pequeno barco a remos (chata)

 
Em 1954 começaram finalmente as obras do cais, que levaram a que fossem retiradas  do morro ou falésia da Torre do Tombo toneladas de areia  que alteraram a morfologia do terreno. A estrada que então havia sequer  permitia a um carro avançar até às pescarias mais distantes, que ficavam mais a Sul. 


MariaNJardim



Nota: Penso que as «furnas» ou «grutas» que acabei de citar são as mesmas  que podemos ver, na 8ª foto foto acima exposta, no canto superior esquerdo, então no estado natural. 

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 As pescarias até meados de 1950



AINDA SOBRE AS «FURNAS» ou «GRUTAS», e as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA TORRE DO TOMBO.
O que resta das mesmas e o significado histórico...





Na verdade conheci este local como às minhas mãos, porque era ali que ficavam as "grutas" ou "furnas" dos meus avós, a sua pescaria e a pescaria dos meus pais, esta lá mais para diante já próximo da Ponta do Pau do Sul, num local onde apenas se podia penetrar a pé. E em tempos mais recuados, apenas de barco.  


E também porque foi em Moçâmedes que nasceram meus pais, que nasci, que  casei e que nasceram os meus filhos. Na infância trepei algumas vezes este morro, de cima baixo e de baixo para cima, entrei em algumas dessas «grutas» ou «furnas», que na sua maior parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, onde se guardavam os apetrechos, redes, anzóis, tambores de alcatrão, bidões de óleo, caixotes, latas de tinta, etc etc. Nunca pensei que fossem tantas! 

Na adolescência assisti às demolições das pescarias que circundavam a falésia  da Torre do Tombo, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» até então escondidas pelas pescarias, a descoberto,  e mais expostas à erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem. Confesso que nunca pensei fossem tantas! Lamentavelmente, não me lembro de lhes ter dado alguma importância, não obstante as memórias que ainda hoje evocam.   Não admira!


Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias, por famílias dedicadas à pesca do atum,  que fizeram desaparecer as «inscrições» mais antigas, gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme nos diz Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que avança também que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro,  é também certo que outras mais recentes intervenções e insensibilidades acabaram por fazer desaparecer aquilo que restava de histórico neste local. quando, com a demolição das pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, na fase dos aterros e terraplanagens, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. 


Já alguém disse que um povo sem História é um povo sem memória que está fadado a cometer no presente e no futuro os mesmos erros do passado. A História é algo abrangente, ela está presente até no ar que respiramos. Então será que devemos esquecer que a velha "Angra do Negro" de Diogo Cão,  a «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas da zona, foi em tempos remotos ponto de passagem dos primeiros navegantes e corsários, que nas suas navegações ao longo de séculos pelo vasto mundo  ali faziam "aguada", ou seja, abasteciam-se da água do Bero, e descansavam antes de prosseguir viagem?  E que foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, datadas desde 1645 a 1770, e outras mais recentes que não chegaram aos nossos dias?

Para além do historial que ficou para trás, essas «furnas» ou «grutas» serviram também de primeira morada aos pioneiros algarvios de Olhão que começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861,  sem quaisquer ajudas dos Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. Eles levaram para Moçâmedes o seu saber de experiência feito, e com eles anzóis, redes, e tantos outros apetrechos, barcos, etc, que transmitiram a outro povos.

Trata-se pois de um verdadeiro «ex-libris», faz parte da História  de Angola, da História de Portugal e da História Universal. Um lugar pouco reconhecido e estimado, quer antes quer após a independência de Angola,  actualmente em processo de acelerada  degradação, bastando comparar o aspecto de então com o seu aspecto actual.




O bairro da Torre do Tombo na zona mais a sul, já a subir para o Canjeque e Praia Amélia, podendo ver-se as casas de traça portuguesa de João Duarte, outro dos ex-libris da cidade em estado decadente. 

Prossigamos com as nossas recordações sobre este histórico e mal cuidado local.  Em 24 de Junho de 1954, no decurso de uma visita a Moçâmedes do Presidente da República, General Craveiro Lopes, tiveram início as obras da marginal e do cais acostável. E em 24 de Maio de 1957 o 1º troço era inaugurado, com a presença do Governador Geral.




24 de Maio de 1957. Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se  do cais e prepara-se para encostrar...


 24 de Maio de 1957. Momentos da inauguração, com a presença de alunos do colégio e das escolas, futebolistas e basquetebolistas dos clubes da cidade, e povo em geral.




24 de Maio de 1957. O paquele "Uige" e a multidão, vistos do cimo do morro da Torre do Tombo. 
 

24 de Maio de 1957. De mais perto, o paquete e a multidão. As alunas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes abrem alas para o Governador passar. De entre outros reconhece-se Mário Guedes da Silva, Mário Rocha, e o professor Canedo. 24 de Maio de 1957.
  


24 de Maio de 1957. A aguardar a chegada do Governador Geral, o bispo da Diocese de Sá da Bandeira e elementos representativos das "forças vivas" da cidade


24 de Maio de 1957. O momento da entrega das chaves da cidade ao Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, pela basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Celísia Calão. A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Dr.Nunes da Ponte


A apresentação de cumprimentos de boas vindas ao Governador Geral de Angola, por elementos representativas das "Forças Vivas" da cidade, ou seja, da esquerda para a direita, o Dr Mário Moreira de Almeida (médico), Raúl Radich Junior, Rui de Mendonça Torres, Abilio Simões da Silva e Virgílio Carvalho de Oliveira.





24.05.1957. O momento simbólico do descerramento da placa comemorativa da inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.

 

Por baixo de um toldo erguido no cais, o Governador de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte, entre o Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, e o Dr. Mário Moreira de Almeida (Médico), presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, procede à assinatura do auto da inauguração.



O Governador Geral de Angola,Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, no topo da falésia, tendo a seu lado o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte. 




Finda a cerimónia, o cais vazio de gente... O paquete Uije descansa enquanto os visitantes e comitiva, forças vivas e povo se deslocam para outros pontos da cidade para  assistir a outras cerimónias. Na mesma data procedeu-se à inauguração do novo edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca do Distrito de Moçâmedes, e ainda  à cerimónia da colocação da primeira pedra que deu início à construção do complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, ambos os actos presididos pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.



Panorâmica do cais e da baía no decurso das obras da construção  nesta 1ª fase das obras, em que grande número das primitivas pescarias ainda ali se encontravam. Não tardariam muito a ser demolidas. Com as terraplanagens, o morro sofreu vários desgastes e as "grutas" ou "furnas" igualmente. Posteriormente estas têm continuado a sofrer a erosão do tempo, e as consequências trazidas pela mão dos homens...




A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos,  pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno.

 Foi assim que se apresentou à noite a baía de Moçâmedes quando da inauguração da Avenida Marginal em 1963. Fotos cedidas por Vitor Torres
O aspecto actual das «grutas» ou «furnas»



Termino com este texto carregado de significado, escrito pelo primeiro sociólogo angolano, Mário Pinto de Andrade, fundador  do MPLA, que lembra a necessidade quanto possível da preservação deste histórico local, que já não guarda as velhas «inscrições» de grande valor histórico, mas que ainda pode oferecer à cidade, a Angola, e ao mundo, com a preservação das "grutas" ou "furnas" que restam, testemunhos da história desse mesmo Mundo.


"...A cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»   in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].





(1) Era assim que o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes, entre de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito.  Não admira, este poema do início do século XIX, tempo de estagnação no  desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola,  tempos de total anarquia, tendo muitos  portugueses resolvido abandonar o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi melhor. Aliás, Portugal passou a olhar Angola como a nova "Joia da Corôa após a perda do Brasil, independente em 1822, mas tinha condições para avançar com grandes realizações. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa  em 1875, veio acompanhada de algumas boas vontades mas não foi suficiente. A Conferência de Berlim (1884-5) veio impôr uma nova ordem, e Portugal foi obrigado a uma ocupação efectiva das colónias e ao seu desenvolvimento, perdendo o direito histórico todo o valor. Foi então que com muita dificuldade se procurou fixar as bases de uma nova administração,  promover o povoamento com famílias portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Mas este foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de Matos, que em 1912 havia reacendido a esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a revolta dos autóctones eram uma realidade do que resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que fizeram de Moçâmedes o seu porto de desembarque. 

Muito haveria mais para dizer...




MARIANJARDIM



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