João da Silva Jardim
As duas elegantes gazelas em bronze, que ainda hoje podemos ver e apreciar, uma de cada lado, ladeando o espelho de água neste privilegiado local, em Moçâmedes, Angola, situado no topo da Avenida da República , eram um atrativo para quem pretendesse através da fotografia, registar e guardar recordações para o futuro.
Nesta foto, tirada em 1967, uma menina de então, a Carla Baptista, posa para a posteridade "montada" numa das duas elegantes gazelas. Obrigada Carla por ter facultado aos conterrâneos esta bela foto!

Foto gentilmente cedida por Mélita e Finita Parreira da Cruz
Por volta da mesma época outras duas meninas, as gentis manas Parreira da Cruz, Finita e Mélita, podem ser aqui vistas ao lado de uma das "famosas" gazelas do jardim da Avenida de Moçâmedes..
Octávia de Matos, filha de Octávio de Matos, o actor que perdeu a mão no Deserto do Namibe, onde o facto é lembrado ao visitante com uma espécie de pequeno poste terminando numa mão metálica aberta, erigido no local em sua homenagem
Luisa Pólvora Dias, Eduarda Carvalho, Octávia de Matos e Marizete Veiga.
Luisa Pólvora Dias, Eduarda Carvalho, Octávia de Matos (1) e Marizete Veiga
Fotos cedidas por Marizete Veiga Baptista
.
Chamo a atenção para o traçado das ruas da cidade de Moçâmedes em forma de quadrícula, obra da sensibilidade do 5º governador distrital, o jovem e talentoso empreendedor Fernando da Costa Leal. E também para a vista para esta Avenida que se podia fruir a partir do Palácio do Governador até finais dia anos 1940, um autêntico miradouro, como a foto a nos mostra.
Era esta a vista que até ao inicio dos anos 1950 os Governadores desfrutavam a partir das janelas laterais do palácio. A da extensa Avenida que
terminava no antigo campo de futebol de terra batida, onde em tempos
mais atrás se estreou o grande futebolista que foi Fernando Peyroteu, figura mítica do futebol português.Note-se que nesta altura ainda não haviam sido plantadas as palmeiras, a Avenida que de início as havia tido, agora exibia arvores de copa, incluindo oliveiras, tipo de árvore amplamente favorecida pelo clima da terra..
Através deste Mapa da baixa da cidade de Moçâmedes retirado de um caderno das Festas do Mar de 1969, e da foto com uma vista aérea da parte central da cidade na mesma década de 1950, podemos imaginar o projecto ordenadamente planeado que esteve por detrás e que teve na sua origem a orientação de Fernando da Costa Leal. A partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si. onde ficavam pequenos quintais que representavam os espaços verdes da baixa, para além, é claro, dos Jardins da Avenida da República ou da Praia do Bonfim.
Para dar um aspecto agradável às cidades, os urbanistas da época preocupavam-se com a abertura de espaço verdes de lazer e manifestações públicas e escolhiam para tal locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros. E foi assim que, alí bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, nasceu esse belo, vasto e longitudinal jardim que se estende por dez quarteirões de casas, a perder de vista -o jardim da Avenida da Praia do Bonfim- preenchido com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc.. É possível ver-se através de fotos muito antigas este espaço já reservado para o efeito, numa altura em que do jardim da Avenida apenas existia um esboço.
Também não foi por acaso que para o Palácio do Governador foi escolhida a Avenida Felner, alí bem perto da Avenida da Praia do Bonfim, porém suficientemente afastada do centro, e um dos pontos privilegiados da cidade, sobranceiro ao mar, para serem erigidos os mais importantes edifícios públicos, ou seja, numa 1ª fase, o Palácio/Residência do Governador, a Igreja Paroquial, o primitivo Hospital do Estado, (mais tarde demolido), e numa 2º fase, os edifícios das Finanças, o Palácio do Governo do Distrito e a Associação Comercial.
Foi também explorando o efeito de perspectiva que vimos surgir no topo dos jardins da Avenida da República o edifício do Palácio da Justiça (Tribunal), um edifício singular, de grande porte, tendo como enquadramento a fonte luminosa com elevados repuxos de água, ladeada por duas elegantes gazelas, um dos mais belos ex-libris da cidade. Como cidade litoranea fundada no período colonial português ( 4 de Agosto de 1849), Moçâmedes não poderia deixar de ter a sua Fortaleza, a Fortaleza de S. Fernando, para cuja construção foi naturalmente aproveitada a elevação de terreno sobranceira ao mar mais tarde envolvida por uma muralha perfeitamente adaptada à morfologia do terreno, por se tratar de um local facilmente defensável onde tem inicio à falésia, que separa a parte baixa da parte alta.
30 anos após a independência de Angola, a cidade de Moçâmedes (actual Namibe) apresenta um grande desgaste, não obstante ter sido poupada à longa guerra fraticida que desde então se estabeleceu, e não obstante o esforço que se vem verificando por parte das autoridades na sua recuperação.
A zona central da cidade de Moçâmedes, é sem dúvida um património urbanistico e cultural a preservar, com as suas ruas esquadrilhadas, o baixo casario ao estilo Algarvio, a vasta Avenida, a Praça Leal, e os edificios do antigo Grémio da Pesca e do antigo Hotel Central, da Câmara Municipal, da Capitania do Porto, da Alfândega, dos Caminhos de Ferro, do Tribunal, do Palácio do Governador, a Igreja Paroquial, o belo prédio da Desvia (ao lado da Câmara Municipal e actualmente em ruínas), etc., etc...
A preservação do património urbanistico e cultural constitui uma tarefa a que um Estado moderno não se deve furtar, sob pena de se perder para sempre no tempo referências que não podem ser esquecidas e omitidas do registo Historico. Assim as actuais autoridades de Angola saibam compreender isso mesmo e dar o verdadeiro valor às construções do tempo colonial preservando-as quanto possível intactas como verdadeiras relíquias que são, testemunhas silenciosas de um tempo que não volta mais, documentos historicos que a Historia não deve apagar. Para além, é claro do valor futuro em roteiros turísticos.
Recordemos, para não ir mais longe, o que a esse respeito escreveu o nacionalista angolano, Mário Pinto de Andrade 1: «a cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material. (1. in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].
Ficam mais estas recordações
MariaNJardim
Nas fotos a seguir grupos de jovens de Moçâmedes, que à época frequentavam a . Estava-se então em meados dos anos 1960, também elas não resistiram à
tentação de se deixarem fotografar juntos da famosas gazelas.
Camila, Luísa F. (?), Georgete Serra Duarte, Fátima Guedes, Luisa F, Elizabeth Cruz, Líta Dias, Isabel Baptista e Graciete Ilha Bagarrão.
Fotode Eduarda Figueiredo
Cidália Calão, Edite , Aurélia Faustino, Eusébio Grade, Palmira, Cila Calão, Gida Faustino, Ivone Henriques, Georgete Duarte, Zezinha, Eduarda Figueiredo, Fátima Duarte, Isabel Baptista, Lucia Morais e Elizabete Jardim Cruz
Foto de Eduarda Figueiredo
Lita Dias, Elizabete Jardim Crus, Graciete Ilha Bagarrão, Camila, Luísa F. (?), Fátima Guedes, Líbela? D, Isabel Baptista ,
Foto de Eduarda Figueiredo
Eduarda Figueiredo, Isabel Teixeira, Anisabel Mendonça e Adriana
A Avenida da República teve o privilégio de nos anos 1950 se embelezar grandemente com a construção do edifício do Palácio da Justiça, e com o mais bela vivenda da cidade de Moçâmedes. a grande vivenda cor-de-rosa de Raul Radich Jr., que ficou a dever-se ao gosto arquitectónico de Artur Homem da Trindade, e que na foto acima podemos ver, à direita. Para além da construção do novo edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, de linhas modernas, e de mais um edifício, de esquina, também de Raúl Radich Jr. para habitação e escritórios, para além, é claro, do espelho de água e das gazelas, da reorganização dos jardins (bancos, tanques de água, repuxos, canteiros, pérgulas, caramanchões, etc.), e da reabilitação das muralhas da Fortaleza de S. Fernando. Em contrapartida foi desmantelado e retirado do epicentro da Avenida o velho e gracioso Coreto , ali colocado desde o último quartel do século XIX e que chegara incólome aos nossos dias. O Coreto onde aos domingos bandas de música iam tocar, e que fora ao longo de décadas testemunho silencioso de toda uma série de eventos, desfiles recepções oficiais, encontro e reencontros que nesta Avenida, o nosso "Passeio Público" tiveram lugar...
Do Caderno das Festas do Mar 1969
Através deste Mapa da baixa da cidade de Moçâmedes retirado de um caderno das Festas do Mar de 1969, e da foto com uma vista aérea da parte central da cidade na mesma década de 1950, podemos imaginar o projecto ordenadamente planeado que esteve por detrás e que teve na sua origem a orientação de Fernando da Costa Leal. A partir de uma rua de traçado rectilíneo paralela ao mar, a rua principal, a cidade foi ganhando terreno ao deserto através da abertura de novas ruas paralelas e perpendiculares, formando uma quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), com frentes voltadas para as ruas, e traseiras interiores interligadas entre si. onde ficavam pequenos quintais que representavam os espaços verdes da baixa, para além, é claro, dos Jardins da Avenida da República ou da Praia do Bonfim.
Para dar um aspecto agradável às cidades, os urbanistas da época preocupavam-se com a abertura de espaço verdes de lazer e manifestações públicas e escolhiam para tal locais centrais e de acesso rápido a habitantes e forasteiros. E foi assim que, alí bem pertinho do mar, paralelamente à rua principal, nasceu esse belo, vasto e longitudinal jardim que se estende por dez quarteirões de casas, a perder de vista -o jardim da Avenida da Praia do Bonfim- preenchido com caramaxões de buganvílias, canteiros com as mais lindas flores, bancos de jardim, fontes água, repuxos, o tradicional coreto (lamentavelmente retirado décadas mais tarde), etc., etc.. É possível ver-se através de fotos muito antigas este espaço já reservado para o efeito, numa altura em que do jardim da Avenida apenas existia um esboço.
Também não foi por acaso que para o Palácio do Governador foi escolhida a Avenida Felner, alí bem perto da Avenida da Praia do Bonfim, porém suficientemente afastada do centro, e um dos pontos privilegiados da cidade, sobranceiro ao mar, para serem erigidos os mais importantes edifícios públicos, ou seja, numa 1ª fase, o Palácio/Residência do Governador, a Igreja Paroquial, o primitivo Hospital do Estado, (mais tarde demolido), e numa 2º fase, os edifícios das Finanças, o Palácio do Governo do Distrito e a Associação Comercial.
Foi também explorando o efeito de perspectiva que vimos surgir no topo dos jardins da Avenida da República o edifício do Palácio da Justiça (Tribunal), um edifício singular, de grande porte, tendo como enquadramento a fonte luminosa com elevados repuxos de água, ladeada por duas elegantes gazelas, um dos mais belos ex-libris da cidade. Como cidade litoranea fundada no período colonial português ( 4 de Agosto de 1849), Moçâmedes não poderia deixar de ter a sua Fortaleza, a Fortaleza de S. Fernando, para cuja construção foi naturalmente aproveitada a elevação de terreno sobranceira ao mar mais tarde envolvida por uma muralha perfeitamente adaptada à morfologia do terreno, por se tratar de um local facilmente defensável onde tem inicio à falésia, que separa a parte baixa da parte alta.
30 anos após a independência de Angola, a cidade de Moçâmedes (actual Namibe) apresenta um grande desgaste, não obstante ter sido poupada à longa guerra fraticida que desde então se estabeleceu, e não obstante o esforço que se vem verificando por parte das autoridades na sua recuperação.
A zona central da cidade de Moçâmedes, é sem dúvida um património urbanistico e cultural a preservar, com as suas ruas esquadrilhadas, o baixo casario ao estilo Algarvio, a vasta Avenida, a Praça Leal, e os edificios do antigo Grémio da Pesca e do antigo Hotel Central, da Câmara Municipal, da Capitania do Porto, da Alfândega, dos Caminhos de Ferro, do Tribunal, do Palácio do Governador, a Igreja Paroquial, o belo prédio da Desvia (ao lado da Câmara Municipal e actualmente em ruínas), etc., etc...
A preservação do património urbanistico e cultural constitui uma tarefa a que um Estado moderno não se deve furtar, sob pena de se perder para sempre no tempo referências que não podem ser esquecidas e omitidas do registo Historico. Assim as actuais autoridades de Angola saibam compreender isso mesmo e dar o verdadeiro valor às construções do tempo colonial preservando-as quanto possível intactas como verdadeiras relíquias que são, testemunhas silenciosas de um tempo que não volta mais, documentos historicos que a Historia não deve apagar. Para além, é claro do valor futuro em roteiros turísticos.
Recordemos, para não ir mais longe, o que a esse respeito escreveu o nacionalista angolano, Mário Pinto de Andrade 1: «a cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material. (1. in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].
Ficam mais estas recordações
MariaNJardim












1 comentário:
Amiga
A 1ª foto sou eu, Carla Baptista, no ano de 1966, e pela minha cara não estava nada nos meus dias ehehehehehehe
Que surpresa ver a minha foto.
Beijos
Carla
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