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05 fevereiro 2007

Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e seu 1º Comandante, José Sacadura Bretes



O Corpo de Bombeiros Voluntários de Moçâmedes por acasião da peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à cidade, em 1949
 
 
 
 
Bombeiro na Procissão, em 1949
 

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 José Sacadura Bretes em meados dos anos 1950



Já deixei escrito neste blogue que Moçâmedes era uma terra que tinha como particularidade, que era a vontade das pessoas de participarem na vida da colectividade, através de iniciativas levadas a cabo com espírito de missão e grande "carolice". José Sacadura Bretes era uma dessas pessoas.

Em Moçâmedes ele foi director da Alfândega, e não se ficou por aí. O seu espírito  irrequieto e empreendedor levou-o a participar na reorganização da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da cidade (AHBVM), em 1949, que fora  criada em 19 de Maio de 1904, data da aprovação dos respectivos Estatutos, por portaria do governador-geral do território, e que se encontrava-se inactiva há 45 anos. E foi  em Moçâmedes fundador e 1º Comandante daquela instituição pioneira voluntaria e associativista em Angola.

Segundo o próprio Sacadura Bretes nos conta através de um livro manuscrito que deixou para a posteridade, o relançamento da Associação ficou a dever-se à ocorrência de um grave incêndio que deixou patente a falta de uma corporação de bombeiros na cidade.(1) Nesse livro recorda a sua filiação na Liga dos Bombeiros Portugueses, sob o número 315, e a posterior participação no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Leiria de 3 a 5 de Setembro de 1954.

Pela sua dedicação e competência como comandante dos Bombeiros de Moçâmedes, no dia 1 de Abril de 1955, foi nomeado delegado da Liga dos Bombeiros Portugueses em Angola. Foi, de resto, o primeiro  a exercer tal função em Angola, destacando-se em acções de fomento e de apoio à fundação de outras associações e corpos de bombeiros em  Benguela, Lobito, Nova Lisboa e Sá da Bandeira. E quando da sua presença no XI Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, em representação dos Bombeiros de Moçâmedes, apelou às entidades competentes para que a legislação aplicável aos serviços de incêndios fosse extensiva aos territórios ultramarinos, chegando a ser recebido pelo Ministro do Ultramar.
 
No seu autodidatismo Sacadura Bretes estabeleceu contactos com a Metrópole, visando adquirir conhecimento: 
“Não meti uma lança em África, como soe dizer-se, mas sim na Metrópole. Consegui dilatar, a Fé e o Império, no que respeita aos Serviços de Incêndios, até Angola; consegui que a primeira Corporação de Voluntários de Angola se tornasse conhecida e querida na Mãe-Pátria e levo-lhe uma grande lição, que levará dias a dar em sucessivas conferências, em que relatarei, em que tomarei medidas atinentes a irmanar processos de combate e fórmulas regulamentares, mas onde, por mais que enalteça o espírito de sã camaradagem dos camaradas da Metrópole, por maior e sentido calor e convicção que imprima às minhas palavras, nunca poderei definir quanto, na vontade, a todos devo, porque não há, não pode haver, palavras que definam toda a gratidão que sinto por quanto me fizeram.” 
 
Para sua satisfação o Governo, em 27 de Maio de 1958, publicou o Decreto-Lei n.º 41652, indo ao encontro da sua satisfação. Nessa altura, porém,  já havia deixado as funções de comandante, por dissidências internas entrara em licença ilimitada, alegando problemas de saúde. A situação ter-se-ia tornado insustentável, acabando a Assembleia Geral da Associação por nomear como seu substituto, em regime de efectividade, o 2.º comandante Raul Fernandes Luís. Antes porém bateu-se pela doação aos bombeiros voluntários, de 10 por cento sobre os prémios de seguros Os últimos apontamentos inseridos no livro denotam um certo desgosto de José Sacadura Bretes, face ao rumo tomado pelo Corpo de Bombeiros, após a sua saída, confessando-se desagradado, com aspectos tais como a paralisação do pronto-socorro e da ambulância, devido à falta de verba para reparação, adiantando, em jeito de desabafo:

“Já não está na minha mão dar remédio a estes males. Também já não me compete fazer história. É de esperar que os vindouros a façam e oxalá saibam vencer. Eu vou para a Metrópole. Vou descansar de 40 anos de África. A História dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes será depositada por mim na Liga dos Bombeiros Portugueses”.

Assim escreveu em seu livro manuscrito, original e único, propriedade da Liga dos Bombeiros Portugueses desde 15 de Julho de 1958, por oferta do seu autor, receoso de que os elementos ali contidos se extraviassem.

“(…) para decidir do seu destino”, escreveu, a terminar, o ex-comandante, referindo-se, em concreto, à LBP. 

A decisão foi tomada e o resultado está à vista: preservar e divulgar a história dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes e, por essa via, ainda que indirectamente, honrar o altruísmo de todos os antigos bombeiros ultramarinos! 


Estas são passagens retiradas a um artigo publicado no site NHPM da LB www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


Recuemos no tempo, ao ano de 199, e às festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes...


José Sacadura Bretes, na foto à dt, montado no seu garboso cavalo no interior do velho campo de futebol, quando se preparava para participar num desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949. 



Mas Sacadura Bretes tinha outras facetas. Foi também um grande aficcionado da arte do toureio. Pessoa simpática e cheia de iniciativa,  que cheguei a ver montado no seu cavalo a percorrer as ruas da cidades,  foi ele quem organizou a 1ª tourada de Moçâmedes.

Conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, quando viajava a caminho da Metrópole, respondeu ironicamente,  agradecendo e assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)

          
 José Sacadura Bretes vê-se aqui ao lado do Governador, na tribuna, a assistir a um torneio de basquetebol feminino realizado no campo de jogos do Sporting Clube de Moçâmedes


Os bombeiros de Moçâmedes a acudirem ao incêndio que nessa noite d ano de 1960, se propagou...


  No Cine Moçâmedes,  num fatídico dia, em 1960, quando decorria o filme «Amanhã será tarde», a casa dos filmes, no 1º andar começou a arder após uma explosão, em consequência algumas pessoas atiraram-se das janelas para fora, morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira que era jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. que nem sequer tinha ido ao Cinema, tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fum,  no preciso momento em que uma grande explosão fez a casa das filmagem ir pelos ares, arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua participação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, em Moçâmedes, e mãe dos dois conhecidos hoquistas, foi projectada também foi pelos ares e não morreu por um triz.
 
 
Enfim José Sacadura Bretes era uma pessoa de grande iniciativa e possuidora de muitas valências intelectuais , ele foi director da Alfândega Moçâmedes, e enquanto ali viveu  para além da criação dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes de que foi 1º Comandante, salientou-se como  poeta, cavaleiro, caçador.  

Não sendo pessoa de meias palavras, Sacadura Bretes acabaria por ter, em Moçâmedes, um debate intelectual com o Padre Almeida, no meio do qual ele fez um soneto criticando a usura do padre que emprestava dinheiro a juros.  Era um poema  composto de tal modo que lendo a primeira  letra ou a 1ª silaba de cada verso, juntando-as  estas formam a palavra ou frase desejada, lendo na vertical, de cima para baixo ou no sentido inverso (acróstico): O PADRE ALMEIDA VENDEU A ALNA AO DIABO!


Ficam estas recordações.

MariaNJardim  (ass.)
 
 Acróstico é uma composição escrita feita a partir das letras iniciais de palavras isoladas ou localizadas no início ou no interior de frases e de versos.
 
 
(1) De facto em Moçâmedes  vários incêndios aconteceram no desenrolar dos tempos, desde o ocorrido no Palácio do Governador ainda no sec xix, ao ocorrido num edifício de 1º andar de traça  classicista no local onde mais tarde surgiu a Drogaria Nova de Lopes Rosa, ocorrido no iinicio do sec xx e consumido pelo fogo, conforme foto que segue e se encontra assinalado no verso. Foto colocada na Net por familiar do tenente-médico Monteiro d'Oliveira, que integrou a expedição de Pereira d’Eça que subiu ao planalto e prosseguiu para Leste e na direcção do Cunene, em 1915, para enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Seu neto encontrou-a num envelope com a inscrição "Mossamedes 1914", que guardava duas colecções de postais sobre esta cidade.





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