19 outubro 2019

O CINEMA INACABADO DE MOÇÂMEDES

 O Cinema inacabado de Moçâmedes, em Angola



Quando se deu a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, uma nova casa de espectáculos estava em marcha em Moçâmedes, cuja arquitectura futurista, cósmica, espacial, inspirado nas criações da arquitectura brasileira, em arquitectos como  Oscar Niemeyer,  fazia lembrar um OVNI, com as suas "garras" fincadas à terra. Encontrava-se na fase terminal  da sua construção, já tinha os painéis que circundam a galeria colocado, a pintura interior concluída,  e não iria faltar muito tempo para ser inaugurada. Ela era o testemunho vivo do quanto estávamos actualizados, pois na verdade nada do género vimos construído, na época, em território português. 
Representa pois, o culminar de um movimento evolutivo das casas de Cinema em Angola, que tinham começado em Angola com os Cine-Teatros, nos ano 1930,  progredido nos anos 1960 para os  Cine-Esplanada, e que já nos anos 1970, à beira da Independência de Angola, terminaria com os Cine-Estúdio, o tipo de construção que veio catapultar a cidade de Moçâmedes  no  topo desta corrente modernista internacional. Aliás, foi nas colónias de África, em clima tropical, que os jovens arquitectos portugueses, fugindo às regras do Estado Novo, e aproveitando-se das contribuições das potencialidades construtivas do betão armado, encontraram um espaço de liberdade criativa como não conheciam na Metrópole, puderam dar asas à imaginação, libertos dos condicionalismos de um  regime que não permitia tais ousadias.


 
 A plateia e a abóbada
O Palco, a plateia e a abóbada...
As galerias  e os painéis

 As galerias e os painéis...

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques

 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à agricultura (oliveira e vinha), ao Deserto do Namibe e à etnia mucubal.  Obra do escultor Fernando Marques que aqui se pode ver, à direita.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca e às praias de banhos de Moçâmedes, obra do escultor Fernando Marques.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca a Moçâmedes , com o escultor Fernando Marques à esquerda.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.


Segundo uns este Cine-estúdio iria chamar-se "Cine estúdio Arco Íris",  tal como o Cine estúdio de Sá da Bandeira (Lubango). Segundo outros, seria o "Cine estúdio Welwitschia", e ainda outros apontavam para  o "Cine estúdio Satélite" . Hoje é comum falar-se do "Cine-estúdio Namibe" como a obra interrompida por força de um processo histórico que em 1975 arrancou de Angola praticamente a totalidade da população europeia,  e que ainda hoje está por acabar, 40 anos após a independência, o que é de lamentar, atendendo àquilo que de facto esta obra representa: a penetração em terras de África de uma nova concepção de edifícios que se assemelham a naves espaciais, objectos voadores, estações em órbita no espaço celeste, uma arquitectura futurista de ponta, e sem paralelo na época.

Quanto ao empreiteiro que levou a cabo esta obra, temos a informação que foi Vasco Luz. Soubemos também  que foi com este empreiteiro que caiu a cúpula do Cinema na primeira vez que foi colocada, e que a mesma cúpula foi reposta com êxito.

Reparem na arquitectura dos interiores,  nos mosaicos e azulejos originais, do período colonial português,  em todo esse arsenal de elementos que constituem uma mais valia para o património cultural e histórico da cidade. Reparem nos pormenores dos altos-relevos das paredes das galerias que circundam o espaço central, onde fica a sala de espectáculos. Descobrirão  figuras humanas que invocam vivências do tempo colonial,  jovens banhistas europeias, pescadores europeus e africanos envolvidos na faina marítima, que era o ganha-pão das gentes da terra;  painéis que invocam as actividades tradicionais com realce para a pesca e a agricultura, culturas de eleição, como a oliveira e a vinha que facilmente medravam nas Hortas de Moçâmedes. E ainda a fauna e a flora do fabuloso Deserto do Namibe, onde medram as welwitschia mirabilis, as espinheiras, cactos várias espécies, e uma variedade de animais aqui representados pelas elegantes gazelas, por hipopótamos e avestruzes.  E também as gentes mais representativas do Deserto, a etnia mucubal.

O acesso à sala de espectáculos no piso superior é visto à esquerda, através desta foto que nos mostra 
a organização espacial da zona

 A planta do Cine-Estúdio


Outra perspectiva da planta do Cine-Estúdio


O Cine-Estúdio Inacabado, o Impala Cine, o Mercado Municipal e a Igreja de S. Pedro, são as quatro construções que representam a penetração da corrente de arquitectura  vanguardista entre nós, e que muito orgulhosos nos deixaram, sem esquecer  as casas de espectáculos que o antecederam, igualmente integradas na modernidade inaugurada pelo "Art Deco", o estilo arquitectónico patente no Cine Teatro de Mocâmedes, na década de 1940. Lamentavelmente este OVNI que os arquitectos portugueses fizeram aterrar no deserto do Namibe, com desenho do arquitecto Botelho Pereira, desde 1975 encontra-se abandonado, devoluto e vandalizado.

Este Cine-Estudio ao abandono integra a  História dos Cinemas em todo o mundo, iniciada com os Cine-Teatros, continuada com os Cine-esplanadas e  que na época teve o seu culminar com os Cines-Estudio. Todos juntos, são legados que nos chegam através dos tempos, e nos permitem compreender a  evolução tipológica das casas de espectáculo  desde o seu surgimento.


 MariaNJardim


Em tempo:
Informações colhidas sobre o Cine Inacabado,  apontam para que tenha sido o engº Guido Vidal  o responsável pelos cálculos de estrutura e estabilidade, e que este tinha uma sociedade com o Mário Martins, empreiteiro da obra. O traçado confirma-se  tartar-se de obra do arquitecto Botelho Pereira aquele que poderia ceder os desenhos para estudo tendo em vista a sua recuperação.






l

03 outubro 2019

TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO
















TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão.Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 
DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
Do LUSO ,meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
Dos CACILHEIROS sulcando o Tejo, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO
Amilcar Sousa Almeida