15 julho 2008

Jovens moçamedenses



Deste grupo de jovens, cinco dos quais de uma geração já nascida em Moçâmedes, e filhos de pais também ali nascidos no início do século XX, reconheço, da esq. para a dt.: Julio Eduardo de Almeida (Juju), José Carqueja (Zeca), Manuel Dias Monteiro (Necas), Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita), Amilcar de Sousa Almeida e Norberto Edgar Almeida (Ganguelas). 

Júlio Eduardo Almeida (1ª), Manuel Dias Monteiro (3) e Amilcar de Almeida (5), partiam nesse dia, em 1956 a bordo do navio «Pátria»,  para a Metrópole, onde iam prosseguir os seus estudos, e onde se licenciaram em Engenharia, Medicina e Direito, respectivamente. Os dois primeiros regressaram a Angola, já com  a formatura em Engenharia e em Medicina. Amilcar formou-se em Direito, casou na Metrópole e por lá ficou, como  Conservador e posteriormente como Notário.  Júlio regressou a Angola após o 25 de Abril, e fixou-se em Luanda após a independência, onde foi governante e deputado. Manuel foi professor e médico no Hospital Universitário de Luanda.  José Carequeja nunca saiu de Angola,  Carlos Manuel Guedes Lisboa em meio a futuro brilhante como empresário, foi arrancado precocemente à vida. Norberto Edgar Almeida acabou por se fixar em Portugal,  onde foi bancário. 
 
Nesta altura, os jovens que viviam em Angola, se quisessem ingressar numa Universidade, tinham que o fazer na Metrópole (Lisboa, Coimbra ou Porto), uma vez que Salazar por nada deste mundo queria os habitantes de Angola muito cultivados, como não queria Angola economicamente muito desenvolvida. O trauma da independência do Brasil levou-o a recear que os filhos brancos de Angola se afeiçoassem à terra e juntamente com os negros levassem o território à independência. Havia a ideia assumida de que Portugal deixaria de ser um país europeu independente, sem as colónias, pelo que havia de defendê-las a todo o custo. O grande desenvolvimento da colónia só veio a ter lugar após 1961,  46 anos após a demarcação definitiva das fronteiras do território, e já numa conjuntura de conflito com os movimentos independentistas, que não augurava nada de bom para o futuro do Portugal colonial.

Ano ano em que tudo começou a mudar em Angola, 1961, aconteceu também a grande explosão do ensino que parecia atirar para longe aqueles tempos em que a História do Ensino nas colónias era feita de impedimentos calculados,  e aos mais variados níveis. Alguns desses impedimentos muito prejudicaram os nossos estudantes que pretendiam ingressar numa Universidade, ou pelo menos prosseguir os estudos até ao 7º ano liceal.

Para citar o caso de Moçâmedes, persistia a ideia retrógada herdada do século XIX, de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que sempre fora uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos secundários, considerados mais adequados ao meio, apenas ao nível do curso geral. 

Isto quer dizer que quando um aluno completava os estudos ao nível do 5º ano da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, ou mais tarde nas Escolas que lhe sucederam, Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes e Escola Industrial e Comercial Infante D. Henruique, até 1961 não tinham qualquer chance de  entrar numa Universidade, porque em Moçâmedes não havia um Liceu. E mesmo se houvesse um Liceu, em Angola não havia uma Universidade. Os estudos liceais surgiram em Moçâmedes apenas em 1961, eram considerados propedêuticos ao ensino superior, e destinar-se-iam aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole, pelo que até então um estudante moçamedense, aos 10 anos de idade, completado o primário, teria que frequentar o Liceu existente na cidade mais próxima, o "Diogo Cão", em Sá da Bandeira, a expensas familiares e quase sempre com grandes sacrifícios,  ficando internado nos Maristas, ou alojado numa qualquer pensão daquela cidade. 

Reduzidos a estudos práticos secundários, considerados mais adequados ao meio, e apenas ao nível do curso geral, sem um Liceu até 1961, houve ainda assim alguns estudantes que se transferiram para a vizinha Sá da Bandeira onde completaram o 7º ano,  e em seguida ingressaram numa Universidade Metropolitana, mas eram excepções. A 1ª Universidade  de Angola, em Luanda, só veio a ser criada em 1969. Esta situação caia em prejuízo dos estudantes das colónias e sobremaneira prejudicava os filhos aqueles que viviam na cidade de Moçâmedes, cerceava-lhes o impulso para a progressão nos estudos, e a realização de carreiras futuras.

Como poderia um jovem habilitado com o 5º ano da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, vencer todas essas barreiras e ingressar numa Universidade metropolitana? 
Amilcar fala-nos da luta que travara, impulsionado pela vontade indómita em prosseguir os estudos, a partir do 5º ano da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, para conseguir entrar na Faculdade de Direito em Lisboa, uma vez que desde que completara o secundário naquela escola  só havia encontrado barreiras e mais barreiras.  Não se permitia que se transitasse de um curso - o comercial- para o outro - o liceal-. Na época, havia uma grande discriminação entre alunos da Escola Comercial e dos Liceus. Eram compartimentos estanques. Os alunos do Curso Comercial eram os patinhos "feios" e os do Liceu do Lubango os meninos "bonitos".  "Tornou-se imperioso lançar um forte movimento para a criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na nossa escola, requerendo ao poder colonial de Lisboa a sua instalação para que essa habilitação fosse possibilitada aos moçamedenses..."   "...Foi quando já estava a trabalhar, tinha 16 anos de idade, liderei uma petição  nesse sentido  ao" poder colonial de Lisboa  para que a "Secção Preparatória para os Institutos Comerciais" fosse possibilitada aos moçamedenses. A iniciativa, com grande apoio dos diplomados da Escola, teve sucesso e veio a começar a funcionar pela primeira vez no ano lectivo de 1955, em regime de horário post-laboral.  Esta habilitação permitiu-nos o ingresso  no Instituto Comercial de Lisboa, mas apenas era possível prosseguir os estudos na área de Economia e Finanças também em Lisboa.  Tivemos a honra de ser o primeiro aluno da Escola a frequentar aquele  Instituto que funcionava no palacete da Rua das Chagas. "

Este este foi apenas o início de uma luta visando vencer toda a série de condicionalismos, que lhe dificultava a caminhada, uma vez que mais que pretendia licenciar-se em Direito e não  em Económicas e Financeiras. Toda a sua luta não lhe conferira ainda a equivalência ao exigido  7º ano Liceal, apenas ao 5º ano. Foi então que surgiu essa oportunidade e,  entre frequências nocturnas de aulas e explicações, habilitou-se e conseguiu a muito desejada equivalência ao 7º ano liceal que lhe permitiu, finalmente, ingressar na Faculdade de Direito de Lisboa.    

Como referiu Álvaro Ribeiro: "Não esqueçamos (...) que a palavra «Liceu» pertence à tradição aristotélica, porque está associada ao culto de Apolo, príncipe das nove musas e à vitória da humanidade sobre a animalidade. Não é a técnica nem a ciência o que humaniza o homem, e se (...) o liceu não deve ser mais do que um colégio das artes, temos de concluir (...) pela afirmação de que o liceu nada será se não cultivar a mais alta e difícil das artes, que é a de filosofar". 

Moçâmedes só teve o seu Liceu em 1961, e Angola só teve uma Universidade, e apenas para alguns cursos, em 1969.  Alguns estudantes moçamedenses, depois de terem adquirido o 7º ano Liceal em Sá da Bandeira, conseguiram ingressar numa Universidade na Metrópole, mas eram poucos. Outros foram estudar para a África do Sul.  Outra saída era a Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro.

Na verdade foram grandes as barreiras e inúmeras as dificuldades, é certo, mas os «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de gente vivaz, inteligente e capaz, que por via dos seus cursos, fossem gerais,  médios, ou para uns poucos, os cursos superiores, atingiam cargos de prestígio, não só os que partiam da sua terra em busca do ideal, e acabavam por ficar lá fora, também os que regressavam e aqueles que nunca partiram e ali permaneceram, trabalharam e se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria, e se evidenciaram no campo profissional em  postos na função pública, e na Banca, onde inúmeros filhos da terra ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores.  Mas a Meteróple sempre olhou os filhos brancos de Angola com suspeição, e sempre impediu que ascendessem a lugares cimeiros na administração das colónial.  O desbloqueio dsta situação veio tarde e a más horas!

Sobre o Liceu de Moçâmedes, o Liceu Almirante Américo Thomás, lembro-me perfeitamente do dia em que o Professor Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar, de visita ao Distrito, no decurso de uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!.. veio à varanda do Palácio dizer simplesmente à multidão: o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomás». Estávamos em 1961, foi uma manifestação preparada, a decisão já estava tomada, mas ainda bem, finalmente tínhamos alcançado o direito ao nosso Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais.
Quanto à Universidade em Angola, como referiu Helder Ponte, no seu site (1):

 «Em Angola, embora os Estudos Gerais Universitários fossem fundados em 1962, a Universidade de Luanda em 1969, ministrava somente em Ciências, Engenharia, Medicina, e História, e era notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e uma de Economia. O governo português era naturalmente adverso a esses desejos, e assim resistiu durante anos em autorizar que esses cursos fossem leccionados nas colónias. Contudo, em 1969, um grupo de alunos (que nós chamávamos Comissão Instaladora do Curso de Economia da Universidade de Luanda) finalistas do Liceu Salvador Correia (do qual eu fazia parte), de finalistas do Instituto Comercial de Luanda, e um número de alunos militares, resolveu concentrar energias no sentido de convencer o Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e o Reitor da Universidade de Luanda Professor Ivo Soares da necessidade de se criar imediatamente uma faculdade de economia na Universidade de Luanda. Para nosso espanto, o nosso pedido foi ouvido, e em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda (e em Lourenço Marques (Maputo), Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. Em Portugal. os estudantes moçamedenses estiveram ligados à Casa dos Estudantes do Império, na Avenida Duque d’ Ávila em Lisboa, Casa financiada pelo governo português que tinha a função de apoiar os estudantes vindos das colónias e ao mesmo tempo a de controlar as suas actividades. Fundada em 1944, a Casa dos Estudantes do Império para além de um refeitório, fornecia assistência médica e promovia actividades culturais e desportivas. Frequentada também por brasileiros, era, no entanto, o local onde se juntavam os estudantes das diversas colónias – (Cabo Verde e Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Estado da Índia, Macau e Timor), com especial realce para os das colonias de África. A Casa dos Estudantes do Império cedo se converteu num autêntico alfobre de nacionalismo(s) africano(s) e foi definitivamente encerrada pela PIDE em Setembro de 1965, durante o período de férias.» /




Voz Minha


Oh! Voz minha não te cales,
pelo ardor do meu coração!
Que sejas Lança, sempre fales
- que me ilumines a escuridão!
De volta ao tempo clandestino,
voltou a "apagada e vil tristeza";
resta-me só a Lança da Pureza:
este puro coração de menino...
Já que a chama se apagou,
nesta jornada discreto vou,
e sigo à sombra dos anões...
Ficando nas trevas os dias,
fúteis vaidades e honrarias,
chegue a Lança aos corações!


Editado por José Jorge Frade


MariaNJardim 




(1) in http://hffponte.blogspot.com/
: 

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