01 abril 2018

Moçâmedes: o Cinema inacabado

 O Cinema inacabado de Moçâmedes, em Angola






Quando se deu a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, uma nova casa de espectáculos estava em marcha em Moçâmedes, cuja arquitectura futurista, cósmica, espacial, inspirado nas criações da arquitectura brasileira, em arquitectos como  Oscar Niemeyer,  fazia lembrar um OVNI, com as suas "garras" fincadas à terra. Encontrava-se na fase terminal  da sua construção, já tinha os painéis que circundam a galeria colocado, a pintura interior concluída,  e não iria faltar muito tempo para ser inaugurada, testemunho vivo do quanto estávamos actualizados, pois na verdade nada do género vimos construído, na época, em território português. 


Este Cinema representa, pois, o culminar um movimento evolutivo das casas de Cinema em Angola, que tinham começado com os Cine-Teatros nos ano 1930,  progredido nos anos 1960 para os  Cine-Esplanada, e já nos anos 1970, à beira da Independencia de Angola, terminaria com os Cine-Estúdio, integrando a cidade de Moçâmedes (Namibe) no  topo desta corrente modernista internacional. 


Mas é preciso lembrar que foi nas colónias de África, em clima tropical, que os jovens arquitectos portugueses, fugindo às regras do Estado Novo, encontraram um espaço de liberdade criativa como não conheciam na Metrópole, puderam dar asas à imaginação, libertos dos condicionalismos de um  regime que não permitia tais ousadias, situação para o qual veio a contribuir as potencialidades construtivas do betão armado.



 
 A sala de espectáculos e a bela abóbada
O Palco
As galerias

 As galerias
 Os altos relevos que circundam as galerias com figuras africanas e europeias alusivas a Moçâmedes  à pesca e à "Praia das Miragens". obra do escultor Fernando Marques

 

 

 Os altos relevos que circundam as galerias, com figuras africanas e europeias alusivas a Moçâmedes e à pesca. à esq. o escultor Fernando Marques

Projecto para um painel


Segundo uns este Cine-estúdio iria chamar-se "Cine estúdio Arco Íris",  tal como o de Sá da Bandeira. Segundo outros, seria o "Cine estúdio Welwitschia", e ainda outros apontavam para  o "Cine estúdio Satélite" . Hoje é comum falar-se do "Cine-estúdio Namibe" como a obra interrompida por força de um processo histórico que arrancou de Angola praticamente a totalidade da população europeia,  e que ainda hoje por acabar, mais de 40 anos após a independência, o que é de lamentar, atendendo àquilo que de facto esta obra representa, ou seja, a penetração em terras de África de uma nova concepção de edifícios que se assemelham a naves espaciais, objectos voadores, estações em órbita no espaço celeste, uma arquitectura futurista de ponta, e sem paralelo na época.

Quanto ao empreiteiro que levou a cabo esta obra, temos a informação que foi Vasco Luz. Soubemos também  que foi com este empreiteiro que caiu a cúpula do Cinema na primeira vez que foi colocada, e que a mesma cúpula foi reposta êxito.


 Projecto para um painel


 Projecto para um painel

Repare-se na arquitectura dos interiores, nos pormenores dos altos-relevos das paredes das galerias que circundam o espaço central onde fica a sala de espectáculos... Descobrirão  figuras humanas que evocam vivências do tempo colonial,  de um passado mais recente (séc XX), uns com jovens banhistas europeias num dia de verão na "Praia das Miragens", outros com pescadores  algarvios e africanos arrastando as redes e o pescado para terra, ainda outros colhendo azeitonas e uvas das Hortas de Moçâmedes, de oliveiras e videiras, ou fazendo alusão ao Deserto do Namibe, aos animais do deserto, à welwitschia mirabilis, às espinheiras e  às mesetas, bem como à etnia prevalecente, os mucubaes.




 A planta do Cine-Estúdio


A planta do Cine-Estúdio


O Cine-Estúdio Inacabado, o Impala Cine, o Mercado Municipal e a Igreja de S. Pedro, são as quatro construções que representam a penetração em Moçâmedes (Namibe) da corrente de arquitectura moderna vanguardista entre nós, que muito orgulhosos nos deixavam.  Sem nunca esquecer  as casas de espectáculos que o antecederam, igualmente integradas na modernidade inaugurada pelo Art Deco patente no Cine Teatro de Mocâmedes, inaugurado nos anos 1940.

Lamentavelmente este OVNI que os arquitectos portugueses fizeram aterrar no deserto do Namibe, e cujo autor foi o arquitecto Botelho, desde 1975 encontra-se abandonado, devoluto e vandalizado. Queremos acreditar que o seu interior conserve ainda intactas essas belas esculturas em alto-relevo nas paredes sobre as actividades tradicionais, do deserto e da pesca, etc, mosaicos e azulejos originais, do período colonial português,  todo esse arsenal de elementos que constituem uma mais valia para o património cultural e histórico da cidade.

Nunca será demais difundir este património ao abandono, que integra a  História dos Cinemas angolanos, iniciada com os Cine-Teatros que nasceram em paralelo com  os Cine-Teatros portugueses e europeus,  todo esse património valioso hoje em em estado de decadência que seria urgente reabilitar. Todos juntos são estas casas de espectáculos, os Cine Teatros, aos Cine-esplanadas e aos Cines-Estudio  legados que nos chegaram através dos tempos e nos permitem compreender a  evolução tipológica das casas de espectáculo  desde o seu surgimento.



 MariaNJardim


Em tempo:
Obra do arquitecto Botelho Pereira aquele que poderia ceder os desenhos para estudo tendo em vista a recuperacão deste Cinema.
Também fui informada de que os altos relevos são obra do escultor, já falecido, Fernando Marques (certeza). Aliás, cedidas foram novas imagens por Paula Marques, sua filha, que vieram enriquecer esta postagem.

Outras informações colhidas apontam para que tenha sido o engº Guido Vidal  o responsável pelos cálculos de estrutura e estabilidade. E que este tinha uma sociedade com o Mário Martins, empreiteiro da obra. 





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