04 setembro 2019

As Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, no dia 08 de Dezembro de cada ano







EVOCAÇÃO:
Moçâmedes (Namibe), séc. XX, anos 50
SENHORA DO QUIPOLA


Na Torre-do-Tombo (Moçâmedes) o dia mal se adivinhava e já D. Maria “Cambuta”, minha mãe que Deus tenha (como se usa dizer!), se afadigava nos preparativos para mais um 8 de Dezembro, dia de consagração da Imaculada Santa-de-Todos-Nós. Feitos de véspera, bolinhos de bacalhau e “jaquinzinhos” aguardavam a entrada na cesta do farnel; agora, era a hora de fritar os panados, as fatias de pão e o frango, cozer os ovos e a batata doce. Num canto da mesa, o indispensável palhinhas tinto de cinco (que os amigos haviam de aparecer!), e as garrafas de bulunga e de gasosa: desde a véspera haviam repousado na selha repleta de gelo; agora, era questão de conservar.
Farnel pronto, cesta composta, era a abalada, a butes, ate´ `a estação do C.F.M., ora andando, ora correndo, tentando acompanhar a passada de “mestre” Cambuta na pressa de apanhar um aglomerado ainda não muito grande de candidatos a uma viagem de “Camacouve” que nos transportasse ate´ ao recinto das festas. Este, o contributo do C.F.M. para as celebrações da Senhora do Quipola: comboios grátis num vaivém constante, vagaroso, carregando e descarregando avalanches de povo que se apinhava nas carruagens na ânsia de chegar a tempo de um bom lugar.
Mal chegados, procurávamos onde estender mantas e esteiras, `a sombra de uma qualquer arvore que atenuasse o sol abrasador de Dezembro, mesmo que afastada do recinto onde o ar festivo era evidente : mastros decorados, bandeiras e fitas, altifalantes pendendo de arvores e mastros. Afastadas do recinto fronteiro da capela, livre para permitir a passagem da Procissão, pequenas barracas aprestavam-se para o arraial. Eram tômbolas e rifas, barracas de cavalinhos e comes-e-bebes, de venda de um pouco de tudo, e entre o chiar das rodas dos carros-de-bois vindos das Hortas carregados de trabalhadores, e o bater cadenciado dos cascos dos cavalos puxando as “charretes” dos abastados senhores da terra, desde cedo o agradável cheiro do churrasco enchia os ares.
Depois da Missa Campal e da Procissão, a cargo do conceituado e barbudo Padre Galhano, era a corrida aos farnéis aconchegantes dos estômagos e criadores de forças para a tarde que despontava. Primeiro, era a diversão, com jogos e concursos diversos: corridas de cavalinhos, corridas de sacos, lançamento de argolas, entre outros, e o inevitável “Pau Ensebado”, espécie de “ex-libris” de quanto era festa ou arraial, e que tinha por premio a garrafa colocada no alto. E enquanto a petizada, correndo, ia jogando o que lhes era permitido e assistindo a tudo (mas tudo, não e´, Ricardo? ) os adultos dividiam-se entre os jogos e os palhinhas acompanhados pelos bolinhos de bacalhau, “paracucas” e crocantes “macocas” picantes e salgadas.
Finalmente, a meio da tarde, o som de acordeões ou gramofones invadiam o recinto marcando o segundo ponto alto dos festejos: o baile. E enquanto uns se deixavam contagiar pelo pé-de-dança, a maioria do povo, arrumada a trouxa, procurava um lugar no “Camacouve” que a levasse de regresso.
José António Teixeira



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