10 dezembro 2020

SOBRE O DIA DA CHEGADA DOS PRIMEIROS BRANCOS A MOÇÂMEDES .

SOBRE O DIA DA CHEGADA DOS PRIMEIROS BRANCOS A MOÇÂMEDES  

(*) Requerimento

Diz a História que o jovem António Joaquim Guimarães Júnior foi o fundador, em 1839, da 1ª feitoria, a par do recentemente formado "Estabelecimento Prisional de Mossâmedes", onde não existiam relações comerciais com os gentios do sertão do sul, de modo a tornar efectiva a presença de Portugal.
Aliás, a iniciativa teria partido do próprio Guimarães, como ele mesmo afirma. Tinha apenas 20 anos quando fez chegar à Secretaria do Ultramar um requerimento e obteve os meios necessários para a realização de tal empresa, em que se oferecia para montar em Moçâmedes, no sul de Angola, uma indústria de charqueação (carne salgada e seca) e de cortumes, além do comércio usual daquela província, isto é, a troca de cera, marfim, gomma copal, urzella & c., "por fazendas, missanga, e géneros do agrado daqueles povos de vida pastoril, que possuíam grande quantidade de gados vaccum, e ovelhum." 
 
Considerava-se então que convinha desenvolver um ramo novo da indústria, porquanto Guimarães Júnior encontraria consumidores para os seus produtos nas embarcações do Estado provenientes da Ásia e que em Moçâmedes podiam abastecer-se, para além de que a Ilha de St.a Helena, onde estacionavam baleeiros vindos da América e dedicados à pesca da baleia nos mares da Baía dos Tigres, distava apenas oito dias de viagem.
 
Moçâmedes inaugurava assim um novo paradigma  colonial, que teve na sua origem, sem dúvida, ideais iluministas de igualdade liberdade e fraternidade, veiculados pela Revolução Francesa (1789), que  tinham mudado o quadro mental europeu,  levaram no Portugal metropolitano levando às invasões francesas (1807-119, à revolução de 1820, à independência do Brasil (1822), à queda do absolutismo monárquico e triunfo do liiberalismo (1834), e à abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, (1836), e proporcionaram um novo olhar na direcção das colónias africanas, secularmente estagnadas, sobretudo para Angola, a nova Jóia da corôa, pelas riquezas  por explorar que guardava o seu solo e subsolo.  Portugal tinha que enveredar para a ocupação efectiva e  para o progresso da colónia, agora abrangendo colonos que até então estavam ausentes, mas também autóctones que deveriam não mais ser traficados para o Brasil, mas levados a trabalhar para o desenvolvimento económico, mas também atrair possíveis investidores de capitais.
 
Por essa altura Pedro Alexandrino da Cunha tinha sido escolhido pelo Governador e Vice Almirante Manuel António de Noronha, para chefe da estação naval de Luanda,  competindo-lhe vigiar os embarques de escravos entre Molembo e Luanda. Pedro Alexandrino da Cunha e António Joaquim Guimarães Júnior iam ambos explorar a costa ao sul de Benguela, o primeiro como geógrafo e roteirista, o segundo como comerciante, estudando a probabilidade de se instalar na costa a sul de Benguela feitorias comerciais, e aportaram em 22 de Setembro de 1839, na velha "Manga das Areias", Baia dos Tigres, derivando em seguida para Moçâmedes.  Do mesmo empreendimento fez parte o tenente Gregório José Garcia, nomeado em 1840 comandante do novo estabelecimento da Baía de Moçâmedes,  o Forte de S. Fernando, que deveria para ali dirigir-se por terra e o juntar-se a Alexandrino da Cunha e a Guimarães, conforme "Memória Sobre a Exploração da Costa Sul de Benguela na África Ocidental e Fundação do Primeiro Estabelecimento Comercial na Baía de Mossâmedes", da autoria de Guimarães publicada em Lisboa no ano de 1842.  Garcia depressa iria incompatibizar-se com Guimarães, cuja feitoria acabaria incendiada, e completamente destruída. Mas a este respeito, saber os porquês, teria que nos levar a novas e aprofundadas pesquisas que envolvessem o jovem investidor que caíra de imediato no agrado dos sobas da região, Quipola e Giraúlo. Guimarães, que  ficou conhecido como o "Gato com Botas",  bem como o local do seu estabelecimento, aponta no livro que deixou para a posteridade para as ambições pessoais do Comandante do novonestabelecimento.
 
Segue, no respeito da escrita da época, parte do relato da entrada da corveta "Isabel Maria" na baía de Moçâmedes, onde tiveram que se confrontar com um "banco" de areia que atrapalhava a navegação. A parte da Memória aqui descrita, em nada foi alterada, para que não se perca uma "gota" deste impressionante relato que nos mostra aquilo que era a Moçâmedes nesse tempo: nada, absolutamente nada, apenas um areal desértico junto ao mar, banhado por um rio seco a maior parte do ano, o rio Bero, mas suficiente para que a vida ali se tornasse possível... Isto, porque retinha água no solo e no sub-solo, quando na época das chuvas as água das enxurradas invadirem as margens, e levava  consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que mais tarde faria das "Hortas" verdadeiros oásis.
 
"...Foi então que em menos de quarenta e oito horas avistámos a bahia de Mossâmedes, duvidando porém se seria ella, posto que todos os indícios, que a distancia nos deixava perceber, combinassem com a ideia que eu fazia d'este logar, e como erão já cinco horas da tarde, o Commandante resolveo fazer-se ao largo, e vir no dia seguinte reconhecer a terra, lembrança que me pareceo muito ajuizada e prudente, pois que estando tão próximos d'uma costa para nós inteiramente desconhecida, muitos erão os perigos a que podíamos estar sujeitos, e tanto mais , quanto se nos aprezentava um baixo em que o mar rebentava com muita força, e o qual, projectado como se achava, parecia fecharnos a entrada da bahia, que duas mui notáveis pontas deixavão formada, e que mostrava não ser piquena e alem disso o fumo que distinctamene viamos, nos denunciava a existencia d'habitantes n'aquelle ponto. 
 
(...)
... Era na realidade um espectáculo para mim bem singular a minha recepção naquella. bahia, pois que além de diversos cumprimentos e ceremonias extravagantes do seu uso, mandou o Soba fazer pela sua gente.uma especie de telheiro de ramos para me abrigar do sol, e debaixo mandou estender uma esteira, onde me convidou a sentar, colocando-se elle defronte de mim. Então lhe fiz vêr que nós só pertendiamos a sua amizade, e. que não erao nossas intenções outras, senão trocar as muitas fazendas e generos que possuíamos , por marfim , cera, gado, urzella ; que o trataríamos sempre muito bem, e que só delle solicitava o consentimento de fazer uma casa, onde se recolhessem as muitas cousas que pertendiamos conduzir para ali. A estas proposições simplesmente retribuio, que me responderia no dia seguinte, mui naturalmente para no intervalo ouvir o conselho dos principaes de sua corte, a que chamão Secúlos. Pedio-me por isso, que lhe mostrasse o que trazia , o que fiz, começando por offerecer-lhe alguns objectos, taes como panno azul, missanga branca, aguardente, do que se mostrou muito reconhecido, e mandou trazer leite, milho verde, e um boi, que me deu .em signal de agradecimento, promettendo-lhe que no dia seguinte traria gado para trocar por alguns dos objectos que eu tinha; e assim me retirei para bordo, vindo elle com os principaes dos seus acompanhar-me athe ao melo do caminho para o embarque, e ali se despedido, e eu fui jantar para bordo, e descançar." 
 
(...)
 ...Viemos pois no dia immediato, e com as precisas cautellas e a favor de não pouco trabalho conseguimos entrar nesta bahia, fundeando peias seis horas da tarde sem maior novidade. Logo forao vistas de bordo duas bandeiras brancas, que erão os signaes convencionados com o oficial que tinha ido por terra, algumas fogueiras , gado pastando, algumas arvores, e bastante vegetação & c., tudo isto bastou para confirmar-nos na ideia de ser este o logar que procuravamos , porém como era quasi noute, i penas forão dois escaleres correr a bahia , os quaes voltarão com a noticia de terem visto peia praia muitos negros, que pareciào chamai-os.
 
(...)
...No outro dia fui eu o primeiro a ir para terra com algumas bagatellas de fazendas e missangas, nossas unicas armas, levando comigo sómente tres homens negros e um branco, e havendo previamente combinado com o Commandante, o fazer signal para bordo no caso de me verem perigo; logo que saltei em terra, vi que de longe caminhavào para mim uma multidão de negros, trazendo adiante uma bandeira branca, e depois que nos aproximámos mais , reconheci que a gente que vinha na frente não era gentio, por trazerem jaquetas brancas, quando estes costumào andar nus só com uma tanga. Erão pois um pardo escrivão de Quilengues, com tres soldados pretos da guarnição d'aquelle presidio, alguns Mocotas, ou principaes da Corte de potentados visinhos, que o mencionado official havia mandado adiante, a fim de collocarem as bandeirolas, e socegar os animos da gente das praias, e para o que são muito proprios os homens pardos, mormente os sertanejos, pelo pleno conhecimento do idioma do paiz, vindo por isso a ter muito mais facilidade em conduzir os indigenas aos seus fins.
 
 (...)
...No dia seguinte ainda as ceremónias forão as mesmas, trouxe gado e um pouco de marfim, e offereceu-me leite que acceitei, e de que mandei fazer sopas; porém quando vio o homem que eu havia incumbido d'arranjar a comida, ir pôr o leite ao lume para ferver, se espantou , e disse, que o aquecer o leite fazia mal ao gado, e assim que permittisse que elle deitasse no leite um bocadinho de casca d'uma arvore, que tinha a virtude de destruir o feitiço ou mal que pudesse resultar. Terminado este incidente, fallamos sobre a questão da véspera que tinha ficado pendente da sua decisão, e me disse, que não só consentia, em que fizessemos casa nas suas terras, mas tambem que se levantasse uma fortaleza, para que o gentio do interior os não viesse guerrear para lhes roubar o gado, e que estava certo, que a vinda dos brancos devia augmentar a importancia de suas terras. A final em todo o resto do tempo que ali me demorei, me continuei a dar com elles muito bem, e quando me retirei, os deixei do melhor acordo, fazendo-lhes repetidas promessas de voltar em breve. "
 
(...)
...São os indigenas d'esta bahia, como os Mocorocas , de nação Mucubal, e de vida pastoral, possuem gado das duas especies já mencionadas em grande quantidade, especialmente do vaccun, sendo porém dois terços ou mais desta povoação de vida errante; porque como é immensa a quantidade de gado que possuem, e sendo muito frequente na Africa a falta de chuvas, se vêm obrigados a estabellecer a sua habitação aonde encontrão pastos , o que geralmente acontece sempre proximo dos rios e valles, em que podem achar agua com facilidade, trocando-a por outra, logo que naquelle logar começão a escacear os pastos, A estas habitações chamão sambos ou curraes os quáes são de forma circular , tendo em roda uma ordem de choupanas do feitio de fornos , com uma entrada pequena como a d'estes,e que são formadas de páos espetados muito juntos formando um circulo largo no chão , e estreitando athe se unirem todos na parte superior, e depois de bem cobertas de palha, as barrão e cobrem perfeitamente de barro amassado com bosta , o que depois de seceo as torna impenetraveis á agua, respira-se porém dentro de taes habitações um ar quente e abafadiço, que para nós europeos é insupportavel; apezar disso elles não dormem jamais sem fogo, para o que costumã assentar uma lage no centro das choupanas, e na falta d'ella, uma camada de barro amassado, de que em todo o caso é formado o assento da cabana. Pela parte de fora desta ordem de choupanas, ha sempre um tapume feito de estacadas e ramos de tamarindeiro bravo, e outros arbustos espinhosos, em que abundão aquelles sertões por toda a parte; é pois no espaçoso terreiro do centro, que o gado fica de noite, mas tendo elles o cuidado d''apartar ali as crias, para depois tirarem o leite, seu sustento principal, e de que tambem fazem boa manteiga para diversos usos, a que depois d'apurada e prompta chamão engunde. As mulheres são as que trabalhão na cultura das terras, em quanto os homens só tratão do gado, e no caso de guerra vão esconder aquellas e este, e pelejão então para defender-se simplesmente, pois que não são guerreiros; ha porém povoações no interior que lhes movem guerras para lhes roubar o gado, sua unica riqueza, isto é, por elles assim avaliada."    FIM DE CITAÇÃO.
 
 
 
 
 
MariaNJardim
 
Inclui cópia do REQUERIMENTO de António Joaquim Guimarães Júnior, o fundador, em 1839, da 1ª feitoria de Mossâmedes, e 1 gravura de Mossâmedes datada de 1863. Mossàmedes depois Moçâmedes!

01 julho 2020

O COLÉGIO DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA EM MOÇÂMEDES : INFRAESTRUTURAS E EQUIPAMENTO


 
  COLÉGIO DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA DE MOÇÂMEDES
 
 

Sobre Equipamentos e infraestruturas



O projecto do Colégio de Nossa Senhora de Fátima em Moçâmedes, actual cidade de Namibe, foi encomendado ao Ministério das Colónias. A memória descritiva da primeira versão do projecto, assinada por Eurico Pinto Lopes e Lucínio Cruz, não está datada mas a aprovação é de 10 de maio de 1949, o que localiza o encargo no âmbito do GUC.  A proposta assenta na articulação dos volumes independentes que constituem o conjunto: ensino, internato e a residência das Irmãs. No bloco principal, composto por dois pisos, localizam-se os serviços administrativos e de ensino, com salas de aula distintas para alunas indígenas e alunas europeias. O internato forma uma ala perpendicular com entrada e acesso independentes para o segundo piso. No piso térreo, o recreio coberto e o refeitório localizam-se no volume posterior. A zona residencial das Irmãs foi instalada num edifício independente, com acesso direito à capela, interligado com o conjunto através de uma galeria coberta.A entrada principal do conjunto destaca-se através de um pórtico, contrastando com a horizontalidade dos volumes com longas coberturas em telha.

Conhecem-se dois projectos de ampliação da autoria de Eurico Pinto Lopes. O primeiro, apresentado a 2 de Julho de 1951, amplia e altera a localização das dependências destinadas às raparigas indígenas e transfere a aula infantil e respectivos sanitários para uma área em contacto com a fachada principal. Em 1953, as alterações mais importantes são a ampliação do salão de festas, transformando a cobertura inclinada numa cobertura plana, e a criação de dois laboratórios (física e química).

O Colégio de Nossa Senhora de Fátima segue as características presentes na maioria dos edifícios oficiais projectados pelo Gabinete, contribuindo para a convergência numa linguagem formal representativa do Estado Novo.


Ana Vaz Milheiro
Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica.
(PTDC/AUR-AQI/104964/2008)

    22 abril 2020

    O boi-cavalo, machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, os carregadores indígenas, as caravanas boeres e finalmente o comboio e o automóvel



    O boi-cavalo



    A utilização do boi-cavalo como meio de transporte e de tracção animal foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos de Moçâmedes, que na labuta agrícola, nesses tempos iniciais, em que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou a outros meios de transporte, substituindo-os pelos bois.

    Bois-cavalos eram utilizados nas deslocações dos primeiros colonos  às Hortas, como vem citado em algumas obras da época, existindo menções à  utilização por  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia de 1849 nas suas deslocações à Quinta dos Cavaleiros.

    A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros.


    "...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

    Refere também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Moçâmedes, principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois, a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.


     Q
     Na lateral da capela de Nossa Senhora do Quipola vêem-se várias tipóias que transportam f~gente até ali


    Conforme «Anais do Município de Moçâmedes», para além do boi-cavalo, de início o transporte utilizado era a machila, a tipoia, o riquexó, o camelo, ou melhor o dromedário (este oriundo das Canárias e introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849), e ainda as carroças introduzidas no sul de Angola pelos boeres, que chegavam a ser puxados por quinze parelhas de bois e que vieram promover uma verdadeira revolução nos transportes.

    Carregadores mondombes numa rua de Moçâmedes em finais do séc XIX


    Mas não podemos esquecer os carregadores africanos, esse meio de transporte humano que foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões. Em Moçâmedes essa tarefa esteve entregue aos mondombes, um trabalho voluntário desses africanos da região do Dombe que emigraram para Moçâmedes, com a a colonização em busca de trabalho, havendo referencias a custos elevados difíceis de comportar e de como esses carregamentos entraram em crise com a chegada das carroças boeres. Foi então que mondombes aos poucos foram deixando Moçâmedes, recolhendo às suas terras no Dombe e região de Benguela de onde eram oriundos. 




    Carroça de estilo bóer  puxada por uma junta de bois, Carroças boers vieram revolucionar os transportes no sul de Angola no ultimo quartel do séc xix.

     Carroças boers numa das ruas de Moçâmedes, descarregando víveres



    Com as carroças boers o transporte efectuado pelos carregadores africanos entram em recessão e a maioria abandonou a região de Moçâmedes e recolheu-se a região de Benguela de onde era oriundo. (2)

    Os meios de transporte e as vias de comunicação constituem factores determinantes do desenvolvimento de qualquer povo, porém quando os primeiros colonos chegaram a Moçâmedes nada tinham ao dispôr que lhes facilitasse a deslocação de pessoas e de mercadorias, se não os meios atrás citados,  Não fora a entrada pelo sul de Angola dos já referidos boers, em 1880, que se estabeleceram na Humpata, os problemas seriam muito maiores. (1)


     Partida inaugural da Composição do CFM rumo ao Saco, em 29 de Setembro de 1905.


    O Caminho de Ferro, uma das grandes reivindicações dos colonos da época chegou tarde, e chegou a Moçâmedes sob a pressão dos imperativos militares e não tanto pelas necessidades económicas que se faziam sentir desde a chegada ali, em 1849 dos colonos luso brasileiros vindos de Pernambuco, que entregues à sua sorte lutavam pela sobrevivência e, não viam, apesar dos esforços,  condições para progredir. 
     
    A ideia de um Caminho de Ferro para Moçâmedes começou a aflorar, mas só veio a concretizar-se em 1905. Desde a Conferência de Berlim (1884-5),  com a "partilha da África" pelas potências europeias industrializadas, o direito histórico deixou de ter qualquer valor e passou a ser imposta a ocupação efectiva das colónias, cujo interior era ainda desconhecido.  Na verdade o velhinho Portugal andava mais preocupado com a Regeneração, após meio século  das mais diversas lutas, guerras. conflitos, oposições que tornaram o país ingovernável até 1851.  Na segunda metade do século xix a industrialização europeia volta-se para Africa, fonte de matérias primas, mão de obra disponível, e mercados consumidores, e Portugal teve que se apressar. Foi entáo que em 1875, à semelhança de outras congéneres europeias, intelectuais e políticos portugueses fundam a sociedade de  Geografia de Lisboa, e logo a seguir começam as expedições  as expedições de Serpa Pinto e Capelo e Ivens, e  em 1884.5 Portugal é convidado a participar na  Conferência de Berlim, onde reuniram várias potèncias europeias interessadas em estabelecer as regras para a chamada "Partilha da África", e enquanto decorria a Conferência desembarca em Moçâmedes um 1º grupo de colonos da Ilha da Madeira, em 1884 e um 2´em 1885,  para se estabelecerem nas terras altas da Huíla, onde há uns anos atrás fora autorizada fixação de um grupo de famílias boeres, fugidas do Transvaal.  Segundo as determinações saídas da célebre Conferência, Portugal obrigava.se a ocupar com famílias  portugueses aqueles trritórios sobre os quais reivindicava direitos históricos que deixavam de ter qualquer valor, Aqueles dois 2 contingentes de famílias de madeirenses  iam iniciar o povoamento branco daquelas terras, próximas da zona de fronteira sul ainda por demarcar, cobiçadas por potências estrangeiras industrializadas, sobretudo alemães, num tempo em  que a pressão estrangeira e os levantes  populares  fizeram de Moçâmedes o porto de desembarque de soldados, armas e munições destinados a essas operações. O caminho de ferro foi lançado em 1905, mas paralisado enquanto decorria a guerra de 1914-18,  só viria a subir a Chela em 1923. Até aí foram sempre precárias as deslocações para o interior praticamente desconhecido, situação que estrangulava a economia do distrito, impossibilitava as trocas e não deixava Angola progredir. A Angola profunda manteve.se secularmente desconhecida para os Portugueses, que não tinham qualquer interferência no viver dos autóctones entregues à sua organização tribal. A causa deste atraso ficara a dever.se ao secular tráfico de escravos que se desenrolou entre as colónias de Africa subsaariana e o Brasil e Américas. Este período foi de completa recessão e houve colonos que desde há umas décadas se encontravam fixados na regiáo de Moçâmedes,  fugidos do Brasil em 1849 e 1950 que retornaram à Metrópole.

    Voltando ao boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas crónicas que à chegada dos colonos, em 1849, para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

    Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":

    MariaNjardim


    (1) Próprios para caravanas, eram usados pelos militares para o transporte de armas e munições rumo à fronteira sul de Angola, por isso certos exploradores viajaram neles, como Capelo, Ivens e Serpa Pinto, etc. Quando os caminhos terminavam, por vezes a caravana parava durante meses, para abrir uma estrada, conforme vem referido por Serpa Pinto, em "Como eu Atravessei a África":

    (2) "Carregadores" eram povos exclusivamente dedicados ao transporte de mercadorias, de entre os quais se evidenciavam os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela e os mondombes, em Moçâmedes. Eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam as suas terras em detrimento de quaisquer outras comitivas. Eles impunham-se como únicos intermediários entre o interior e a costa, não deixando espaço para a concorrência.

    (3) Entre 1907/1910, governava em Angola Paiva Couceiro, suficientemente intransigente e pragmático para conseguir libertar-se das torrentes emanadas do Terreiro do Paço, e com experiência mais que suficiente para saber que dominar o território implicava ocupar fronteiras, obrigar as autoridades gentílicas insubmissas a submeterem-se, proporcionar a estabilidade necessária para que as caravanas de longo curso pudessem circular, e concretizar o pagamento do imposto de cubata.Como governador geral, deu prioridade à abertura de rotas comerciais para o interior tanto em rodovias, (algumas simples picadas) deu início aos troços de caminhos-de-ferro de Moçâmedes, de entre outroa, mas como foi referido no texto só em 1923 foi possível chegar a Sá da Bandeira. Entre 1914-18 as fábricas europeias estiveram ao serviço da guerra, Portugal endividou-se para estar ao lado dos aliados, e tê-los a seu lado se a Alemanha vencesse a guerra, e no poder de então a l republica (1910-28) que atravessando uma conjuntura difícil, pouco mais pôde fazer nesta época pelas colónias.

     Legenda da Gravura exposta: Colono de Mossâmedes montado num boi-cavalo.

    15 abril 2020

    Barcos afundados pelas tropas especiais sul africanas., em Moçâmedes

    Barcos afundados pelas tropas especiais sul africanas no pós independência de Angola, afundados em Moçâmedes, junto ao porto de cais.  Diz-se qque mesma noite atingiram com rocketes os tanques de combustíve no Sacomar. Desembarcaram de um submarino. Os barcos atingidos transportavam alimentos. Um cubano e um russo. Havia mais á frente um navio angolano de cabotagem carregado de armamento que não foi beliscado. Objectivo: Cortar as linhas de abastecimento da Swapo e cubanos, no interior sul de Angola, conf, Aurélio Baptista no Facebook 15.04,20






    12 abril 2020

    A Igreja paroquial de Mossâmedes , Moçâmedes, Namibe, Angola



    A Igreja de Santo Adrião em Moçâmedes
    A Igreja de Santo Adrião em Moçâmedes


    O Palácio do Governador, a Igreja e as casas em madeira  dos funcionários públicos.
    A Igreja Paroquial de Santo Adrião em 1938 por ocasião da visita do Presidente Carmona, Colecção particular.

    A Igreja de Santo Adrião em foto recente

    A Igreja de Santo Adrião em foto recente

       A Igreja de Santo Adrião em aguarela

    A Igreja Paroquial de Santo Adrião de Moçâmedes começou a ser erguida em 27 de Julho de 1849, por Instruções Provinciais de 30 de Março desse ano, emanadas do Governador Geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregando o major Ferreira Horta de

      "construir um templo de dimensões suficientes para albergar não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem. "

    Em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, podemos lêr:

    Sabe-se que a construção de um templo foi uma das exigências de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro ao Governo, ainda enquanto no Brasil, e sabe-se também que não foi conseguido sacerdote que acompanhasse os colonos na sua viagem para Moçâmedes, e que à chegada em 04 de Agosto de 1849, em crónica de 2 de Novembro de 1849 acerca da igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849:

    "... Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxílios de que cada qual carece.


    "... As obras da igreja e da casa do pároco se acham em tal grau de adiantamento, a despeito dos poucos operários e de meios, que, com três meses mais de trabalho ficariam prontas. O que há a fazer limita-se somente a guarnecer toda a obra de cal fina, alguns ornatos de madeira na capela-mor, os dois altares laterais, e, finalmente, os balaustres para a teia e coro da igreja. 

    De facto as obras começaram em 30 de Março de 1849, e quando a colónia chegou a Moçâmedes, em 04 de Agosto desse ano, se já estavam começadas as paredes da futura Igreja de Santo Adrião (1), as obras não foram continuadas. Foi Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, quando partiu para Luanda no dia 16 de Agosto do mesmo ano, que tomou providencias nesse sentido. Há quem seja mesmo de opinião que teria sido este o primeiro assunto a ser tratado por Bernardino em Luanda, a tomada de providências no sentido de não faltar assistência religiosa aos colonos. A verdade é que quinze dias após, em 27 de Setembro era publicada uma Nota do Governo do Bispado ordenando que o pároco de Benguela fosse a Moçâmedes "...administrar sacramentos de necessidade, e o matrimónio. 

    No relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, podia-se lêr:

    "...Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso...

    Sabe-se que a sua conclusão foi efectuada com base em subscrições levadas a cabo entre os moradores, numa época de sacrifícios e restrições, falta de material e de tudo, em que em termos económicos os colonos começavam a dar, também eles, os primeiros passos.

    De arquitetura religiosa simples, em barroco tardio, onde domina a habitual composição simétrica expressa na fachada, a Igreja Paroquial de Santo Adrião de Moçâmedes nada tem a ver com outras igrejas torreadas, em que a torre surge frequentemente em posição central, na tradição de algum gótico francês, com marcação expressiva das linhas verticais e aplicação sistemática do arco ogival .

    Em estilo barroco tardio  ela exibe o seu frontispício e as quatro pilastras do costume, o entablamento e duas torres, entre as quais se insere um frontão central triangular com óculo circular envidraçado ao centro, sobre o qual se ergue a cruz de pedra. Como se sabe, vivia-se então num quadro predominantemente laicizante na urbanização do século XIX, em que se verificava pouco investimento público no que diz respeito ao tema religioso, por comparação com a época anterior. A não esquecer, o século XIX em Portugal foi o século das invasões francesas e da penetração de ideias, da luta contra o obscurantismo e as teocracias, da crença no poder da razão e descrença na ideia religiosa, século da abolição das ordens religiosas e o encerramento dos conventos masculinos decretados em Maio de 1834, ou o longo processo de expropriação e venda pelo Estado dos bens de instituições religiosas, revelador radicalismo que então se desenrolou e que consistiu numa ruptura de relações com o Vaticano, que durou entre 1834 e 1841, já menos famosa do que idêntica situação criada pelos governos republicanos em 1911. 

    De facto, as consequências das políticas liberais para a Igreja não foram menos tremendas do que as da «separação» republicana de 1911. A governação liberal terá mesmo provocado «um vazio religioso não mais preenchido» .Os números do clero foram drasticamente reduzidos, tal como os meios ao seu dispor, ao mesmo tempo que o Estado, seguindo a tradição «regalista» da antiga monarquia, reforçava o seu controlo sobre as nomeações e carreiras dos sacerdotes e a sua comunicação com o Vaticano. Com a implantação da I República ainda mais o investimento na área se ia agravar.

    Pelo interesse que reveste para o assunto, passarei a transcrever o texto que segue:

    "...AS SOCIEDADES FLORESCEM QUANDO A RELIGIÃO TRIUNFA

    Filho de pais profundamente católicos, Bernardino católico se conservou até ao fim. Já aludimos a um documento em que Pedro da Fonseca, pároco encomendado de Nogueira do Cravo, dizia, em 1829, do seu paroquiano, o estudante de Leis Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: "Tem sido (...) amigo da Igreja, assíduo observador das leis, tanto divinas como humanas..." Com que devoção Bernardino escreveu a "História Sagrada ou Resumo Histórico do Antigo Testamento", a "História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos" e a "História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias"! Tinha Bernardino o hábito de empregar algumas frases, como frases de cruzado para entusiasmar a sua gente. Uma delas, já o sabemos, era esta: "Só será salvo o que preservar até ao fim!" rebuscada nos livros santos. Outra : "As sociedades florescem quando a Religião triunfa!". Ainda no Recife, preparando meticulosamente a viagem para Moçâmedes, Bernardino tomava como obrigação da colónia, logo que se estabelecesse em terras da nossa África, a "obrigação de ser o seu primeiro trabalho erigir um templo, pois que à colónia, em projecto, acompanhará um sacerdote de exemplar conduta, e é de sumo interesse estabelecê-la o mais moral possível. Além deste sacerdote talvez vão outros..." Não deve ter sido possível a Bernardino conseguir ao menos um sacerdote para acompanhar os 166 portugueses que, sob a sua orientação, deixaram o Brasil em 23 de Maio de 1849, para se fixarem nas paragens de Moçâmedes. Possível lhe não foi também impor ai, como primeiro trabalho, a construção dum templo. Antes de tudo, sem dúvida, se impunha a instalação dos colonos com garante da sua subsistência e da sua própria sobrevivência. Era isso que preocupava Bernardino. Isso o levou a fazer-se ao mar, no barco à vela "Douro", para ir a Luanda conferenciar com o Governador Geral e pedir-lhe auxilio para os seus homens. E tal era a sua preocupação de garantir providências por parte das autoridades, que empreendeu esta viagem ainda sem estarem ultimadas as descargas do Tentativa Feliz. 

    Não conseguiu sacerdote para a viagem, é certo, mas, segundo supomos, tomou providências, quanto a nós ainda antes de embarcar para Luanda, no sentido de não faltar assistência religiosa aos colonos. Bernardino partiu para a capital de Angola no dia 16 de Agosto de 1849, quinze dias depois de ter chegado a Moçâmedes. Pois em 27 de Setembro seguinte era publicada uma Nota do Governo do Bispado ordenando que o pároco de Benguela fosse a Moçâmedes "administrar sacramentos de necessidade, e o matrimónio".

    Há quem seja de opinião que teria sido este o primeiro assunto a ser tratado Bernardino em Luanda. Seja como for, o certo é que Bernardino sempre se preocupou grandemente com os problemas espirituais dos seus homens. Queria-os a todos, como ele próprio era, cheios de fé. Quanto ao templo: é verdade que quando a colónia chegou a Moçâmedes, já estavam começadas as paredes da futura Igreja de Santo Adrião (1). 

    Opinamos, porém, que o início da construção do templo se deve a uma como que exigência de Bernardino ao Governo, quando Bernardino estava ainda no Brasil, e se dava ao trabalho de ver e prever tudo quanto lhe ia ser necessário em Moçâmedes. Lê-se, efectivamente, nas Instruções Provinciais, de 30 de Março de 1849, que o governador-geral Acácio Adrião da Silveira Pinto, encarregara o major Ferreira Horta de construir um templo de dimensões suficientes para albergar "não só todos os habitantes da colónia, como ainda os indígenas vizinhos, que viessem à povoação assistir aos actos religiosos, ou que em dias santificados nela se encontrassem". De facto as obras começaram, mas não foram continuadas. Faltava o homem que tudo impulsionava. Foi Bernardino quem tomou providencias, e de tal modo que, em relatório de Fernando Leal de 31 de Dezembro de 1854, se pode lêr:

    " As obras da igreja e da casa do pároco se acham em tal grau de adiantamento, a despeito dos poucos operários e de meios, que, com três meses mais de trabalho ficariam prontas. O que há a fazer limita-se somente a guarnecer toda a obra de cal fina, alguns ornatos de madeira na capela-mor, os dois altares laterais, e, finalmente, os balaustres para a teia e coro da igreja." Devem ter surgido dificuldades, pois a igreja demorou mais, muito mais de três meses, a ser concluida. Isso, porém, em nada diminuiu o papel de Bernardino na sua construção, e estamos em crer que nela terá gasto avultadas quantias do seu generoso bolso. Àcerca da igreja, diz Bernardino em crónica de 2 de Novembro de 1849: "Bem urgente é vê-la ultimada, pois não podia deixar de escandalizar a qualquer viajante católico, que uma sociedade tão numerosa como é hoje a de Moçâmedes, não tenha uma casa de oração, onde reuna para dar graças ao Todo Poderoso e pedir os auxilios de que cada qual carece."

    A seguir transcrevemos mais um passo da crónica - aquela em que Bernardino descreve a primeira missa em Moçâmedes : 

    " Entrado nesta Baía em a noite de trinta do mês passado, a Corveta Oito de Julho, com o chefe da Estação Naval, e conduzindo a seu bordo o reverendo padre Matias, de acordo com o dito chefe, dispoz o Governador deste Distrito que se celebrasse em terra o Augusto Sacrificio da Missa no primeiro do cortente, em que a Igreja celebra a festividade de Todos-os-Santos. Erigiu-se com rapidez um altar portátil na Fortaleza, em uma casa que se edifica para ser o Quartel da Tropa, e que ainda lhe falta ser coberta: serviram para isso, os toldos da dita corveta, e forraram-se as paredes com bandeiras da mesma. Ficou bem decente e engraçada. Às dez horas do dia desembarcaram o Chefe da Estação e toda a Oficialidade, soldados e marinheiros, divisando-se no rosto de todos a maior satisfação, pois vinham trilhar o terreno que começaram a aplainar, porque é à Marinha Portuguesa que Moçâmedes deve o que até agora tinha. Salvou a Fortaleza e depois a Corveta: incorporou-se com a Marinha o Governador, o seu Ajudante, e o Comandante da Força, e, com a música da mesma Corveta na frente, se dirigiram à Fortaleza, para onde iam concorrendo os moradores, suas famílias e colonos, todos decentemente vestidos, e com suas escravas também vestidas ao costume europeu. Como na povoação se encontrava o soba do Giraulo, também ele e mais alguns pretos foram assistir à missa, durante a qual tocou a música, havendo salva à elevação da Hóstia, e lançando-se foguetes. Esteve luzido e edificante o concurso."

    Não há dúvidas, Bernardino levara para Moçâmedes este anseio: dilatar a Fé e o Império. A este anseio foi fiel até à morte. "

    In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro", Fundador de Moçâmedes. Figuras e feitos de além-mar. Agência Geral do Ultramar, by Padre José Vicente (Gil Duarte). pgs 73 a 79.

                                                                       =====

    Ainda sobre a Igreja de Santo Adrião. Os cuidados do pároco Gil Carneiro pela construção e embelezamento do templo; notas biográficas 

    A velha Igreja de Santo Adrião começou a construir-se há um século, com o lançamento solene da primeira pedra, em 27 de Julho de 1849, antes, portanto, da chegada a Moçâmedes da primeira colónia vinda de Pernambuco, Brasil. Estava-se ainda no distanciado ciclo que memoramos "um templo bem acabado, sólido, bonito" como o representava o secretário-geral Pinto de Balsemão, no seu ofício de 27 de Março de 1868, em que relata a visita que fizera à já conhecida e "afamada vila".

    O templo apresentava-se então "gracioso e alegre, mercê das solícitas diligências com que o mui reverendo e digno padre Gil" como se expressava Balsemão, havia ordenado e dirigido a pintura das paredes interiores".                                             

    Quem era o padre Gil?

    -Um sacerdote exemplaríssimo e muito culto, que exerceu, em Moçâmedes as funções de pároco encomendado da freguesia, cumulativamente com as de professor de ensino primário.

    Vamos delinear, com alguns outros, os traços mais salientes da sua biografia, que extraimos do volume III, ano 1895, da Revista Portugal em África, pg.1079:

    O padre Gil, de sua dignidade nome e apelidos completos, cónego João Bento Gil Carneiro, nasceu em Peso-da-Régua, concelho de Trás-os-Montes, e ordenara-se em 1865, tenso estudado Teologia no Seminário de Leiria, onde fora professor. Nomeado missionário da Diocese de Angola e Congo, por Decreto de 24 de Outubro de 1866, assumiu, pouco depois, as funções docentese paroquiais na vila de Moçâmedes, sempre respeitado e benquisto dos colonos. Em 1870 foi pároco em Benguela. E missionário também nos concelhos de Dombe Grande, Benguela, Quilengues e Caconda, ensinando e baptizando indígenas. Ao passr pelos territórios do soba Gola Hiambi, baptizou-o e avassalou-o à corôa portuguesa, realizando assim uma dupla missão, religiosa e política. Em Caconda, cuja Igreja havia desaparecido, celebrou, numa saleta da residência, as solenidades do culto. Baptizou 17 indivíduos. Pouco depois seguiu para Quipembe, a 13 quilómetros de Caconda, avançando daqui para Calugogolo e depois para Quingolo. Durante esta viagem batizou 56 pessoas. Regressando a Caconda, baptizou 121 indivíduos. Saindo para Canjueva, baptizou 262 pessoas, e voltando mais uma vez a Caconda, administrou o mesmo sacramento a 208. Em 30 de Agosto do mesmo ano de 1870, benzeu o novo cemitério, e, no dia imediato, partiu em direcção a Benguela onde chegou a 18 de Setembro, tendo baptizado mais 106 pretos na sua viagem de Caconda a Quilengues, e mais 149 nas terras deste nome. Foi cheia de canseiras e sofrimentos, com iminência de perigos, em climas depauperantes, a vida do respeitável sacerdote, ardentemente compenetrado do virtuoso e patriótico ministério da religião e da Pátria.

    Em Moçâmedes, o padre Gil foi sempre desejoso dos seus progressos e muito querido e recordado de quantos o conheceriam e apreciavam as cativantes qualidades de cultura e coração. Regressando ao Reino, foi colocado, por Decreto de 14 de Junho de 1872, numa freguesia do Patriarcado - a de Nossa Senhora de Azambuja - e, mais tarde, por Decreto de 21 de Dezembro de 1882, na de S. Sebastião da Pedreira. Por Decreto de 11 de Outubro de 1895, foi agraciado com a comenda da Conceição pelos relevantes serviços que prestou como missionário e professor. Abrilhantou a oratória sagrada tornando-se credor dos justos ecómios com que a imprensa o distinguiu. Colaborou, igualmente, com fulgurância em alguns dos melhores jornais do país. Faleceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1907.

                                                                           ======

    Tendo referido, no presente trecho deste capítulo, ao edifício actual da Igreja Matriz, parece-nos acertado descrever o concebido projecto da nova igreja a construir, em local indicado, no plano de urbanização da cidade, que já foi aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues.

    Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.

    "A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de néon que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

    "A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores, a localização do baptistério, de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente,, o que permite a normal celebração do acto do culto.

    "Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torrem um relógio e um sino de grandes dimensões.

    In Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres. Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349. PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.

    Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.





    MariaNJardim


    10 abril 2020

    Informação sobre Moçâmedes no início da colnização e sobre Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro



                                     «REVISTA UNIVERSAL LISBONENSE. 29»


    Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraúl (perto das borlas) se arranjaram umas salinas, e os autores foram muito felizes, pois tem tirado sal, igual ao de Setúbal, e com muita abundancia.

    Mossamedes, a primeira vista, atterra os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos, já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem ; fique certo que o não estar mais prospera esta Colonia deve-se ao Bernardino. Há dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos 8 navio «General Etegowde» lá  fora mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, iremos: assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. 

    A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 o 1850 em cera, marfim, urzella e peixe secco, foi de 120:000 000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi saiu , o qual sendo governado pela mulher, aqui não quiz ficar, apezar de ganhar por dia 2/300 réis ; veja se elle ahi ganhava similhante jorna. 

    O Manjericão parece que se quer retirar, o que também não admira , visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas dellas estavam falladas para cazarem, como aqui alguém me diz. Fique certo , caro estima , que Mossamedes é uma terra muito boa, e ha-de ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha, esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está succedendo em essa província , na Bahia , Rio de Janeiro , Pará e outras. 

    Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Billancourt. — Saúde e felicidade, e sou de v. attento venerador e criado.— José Antonio Pinto Guimarães.

    P. S. O Rangel e o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.

                                                                      000000000

                                                                CURIOSIDADES


    «Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes». Era seu Autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa.


    Nesse livrinho, a páginas 14, vem referido um episódio, que procurarei resumir. Alguns anos antes, tinha-se deslocado a Lisboa um indivíduo de certa projecção social em Angola com os apelidos «Freire de Figueiredo Abreu e Castro». O Dr. Augusto Abranches Freire de Figueiredo (bisavô do confrade Nuno Canas Mendes), dirigiu-se imediatamente ao hotel onde ele se encontrava hospedado para inquirir sobre o grau de parentesco que os unia e obteve a seguinte resposta:

     «Não. Não somos parentes. A coincidência de apelidos explica-se desta forma: na região de Moçâmedes foram muitos os pais que, a partir de 1871 – data em que Bernardino faleceu – e mesmo antes, puseram aos filhos recém-nascidos os apelidos do fundador da cidade, para desta forma lhe prestarem homenagem. Assim aconteceu aos meus antepassados, que não são, de facto, consanguíneos de Bernardino.»

    É, pois, muito natural que a mudança de apelidos de seu Bisavô e irmãos se insira nesta curiosa moda que surgiu em Moçâmedes.

    Ao rever o citado livro para lhe dar esta resposta, encontrei dentro um recorte do «Diário de Notícias» (sempre tive a mania de guardar papéis), com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Moçâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo – me leva a conjecturar que também fosse da sua família.

    (...)Cumprimentos,

    José Caldeira »

    in www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=117179&fview=e
    .


    Nota sobre Bernardino: Confirma-se a ascendência nos Reis de Portugal. Para mais informações consulte: http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=584348

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     O Chefe da Primeira Colonia

               ( «Moçâmedes» 1º Volume, de Manuel Júlio de Mendonça Torres)
    -                                                   

    Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
    foi o ilustre chefe dessa plêiade ousada de portugueses, que, vinda há um século do Brasil, iniciou, no sul de Angola, a obra de civilização que admiramos.

    Temos sobre a nossa mesa de trabalho um dos seus melhores repretos. Observando-o atentamente, recordamo-nos do que ouvimos a alguns dos seus contemporâneos, e, sobretudo, apreciando os seus escritos, e estudando os livros e documentos que se lhe referem, vamos diligenciar representá-lo em breves linhas.

    Tinha o rosto oval, de tez acentuadamente morena. Iluminavam-no olhos pequenos, mas vivos com expressões de mansidão, reflectindo a um tempo, sentimentos de energia e de bondade. O cabelo era fino, corredio, azevichado. A fronte, espaçosa. O nariz, grosso. Trazia rapado o bigode , e usava barba de colar, que a fotografia nos apresenta branca, correndo, muito curta, em estreita faixa, de orelha a orelha, sob o mento. A fisionomia, simpática; as maneiras, insinuantes. A sua presença agradava.

    No prestigioso chefe da primeira colónia foram surpreendentes a tenacidade com que organizou o grupo de colonos de 49 e a presteza que desenvolveu, junto do Governo Central e do seu alto representante da Colónia, para o bom êxito do empreendimento. Obstáculos, contratempos, oposições, que grandemente lhe dificultaram a acção, tudo venceram a sua infatigável obstinação e a dua férrea vontade.

    Bernardino de Figueiredo nasceu em Nogueira do Cravo, povoação do concelho e comarda de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, província da Beira Alta.

    Em face da cópia paleográfica que consultámos, do seu assento de baptismo, extraído do Livro de baptizados da freguesia de Nogueira do Cravo de 1806 a 1830, tivemos conhecimento de que fora baptizado «em os quatorze dias do mês de Dezembro de mil houto centos e nove». (sic)

    Nãi se encontra neste assento, lavrado, a fls. 18, daquele livro, existente no Arquivo e Museu de Arte da Universiadde de Coimbra, a data do seu nascimento. Mas podemos conjecturar, com grandes visos de exactidão, ter nascido no ano em que foi baptizado. . Não é costume ser a data dos baptizados muito distanciada da dos nascimentos. Assim , tendo sido baptizado em 14 de Dezembro de 1809, último mês do ano, deveria ter nascido nesse mês, ou em qualquer dos outros desse ano. Parece-nos, pois, que, se não acertámos, não estaremos muito longe da verdade, declarando haver nascido em 1809.

    Guidos por este documento e pela árvore genealógica da família Abranches, cujo exame nos foi obsequisosamente facultado, em dua casa, de Galizes, povoação do Concelho de Oliveira do Hospital, pelo Sr. Dr. Vaz Pato, inteiramo-nos de que foram seus pais Alexandre Campos de Abreu Vasconcelos e D. Rita de Figueiredo; seus avós paternos, Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos, e seus avós maternos, Francisco Abranches Freire de Figueiredo e D. Josefa Maria de Abreu e Castro, da Casa da Torre, hoje pertencente ao nosso amável informador.

    Lemos no dicionário histórico Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues (Lisboa, 1906), «que era estudante de Coimbra, quando, levado pelos princípios e sentimentos de sua familia, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província». Da árvore acima citada, consta também que fora tenente de caçadores do exército de D. Miguel.

    Após a Convenção de Évora Minte, que, em 1834, pôs termo à guerra civil, e extintos todos os bandos de partidários, despersos pelo País, veio para Lisboa, onde se conservou, durante três anos, desde 1837 até 1839, colaborando na redacção do Portugal Velho, órgão do absolutismo.

    Em 1839, partiu para Pernambuco: alí se dedicou ao exercício do magistério. E, ao mesmo tempo que desempenhava funções professorais, escrevia livros. São dele algumas obras didacticas e um romance. Fez parte do corpo docente do Colégio Pernambucano, onde leccionou latim, história e geografia.

    Manuseámos um primeiro volume dum compêndio seu, intitulado História Geral, dividido em seis volumes, que se denominam: o primeiro, História Sagrada do Antigo Testamento; o segundo, História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias; o terceiro, História Antiga e Grega; o quarto, Hostória Romana e da Idade Média; o quinto, História Moderna; o sexto, História de Portugal e do Brasil.

    O primeiro volume que tivemos entre mãos, História Sagrada do Antigo Testamento, é dedicado ao director do Colégio Pernambucano, José Soares de Azevedo. Escreveu-o sob o seguinte tema, consignado na obra: A verdade da Religião, sua antiguidade e santidade, até se demonstram de alguma sorte por sua própria grandeza (P. de Pascal). Nele se declara a empresa e o ano em que foi impresso: Tipografia de Santos & Companhia, Pernambuco, 1841. E nele ainda se lê o anúncio que se segue: «está a entrar no prelo: Resumida notídia da História da Língua e Literatura Portuguesa, do mesmo autor.

    Também nos foi dado compulsar uma outra obra de Bernardino de Figueiredo, Nossa Senhora de Guararapes, romance histórico, descritivo, moral e crítico, epígrafe a que estão sobpostos os seguintes dizeres: «Não vos conto alheias cousas».

    Guararapes é a denominação dos montes que se erguem nas imediações de Pernambuco, onde os portugueses, sob o comando de Francisco Barreto de Meneses, alcançaram, em 1648 e 1649, duas memoráveis batalhas contra os Holandeses, a última das quais foi extraordinariamente sangrenta, mas gloriosa e decisiva. Como as forças portuguesas eram muito reduzidas em confronto com as numerosas tropas holandesas, foi a vitória atribuida convictamente a milagre. O romance de Bernardino de Figueiredo faz alusão ao facto.

    Sobre o acontecimento, é interessante recordar, a propósito, a existência do quadro a óleo «A batalha de Guararapes» do distinto pintor brasileiro Vitor Meireles de Lima, falecido em 1902, autor de inúmeros trabalhos pictóricos, como «Descobrimento e Primeira Missa do Brasil», «Combate de Riachelo», «Panorama da Baía e cidade do Rio de Janeiro», «Flagelação de Cristo» etc. ..

    O romance de Bernardino de Figueiredo foi impresso em Pernambuco, na Tipografia de M.F. de Faria, em 1847.