11 fevereiro 2017

Moçâmedes, Memórias com História, por Arménio Jardim: O Cucas Abelgas







O CUCAS  ABELGAS


Andava por esse tempo Jesus Cristo pelas terras de Kafarnaum. Reinava na Judeia o rei Herodes. Os passarinhos cantavam nas virginais envolvências do rio Giraul: tchiriquatas, bituites, viuvinhas, bicos de prata, rabos de junco... goiabas, mirangolas, gajajas, pitangas, maboques amadureciam sob o calor forte do solstício do verão... Na catequese, a D. Aline exigia mais um Pai Nosso e um Creio em Deus Pai Todo Poderoso Criador do Céu e da Terra. Lá fora, o Dominguinhos ceguinho assobiava, o Guinguinda ria, o Bacia pedia mais uma esmola. O Cucas Abelgas, esse, já com os ângulos faciais e a proeminência do nariz que mais tarde, na Legião Estrangeira, viria a transformá-lo no sósia do General De Gaulle, acabava de propor a troca de uma caixa de lápis de cor, fanada sabe Deus onde, por uma bucha.

O Cucas Abelgas era sempre assim, com aquela maldita fome de mil anos; comia uma bucha seca de um quilo, e depois ia a correr ao chafariz mais próximo beber, como um camelo, 27 litros de água. Depois, como na extrema aflição de um macaco embuchado com tanta banana anã, começava aos saltos sobre os pés chatos de dedos deformados pelas matacanhas e bitacaias, na vã esperança de empurrar tudo aquilo lá bem para o fundo.

O Cucas Abelgas era, enfim, um desses infelizes meninos de corpanzil enorme, de baço inchado e pernas mirradas, em constante e perpétuo desacordo com os homens e a natureza. Além disso, aquela triste história de não ter conseguido tirar nem sequer a 1ª. classe, porque dava sempre 27 erros no ditado, e nunca ter conseguido fazer uma redacção minimamente aceitável, marcaram-no profundamente.

Sobretudo no que toca à sua dificuldade de redigir, havia certamente uma origem de ordem patológica ou de meros complexos adquiridos numa redacção mandada fazer, ao que se dizia, pelo professor Canedo, numa manhã de cacimbo, sob o tema “O meu lar”. O primeiro a ler a sua redacção foi o Eloi, menino rico que morava numa mansão do bairro alto da cidade, onde as enxurradas das furnas de Santo António passavam bem ao largo.

O Eloi leu, então, com dicção bem silabada, tranquilamente e com a segurança e o à-vontade que lhe vinham da fortuna paternal, uma bela composição literária que lhe conferiu o respeito e a inveja dos meninos pobres, em geral, e do Cucas Abelgas em particular.

Dizia ele que o seu lar era um mar sereno de muita abastança e de muita felicidade, sem incongruências, sem antinomias e sem confusão, coisas aliás que o Cucas Abelgas não sabia bem o que queriam dizer. Mas dizia muito mais o Eloi. Dizia que tinha mobílias de sala, de jardim; tinha mobílias de quarto, aparadores e quejandos do século XVIII com estranhos nomes, candelabros de pé alto e de pé coxinho; até tinha televisão a cores e parabólica que nem o James Cagney e o Errol Flynn na América tinham; tinha, enfim, tudo e mais alguma coisa, o suficiente para escrever um livro de oitocentas páginas, o que aliás só não o fez devido à urgência do professor Canedo.

No entanto, assim ao correr da pena, ainda redigiu 27 páginas bem alinhavadas que, dir-se-ia mesmo, chegavam a conter, aqui e ali, algumas passagens com requintes literários...

O Cucas Abelgas tirou a medo, da rota sacola, um pedaço de papel de saco de cimento, olhou em redor, grande e feio, e nada leu. Simplesmente, naquele quintalão onde morava, ironicamente a cem metros do Campo das Sereias, não havia salas e quartos com mobílias que dessem ao menos para as dez linhas exigidas pelo professor Canedo.

A essa hora, naquele quintalão onde morava, a Vina, sua irmã solteirona, fazia bolunga de farinha de milho e macau de massango ou massambala para vender aos domingos e feriados. À noite, bem à noite e bem bebido, chegava o pai. E com voz rouca e arrastada, do tabaco e do vinho, gritava: “Quero bife”... E bife não havia, e era porrada a todos até o galo cantar.

Lá fora, o Dominguinhos ceguinho assobiava, compondo cazicutas para o carnaval! Na praia do Chiloango, o Guinguinda mongoloide tomava banho na rebentação, enrolando-se na areia e no mar, com os disformes pendentes à mostra, rindo, rindo sempre, em risos tonitruantes, infernais, tal como, nos antípodas, focas gigantes urrando ao luar, prenhes de cio e de calor. Ri, Guinguinda, dizia o Cucas Abelgas. E o Guinguinda ria até não mais parar.

Por essa altura, em Kafarnaum, Jesus Cristo pregava em prol do homem renovado, lutava contra os fariseus. Mal se adivinhavam ainda a batalha de Lepanto, a Santa Inquisição, a Guerra dos 30 Anos, a Casa dos Habsburgos, a luta dos Cátaros, a revolta dos Coronéis.

Lá fora, o Dominguinhos assobiava, compondo cazicutas para o carnaval. Era a época das grandes cheias. Tchiriquatas, bituites, viuvinhas e rabos de junco cantavam nas mangueiras, nas goiabeiras, nas pitangueiras.

A última vez que o vi, no Campo das Sereias, o Cucas Abelgas, menino grande de baço inchado e pernas mirradas, tinha a cabeça entre as mãos e, sozinho, chorava. Vá lá saber-se porquê!


(Ass) Arménio Jardim

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09 fevereiro 2017

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: MOÇÂMEDES DO ANTIGAMENTE - ERA ALI...

Praia das Miragens (Moçâmedes) e ponte
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Navios ao largo, na baía, no tempo em que não havia cais acostável

Visitantes de um navio em "Dia de São Vapôr".  Da esq para a dt, reconhece-se:  Josefa do Ó. Faustino (de preto), Maria Dias Monteiro e duas  amigas de  Maria e respectivas crianças, vindas da vizinha Sá da Bandeira 

  


MOÇÂMEDES DO ANTIGAMENTE - ERA ALI...


Aquela velhinha ponte-cais da Praia das Miragens era o pão nosso de cada dia para as gentes de Moçâmedes do antigamente.

Tinha ela o guindaste na extremidade direita, que indiscriminadamente tudo carregava e descarregava, com o velho Veli e o Rogério Camusseques como maquinistas omnipresentes. Do outro lado da ponte, ficava o pequeno farol cuja principal função era sinalizar a localização da ponte em sintonia com o farol da Ponta do Pau de Sul e o farol do Saco de Giraul.

Era ali… e por ali que tudo se passava. A exportação da farinha de peixe em sacos de serapilheira, o óleo de sardinha, taínha e chicharro, acondicionados em velhos tambores de gasolina e até bois vivos seguiam para os cargueiros fundeados ao largo, através daqueles conhecidos batelões que ficavam um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos, dos nossos namoricos e dos nossos contentamentos.
Depois, havia o dia de S. Vapor, o dia em que os navios de passageiros chegavam com novidades do Puto e traziam os mais variados produtos, desde os nacionais até aos dos Armazéns Printemps, importados directamente de Paris.

Era uma festa para a cidade e os gasolinas do Mário de Almeida e do Raul de Sousa andavam todo o dia numa roda viva de cá para lá e de lá para cá, transportando sem parar cavalheiros e senhoras, mais senhoras do que cavalheiros, que nos barbeiros do navio compravam de contrabando sedas, lingeries, perfumes da marca Tabu e outras coisas mais.

No portaló do navio havia sempre um guarda-fiscal de plantão, mais para marcar presença do que para fiscalizar o contrabando, que era tudo gente boa e conhecida, pelo que, no regresso, as senhoras desciam as escadas do navio numa alegre e descontraída cavaqueira, não obstante o excesso de fragrâncias do perfume Tabu que carregavam atrás de si.

E já em terra, no Posto da Guarda-Fiscal, ali existente mesmo à saída da ponte, estava a palpadeira de serviço, a D. Fernanda, funcionária da Alfândega, velha solteirona que sofria de uns pequenos handicaps e que por isso ou por via disso andava sempre com um pintainho dentro do soutien para lhe aquecer o peito e cuja onomatopeia que de lá vinha ninguém conseguia discernir se era do piar do pintainho, se era da pieira ou farfalheira da bronquite crónica, que com o cacimbo só lhe piorava a vida.

Mas a verdade é que a D. Fernanda era uma santa mulher sem qualquer vocação para palpadeira. De modo que, quando as senhoras lhe chegavam à sala privada com as suas saias largas e redondas carregadas subrepticiamente com as langeries e os perfumes Tabus, a D. Fernanda recebi-as com um sorriso de menina inocente e dizia simplesmente: - “Minhas queridas, que rica fragrância têm esses perfumes Tabus que carregam. Poupem, que o próximo vapor só por cá passa daqui a dois meses”.
E era ali, naquela ponte-cais, antes do sol raiar e do galo cantar, já depois dos pescadores da Torre do Tombo terem dobrado a Ponta do Pau do Sul com as suas baleeiras à vela, à bolina ou de vento em pôpa, a caminho do mar da Alemanha ou dos Três Irmãos, que se acomodavam os capitães de areia do Bairro da Facada.

Vinham todos eles, felizes e contentes, o Patona e o Monacaia, o Armando Galã e o Tó Lindas, mais o Mário Cantor e o Peniquinho, para a pesca dos chocos, dos cabolobolos e dos camoxilos.
À noite, depois do jantar, eram os mais velhos, viciados na pesca desportiva, que apareciam: o Cristiano Faustino, o velho Pinho Gomes, o Craveiro do café torrado, o Rufino sapateiro e outros mais que o tempo dissipou.

O pisca-pisca do farol da ponte atraía toda a espécie de bicharada. No ar, eram os gafanhotos, libelinhas e formigas de asas brancas; no mar, peixe espada para os pescadores à cana; moriangas, roncadores e corvinas prateadas para os amantes da pesca à linha.

No outro dia, ao final da tarde, quando o pôr do sol na Ponta do Pau do Sul matizava o horizonte de vermelhos, amarelos e laranjas, reuniam-se, então, os mais velhos na esplanada do Quiosque do Faustino debitando as suas piedosas mentiras, próprias dos pescadores amadores, que para os profissionais as suas histórias eram bem diferentes.

E era ali…, e era ainda ali, na velha ponte-cais, que apareciam aqueles rufias matulões, o Tó Coribeca, o Helder Cabordé, o Mário Bagarrão, o Romualdo Parreira e outros que tais, que eram como uma quase lenda viva para os miúdos do Bairro da Facada.

A sua manifestação de habilidade e coragem deslumbrava toda a gente, em particular os capitães de areia. Os seus mergulhos do alto do guindaste, em estilo livre ou em asa de anjo, os seus triplo-saltos mortais da ponte, em corrida ou de parada, ou mergulhos em parafuso do alto do tejadilho do guindaste eram tão espectaculares que levavam os miúdos a imitá-los junto à rebentação.
Mas a apoteose, o que mais tocava os nossos corações de criança, acontecia quando apareciam mesmo junto à praia, entre a jangada e a rebentação, pequenos cardumes de toninhas e golfinhos que vinham brincar como cachorrinhos com aqueles rufias matulões. Que os miúdos ainda eram miúdos de mais e tinham medo daqueles bicharocos, que afinal só queriam brincadeira.

E, no final, alheio ao pôr do sol, ao tempo ameno, às discussões bizantinas da esplanada do Oásis e do Hotel Turismo, ali estava o Dominguinhos ceguinho, sentado no passeio da loja do Henriques Pessoa, tocando quissange e improvisando as suas cantigas de maldizer para os cazicutas do carnaval, acerca do estupro da menina, criada da D. Rosa:

“Canta no ramo o pardal,
Canta no mar a baleia!
Fernandinha no hospital,
Gingubinha na cadeia!”




Arménio Jardim (ass)

08 fevereiro 2017

Moçâmedes, Memórias com História: O Cantar das Bengalinhas

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O Cantar das Bengalinhas



Na Moçâmedes do antigamente, Maio era simplesmente o mês mais triste do ano. O verão já lá ia, a Praia das Miragens era um lugar vazio e o vento leste que sobrava do deserto, seco e abrasador como vindo dos infernos, arrastava atrás de si poeira fina e grossa e toda a sorte de pequena bicharada, que transformava a pequena cidade numa espécie de terra de ninguém: eram formigas de asas brancas, gafanhotos, libelinhas, carochas, rebola-cacas e outras miniaturas vivas que a Natureza aborta e que acabavam por tudo dominar.
Ninguém sabia ao certo se esses exércitos malquistos vinham fugidos do vento leste, ou se se aproveitavam da sua boleia para invadir a cidade. É que, por essas alturas, no Bero já não corria o rio, apenas uns resquícios finando-se no pantanal da lagoa, à beira da sua foz, onde apenas medravam os caranguejos do Mamedes e nidificavam os patos bravos que, desde tempos imemoriais, ali tinham fixado residência. Aves coloridas, lindas, diga-se de passagem, mas que desgraçadamente um par de mentes iluminadas as foram paulatinamente matando a tiro de caçadeira, até à sua extinção total.
E do meio da poeira trazida pelo vento leste, como almas penadas vindas do outro mundo, iam surgindo em fila distanciada os nossos pobrezinhos para a esmola semanal. Nossos pobrezinhos!,.. assim os chamava a avó Catarina, na genuína convicção de que nada ou quase nada tendo de seu, pelo menos tinha os seus pobrezinhos.
O primeiro a bater à porta era sempre o Samacaca, velho quimbar coveiro do cemitério de Santa Rita, onde ali vivia dia e noite no aconchego da pequena capela e que tratava das campas rasas e dos mausoléus como se fossem o jardim particular do seu contentamento. Fazia a gestão das plantas e das flores com um desvelo singular, seguindo o princípio dos vasos comunicantes, tirando de umas e colocando noutras por forma a atingir um balanço equilibrado entre as campas humildes e as outras mais substantivas.
Daí que o Samacaca não batia à porta para pedir esmola. Não!, ele aparecia para receber a sua avença semanal. Era, aliás, o único probrezinho que não esmolava, antes pelo contrário; vinha cobrar o que achava ser-lhe devido pelo esmero do seu trabalho.
- Senhora, perguntava a Maria Torresmo, o que damos ao Samacaca?
- E a avó Catarina respondia com bonomia: - Dá-lhe duas bananas que ele já não tem dentes para comer maboques ou torresmos.
A seguir, aparecia o Bacia ceguinho, com o rafeiro enrolando-se nas suas pernas para orientar o caminho. E lá recebia o Bacia a esmola de duas macutas furadas que não lhe davam para nada.
Depois, era a vez do Dominguinhos ceguinho, arguto e inteligente, que caminhava sempre com um assobio nos lábios, compondo cazicutas para o carnaval com poemas de escárnio e maldizer de sua autoria. Como um jogador de xadrez, especialista em simultâneas às cegas, o Dominguinhos conhecia cada peça da cidade, cada rua, cada casa, toda a gente de Moçâmedes do antigamente, desde o gourmet da Maria do Quico, já para lá do Bairro da Maria da Glória, até à Baixa do Tapa-Tapa, por trás da loja do Manuel Monteiro, na Torre do Tombo.
- Então, Dominguinhos, sabes quem eu sou?
- Oh!.., menino Tendinha, não precisa falar, basta só rir, respondia o Dominguinhos, recolhendo a moeda.
Na mole dos pobrezinhos, também vinha o Guinguinda, grande e gordo, um louco pacífico mas que se passava de todo quando lhe perguntavam pela sorte do cunhado Surdo, que explorava uma pequena tasca mesmo defronte à loja do Albérico Faustino. A D. Máxima, que sabia tudo, dizia à boca calada que o Surdo violentava as filhas. Certezas, ninguém as tinha, mas a avó Catarina sempre ia dizendo que não havia fumo sem fogo.
- Guinguinda, diz “viva Norton de Matos” - perguntava a Maria Torresmo.
- E o Guinguinda respondia: “viva os cabra do mato”
- Diz "viva os canhões" - e todo o mundo se desmanchava com a resposta do Guinguinda.
- Ri, Guinguinda. E o Guinguinda, com voz de trombone, começava então a rir sem nunca mais parar.
O Manuel da Silva Caluquembe, por seu lado, era um caso muito especial que fugia ao estereótipo dos nossos probrezinhos.. Alto, magro, cego como todos os pobrezinhos da cidade, era o único que vinha calçado, de fato preto, camisa branca, gravata preta e chapéu também ele preto. Tudo velho, tudo esfarrapado. Mas…, que coisa estranha!..., emanava dele uma postura de xamã, uma presença de Homem, uma dignidade que ninguém sabia explicar.
Talvez por isso, quando o João da Silva Caluquembe batia à porta a avó Catarina lhe oferecesse um tratamento especial:
- Maria Torresmo, ao Caluquembe dá-lhe uma ração a dobrar. E lá ia o nosso probrezinho com uma moeda de dois tostões comprar açucar mascavado na loja do Gingubinha.
O Faria das baleias era outro tipo de pobrezinho, que tinha atrás de si toda uma história de amor rejeitado que o terá levado à loucura. A D.Maxima, que tudo sabia, também sabia em pormenor os contornos da sua desgraça, mas limitava-se a filosofar, dizendo que todo o homem que enlouquece por amor a uma mulher devia ter o amparo e a compaixão de Deus Nosso Senhor.
Mas a vida é o que é!... E o Faria das baleias acabou mesmo por ensandecer. E passou, então, a andar com aquele seu ar de meio-louco, meio-profeta, de longa e farta cabeleira branca, trajando um surrado sobretudo, cujas algibeiras dilatadas carregavam sem rei nem roque os mantimentos que recolhia das esmolas. Tinha o aspecto daquilo que na verdade era: um sem abrigo, sempre sujo na roupa e no físico, a tal ponto que não dava para ver se era branco ou moreno.
Mas havia um pormenor com o esmolar do Faria das baleias sobre o qual ninguém conseguia entender. É que o Faria das baleias nunca pedia esmola de porta em porta, nas casas das famílias. Dentro da sua loucura, ele tinha de alguma forma seleccionado meia dúzia de lojas da Rua das Hortas e era com a bondade delas que ia sobrevivendo: a loja do José Duarte, do Brasileiro, do Neves de Graça, do Carvalho de Oliveira, do António Padeiro…
E, então, o Faria das baleias, com a sua voz de barítono e bem timbrada, pedia a sua esmola de uma maneira quase formal:
- V.Exa. terá por acaso a bondade de dar uma esmolinha a este pobre desgraçado a quem as desumanidades da vida o afastaram da benção de Deus?
E com as algibeiras do sobretudo deformadas com o carregamento das esmolas, lá regressava a penates o Faria das baleias, a caminho das Furnas de Santo António, entre a antiga carreira de tiro dos militares e o antigo campo de aviação. E era ali, à entrada da gruta, nas noites de lua nova, escuras como breu, que o Faria das baleias se punha a contemplar, como um louco ou como um sábio, aquele universo sem fim, com milhões de estrelas, de galáxias e outras coisas mais do outro mundo.
E, entretanto, totalmente alheio às misérias humanas que se iam desenrolando em seu redor, ali estava o Monacaia no seu microcosmo de menino, deitado na sua cama, junto à janela que dava para o quintal. A pitangueira, carregada de pitangas vermelhas, quase lhe entrava pelo quarto adentro.
Era a hora da chegada das bengalinhas…
Dizem alguns entendidos que o canário e o rouxinol são o paradigma das aves canoras pela beleza dos seus cantos. Mas acontece que o canário e o rouxinol não passam de aves solitárias que só cantam quando buscam amor e entram nos seus jogos de sedução. As bengalinhas, não!... As bengalinhas vivem em sociedade, voam em bandos, em revoadas, e, ademais, o cantar das bengalinhas não é canto a solo, mas sim um coro, celestial, que toca fundo, um verdadeiro hino à própria natureza.
Daí o Monacaia se perder com o cantar das bengalinhas na pitangueira do seu quintal. Primeiro, do alto do seu ramo, bem à vista de todos, a prima-dona dava o mote, num trinar contínuo, subindo sempre de nota até atingir os agudos sopraninos que só a raros os Deuses concedem. Depois, havia um hiato, quase imperceptível, e vinha, então, de dentro da ramagem, o coro do bando inteiro. Um coro de uma tão sublime beleza que era o enlevo de qualquer ser humano por mais rude e grotesto que fosse.
Porquê, então, essas histórias de anjos e demónios!?... Nem a D.Máxima, que sabia tudo, conseguia responder.
Quando o cantar das bengalinhas terminou, o Monacaia pegou na fisga e com um tiro certeiro matou a prima-dona, a bengalinha que cantava a solo. Não houve debandada geral. Apenas o bando se ajeitou por entre a ramagem verde e as pitangas vermelhas.
Depois, como a coisa mais natural deste mundo, o Monacaia foi apanhar a bengalinha, decepou-lhe a cabeça, arrancou-lhe as penas, rasgou-lhe o ventre, viu-lhe a matriz: o coração pequeno, farrapos de carniça no peito, nas coxas quase nada…
E era o lanche tardio do Monacaia!...


Ass Arménio Jardim

30 janeiro 2017

Recordando Moçâmedes de outros tempos... A Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Os professores. O Padre Galhano. Os enfermeiros de Moçâmedes.






 O Padre Guilhermino Galhano,
 em dia de comunhão solene. 1946


O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1951

  O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1948
   O Padre Guilhermino Galhano, no time de futebol 
do Ginásio Clube da Torre do Tombo
 O Padre Guilhermino Galhano ministrando no velho campo de futebol de terra batida, a missa campal, por ocasião da passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em peregrinação por terras de Angola. 1948.






- Ó Pai Galhano -



O Padre Galhano, ao que creio, chegou a Moçâmedes na 2ª metade dos anos 40. Com uma visão diferente do "munus" de pároco relativamente aos seus percursores ,cedo se mostrou mais próximo dos seus paroquianos, em particular das classes mais simples e das crianças. Na sua postura, o Padre Galhano marcava um certa distância dos " importantes da "vila". Era frequente ver-se o Padre Galhano, com as suas barbas negras e boina preta, de batina branca arregaçada até aos joelhos, a participar com os mais jovens nas "peladas" que se realizavam no descampado entre a Igreja e o Palácio do Governador. Habilmente passava do futebol ao catecismo.

Adepto do desporto, aos domingos lá estava o Padre Galhano no campo de futebol misturado com a claque do Ginásio da Torre do Tombo, a incitar os seus jogadores. Não poucas vezes vimo-lo a acompanhar o Ginásio, até mesmo nos jogos realizados na vizinha Porto Alexandre, contra o Independente.
 
Belenenses de alma e coração, ao chegar a Moçâmedes, logo aderiu ao Ginásio da Torre do Tombo, sua delegação, e tornou-se seu fervoroso adepto.Ali o dragão era a sua " cruz de Cristo", com o mesmo fundo azul. Mau grado algumas tentativas falhadas de levar os pescadores a assistir à missa dominical, tal não o impedia de estar com eles, ao fim do dia, na sede do Ginásio, jogando às cartas, às damas ou ao dominó.

Nunca se vira em Moçâmedes um Padre com tal espírito " democrático ". Sabia como poucos lidar com a gente mais humilde, sem cobrar a ida à missa dominical.

O Padre Galhano deixou a sua marca na Paróquia de Santo Adrião. Em certa medida, e com as devidas proporções, o Padre Galhano parecia antecipar no tempo o espírito do actual Papa Francisco.



- Os nossos enfermeiros -


Ao tempo, a Torre do Tombo conheceu dois enfermeiros.  Primeiro, o Coelho e mais tarde, o Franco.
O Coelho era " o terror" das crianças. Desde miúdo que nos habituamos a temer a sua presença. O paludismo era atacado com as dolorosas injecções de quinino aplicadas pelo Coelho, nem sempre da forma mais correcta.Muitas crianças ficavam para sempre marcadas com as injecções agravadas nos seus rabinhos. A "marca do Zorro" como se dizia. Nunca mais dele se esqueceriam.
Ao que constava o Coelho era muito amigo da aguardente. Nem sempre estaria nas melhores condições e as consequências ficavam à vista. No caso do autor, ficamos para sempre com problemas na perna esquerda, o que viria a condicionar a nossa actividade desportiva futura .Na época,teve de ir a Luanda fazer choques eléctricos para poder recuperar a força na perna esquerda. Minha mãe dizia que quando entrava em casa sentia o meu pé a arrastar-se pelo corredor. E tanto quanto sei,à época o Coelho nunca foi chamado à responsabilidade.

Mais tarde, surgiu um novo enfermeiro - o Franco, negro. Trabalhava no Grémio da Pesca e vivia numa casa na Torre do Tombo, com a mulher e duas filhas.Dedicado profissional, rapidamente granjeou simpatias e foi substituindo o nefasto Coelho.

Era o Franco que tratava dos nosso furúnculos e das feridas que sofríamos nas nossas brincadeiras e jogos de futebol. Infelizmente, vieram ambos a sofrer idêntico percalço.

Na época, a bicicleta era o meio de transporte mais usado.Surgiram entretanto as motorizadas e naturalmente os dois enfermeiros aderiram à moda e adquiriram motorizadas para facilitar as suas deslocações em serviço.Por razões que desconhecemos, a não ser a velocidade na condução das motorizadas, ambos tiverem acidentes idênticos, resultantes de choques com automóveis em cruzamentos. Acidentes esses que lhes afectou a vida profissional. Ambos tiveram de passar a usar próteses nas pernas para toda vida, o que o enfermeiro Franco de todo não o merecia.


O dia da despedida do Dr Borges ( o 3º ao fundo à dt, a contar da esq para a dt.)




- Os meus professores do Curso Comercial -


Os jovens da nossa geração estudaram na "velha" Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Designação enganadora pois ali apenas se ministrava o Curso Comercial.Também lá fomos aluno desde Abril de l948 , concluindo o Curso Comercial em Dezembro de l952 , com aproveitamento de "Bom".

Recordamos os nosso professores de então:

O Dr. Borges, que era o Director da Escola e leccionava a aula de Comércio, Contabilidade e Direito Comercial.Coxeava numa das pernas com um aparelho" que trazia no bolso.Como não pertencia ao grupo dos melhores desportistas,nem era um fã da Mocidade Portuguesa, deveu-se a ele concerteza a minha escolha para integrar um grupo de 50 estudantes das várias escolas secundárias de Angola que em Março de 1953 visitou a Metrópole. Bom professor, fazia assim justiça ao nosso trabalho.
O Dr. Rodrigues, "O Calhau" como era conhecido, Professor de Matemática. Os seus métodos de ensino não conseguiam motivar os alunos para tão difícil disciplina. O nosso aproveitamento não ultrapassava o 10.

Seguiu-se-lhe o Tenente Faustino, militar que veio prestar serviço na Fortaleza de São Fernando. Bom professor e bom pescador de garoupas e meros nos barcos do meu pai. Muito exigente, fez de mim um bom estudante de Matemática. Tornou-me a Matemática uma disciplina apetecível.
A Dra. Emilia, professora de Português, Francês e Inglês. As suas aulas eram muito "chatas". Na sua incapacidade para nos ensinar duas línguas "vivas"´, enchia-nos os cadernos de regras e mais regras de gramática. Tornou-se enfadonha e festejamos a sua saída.

Sucedeu-lhe a Dra. Brigitte, esposa do Capitão do Porto. Mulher simpática e bonita, com métodos pedagógicos inovadores . Nas aulas de francês e inglês passamos a privilegiar as traduções e retroversões e iniciamos alguma conversação.A gramática era um mero auxiliar.Os progressos da turma foram evidentes. Habituamo-nos a pouco e pouco a escrever e falar em francês e inglês. Quanto ao português ,a Dra. Brigitte privilegiava as composições redigidas pelos seus alunos.Torna-mo-nos então a atracção das aulas com as redacções em que apelávamos a uma grande imaginação.Eram lidas "com suspense" no final das aulas.

Recordamos uma delas, pela sua originalidade - a génese da palavra "Moçâmedes"...Na minha imaginação de jovem adolescente via um barco que zarpava a Angra do Negro, nome então dado à bela baía de Moçâmedes, onde fundeou. Os barcos iam ali abastecer-se de água e alimentos frescos para as suas tripulações.Os tripulantes vieram a terra para festejar o acontecimento numa taberna junto ao mar.Uma solicita jovem fazia as honras da casa e distribuía canecas de vinho pelas mesas. Já muito animados, os tripulantes do barco entoavam em coro:" moça mede, moça mede,." pedindo-lhe para que enchesse os copos de vinho. Assim terá nascido a génese da designação de Moçâmedes... sem barão.

Escusado será dizer que o autor foi muito cumprimentado pelos colegas do curso.Mais tarde, o Zé Coco , no seu semanário, divulgou a expressão "Namibe", do nosso deserto.

Continuando, o Prof. Carrilho ministrava as aulas de Caligrafia, Dactilografia e Estenografia.Era um calígrafo muito talentoso.Na horas vagas fazia as "escritas" de várias firmas da terra.

O Prof. Cecilio Moreira coordenava as aulas de educação física e desporto.
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  As instalações da Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes.



- A criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais -


Mais tarde, já a trabalhar no Grémio da Pesca, resolvemos retomar os estudos.Na época, havia uma grande discriminação entre alunos da Escola Comercial e dos Liceus. Eram compartimentos estanques.Os alunos do Curso Comercial eram os patinhos"feios" e os do Liceu do Lubango os meninos "bonitos". Não se permitia que se transitasse de um curso - o comercial- para o outro - o liceal-.. O que significava que apenas era possível prossseguir os estudos na área de Economia e Finanças e em Lisboa.
Assim , tornou-se imperioso lançar um forte movimento para a criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na nossa escola, requerendo ao" poder colonial de Lisboa " a sua instalação. A iniciativa , com grande apoio dos diplomados da Escola, teve sucesso e veio a começar a funcionar pela primeira vez no ano lectivo de 1955, em regime de horário post-laboral.
Tivemos a honra de ser o primeiro aluno da Escola a frequentar o Instituto Comercial de Lisboa,que funcionava no palacete da Rua das Chagas.




ASA (ass)

26 dezembro 2016

Expedição Mossamedes-Porto Alexandre, iniciada em 23.08.1894. Por José Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real



Parte de texto

(...)

"....O clima d'esta região pode considerar-se regularmente salubre. Não há pântanos e por isso não existem as febres palustres. A temperatura é mais baixa e por isso mais supportavel do que em Mossamedes ; o thermometro oscilla entre 14 e 21 graus; apenas à noite sente-se um pouco de frio.
O maior inconveniente de Porto Alexandre é o não haver arborisação alguma que attenue a violencia da viração do sueste, constante n”esta época, e que é origem de infiammações das vias respiratorias. Apezar do pouco aceio dos pescadores que lançam as vísceras dos peixes pela praia, o que origina um cheiro insupportavel e atrahe grande quantidade de moscas, considero o clima superior ao de Mossamedes.

Outro inconveniente é a falta de agua potável. A que existe perto da povoação é salobra e até salgada. Agua potavel só se encontra no rio Koroka e é d'ahi que os moradores mandam-na vir para beber, reservando a da povoação para os animaes e para a preparação dos alimentos. Não havendo terrenos araveis, não ha hortaliças. Os moradores mais abastados fornecemse das fazendas agrícolas do Koroka. Notei qur a falta de vegetaes na alimentação era causa de algumas pessoas soffrerem de escorbuto, sobretudo as creanças. A povoação assenta sobre areia solta occupando o fundo da bahia na parte sul, abrigada pelo norte por uma ponta de areia, formando uma espaçosa bahia em melhores condições de abrigo e segurança que a de Mossamedes. Veja-se o mappa do almirantado inglez` que representa bem a configuração da bahia.

E' um porto excellente e está. perfeitamente sondado. As casas estendem-se ao longo da praia, occupando a extensão de 2 kilometres em uma só fila. Todas têem a frente para o norte e são protegidas do lado do sul por um cercado de canniço, formando um angulo agudo para o sueste. Esta disposição tem por fim evitar a accumulação de areias sobre o fundo das casas. O vento sopra sempre do sueste, arrastando dunas de areia sobre as casas. A disposição em angulo agudo do cercado cortando o vento, faz com que as areias sigam para a praia, de um e outro lado da casa. D'ahi resulta que as casas são todas separadas umas das outras, ficando entre ellas espaço suficiente para as areias correrem livremente, o que dá. origem á. formação de monticulos nos intervallos de umas para outras. As casas são pequenas e terreas e dispostas ao comprido, ao longo da praia. São feitas de estacaria coberta de barro. Cada casa custa, termo medio, 3008000 a 500$000 réis. 0 tecto efeito de varas compridas cobertas com uma camada de argamassa de areia e cal. Diante de cada casa encontra-se a pescaria. Esta compõe-se de umas construcções muito rudimentares, feitas de canniço e palha, com o tecto plano, onde estendem o peixe salgado para seccar, e por baixo ficam as tinas com agua e uma mistura de sal com areia (extrahido das salinas ao sul da bahia), onde salgam o peixe.

O processo de pesca é o seguinte. Cada pescador tem uma ou mais embarcações pequenas tripuladas por tres a quatro pessoas (ordinariamente serviçaes pretos). Prendem a popa da embarcação quatro a seis linhas de pesca. terminadas por um anzol duplo, figurando umapequena ancora ou dois anzoes presos um ao outro, com as unhas oppostas,por meio de uma fita branca. O conjuncto do anzol dá-lhe a apparencia de um pequeno peixe. Postas as linhas ao mar, largam a embarcação a toda a velocidade. Os peixes, vendo correr aquelles pequenos objectos brancos, que são os anzoes, e julgando serem peixes pequenos, correm atraz e deixam-se prender. A quantidade de peixe apanhado por este processo tão imperfeito regula por quatro a seis arrobas por dia por cada embarcação. Este é o processo mais usual entre os pescadores. Alguns, porém, possuem redes com que apanham muito peixe, mas estas são tão ordinarias que em pouco tempo estão estragadas. Um dos melhores ramos de commercio aqui é o fornecimento de redes e mais aparelhos de pesca. Tenho visitado todas as pescarias e vejo que as redes e as linhas de pesca são de uma qualidade muito inferior, deteriorando-se no fim de pouco tempo. Existem apenas nove pescarias com redes, e estas mesmo não produzem muito, porque o material é pessimo, sendo necessario concertal-as constantemente, d'ahi resulta que a maior parte dos pescadores prefere a pesca á. linha, que lhes fica mais barata. Os poucos que usam rede calculam que gastam por dia 43500 réis sómente em concertos e reparações do material.

Cada pequena embarcação com as vellas e remos custa, em média, 4008000 réis. São feitas no Algarve, d'onde são naturaes os pescadores. Actualmente já. fabricam aqui embarcações com madeira vinda da Europa.

A' tarde recolhem do mar todas as embarcações. Logo que fundeam, lançam o peixe a praia diante das armações e começam o trabalho da salga; tiram-lhe as vísceras e espalmam-n`o, como se faz ao bacalhau, em seguida mettem-no dentro de tinas contendo agua com o sal misturado com areia. Ahi fica o peixe um a dois dias, depois tiram-no, lavam-no na agua do mar para perder a maior parte da areia e estendem-no sobre o tecto da armação, que é da altura de um metro e meio. No fim de 8 dias está. o peixe secco. Batem-no para fazer cahir a areia e fazem pacotes de duas arrobas, embrulhando-0 com uma esteira de palha, a que chamam mateba, fabricada nas fazendas do Koroka.

As despezas de empacotamento de duas arrobas correspondem a 100 réis, comprehendendo uma esteira 50 réis, uma corda 50 réis. Este empacotamento é feito por conta do comprador. O pescador vende o peixe solto e por arroba.

Depois de secco o peixe procedem á. divisão em duas qualidades, cada uma com o seu preço:

1. qualidade - peixe grande; comprehende seis especies do melhor peixe, taes como: corvina, pungo, tainha, pargo, etc., custa 900 a 18000 réis a arroba.

2. qualidade- peixe pequeno; comprehende diversas qualidade de peixe meúdo e de menor estimação. taes como: chopa, alvacora. sarrajão, etc., custa 800  900 réis a arroba.

Muitas espécies de peixe pequeno são despresadas. taes são as sardinhas que existem em grande quantidade, mas que salgadas e seccas não dão interesse. Um agricultor de Mossamedes pretendeu, ha alguns annos, aproveitar as sardinhas e outros peixes pequenos que os pescadores desprezam, e para isso mandou montar uma fabrica de conservas em latas na pequena bahia do Pinda. ao norte de Porto Alexandre. Creio que por falta de azeite esta fabrica pouco resultado deu, estando actualmente abandonada.

O peixe é comprado por duas ordens de negociantes: 1.' Os commerciantes de Mossamedes, que para este negocio teem casas filiaes aqui e recebem o peixe em troca de productos europeus. Existem duas casas filiaes de maior importancia: uma da firma Figueiredo & Irmão, e outra da casa Sousa Lara & C). cujo unico negocio é comprar peixe aos algarvios em troca de generos europeus. 2.` Os outros negociantes de peixe são algarvios, proprietarios de hiates, que não pescam. mas empregam-se exclusivamente na compra, transporte e venda do peixe pelos portos do litoral de Angola. Congo, S Thomé. Gabão, etc.. vendendo o peixe aos agricultores d'estas localidades por preços que lhes deixam 100 0/0 de ganho, e regressam a Porto Alexandre carregados de contrabando. madeira para construcção e lenha, de que ha absoluta falta n'esta terra. Estes negociantes pagam o peixe a dinheiro. mas a. prazo de 3 ou 4 mezes. o tempo necessario para realisarem a venda e carregarem os navios de madeira no Zaire. o que lhes não custa dinheiro, porque existe muita lenha e paus de construcção pelas margens d'este rio, tendo elles apenas o trabalho de os mandar cortar e carregar. Para evitar o contrabando, o governo acaba de collocar em Porto Alexandre uma auctoridade aduaneira.

O preço do peixe vendido nos portos do litoral, regula: de Benguella até o Ambriz (portos ao sul do Zaire) -15500 réis a arroba de primeira qualidade, e W300 a de segunda; do Zaire até S. Thomé (portos ao norte do Zaire) - 15800 réis a arroba de primeira qualidade e 18600 réis a de segunda.

Os commerciantes de Mossamedes enviam o peixe pelos paquetes da Empreza Nacional.

Na bahia dos Tigres, que é muito mais abundante de peixe do que Porto Alexandre. estão estabelecidos apenas sete pescadores, os quaes usam o systema de redes. São as pescarias mais productivas do litoral e os seus proprietarios são pescadores ricos. A razão porque existem ali tão poucas pescarias é porque a navegação para aquella bahia é difficil por causa do vento sueste que frequentemente origina temporaes na costa. Para navegar até a bahia dos Tigres é preciso empregar embarcações grandes como os hiates; as embarcações usadas em Porto Alexandre não poderiam resistir aos temporaes do sul. O mar dentro d'aquella bahia. forma. vaga alta a que só podem resistir embarcações de borda alta.

Aqui mesmo na zona de Porto Alexandre ha logar para montar uma pescaria em grande escala. Quando passei pelo cabo Negro reconheci a existencia de uma enseada vasta e bem abrigada pelo cabo e ao norte d'elle, onde as embarcações dos algarvios vão pescar, quando o vento Sueste é forte e os apanha no mar alto. Costumam os pescadores abrigar-se ao norte do cabo e ahi pescam, emquanto dura a viração torte.
Devo tambem dizer que frequentemente apparecem baleias dentro da bahia de Porto Alexandre, que os pescadores não apanham, porque não teem embarcações nem aparelhos apropriados.
O movimento annual do peixe é de:
[graphic]
Porto Alexandre . . . . . . . . . . . ...... . 150.000 arrobas = 2.250.000 kilos Bahia dos Tigres . . . . . . . . . . . . 50.000 ,, z 750.000 ,, Total. . . . . .. 200.000 ,,            =3.000.000 ,,
Porto Alexandre compõe-se de 50 casas com a população de 700 pessoas, sendo 300 brancos e 400 negros. Ha 100 embarcações de pesca e 20 hiates e cahiques. Existem duas escolas para os dois sexos, uma pequena capella, delegação de saude delegação aduaneira, administração do concelho e destacamento militar. Está. em communicação com os portos da província e da metropole pelos paquhtes da Empreza Nacional.



In Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5. 1898

07 dezembro 2016

Meninos do Namibe, estudantes no Lubango...





O Sport Clube Maristas, no 1º torneio do sul de Angola de hóquei em patins. Da esq. para a dt., em cima 3 moçamedenses: Maló de Abreu (Nico), Hernâni Silva, Alvaro Ascenso, e embaixo, outros 2: José Castro Alves e Mário Augusto Lopes em baixo. Reconheçe-se o huilanos Caria (em cima, a dt.) e Agostinho ( o 2º, em baixo).  Dos oito, cinco são moçamedenses e alexandrenses, o que mostra bem quanto o «bichinho» do hóquei em patins estava entranhado nos jovens de Moçâmedes da época. Aliás, a década de 1950, na qual teve início esta modalidade, foi uma época de ouro do hóquei em patins na cidade de Moçâmedes, que se prolongou até finais da década de 60. A foto foi tirada em 1956, em Sá-da-Bandeira (Lubango), mostram-nos alguns jovens de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre que se encontravam a estudar no Liceu naquela cidade onde alinhavam na equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão e na equipa de futebol dos Maristas. O mesmo em relação às fotos que seguem.




Equipa de futebol dos Maristas (Huila) Da esq. para a dt., em cima apenas reconheço o moçamedense Alvaro Ascenso (3º).  Embaixo: Apenas reconheço, entre os jogadores, dois moçamedenses. de entre os quais reconheço, embaixo, José Alves(1º) e Júlio Eduardo Almeida (Juju, o 3º)






A equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão, de Sá da Bandeira. Aqui, no decurso de uma excursão a Lourenço Marques.  Da esq. para a dt, em cima, reconheço entre outros, os moçamedenses Álvaro Ascenso (1º), ?,?,?, Artur Trindade (5º), ?, Nono Bauleth (7º), ?,?,? Embaixo: Reconheço entre outros, o huilano Peyroteu (1º) e o moçamedense Pólvora Dias (2º), ?,?,?. 


Porque teriam os nossos jovens que abandonar a sua terra e a sua família para, aos 10 anos de idade, após o primário, terem que se deslocar para Sá da Bandeira, se quisessem prosseguir os estudos?

Isto acontecia devido à ideia retrógada que vigorava na época, de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral.

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior, destinavam-se  aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, uma vez que a
Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969. Esta ideia não só prejudicou os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas famílias, e quantas vezes com os maiores sacrifícios.

Em Moçâmedes, até 1961, ao nível estatal do ensino secundário, existia apenas a Escola Comercial de Moçâmedes que havia sido convertida 
em 17 de Março de 1952, a partir da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, escola de cariz técnico-profissional, que não dava a equivalência ao curso geral dos liceus. 

Uma vez no Liceu Diogo Cão, em Sá-da Bandeira, os nossos jovens ficavam alojados no Internato dos Maristas que servia de apoio àquele Liceu, ou em pensões (como a Pensão Lubango, que nos anos 1950 foi propriedade de uma moçamedense, Hélia Paulo Dias e de seu marido, o algarvio Armando Sabino Dias), ou  ainda em casas particulares ou de familiares. No Internato dos Maristas onde a maioria dos estudantes ficavam alojados, os adolescentes na idade considerada crítica (os «médios») eram entregues à vigilância do Irmão Celso, que fazia o culto da disciplina e que segundo os próprios estudantes, os castigava com dureza sempre que considerava necessário.

Outros estudantes de Moçâmedes houve, que por razões de preferência, ou por motivos económicos, escolhiam a Escola de Regerentes Agrícolas do Tchivinguiro, onde ficavam alojados em regime de internato. Esta Escola, de frequência gratuita, ficava situada na província da Huíla, no alto da Serra da Chela,
em edifício de grandes dimensões, no isolamento de uma imensidão de terras até onde a vista alcançava, era algo de conventual, calmo, sossegado, silencioso. Para ali entravam após o 2º ano, e dali saiam ao fim de uns anos aptos a investirem os seus conhecimentos em prol do desenvolvimento agrícola e pecuário de Angola.

Quanto à instituição liceal em Moçâmedes, esta só viria a ser fundada com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961. Ainda tenho presente o dia em que o Professor Adriano Moreira se deslocou a Moçâmedes, aquando da sua visita a Angola, no ano crítico das matanças da UPA nas fazendas Norte de Angola, e foi feita uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: se faziam ouvir: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!... Foi então que o Ministro, surgindo na varanda do Palácio, disse simplesmente para a multidão: «o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». A manifestação tinha sido uma encenação, porque a decisão já estava tomada. Mas finalmente Moçâmedes tinha alcançado o direito ao seu Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais (5º ano).


Entretanto, alguns jovens de Moçâmedes, quer por via do Liceu Diogo Cão, quer através de contínuas provas de aferição que obrigavam a mudanças de áreas, etc, etc., conseguiram com o 5º ano da Escola Prática de Pesca, e uma exposição ao Ministro, que se tornasse possível a Secção Preparatória aos Institutos, que lhes daria acesso ao Instituto Superior Técnico, em Lisboa.  Não foram muitos, mas foi o caso de Amilcar Almeida, que na foto acima se encontra, entre amigos que dele se foram despedir, na viagem para a Metrópole que efectou com mais dois amigos e familiares moçamedenses, em finais da década de 1950. Iam prosseguir os estudos. São eles Júlio Eduardo Almeida (Engenharia) e Manuel Dias Monteiro (Medicina). A diferença é que enquanto estes por terem frequentado o Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira ,ingressaram de imediato nos cursos que escolheram, Amilcar teve ainda, que frequentar na Metróple, o Instituto para ter a equivalência do 7º ano, e numa abertura entretanto permitida pelo Ministério da Educação,  através de explicações habilitar-se por ele mesmo, a outras disciplinas exigíveis para área pretendida (Direito). Cerca de  mais 3 anos de estudo na Metrópole para conseguir o acesso ao seu sonho. Na foto despedindo-se deles, os amigos são Zeca Carequeja. Carlos Manuel Guedes Lisboa e Norberto Edgar de Almeida.




Quanto aos estudos gerais universitários em Angola, foi já após os acontecimentos no norte do território, e num cenário bizarro de guerra e prosperidade que, em 1962, vieram a ser criados em Luanda, quando do surgimento do Plano Deslandes propondo a criação urgente do ensino superior em Angola. Como referiu o Secretário Provincial, Amadeo Castilho Lopes, «...visava-se, com a criação do ensino superior, a formação e a actualização de técnicos de agro-pecuária, médicos, engenheiros e professores do ensino secundário, no sentido de Angola passar a dispôr de condições que lhe permitissem formar os técnicos e agentes qualificados das actividades básicas, indispensáveis para promover o desenvolvimento económico e social do território e que as Universidades da Metrópole não se mostravam capazes de fornecer, em tempo útil nem na qualidade desejável».

A Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969 e oferecia cursos apenas em Ciências, Engenharia, Medicina e História, sendo notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e outra de Economia.  Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos, tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto). O governo português era naturalmente adverso a esses desejos e assim resistiu durante anos para que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Foi graças a um pedido de um grupo de alunos finalistas do Liceu Salvador Correia de Luanda, no ano de 1969, dirigido ao Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e ao Reitor da Universidade de Luanda, Professor Ivo Soares que em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda e em Lourenço Marques (Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. 

A partir da década de 70, o Curso de Regentes Agrícolas passa a denominar-se Curso de Engenheiros-Técnicos Agrários.

Para culminar, em 05.07. 1975, já em vésperas da independência de Angola, foi resolvido à pressa, desdobrar a Universidade de Luanda em três: Universidade de Luanda, Universidade do Huambo e Universidade do Lubango. A resistência à Faculdade de Direito manteve-se até ao fim. Eles lá sabiam porquê! E nós também!
Por curiosidade, transcrevo parte de um texto que encontrei aqui


«(...) Reza a história, que o processo da criação do ensino superior em Angola não foi nada pacífico e teria mesmo conduzido a uma crise política no Conselho de Ministros de Portugal, dirigido por Oliveira Salazar.

«A criação do ensino superior em Angola, nas circunstâncias em que se verificou – por iniciativa e decisão do Governo Geral e do Conselho Legislativo de Angola – viria a ser considerado mais um acto de irreverência e de insubordinação, que gerou um conflito grave com o Governo Central e comprometeu, nos círculos de influência política, o próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira».


A este propósito, explica-nos Amadeu Castilho Soares:

« (...) para certas personalidades e grupos de influência do regime político nacional, a decisão do Governo de Angola da época, ao criar o ensino superior, teria sido instigada pelo próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, numa manobra considerada traiçoeira, para tornear os obstáculos que o impediam de realizar as reformas de fundo que intentava introduzir na política ultramarina do Governo Central, na linha da autonomia progressiva e irreversível, que defendia. A difícil situação pessoal em que o Ministro foi colocado, em toda esta questão, teria oferecido então o pretexto para provocar o afastamento da cena política de um protagonista incómodo, que conquistara grande prestígio e popularidade na opinião pública».

Em Setembro de 1962, o Governador Geral de Angola, General Venâncio Deslandes seria exonerado pelo Conselho de Ministros e algum tempo depois o Ministro do Ultramar Professor Adriano Moreira, seria também afastado do seu cargo. Estes factos históricos revelam-nos, na sua substância, a ausência de uma visão estratégica do Conselho de Ministros de Portugal, no que concerne à implantação do ensino superior e à criação de uma Universidade em Angola.

Tudo era complicado para Salazar, que preferia manter o povo o mais possível afastado do saber, convencido que desse modo melhor preservaria a sua «jóia da corôa», Angola, e com ela o regime instituído, incapaz da abertura mental suficiente para evitar a tempo a autêntica «ratoeira» que nos estava a criar... A ousadia do Governador teria também os seus efeitos, na demissão do cargo de que era titular na Administração Pública Amadeu Castilho Soares, o jovem e corajoso Secretário Provincial que havia concebido e posto em acção o PLANO DO GOVERNO GERAL DE ANGOLA PARA 1962, aprovado pelo Conselho Legislativo, em 7 de Outubro de 1961, e conhecido pela designação: «Levar a escola à sanzala»


Voltando aos estudantes moçamedenses, apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses conseguiram aceder a uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Não eram ricos, uns (um ou dois) fizeram exposições e lá conseguiram uma bolsa de estudo de Salazar, outros fizeram-no a expensas das respectivas famílias e com grandes sacrifícios, e alguns deles numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhes dificultava o caminho ou mesmo os impossibilitava de ir mais longe. Cito o caso pessoal de um conhecido e brilhante moçamedense que tão empolgantemente o relata, e que pode ser lido com um «clic» aqui: «Menino do Namibe».
Como se pode ver, os condicionalismos existentes não conseguiram demover a vontade de vencer deste «cabeça de peixe» ou «cabeça de pungo», como eram conhecidos os filhos de Moçâmedes. E de modo idêntico aconteceu com outros mais. Os ditos «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de pessoas muito inteligentes, e não me refiro apenas àqueles que antes de 1969 tiveram que partir para bem longe para se licenciaram, alcançando por via dos seus cursos cargos de prestígio, mas também àqueles que ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, e a tantos outros que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros moçamedenses ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários, cargos que na época eram de elevado prestígio.

A título de curiosidade recordarei aqui, que era comum defender-se já naquele tempo e naquelas paragens o quanto uma alimentação rica em peixe era essencial ao bom funcionamento do cérebro. Sem dúvida, o povo é sábio! E o certo é que hoje pesquisas científicas confirmam claramente que, quando as pessoas consomem quantidades mais adequadas de ácidos glaxos ômega-3, a sua função cognitiva, especialmente a sua memória, melhora significativamente, e que o omega 3 ajuda ao desenvolvimento do cérebro. Orgulho à parte, os moçamedenses comiam muito peixe!

Enfim, parafraseando o «Menino do Namibe» : Meninos do Namibe que souberam, como tantos outros, superar a mediocridade dos que os queriam ver espartilhados entre o mar sem fim e o imenso Kalahari e, com o estigma do seu apoucamento intelectual...

Pesquisa e texto de MariaNJardim

Para saber mais sobre: Estudos Gerais Universitários


Slideshow Angola do outro lado do tempo V, in Dailymotion- Angola V
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