21 julho 2018

Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do cais acostável de Moçâmedes, em Angola





Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se  do cais e prepara-se para encostrar... Fotos, históricas, marcam o momento da chegada do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo a Moçâmedes (actual cidade do Namibe), a bordo do paquete Uíge, em 24.05.1957, para inaugurar o 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.



O paquele "Uige" e a multidão que para ali se havia deslocado para assistir à inauguração, vistos do cimo da falésia




Panorâmicas do cais e da baía no decurso das obras da construção  Nesta 1ª fase das obras ainda a maioria das primitivas pescarias  alí se encontravam. Não tardaria muito a serem  demolidas, tenso em vista as obras do cais acostável e da avenida marginal de Moçâmedes.


Foto tirada em 1961, 5 anos após a inauguração da 1ª fase da construção cais acostável de Moçâmedes, e 7 anos após o lançamento da primeira pedra para  o início da mesma.

A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos,  pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno

O arranque deste 1º troco foi inaugurado com em cerinónia de colocação da 1ª pedra, pelo General Craveiro Lopes a Moçâmedes, no decurso da sua visita em 24.06.1954. Clicar AQUI.
 


(Parecer do Comandante Correia da Silva).
Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.
Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.
Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).
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Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.

…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.

Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.

A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.

O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.

Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.

A sua importância futura, é pois, considerável.

Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.

O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.

Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas

 


Do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres

 


Porto de Moçâmedes. Outras opiniões sobre o equipamento

(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico)

«Mossãmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Mossãmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
 

 Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.

 
 

Para mais informação: AQUI


Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.               



 
 Pesquisa de MariaNJardim

 Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.

-Para mais informação: AQUI -Para ver fotos sobre a visita do General Craveiro Lopes a Moçâmedes e a cerimónia da colocação da 1ª pedra, que em 24.06.1954 deu o arranque à construção do cais de Moçâmedes, clicar AQUI.

Nota: Agradece-se se forem daqui tiradas fotos e textos que não esqueçam os respectivos créditos de texto e de imagem.


18 julho 2018

O morro da Torre do Tombo. As «furnas» ou «grutas». As «inscrições»



O «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas históricas e numerosas «furnas» ou «grutas».
Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT


Outra foto do «morro» da Torre do Tombo em Moçâmedes, com as suas «furnas» ou «grutas». Imagem da Missão Hidrográfica, 1930-40 . IICT

Hoje já nenhuma destas «inscrições», verdadeiras preciosidades, podem ser vistas, nem pelas gentes que habitam Moçâmedes, nem pelo visitante ou pelo turista que ali se desloque. Porque simplesmente elas já não existem. Porém na data em que esta foto foi tirada,  provavelmente já em finais do século XIX, ou inícios do século XX,  estas eram, como vem legendado, as mais recentes «inscrições» do morro da Torre do Tombo, a Ocidente da povoação. Também das inúmeras «grutas» ou «furnas» que percorriam a base do morro, já muito poucas restam e estas em estado de lastimosa  degradação. Nada disto foi preservado, nem no tempo colonial nem no pós-independência, por falta de consciência daquilo que é um património histórico da humanidade. Uma falta de consciência que persiste e se prolonga no tempo...




O MORRO DA TORRE DO TOMBO: «FURNAS» OU «GRUTAS»  E  «INSCRIÇÕES»




Escavadas a punho na rocha branda desde tempos imemoriais, para servirem de abrigo a mareantes e  a corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada», ou seja, abasteciam-se de água potável e descansavam antes de prosseguirem viagem, foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de inegável valor histórico. A mais remota informação sobre este histórico local, vem-nos das «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha. Este autor diz-nos que foi o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, enquanto comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa,  quem pela primeira vez registou as referidas «inscrições» impressas na rocha branda do Morro da Torre do Tombo, quando fazia uma visita, em 1785,  à «Angra do Negro», nome pelo qual era designada a baía de Moçâmedes. E mais adianta que foi Pinheiro Furtado quem destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, que essas «inscrições» estavam datadas desde 1645 a 1770, como mais adiante se descreve. Aliás, pensa-se que foi Pinheiro Furtado quem primeiro deu o nome de «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e colocando uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.

Eis as inscrições, tal como foram registadas pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, conforme as «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha.

"Kemy 1723, II-IS-1766;

LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER GY 1665;

JAN DIER;

FRANCISCO DE BARROS,

BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;

o- FRN - PMO
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;

JOSÉ DA ROSA 1645;

MR 1649;

MEDIDA W 1768;

18-1770;

DE TONCHON;

RIO CONENE;

MUNDO en..65;

SF 1770;

Aqui esteve o patacho GOYA 1665;

MANUEL RODRIGUES COELHO;

MARTIM em 1770;

Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;

THOMAZ DE SOUSA;

O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;

O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;

Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;

JAN DIMMESEN 1669;

VNSSENGAE PARA 1669;

ADRIIEENDIRERSEN".

A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento transladado no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior:  «1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES ». 

Devemos, finalmente, salientar o  reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía», diferindo aquela data (1765) precisamente um século da primeira (1665). Acredita Sousa Dias, houvesse um erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.

Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:

"...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossamedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais."

"...Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. "

No segundo volume da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação: «...Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc... Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666». (Gastão de Sousa Dias, in "Pioneiros de Angola»)


Há notícia de que existia no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes cópia de um documento onde se podia ler o seguinte: «...lembraram-se três moradores de Moçâmedes, em 1858, de o desentulhar e de reproduzir as inscrições...»  Nesta página, não foi, porém, encontrada a referida inscrição de 1641. Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que a teria fixado em sua memória.

Encontrámos uma referência dos tempos em que o Brasil e Angola estiveram sob a ocupação holandesa, quando Salvador Correia de Sá e Benevides partiu para o Brasil em Dezembro de 1644, incumbido de organizar uma expedição de socorro a Angola, e logo ali contactou com o governador cessante do Rio de Janeiro que entretanto havia sido nomeado governador de Angola, encarregando-o da dita expedição. A partida de Souto-Maior para Angola ocorreu em 08 de Maio de 1645. A armada, constituída por 300 homens, fundeou na Enseada do Negro (Baía de Mossâmedes), a 10 de Julho de 1645, que não era então habitada, e de onde seguiu para norte (evitando Benguela, em poder dos holandeses), até chegar a Quicombo, onde ainda se encontrava um barco da expedição anterior. Porém perante o impasse, que em concreto nada modificou a precária situação em que se encontravam os portugueses em Angola, D. João IV propôs que fosse organizada uma nova expedição, que definitivamente libertasse Angola da ocupação holandesa, o que veio a acontecer em Maio de 1648. Nem o nome de Souto-Maior nem o ano da sua passagem pela  Angra do Negro vêm mencionados na vasta lista das inscrições registadas por Pinheiro Furtado, conforme as «Memórias Histórico-Estatísticas» de Brito Aranha.

No ano de 1862, sobre este assunto refere o autor anónimo de um  livro bastante crítico então publicado, e assim intitulado


...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram àquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous séculos.

(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes



Esta foto mostra-nos uma dessas "grutas" ou "furnas" que iam sendo utilizadas pelos proprietários das pescarias. Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT


Estas são as instalações pesqueiras da firma de Martins Pereira/ex Morgado& Morgado, de concessão régia. Aqui podemos ver, à direita, uma das  muitas "grutas" ou "furnas" ali encontradas, então encoberta  pelas instalações pesqueiras.  Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT


 
 Um trecho do morro de Torre do Tombo





O morro da Torre do Tombo visto do mar. Esta é a zona onde ficavam as instalações da firma Morgado & Morgado, de concessão régia, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira

 


Ao centro desta foto vêem-se as instalações pesqueiras da firma Morgado & Morgado, de concessão régia, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira




Esta foto mostra-nos várias "inscrições", de entre as quais  ÍNDIA e SADO. Ainda que nos pareçam
"inscrições" forjadas e não reais, a verdade é que os nomes ali impresos, INDIA e SADO, estão intimamente ligados à História de Moçâmedes.   

A "inscrição" SADO remete-nos para a chegada a Moçâmedes do brigue assim designado, em Julho de 1857, transportando consigo 12 alunos da Casa Pia de Lisboa, e uma colónia de 29 alemães. Iam com destino à colonização das Terras Altas de Mossâmedes, como então se designava o planalto da Huila, e com o patrocínio de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos, com a recomendação ao Governador para que constituíssem com eles uma aldeia que deveria denominar-se "KRUSS", apelido do contratador.  

Este grupo, 16 dias após ter desembarcado em Moçâmedes, marchou rumo ao planalto durante 7 dias, com paragem de 2 dias no Bumbo, segundo informação de Francisco Godinho Cabral de Melo, de 22 de Junho de 1957. Acabou por desaparecer sem deixar vestígios, segundo refere Pereira do Nascimento (in "O Distrito de Mossamedes"), ou como refere Ponce de Leão no artº n. 4 do Jornal de Mossâmedes:  "Esfacelou-se pelos erros da sua organização"  (...) "Os alemães desgostosos perante os insucessos no interior acabaram por se estabelecer em Mossâmedes onde prestaram relevantes serviços".

Consultando o Boletim do Conselho Ultramarino: "Legislação Novissima", Volume 3 By Portugal, Conselho Ultramarino, podemos ver a lista dos nomes colonos alemães, bem como outros dados alusivos ao assunto, que por ser extensa não colocaremos aqui.


Quanto à "inscrição" ÍNDIA, esta remete-nos para a chegada a Moçâmedes, em 19 de Novembro de 1884, do navio com aquele nome, que  largara do Funchal, na Ilha da Madeira, a 18 de Outubro de 1884, carregando no bojo mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças e  mais uma criança, entretanto nascida a bordo, tendo por destino o planalto da Huila.  

Era o primeiro contingente de europeus que ia dar inicio ao povoamento branco das então designadas "Terras Altas  de Mossâmedes", concretizando um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e de pressão internacional, enquanto na Europa decorria a Conferência de Berlim (1884-1885) cujo objectivo era definir as regras para a partilha de África entre potências industrializadas.

Dava-se assim início à colonização europeia das terras de Moçâmedes, a sul de Benguela, uma precária colonização que por muito tempo esteve àquem da concretização do sonho do Visconde de Sá da Bandeira,  o liberal progressista que, aproveitando-se de uma conjuntura favorável, assinou e mandou publicar o  Decreto de 12 de Dezembro de 1836, visando a abolição do tráfico de escravos para  o Brasil e as Américas, e inaugurando um novo paradigma colonial de fixação e desenvolvimento para as colónias africanas. Foi  após a Conferência de Berlim que a ocupação efectiva passou a ser vista como uma prioridade. 

Por esta altura as famílias portuguesas preferiam  continuar a emigrar para o Brasil, a África era vista como um Cemitério para os europeus, devido a doenças mortais, como paludismo, malária, doença do sono que por lá livremente campeavam. Para Angola iam degredados, gente não grata, a cumprir as mais diversificadas penas, que em grande número por lá ficou, e deu mau nome à colonização.  No entanto, começava a ser difundida a ideia da benignidade do clima naquelas paragens do sul de Angola onde se se encontravam já instalados  desde 1849 os colonos fundadores de Moçâmedes, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, ali chegados, vindos de Pernambuco, em 1849, Brasil, fugidos da Revolução Praeeira.

Portugal detinha os "direitos históricos" mas não  uma "ocupação efectiva". O interior era praticamente desconhecido, não obstante a  expedição de Serpa Pinto, em 1869, ao Zambeze, e as expedições de Roberto Ivens e de Hermenegildo Capelo, em 1877,  entre Angola e a  Contra-Costa, sob os auspícios da Sociedade de Geografia, onde colheram todo um conjunto de registos geográficos, cartográficos e etnográficos com intenções políticas implícitas e bem definidas. Por essa altura a ocupação portuguesa encontrava-se reduzida ainda a pequenos nucleos instalados nas cidades litorâneas de Luanda, Benguela e Moçâmedes, sendo desconhecida a maior parte do interior do território angolano.


Sobre a odisseia dos madeirenses em terras de África poderá consultar mais dados AQUI 



Esta foto que se pressupõe seja de finais do século XIX,  mostra-nos o morro da Torre do Tombo  com as «grutas» ou «furnas» ainda soterradas pelas areias soltas acumuladas pelo vento que cobriam o morro até grande altura. Existem escritos dos quais existem cópias no arquivo da Câmara Municipal de Moçâmedes que revelam que três moradores da povoação, em 1858, se lembraram de o desentulhar e de reproduzir as "inscrições". Nesses escritos encontravam-se descritas as inscrições, tal como Pinheiro Furtado as destacara num ofício, datado de 4 de Outubro de 1785, dirigido ao Capitão General de Angola, Barão de Mossâmedes, onde referia que as mesmas estavam datadas desde 1645 a 1770. Não foi, porém referida inscrição de 1641. A este respeito consulte-se as Memórias «Histórico-Estatísticas de Brito Aranha.



Mais uma foto do morro da Torre do Tombo, onde foram encontradas as «grutas» ou «furnas»  e as célebres «inscrições» , e onde surgiram as primeiras e rudimentares pescarias.

Esta foto retrata a mesma zona das fotos anteriores, embora tirada de sul para norte. O morro de facto apresentava um aspecto desolador.



 Clicar sobre esta foto para ampliar.
Clicar sobre o Postal. É uma foto panorâmica
 


Aqui de novo a Pescaria de João da Carma/ João Martins Pereira,  apresentando aqui um estado lastimoso...



MEMÓRIAS COM HISTÓRIA



As "grutas" ou "furnas" dos meus avós




Deixo aqui algumas das memórias ainda vivas e claras que possuo de momentos vividos na minha infância e na minha adolescência, intimamente ligados a este histórico local.  Essas memórias tornaram-se mais transparentes quando deparei na net com esta foto há tanto desejada e finalmente conseguida,  a foto das "grutas" ou "furnas" que pertenceram à pescaria dos meus avós, situadas no morro da Torre do Tombo.

Embora esta foto não  mostre na íntegra aquilo que de facto eram as citadas "grutas" ou "furnas", uma vez que apenas nos mostra uma parte da fachada, e esta já em estado de degradação, fica-se com uma ideia do seu exterior, da porta da entrada, das janelas, e do troço de escadas que nos levava até elas, bem como se fica dos quartos em adobe que existiam no exterior, e que serviam de apoio à pescaria, também eles aqui já sem reboco e em estado lastimável. Enfim, uma paisagem da cor da areia, que me surge agora paupérrima e  triste, tal como surgia a «Mossâmedes do antigamente» aos olhos do poeta, conforme poema que se descreve a seguir:  



 Moçâmedes beijada pelo Deserto
 


"A velha ponte-cais

de traves carcomidas,
O morro triste,

 a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre

 da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos. (1)



Minha tia Lídia e meu irmão à porta da entrada das "grutas" ou "furnas"que nesta altura, devido à salinidade do mar já apresentavam um certo grau de desgaste na pintura exterior. Estava-se em 1940, o amo em que nasci.
                                  



Foi pois  com um certo requinte que meus avós transformaram numa casa de habitação essas 3  "grutas" ou "furnas", ao ponto de quem estivesse lá dentro não tivesse a mínima sensação de enclausuramento, e se sentisse como se estivesse no interior de uma habitação normal. E como as 3 "grutas" ou "furnas" ficavam num plano elevado em relação à base do morro, tiveram que construir uma escadaria em cimento para que a elas tivessem acesso. A verdade é que foram transformadas numa confortável habitação, com compartimentos de paredes rebocadas, caiadas, pintadas, quartos interligados entre si, ventilados através de janelas envidraçadas para o exterior, porta de entrada principal à qual se podia aceder  através daquele troço de escadas em cimento, que a foto permite ver. O tecto era alto, em abóbada, e tal como as paredes da entrada, encontrava-se rebocado e caiado de branco. Num dos compartimentos ficava uma sala comum, devidamente mobilada, com mesas, cadeiras, louceiro, um sofá onde se podia dormir, e pendurados encontravam-se um quadro e um relógio de parede. Noutro compartimento ficava o quarto de dormir,  com uma cama de casal em ferro, duas mesas de cabeceira, uma cómoda e um guarda roupa. No terceiro compartimento ficava uma rudimentar casa de banho, com chuveiro tipo balde de fabrico artesanal, feito de zinco ou latão, daqueles de colocar a água dentro, subir e descer na direcção do tecto, com a ajuda  de uma corda, onde ficava pendurado, pois na Moçâmedes da época era o que havia, e na zona a água canalizada chegou já nos anos 1950, e nem cacimbas havia de onde a retirar, tendo a água que ser acarretada em baldes, ou levada para as habitações em barris puxados por  cordas, a partir de chafarizes que existiam a considerável distância. Isto já em meados do século XX. A cozinha ficava num cantinho da «casa», num pequeno compartimento junto da entrada, e compunha-se de um  fogão a petróleo, existindo no lado de fora um forno em tijolo e barro, de formato arredondado, tipo antigo forno de padaria, com porta de abrir e fechar, onde se podia cozer o pão, os bolos, etc etc.   Lembro-me que na parte de fora havia uns  quantos vasos com flores que davam alguma alegria àquele ambiente árido e rudimentar, e que meus avós tinham plantado nas proximidades uma oliveira, que devido à salinidade e ao tipo de areia solta do terreno, nunca medrou. Talvez uma casuarina fosse a solução naquela terra árida e ressequida, onde nada medrava. Na verdade parece incrível que os meus avós tivessem conseguido  aquela verdadeira obra de arte, facilitada porque entre 1935/1940 tinham recebido uma herança de família vinda da Metrópole, e resolveram investir com paixão no seu arranjo, embora tivessem a morada de família numa casa grande e de boa construção para a época, no Bairro da Torre do Tombo, lá para os lados de uma pedreira que existia perto do local onde foi mais tarde construida a Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes.  É que as «grutas» ou «furnas» ficavam próximas dos armazéns do Sindicato da Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, onde meu avô trabalhava, ali ao lado da fábrica de conservas Sociedade Oceânica do Sul, S.O.S, a ex-Fábrica Africana,  e  ter uma casa ali facilitava a gestão do tempo.  Sei que era ali que ele almoçava, que dormia a sesta, regressando à casa grande da Torre do Tombo ao fim do dia. Soube que chegou a estar arrendada. Ficava junto da pequena pescaria dos meus avós, onde trabalhavam «quimbares», gente africana aportuguesa, descendente de antigos escravos, que se dedicavam-se voluntariamente à pesca à linha numa canôa (pequena embarcação), e ganhavam uma percentagem do pescado, com prévio acordo. Resta referir que estas «grutas» ou «furnas», pela forma cuidada em que se encontravam, eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português,  de passagem por Moçâmedes, que  não deixavam de as visitar, conduzidos para ali pelo grande amigo de Moçâmedes, o veterinário Dr. Carlos Carneiro. Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1938, estas "grutas" ou "furnas" foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e Cesaltina Carmona Silva e Costa, que ali se deslocaram acompanhadas de vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado.  Antes porém já havia sido visitadas por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que ali se deslocara no automóvel de Mário de Sousa  (proprietário de uma oficina de reparação de automóveis na Rua dos Pescadores e de um táxi), para combinar o momento da referida visita. Mário de Sousa era quem sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações, nesse tempo em que eram escassos os automóveis na cidade. Estas recordações que fazem parte da História de Moçâmedes, foram-me transmitidas por uma tia de nome Maria do Carmo, que tinha então 12 anos de idade, e que por ter o mesmo nome que  a Maria do Carmo Fragoso Carmona, esposa do Presidente da República, foi por esta convidada para prosseguir os estudos em  na Metrópole, sonho que não realizou porque a familia a tal não autorizou.

Convém ainda referir que as «grutas» ou furnas» dos meus avós se encontravam registadas na Conservatória de Moçâmedes e pagavam imposto ao Estado. Aliás quando o  Presidente Carmona visitou Moçâmedes, em 1838, meu avó apresentou uma reclamação a esse respeito, considerando que pagava indevidamente imposto  por aquele bem que encontrou completamente abandonado,  inserido numa zona não urbanizada, completamente entregue aos proprietários das pescarias, na maioria pescadores, tendo eles que abrir carreiros, uma vez que sequer uma estrada digna ali havia, por onde pudessem passar. 

Por esta altura, como mostram as fotos colocadas atrás, não havia estrada que permitisse avançar pela base do morro até às últimas pescarias que ficavam próximas da Ponta do Pau do Sul, existia apenas um carreiro através do qual se ia avançando, a pé, de pescaria em pescaria, uma vez que o morro ia até ao mar. E foi assim até à construção da Avenida Marginal e do Cais Comercial, iniciada em 1954, que levou ao desmantelamento  das pescarias. Eram precários meios de que dispunham os pescadores e os industriais-pescadores das primitivas pescarias da Torre do Tombo. Apenas o troço intermédio entre a Fábrica de Conservas S.O.S e os Armazéns do Sindicato da Pesca, mais tarde Grémio da Pesca, que ficava próximo da pescaria dos meus avós, pôde beneficiar de uma estrada de terra batida que permitia a um veículo passar. Não faltavam reclamações das gentes da terra sempre que uma personalidade de relevo a visitava. Angola esteve paralizada na fase em que decorreu a 1ª Grande Guerra de 1914-18 e durante a vigência da 1ª República como que estagnou. Entre 1939-45 foi a vez da 2ª Grande Guerra, e riso de novo paralisou Foi a partir da segunda metade do século XX que Angola entrou numa fase decisiva do seu desenvolvimento, de que Moçâmedes muito beneficiou. Em toda a primeira metade do século XX, a precaridade dos meios era enorme, e as ajudas estatais quase nulas.



 Eu e as velhas pescarias e a Avenida Felner, numa foto tirada pelo meu irmão, em 1955 do cimo do «morro» da Torre do Tombo, precisamente por cima do sitio onde ficavam  "grutas" ou "furnas" e  a pescaria dos meus avós



Nós, junto do morro, em 1955. Por esta altura estavam fazendo terraplanagens para as obras da marginal e do cais acostável. Ao fundo, à esq., vêem-se algumas "furnas" ou "grutas" a descoberto



 
 As eiras onde secavam o peixe




Eu e um prima rumando a caminho de uma pequena traineira (rapa), num pequeno barco a remos (chata)

 
Em 1954 começaram finalmente as obras do cais, que levaram a que fossem retiradas  do morro ou falésia da Torre do Tombo toneladas de areia  que alteraram a morfologia do terreno. A estrada que então havia sequer  permitia a um carro avançar até às pescarias mais distantes, que ficavam mais a Sul. 


MariaNJardim



Nota: Penso que as «furnas» ou «grutas» que acabei de citar são as mesmas  que podemos ver, na 8ª foto foto acima exposta, no canto superior esquerdo, então no estado natural. 

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 As pescarias até meados de 1950



AINDA SOBRE AS «FURNAS» ou «GRUTAS», e as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA TORRE DO TOMBO.
O que resta das mesmas e o significado histórico...





Na verdade conheci este local como às minhas mãos, porque era ali que ficavam as "grutas" ou "furnas" dos meus avós, a sua pescaria e a pescaria dos meus pais, esta lá mais para diante já próximo da Ponta do Pau do Sul, num local onde apenas se podia penetrar a pé. E em tempos mais recuados, apenas de barco.  


E também porque foi em Moçâmedes que nasceram meus pais, que nasci, que  casei e que nasceram os meus filhos. Na infância trepei algumas vezes este morro, de cima baixo e de baixo para cima, entrei em algumas dessas «grutas» ou «furnas», que na sua maior parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, onde se guardavam os apetrechos, redes, anzóis, tambores de alcatrão, bidões de óleo, caixotes, latas de tinta, etc etc. Nunca pensei que fossem tantas! 

Na adolescência assisti às demolições das pescarias que circundavam a falésia  da Torre do Tombo, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» até então escondidas pelas pescarias, a descoberto,  e mais expostas à erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem. Confesso que nunca pensei fossem tantas! Lamentavelmente, não me lembro de lhes ter dado alguma importância, não obstante as memórias que ainda hoje evocam.   Não admira!


Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias, por famílias dedicadas à pesca do atum,  que fizeram desaparecer as «inscrições» mais antigas, gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme nos diz Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que avança também que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro,  é também certo que outras mais recentes intervenções e insensibilidades acabaram por fazer desaparecer aquilo que restava de histórico neste local. quando, com a demolição das pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, na fase dos aterros e terraplanagens, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. 


Já alguém disse que um povo sem História é um povo sem memória que está fadado a cometer no presente e no futuro os mesmos erros do passado. A História é algo abrangente, ela está presente até no ar que respiramos. Então será que devemos esquecer que a velha "Angra do Negro" de Diogo Cão,  a «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas da zona, foi em tempos remotos ponto de passagem dos primeiros navegantes e corsários, que nas suas navegações ao longo de séculos pelo vasto mundo  ali faziam "aguada", ou seja, abasteciam-se da água do Bero, e descansavam antes de prosseguir viagem?  E que foi junto a essas «furnas» ou «grutas» que foram encontradas impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, datadas desde 1645 a 1770, e outras mais recentes que não chegaram aos nossos dias?

Para além do historial que ficou para trás, essas «furnas» ou «grutas» serviram também de primeira morada aos pioneiros algarvios de Olhão que começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861,  sem quaisquer ajudas dos Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar. Eles levaram para Moçâmedes o seu saber de experiência feito, e com eles anzóis, redes, e tantos outros apetrechos, barcos, etc, que transmitiram a outro povos.

Trata-se pois de um verdadeiro «ex-libris», faz parte da História  de Angola, da História de Portugal e da História Universal. Um lugar pouco reconhecido e estimado, quer antes quer após a independência de Angola,  actualmente em processo de acelerada  degradação, bastando comparar o aspecto de então com o seu aspecto actual.




O bairro da Torre do Tombo na zona mais a sul, já a subir para o Canjeque e Praia Amélia, podendo ver-se as casas de traça portuguesa de João Duarte, outro dos ex-libris da cidade em estado decadente. 

Prossigamos com as nossas recordações sobre este histórico e mal cuidado local.  Em 24 de Junho de 1954, no decurso de uma visita a Moçâmedes do Presidente da República, General Craveiro Lopes, tiveram início as obras da marginal e do cais acostável. E em 24 de Maio de 1957 o 1º troço era inaugurado, com a presença do Governador Geral.




24 de Maio de 1957. Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se  do cais e prepara-se para encostrar...


 24 de Maio de 1957. Momentos da inauguração, com a presença de alunos do colégio e das escolas, futebolistas e basquetebolistas dos clubes da cidade, e povo em geral.




24 de Maio de 1957. O paquele "Uige" e a multidão, vistos do cimo do morro da Torre do Tombo. 
 

24 de Maio de 1957. De mais perto, o paquete e a multidão. As alunas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes abrem alas para o Governador passar. De entre outros reconhece-se Mário Guedes da Silva, Mário Rocha, e o professor Canedo. 24 de Maio de 1957.
  


24 de Maio de 1957. A aguardar a chegada do Governador Geral, o bispo da Diocese de Sá da Bandeira e elementos representativos das "forças vivas" da cidade


24 de Maio de 1957. O momento da entrega das chaves da cidade ao Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, pela basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Celísia Calão. A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Dr.Nunes da Ponte


A apresentação de cumprimentos de boas vindas ao Governador Geral de Angola, por elementos representativas das "Forças Vivas" da cidade, ou seja, da esquerda para a direita, o Dr Mário Moreira de Almeida (médico), Raúl Radich Junior, Rui de Mendonça Torres, Abilio Simões da Silva e Virgílio Carvalho de Oliveira.





24.05.1957. O momento simbólico do descerramento da placa comemorativa da inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.

 

Por baixo de um toldo erguido no cais, o Governador de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte, entre o Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, e o Dr. Mário Moreira de Almeida (Médico), presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, procede à assinatura do auto da inauguração.



O Governador Geral de Angola,Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, no topo da falésia, tendo a seu lado o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte. 




Finda a cerimónia, o cais vazio de gente... O paquete Uije descansa enquanto os visitantes e comitiva, forças vivas e povo se deslocam para outros pontos da cidade para  assistir a outras cerimónias. Na mesma data procedeu-se à inauguração do novo edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca do Distrito de Moçâmedes, e ainda  à cerimónia da colocação da primeira pedra que deu início à construção do complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, ambos os actos presididos pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.



Panorâmica do cais e da baía no decurso das obras da construção  nesta 1ª fase das obras, em que grande número das primitivas pescarias ainda ali se encontravam. Não tardariam muito a ser demolidas. Com as terraplanagens, o morro sofreu vários desgastes e as "grutas" ou "furnas" igualmente. Posteriormente estas têm continuado a sofrer a erosão do tempo, e as consequências trazidas pela mão dos homens...




A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos,  pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno.

 Foi assim que se apresentou à noite a baía de Moçâmedes quando da inauguração da Avenida Marginal em 1963. Fotos cedidas por Vitor Torres
O aspecto actual das «grutas» ou «furnas»



Termino com este texto carregado de significado, escrito pelo primeiro sociólogo angolano, Mário Pinto de Andrade, fundador  do MPLA, que lembra a necessidade quanto possível da preservação deste histórico local, que já não guarda as velhas «inscrições» de grande valor histórico, mas que ainda pode oferecer à cidade, a Angola, e ao mundo, com a preservação das "grutas" ou "furnas" que restam, testemunhos da história desse mesmo Mundo.


"...A cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»   in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].





(1) Era assim que o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes , Joaquim Paço D´Arcos via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes, entre de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito.  Não admira, este poema do início do século XIX, tempo de estagnação no  desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola,  tempos de total anarquia, tendo muitos  portugueses resolvido abandonar o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi melhor. Aliás, Portugal passou a olhar Angola como a nova "Joia da Corôa após a perda do Brasil, independente em 1822, mas tinha condições para avançar com grandes realizações. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa  em 1875, veio acompanhada de algumas boas vontades mas não foi suficiente. A Conferência de Berlim (1884-5) veio impôr uma nova ordem, e Portugal foi obrigado a uma ocupação efectiva das colónias e ao seu desenvolvimento, perdendo o direito histórico todo o valor. Foi então que com muita dificuldade se procurou fixar as bases de uma nova administração,  promover o povoamento com famílias portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Mas este foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de Matos, que em 1912 havia reacendido a esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a revolta dos autóctones eram uma realidade do que resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que fizeram de Moçâmedes o seu porto de desembarque. 

Muito haveria mais para dizer...




MARIANJARDIM



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16 julho 2018


 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 Foto de Amílcar Sousa Almeida.

Foto de Amílcar Sousa Almeida.

 Foto de Amílcar Sousa Almeida.
 




CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO (CEI)

(I)
Em inícios de 1956, com 19 anos, tomei a decisão de vir para Portugal, prosseguir os meus estudos. Tinha feito em regime “post laboral” a Secção Preparatória para os Institutos Comerciais, uma “ponte” para a licenciatura em Economia.

As condições da “luta” que levou o poder de Lisboa à criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na Escola Comercial de Moçâmedes, foram objecto dum texto que já publicámos.

Decisão muito difícil de tomar. Ia deixar a minha terra, a minha família e os meus amigos, além de um “bom” emprego no Grémio da Pesca.

Mas tinha que ser assim. Na época não havia Ensino Universitário em Angola e quem quisesse obter uma formação “superior” tinha de o fazer obrigatoriamente na “Metrópole”.

O regime da ditadura tinha receio que a criação de universidades nas suas colónias de África fosse uma “porta escancarada” para reivindicações de independências futuras. Os “senhores” de Lisboa não queriam nem pensar em “novos Brazis” na “sua” África.

Escrevi então para o ex-colega da Escola de Pesca, Vítor Manuel Figueiredo, que já estava em Lisboa preparando o seu acesso ao curso de Arquitectura. O Vítor era sócio da Casa dos Estudantes do Império que dispunha de uma cantina e de um lar residencial próprios.

Parti para Lisboa em Março de 1956, no paquete “Império”.

À chegada, na gare de Alcântara, lá o estava o amigo Vítor Manuel à minha espera. Dali seguimos para a Casa dos Estudantes do Império, no nº 23 da Avenida Duque de Ávila, a fim de regularizar a minha situação como seu associado.

De seguida fomos para o lar da CEI na Praça Pasteur, no Areeiro, onde fiquei instalado na companhia do amigo Vítor.

O ambiente foi desde logo muito animador, na CEI cruzávamo-nos com estudantes universitários de todas as faculdades e oriundos de todas as colónias: angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses, santomenses, macaístas e timorenses.

As refeições da cantina eram boas e a preços acessíveis. No Lar habituámo-nos a estudar ao lado de companheiros de Medicina, Direito, Economia, Engenharia e Veterinária.
A iniciar o Instituto Comercial, sentíamo-nos “pequeninos” ao lado deles. Mas era estimulante para seguir em frente e por de lado as saudades que apertavam da terra e da família. Como disse o poeta cabo-verdiano e sócio da CEI, Tomás Medeiros, a Casa era “o cantinho de saudade, o ponto de encontro com a terra distante”.

A CEI dispunha de um posto médico, para consultas e tratamentos. Era médico da CEI o “cardiologista” Dr. Arménio Ferreira, o “nosso quimbanda”, como o tratávamos familiarmente, que viria a conhecer como “um grande antifascista”.

Devo muito ao Dr. Arménio: um ano mais tarde, em consequência de uma pancada no ventre num jogo de futebol no Instituo, sofri de uma peritonite. O Dr. Arménio diagnosticou-me “a tempo” e internou-me no Hospital de Jesus, onde fui operado de urgência, assumindo ele as despesas até ao retorno dos meus pais. A CEI promovia ainda “tardes desportivas”, “bailes”, festas de Natal e conferências culturais. Mantinha um Boletim “A Mensagem”. A cantina servia diariamente à volta de 200 refeições, a preços módicos.

A Casa dos Estudantes do Império, “a Casa”, como carinhosamente a tratávamos, como seria natural face à ditadura, foi o “alforge” duma geração de futuros dirigentes das colónias após as independências. Recordo-me de ver o Dr. Agostinho Neto a almoçar numa mesa ao nosso lado, ele que viria a ser o futuro presidente de Angola independente.

Em Agosto de 1965 numa repressão generalizada da ditadura às associações de estudantes, a PIDE, a mando do ditador, encerrou a CEI e confiscou todo o seu “recheio”, o que causou enormes prejuízos aos estudantes ultramarinos.

Estudantes de Moçâmedes, Torre do Tombo, que, na época, fizeram parte dos órgãos directivos da CEI: Manuel Monteiro, Amílcar Almeida, Júlio Almeida e Ângelo Almeida.