14 julho 2008

Gente de Moçâmedes: anos 50


Através desta foto um pouco apagada, podemos recordar mais uma das muitas familias que viviam na cidade de Moçâmedes nos anos que precederam a independência de Angola em 1975. Trata-se do casal Caridade Ponteviane e Homem da Trindade, e dos filhos, Mª de Lurdes Ponteviane Infante da Câmara e Carlos Homem da Trindade conhecido entre nós por «Careca», que nesta altura estava a iniciar-se nas primeiras letras.

Nos estaleiros da Torre do Tombo: década de 50



1ª foto: Vista da baía, pescarias e estaleiro.

O morro da Torre do Tombo com as suas furnas ou grutas. Ali foram encontradas inscrição impressas na rocha branda em tempos remotos, por mareantes que por ali passavam e ali faziam aguada ...





2ª foto: Uma embarcação tipo enviada, - destinada a ser rebocada por outra, para ser utilizada quando a quantidade de peixe o exige-, acabadinha de ser construida nos estaleiros que à época existiam na Torre do Tombo, junto à praia, mais ou menos na direcção da Igreja de Santo Adrião, local até onde chegavam as pescarias ali existentes, e mais tarde demolidas por força da construção da marginal e do porto de cais. Foto tirada no início da década de 50.



Pesca de Sacada foi importantissima até aos 1950. Depois foi ultrapassada pelas traineiras....





Os construtores que aqui vemos, faziam parte da equipa do mestre Alfredo Dias (à esq. do mastro), da qual fazia parte, entre outros o seu filho, Armando Sabino Dias (à dt. do mastro), algarvio casado com uma moçamedense e que mais tarde se radicou em Sá da Bandeira, onde foi proprietário da Pensão Lubango e se lançou-se no negócio de peixe fresco/congelado. Alfredo Dias pertencia já a uma 2ª leva de construtores de barcos chegada a Moçâmedes na década de 30/40. Outros construtores havia, como Gilberto Abano, Urbano Canelas, Augusto Martins, todos eles de origem algarvia, na 1ª década do século XX radicados em Moçâmedes. Mais atrás João de Deus teria sido o 1º. 

É interessante ver-se o nome que foi posto a esta embarcação: «Algarvio», escolha que tem a sua justificação no facto de tanto os construtores como os proprietários, bem como a maioria esmagadora da população europeia de Moçâmedes ser constituida por algarvios e descendentes que nesta altura já se contavam em várias gerações alí nascidas. Foto do livro «Era uma vez Angola» de Paulo Salvador.

O fluxo de algarvios para Moçâmedes, iniciado em 1860 (dez anos após a chegada de portugueses vindos de Pernambuco (Brasil), por força da Revolução Praeeira), foi mais importante no que diz respeito ao desenvolvimento da actividade pesqueira em terras do Namibe. Conhecedores que eram das artes de pescar e daquilo que pensavam vir ali a instalar, levaram consigo linhas, anzóis, para a pesca de vários tamanhos de peixes, de fundo e de superfície, chumbadas, roletes de cortiça, cabos variadíssimos, modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. Mas uma simples rede de não mais que cem braças de comprimento, alada de terra a pulso, não permitia pescar para além do necessário para a sobrevivência, não chegava para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla. Também os pequenos barcos de pesca já não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais algarvios para que viessem instalar os seus estaleiros em Moçâmedes, de modo a que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes de pescar.

Sobre os primeiros construtores navais que chegaram a Moçâmedes , Carlos Cristão escreve in: Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva:

«(...) A convicção e a vontade de vencer convenceram outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»

A zona de Moçâmedes, junto à praia, onde ficavam os estaleiros, ficava na direcção da Igreja de Santo Adrião , arriba abaixo. Chamavamos a Praia do Cano, onde os miúdos os jovens da Torre do Tombo iam a banhos. Seguem alguma fotos mais da zona dos estaleiros e da praia






Junto aos mesmos estaleiros de construção de barcos de pesca, reconheço, da esq. para a dt.
Em cima: ? Serra, ??? Embaixo: Olimpia, Georgete Serra Duarte, o filho e Cuanhama







Na «praia do cano», junto dos estaleiros, da esq. para a dt.: Gertrudes Libório, Olímpia Aquino, Maria Emilia Ramos e Raquel Martins Nunes.


 Nos mesmos estaleiros, da esq. para a dt.: Marizete Veiga, Adelaide Abreu e Olimpia Aquino.