O Corpo de Bombeiros Voluntários de Moçâmedes por acasião da
peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à cidade, em 1949
Já deixei escrito neste blogue que Moçâmedes era uma terra que tinha como particularidade, que era a vontade das pessoas de participarem na vida da colectividade, através de iniciativas levadas a cabo com espírito de missão e grande "carolice". José Sacadura Bretes era uma dessas pessoas.
Em Moçâmedes ele foi director da Alfândega, e não se ficou por aí. O seu espírito irrequieto e empreendedor levou-o a participar na reorganização da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da cidade (AHBVM), em 1949, que fora criada em 19 de Maio de 1904, data da aprovação dos respectivos Estatutos, por portaria do governador-geral do território, e que se encontrava-se inactiva há 45 anos. E foi em Moçâmedes fundador e 1º Comandante daquela instituição pioneira voluntaria e associativista em Angola.
Segundo o próprio Sacadura Bretes nos conta através de um livro manuscrito que deixou para a posteridade, o relançamento da Associação ficou a dever-se à ocorrência de um grave incêndio que deixou patente a falta de uma corporação de bombeiros na cidade.(1) Nesse livro recorda a sua filiação na Liga dos Bombeiros Portugueses, sob o número 315, e a posterior participação no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Leiria de 3 a 5 de Setembro de 1954.
Pela sua dedicação e competência como comandante dos Bombeiros de Moçâmedes, no dia 1 de Abril de 1955, foi nomeado delegado da Liga dos Bombeiros Portugueses em Angola. Foi, de resto, o primeiro a exercer tal função em Angola, destacando-se em acções de fomento e de apoio à fundação de outras associações e corpos de bombeiros em Benguela, Lobito, Nova Lisboa e Sá da Bandeira. E quando da sua presença no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, em representação dos Bombeiros de Moçâmedes, apelou às entidades competentes para que a legislação aplicável aos serviços de incêndios fosse extensiva aos territórios ultramarinos, chegando a ser recebido pelo Ministro do Ultramar.
“Não meti uma lança em África, como soe dizer-se, mas sim na
Metrópole. Consegui dilatar, a Fé e o Império, no que respeita aos Serviços de
Incêndios, até Angola; consegui que a primeira Corporação de Voluntários de
Angola se tornasse conhecida e querida na Mãe-Pátria e levo-lhe uma grande
lição, que levará dias a dar em sucessivas conferências, em que relatarei, em
que tomarei medidas atinentes a irmanar processos de combate e fórmulas
regulamentares, mas onde, por mais que enalteça o espírito de sã camaradagem
dos camaradas da Metrópole, por maior e sentido calor e convicção que imprima
às minhas palavras, nunca poderei definir quanto, na vontade, a todos devo,
porque não há, não pode haver, palavras que definam toda a gratidão que sinto
por quanto me fizeram.”
Para sua satisfação o Governo, em 27 de Maio de
1958, publicou o Decreto-Lei n.º 41652, indo ao encontro da sua satisfação. Nessa altura, porém, já havia deixado as
funções de comandante, por dissidências internas entrara em
licença ilimitada, alegando problemas de saúde. A situação ter-se-ia tornado insustentável, acabando a Assembleia Geral da Associação por
nomear como seu substituto, em regime de efectividade, o 2.º comandante Raul
Fernandes Luís. Antes porém bateu-se pela doação aos bombeiros
voluntários, de 10 por cento sobre os prémios de seguros Os últimos apontamentos inseridos no livro denotam um certo
desgosto de José Sacadura Bretes, face ao rumo tomado pelo Corpo de Bombeiros,
após a sua saída, confessando-se desagradado, com aspectos tais como a paralisação do
pronto-socorro e da ambulância, devido à falta de verba para reparação,
adiantando, em jeito de desabafo:
“Já não está na minha mão dar remédio a estes males. Também
já não me compete fazer história. É de esperar que os vindouros a façam e oxalá
saibam vencer. Eu vou para a Metrópole. Vou descansar de 40 anos de África.
A História dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes será depositada por mim na
Liga dos Bombeiros Portugueses”.
“(…) para decidir do seu destino”, escreveu, a terminar, o
ex-comandante, referindo-se, em concreto, à LBP.
A decisão foi tomada e o resultado está à vista: preservar e
divulgar a história dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e, por essa via,
ainda que indirectamente, honrar o altruísmo de todos os antigos bombeiros
ultramarinos!
Estas são passagens retiradas a um artigo publicado no site NHPM da LB www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico

José Sacadura Bretes, na foto à dt, montado no seu garboso cavalo no interior do velho campo de futebol, quando se preparava para participar num desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949.
Mas Sacadura Bretes tinha outras facetas. Foi também um grande aficcionado da
arte do toureio. Pessoa simpática e cheia de iniciativa, que cheguei a ver montado no seu cavalo a percorrer as ruas da cidades,
foi ele quem organizou a 1ª tourada de Moçâmedes.
Conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, quando viajava a caminho da Metrópole, respondeu ironicamente, agradecendo e assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)
No Cine Moçâmedes, num fatídico dia, em 1960, quando decorria o
filme «Amanhã será tarde», a casa dos filmes, no 1º andar começou a
arder após uma explosão, em consequência algumas pessoas atiraram-se das janelas para fora, morreram bombeiros, morreu Jorge
Madeira que era jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. que nem sequer tinha ido ao Cinema, tinha regressado de um treino, e
ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na
bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fum,
no preciso momento em que uma grande explosão fez a casa das filmagem ir pelos ares, arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu
foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão
Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela
sua participação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, em Moçâmedes, e mãe dos dois conhecidos hoquistas, foi projectada também foi pelos ares e não morreu por um triz.
Conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, quando viajava a caminho da Metrópole, respondeu ironicamente, agradecendo e assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)
José
Sacadura Bretes vê-se aqui ao lado do Governador, na tribuna, a assistir a
um torneio de basquetebol feminino realizado no campo de jogos do
Sporting Clube de Moçâmedes
Os bombeiros de Moçâmedes a acudirem ao incêndio que nessa noite d ano de 1960, se propagou...
Enfim José Sacadura Bretes era uma pessoa de grande iniciativa e possuidora de muitas valências intelectuais , ele foi director da Alfândega Moçâmedes, e enquanto ali viveu para além da criação dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes de que foi 1º Comandante, salientou-se como poeta, cavaleiro, caçador.
Não sendo pessoa de meias palavras, Sacadura Bretes acabaria por ter, em Moçâmedes, um debate intelectual com o Padre Almeida, no meio do qual ele fez um soneto criticando a usura do padre que emprestava dinheiro a juros. Era um poema composto de tal modo que lendo a primeira letra ou a 1ª silaba de cada verso, juntando-as estas formam a palavra ou frase desejada, lendo na vertical, de cima para baixo ou no sentido inverso (acróstico): O PADRE ALMEIDA VENDEU A ALNA AO DIABO!
Não sendo pessoa de meias palavras, Sacadura Bretes acabaria por ter, em Moçâmedes, um debate intelectual com o Padre Almeida, no meio do qual ele fez um soneto criticando a usura do padre que emprestava dinheiro a juros. Era um poema composto de tal modo que lendo a primeira letra ou a 1ª silaba de cada verso, juntando-as estas formam a palavra ou frase desejada, lendo na vertical, de cima para baixo ou no sentido inverso (acróstico): O PADRE ALMEIDA VENDEU A ALNA AO DIABO!
Ficam estas recordações.
MariaNJardim (ass.)
Acróstico é uma composição escrita feita a partir das
letras iniciais de palavras isoladas ou localizadas no início ou no
interior de frases e de versos.
(1) De facto em Moçâmedes vários incêndios aconteceram no desenrolar dos tempos, desde o ocorrido no Palácio do Governador ainda no sec xix, ao ocorrido num edifício de 1º andar de traça classicista no local onde mais tarde surgiu a Drogaria Nova de Lopes Rosa, ocorrido no iinicio do sec xx e consumido pelo fogo, conforme foto que segue e
se encontra assinalado no verso. Foto colocada na Net por familiar do tenente-médico Monteiro
d'Oliveira, que integrou a expedição de Pereira d’Eça
que subiu ao planalto e prosseguiu para Leste e na direcção do Cunene, em 1915, para enfrentar
a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas
naqueles territórios. Seu neto encontrou-a num envelope com a
inscrição "Mossamedes 1914", que guardava duas colecções de postais sobre
esta cidade.






Sem comentários:
Enviar um comentário