Na Baía dos Tigres, a velha "Manga das Areias" descoberta por Diogo Cão em 1485, Tigres possuía tal vastidão que era considerada a maior do
mundo, Dizia-se no tempo colonial que podiam ali permanecer fundeados
6627 navios de grande tonelagem, o que talvez não suceda em outra parte
do mundo. Contudo algo de trágico e de espectacular aconteceu, quando no dia 14 de Março de 1962 uma forte
calema atirada de SW, com ondas de mais de dez metros de altura, bateu furiosamente na parte de fora do saco da
restinga, cortou a língua de areia
que a unia o continente, e destruiu naquele ponto a conduta de fibrocimento , daí resultando o corte do fornecimento
de água canalizada vinda do Cunene, que conduzia
a água através do deserto do Namibe à população. A
grande baía a partir de então tornou-se uma ilha.
Compreender este fenómeno é saber que eles acontecem porque as "baías" de Angola não são tectónicas, são apenas restringas originadas pelos rios costeiros de Angola que desaguam no Oceano Atlântico , e
apresentam a foz sempre obstruída com areia. Mas isto pode mudar, com
excesso de extracção. A subtracção das areias das restingas provoca desiquilíbrios fluviais difíceis de dirigir, podendo alterar as geomorfologia e dinâmica fluviais. É o que explica porque a Baía dos Tigres é hoje uma ilha, que antes era uma restinga ligada ao continente por um pequeno cordão (istmo). São fenómenos marítimos naturais que acontecem com o colapsar do istmo, e que acontecem de quando em quando, A Baía dos Tigres já tinha sido uma Ilha, tornou-se uma baía e etc etc. Existem textos de estudos que o atestam. Refira-se que, no tempo colonial, a Baía dos Tigres mereceu sempre uma acurada vigilância e protecção. Até tinha linha aérea, não lucrativa, incluindo projectos de contenção de dunas e florestamentos desde 1920 até 1974, que despertaram a atenção mundial.
O que aconteceu foi que p abastecimento de água a partir da foz do Cunene tinha finalmente chegado às torneiras
das casas das famílias tigrenses e às instalações das suas pescarias, finalmente a população já podia beber uma
água de superior qualidade, já podia lavar a sua roupa com outras
condições, tomar o seu banho mais à vontade, e mais à vontade dar o
banho aos seus
filhos. Uma felicidade! Tinha passado o período do regime
experimental que durara até Março de 1961, e a empresa responsável
tinha
feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de
Angola. A água correu nas torneiras da Vila de S.
Martinho apenas no ano de 1962, quis o cruel destino, mais uma vez,
castigar
as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes da Baía dos Tigres,
dificultando-lhes de novo a vida.
O
projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de
pesca
dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e
levara ao aumento da população. A
água deixou de correr nas torneiras, mas continuava a chegar através do
Deserto em boas condições até à zona continental, onde começava o istmo, situação que facilitava o
racionamento, que passou a acontecer sem necessidade das antigas
restrições. Após esta calamidade, a autoridade
foi levada a agir de imediato, e viu-se obrigada a adquirir um rebocador que
levava um batelão
cisterna até ao terminal da conduta, junto ao continente, enchendo-o de
água que era bombeada para os depósitos existentes, e distribuída à
população, seguindo as normas habituais. Desde logo se verificou a redução do consumo, através do
controle de gastos, enquanto os técnicos procuravam resolver o
problema. No decurso 8 anos, foram construidos 3 depósitos, dois
subterrâneos e
um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja
capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.
O 14 de Março de 1962, na Baia dos Tigres, foi
encarado por alguns como uma espécie de
vingança do mar. Mas vingança de quê? Superstições ante fen+omenos naturais de difícil compreensão,
Contam os que assistiram impotentes e aterrorizados a esta calamidade, receavam que a própria ilha
fosse tragada pelo Atlântico, mas tudo leva a crer tratar-se de um
fenómeno periódico, já que o Mapa-mundi
de 1623, de António Sanches, assinala a presença ali de uma restinga, a Carta
Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, assinala
uma ilha, e Pedro Alexandrino na sua
visita à Baía dos Tigres, em 1839, a bordo da corveta Isabel Maria, refere ter
encontrado ali uma restinga, enquanto Lopes de Lima, em 1846, nos seus Ensaios
Estatísticos refere de novo uma ilha. Quando em 1861, os primeiros pescadores Algarvios chegaram à Baía dos
Tigres encontram de facto uma restinga
fechada, mas a verdade é que desde 1962 até hoje o que ali encontramos é uma
ilha.
Quando em 1975 a
população de S. Martinho dos Tigres teve que
abandonar a sua Ilha, em
vésperas da independência
, ante o fogo cruzado dos
movimentos de libertação, em ambiente de total
anarquia,
com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização
do conflito, a situação não se tinha alterado muito no respeitante ao fornecimento de água desde 1962.
Foi tardia a preocupação da governação com as condições de vida das gentes da Baía dos Tigres, dizia-se mesmo que era para não estimular, dadas as condições difíceis da sobreviència daquelas gentes e porque exigia um ptencial de dspesa e manutenção puco ou nada compensador, dado as dificuldades de acesso e o isolamento total em que se vivia, apesar de alguma
preocupação de início, em termos logísticos, dada a proximidade com a colónia alemã do
Sudoeste
Africano, pelo menos na fase espinhosa das Campanhas Militares do Sul de Angola.da demarcação da
fronteira sul. Sabe-se no entanto, que a ideia de levar a água à Baía dos Tigres foi levantada em 1884,
no ano da Conferência de Berlim, a célebre Conferência que veio definir a "partilha de África" pelas
potências europeias, com o capitão de fragata
António Joaquim de Matos a propôr que fosse averiguada essa
possibilidade. Também Artur de Paiva, um dos mais eminentes oficiais da
ocupação do Sul de Angola, assim havia aconselhado, em 1892.
Em
1909 a Baía dos Tigres passou a ter a visita mensal de um navio da
Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela
população a preços exorbitantes, muito além das suas possibilidades.
No ano de
1912, já com a República instaurada, o interesse na região
levou a que Governador de Moçâmedes, comandante Correia da Silva (Paço de
Arcos), tivesse nomeado o coronel de engenharia Carlos Roma Machado, para se deslocar à Baía dos Tigres, o que fez por três vezes,
para proceder a um estudo sobre o abastecimento de água à povoação a
partir da foz rio Cunene que ficava a uns 80 quilómetros a sul,
atravessando o Deserto do Namibe (Boletim das colónias 134 e 135). Para o
efeito chegou a ser elaborado um ante-projecto, mas concluiu-se que o
preço para a execução da obra não era compatível com as possibilidades
da altura. No mesmo boletim o coronel conta-nos a tentativa de suborno
de que foi alvo por parte dos alemães para que o projecto lhe fosse
vendido por vinte mil escudos, uma pequena fortuna naquele tempo. O
mesmo coronel de engenharia chamava atenção do Governo para as ambições
dos vizinhos da Damaralândia, que criticavam o abandono em que se
encontravam os pescadores dos Tigres. Tornara-se nítido o interesse e
as intenções da Alemanha em relação à Baía dos Tigres. Tentou-se também
um aproveitamento da água do Tochiambala, rio por infiltração a norte da
Baía dos Tigres, conduzindo-se a água até à cacimba do norte, no lado
continental, ficando acessivel à população. Mas a água do Tochiambala
era muito pouco superior à das duas cacimbas existentes do lado
continental.
Até à década de vinte, a situação não se alterou na Grande
Restinga. Mas importa ainda referir, que no decurso do tempo, na tentativa de
fornecer água à população, houve "soluções" intermédias. Na década de
1920, com a chegada de Norton de Matos a Angola, em 1921, os Tigres
beneficiaram da
acção daquele governante, pelo menos em parte. Entre outras medidas
tomadas logo de início mandou instalar nos Tigre um destilador de água
do mar que produzia vinte e dois mil
e quinhentos litros diários de água doce. Não era uma grande
abundância, mas já era uma ajuda para os pescadores, e sem os pesados
encargos da água que vinha de Moçâmedes. Embora a
água destilada tivesse os seus inconvenientes para a saúde, podia ser
bebida, o que não acontecia com a péssima água das cacimbas do lado do
continente, que os europeus bebiam em último
recurso, e que os auxiliares de pesca africanos tiveram que beber
muitas vezes até 1931, altura em que um chefe do posto mais enérgico pôs
termo a essa desumana discriminação.
Em
1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que
naquele ano vendeu à Companhia Nacional de Navegação para continuar na
costa de Angola, tendo-lhe sido dado o nome de "Save". No contrato da
venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e
gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez
por mês."
Em
1930, foi designada uma comissão para estudar os problemas desta área
cujo relatório insistia de novo na necessidade de fazer chegar a Baía
dos Tigres água canalizada a partir do Cunene como
uma questão humanitária. Dizia-se então que canalizar a água do Cunene era, além de um "acto de humanidade para
com aqueles que na Baía dos Tigres vêm gastando a sua vida, sofrendo
estoicamente os horrores da sede, etc, etc, ", e que seria importante a valorização daquela baía espantosamente grande que abriga nas suas águas uma fauna abundantíssima e
inesgotável
Já em 1940 um
relatório do governo da província da Huíla
mencionava que eram simples barris os únicos reservatórios de água,
recolhida directamente, através de mangueiras, dos tanques do navio que a
transportava, e que nesta operação, com os balanços permanentes do mar,
perdia-se muita água. Foi apenas em 1941 que teve inicio a construção
de grandes tanques com capacidade para 280 t, para guardar água potável. Em 1948, num seu trabalho J.N. Sales Grade,
Capitão
do Porto de Moçâmedes, ainda escrevia que a água doce para abastecimento da
população
era transportada por navios, armazenada em tanques de ferro e cimento,
e posteriormente distribuída regularmente por ração
que não ia habitualmente além de 5 litros por pessoa e
por dia, passando por vezes para 2 litros Apesar da divulgação junto do governo de Angola destas
considerações que traduziam uma situação extremamente grave, poucos
progressos se registaram.
Quase um século havia passado desde a data em que os primeiros olhanenses ali chegaram e ali se estabeleceram, em 1865. Foi
apenas na década de 1950 que um novo olhar foi lançado na direcção
daquelas
gentes. Dada a sua persistência e a contribuição que esavam a dar para a economia do Distrito, iniciaram-se finalmente as obras para abastecimento de água a partir do
Cunene que ficaram concluídas em 1958. Além de resolverem um problema
fundamental, ligado à própria subsistência da população, proporcionaram como atrás referido,
um sensível desenvolvimento industrial. A ter em conta o atraso com as 1ª e 2ª Guerras europeias que travaram os olanos quinquenais, dado que todo o material era importado sa Europa e as fáfricas estiveram ao serviço da guerra.
Na realidade, a Baía dos Tigres não era a "Terra Prometida" para aquela gente que desde 1861, em "levas" sucessivas de algarvios, na maioria olhanenses começaram a chegar ao Distrito, primeiro a Moçâmedes (1861), depois a Porto Alexandre (1862), e só mais tarde à Baía dos Tigres (1865)
Os
pescadores algarvios arrastavam-se por quase um século por aquelas
terras e mares sem nunca terem recebido a mínima ajuda, apesar de lhes
serem cobrados impostos pelos bens que arrancavam ao mar e comerciavam. Não consta tivesse a Metrópole contribuído nos primórdios da sua fixação com algo mais
que umas centenas de anzóis enviados pela Rainha D. Maria II para Moçâmedes,
quando lhe constou que havia ali sido fundada, em 1843, na fase das feitorias, uma feitoria pelo algarvio
Fernando Cardoso Guimarães e companheiros, que ficou a marcar o
início da pesca metropolitana na área.
O que os olhanenses a fixarem-se naquelas paragens desérticas foi a riqueza em pescado daquelas águas frias, e a crença de que estavam
em terra portuguesa e que podiam ter esperanças num futuro melhor. A fixação dos olhanenses na
Baia dos Tigres constituiu
uma verdadeira odisseia, digna de um romance. A partida para as lonjuras de uma África desconhecida e misteriosa, era um adeus para sempre. No desterro que era a Baía dos Tigres, ali se mantiveram, como que esquecidos do sistema, pelo menos até às primeiras décadas do século XX.
A Baía dos Tigres foi completamente abandonada em 1975. Em
vésperas da independência a
população branca viu-se obrigada a fugir ante o fogo cruzado dos
movimentos de libertação, em disputa pelo poder, em ambiente de total
anarquia, com a administração portuguesa em debandada e a internacionalização
do conflito.
Quem hoje visita a “Baía dos Tigres” logo se depara com um conjunto de edificações,
que, apesar de abandonadas, persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e à
degradação, qual fantasmagórico quadro
surrealista. É o que resta! Mas elas apontam para muito mais além do seu valor
arquitectónico, infelizmente em estado de avançada decadência. Estas edificações são símbolos do quanto pode a abnegação e a resistência humana, desses dois que ali se fixaram por mais de um século, portugueses e africanos que, com inúmeros sacrifícios, e sabe Deus com quanto sofrimento e privações ajudaram a erguer este espólio. De uma coisa estamos certos. Uma fixação como a que foi levada a cabo pelos
algarvios naquelas terras inóspidas, sem água nem o mínimo de condições
dignas de vida, onde o único incentivo é o pescado, é coisa do passado! (1) Esta é uma parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres.
Ficam mais estes registos.
MariaNidiaJardim
(1) Pedras de filtro de Moçâmedes, feitas de um arenito existente na
região. O conjunto da pedra e armação de madeira que a suportava, tinha o
nome de "sanga". (2) B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
Texto elaborado com base em informações colhidas em:
-Moreira, Cecilio. "Baía dos Tigres" Moreira, Cecilio.
-B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
-Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969
- Felner. Alfredo de Albuquerque, Angola, Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral Sul de Angola, vol 1 Lx, 1940
Para saber mais: O Drama da Água
http://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2014/08/baia-dos-tigres-entre-o-inicio-da.html
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https://vimeo.com/116848532?fbclid=IwAR2VjWA8akBLjjauhS0i5C6yJOhdAeURygpv1pZTAiIhwJl2HKEEqDfJdls
.(1) A Baía dos Tigres foi colonizada por algarvios a partir de Porto Alexandre, quando por volta de 1864 alguns algarvios que ali se haviam fixado tiveram conhecimento da abundância de pescado naquela zona pelos baleeiros norte-americanos que operavam entre a Ilha de Santa Helena e os Tigres, e ao Curoca iam abastecer-se de água e víveres.
Na Baía dos Tigres não havia água potável, não havia sequer um ponto verde no horizonte, faltava o pão fresco, faltava lenha para cozinhar, só mar, areia, dunas, solidão. O pão fresco era levado de barco a partir de Moçâmedes, bem como o leite, as verduras, e outros géneros alimentares, necessários à vida, bem como lenha, medicamentos, agasalhos, etc etc. Serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias gélidas de inverno que entorpedia as articulações. Apenas existiam no lado continental duas cacimbas, mas a água era salobra e de péssima qualidade para a saúde humana. De início a água potável tinha que ser transportada em barris, por barco de pesca de navegação à vela, que a iam buscar a Porto Alexandre (Curoca), ou a Moçâmedes (Bero), e muita água se perdia durante o trajecto, quando os ventos se intensificavam e navegar se tornava impossível, situação que se revestia de um certo dramatismo quando a água e os alimentos escasseavam por completo. Restava então aos residentes em pânico entreter a fome com pedaços de peixe, e enganar a sede chupando chumbo, ou recorrer à água das cacimbas, como último recurso. A população era obrigada a poupar religiosamente a água que ia conseguindo, água era sinónimo de vida! E se a água que ficava de reserva nos barris ou em outro recipiente se deteriorava, o que acontecia com frequência, era posta a "arejar" isto é, na gíria dos habitantes era posta ao ar durante umas horas, e em seguida fervida e filtrada através de uma "sanga"(2) para poder ser consumida, ou durar como reserva por mais uns tempos. Era esta a vida destes pioneiros. Partiam com o fito único a riqueza da fauna piscicola, deixando para trás a sua terra, as suas casas, a família os amigos, o conforto, e até o apoio social de que beneficiavam, as regalias do "Compromisso Marítimo" que na sua terra natal oferecia aos mareantes e pescadores nele inscritos, médico, botica e ajudas nas aflições. E ali chegados, ainda que desiludidos ou arrependidos acabavam por ficar, uma
vez que não podiam contar com ajudas de espécie alguma da parte do
Estado para o seu regresso.