Este é um blog saudoso, NÃO SAUDOSISTA, e partiu da ideia de partilhar com todos aqueles que nasceram e viveram em MOÇAMEDES (Angola), hoje NAMIBE, e que se encontram dispersos pelo mundo, um conjunto de imagens e descrições, que os faça recuar no espaço e no tempo e os leve a reviver lugares, acontecimentos e gentes de um outro tempo vividos numa bela e singular cidade, nascida entre o deserto e o mar...
05 fevereiro 2007
Gente de Moçâmedes: 1940 e 1944
Em cima: Arménio, João e Guilherme
Muitas familias de Moçâmedes, aos fins de semana, tinham o hábito do passeio à Praia das Conchas. Esta praia, pedregosa, não dava para banhos de mar, mas alí apanhavam-se búzios, burriés,pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, pescava-se à cana e à linha uma emensa variedade de peixe, como garoupas, pargos, sargos, etc.
Nesta foto, tirada em 19.4.1941, por Rodrigo Baião Alcario, encontram-se três dessas famílias antigas de Moçâmedes, entre as quais reconhecemos: Mário AntónioG. Guedes da Silva (o 2º), seguido do pai, António Guedes da Silva, e da mãe, Júlia Celeste Gomes Guedes da Silva. Seguem-se: ?, Lídia de Sousa Alcario , Orbela Gomes Guedes da Silva (um pouco à frente), e os restantes ???? Em baixo, sentados: Hélia Paulo, ?, José Nascimento?, ?, e Maria do Carmo Paulo (Carminha).
Foto gentilmente cedida por Mário Guedes da Silva.
Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e seu 1º Comandante, José Sacadura Bretes
Em Moçâmedes ele foi director da Alfândega, e não se ficou por aí. O seu espírito irrequieto e empreendedor levou-o a participar na reorganização da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da cidade (AHBVM), em 1949, que fora criada em 19 de Maio de 1904, data da aprovação dos respectivos Estatutos, por portaria do governador-geral do território, e que se encontrava-se inactiva há 45 anos. E foi em Moçâmedes fundador e 1º Comandante daquela instituição pioneira voluntaria e associativista em Angola.
Segundo o próprio Sacadura Bretes nos conta através de um livro manuscrito que deixou para a posteridade, o relançamento da Associação ficou a dever-se à ocorrência de um grave incêndio que deixou patente a falta de uma corporação de bombeiros na cidade.(1) Nesse livro recorda a sua filiação na Liga dos Bombeiros Portugueses, sob o número 315, e a posterior participação no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Leiria de 3 a 5 de Setembro de 1954.
Pela sua dedicação e competência como comandante dos Bombeiros de Moçâmedes, no dia 1 de Abril de 1955, foi nomeado delegado da Liga dos Bombeiros Portugueses em Angola. Foi, de resto, o primeiro a exercer tal função em Angola, destacando-se em acções de fomento e de apoio à fundação de outras associações e corpos de bombeiros em Benguela, Lobito, Nova Lisboa e Sá da Bandeira. E quando da sua presença no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, em representação dos Bombeiros de Moçâmedes, apelou às entidades competentes para que a legislação aplicável aos serviços de incêndios fosse extensiva aos territórios ultramarinos, chegando a ser recebido pelo Ministro do Ultramar.
Estas são passagens retiradas a um artigo publicado no site NHPM da LB www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

José Sacadura Bretes, na foto à dt, montado no seu garboso cavalo no interior do velho campo de futebol, quando se preparava para participar num desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949.
Conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, quando viajava a caminho da Metrópole, respondeu ironicamente, agradecendo e assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)
Não sendo pessoa de meias palavras, Sacadura Bretes acabaria por ter, em Moçâmedes, um debate intelectual com o Padre Almeida, no meio do qual ele fez um soneto criticando a usura do padre que emprestava dinheiro a juros. Era um poema composto de tal modo que lendo a primeira letra ou a 1ª silaba de cada verso, juntando-as estas formam a palavra ou frase desejada, lendo na vertical, de cima para baixo ou no sentido inverso (acróstico): O PADRE ALMEIDA VENDEU A ALNA AO DIABO!
Gente de Porto Alexandre
O Brasão de Armas da cidade de Moçâmedes
Era assim que se encontrava a fachada do edifício da Câmara Municipal de Moçâmedes, por ocasião das comemorações do Centenário da cidade, no ano de 1949. Encimando o portão o Brasão de Armas da cidade, que serve de suporte à haste da bandeira. Créditos da 2ª imagem: A. Salvador
De um caderno dedicado a Moçâmedes adquirido por ocasião do encontro de moçamedenses no Jardim da Cerveja em Cascais no ano de 1991, retirei estes elementos que vou colocar aqui:
«Moçâmedes possui desde 1895, a sua Carta de Brasão de Armas de Nobreza e Fidalguia. Foi por deliberação em sessão de 31 de Dezembro de 1890, presidida por Vital Bettencourt Corte Real do Canto, que a Câmara Minicipal aprovou o Brasão de Armas aqui representado e requereu ao Governo Central, em 4 de Janeiro de 1891, a concessão para o usar.
Cumpridas todas as formalidades do processo, publicou o Diário do Governo de 2 de Junho de 1891, o Decreto de 29 de Maio de 1891 que concedeu à Câmara Municipal de Moçâmedes, para distintivo honorífico do seu Município, o requerido Brasão de Armas, «para que dele pudesse usar em devida forma».
O Brasão de Armas do Município de Moçâmedes segundo o Decreto, é composo do seguinte modo: - um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo em campo de ouro, um ramo de algodoeiro e uma cana de açucar postos em aspas: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar e no quarto, em campo vermelho, um arado de ouro: - em contra banda um listão azul, com a legenda «Labor Omnia Vincit»; sobre o escudo a corôa mural, e por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.
A cultura do algodão, iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumira no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, ira medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos.
O barco de pesca, é a animada representação da indústria piscatória do Distrito. Com a chegada dos antigos colonos nascera igualmente essa compensadora indústria, a maior fonte de riqueza do sul de Angola. O barco que a representa, vê-se a singrar o Oceano, esse mesmo Oceano que amorosamente beija as Praias de Portugal, e cujas águas encerram com abundância, variados e saborosos peixes, que, constituindo pelo valor da sua exportação, o mais poderoso factor da economia distrital, tem sido também sustento e delícia de quantos vivem nesta porção remota, mas hospitaleira da terra portuguesa.
Nota-se no último quartel, o singelo recorte de um arado, rememorando o período florescente da agricultura distrital. A agricultura, que no distrito, remontava assim como a indústria piscatória aos primórdios da colonização, que atingira de facto, em determinada época, um grau elevado de prosperidade. A quebrar a monotonia do deserto, estadeantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos de húmus, onde os antigos colonos, ensaiaram, com sucesso, além das culturas de algodão, de açucar postos em aspa: no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca verde sobre o mar, e no quarto um campo vermelho, um arado de ouro; em contrabanda, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit;- sobre o escudo a coroa mural e por timbre uma cruz vermelha florida e contornada de ouro.
O Diploma que concedeu à Câmara o uso do Brasão de Armas está registado no Cartório da Nobreza do Reino, no livro 10º, a folhas 72, v.º, do Registo Geral de Brasões; e o escudo das mesmas armas, acha-se debuxado e iluminado no livro do Tesouro da Nobreza de Portugal. Depois de haver procedido ao registo do Diploma e bem assim, ao debuxo e à iluminura do escudo, foi pelo rei D. Carlos concedida à Câmara, em 15 de Abril de 1895, a respectiva «Carta Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia» que lhe confere os direitos e regalias que dela constam. Pela Carta de Brasão, de 15 de Abril de 1895, a Câmara Municipal de Moçâmedes pode usar o Escudo de Armas descrito no Decreto de 29 de Maio de 1891, mandá-lo esculpir em seus edifícios e aplicá~lo em seus reposteiros, sinetes, divisas e diplomas, cabendo-lhe, outrossim todas as honras e privilégios de que gosam iguais Câmara que têm obtido igual mercê. No edifício dos Paços do Concelho, o Brasão de Armas, burilado em pedra, decora-lhe, com gravidade a porta de entrada, e, na sala das sessões, fulgura, ostentosamente, pintado num belo quadro e bordado em esplêndidos reposteiros.
Guarda o Arquivo dos Paços do Concelho um artístico livro, com capa de marroquim e folhas de pergaminho, que contém a reprodução da Carta de Armas do Município. É assinalada pelo rei, pelo Conde de Ficalho, mordomo-mor, e por Carlos da Silva Campos, escrivão da Nobresa do Reino. O livro fecha com o visto do Rei de Armas, que era, naquele tempo, João Baptista dos Santos. A Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.»
Pesquisa e texto por MariaNJardim
As caçadas de Manuel de Abreu, o Mata-porcos, no Deserto do Namibe. Há leões nas ruas de Moçâmedes...
Trata-se de Manuel Abreu exibindo o troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe numa zona não muito longe da cidade.
Manuel Abreu, mais conhecido por «Mata-porcos», além de exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes, era quem fornecia à população a carne de suínos que ele próprio criava, abatia, esquartejava e colocava à venda na sua loja, bem como os «torresmos» que a partir de toucinho tão bem sabia preparar e faziam a delícia de adultos e de crianças. Era natural da Ilha da Madeira onde já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar.
Em Moçâmedes, era proprietário do «Bazar do Povo», loja que vendia de tudo um pouco e que ficava na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina, onde mais tarde passaram a situar-se os «Armazéns da Beira», e cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), que mais tarde passou a «Casa Inglêsa», e ultimamente à firma «Santos & Cabeça.
Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade ligada ao comércio de carnes. Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população, não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu Bazar e talho. Em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e o seu grupinho de amigos passou a frequentar o Deserto do Namibe não já apenas para matar gazelas, olongos, e outros animais, tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.
Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, na rua morava a família Anselmo e os Armazéns de Antunes da Cunha
Manuel
de Abreu com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da
caça, um enorme guelengue. O «Mata-porcos» encontra à dt. de chapéu e
cigarro na boca.
Repare-se como naquele tempo se ia para o deserto caçar de fato e gravata...
E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do peixe que naqueles mares sempre existia com fartura. Mas não ficamos por aqui. Com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como reverso da medalha, muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de antílopes mais corpulentos, incluindo equídeos. Os abusos chegaram a tal ponto que quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por proibir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.
Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado era ele que ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que fazia o trabalho tão bem feito que a pessoa em causa ficasse sem apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.
MariaNJardim
A respeito de caça em Moçâmedes...
O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...
As caçadas de Manuel de Abreu, o Mata-porcos, no Deserto do Namibe. Há leões nas ruas de Moçâmedes...
Trata-se de Manuel Abreu, exibindo um troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe (1ª foto) e numa zona não muito longe da cidade. Manuel Abreu que aqui vemos à porta do quintal da sua casa, na Rua das Hortas, entre a padaria de Pedro Bento Rodrigues e a «Casa Inglesa»era mais conhecido como «Mata-porcos», porque era ele que fornecia à população de Moçâmedes a carne de suinos que ele próprio criava, abatia e esquartejava e colocava à venda na sua loja, bem como os saborosos «torresmos» que a partir de toucinho tão bem sabia preparar e faziam a delícia de adultos e crianças.
Manuel Abreu era natural da Ilha da Madeira onde já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar para Moçâmedes. Era proprietário do «Bazar do Povo» , loja que vendia de tudo um pouco e que ficava na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina, onde mais tarde passaram a ficar os «Armazéns da Beira», cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), ainda mais tarde passou a «Casa Inglêsa» e ultimamente, a firma «Santos & Cabeça.
Mas o que nos traz aqui é uma outra faceta de Manuel de Abreu, a de exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade ligada ao com+ercio de carnes. Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consuno da população, não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu Bazar e talho.
Contudo em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e de seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas , olongos e outros animais tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.
Mas o engenho humano não para, e eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxera consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, de regressado da Alemanha trouxera consigo uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas sempre necessárias e para fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe.
E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é precido dizer que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos. Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.
Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.
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2ª foto: Crianças da familia observam, no quintal da casa de Manuel de Abreu, a leoa abatida.
3ª foto: Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, na rua morava a família Anselmo e os Armazéns de Antunes da Cunha
4ª foto: Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu
5ª foto: Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...
6ª foto: Manuel Abreu, David Abreu (óculos). António Abreu (?)...
7ª foto: Manuel Abreu (no interior da «Brokway»)
8ª foto: Manuel Abreu (3º, à dt.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante
9ª foto: Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Anos 30.
10ª. foto: Manuel de Abreu com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da caça, um enorme guelengue. O «Mata-porcos» encontra à dt. de chapéu e cigarro na boca.
Repare-se como naquele tempo ia-se para o deserto caçar de fato e gravata...
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A respeito de caça...
Clicar AQUI para ler excelente artigo sobre a caça no deserto de Moçâmedes.
Nota: fotos dispensadas por Nito Abreu
No entanto, devo lembrar que pelo facto de estarem disponíveis online não significa que possam ser usadas sem o respeito pelas condições em foram licenciadas. Essa licença CC significa que qualquer pessoa as pode usar desde que: 1) refira claramente quem é o autor da foto; 2) O uso da foto não seja comercial; 3) A obra resultante seja partilhada nos mesmos termos desta licença
Colonos da Madeira para Moçamedes, 1885.
Lista (3 páginas) com registo de 90 colonos, indicando o nome do chefe de família e a dimensão do agregado familiar. Os primeiros 60 colonos trataram da documentação junto do Gov. Civil do Funchal e os seguintes junto do Gov. Civil Moçamedes. Na 1ª pág. deste documento registam-se as entradas do nº 1 ao nº 35.
Jovens senhoras de Moçâmedes no início da década de 1952. Uma geração de transição...
Finais dos anos 1940, inícios dos anos 1950, elas estavam em todo o lado... Lado a lado com os homens, elas coadjuvavam na organização das festas da cidade, elas organizavam festividades, elas colaboravam com o Rádio Clube da terra, estavam inseridas em grupos de acção social cristã, eram jovens modernas cheias de iniciativa e plenas de vivacidade. Alguns anos antes quem o poderia antever?
Nesta foto um grupo de jovens senhoras colaboram com iniciativas levadas a cabo pelo Rádio Clube de Moçâmedes. Dirigentes, locutores e colaboradores junto da sede do Rádio Clube de Moçâmedes quando esta ainda funcionava no prédio junto do antigo campo de futebol, ao fundo da Avenida da República (de cima para baixo e da esq. para a dt.) : 1. Raul Gomes, Dr Marques Mano, Raul Gomes Jr. /Lito Baía, Firmo Bonvalot, Estevão Coelho, Santos César , Martins, Alfredo Falcão, Santos Osório, Pedro Malaguerra, J. Oliveira (Maboque), Evaristo Fernandes, Norberto Gouveia (Patalim), Nito Santos, Álvaro Mendes, Armando Campos, José Luís Ressurreição, José Antunes Salvador e Carlos Cristão. 2. Leonor Bajouca, Manoca, Noelma de Sousa (Esteves), Júlia Gomes, Manuela Evangelista (Carvalho), Dr Romão Machado (Pres. do RCM) e esposa, Maria Manuela Bajouca, Julieta Bernardino, Lili Trabulo, Maria Emilia Ramos, Arminda Alves de Oliveira (pianista) e Rosa Bento (César), pianista. Foto Salvador.
Na foto: Colaboradores do RCM, no velho "campo de aviação", despedindo-se do Presidente Augusto Cantos de Araújo. 1947 (ao centro): Mário Leitão, Raúl de Sousa Jr., José Costa Santos, Rui de Mendonça Torres, José Alves Roberto, Lúcia Reis, Eugénia Alves de Oliveira, Rosa Bento, Bernardete Cochat, Cantos de Araújo, Ana Liberato, Maria Manuela Costa, Maria Emilia Nascimento, Lurdes de Sousa Veli, Hirondina Mangericão, Lili Trabulo, Lúcia Gavino, Evaristo Fernandes, Guilherme Magalhães, Artur Caleres, Júlio Gomes de Almeida, e Adriano Parreira. Foto Salvador.
Carlos Moutinho e Cecília Victos (ao centro) rodeado de outras figuras ligadas ao RCM, entre as quais Lico de Sousa, Arlete Pereira, à dt e Rui Bauleth de Almeida atrás. Foto Salvador
Curioso nestas fotos é a forte componente de elementos femininos que entre finais da década de 1940 e o início dos anos 1950 prestavam voluntária e gratuitamente a sua colaboração ao Rádio Clube de Moçâmedes, incluso em "programas de variedades" que eram lançados para o ar. Eram jovens senhoras cheias de vivacidade, iniciativa e vontade de participar em eventos sociais, que colaboraram em organizações festivas, programas de rádio, em grupos cristãos de juventude (JIC- Juventude Independente Católica), etc., etc... Uma geração feminina diferente das anteriores, que já não se conformava apenas com o papel único da mulher durante séculos, inteiramente dedicada ao lar à família, à educação dos filhos, como foi o das nossas mães e das nossas avós.
Esta geração feminina representou um modelo de referência para as raparigas da minha geração, a geração que veio a seguir. Era criança mas recordo o papel por elas desempenhado por ocasião do Centenário da cidade de Moçâmedes em 1949. Foram elas que, juntando-se em grupos, confeccionaram flores de papel e outros enfeites destinados à decoração de barracas e de pavilhões que foram erguidos por todo o lado, no vasto jardim da Avenida da República. Foram elas que, não se poupando a esforços fizeram bolos em suas casas, prepararam chás e cafés, que levaram para serem ali vendidos, ajudando, com a sua colaboração a dar mais brilho ao Centenário. Elas participaram em actividades ligadas à venda de rifas de toda uma sorte de objectos, organizaram quermesses, sorteios, estiveram por detrás de tômbolas, roletas, serviços de bar, etc., e tudo isso graciosamente
De baixo para cima: 1ª fila. ? M Pacheco I, Mª Inácio Tavares, Elga Weishmaster, Amélia Brás de Sousa, Manuela e Mimi Carvalho, M.PachecoII, Mitsi Aboim e ? 2 ª fila. ?,?,?, Zézinha Grade, ?,?, Fernanda Braz de Sousa, Fernandina Peyroteu, ?, Antonieta Bagarrão (Dédé), ? e Zélia Calão. 3ª fila. Gabriela Figueira Fernandes, Calila, ?, Constantina, Carolina Mangericão, Maria Augusta Esteves, ?,?,?,?, e Susete Freitas. 4ª fila. ?;?;?; Lena Freitas, Fernanda Pólvora Dias,?, Fátima Cunha, Lizete Ferreira, Celeste Matos, ?,?,Gabriela Miranda,?, ?, Madalena Trindade; Melanie Sacramento, ?, e
Odete Maló. 5ª fila. ????, Osvalda Sacramento, Júlia Jardim, ????
6 ªfila.?,?,Hélia Paulo, Lucia Gavino, ?, Lucia Reis,?,?,?. Data: 1949
Teresa Ressureição, Alice Castro, Lucia Brazão e Salomé Inácio
Maria Teresa da Ressureição (à esq.) oferecia às gentes da cidade, o seu talento de poetisa. Ela ela quem escrevia as músicas das marchas da cidade, e não só, músicas que andavam na boca de toda a gente, muitas das quais ainda guardo na memória, como a Marcha do Centenário de Moçâmedes Ei-la:
I
Assim toda engalanada
Digo orgulhosa ao mar
Olha para mim
Como vou bela ao passar
II
Quero viver minha festa
Quero rir, quero folgar
O Mar imponente
Grita a toda a gente
Vai Moçâmedes a passar
III
Sou há um século nascida
Velhice inda não senti
Tive horas de glória
Enchi minha história
De rosas que então teci
IV
As minhas lindas Miragens
Todos vão admirar
Sorrindo ao céu
Sinto o mundo meu
Quando ouço assim cantar
REFRÃO
Num areal doirado
Pelo sol beijado
Há já cem anos nasceu
Moçâmedes gentil
Bela e juvenil
Pertinho do mar cresceu Hoje, embandeirada
Princesa encantada
Do Namibe o seu senhor
Sente mar confiante
Dizer radiante
Ai que linda vais amor.
(autoria : Teresa Ressurreição)
Fica aqui a minha vénia às senhoras desta geração, pois penso mesmo que elas foram muito mais activas e participativas socialmente que as que se seguiram, as da minha geração, cuja participação maior foi a efectuada através da modalidade de basquetebol feminino.
MariaNJardim

































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