07 outubro 2018

O "SOBRADO" de Moçâmedes, a Companhia de Mossâmedes, e o património histórico e cultural do centro-histórico

 Há 5 anos atrás era ainda assim... Repare-se nos detalhes telhado, nos remates em ferro rendilhado  à volta do mesmo,  e nas sacadas das portas do 1º piso. Todo esse material em ferro fundido e folha de ferro com efeitos rendilhados vinha em navios mercantes a partir da Europa industrializada, que os exportava já acabados, após encomendas que eram efectuadas através de catálogos, naqueles tempos em que o ferro estava na moda, tendo como ícone máximo das construções naquele material, a Torre Eiffel em Paris, a "dama de ferro" da França, construída entre os anos de 1887 e 1889.
Seria necessário conhecer a HISTÓRIA antes de se proceder a qualquer danificação neste edifício emblemático para a cidade de Moçâmedes, como o próprio nome da Companhia sugere.





Cinco anos depois está assim.... Como foi possível permitirem esta barbaridade que irá acelerar a sua queda? Trata-se também em termos de aequitectura, do único SOBRADO de Moçâmedes. E quanta HISTÓRIA este tipo de construção encerra!



 
O "SOBRADO" da  "COMPANHIA DE MOSSÂMEDES"


A decadência deste SOBRADO que pertenceu à Companhia de Mossâmedes,  pleno de carácter e de História, tem acelerado  desde que há uns 5 anos alguém lhe mandou retirar o telhado, não se sabe bem porquê, excepto para que se degrade mais rapidamente.

Este telhado tinha por característica assentar sobre um remate em folha de ferro fundido trabalhado com rendilhado, muito ao gosto da época, o mesmo ferro que se pode ver  nas sacadas das varandas. Estes pormenores tem a ver com a época em que este edifício foi construído numa altura em que o ferro estava na moda, tendo como ícone máximo das construções naquele material, a Torre Eiffel em Paris, a "dama de ferro" da França construída entre os anos de 1887 e 1889, por ocasião da Exposição Universal de Paris.

Na verdade foi a partir da segunda metade do século XIX que o ferro fundido começou a integrar o material de construção, substituindo a madeira e a pedra. A folha de ferro rendilhado era aplicada em detalhes como neste edifício ainda dá para ver, e o ferro em geral era utilizado em construções de todo o tipo, como quiosques (Moçâmedes teve um), coretos, mercados, estações, teatros, fontes, postes de iluminação, portões (Moçâmedes teve alguns). pontes, elevadores, ferrovias, pavilhões de exposição. A técnica de ferro fundido permitia a reprodução de diversos estilos de elementos decorativos, etc. Eram peças  de todos os tamanhos e feitios, que iam da Europa já confeccionadas, encomendadas através de catálogos, que viajavam  em grande número em navios para as colónias de África, para o Brasil e para todo o mundo, em grande número.  Os edifícios de ferro, bem como os detalhes para edifícios, podiam ser fabricados longe do local onde seriam montados, eram facilmente desmontáveis e podiam ser transferidos de lugar. 

Também em termos arquitectónicos estamos perante um SOBRADO, um tipo de construção única na cidade, um exemplar raro e irrepetível, que teve o seu tempo, e deviaser valorizado, classificado e protegido, e não votado ao abandono como se apresenta, já sem o telhado, progressivamente a degradar-se.

Aliás o SOBRADO, é o tipo de construção um tipo de habitação característico de um certo modo de ser e de estar, que ficou a marcar uma época pela sua arquitectura específica. Muito difundido no Brasil colonial, segundo o sociólogo Gilberto Freire,  SOBRADOS disseminaram-se precisamente no momento em que começou a dissolver-se o sistema económico fundado no tráfico de escravos, quando os proprietários rurais, aburguesados, se transferiram  de suas "Casas Grandes" rodeadas de "Senzalas", erguidas junto das plantações, para os centros urbanos, onde procuraram manter nesta fase, usos e costumes tradicionais, levando consigo a criadagem que se habituaram a ter por perto para os servir. O SOBRADO permitiu-lhes um tipo de habitação muito especial, com características próprias em termos de espaço interior, de divisões, etc, adaptados ao  estilo de vida citadino, sem um corte abrupto com o passado rural, nessa fase de transição. Permitiu-lhes essa superação e essa adaptação.
 
Os SOBRADOS de dois pavimentos eram destinados às classes mais abastadas, comumente possuem um espaço livre frontal cercado por grades, um amplo lance de escadas que leva ao pavimento superior composto por uma sala e portas que se abrem para os quartos de dormir, além das quais se situa a varanda, onde a família geralmente faz as refeições e recebe visitas durante o dia. A parte mais baixa da construção é ocupada pelos serviçais, ex-escravos, por animais ou destinada a fins domésticos, ou ocupados por lojas. Dava-se grande importância às varandas internas voltadas para dentro, as bandeiras nas portas e janelas, e as sacadas externas voltadas para a rua, com grades de ferro. Os SOBRADOS podiam ter uso residencial, comercial ou misto. O uso determinava  a compartimentação.

No Brasil existem muitos SOBRADOS a recordar esses velhos tempos que em que o trabalho escravo alimentara secularmente uma economia que tinha por base as plantações de cana de açucar. Em Angola também os havia, sobretudo em Luanda e em Benguela. Em Moçâmedes onde a colonização foi tardia, conhecemos apenas este. Até neste pormenor se revela o tipo de colonização ali levada a cabo. Até porque muito poucos podiam ter a veleidade de mandar construir um SOBRADO! 


Na 2ª foto acima, a foto a preto e branco, está a prova acabada de que este belo SOBRADO,
situado na ex-Rua da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, a olhar para a ex-Avenida da República e para o edificio dos CTT, cujo último proprietário foi Venâncio Guimarães,  pertenceu à  Companhia de Mossâmedes, ou "Mossâmedes Society", Companhia de responsabilidade limitada, com sede em Paris, criada em 1894 pela Royal Society, com a maioria do capital francês, na sequência do Tratado assinado entre França e Portugal, em Maio de 1886,  por altura da célebre Conferência de Berlim,* e da assinatura do Mapa Cor-de-Rosa**, o célebre mapa com o qual Portugal pretendia que lhe fossem reconhecidos os direitos às regiões entre Angola e Moçambique, "descoberta" pelos oficiais da Marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens entre 1884 e 1885, pretensão que levou ao Ultimato Inglês de 1890 (1), uma verdadeira declaração de guerra da Inglaterra a Portugal, numa época em que o interesse pela colonização do sul de Angola se encontrava legitimado perante as potências europeias concorrentes, pelas explorações realizadas nos anos 1870 e seguintes, e pela colonização iniciada com colonos oriundos de Pernambuco, Brasil, no final dos anos 1840, e outros vindos do Algarve a partir dos anos 1860, nomeadamente de Olhão, bem como pela presença dos colonos madeirenses chegados à região planaltica da Huila (1884-5), enquanto em Berlim decorria a célebre Conferência. 

Por essa altura a soberania de Portugal em toda uma faixa do território angolano a sul de Benguela e seu Interland encontrava-se em perigo. Os ancoradouros e portos do sul, estavam sendo alvo da cobiça dos alemães do Sudoeste Africano (actual Namibia), que aspiravam a construção de um caminho de ferro transafricano que garantisse aos territórios que ocupava uma saída para o mar, ligando o Índico ao Atlântico, e chegaram a realizar uma expedição à Baía dos Tigres. Questão sensível numa época em que não estavam ainda definidas as linhas de fronteira, era grave a crise financeira portuguesa, e com nitidez se  revelava ao exterior a  incapacidade  dos portugueses de subjugarem os povos guerreiros do Cuamato e do Cuanhama, que habitavam a sul do Cunene.   Foi então que a Companhia fez deslocar para Moçâmedes vários especialistas, de prospetores a engenheiros, biológos e agronómos, etc., com o objectivo de levar a Angola a dar o grande salto de que necessitava para progredir e se modernizar, e para que Portugal ganhasse o respeito de nações cobiçosas. 

Eram  tempos de reconversão económica, o tráfico de escravos que durante 3 séculos escoara de Angola na direcção do Brasil e Américas, tinha sido definitivamente abolido em 1869, o investimento da parte dos colonos, sem grandes capitais, não era suficiente para levar por diante o desenvolvimento de infra-estruturas necessárias, nomeadamente a construção da ferrovia, a implantação e o desenvolvimento da produção agrícola, bem como a exploração de recursos minerais, etc etc, o principal objectivo da Companhia.

Estes são alguns pedaços da História de Moçâmedes, que se confundem com a história deste SOBRADO que mereceria ser salvo , antes que o processo de destruição se torne irreversível. Este o meu apelo a quem tem nas suas mãos o poder de manter ou de deixar cair este edifício, que foi também fruto do trabalho árduo de tantos africanos que ali deixaram o seu suor, para além daquilo que representa para a compreensão da História de Moçâmedes e de toda a região sul de Angola. Olhemos para os edificios antigos, procurando ler através deles a mensagem que do fundo dos tempos nos estão enviando!

Como alguém muito bem disse:
“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”

MariaNJardim


O  CONTEXTO DA ÉPOCA

(1) No contexto da  chamada "Partilha da África" entre as potencias europeias, Portugal apresentou um projecto de ligação entre Angola e Moçambique (o "mapa cor-de-rosa"), na tentativa de alargar a sua presença no continente africano, projecto que colidia com os interesses da Inglaterra que sonhava com um caminho-de-ferro ligando a África do Sul ao Egipto, e apresentou a Portugal o Ultimato de 1890, que intimava a desocupação dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique num curto espaço de tempo: "Ou esquecem o mapa ou têm guerra!  O Ultimato levou Portugal ao abandono das pretensões assinaladas, e foi uma verdadeira declaração de guerra, que na Metrópole caiu como uma bomba face à humilhação provocada, tendo à época levantado uma onda de patriotismo, que foi aproveitada para incentivar os portugueses a partir para uma Africa que à maioria ainda despertava temores e medos.